sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Eça & Outras

O comboio vai partir à descoberta do universo queirosiano
Logo desde a sua criação em 2002 que a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana se assumiu também como entidade editora de estudos sobre o muito que ainda falta aclarar na infinita bibliografia sobre temas queirosianos.
Se é certo que a ela aderiram eçógrafos e eçólogos como A. Campos Matos, Carlos Reis, Isabel Pires de Lima, e outros, que regularmente publicam trabalhos profissionais sobre a vida e a obra do escritor, dela também fazem parte literatos como Mário Cláudio e J. Rentes de Carvalho, que já prolongaram a narrativa da galeria ficcional queirosiana, refundindo ou expandindo obras suas. Mas logo entre o “núcleo duro” dos fundadores e dos primeiros membros dos corpos gerentes, se foi difundindo a prática de continuar os estudos queirosianos mais pela via da exegese histórica da sua biografia, da dos seus condiscípulos e da dos seus contemporâneos, do que pela via das análises ou interpretações literárias, as quais, de tão trabalhadas que já foram, poucas mais novidades nos poderão dar, para além da necessária atualização das lunetas da observação e releitura de textos com a genial marca do escritor nos seus escritos sobre a perenidade da zoologia humana e social. Mas mesmo assim persiste-se. Às vezes ainda com surpreendentes resultados.
Logo em 2002 a Confraria publicou Imagens do Egipto Queirosiano. Recordações da jornada oriental de Eça de Queirós e o Conde de Resende em 1869, de Luís Manuel de Araújo, que à viagem de Eça e do seu antigo condiscípulo no Colégio da Lapa haveria de dedicar outros estudos que se lhe seguiram, enquanto organiza viagens àquele destino e à Palestina.
Retomada a publicação da Revista de Portugal, logo desde o primeiro número desta nova série foram aparecendo recentes estudos sobre o Solar Condes de Resende e a família da mulher de Eça, sobre o roteiro queirosiano de Vila Nova de Gaia e todos os outros, sobre os condiscípulos do escritor no Porto, em Coimbra e depois os seus compagnons de route até aos Vencidos da Vida. Também sobre a obra e as obras de Eça de Queirós, desde as suas referências gastronómicas e enófilas até ao colecionismo queirófilo. Como a revistas é anual e limitada a cerca de 80 páginas, muitos dos estudos produzidos no Solar Condes de Resende por funcionários, investigadores-tarefeiros, estagiários e outros membros do Gabinete de Historia, Arqueologia e Património da Confraria têm também visto a luz do dia em outras publicações, como as revistas Douro - Vinho, História e Património - Wine, History and Heritage, e Vinho Verde - História e Património. History and Heritage, ambas da Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID), bem assim como em outras revistas e atas de jornadas e congressos. Uma já extensa lista bibliográfica que pode ser consultada nas “Bibliografias” publicadas na Revista de Portugal desde o número 3, de 2006, já para não falarmos em outros textos cronísticos publicados na página (blogue) Eça & Outras, parcialmente republicado no jornal Artes Entre As Letras, do Porto, para além de prefácios vários e outros textos mais circunstanciais, mas onde permanentemente a lição ou a interrogação queirosianas sempre servem de ponto de partida para inquietações culturais e sociais.
Entretanto sucedem-se os livros e estudos mais desenvolvidos sobre os tempos queirosianos ou da Belle Époque, editados pela Confraria com a colaboração de diversas editoras e entidades: logo em 2006 é publicado o livro A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766-1816). Família, Património e Casa, de Susana Guimarães e, nesse mesmo ano, republicado (talvez a primeira vez em livro autónomo), o conto S. Cristóvão de Eça de Queirós, com estudos complementares de Anabela Mimoso, J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim, a que se seguiu, em 2008, Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/ The Marquis de Soveral, Son of the Douro, Man of the World, de J. A. Gonçalves Guimarães, também autor de Republicanos, Monárquicos e Outros. As vereações gaienses durante a 1.ª República (1910-1926), publicado em 2010, e de Adriano Ramos Pinto. Vinhos e Arte (em colaboração com Graça Nicolau de Almeida), publicado em 2013. Seguiu-se em 2016, Memórias de um Expedicionário a Moçambique (1917-1919), de José Pereira do Couto Soares; em 2017, Cultura e Lazer. Operários em Gaia, entre o final da Monarquia e o início da República (1893-1914), de Licínio Santos; e Companhia de Fiação de Crestuma. Do fio ao pavio, de Maria de Fátima Teixeira. Mais recentemente, em 2018, a obra Património Cultural de Gaia. Património Humano – Personalidades Gaienses, coordenada por J. A. Gonçalves Guimarães e Gonçalo Vasconcelos e Sousa, o primeiro volume de um projeto em execução pela Confraria Queirosiana com o patrocínio da Camara Municipal de Gaia, onde se pode ler a síntese biográfica de Eça de Queirós e de alguns dos seus contemporâneos ligados a este município.
Neste ano de 2019, para além do livro de que abaixo falaremos, a Confraria publicará no n.º 16 de Revista de Portugal mais dois curiosos textos sobre temática queirosiana.
Feito este breve balanço da sua actividade editorial, que se não esgota nos assuntos queirosianos, e numa análise meramente estatística, sobre aqueles temas, em dezassete anos, a Confraria Queirosiana publicou 17 textos tipo ensaio, 9 outros textos de análise, e onze livros, num total de 37 textos escritos por 23 autores diferentes.
Temos pois agora publicada a obra Eça de Queirós e o Caminho de Ferro, de Joana Almeida Ribeiro, elaborada no âmbito dos trabalhos propostos no projecto dos investigadores-tarefeira do Solar Condes de Resende, que aqui decorre desde 2005 por protocolo celebrado entre a Confraria Queirosiana e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Tendo um lustro de gestação, só agora o apoio mecenático da Urbiface possibilitou a sua edição. Este tempo de espera, que também serviu para apurar o texto e as suas incidências, se é certo que viu entretanto crescer alguma bibliografia queirosiana essencial – biografias e fotobiografias, dicionários, e quantos outros – não viu publicado nenhum ensaio sobre a presente temática, que a autora aqui perseguiu até à exaustão, fazendo uma analise completa, mas emocionante, do mundo ferroviário português, europeu e americano que Eça de Queiroz viu nascer e desenvolver, e do qual faz mesmo um personagem dos seus textos e da sua própria vida. Como aqui se demonstra, o caminho-de-ferro está omnipresente no universo queirosiano em todas as suas dimensões.
Numa época em que Portugal volta a discutir a sua política da ferrovia, entre o progressivo abandono de linhas históricas e de úteis e necessários itinerários, e o sonho de comboios ultrarrápidos a ligarem o país a quimeras desconhecidas, será com certeza muito útil, divertido e enfim, oxalá proveitoso, voltar a reler o que sobre tal escreveu, em todas as suas vertentes, um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Para além da reflexão sobre um tema ainda actual, que se prolongará para o futuro próximo, ganharemos assim o desfrutar de páginas impagáveis sobre o caminho-de-ferro, um dos mais interessantes meios de transporte oitocentistas que, ao contrário das ronceiras carroças, dos problemáticos automóveis, dos dependentes navios e dos imprevisíveis aeróstatos e aviões, nos levou a considerar com outra sensibilidade a geografia dos povos e dos territórios, a dos afetos e também a dos tempos necessários para os percorrer, mudando nas grandes gares cosmopolitas, ora descendo ora subindo nos pequenos apeadeiros da vida.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos passados
Marcelo Silva Malta (à direita do leitor) com dois outros confrades
Academia de Alagoas, Brasil
            No passado dia 4 de outubro foi empossado na Cadeira Literária n.º 01 como membro honorário da Academia de Letras, Artes e Pesquisa de Alagoas (ALAPA) o vice-prefeito de Satuba, município da área metropolitana de Maceió, Brasil, Dr. Marcelo Silva Malta. Esta agremiação cultural foi fundada no dia 3 de agosto de 2012 para estudar, preservar e difundir a cultura do Estado de Alagoas localizado na ponta este atlântica do Brasil.
            Aquele activista da cultura alagoense será empossado como confrade da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende no capítulo do próximo dia 23 de novembro.

Conversas às Quatro
            No passado dia 9 de outubro na habitual palestra “A hora dos Fundos” no Arquivo Distrital do Porto, o historiador Jorge Fernandes Alves e outros falaram sobre «Fontes para a História dos Transportes na Área Metropolitana do Porto: caminhos documentais pelos fundos do(s) Arquivo(s)».

D. Duarte Pio visita Estevais
            No passado dia 13 de outubro D. Duarte Pio, chefe da Casa Real Portuguesa, numa sua visita a Trás-os-Montes esteve na aldeia de Estevais, onde em determinadas épocas do ano vive o escritor gaiense J. Rentes de Carvalho, nesta data ainda não regressado da sua outra habitual residência em Amsterdam. Na ocasião, para além de ter conversado com os moradores sobre as suas preocupações quotidianas, partilhou com os jornalistas as suas interrogações sobre os critérios de escolha das obras literárias recomendadas para o ensino oficial.
            D. Duarte Pio e J. Rentes de Carvalho têm, pelo menos, cinco coisas em comum: um profundo amor e respeito por Portugal e pelos Portugueses, independentemente dos emboras de cada um; nasceram ambos no mesmo dia (15 de maio); ambos estão ligados a Vila Nova de Gaia, J. Rentes de Carvalho pelo nascimento; D. Duarte por aqui ter vivido vários anos na Quinta da Portela; ambos são confrades queirosianos de honra; ambos foram insigniados no mesmo capítulo.

O presidente da Câmara Eduardo Vitor Rodrigues na abertura do curso,
tendo à sua direita Manuel Filipe de Sousa e à sua esquerda Carlos Sousa e J. a. Gonçalves Guimarães.
Curso sobre Revoluções e Constituições
            Como anunciado, decorreu no passado dia 19 de outubro a abertura oficial do curso livre do Solar Condes de Resende sobre Revoluções e Constituições, comemorativo dos 200 anos da revolução de 1820, o qual se estenderá, ao ritmo de duas sessões mensais, até ao próximo mês de março. A mesa que presidiu à abertura foi formada por Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; Manuel Filipe Sousa, presidente do conselho fiscal da Confraria Queirosiana; Carlos Sousa em representação do director do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente, e J. A. Gonçalves Guimarães, coordenador dos cursos e responsável pelo Solar Condes de Resende. Estiveram também presentes os vereadores a Cultura e dos Recursos Humanos da autarquia, respectivamente Eng.ª Paula Carvalhal e Dr. Manuel Monteiro, vários professores que aqui têm leccionado, além dos alunos.
            Na primeira parte, depois da abertura pelo presidente da Câmara, o responsável pelos cursos falou sobre o que foi o anterior, sobre Música & Músicos. Aspetos do Património Musical Português, a partir do qual apresentou uma proposta para a autarquia criar um espaço museológico e arquivístico dedicado a este tema na antiga Casa dos Condes das Devesas. Seguiu a distribuição dos certificados de frequência aos alunos e de leccionação aos professores deste curso. No final, José Bordelo, tocou três temas musicais em guitarra clássica.
            Após um breve intervalo, na segunda parte, o Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, como professor de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, falou sobre o tema «Revoluções e Mudanças Sociais», como introdução ao curso que vai continuar a decorrer nos próximos fins-de-semana.

Autores, Livros e Revistas

Ephemera da Mesa

No passado dia 12 de outubro decorreu no Solar Condes de Resende uma conferência de encerramento ao público da exposição «Ephemera da Mesa: Menus e outros documentos em Portugal e na Europa (1850-2016)» por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, proprietário da colecção e das peças expostas e autor do livro com o mesmo título editado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e então apresentado pela vereadora da Cultura, Eng.ª, Paula Carvalhal e pelo responsável pelo Solar.
Antes da conferência, o espaço expositivo foi abrilhantado no salão nobre com a atuação da escola de Dança Ritmo Azul que se exibiu em ritmos dos anos vinte.
Tendo aberto ao público no capítulo da Confraria Queirosiana a 24 de novembro de 2018, esta exposição estará ainda visitável até 31 de outubro próximo.


85 anos da Biblioteca de Gaia
No passado dia 18 de outubro na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, com a presença do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e de vários vereadores, foi lançado o livro Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia. 85 anos ao serviço da Cultura, editado pelo município local. Coordenado por Francisco Barbosa da Costa, o livro apresenta em diversos capítulos a vida da instituição nas suas diversas valências, nomeadamente as realizações aí efectuadas nos anos oitenta e noventa pelo então denominado Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, nascido na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1982 e depois sediado naquela instituição até 1987, hoje Gabinete de História, Arqueologia e Património integrado como grupo de trabalho profissional na associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana. Para além dos textos introdutórios de Eduardo Vitor Rodrigues, Paula Carvalhal, Abel Barros, Francisco Barbosa da Costa, Rui Manuel Pinto Barbot Costa (Mário Cláudio); Alberto Luís Rocha Moreira, e outros, seguem-se os capítulos redigidos por outros quatro autores.  

Amor de Mar
No passado dia 19 de outubro, no final da tarde, realizou-se ainda no Solar Condes de Resende o lançamento do livro de poemas Amor de Mar, da autoria de Joaquim Armindo, o qual teve a apresentação via internet do Prof. Doutor Rogério Santos seguida de palavras de apresentação do autor e da obra por J. A. Gonçalves Guimarães, mesário mor da Confraria Queirosiana. A sessão foi ainda abrilhantada com obras de piano pela pianista Maria João Ventura que também acompanhou a soprano Carla Vioti Cardoso.

Mário Cláudio
O escritor Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Barbot Costa, no próximo dia 6 de novembro fará setenta e oito anos de vida. Tendo no ano 2000 sido agraciado com o grau de comendador da Ordem de Santiago da Espada, no passado dia 29 de agosto foi-lhe atribuída a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Desde ontem, dia 24, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e até 26 de outubro, em vários outros locais, os municípios do Porto e de Paredes de Coura vão celebrar os seus cinquenta anos de vida literária.
        Entretanto este criador literário deu á estampa um novo livro intitulado Doze Mapas, «uma safra poética de 50 anos, umas vezes assumida, outras envergonhada, e maioritariamente inédita», conforme declarou a propósito desta edição.

Próximos eventos

Cursos
 Revoluções e Constituições
No próximo sábado, dia 26, prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre sobre Revoluções e Constituições. Na 2.ª sessão o historiador J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «Da Revolução Americana à Revolução Francesa» e a 9 de novembro na 3.ª sessão sobre «Das revoluções oitocentistas à Revolução Republicana de 5 de Outubro».
No dia 30 de novembro, na 4.ª sessão, o Prof. Doutor António Barros Cardoso da Faculdade de Letras da Universidade do Porto falará sobre «O Cardeal Saraiva - a Constituição de Cádis de 1812 e o primeiro texto constitucional português»

Palestras
O castelo de Castelo de Paiva
No próximo dia 31 de outubro, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no solar Condes de Resende, o arqueólogo e professor António Lima iá apresentar a sua mais recente investigação sobre «O castelo de Castelo de Paiva e os castelos da Alta Idade Média no Baixo Douro». A entrada é livre.

Exposições
Salon d’ Automne queirosiano 2019
Organizado pela Comissão de Arte da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, no próximo dia 9 novembro, sábado, pelas 17,30 horas, abrirá ao público no auditório do Solar Condes de Resende a edição de 2019 do Salon d’Automne Queirosiano, este ano com obras de Abel Barros, Ana Isabel Ferreira, António Almada, António Lacerda, António Pinto, António Rua, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Luísa Tavares, Rosalina Sousa, Rosa Dixe, Susana Moncóvio, Teresa Girão Osório, Valença Cabral. A mostra estará aberta até 31 de dezembro.

Feira de S. Martinho
            No dia seguinte, domingo dia 10, a partir das 10 horas da manhã, decorrera também naquela Casa a habitual Feira de S. Martinho, durante a qual diversos feirantes apresentarão os seus produtos para venda. Pelas 16 horas está prevista a atuação do grupo musical Eça Bem Dito que interpretará canções tradicionais portuguesas. A Feira decorre com apoio do bar do Solar.

Capítulo da Confraria Queirosiana
No próximo dia 23 de novembro vai decorrer no Solar Condes de Resende o 17.º capítulo anual da Confraria Queirosiana a partir das 17,30 horas com receção aos sócios, confrades, convidados, individualidades, autoridades e outras instituições vindas de vários pontos de Portugal e do Brasil. Serão homenageados vários confrades que se distinguiram em 2018 e insigniados novos confrades de honra e de número. Serão igualmente assinados protocolos entre a Confraria e outras instituições para a efectivação de vários projectos de roteiros queirosianos e publicação de estudos sobre a vinha e os vinhos na vida e obra do escritor. Como habitualmente será apresentado o número anual da Revista de Portugal (16.º) e lançada a obra Eça de Queirós e o Caminho de Ferro de Joana Almeida Ribeiro. Abrirá também ao público uma exposição temporária de Pratos-souvenir, que permanecerá até fevereiro de 2010.
Depois da homenagem a Eça de Queirós na sua estátua existente no Jardim das Camélias, seguir-se-á o jantar queirosiano, com atuação do grupo musical Eça Bem Dito, com canções da Belle Époque e de uma Escola de Dança, seguindo-se o Baile das Camélias.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 134, sexta-feira, 25 de outubro de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração António Pinto Bernardo e Celeste Pinho.



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Eça & Outras


Rebobinando a cassette
         Já escrevi sobre o tema várias vezes desde 1983, quando na revista Gaya II (atas das I.as Jornadas de História Local e Regional de Vila Nova de Gaia), a páginas 536/537 publiquei um texto que tinha apresentado a 20 de novembro numa reunião do Gabinete de História e Arqueologia intitulado «Da necessidade premente da Ordem dos Historiadores», sem grande sucesso, como se depreende do que desde então aconteceu. Tendo adquirido formação académica para exercer as profissões de historiador, de arqueólogo, e desde 1991, de professor de Património, custa-me ainda hoje constatar que “muita gente” (leia-se estado, autarquias, comunicação social, empresas de turismo, escolas de todos os graus de ensino, grandes editoras e produtoras de filmes e eventos…) vive à custa da História que se vai divulgando ou reinterpretando, da Arqueologia que se vai descobrindo e do Património que se vai disponibilizando. “Muita agente”, menos os profissionais desta área. Antigos alunos meus com boas provas dadas e disponíveis na praça para quem os quiser avaliar, continuam no desemprego ou a trabalhar como precários ou à tarefa, enquanto muitos lugares públicos e privados são ocupados por “técnicos superiores” completamente inaptos (também os tive como alunos…) que são escolhidos em concursos elaborados por empresas de seleção de recursos humanos cujos critérios são estranhíssimos. Estamos já a ver os resultados. Ora acontece que já há também quem noutras profissões vá descobrindo que o problema não é exclusivo dos historiadores, arqueólogos e patrimoniólogos, o que, se é certo que não nos alegra, quer como cidadãos quer como profissionais, ao menos irmana-nos na desgraça de um país que cria cursos universitários como base de certas profissões mas depois admite que elas sejam publicamente exercidas por licenciados sem profissão definida ou com habilitações para outros mesteres.
         Ainda recentemente (27 de Agosto) Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas publicou no Público um artigo intitulado «Nutrição só por nutricionistas», afirmando que «para nós [nutricionistas], é importante a luta contra o exercício ilegal da profissão. Ela é feita em nome da saúde dos portugueses e na defesa do bom nome dos nutricionistas». É certo e conhecido que têm aparecido na praça pública e nos media a opinar sobre Ciências da Nutrição, chefes de cozinha, esteticistas, treinadores desportivos, gestores de cantinas e tutti quanti, quando estão definidos por lei os parâmetros do exercício da profissão de nutricionista e existem profissionais disponíveis no mercado de trabalho que as universidades legalmente criaram e entusiasmaram. Parafraseando a autora e o seu claro artigo, escreveria agora que «História só por historiadores. Para nós, é importante a luta contra o exercício ilegal da profissão. Ela é feita em nome do direito a uma correta instrução histórica dos portugueses e na defesa do bom nome dos trabalhadores das Ciências Históricas», contra a usurpação das nossas funções por quem não tem habilitações académicas para tal, e, portanto, falta de conhecimentos académicos para o seu exercício, quer seja no ensino, quer noutras situações nos setores público e privado. Mas também contra o seu exercício por inaptos, os que tendo feito cursos legais nesta área, nunca exerceram a profissão em nenhuma das suas valências de forma reconhecida pelos seus pares ou, no mínimo, através de estágios profissionalizantes com avaliação académica, e que por isso nada  contribuem para a dignificação deste setor laboral. É certo que nos falta a Ordem dos Historiadores, com os colégios profissionais de Arqueologia, História da Arte, Museus, Bibliotecas, Arquivos, Património, e outros a definir, mas já algo se avançou desde 1983 para cá com a fundação da Associação Profissional de Arqueólogos e mais recentemente com a criação do Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia. E compreende-se que assim seja se nos lembrarmos que a Arqueologia é o setor mais profissionalizado dos «trabalhadores das Ciências Históricas». Porém, a falta generalizada de consciência profissional nos cursos universitários de “Letras” e da maior parte dos profissionais desta área, bem assim como o permanente roubo do seu exercício profissional por parte de outros, o que até faz com que tal pareça “normal” e “legal”, para além da existência de licenciados com habilitações apenas “decorativas” e que exercem a não-profissão de “técnicos superiores”, sem quaisquer funções nas áreas de História e “ofícios correlativos”, tudo isto tem dificultado a dignificação do seu exercício profissional. Por outro lado, a dificuldade na obtenção de empregos compatíveis para os licenciados, mestres e doutores que escolheram esta área como profissão, integrada naquilo que se costuma correntemente chamar Cultura, deve-se também ao facto de existirem na sociedade confusões semânticas e estruturais entre as nossas atividades e as artes, espetáculos, divertimentos e entertenimentos (contra os quais nada tenho, mas sim contra a confusão em que os identificam com actividades culturais à priori) e onde proliferam em lugares de planeamento, de programação e de decisão profissionais de outras áreas que sobre Cultura têm vaguíssimas convicções, normalmente com prejuízo para os profissionais, e onde também se dá guarida àqueles que, tendo tido outras ocupações ao longo da vida, quando delas se cansam ou se reformam então é vê-los descobrir que “têm muito jeitinho para a cultura”, entendendo esta como as delícias do paraíso na Terra para as terceira e quarta idades. Ora Cultura, nas suas diversas manifestações profissionais e amadoras, é o que fica, não é o que passa. Lembro-me de um episódio recente em que um médico, que se tinha acabado de reformar, informou as câmaras deste país que queria agora dedicar-se ao estudo da Idade do Ferro em Portugal, que, no seu entender, estava mal estudada por os profissionais da área “não perceberem nada do assunto”, o que provavelmente seria verdade se estivesse a falar de oclusões no esfinter de Odin. Por isso pedia às autarquias dados locais para iniciar (finalmente, no seu entender) um glorioso estudo do tema. Verdade seja dita que algumas autarquias encarregaram os profissionais de Arqueologia do seu quadro de responderem ao pretendente. Ora a resposta correta que deram foi simples: como as universidades ainda não fecharam e não impõem limites de idade para a matrícula em qualquer curso, só lhe restaria candidatar-se a frequentar um curso de Arqueologia e, depois de obtida a respetiva licenciatura fazer depois o tirocínio profissional adequado. Talvez então ficasse a saber alguma coisa sobre a existência de brilhantes estudos sobre aquela época entre nós.
         Às vezes, também nestas questões, parece que ainda estamos no “país de Eça”, onde «… todas as vocações são binárias. Cada indivíduo é o que é, e é além disso outra coisa. A outra coisa é aquilo que ele faz mais gosto em ser» (QUEIRÓS & ORTIGÃO, As Farpas, maio de 1871). Só que, em muitos casos, o exercício dessa outra coisa funciona contra o exercício da legítima profissão dos acima referidos. Mas ninguém se importa e os deputados não legislam, pois, de um modo geral, devido à sua falta de instrução em História, quer eles, quer o cidadão comum não distinguem um romance cor-de-rosa em que a habitual Mary se passou a chamar rainha D. Leonor, de um verdadeiro estudo profissional. Querem um exemplo? Uma biografia de D. Afonso Henriques do grande historiador José Mattoso vai em terceira edição, enquanto um romance cheio de “suponhamos” sobre o mesmo tema escrito por um senhor que gosta de ser outras coisas (desde que não mexam com a sua profissão de jurista), já vai em mais de uma dezena. O povo prefere ficções e realmente não sabe o que é História.
         Foi o autor de O Conde de Abranhos que um dia escreveu que «as ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais» (Prosas Bárbaras). Mas hoje as ciências sociais e as outras pensam poder dispensar os profissionais da História e substituí-los no ensino, na divulgação, na investigação e na produção por quaisquer outros, incluindo os inaptos e os tudólogos, que encontramos a exercer em tudo quanto é ocasião. Para acabar com tal praga, só aumentando a consciência, a visibilidade e a organização profissional dos trabalhadores do setor, que deverão questionar-se, sempre que se lhes deparem, sobre todos os casos de exercício indevido das suas profissões. E já agora, se concordamos inteiramente que «Nutrição só por nutricionistas», igualmente a História da Alimentação deve ser só feita por historiadores. Quanto à História da Nutrição, se o caso se justificar pela abordagem de áreas muito específicas desta ciência, deverá fazer-se através de uma boa parceria entre historiadores e nutricionistas. Não somos fundamentalistas, mas gostamos muito da nossa profissão e também queremos exercê-la de forma responsável e gratificante.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos passados

Busto da autoria de Hélder de Carvalho
                No passado dia 14 de setembro foi inaugurado em Belém, Lisboa um busto do poeta Taras Shevchenko, o fundador da moderna literatura ucraniana, da autoria do escultor Hélder de Carvalho, que no ato foi saudado pelas entidades ucranianas presentes e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros daquele país. Uma apresentação da obra, ainda em gesso, tinha já figurado na capa do jornal As Artes Entre As Letras n.º248/249 de 31 de julho passado, acompanhado de um artigo na página 3 intitulado «Taras Shevchenko (1814-1861)» da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins.

Cónegos de Lamego no Porto
A 16 de setembro, integrado no Seminário de História Religiosa organizado pela Universidade Católica Portuguesa, o historiador Prof. Doutor Nuno Resende apresentou na Sé do Porto uma conferência intitulada «Ilustres e ilustrados capitulares autorais no Cabido de Lamego (séculos XVII-XVIII).

Conferência por Carlos Reis
            A 17 de setembro decorreu na Universidade do Paraná, Brasil, uma conferência pelo Professor Doutor Carlos Reis da Universidade de Coimbra sobre «A Figuração Temporal da Personagem» na qual foram feitas reflexões sobre o estudo do tempo na narrativa centrado na figuração de personagens literárias.
Amândio Barros, Luís Humberto Marcos, Paula Carvalhal, Francisco Ribeiro da Silva
e J. A. Gonçalves Guimarães; fotografia de Susana Moncóvio
Comemorações de Fernão de Magalhães
            No dia 21 de setembro, no encerramento da exposição do Festival PortoCartoon dedicado à viagem de Fernão de Magalhães patente desde junho no Mosteiro de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia (a única instituição portuguesa a quem o navegador deixou bens no seu testamento), teve lugar um colóquio sobre «Vila Nova de Gaia no tempo de Fernão de Magalhães» no qual foram conferencistas Francisco Ribeiro da Silva, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e actual mesário da Misericórdia do Porto para a cultura e os museus, e Amândio Barros, professor do Instituto Politécnico do Porto, tendo servido de moderador J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património, que dissertaram sobre Vila Nova de Gaia nos tempos da Expansão, tendo este último apresentado as mais recentes evidências documentais sobre a questão do nascimento e outras ligações do navegador a esta povoação portuária.
Seguidamente o Prof. Doutor Luís Humberto Marcos, director do Museu Nacional da Imprensa, falou sobre a importância da caricatura na sociedade atual, tendo encerrado a sessão a vereadora do Pelouro da Cultura e da Programação Cultural, Eng.ª Paula Carvalhal que, em nome do Município, ofereceu aos palestrantes o volume do Património Cultural de Gaia sobre Património Humano. Personalidades Gaienses, onde figura, com mais duzentas e cinquenta, o navegador Fernão de Magalhães.
Neste mesmo dia o Canal História iniciou a transmissão da série de seis episódios intitulada «A primeira viagem à volta do Mundo», a transmitir também nos próximos sábados a partir das 22,15, para um dos quais J. A. Gonçalves Guimarães gravou um depoimento sobre as ligações do navegador a Vila Nova de Gaia.

Livros e Revistas

No vol. 18 n.º 2 de maio/ agosto deste ano da revista «Cadernos de História da Educação» da Universidade Federal da Uberlandia (Brasil), Eva BAPTISTA publicou o artigo «Abordagem sócio-histórica da creche em Portugal. O caso de Vila Nova de Gaia (1887-1971): entre o nacional e o local»,p. 503-525, trabalho realizado no âmbito dos estudos a que se tem dedicado.



No passado dia 7 de setembro, o historiador Nuno Resende, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, lançou no Museu Etnográfico da Casa da Granja, em Nespereira de Cinfães, o livro «Os dois faladores»: Folhetim sobre a História de Cinfães (1898-1899), publicado no jornal local A Justiça no final do século XIX por António Cardoso Pinto de Vasconcelos, do qual foi o organizador, escreveu a introdução e notícia biográfica do autor, bem assim como as notas elucidativas desta interessantíssima edição de um diálogo ferroviário entre um comendador vimaranense, que exalta as magnitudes da “cidade-berço”, e um jovem cinfanense que lhe contrapõe as vetustezas das terras do Aio, enquanto o seu amigo e companheiro de viagem prefere admirar a beleza contemporânea da filha do primeiro que seguia com seu pai a caminho da capital. Livro interessante, quanto mais não seja por, passados mais de cem anos, permitir equacionar as diferenças e as continuidades do território cinfanense.

Seminários, Fóruns e Palestras

Futebol Clube de Gaia uma associação centenária
Amanhã, dia 26 de setembro, pelas 21,30 horas, na palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, Licínio Santos, Mestre em História Contemporânea pela FLUP apresentará a evolução deste centenário clube fundado em 1908 no lugar da Serra do Pilar, sendo atualmente a associação desportiva mais antiga do concelho. Fundado para a prática do futebol, primou sempre pelo ecletismo desde os seus primórdios, o que foi fundamental para a sua sobrevivência, dedicando-se durante décadas à prática das modalidades de pavilhão. Contudo o futebol estava na sua génese, e o clube voltou à modalidade mais de meio século depois.

100 Anos da FLUP
            Na próxima sexta-feira dia 27 de setembro decorrerá no Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner em Vila Nova de Gaia um Colóquio integrado nas comemorações dos 100 Anos da FLUP subordinado ao tema «1919 no horizonte histórico» no qual será orador, entre outros, o Professor Doutor Jorge Fernandes Alves sobre o tema «No “crepúsculo do republicanismo”: o ano político de1919». Seguir-se-á a inauguração da exposição «1919 – O Tempo e o Olhar no ano da FLUP»

Atlantic Connection
No próximo dias 7 e 8 de outubro decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade do Porto um Encontro de estudantes de pós-graduação, organizado pela Universidade do Porto, o CITCEM, e a Universidade alemã de Greifswald, subordinado ao tema «Atlantic Connections». Entre os vários oradores constantes no programa, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «The Douro bar and its Porto merchantfleet in the constituticional period (1818-1825). Atlantic and transatlantic connections».

Exposições
XIV Salon d’Automne queirosiano
         Decorreram até ao passado dia 22 de Setembro as inscrições para a apresentação de trabalhos de arte no Salon d’Automne queirosiano que abrirá ao público no Solar Condes de Resende no próximo dia 9 de novembro e estará visitável até 30 de dezembro. Como habitualmente a mostra apresentará trabalhos artísticos de pintura, escultura, cerâmica, fotografia e artes gráficas de sócios da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, profissionais e amadores, entre os quais os participantes no seu atelier de Pintura dirigido pela Prof. Pintora Paula Alves.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 133,quarta-feira, 25 de setembro de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Susana Moncóvio.



domingo, 25 de agosto de 2019

Eça & Outras, domingo, 25 de agosto de 2019




Diálogo com António Sérgio de A. Campos Matos
         As Edições Colibri acabam de disponibilizar ao público ledor um precioso livro para todos aqueles que se interessam pela Cultura portuguesa, os seus antecedentes e o seu futuro, sobretudo naqueles aspetos em que homens e doutrinas serão um dia recordados como excecionais em viagens a caminho de Saturno. Que nestes dias, e entre nós, mesmo os que era suposto encontrarem-se com estas coisas, andam arduamente encantados com a possibilidade do 1%. Refiro-me ao livro Diálogo com António Sérgio, de A. Campos Matos, agora em 3.ª revista e ampliada edição.
         Enquanto fui professor sempre ensinei aos meus alunos que os lampejos do génio, esplendorosos mas imprevistos como os raios e os trovões nas noites de verão, às vezes acontecem. É este o caso. Mas também que, quando estamos perante alguém que nos surpreende, convém ver as suas credenciais. A. Campos Matos, além de ser o “representante de Eça de Queiroz cá na terra (ou na Terra!)”, como um dia foi apresentado na Galiza, para além dos seus inúmeros trabalhos sobre temática queirosiana, tem também percorrido um longo caminho de estudo, reflexão e partilha sobre essa outra figura maior da Cultura portuguesa do século XX que se chama António Sérgio. Tendo no prelo a Fotobiografia e uma Bibliografia deste pensador e pedagogo - «um apóstolo cívico, um estudioso da sociedade, um afinador de intelectos, um escritor de ideias», que assim se definiu ele próprio em 1953 (p. 172) ou também como «um pedagogista, uma sorte de pregador, um filósofo, um campeador pela cultura e pelo bem do Povo cujo único cuidado são as pedras vivas que sofrem...» como escreveu no IIº volume dos Ensaios (p. 15) – , sobre ele A. Campos Matos apresenta-nos agora um seu trabalho de décadas de interrogação, reflexão e maturação neste Diálogo que decorrem cativantes na leitura e surpreendentes para o espírito de quem lê ao longo das suas 283 páginas, que se folheiam de trás para a frente e da frente para trás, várias vezes.
         O esquema da sua elaboração é tão simples como outras coisas excecionais com que, de quando em vez, nos deparamos, mas devedor da secretíssima “máquina do tempo” que o autor usa com inegável mestria. Depois de revisitar a vida e obra de António Sérgio e de se ter apercebido, desde as primeiras e já distantes leituras, que estava perante um poliédrico questionador da identidade portuguesa, na impossibilidade física de o ter à mão para a entrevista, foi elaborando as perguntas para as respostas a haver já respondidas na não menos notável extensão dos seus escritos publicados. E assim não há transcrição de diálogo mais fiel do que esta, mesmo quando para uma mesma questão houve respostas algo diferentes num ou noutro momento, num ou noutro escrito.
         Homem e figura pública desde os tempos da 1.ª República, em 1923 foi ministro da Educação tendo, entre outras medidas, criado uma instituição que antecedeu a actual Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e fundado o Instituto Português de Oncologia criado por Francisco Gentil. Podendo ter sido facilmente um engagé dos regimes, foi perseguido pelo Estado Novo, vindo a ser várias vezes detido, talvez porque as suas permanentes interrogações cosmopolitas brigavam com o cinzentismo académico nacional dominante no seu tempo e, curiosamente, ou talvez não, desde a monarquia constitucional, passando pela República, pelo sidonismo, pelo radicalismo populista que haveria de chamar o 28 de Maio, pela “revolução nacional”, pela estabilização salazarista, pelas euforias esperançadas nas vitórias das democracias aliadas, ao longo de todos estes tempos, António Sérgio nada mais quis do que «o amor à serenidade, a independência, o desprezo das comodidades» (p. 231)
         Neste Diálogo cada um escolherá o que mais o sensibiliza, desde a questão da existência de Deus, do divino topado «nas aspirações da consciência humana» (p. 231) ou, na esteira de Antero d’«aquilo que em nós ama» (p. 236), da constatação da inexistência de uma «civilização cristã» pois que a que assim se intitula lançou «ao olvido todas as verdades morais em que consiste a essência do viver de Cristo» (p. 247). Homem crente, assim fez profissão de fé: «creio na existência de ideais eternos, de princípios universais, de valores imutáveis, manifestações da unidade da consciência humana» (p. 265). «A existência de elites intelectuais, considerei-a sempre de importância enormíssima, por si e pelo bem que faz aos outros. Mas de verdadeiras elites, claro está, progressivas e de ação generosa, composta de homens que verdadeiramente pensem, que sejam nobres e de magnânimo espírito, de perfeita lealdade no falar e no agir, superiores aos odiozinhos, às invejas, às facadinhas, às questões pessoais: de homens que busquem as soluções dos problemas sem deixarem ao mesmo tempo de elevar as almas, e capazes de se obrigarem a uma paciência infinita perante todas as formas da incompreensão» (p. 153). Procurou essas elites do seu tempo, no Grupo da Biblioteca, na Renascença Portuguesa, na Seara Nova... mas foi com Platão, Jesus Cristo, Camões, D. Francisco Manuel de Melo, Descartes, Espinosa, Vieira, Voltaire, Ribeiro Sanches, Kant, Herculano, Garrett, Engels, Marx, Camilo, Oliveira Martins, Antero, Eça, Junqueiro, Raúl Proença, Jaime Cortesão, José Régio, e poucos mais, com quem mais se deu ao longo da vida.
         Sérgio não se considerava um historiador, pois estava mais preocupado com as histórias disponíveis desde Herculano, as metodologias e mensagens que lhes estavam subjacentes, ou com a idolatria do documento coevo sem uma séria crítica e esforço de enquadramento, alertando para, entre outras questões, a ocultação das causas e factos devido ao «...susto de descomprazer aos grandes, ou o respeito social a esses mesmos grandes, ou a sua maneira de imaginar os “heróis”, ou a sua conceção da “dignidade da História” (p. 599).
         Para si «a cultura não é um enchimento, uma receção, uma absorção de ideias, uma ingestão de noções: é uma ginástica, um trabalho do espírito sobre si próprio, um aguçamento das facilidades críticas [...] A cultura não é receber, ingerir, mas essencialmente criar – criar em nós próprios uma mente lúcida, universalista, crítica [...]. No sentido absoluto é a faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito...» (p. 139/140). Era um fervoroso adepto «da pedagogia do trabalho, contra a pedagogia da leitura; uma pedagogia da produção, contra a armazenagem de conhecimentos; uma pedagogia da Ação Social, contra a pedagogia das Ideias Abstratas...» (p. 261).
Enfim, um manancial inesgotável de temas e reflexões neste Diálogo, absolutamente imprescindíveis para o trabalhador e o consumidor de temas culturais portugueses da nossa contemporaneidade, entre os quais não poderiam, obviamente , faltar os de temática queirosiana. Para além de dissertar sobre o “tédio do ócio” como «fenómeno psicológico fundamental da obra romanesca queirosiana» (p. 87), Sérgio considerava que tinha uma íntima e coincidente identificação com os ideais do escritor, «...porque se reclui na generalidade da sua aspiração justiceira, que não dá ensejo a que as divergências brotem...» (p. 98), falando também sobre Antero, Oliveira Martins e Ramalho e as relações entre si e outros da mesma geração Dele absorveu também a alta importância intelectual da Ironia e mesmo do sense of humour que também chegou a encontrar em Fernando Pessoa: «há muita gente que me condena a ironia sem reparar que, se eu escrevesse como eles queriam – me tornaria um sensaborão respeitável, sim, muito digno de entrar para a Academia... mas ilegível, além de infiel à minha própria índole. Prefiro que me repreendam, mas que me leiam, a que me venerem e manipansem sem me ler» (p. 149).
Sobre a escola portuguesa em geral opinou que «a escola exprime a sociedade, dá o que lhe pedem; e ninguém lhe pede educação, mas diplomas – sendo certo, no entanto, que os que pedem diplomas para seus filhos, e só diplomas, foram educados no seu tempo pelas escolas portuguesas» (p. 201), escrito isto assim no já longínquo ano de 1928!
Neste breve escrito, não vos vou revelar mais daquilo que Sérgio contou a A. Campos Matos sobre, entre muitas outras coisas, o Estado Novo, o Marxismo, a Crença, a Obra de Arte, eu sei lá que mais, pois vou ter de continuar a reler este livro para ver se ainda vou a tempo de ter ideias mais claras e úteis (mesmo que discutíveis) sobre a Cultura Portuguesa, nestes dias constantemente metida na “picadeira molinex” do tudismo e das banalidades. Se eu fizesse férias, daquelas que proporcionam doses maciças de “tédio do ócio”, iria procurar desintediar-me com este esplendoroso livro. Como não é o caso, vou ter de usá-lo nos intervalos possíveis das inquietas jornadas como um breviário de reflexões sobre o que é que andamos a fazer neste mundo que todos os dias espera de nós mais alguma coisa.
J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros e Revistas

        Referente a 2018, acaba de conhecer a difusão pública o n.º 7 da revista Douro – Vinho, História e Património – Wine, History and Heritage, Porto, APHVIN/GEHVID, a qual presenta, entre outros, os seguintes estudos: «A origem da “Real Companhia Velha” revisitada através de alguns documentos», por António Barros Cardoso; «Produção de vinhos de marca em contexto urbano: o caso dos Nicolau de Almeida em Vila Nova de Gaia» por J. A. Gonçalves Guimarães e Licínio Santos; «”Vinho e medo descobrem o segredo”. O vinho e a vinha no discurso intra e interfamiliar em casas do Douro (séculos XVI – XIX)», por Nuno Resende. O lançamento deverá ocorrer na cidade do Porto no próximo mês e Setembro.

         No passado dia 22 de agosto na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, foi lançada uma nova edição de Os Maias, a partir do texto crítico preparado pelo Professor Doutor Carlos Reis, que intermediou a presente edição brasileira. Com capa de Descartes Gadelha, foi editada por proposta do Grupo Eça pela Universidade Federal do Ceará (Brasil) em co-edição com a Imprensa Nacional – Casa da Moeda (Portugal).


         Acaba de ser posta à venda a terceira edição de As Batalhas do Caia, romance de Mário Cláudio escrito a partir do conto inacabado de Eça “A Catástrofe”. Reconstruindo esta ficção, na qual figura o próprio Eça nos seus últimos anos, perseguido pela ideia da decadência nacional num país embrulhado em sonhos e mitos do passado e incapaz de se redimir, que de repente se vê confrontado com uma invasão espanhola, o autor não só revisita a vida e a obra queirosianas como subrepticiamente trás aquela fantasia para as realidades do Portugal de hoje onde a Espanha continua aqui ao lado, atirando-nos pela fronteira, agora mais esmaecida, velhos fantasmas de mapas ibéricos e gasolina mais barata, em vez de Lolas, como no tempo de Eça.

Eventos passados


                                                      Delegação da Confraria Queirosiana; foto de Margarida Dias
VILA DO CONDE
         Decorreu no passado dia 23 de agosto pelas 18 horas a abertura da 21.ª edição da “Cozinha à Portuguesa” – Feira de Gastronomia de Vila do Conde, a qual decorre até ao dia 1 de setembro nos Jardins da Avenida Júlio Graça na cidade marinheira do Ave. Organizada pela Associação para Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde, a mostra apresenta stands e restaurantes representativos de todas as maravilhas gastronómicas portuguesas do continente e Regiões Autónomas. Como habitualmente, a abertura contou com a presença da presidente da Câmara Municipal e de diversos membros da organização e com a presença de representantes de várias confrarias, entre as quais a Confraria Queirosiana que, como habitualmente esteve presente neste evento desta terra queirosiana. No início do habitual jantar das confrarias presentes o mesário-mor fez uma breve alusão às comemorações dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães e à das espécies culinárias.

Seminários, Fóruns, Congressos

FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ, BAIÃO
            De 30 de setembro a 4 de outubro decorrerá na sede da Fundação Eça de Queiroz em Baião a XXIII edição do Seminário internacional Queirosiano, este ano dedicado ao tema “Entre Deus e o Diabo – a evolução estética e ideológica de Eça de Queiroz”, destinado a todos os interessados na obra queirosiana. O seminário será ministrado por professores das universidades do Minho, Paraná e Londrina (Brasil). Está prevista a atribuição de 10 bolsas de frequência a estudantes universitários nas áreas da língua, literatura, cultura portuguesa, literatura e cultura comparadas ou estudos europeus.

FÓRUM AVINTENSE
         Nos dias 28 e 29 de fevereiro de 2020 decorrerá na Junta de Freguesia de Avintes o 30º Fórum Avintense, organizado por esta autarquia com a colaboração de diversas entidades, o qual tem como tema principal “30 Anos de Fórum: um balanço”. A pré inscrição decorre até 15 de outubro próximo.

MISERICÓRDIA DO PORTO
         Nos dias 5, 6 e 7 de março de 2020 decorrerá o V Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que coincidirá com o 2.º Centenário da Revolução Liberal, inspirado na trilogia «Misericórdia, Liberdade, Património». Da Comissão Científica fazem parte, entre outros, os historiadores Francisco Ribeiro da Silva, António Barros Cardoso, Jorge Fernandes Alves e José Manuel Tedim. As inscrições com comunicação decorrem até ao dia 30 de Setembro.

Palestras
OS ANDRESEN EM VILA NOVA DE GAIA
            No próximo dia 29 de agosto pelas 21, 30 horas, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães, a propósito do Centenário de Sophia de Mello Breyner que decorre este ano, falará sobre a ligação dos Andresen a Vila Nova de Gaia desde as empresas criadas por João Henrique Andresen neste município até ao contributo literário de Sophia e outros poetas gaienses da sua geração.

Roteiros Queirosianos
EGITO E TERRA SANTA
            Entre 26 de dezembro e 6 de janeiro decorrerá uma nova edição de “A Viagem de Eça de Queirós ao Egito e Terra Santa” acompanhada pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, vice-presidente da direcção da Confraria Queirosiana, director da sua Revista de Portugal Professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Esta viagem, promovida pela empresa Novas Fronteiras Viagens, em parceria com a Confraria Queirosiana, tem um itinerário exclusivo, procurando replicar a viagem de Eça por ocasião da inauguração do Canal de Suez há precisamente 150 anos. Estão a decorrer as inscrições para um número limitado de participantes, aceites por ordem de inscrição. 
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 132, domingo, 25 de agosto de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira e Amélia Cabral; inserção: Licínio Santos; colaboração: comment-reply@wordpress.com