terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 216, terça-feira, 25 de agosto de 2026

Caixa do Correio

Daqui por alguns anos, não muitos, as caixas do correio que temos nas nossas residências tornar-se-ão objetos obsoletos. E todos sabemos porquê. Hoje em dia há muito pouca correspondência composta por carta, um texto escrito numa folha de papel metida num envelope. E na maior parte das vezes trata-se de correio institucional, a conta da água, das telecomunicações, na época própria o aviso para pagar o IMI ou o IRS, uma ou outra multa de estacionamento e mesmo estas missivas em vias de extinção e a serem substituídas pelo correio eletrónico. O que parece não estar em vias de extinção é o correio não endereçado, missivas de vários tamanhos e feitios, de mui diversificados tipos e gramagens de papeis e cartolinas, geralmente impressas, mas também escritas à mão, mais ou menos coloridas e que todos os dias alguém introduz na nossa caixa do correio. Podemos chamar-lhe «publicidade», mas há de tudo o que se possa imaginar. Geralmente nem sequer leio ou recolho este correio não franqueado, e por isso mesmo ele vai-se acumulando no fundo da caixa durante meses ou anos até que um dia resolva limpar essa acumulação e deitá-la no papel velho. Foi o que me aconteceu já não sei quantas vezes na vida desde que nos anos setenta do século passado passei a morar em residência própria. E foi o que me ia acontecendo há dias, quando resolvi esvaziar o fundo da caixa depois de vários anos. Mas um rebate de curiosidade foi mais forte e resolvi separar as mensagens por lotes de conteúdos e objetivos. Não, não vou fazer um estudo sociológico, publicitário ou qualquer outro de igual jaez, primeiro por não ser profissional dessas áreas, segundo porque a minha curiosidade é muito mais imediata e empírica e tem os seus limites. Quem quiser que aproveite a ideia e faça um mestrado com ela. Não sei se o virei a ler, pois não será sobre a minha caixa do correio. E é essa que agora me interessa.

Ora então o que é que diversas pessoas e entidades andaram para lá a meter durante largos meses? Em maior quantidade e diversidade missivas de agentes imobiliários, quase todas com fotografias dos ditos e duas perguntas que não pedi: se sei quanto vale hoje o meu apartamento e se não o quero vender. Não e não. A partir de determinada ocasião apareceram as missivas escritas à mão, fotocopiadas para a desejada multiplicação. Deduzo pela quantidade recebida e mesmo pelo teor da sua prosa que a zona onde moro é muito procurada para «comprar, vender ou investimento». E eu sem o saber. Por agora vou continuar a morar aqui. Mas sempre posso ter necessidade de pequenas obras que impliquem pintura, revestimento, gesso e reboco projetado e outras técnicas de construção civil, várias empresas a quererem resolver-me o problema e, se for necessário, um eletricista, um picheleiro ou um canalizador, fechaduras, portas e janelas, estores e persianas, caldeiras e máquinas de lavar, limpeza de chaminés, demolições (!?), reabilitação completa. Muitos papeis e cartões de empresas várias. Em grande número os que tratam de desentupimentos e esgotos. Alguns querem vender-me «conforto e inovação», logo a mim que, depois do mobiliário minimalista da época do meu primeiro casamento, adquiri uma mobília estilo século XVII que tem mais de cinquenta anos de bom e efetivo serviço e está para durar: o senhor Pereirinha, afamado cadeireiro, que o diga. Resisto também heroicamente ao «sonho para todos» do «viscoelástico anatómico» em colchões, seja lá isso o que for. Também encontro ofertas de outros produtos e serviços: brinquedos em que «a batalha do bem contra o mal nunca termina», escolas de condução; lavandaria e engomadoria; compra e venda de antiguidades e colecionismo; um fotógrafo; derivados de canabis e acessórios; serviços de mudanças e de administração de condomínios.

Mas há mais: empresas que trazem a casa comestíveis de supermercado ou diversas iguarias de «take away», de «rodízio» e «novas pizzas», «exclusivas» (!?), prontas a comer, «com montanhas de queijo» e algumas com «quase um metro», além de «burgers», «francesinhas», «cachorros», «pica paus» e «pregos», todas as alegrias da plastic food. E para que o meu help a este mundo de maravilhas não falhe, diversas empresas a oferecerem-me comunicações através de centenas de canais, com filmes ou séries feitas nos states sobre doidos, assassinos, seres perigosos, além de «dados móveis» ilimitados, «internet ultra-rápida». Tomara eu tempo para alguns deles com jornalismo sério. E, com fotografia com ocultante estrela em certas anatomias, a Malu «acabada de chegar» disponibiliza carícias inesquecíveis e discretas ao domicílio.

Também indicações de salas de estudo «para crianças do futuro» ou que preparam «os alunos para o amanhã», consultores para a «home sweet home», a «sabedoria da tiazinha, cartomancia – tarot», o professor De La Mine «problemas de amor e amarração», com um «dom hereditário» para «trabalho de macumba, discreto rápido e eficaz», enquanto o professor Tony «vidente espiritual poderoso» é especialista em «limpeza espiritual; negócio & sucesso; saúde & bem estar; sorte & proteção; orientação espiritual» e o mestre La Bamba «grande astrólogo vidente africano… grande cientista espiritualista, com super magia negra e branca mais forte. Garantia 100%. Máxima rapidez». Mas também uma entidade religiosa, certamente monárquica, pois quer que eu me vá inteirar num estádio de futebol das excelências do «Reino de Deus» que um dia «governará a Terra» prometendo-me «Felicidade Eterna». Mais prosaicamente a paróquia católica local promove a campanha da sacola «…para um Natal feliz aquém (sic) mais precisa», a junta de freguesia promove um «Natal Solidário» e os «novos locais de voto», várias instituições pedem 0,5% do meu IRS para prossecução dos seus objetivos e alguns partidos políticos promovem o “cabeça de lista” a eleger para a junta ou a câmara para os colocar «na vanguarda» sabe-se lá de quê.

Prevendo, talvez, que tudo isto é demasiado e cansativo, recebo também folhetos sobre viagens e férias «em segurança a preços excecionais» e, no caso de aceitar, a oferta de um relógio/ bracelete, um unguento de baba de lesma e possibilidade de adquirir uma poltrona relaxante que, a ser verdade o que diz no folheto, me fará certamente desistir do «passeio de barco com porco assado» no rio Zêzere.

E lembro-me do que escreveu Eça sobre Antero e os papéis a destruir: «Ele dardejou sobre mim dois olhares devoradores. Depois considerou, ainda enrugado, a pilha acertada dos papéis cortados, e, um sorriso, aquele sorriso de Antero que era como um sol nascente, iluminou, fez toda clara e rósea a sua boa face onde havia um não sei quê de filósofo de Alexandria e de piloto do Báltico: - O ritmo – murmurou – é necessário mesmo no delírio» (Eça de Queirós, Um génio que era um santo). E papéis com este texto também hão de ir parar ao saco do papel a reciclar.

J. A. Gonçalves Guimarães

Historiador

 

                                                Fotografia: faraoecompanhia.blogspot.com

Professor Doutor José Augusto Ramos (1942-2026)

Faleceu no passado dia 28 de julho em Lisboa aos 84 anos o Professor Doutor José Augusto Ramos (1942-2026), emérito da Faculdade de Letras de Lisboa, um dos maiores historiadores da Antiguidade e civilizações do Próximo Oriente. Tendo sido colega e amigo do Prof. Doutor Manuel Luís de Araújo, através dele colaborou com o Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia para lecionar em 2002/2003 no curso livre «Introdução ao Estudo de Línguas Antigas», que decorreu no Solar Condes de Resende, duas aulas sobre Hebraico. A direção da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana partilhou a sua consternação pela partida deste notável humanista, grande professor e homem sábio, bom e afável que nos deu a honra de participar naquela nossa realização.


A ASCR-CQ organiza e promove…

Palestra da primeira quinta-feira do mês de setembro

Na próxima quinta-feira do mês, dia 3 de setembro, a partir das 17 horas, a habitual palestra das primeiras quintas feiras do mês terá um formato inusitado: será feita presencial no Largo dos Cavalinhos no Palácio de Cristal no Porto e transmitida via zoom para quem quiser assistir onde quer que se encontre sendo disponibilizado o respetivo link. Em vez das 18,30-19,30, decorrerá entre as 17 e as 17,45 devido à programação local. O tema será Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães, tendo ainda a intervenção de Nassalete Miranda, diretora do jornal As Artes entre As Letras e Nuno Resende professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


A ASCR-CQ esteve em…

Doutoramento

No passado dia 28 de julho o presidente da direção esteve presente nas provas de doutoramento de José Manuel Cidade Filipe da Silva, licenciado em Direção Musical e mestre em Ensino da Música pelo Curso Superior do Conservatório de Música de Gaia, além de outras formações do seu notável curriculum, as quais decorreram na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. O tema em apreciação «As bandas de música civis como agentes de educação não formal e informal» mereceu erudito debate por parte dos sete elementos do júri que tiveram palavras de grande apreço para com o exaustivo trabalho do novel doutor que sempre esteve ligado à Banda Musical 1.º de Agosto de Coimbrões e mais recentemente ao Conservatório Regional de Música de Gaia fundado nos anos oitenta pelo Professor Doutor Maestro Mário Mateus.

 

Reunião com vereador do Turismo

No dia 20 de agosto, o presidente da associação e a secretária da direção estiveram reunidos na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia com o vereador da Economia e Turismo Dr. Fernando Machado, para lhe apresentarem as ações que a ASCR-CQ vem desenvolvendo nesta área, nomeadamente a sensibilização dos seus associados com as mais diversas profissões e cargos públicos e privados residentes em Portugal, Brasil, Roménia e Moçambique, na divulgação dos valores de Vila Nova de Gaia e das valências culturais do Solar Condes de Resende e na receção das delegações presentes nos seus capítulos, nomeadamente a da Academia Alagoana de Letras chefiada pelo presidente Doutor Alberto Rostand Lanverly acompanhado de outras figuras de importância económica, social e cultural do estado alagoano, e também os provenientes de outros países, que assim entram em contato com as potencialidades gaienses e da região metropolitana. Sendo a associação filiada e protocolada com diversas instituições internacionais, como a Federação de Amigos dos Museus de Portugal, a Academia Alagoana de Letras, e outras, participa em ações de divulgação dos valores de Portugal, dos países da CPLP e da Língua que a todos nos une, através do estudo e usufruto dos textos de Eça de Queirós, Rentes de Carvalho e outros escritores e criadores lusófonos.

 

Feira do Livro do Porto


Como habitualmente a ASCR-CQ está no Palácio de Cristal na Feira do Livro do Porto a vender as suas produções impressas, conjuntamente com as da Associação Portuguesa para o estudo da História da Vinha e da Vitivinicultura (APHVIN/ GHEVID) no pavilhão 109. A abertura teve lugar pelas 12 horas do dia 21 de agosto, tendo estado presentes, além do presidente da direção, diretores António Pinto Bernardo. Manuel Guimarães Nogueira e Nuno Resende, tendo posteriormente por lá passado outros dirigentes. Como habitualmente do programa da feira faz parte o lançamento de novas edições e sessões de autógrafos de vários associados e confrades. A feira encerra dia 6 de setembro.

 

Feira de Gastronomia de Vila do Conde

Também no dia 21 de agosto, mas pelas 18 horas, a Confraria Queirosiana esteve presente na abertura da Feira de Gastronomia de Vila do Conde, terra queirosiana, o que vem fazendo de há anos a esta parte. Entre as muitas confrarias e outras instituições presentes, a nossa esteve representada pelo presidente da direção, os dirigentes António Pinto Bernardo e Manuel Guimarães Nogueira e o confrade António Pinto. Depois da habitual deambulação pelos stands com muitas e variadas iguarias da Gastronomia Portuguesa, a Câmara Municipal obsequiou as delegações presentes com um magnífico jantar no restaurante temático da feira.

 

Publicações…



No passado final do mês de junho foi publicado e distribuído o número 102 da revista semestral Patrimónios. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia que esta associação edita ininterruptamente desde 1976 com artigos dos seus associados, desta feita com um último artigo de uma série sobre a propriedade onde se fixou a instituição católica Opus Dei em Arcozelo; uma memória sobre Maria Felicidade do Couto Browne no duplo centenário de Camilo Castelo Branco; uma segunda parte de um bem documentado estudo sobre o professor e artista plástico, fresquista e vitralista,  António Coelho de Figueiredo, autor do célebre tríptico existente no átrio da Escola Secundária António Sérgio e de muitos outros por aí espalhados. E ainda «A biografia de um magistrado português» de José Pereira da Graça. Além de notícias várias sobre a vida da associação.


Pela mão amiga de Paulo M. J. Afonso, natural de Outeiro, Bragança, professor associado de Astronomia do departamento de Física e Astronomia do American River College, Sacramento, Califórnia, acabamos de receber o vol. 21, n.º 2 do The Journal of San Diego History editado pelo San Diego History Center, dedicado a «Cabrilho and beyond: Portuguese navigators in Alta California and the Pacific». O presidente da ASCR-CQ conheceu-o em 2023 quando a 24 de setembro na Festa das Vindimas, organizada pela Quinta da Boeira com a colaboração da Federação das Confrarias Báquicas Portuguesas, decoreu no Auditório do Hotel Forte de São Francisco em Chaves, o Fórum Cabrilho Navegador Português, onde apresentou o tema «Navegadores Portugueses e suas Biografias: entre a História e a apropriação de mitos». O Prof. Paulo Afonso foi aí o convidado de honra que nos veio inteirar de uma reiterada provocação da comunidade hispânica dos EUA que vinha espalhando a fake new de que o navegador Cabrilho era, não Português, mas sim Espanhol. Embora alguns historiadores profissionais nacionais e estrangeiros já se tivessem debruçado sobre o assunto, havia que o voltar a reequacionar em duas vertentes: a erudita e a da opinião pública. Já antes Paulo Afonso, como académico e como transmontano na diáspora, vinha dando o seu contributo para esclarecer a questão junto da comunidade portuguesa da Califórnia, contatando os descendentes portugueses do navegador e outros académicos hispânicos e estadunidenses sobre o assunto. E continuou com uma investigação pessoal em arquivos franceses para analisar raríssima cartografia antiga da região que atesta a primazia das navegações lusas e a atribuição do nome de Cabrilho a acidentes geográficos da costa.

Nesta revista publica o seu esclarecedor artigo New historical findings about Cabrilho and other Portuguese and Genoese in the maritime discovery of California, 1542-1543, onde conclui que «Este trabalho pode ser também um ponto de partida para novas avenidas na pesquisa histórica» (AFONSO, 2025: 22, tradução).

 


    

No próximo dia 3 de setembro, quinta-feira, pelas 17 horas, na Feira do Livro do Porto, junto ao Lago dos Cavalinhos, quinta-feira, será feito o lançamento do livro Eça & Outras 3. Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 de J. A. Gonçalves Guimarães, com capa de Sérgio Veludo Coelho e prefácio de Nassalete Miranda (que estará presente no lançamento), editado pela ASCR-Confraria Queirosiana.

Sendo a terceira coletânea de artigos e crónicas dispersas deste autor, desta vez trata-se das publicadas naquele jornal e no período citado, revistas para a presente edição, nelas deambulando por temas sobre a região do Porto e a China; o Douro e os seus carismas; Eça de Queirós com novidades novas; sabedorias velhas e relhas em poetas quinhentistas; cruzados do Estado Novo; um sermão laico sobre os “cinco” São João venerados entre nós; e outras curiosidades. Como os dois volumes anteriores da mesma coleção editados pela Confraria Queirosiana, o primeiro sobre Crónicas Queirosianas e o segundo sobre J. Rentes de Carvalho 95 anos ativos, trata-se de textos entre a crónica, a recensão e a crítica.

O livro estará à venda no pavilhão 109 da Feira do Livro do Porto pelo preço de 17 €, no lançamento está prevista, além do autor, a presença da prefaciadora Nassalete Miranda, do Prof. Doutor Nuno Resende da FLUP e do Prof. Doutor Sérgio Veludo Coelho da UTP autor da capa.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 216, terça-feira, 25 agosto de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Luís Manuel de Araújo; Paulo Afonso.

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