quinta-feira, 25 de julho de 2019

Eça & Outras, quinta-feira, 25 de julho de 2019


Eça & Outras, quinta-feira, 25 de julho de 2019
Comemorar Fernão de Magalhães
Desde o século XIX que Portugal entende comemorar algumas figuras e feitos importantes da sua História, nomeando comissões para o efeito que se obrigam à execução de programas com três valências: festividades populares; debates científicos; lições políticas. Pretende-se com estas comemorações avivar nos portugueses o conhecimento da sua identidade e mostrá-la à comunidade internacional, perpetuando-a no tempo e, - talvez o mais importante em termos de futuro - incentivar uma revisitação profissional da biografia das figuras marcantes e dos referidos feitos, não só para aumentar a sua credibilidade expurgando-os de adjacências espúrias, como procurando dar-lhes um outro brilho que o avanço das ciências permite. Com algumas outras pelo meio, foi assim com as Comemorações Camonianas (1880), as do Caminho Marítimo para a Índia (1889); o 5.º Centenário do Infante D. Henrique (1894); já no século XX, a Exposição Colonial (no Porto em 1934), os Centenários de 1940, os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento (1983), a Expo 98 e agora o 5.º Centenário da Viagem de Fernão de Magalhães.
Mas nem sempre os objetivos iniciais foram alcançados: em 1898 Eça de Queirós viu assim as Comemorações realizadas em Lisboa: «Imensas multidões – dizem que vieram da província mais de cem mil pessoas. Ainda apanhei o cortejo cívico, que não tinha civismo nenhum, e onde apenas ofereciam interesse, um bando de pretos de Moçambique, e, atrás do carro da Agricultura (perfeitamente ridículo), um grande esquadrão de Campinos do Ribatejo de uma incomparável beleza. Entusiasmo nenhum – o povo ainda não percebeu quem era este Vasco da Gama. Aqui no Rossio, o Cortejo passou num silêncio glacial, quase sombrio, um silêncio de 30 mil pessoas.» (Eça de Queirós Correspondência, 20.05.1898).
Este afã comemoracionista, no que diz respeito às atuais comemorações magalhãnicas, deverá concretizar-se em avanços no conhecimento do feito (até porque, com comissão ou sem comissão, a comunidade científica irá certamente continuar a produzi-los), mas tem a obrigação de fazer com que eles cheguem ao público ou que este se importe com eles, evitando assim que se continue a aludir a enganosos equívocos em volta do navegador. E tal não se dará, certamente, por falta de informação atualizada: já na obra Le Voyage de Magellan 1519-1522. La relation d’ Antonio Pigafetta du premier voyage autour du monde. Paris: Chandeigne, 2017, Michel Chandeigne, um divulgador da cultura portuguesa, tinha alertado para o que NÃO era lícito comemorar a propósito dos 500 anos desta viagem (tradução e adaptação nossa, pág.s 6-8): que antes dela “toda a gente” julgava que a Terra era plana, ou seja, não redonda; que o navegador tinha proposto o seu projeto a D. Manuel antes de o propor a Carlos V; que importa que o navegador não fez a circum-navegação completa, mas apenas até ao arquipélago das (depois chamadas) Filipinas, onde foi morto (a restante parte da “volta ao mundo”, ou seja, entre as Filipinas e Lisboa, já a tinha feito no sentido inverso, de Ocidente para Oriente, anos antes); que dos 237 homens que partiram, 91 sobreviveram e voltaram à Europa, e não quaisquer outros números que por aí andam; que o navegador atravessou o Pacífico “às cegas”, porque na realidade já conhecia a sua dimensão pela cartografia portuguesa anterior à viagem; que esta travessia não foi uma «hecatombe», pelo contrário; que o móbil da viagem (chegar às Molucas por Ocidente e confirmar a sua localização no hemisfério “espanhol”), não seria garantido pelo lucro das especiarias aí produzidas, pois o seu comércio, no imediato, não cobriria o investimento feito.
Este autor refere estes e outros erros comuns em obras publicadas sobre o navegador e a viagem deste, pelo menos desde 1864 pelo chileno Barros Araña, passando por Alderley (1874), Zweig (1938), a que poderíamos juntar Roditi (1989) e muitos outros autores não profissionais da História, mais antigos ou mais recentes, muitos deles fazendo eco da fake new do seu pretenso nascimento em Sabrosa ou, mais recentemente, de uma outra invenção que lhe quer dar o berço em Ponte da Barca. Nesta obra que vimos a citar, procura-se expurgar o erro da menção de Sabrosa, «tirada de documentos falsificados aparecidos no século XIX» (p. 10, trad.) mas, como foi escrita antes de 2017, não cita ainda os mais recentes textos dos historiadores Amândio Barros («Vila Nova de Gaia. Os Forais, o Rio e o Mar» in O Foral Manuelino de Vila Nova de Gaya 1518-2018. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal, 2018), onde na página 58 se lê «Magalhães…que, de resto, teve fortíssimas ligações a Gaia e ao Porto, correndo teoria acerca do seu nascimento num destes locais»; e de Rui Manuel Loureiro (Em demanda da Biblioteca de Fernão de Magalhães. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2019), onde na página 17 este escreveu: «Fernão de Magalhães terá nascido na região do Porto, na margem sul do rio Douro, como sugerem alguns documentos de arquivo… Dois testemunhos portugueses um pouco mais tardios confirmam esta hipótese.». As hipóteses Porto (aliás já anteriormente assimilada por muitos historiadores portugueses), e Vila Nova de Gaia, são assim reequacionadas com base em documentos autógrafos do navegador, ganhando esta última uma cada vez maior consistência. Não é esta uma questão menor nem a sua clarificação pode ser encarada como a afirmação de qualquer bairrismo bacoco, mas sim a procura da verdade histórica que proporcione uma mais correta interpretação da sua vida e feitos, nomeadamente sobre o ambiente portuário em que foi criado, a formação intelectual que teve, e quem o levou para a Corte e aí o protegeu na sua carreira de mareante.
         São pois hoje completamente ridículas as fantasias artísticas (literárias e materializadas em escultura, pintura ou desenho…ou em rótulos de garrafas de Vinho do Porto) de um menino a brincar com barquinhos nas águas do Alto Douro e a sonhar com a travessia do Pacífico distante ou outras que tais. E isso leva-nos à “lição moral” desta crónica: vamos vendo em concursos escolares e recreações lúdicas, publicadas em jornais ou exibidas em exposições e vídeo-filmes, várias imagens antigas ou agora criadas, a quererem representar o navegador em atos ou ações em que nunca esteve, a atribuir-lhe feitos que nunca fez, ou ideias que nunca teve, em total desacordo com a História. Alguns artistas gráficos atuais mostram nos seus desenhos que sobre a sua vida só sabem o que leram em textos que propagam as tais fake news, ou, no mínimo, interpretações erradas sobre a sua missão, já desacreditadas pelos historiadores. Não me venham com o falacioso argumento da liberdade de criação, pois a liberdade é irmã gémea da verdade, não da mentira. E os artistas, como quaisquer outros profissionais que se querem credíveis e úteis à sociedade que lhes paga o salário ou as encomendas devem informar-se e estudar as matérias sobre as quais querem exercer a sua Arte, pois em Arte não “vale tudo” para gozo dos papalvos. Quanto às exposições bibliográficas e documentais sobre Fernão de Magalhães elas poderão ser interessantes se forem acompanhadas de algum aparato cronológico e crítico, pois não tem qualquer valor pedagógico meter na mesmo vitrina obras sérias de historiadores profissionais ao lado de desbragadas fantasias de literatos locais escritas para satisfazer clientelas locais ou mesmo nacionais cujos interesses não são consentâneos com a verdade histórica.
         Por isso nos dias de hoje, para além das multidões, dos cortejos, dos carros alegóricos, da falta de entusiasmo e dos silêncios glaciais e sombrios, estas comemorações dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães deverão servir para uma renovada abordagem histórica da figura e do feito, um efetivo salto qualitativo na historiografia nacional e, já agora, também do incremento da fraternidade entre os povos que, pelas mais diversas razões, se conheceram nesta aventura humana protagonizada por um português nascido e crescido nas margens do Douro perto da sua entrada no Atlântico. 

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Amigos e Confrades Queirosianos agraciados



JOEL CLETO

            No passado dia 11 de junho, feriado municipal, a Câmara Municipal de Matosinhos agraciou o historiador Dr. Joel Cleto, seu ex-funcionário e coordenador do Gabinete Municipal de Arqueologia e História, com a Medalha de Mérito Dourado, no mesmo dia em que lançou a terceira edição da sua obra Senhor de Matosinhos. Lenda, História e Património.




JOSÉ VALLE FIGUEIREDO

            No dia 9 de julho, na Casa do Roseiral, a Câmara Municipal do Porto agraciou com a Medalha Municipal de Mérito o escritor e promotor cultural Dr. José de Magalhães Valle de Figueiredo «pelos seus méritos pessoais», nomeadamente na divulgação e promoção cultural da Foz do Douro.

Livros e Revistas

            Acaba de ser posta à venda a edição comercial do primeiro volume da coleção Património Cultural de Gaia. Património Humano – Personalidades Gaienses, coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, produzido pelo Gabinete de História Arqueologia e Património da ASCR- Confraria Queirosiana e editado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, com a colaboração das Edições Afrontamento para esta reedição. O livro, totalmente a cores, apresenta 250 biografias de homens e mulheres nascidos ou determinantes na vida do município gaiense desde o século I até a século XX, escritas por vinte e cinco historiadores. Com um preço de capa de 30 €, o qual já inclui IVA e portes, pode ser adquirido por via postal, devendo os pedidos ser enviados para queirosiana@gmail.com.


         A Libreria Visor, tem em distribuição o livro In Tempore Sueborum. El Tiempo de los Suevos en la Gllaecia (411-585). El Primer reino Medieval de Occidente. Volumen de Estudios, coordenação de LÓPEZ QUIROGA, na versão e-book e papel, editado pela Deputacion Provincial de Ourense, Galiza, o qual complementa a exposição europeia ali realizada em 2017, na qual estiveram presentes quatro objetos arqueológicos de Vila Nova de Gaia, exumados nas escavações organizadas pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR – Confraria Queirosiana, presentemente em exibição no Núcleo Museológico de Arqueologia do Solar Condes de Resende, depois de estudadas e divulgadas pelos seus investigadores.
         No presente volume, o mais recente e internacional repositório de estudos sobre o Reino dos Suevos, constam, entre muitos outros, os trabalhos de Manuel Luís Real e António Manuel Silva sobre «Portucale Castrum Novum na época sueva»; de J. A. Gonçalves Guimarães sobre «O edifício de tradição romana sob a igreja do Bom Jesus de Gaia (Vila Nova de Gaia – Portugal) destruído nos últimos dias do reino dos Suevos» e de Lino A. Tavares Dias «A igreja tardo-antiga em Tongobriga (Freixo, Marco de Canaveses, Porto)



               
       No dia 17 de julho, no Centro de Interpretação da Cultura Local de Castelo de Paiva, foi apresentado o livro Do Castelo da Ilha à Ilha do Castelo, da autoria do arqueólogo e professor António Lima, que realizou escavações nos anos noventa do século passado nesta hoje ilha que se encontra no Rio Douro, entretanto transformada em parque de lazer.


         Referente ao mês de junho deste ano acaba de ser distribuído o n.º 88 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, o qual, entre outros artigos apresenta, de Virgília Braga da Costa, «O combate ao analfabetismo em Portugal – as escolas primárias de Mafamude (1846-1962) – 3.ª parte» e de Salvador Almeida «Camilo Castelo Branco e os seus editores – Eduardo da Costa Santos, comandante dos Bombeiros de Vila Nova de Gaia».


NOVA INSCRIÇÃO DE CRESTUMA
Não obstante estarem temporariamente suspensas as escavações no Castelo de Crestuma, a equipa do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ afeta a este projeto continua a estudar o espólio já exumado e a apresentar e publicar o seu estudo em diversos eventos culturais e científicos, enquanto no terreno contínua o estudo da implantação da estação arqueológica. Foi numa dessas ações que recentemente o coordenador do projeto, António Manuel Silva, encontrou uma ara romana que veio relançar o estudo da epigrafia desta estação. Logo que estudada passará a estar exposta no Núcleo Museológico de Arqueologia do Solar Condes de Resende.


Eventos passados
ALUNOS DA FLUP
            No passado dia 6 de julho decorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o almoço comemorativo dos 100 anos desta instituição que teve presentes muitos dos seus antigos alunos, nomeadamente um representativo grupo dos alunos de História finalistas do curso de 1982/83, entre os quais Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo, J. A. Gonçalves Guimarães, diretor do Solar Condes de Resende, e José António Martin Moreno Afonso, professor na Universidade do Minho.

NASONI CENÓGRAFO
         No passado dia 13 de julho na sala do capítulo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra o historiador da Arte Prof. Doutor José Manuel Tedim apresentou a comunicação «Nicolau Nasoni cenógrafo do barroco portuense» integrada no IX Festival Internacional de Polifonia Portuguesa – Seminário “O Barroco e a Polifonia em Portugal” organizado pela Fundação Cupertino de Miranda

MÁRIO CLÁUDIO
         No passado dia 17 de julho na Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto, foi lançado o romance Tríptico de Salvação, de Mário Cláudio, editado pelas Publicações D. Quixote, no ano em que se comemoram os 50 anos da sua vida literária.

BIENAL DE GAIA
            Encerrou no passado sábado dia 20 a 3.ª Bienal Internacional de Arte de Gaia organizada pela Cooperativa Artistas de Gaia, a qual teve o seu núcleo central nas instalações da antiga Companhia da Fiação de Crestuma em Lever, propriedade do Dr. Ricardo Haddad que tem vindo a recuperar as suas notáveis instalações para eventos sociais e culturais de grande envergadura, como foi agora o caso. Nesta mostra, uma das maiores do país, participaram vários artistas amigos e confrades queirosianos.

EÇA BEM DITO
         No dia 23, pelas 21 horas, o grupo musical Eça Bem Dito da ASCR – Confraria Queirosiana que ensaia regularmente no Solar Condes de Resende, fez uma atuação na abertura do Festival Italiano que decorre no Cais de Gaia até ao dia 29 de julho. Composto por Maria João Ventura, pianista, João Santos, contrabaixo, António Rua, José Bordelo e Valença Cabral, vozes, interpretaram canções napolitanas clássicas do final do século XIX e inícios do século XX.

Palestras
SENHOR DA PEDRA
Hoje, dia 25 de julho pelas 21,30 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende mais uma das habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês, desta feita apresentada pelo Dr. Henrique Guedes sobre «Senhor da Pedra: Espaço Memória, Vivência, Identidade», sendo o palestrante autor de uma monografia sobre um dos mais emblemáticos monumentos do litoral português situado em Vila Nova de Gaia.

Exposições
“HORROROSA MOSTRA SOBRE O TÚMULO DE TUTANKHAMON” NO PARQUE DAS NAÇÕES EM LISBOA
Nota da redação: Parecem estar na moda as exposições sobre temas culturais feitas por diversas entidades que atuam nas áreas do Turismo e da Comunicação sem qualquer critério profissional, entregues a curadores que nunca estudaram as matérias expostas ou que das mesmas terão um vaguíssimo entendimento, destinadas ao público em geral, às escolas ou aos turistas e que partem do princípio de que todos são ignorantes e que se contentam com o deslumbramento do design e do “espectáculo”, numa clara e ignara ofensa aos critérios da cultura, do saber, da verdade, da qualidade e do trabalho dos estudiosos, cujas publicações e realizações são, quantas vezes, pirateadas em proveito das mesmas. Do Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e diretor da Revista de Portugal recebemos o e-mail que a seguir publicamos. Vários comentários sobre esta desastrosa exposição podem também ser vistos no blogue Faraó e Companhia:
«Ao cuidado da Direção da Exposição sobre Tutankhamon

Ex.mos Senhores

Como professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da área de História Antiga e de Egiptologia, alerto a organização para os erros espantosos de várias legendas da exposição sobre Tutankhamon, com dislates grosseiros e, em certos casos, até insultuosos para os visitantes que pagaram o seu bilhete de entrada no Pavilhão de Portugal, que pertence à Universidade de Lisboa.

À direção da exposição, e às pessoas que organizaram o percurso expositivo e selecionaram as «peças», apenas interessou o lucro com as entradas, porque na verdade algumas «réplicas» horrorosas, toscas e frustes nem deviam lá estar expostas, elas desvirtuam o brilhantismo da arte funerária do antigo Egito e conspurcam a cultura, a ciência e a arqueologia, para já não falar da estética e da história da arte.

Em minha opinião, o público visitante e os cidadãos que lá se dispuserem a ir deveriam boicotar aquela arrepiante mostra e só entrar depois de a organização ter alterado muitas das displicentes e toscas legendas e de ter retirado algumas «réplicas» nojentas que lá se encontram (algumas das quais nem têm nada a ver com o espólio tumular do famoso rei Tutankhamon).

Fui visitar a exposição a muito custo, só porque um grupo de antigos alunos da Universidade, alguns dos quais ainda frequentam os cursos livres que a Reitoria vai organizando, me pediu para os acompanhar, e muitos deles (que nem são da área de História Antiga), repararam nos erros crassos e hebefrénicos que por lá abundam, e que até podem ser detetados por alunos do ensino básico.

Entre as muitas e graves acusações de desleixo, incúria, ganância, ignorância e desprezo e desrespeito pelo público, avulta o facto de a mostra ser apresentada como «uma experiência fascinante e pedagógica» (como um dos vossos painéis anuncia…), o que é gravíssimo porque poderá iludir os alunos do ensino básico que, eventualmente, lá possam ir com os respetivos professores em visita de estudo.

Já em 2017, quando fui com um grupo de alunos da Faculdade de Letras visitar a exposição no Pavilhão de Portugal (que pertence à minha Universidade) tinha chamado a atenção de um senhor (cujo nome não recordo e que parecia ser da organização) sobre os clamorosos erros que lá se encontram, mas ficou tudo na mesma, o que só confirma aquilo que muitas pessoas pensam:  é apenas uma questão de ganância, o que interessa são os lucros com as entradas  -  quanto ao resto, a cultura, a ciência, o rigor, o respeito pela história e pela arqueologia... ah, isso não interessa para nada!

Com o mais veemente protesto, como cidadão e como docente de História,

Luís Manuel de Araújo
Professor da Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa»
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 131, quinta-feira, 25 de julho de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira e Amélia Cabral; inserção: Licínio Santos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Eça & Outras, terça-feira, 25 de junho de 2019


Homenagens a Maria Alberta e Sofia, duas mulheres poetas
         A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia iniciou no mês de junho duas homenagens a duas mulheres poetas contemporâneas. No primeiro caso, Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres, aqui nascida em 1930, professora, autora e apresentadora de programas infantis na RTP, mas também tradutora de clássicos de Literatura para a Infância e Juventude e autora consagrada nessa área, sendo Ulisses o seu livro mais conhecido, com várias edições e reimpressões. Foi também poeta maior consagrada em antologias internacionais. Tendo falecido no passado dia 15 de abril, já não esteve presente no programa “Rosto das Letras” que a autarquia lhe dedicou, com uma exposição retrospetiva da sua obra exposta na Biblioteca Pública Municipal (a quem ficaria bem o seu nome) até 29 de junho.
         No passado dia 14 de junho o Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia prestou também uma homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, de quem ostenta o nome, com uma sessão pública e a abertura de uma exposição intitulada “Um Porto a Sophia Andresen”, a que se seguiu uma noite com a sua poesia acompanhada ao piano, bem assim como e testemunho de vários dos seus descendentes e familiares, na vizinha Casa Museu Teixeira Lopes. Tendo nascido no Porto em 1919 e morrido em Lisboa em 2004, a sua vida e obra estão indissoluvelmente ligadas à Praia da Granja, em S. Félix da Marinha, Vila Nova de Gaia, onde ainda existe a casa onde habitou, pensou e escreveu.
Independentemente da singularidade da vida e obra de cada uma destas duas mulheres poetas, existem em ambas algumas convergências ancestrais que por certo as marcaram. Para além da sua íntima ligação a Gaia, por variados locais e afetividades, ambas descendiam de famílias de negociantes da praça do Porto em ascensão no século XIX, com instalações e negócios no município gaiense, no primeiro caso, de Clemente Menéres, produtor, industrial e exportador de cortiça, azeite e vinhos de Trás-os-Montes e Alto Douro, no segundo caso do dinamarquês João Henrique Andresen, de cuja importância como armador de navios, negociante e industrial adiante falaremos. Destas atividades familiares, restou a memória de vinho do Porto com nome de família (Andresen; Menéres), mas tal está muito longe de representar o universo de negócios a que os seus antepassados se dedicavam. Para ambas o apego ao Mar e ao seu convite à viagem foi fundamental, bem assim como a revisitação dos antigos heróis de uma Grécia idealizada. Como é sabido, em ambas houve a preocupação pela formação das novas gerações, tendo elevado a Literatura para a Infância e Juventude a um patamar maior.
Regressando a Sofia, na referida sessão evocativa tive ocasião de recordar o que é que os Andresen têm a ver com Vila Nova de Gaia, muito para além da tal marca de vinhos que ainda existe. João Henrique Andresen, seu antepassado chegado a Portugal por volta de 1840, em 1845 já tinha a sua empresa de navegação para diversos destinos, sobretudo Manaus no Brasil, para onde exportava, primeiro através de veleiros e depois de vapores, muitos produtos portugueses e estrangeiros, como o cimento Portland, e de onde importava borracha e outros produtos locais. Comprou entretanto uma vastíssima propriedade na Afurada, conhecida por Quinta ou Tapada do Andresen, de onde poderia ver os seus navios entrarem e saírem a barra do Douro, na qual instalou uma fábrica de Moagem e Destilaria e uma Destilaria de Combustíveis Fósseis (refinaria de petróleo). No atual Centro Histórico de Gaia, na Praia da Cruz, possuía tanoaria, caixotaria e oficina de produção de aduelas, com máquina a vapor e as primeiras a serem iluminadas com eletricidade montada pela empresa de Emílio Biel em três armazéns onde igualmente acolhia as suas importações e de onde expedia as exportações de aguardente, azeite, vinhos licorosos e comuns vindos das suas quintas do Douro, para o que possuía também uma prancha de embarque exclusiva.
Tendo falecido em Lisboa no seu palácio, que fora dos Condes de Penafiel, em 1894, J. H. Andresen foi trasladado para o Porto onde ficou sepultado no Cemitério de Agramonte num imponente e simbólico jazigo da autoria do escultor António Teixeira Lopes, com cujo pagamento o escultor mandou construir a Casa-Museu que hoje conhecemos com o seu nome onde se realizou esta sessão evocativa. Entretanto os seus herdeiros adquirem uma casa na Granja, que mandam aformosear, tendo passado a frequentar aquela praia a partir de 1887. Deste convívio resultou o casamento do pai de Sofia (J. H. Andresen III) com uma das filhas do 4.º conde de Mafra, Tomás de Mello Breyner. Naquela casa da Granja, entretanto vendida à família Cabral em 1925, viria a falecer em 1934 D. Emília de Castro Pamplona, mulher de Eça de Queirós e, talvez por isso, quando em 2007 foi demolida apareceu erradamente designada na imprensa como “a casa de Eça de Queirós”, que efetivamente também veraneou nesta praia com seus pais, irmãos, amigos e familiares da futura noiva, mas que nunca aí (nem em qualquer outro lado) possuiu qualquer propriedade, a não ser em comunhão de bens.
A Granja de Sofia era também frequentada por outras figuras literárias, hoje geralmente esquecidas: para além de Pedro Homem de Mello, ali conviveu com António Miguel da Silva Vasconcelos Porto (o poeta António-Além, curiosamente da família proprietária do palacete onde hoje está instalado o arquivo com o seu nome) e sobretudo com António Eugénio Ramos Pinto Calém (o poeta António Lousada) este último, para além de referir tal convívio nas suas memórias, escreveu muitos dos versos cantados por Teresa de Noronha, João Braga e outros fadistas.
À poesia de Sofia, única por certo, mas também à daqueles seus vizinhos das ondas da Granja e da vida, se poderá aplicar o que Eça disse sobre outros poetas: «…naquelas almas, todo o século com as suas dúvidas, as suas lutas, as suas incertezas, as suas tendências, as suas contradições, se retrata. São grandes almas sonoras onde vibra em resumo toda a vida que as cerca. Estuda-se ali, como num sumário, a existência de uma época» (Eça de Queirós, O francesismo).

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana



Confrade Queirosiano agraciado
         O júri da 15.ª edição do Prémio Eduardo Lourenço, constituído pelo presidente da Câmara Municipal da Guarda, os reitores das universidades de Coimbra e Salamanca, como membros da comissão científica e executiva do Centro de Estudos Ibéricos (CEI) com sede naquele município, e também pelos membros convidados Emílio Rui Vilar e Rui Vieira Nery, pela Universidade de Coimbra, e Maria Ángeles Pérez López e Lúcia Rodil, pela Universidade de Salamanca, distinguiram este ano o Professor Doutor Carlos Reis com o referido prémio no valor de 7.500 euros. Investigador e professor universitário especializado em Eça de Queirós e José Saramago, para além de outros estudos sobre Literatura Portuguesa e de Teoria Literária com ampla divulgação, não apenas em Portugal e Espanha (proferiu uma conferência sobre “Dinâmicas da Personagem: o Projeto Figuras de Ficção” no passado dia 19 de junho na Universidade de Cáceres), mas também na restante Europa, Brasil e Estados Unidos. Publicou numerosos ensaios e livros sobre estas matérias, sendo ainda coordenador da História Crítica da Literatura Portuguesa e da Edição Crítica da Obra de Eça de Queirós.

Eventos passados 
Dia de Itália
            Como habitualmente, decorreu no passado dia 2 de junho na Pousada do Palácio do Freixo, no Porto, as celebrações do Dia Nacional de Itália, organizadas pelo Consulado desta cidade, que tem como cônsul Paolo Pozzan, e pela Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo Dante Allighieri, de que é presidente o general Ângelo Arena, tendo presidido o embaixador de Itália em Portugal, Uberto Vanni d’Archirafi. Também presentes, em nome próprio ou em representação de diversas instituições vários confrades queirosianos.

O Nosso Cônsul em Havana
            No passado dia 7 de Junho estreou na RTP 1 o primeiro episódio de uma série de treze intitulada “O Nosso Cônsul em Havana”, a qual, aliando a ficção à documentação, relata a passagem de Eça de Queirós por Cuba, então colónia espanhola, onde chega, como cônsul português, em dezembro de 1872.
         Realizada por Francisco Manso, com o apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, a série mostra como, “exorbitando de funções”, o escritor melhorou a vida de milhares de escravos chineses ali desembarcados para trabalharem como escravos nas fazendas de cana-de-açúcar. Desse seu conhecimento e acção resultou o ensaio que viria a ter o título A Emigração como Força Civilizadora, apenas publicado em livro em 1979 por Raúl Rego, e O Mandarim, publicado em livro logo em 1880. Esta série vem assim divulgar uma faceta pouco conhecida da vida de Eça de Queirós e da sua humanística ação também plasmada nas obras atrás referidas.

Cursos, conferências e palestras
A Utopia do Padre Himalaia
         No próximo dia 27 de junho pelas 21,30 horas, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, o Professor Doutor Jacinto Rodrigues, catedrático jubilado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, vai falar sobre “A Utopia do Padre Himalaya” (1868-1933), a partir da sua obra A Conspiração Solar do Padre Himalaya, edição Árvore, Porto, 1999, um dos maiores inventores portugueses, precursor dos movimentos ambientalistas.

Ao Andresen em Vila Nova de Gaia
         A palestra sobre “Os Andresen em Vila Nova de Gaia” acima referida (ver texto editorial desta página) será de novo apresentada também no Solar Condes de Resende, na quinta-feira, 29 de agosto próximo.

Cursos do Solar:
Azulejaria de Fachada
          No próximo dia 21 de setembro vai decorrer no Solar Condes de Resende uma formação em Azulejaria de Fachada ministrada pelo Prof. Doutor Francisco Queiroz, conhecido investigador e professor com diversas obras publicadas sobre esta temática, a qual decorrerá ao longo de sete horas, aberta a todos os interessados, que pagarão 35€ ou 45 € conforme se trate de sócios ou não sócios da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana.



Revoluções e Constituições
         Organizado pela Academia Eça de Queirós, o grupo de trabalho da ASCR-CQ para a investigação e ensino, com início previsto para 19 de outubro, vai decorrer no Solar Condes de Resende o curso “Revoluções e Constituições”, comemorativo dos 200 anos da Revolução de 1820. Do elenco de professores constam docentes das universidades do Minho, Porto, Coimbra e Nova de Lisboa e de outras instituições académicas, nomeadamente António Barros Cardoso, Eduardo Vítor Rodrigues, Fernando Rosas, J. A. Gonçalves Guimarães, Jorge Fernandes Alves, José António Oliveira, Manuel Loff, Pedro Aires Oliveira, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Nuno Resende e Vital Moreira.
Este curso será certificado pelo Ministério da Educação através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente. O calendário do curso e o boletim de inscrição serão divulgados em breve

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 130, terça-feira, 25 de junho de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira e Amélia Cabral; inserção: Licínio Santos.

sábado, 25 de maio de 2019

Eça & Outras, sábado, 25 de maio de 2019


O Património Político como mais-valia do presente: a propósito dos 200 Anos da Revolução de 1820
        Venho hoje falar do Património Político da cidade do Porto, como um património imaterial para os tempos que vivemos. No próximo ano acredito que vão aqui comemorar-se os 220 anos da Revolução de 24 de Agosto, ou Constitucional, ou Vintista. Após a Revolução Americana de 1776, da Francesa de 1789, da Constituição de Cádis de 1812 e da Revolta Republicana de Pernambuco de 1817, um grupo de personalidades portuguesas e portuenses, conscientes da necessidade de colocar Portugal na linha da frente das preocupações civilizacionais, criou no Porto o Sinédrio como clube de reflexão e ação, tendo também aliciado alguns militares descontentes com a sua situação profissional para aderirem ao movimento, tomando depois o poder na cidade e no país. É certo que em nome do rei ausente no Brasil, mas sobretudo contra a Inglaterra, a potência ocupante e dominante em ambos os lados do Atlântico desde as Invasões Francesas. Esta Revolução, feita pelos armadores-negociantes da praça do Porto, ou pelos seus filhos já bacharéis em Direito por Coimbra, com um ou outro membro da sociedade mais viajado e letrado, conhecedor das mudanças de um mundo em transformação, além dos referidos militares, cuja maioria rapidamente vai mudar de campo, teve de concretizar-se em circunstâncias habilmente consensuais no que, naqueles dias, era prioritário: trazer o rei do Brasil, libertar o país da opressiva subordinação estrangeira, marcar eleições para os cidadãos se expressarem através dos seus representantes e elaborar e aprovar uma Constituição que acabasse com o poder absoluto e regulasse a vida da sociedade portuguesa no respeito pela liberdade, pela segurança, pela propriedade e pela igualdade. Não era pouco o que de si exigiam os revolucionários vintistas. Como é sabido, depois da Revolução ter triunfado também em Lisboa, logo em dezembro realizaram-se as primeiras eleições em Portugal, a primeira vez que os cidadãos “foram às urnas”.
         Para além dos princípios gerais atrás enunciados a consignar na Constituição (Liberdade, Segurança, respeito pela Propriedade, Igualdade de oportunidades para todos os cidadãos), que mais queriam estes homens e mulheres (nessa época havia na região várias viúvas à frente de empresas de comércio marítimo e das primeiras indústrias) ? Então, tal como hoje, a vida fluía todos os dias e a maior parte destes revolucionários eram homens práticos, entendidos em comércios, navegações e criação de riqueza pelo trabalho, queriam coisas bem concretas e práticas, que obviamente aproveitavam o momento em que novas ideias filosóficas e políticas se implantavam na sociedade portuguesa. A 23 de setembro de 1822 foi aprovada a 1.ª Constituição Portuguesa que, entre muitos outros artigos, consignava no seu artigo 9.º que «a lei é igual para todos». Sabemos também o que, entretanto, veio a seguir com a contra-revolução miguelista: a Constituição foi banida, o poder absoluto de novo, temporariamente instituído, e os adeptos do constitucionalismo perseguidos e alguns dos quais barbaramente sacrificados, como foi o caso dos «mártires da Liberdade», levando o país para uma guerra civil entre 1832-1834, e as que se lhe seguiram, durante as quais a cidade do Porto e todos os liberais sacrificaram vidas e bens para que o país se acertasse com o concerto das nações «…em plena marcha pela estrada da glória, arvorando o Estandarte da Liberdade e derrubando as góticas edificações do Despotismo», como se escreveu no Português Constitucional de 22 de setembro de 1820.
         No vastíssimo Património Mundial que é o Porto, nem todo ele é arqueológico, artístico, edificado ou institucional. Existe também na cidade, ou na ideia que dela temos, o Património Humano e o Imaterial, como é o caso deste outro que tem a ver com a liberdade organizada dos seus cidadãos. Se bem que esteja já materializado em pequenos ou grandes monumentos espalhados pela cidade e pelo país e também nesse filho maior da revolução vintista portuense que é o Brasil independente, não podemos ignorar este património filosófico e político, que é o do apego às instituições democráticas geridas pelo voto popular. Depois do Património Humano é o mais importante de todos os Patrimónios, pois não só ele respeita as pessoas, os acontecimentos e os monumentos do passado como transforma os seus bens com memória e qualidade em mais-valia do presente e certezas de futuro, muito para além dos modismos épocais.
     Preparemo-nos pois com a devida antecedência para comemorarmos condignamente os 200 anos da Revolução de 1820, talvez o momento mais marcante da História em que a cidade do Porto e a região, representados por um punhado dos seus cidadãos mais esclarecidos, se acertaram com a marcha do progresso da Humanidade.
Como escreveu Eça de Queirós no Districto de Évora em 1867, «as revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem… De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.». Os historiadores não vão ao passado buscar acontecimentos mais ou menos bizarros para propor aos seus leitores ou ouvintes ócios eruditos. O seu trabalho é ir aos acontecimentos verdadeiros da História retomar os fios da vida, mesmo aqueles que o tempo esfiapou ou que outros acontecimentos mais recentes enovelaram, ou mesmo quebraram ou esqueceram. Para que o Património, material ou imaterial que as gerações passadas nos legaram, possa ainda hoje frutificar como exemplo e proveito para as gerações vindouras. Mas como também não vivemos no futuro, mas sim nos dias que correm, comemorar os 200 anos da Revolução de 1820 será com certeza uma mais-valia do presente.
(extrato da comunicação proferida na Biblioteca Almeida Garrett no Porto a 18 de Maio na sessão comemorativa do 10.º aniversário do jornal As Artes Entre As Letras)

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana


CONFRADE QUEIROSIANO AGRACIADO
            No passado dia 22 de maio, no Dia do Município de Leiria, o Eng.º. Ricardo Charters de Azevedo foi agraciado com a medalha de mérito municipal classe ouro por aquele município queirosiano, pelo seu «empenho na defesa de Leiria e das suas causas, em especial na área da Cultura». O galardoado, para além de promotor e principal sponsor do prémio Villa Portela, destinado a premiar os trabalhos de «investigação no âmbito da História Local e do Património do Distrito de Leiria» é ainda autor de importante bibliografia nesse âmbito, de que destacamosDoutor D. Frei Patrício da Silva, um cardeal leiriense, Patriarca de Lisboa. 2009;
Quem escreveu o Couseiro?,2010; e A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791, 2011. O agora distinguido peço município do Lis já é Grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique e Confrade Mecenas da Confraria Queirosiana.

Eventos passados
CAPELA DO SENHOR DA PEDRA
            No dia 11 de Maio, logo pela manhã, um grupo de amigos da Capela do Senhor da Pedra organizado por Joaquim Lima Moreira Vaz, participou numa tertúlia e visita guiada à capela e ao seu enquadramento feita pelo professor e patrimoniólogo Henrique Guedes, autor de uma monografia sobre este monumento emblemático do litoral de Gaia publicada em 2000 e já esgotada. Como a romaria tradicional se avizinha, foram ali ouvidas as quadras da célebre Rusga ao Senhor da Pedra, recolhida nos anos trinta pelo etnomusicólogo Armando Leça.

EXPOSIÇÃO DE PROFESSORES E EDUCADORES
            Nesse mesmo dia, mas pelas 15 horas, abriu na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia a XXVI Exposição de Pintura, Cerâmica e Porcelana da Associação da Casa dos Professores e Educadores de Gaia, organizada sob a orientação do professor José Manuel Ribeiro e que este ano contou com a colaboração de cerca de três dezenas de participantes. A mostra esteve patente até hoje, dia 25 de maio.

DANTE NO PORTO
            No dia 17 de Maio, pelas 21,15, na Sala da Música do Museu Soares dos Reis, no Porto, no evento “Divina Commedia, uma Viagem pela Arte”, integrada no projeto Dante no Porto, promovido pela Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo Dante Allighieri, o Prof. Doutor José Manuel Tedim apresentou «uma aula de história de arte e estética sobre as influências que o imaginário dantesco teve nas artes, nomeadamente pintura e escultura, desde a Idade Média até hoje».

DA PSIQUIATRIA À SAÚDE MENTAL
         No dia 18 de maio pelas 11,15, no Auditório do Parque Biológico de Gaia, o médico psiquiatra e ensaísta Dr. Jaime Milheiro, autor, entre muitas outras obras, de O Centro de Saúde Mental de V. N. de Gaia (1969-1992) – uma breve narrativa…na primeira pessoa, publicado em 2013,apresentou uma conferência intitulada Da Psiquiatria à Saúde Mental – 50 anos depois, integrada nas 9.as Jornadas de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/ Espinho.

EÇA DE QUEIRÓS E A GERAÇÃO DE 70
            Nas habituais sessões de divulgação da vida obra e época de Eça de Queirós para vários públicos e dos respetivos Roteiros Queirosianos, J. A. Gonçalves Guimarães no dia 23 de Maio apresentou duas conferências sob o tema « Eça de Queirós e a Geração de 70: itinerários de amizade, pensamento e ação», a primeira pelas 11 da manhã no Colégio do Rosário no Porto para cerca de 150 alunos do 11.º ano que estudam Os Maias, tendo-a repetido, com outro enfoque e para outro tipo de público pelas 18 horas no Arquivo Municipal Alberto Sampaio em Vila Nova de Famalicão.

Livros e Revistas

         O Grupo Eça da Universidade de São Paulo, Brasil, na sequência de outros título já apresentados desde 2015, acaba de publicar o livro Novas Leituras Queirosianas. O Primo Basílio e outras produções, coordenado por Giuliano LellisIto Santos, Luciene Marie Pavanelo e Hélder Garmes e divulgado em Portugal pelo Professor Doutor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra e que dele faz parte. Aquele grupo «tem por finalidade estudar a obra do escritor português Eça de Queirós, assim como sua fortuna crítica. Privilegiando uma abordagem de fundamentação marxista, mas aberto a outras abordagens, o grupo pretende reler a obra queirosiana, tomando por pressuposto que o autor de Os Maias foi sempre um crítico ferrenho da burguiesia e da aristocracia portuguesas, mesmo em seus últimos trabalhos. Além disso o grupo também pretende discutir as leituras canônicas do escritor, que, a partir de certas fases de sua obra, fizeram dele ora um autor romântico, ora um aristocrata fin-de-siècle, ora um estilista da língua portuguesa, entre outras personas que lhe foram atribuídas» (ge.fflch.usp.br). O grupo é formado por docentes e alunos de graduação e pós-graduação daquela universidade, a que se juntaram professores e pesquisadores de outras universidades brasileiras e de outros países.


UM JORNAL: AS ARTES ENTRE AS LETRAS
         No dia 15 de maio passado saiu para as bancas o n.º 242 do jornal As Artes Entre As Letras, comemorativo do 10.º aniversário da edição destequinzenário que publica a página Eça & Outras desde a primeira hora. Este número apresenta, entre muitos outros, textos da sua diretora Nassalete Miranda, «Entre Sentidos» e também de Guilherme de Oliveira Martins «Cultura e Humanidades», um poema de José Valle de Figueiredo «Aqui há palavras que nos dizem», de Manuel de Novaes Cabral «Um brinde à Nassalete», de J. A. Gonçalves Guimarães «Uma década, pouco tempo, longa jornada» e de Francisco Ribeiro da Silva «Nos dez anos do “As Artes entre As Letras”».

UM LIVRO: 10 ANOS - AS ARTES ENTRE AS LETRAS
Nasessão do 10 aniversário do jornal, que decorreu no dia 18 de maio na Biblioteca Almeida Garrett no Porto, na qual foram intervenientes Salvato Trigo, reitor da Universidade Fernando Pessoa; J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da Confraria Queirosiana e Nassalete Miranda, diretora do jornal, foi lançado o livro 10 Anos - As Artes Entre As Letras, editado pela Singular Plural, o qual, para além dos textos introdutórios de Nassalete Miranda, Rui Moreira e Guilherme de Oliveira Martins, publica as capas de todos os números desde o “0”, publicado a 22 de maio de 2009 até ao n.º 242 acima referido. Para além da beleza do grafismo e de muitas obras de Arte ali reproduzidas, este livro mostra assim os mais diversos acontecimentos culturais decorridos no Porto e sua região e mesmo no país.

Cursos, conferências e palestras
REVOLUÇÕES E CONSTITUIÇÔES
      A Academia Eça de Queirós está a organizar o próximo curso livre do Solar Condes de Resende, com início no mês de outubro, desta vez sob o tema “Revoluções e Constituições” comemorativo dos 200 anos da Revolução de 1820, contando já com a colaboração de alguns dos mais reputados historiadores e constitucionalistas das universidades do Porto, Minho e Nova de Lisboa para as diversas sessões sobre as revolução contemporâneas desde a Revolução Americana de 1776 até ao 25 de Abril de 1974, num total de treze sessões ao ritmo de duas por mês, aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas. Brevemente será publicado o respetivo programa e condições de inscrição para a frequência do curso.

BONECOS DE CASCATA
            No próximo dia 30 de Maio, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «Bonecos de barro das cascatas sanjoaninas», desde a sua origem romana nos lares vicinales, passando pelo fabrico de bonecos de barro na Idade Média, a sua exportação para o Brasil no século XVIII e a sua sobrevivência até aos dias de hoje.

Roteiros Queirosianos

EÇA DE QUEIRÓS, O EGITO E A TERRA SANTA
            Prosseguindo as comemorações dos 150 anos da viagem de Eça de Queirós ao Egito com o 5.º Conde de Resende, a Confraria Queirosiana vai celebrar um protocolo de colaboração com a empresa Novas Fronteiras Viagens para a realização deste e de outros Roteiros Queirosianos. Entretanto estão já em período de inscrição as seguintes viagens: 26 de julho a 5 de agosto – Cairo, Cruzeiro no Nilo e Hurghada; 20 a 27 de agosto – Cairo e Cruzeiro no Nilo; 31 de outubro a 11 de novembro – Alexandria, Cairo e Cruzeiro no Nilo; 26 de dezembro a 6 de janeiro de 2020 – Alexandria, Cairo e Terra Santa, com noite de fim-de-ano em Jerusalém. Todas estas viagens são guiadas pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, vice-presidente da direção da Confraria Queirosiana e diretor da Revista de Portugal.

Eventos próximos
SINTRA QUEIROSIANA
         Nos próximos meses de verão, no ciclo de Teatro e Património em Sintra (TPS 2019 Sintra Romântica), vão decorrer neste município vários espetáculos e outros eventos de matriz queirosiana, produzidos pela empresa ÉTER Cultural. Assim um junho, nos dias 8, 9, 15, 16, 22 e 23 decorrerá na Vila Alda – Casa do Eléctrico de Sintra uma recreação intitulada “1904 Inauguração do Eléctrico” (Teatro e Beberete Queirosiano); nos dias 6, 7, 14 e 21 de julho, na Quinta MontFleuri, uma representação de Os Maias, a propósito dos 130 anos da sua publicação (Teatro e Jantar Queirosianos); nos dias 19, 20 e 21 de setembro, na Quinta da Ribafria um “Serão nos Gouvarinhos – Os Maias” (Multimédia e Teatro); nos dias 27, 28 e 29 de setembro, nas arcadas do Palácio Nacional de Sintra, decorrerá um “Baile de Máscaras – Os Maias” (Multimédia e Teatro). As condições de acesso a estes espetáculos podem ser vistas em www.etercultural.com

40 ANOS DO CURSO DE HISTÓRIA 1978/1979 DA FLUP
      Passados 40 anos sobre o Curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1978/1979, os seus alunos vão reunir-se no próximo dia 6 de julho no almoço ALUMNI comemorativo dos 100 anos daquela Faculdade fundada em 1919 e que o Estado Novo encerrou em 1928, reabrindo depois em 1961. Daquele Curso, entre muitos outros, saíram os historiadores Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo; José António Martin Moreno Afonso, professor da Universidade do Minho e membro da mesa da assembleia geral da ASCR – Confraria Queirosiana; e J. A. Gonçalves Guimarães, secretário e mesário-mor da mesma associação, ambos co-fundadores em 1982 do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, desde 2004 integrado nesta associação como Gabinete de História, Arqueologia e Património.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 129, sábado, 25 de maio de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira e Amélia Cabral; inserção: Licínio Santos.