segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Eça & Outras


domingo, 25 de novembro de 2018

Os humanos são dados às representações estéticas
       Um quadro a óleo, uma escultura, uma peça de cerâmica artística, são objetos inúteis, pois não só não têm qualquer uso prático destinado, como fazemos o possível por não os desgastar, mantendo-lhes um princípio de eternidade. E no entanto não os dispensamos do nosso quotidiano mais íntimo ou mais público. Enchemos museus e coleções com quadros, átrios e praças com estátuas e paredes e móveis com cerâmicas decorativas. E tal já é assim desde os primórdios da humanidade, quando às rochas se acrescentavam gravuras e pinturas, nos recintos tribais se colocavam menhires, e nas paredes exteriores da tigela quotidiana se desenhavam sulcos que nem tiravam nem punham qualquer acrescento ou sabor à pobre ração que ela guardava. É como se a natureza estivesse incompleta e lhe faltasse a marca humana, que ao longo dos tempos se foi enriquecendo com símbolos e significantes, até retratar a realidade, não como a superfície das águas quietas retrata o boi que bebe, mas acrescentando-lhe à mensagem da representação a emoção estética incomensurável, atributo esse que faz ora a sua eternidade, ora a sua efemeridade.
         Durante séculos essa transmissão organizou-se através de mestres, de oficinas e da escolha de materiais de qualidade capazes de perdurarem no tempo. Foi profissão e organização social de corporações que definiam os degraus de acesso ao seu exercício. Suscitou emulações e exclusividades. Beneficiou de evoluções tecnológicas, segredos e alquimias. Definiu estéticas e escolas. O saber preparar estuques, tábuas, telas, papéis, pigmentos, óleos e pincéis; o saber modelar a argila, o  passar ao gesso e deste ao molde que acolhia o bronze fundido, ou então o saber tirar da pedra a inútil brita que esconde a emoção dos relevos concebidos pelo escultor; o perpetuar na superfície da pasta cerâmica as figuras, os relevos ou as mensagens que o fogo tornará perenes, tudo isto era obra de artistas, os criadores que concebiam a obra e o seu resultado final, e também assim chamados os mecânicos que detinham o saber de fazerem com que a matéria se transformasse em mensagem.
         A partir do século XIX a produção artística democratizou-se e passou a estar ao alcance de todos os mortais, quer pela generalização da cultura e das possibilidades de aprendizagem fora da oficina e da academia, quer pelo embaratecimento dos materiais, dando origem ao aparecimento da produção dos amateurs, que arrumamos enciclopedicamente em dois grupos: os naïfs, que pintam o que lhes vai na mente adequando os materiais à sua própria estética, e os artistas livres, aqueles que, mesmo que tenham definido uma linguagem muito própria, procuram filiá-la na tradição histórica académica, quer a nível dos materiais que utilizam, quer a nível da filiação do seu conteúdo nas correntes estéticas pré-definidas. Escusado será dizer que estes amateurs convivem hoje no mesmo espaço social e artístico com os profissionais da Arte. Da perenidade das suas obras e do resultado do seu esforço pessoal em transmitir emoções plásticas aos presentes e aos vindouros, só o incontrolável Tempo o dirá. Mas também as vicissitudes do percurso de cada obra de Arte. E tudo isto sem esquecer que «na Arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistência às correntes da tradição, é indispensável para a revivescência da invenção e do poder criativo, e para a obra, o artista e o comprador (Eça de Queirós, prefácio a O Mistério da Estrada de Sintra).
         De tudo isto encontramos no Salon d’Automne queirosiano que reúne uma vez por ano as obras dos sócios da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, a partir do curso de pintura do Solar Condes de Resende dirigido pela Professora Pintora Paula Alves, mas também da produção profissional organizada nos ateliers pessoais, do exercício pictórico individual amador, da oportunidade de reabilitação de obras que ficaram perdidas no tempo. Quanto à sua valia, «as obras de arte devem falar por si mesmas, explicar-se por si mesmas, sem terem necessidade de pôr ao lado um cicerone (Eça de Queirós, Correspondência, carta prefácio a Luís Araújo, 15.06.1887). Mas em todas as obras produzidas ou apresentadas neste contexto existe uma vontade de procurar alguma eternidade possível para a obra, o artista e o comprador.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Brevemente

130 Anos de Os Maias
No próximo dia 28 de novembro, no Restaurante Pedagógico do Agrupamento de Escolas Leonardo Coimbra Filho do Porto, haverá um Almoço Queirosiano no qual estará presente J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da Confraria Queirosiana, que dissertará sobre os 130 anos da edição de Os Maias.
A 29 de novembro, pelas 18,30 horas abrirá na Galeria do Piso Inferior do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian a exposição «Tudo o que tenho no saco. Eça e Os Maias», também alusiva aos 130 anos da publicação desta obra, de que é comissária científica e curadora Isabel Pires de Lima, estando presentes várias instituições culturais, nomeadamente a Confraria Queirosiana, que se fará representar pelo membro da direção Dr. Manuel Nogueira.
Também no dia 28 de novembro, pelas 18,30, no Auditório Eugénio de Andrade no Porto, a União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, promove mais uma sessão do ciclo Foz Literária intitulada «Uma Guerra com Letras pelo meio» em que será conferencista José Augusto Maia Marques, apresentado por José Valle de Figueiredo.
No dia 29 de novembro, no Solar Condes de Resende, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, pelas 21,30 horas J. A. Gonçalves Guimarães falara sobre «Atravessamentos do Rio Douro antes de haver pontes».
No dia 8 de dezembro, na Junta de Freguesia do Bonfim, Porto, haverá um debate sobre «Porto Património Mundial – cuidar dele e como?» em que serão palestrantes, entre outros, o arqueólogo António Manuel S. P. Silva e o biólogo Nuno Oliveira.

Eventos passados


Dagoberto Carvalho Júnior saúda o Capítulo em nome da Sociedade Eça de Queiroz do Recife, Brasil

Decorreu no dia de ontem, 24 de novembro, o 16.º capítulo anual da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende comemorativo do 173º aniversário de Eça de Queirós e dos 130 anos da 1.ª edição de Os Maias. As festividades iniciaram-se pelas 18 horas no salão nobre com a mesa constituída por Jose Manuel Tedim, presidente da direção, César Oliveira presidente da mesa da assembleia geral, Dagoberto Carvalho Júnior, da Sociedade Eça de Queiroz do Recife, Brasil, Luís Brás, em representação da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas e J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da confraria. A sessão foi abrilhantada pela Escola de Música de Perosinho através dos violoncelistas João Costa e Carolina Costa e da violinista Inês Marques que executaram obras de Bach e Paganini. No discurso de abertura o presidente da direção referiu as atividades da confraria em 2018 e as perspetivas para 2019 e apresentou a edição do livro Património Humano. Personalidades Gaienses, editado pelo seu Gabinete de História, Arqueologia e Património com o Patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; seguidamente César Oliveira apresentou as instituições presentes e Luís Brás referiu-se à importância das confrarias na promoção da Gastronomia Portuguesa, enquanto Dagoberto Carvalho Júnior falou sobre o abraço entre Portugal e o Brasil que sempre acontece em volta da obra de Eça de Queirós. Seguidamente Luís Manuel de Araújo, diretor da Revista de Portugal, nova série, apresentou o seu número 15 (ver abaixo) e o Prof. Doutor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa a exposição Ephemera da mesa: menus e outros documentos em Portugal e na Europa 1850 – 2018, patente nas salas contíguas e que foi mostrada ao público presente no final da sessão.
         Seguiu-se a insigniação dos novos confrades de honra e de número: Dr. Amadeu António Ribeiro Pêgas, advogado e membro do concelho fiscal da Fundação Eça de Queiroz, no grau de leitor; Prof. Doutor António Barros Cardos, professor universitário e presidente da APHVIN/GEHVID, louvado; Eng.º Manuel Hipólito Almeida dos Santos, engenheiro e administrador da Cerâmica do Douro; Dr. Fernando Rui Morais Soares, economista e Eng.ª Paula Cristina Martins Carvalhal, engenheira e vereadora do Pelouro da Cultura da autarquia gaiense, todos no grau de mecenas. Depois da habitual colocação de uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós existente no Jardim das Camélias pelos insigniados, seguiu-se o jantar queirosiano, com a atuação do grupo cantante Eça Bem Dito, que entoou canções napolitanas da Belle Èpoque, e da Academia de Dança Gente Gira abriu o Baile das Camélias.

 Palestras, conferências e cursos
No passado dia 7 de novembro decorreu no anfiteatro nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto um colóquio internacional e interdisciplinar intitulado «Poética das Lágrimas. Textos e contextos femininos (teoria e prática)», organizado pelo CITCEM e outras instituições onde, entre outros palestrantes, falou o médico psicanalista e ensaísta Jaime Milheiro sobre «Misteriosidade. Ocultação e Lágrimas».
No dia 8, no Museu Arqueológico do Carmo em Lisboa e promovida pela comissão de Arqueologia profissional da Associação dos Arqueólogos Portugueses, o arqueólogo António Manuel S. P. Silva proferiu uma conferência sobre «Deontologia profissional, associativismo, investigação e gestão do Património – Que Arqueologia neste século XXI?»  
No dia 9, na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, o historiador Francisco Barbosa da Costa realizou uma palestra sobre História de Gaia, numa sessão promovida pelo Lions Club local.
         No dia 16 decorreu no Arquivo Municipal de Gaia um encontro sobre «Grande Guerra e participação portuguesa: repercussões», o qual foi aberto pelo presidente da câmara Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, a que se seguiu a comunicação de Jorge Fernandes Alves sobre «A participação de Portugal na Grande Guerra: a escalada através dos documentos oficiais», seguida, entre outras, pela de J. A. Gonçalves Guimarães sobre «A “ Escola de Escultura de Gaia” e os Monumentos aos Mortos da Grande Guerra (1914 – 1918) em Portugal, França e Angola», sendo o encontro encerrado pelo vereador Dr. Manuel Monteiro.
         Nos dias 16 e 17 de novembro decorreu na Escola Sá de Miranda em Braga um encontro organizado pelo CITCEM e outras entidades sobre «Preservar a Memória (i)material da Escola», onde foram palestrantes, entre outros, Eva Baptista e José António Martin Moreno Afonso.
         No dia 17, no Solar Condes de Resende prosseguiu o curso livre “Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português”, com uma aula sobre «Música e ritual nas cerimónias fúnebres luso-brasileiras – séculos XVIII e XIX” pelo Prof. Doutor Rodrigo Teodoro.
         Nos dias 19 a 23 decorreu na Escola Secundária Eça de Queirós, Olivais, Lisboa, o IV Colóquio Internacional Luso-Brasileiro, Lusofonia: Realidade(s), Mito(s) e Utopia(s) e o XXIV Colóquio Eça de Queiroz/ Telheiras, onde foram palestrantes, entre outros, Alfredo Campos Matos, com uma «Apresentação da primeira versão francesa da biografia de Eça, na Gulbenkian de Paris com o título “Vie et Oeuvre d' Eça de Queiroz”»; Fernando Andrade Lemos e outros, sobre «A “Vessica Piscis” na igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu – Telheiras»; Luís Manuel de Araújo sobre «A Coleção Egípcia do Museu Nacional do Rio de Janeiro» e César Veloso sobre «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós».

Prémio Direitos Humanos 2018
         O júri do Prémio Direitos Humanos 2018, da Assembleia da República, constituído no âmbito da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, deliberou por unanimidade propor a atribuição do Prémio Direitos Humanos 2018, à Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos, de que é presidente da direção o Eng. Manuel Hipólito Almeida dos Santos,       pela sua atuação junto da população detida, designadamente através de visitas a estabelecimentos prisionais, do apoio a reclusos e suas famílias, contribuindo dessa forma para a humanização do sistema prisional e a reinserção dos cooptados por este sistema de privação da liberdade.
  
Revistas e Livros

No Capítulo da Confraria Queirosiana foi apresentado pelo seu diretor, Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, o número 15 da nova série da Revista de Portugal, com 96 páginas, cuja capa apresenta o busto do J. Rentes de Carvalho recentemente inaugurado no Solar Condes de Resende e da autoria de Hélder de Carvalho, sendo o número dedicado aos 50 anos da vida literária do escritor. No conteúdo, vários artigos de afetos, o editorial lembra os 130 anos da edição de Os Maias, a memória do comendador Fernando Fernandes, recentemente falecido, um artigo de J. Rentes de Carvalho sobre o falecimento de Fernando Peixoto há 10 anos, um artigo sobre «O regresso a casa» de J. Rentes de Carvalho e o seu espólio depositado no Solar Condes de Resende por J. A. Gonçalves Guimarães, uma notícia sobre a obra artística de Hélder de Carvalho, que, além do busto da capa e de um outro no interior teve honras de contra-capa com a estátua de Abel Salazar no Porto; segue-se um artigo de Felicidade Ferreira sobre «O Colégio da Lapa e a educação dos filhos da burguesia portuense do século XIX: o caso da família de Tomás António de Araújo Lobo»; uma notícia de Jorge Campos Henriques sobre «Eça de Queiroz e Aveiro – “O Solar dos Queiroses”: um triste fim»; de Susana Moncóvio «Anatomia de um caso: o retrato de homem com boina vermelha da Casa-Museu Egas Moniz» sobre uma errada identificação de um pseudo-retrato do escritor; de José Pereira da Graça «O processo do Colmeal (da Marofa): história, realidade, comentários e mitos», o desmontar de uma mentira construída no pós-25 de abril que até teve “honras” de filme televisivo; segue-se a bibliografia produzida em 2017 pelos sócios e confrades da Confraria Queirosiana e o Relatório de Atividades e resumo das contas desse mesmo ano.


Sobre os 25 anos de atividade da Associação dos Amigos de Pereiros, S. João da Pesqueira, e os projetos desenvolvidos durante este quarto de século, alguns deles em colaboração com a ASCR-Confraria Queirosiana, A. Silva Fernandes publicou recentemente esta elucidativa brochura.

Foi publicado o número 12 da revista Terras de Antuã Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, propriedade da Câmara Municipal, o qual apresenta os artigos de António Manuel Silva e outros sobre «Trabalhos Arqueológicos no Castro de Salreu, breve crónica da intervenção de 2018», e de Susana Moncóvio sobre «Uma obra do pintor Francisco Pinto Costa (1826-1869) na Casa Museu Egas Moniz, para além de outros temas locais.
Revista de inegável interesse que transcende o meio local, só é pena que, como muitas outras que nos vão chegando, seja de cansativa leitura por motivos meramente técnicos: artigos com um corpo de letra muito pequeno e impressa a “preto clarinho”, o que rapidamente cansa a vista a quem a quer ler.

O crime do Padre Amaro
A Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) acaba de lançar uma nova edição de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, a qual inclui uma análise textual concebida pelos professores do seu Instituto de Letras, Eduardo da Cruz e Sérgio Nazar David, que utilizaram os  parâmetros adotados pela edição critica preparada pelos especialistas Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, publicada em 2000, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Um Capítulo Queirosiano

Numa tarde bem fria e muito molhada
Num “cavalo” preto a Canelas rumamos
Convidados pela Confraria a Eça dedicada
Ao Solar Condes de Resende entramos
E a uma sala com lareira do Solar subimos
E logo, uma calorosa recepção sentimos

A abertura do XVI Capítulo 2018 chegou
Num nobre salão com história decorado
Muito do imortal Eça de Queirós se falou
Sobre as memórias nesta casa recordado
Enquanto a música enchiam os corações
Pelos ilustres se procedia às insigniações

Na calma e cheiro a bucho bem aparado
Com frouxa luz as camélias enxergamos
Num banco o Eça no seu modo sentado
Com a coroa, o Patrono homenageamos
Para esta chama viva ao Eça com história
À digna e prestigiada Confraria, sua vitória

Também o Eça a gastronomia enaltecia
E numa mesa a preceito, jus a Eça se fez
Era assim que nesta casa de Eça se fazia

Não só por terras de Vera Cruz Eça está
Como também pelo mundo Eça se alonga
Sopa do Vidreiro, Queirosianos recordará

Martingança, 25.11.2018
Confrade Octávio Rodrigues
(gran-escriba da Confraria da Sopa do Vidreiro)
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 123, domingo 25 de novembro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Confraria da Sopa do Vidreiro, Octávio Rodrigues.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Eça & Outras, quinta-feira, 25 de outubro de 2018



Não somos as nossas doenças

Recentemente o meu amigo Jaime Milheiro, ilustre médico psiquiatra e psicanalista pensador sobre as orfandades humanas, publicou um artigo na Revista da Ordem dos Médicos intitulado «Não precisamos de doença para morrer» onde, com a sua habitual clareza e sagacidade, enumera as três razões para cairmos na situação clínica e social de se “estar doente”: «Agressões externas…; Agressões internas…; Doenças propriamente ditas…». Vale a pena ler e refletir sobre este texto e os que se lhe seguirão. Acontece que quando me chegou às mãos tinha eu alinhavado este outro devido ao facto de recentemente ter sido dado como curado de uma doença. Não sendo eu médico, as minhas reflexões partem de um ponto de vista mais antropológico e da história social, mas confirmam completamente aquela sua asserção: doença e morte não são necessariamente sinónimas, bastando para tal lembrar a quantidade de pessoas saudáveis que morrem nas guerras ou nos desastres rodoviários. Creio que adoecemos porque: 1 – herdamos dos nossos antepassados aleijões genéticos para tal; 2 – ao longo da vida praticamos ou deparámo-nos com insuficiências e excessos (alimentares, comportamentais, conceptuais) que nos afastam dum inexistente equilíbrio biológico, fundamental para a sobrevivência; 3 – sofremos agressões físicas e culturais do meio em que vivemos, desde o clima, poluições várias, inadequado manuseio de máquinas e produtos artificiais, lutas com outros humanos, animais ou forças da natureza, exercício de práticas sociais violentas ou mutiladoras do físico ou da mente, e consequências do excesso de ocupação da paisagem pela civilização (os acidentes automóveis, por exemplo). Tendo cada um de nós à nascença uma muito pré-determinada esperança finita de vida, tudo aquilo que é doença (perda de autonomia do corpo ou da mente), pode afastar-nos da condição de cidadãos “normais” vivendo sossegadamente num determinado espaço e tempo, transformando-nos em doentes, seres dependentes do sistema de assistência controlado pelas indústrias, comércios e serviços farmacêuticos e de cuidados médicos, e também do Serviço Nacional de Saúde, cada um certamente com objetivos diferentes, mas convergentes na prática.
Ora a vida de um cidadão não pode nem deve reduzir-se às suas inevitáveis doenças, sob risco da sua existência não servir para grande coisa, nem para si próprio nem para os outros. Se quanto às heranças genéticas pouco podemos fazer, a não ser ter esperança na evolução das ciências médicas, mas controlando as suas inevitáveis perversidades, no que diz respeito às nossas enfermidades provocadas pelas insuficiências e pelos excessos, convém não esquecer que muitas delas são insidiosamente provocadas pela sociedade em que vivemos, mesmo pelas práticas culturais dos nossos grupos de conforto (família, “tribo”, clubes vários), ou por nós próprios, muitas vezes tendo consciência de tal, outras vezes nem por isso. Nem valerá a pena lembrarmos as doenças provocadas pelo tabagismo, alcoolismo, consumo exagerado de carne, fast food, bebidas açucaradas, cosméticos e produtos químicos, drogas legais e ilegais ou práticas sociais alucinatórias. Tentemos evitá-las (o que não é fácil) e, quando se revelam, descartá-las o mais rapidamente possível, o que implica, quantas vezes, o “mudar de vida” e de grupo social. O transformarmo-nos em consumidores compulsivos de cuidados médicos desnecessários é o mesmo que passarmos a ser uma espécie de drogados que, se bem que legais, têm os mesmos problemas de qualquer outro toxicodependente: não conseguiremos dispensar a “dose” nem as salas de “chuto” (clínicas, hospitais, centros de saúde…) para manter a vida no padrão que a sociedade nos impõe. Quanto às doenças que aparecem ou persistem após os traumatismos provocados por acidentes, tentemos não ser atropelados para os evitar. Mas ele há azares na vida.
Eça de Queirós sempre se queixou de problemas intestinais. Morreu doente relativamente novo, aos cinquenta e cinco anos, tendo buscado na ciência médica até ao fim uma panaceia para os seus males. Mas ele e a sua doença não coabitavam: «O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...», escreveu em Os Maias. Tinha bem a noção de que “uma fraca alma faz fraco o forte corpo”. Por isso também escreveu: «adoro a Vida - de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro - porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadáver rígido no seu esquife vive tanto como urna águia batendo furiosamente o voo. E a minha religião está toda no credo de Atanásio, com uma pequena variante: - Creio na Vida todo-poderosa, criadora do Céu e da Terra... » (A Correspondência de Fradique Mendes), mesmo sabendo que a vida é curta e que também a ele se aplicou «o conhecido verso de Malherbe sobre a rápida vida das rosas - que viveu o que vive um foguete, o espaço dum estalo e dum clarão» (O Conde de Abranhos).
Resta-me dizer-vos que, cá por mim, não tenciono aceitar as minhas doenças como condicionantes obsessivas da minha existência a prazo. Faço o possível por colocá-las no conveniente estendal da existência, lavando-as, secando-as e passando-as a ferro conforme as necessidades de continuarem a ser compatíveis com tudo o resto que me possa fazer feliz. Tento que para mim os serviços de saúde sejam uma boa lavandaria das mazelas do corpo, mas não os quero transformar nos meus templos de Orfeu.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos a decorrer ou a acontecer

Curso sobre Património Musical


No próximo sábado, dia 27 de outubro, terá lugar no Solar Condes de Resende pelas 15 horas a abertura do novo curso livre para o ano letivo 2018/2019, sobre “Música & Músicos. Aspetos do Património Musical Português”. Como habitualmente, no início da sessão serão chamados os professores e alunos do curso anterior sobre o Património Cultural de Gaia para a entrega dos certificados de frequência e dos CD com a documentação do mesmo. A sessão será presidida pelo Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gala, que após este ato, como sociólogo e professor, dará a aula de abertura do curso subordinada ao tema “Sociologia da Música”. Estarão igualmente presentes o Prof. Doutor José Manuel Tedim, presidente da ASCR-CQ e diretor da Academia Eça de Queirós e J. A. Gonçalves Guimarães diretor do Solar e coordenador dos cursos. Esta sessão é de entrada livre; a frequência das restantes sessões do novo curso implica inscrição prévia.

O Trabalho do Historiador


Nesta semana de 22 a 26 de outubro a Editorial Caminho está a promover na Livraria Buchholz em Lisboa uma homenagem a António Borges Coelho nos seus 90 anos, através de um ciclo de palestras intitulado «O Trabalho do Historiador». São conferencistas: Cláudio Torres, diretor do Campo Arqueológico de Mértola; Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo; Vítor Serrão, diretor do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Manuel Loff, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Hermenegildo Fernandes, diretor do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A entrada é livre.

150 anos do Torne

Prolongando no tempo as comemorações dos 150 anos da Igreja e Escola do Torne, Vila Nova de Gaia, decorre hoje, dia 25 de outubro pelas 21,30 horas no Solar Condes de Resende uma palestra sobre o tema “Os 150 anos do Torne: uma evocação histórica”, pelo historiador António Manuel S. P. Silva.
O encerramento oficial desta evocação decorreu no passado dia 20 de outubro e constou de um momento devocional na Igreja de S. João Evangelista, seguido do descerramento de uma lápide na fachada do edifício da primitiva capela-escola fundada pelo industrial Diogo Cassels em 1868, a que se seguiu um almoço de confraternização entre antigos e atuais dirigentes e membros desta comunidade da Igreja Lusitana e dos seus organismos sociais de educação e assistência, tendo estado presentes autoridades civis (Câmara Municipal) e religiosas (Diocese do Porto, igrejas paroquiais de Santa Marinha, Mafamude e capelania da Serra do Pilar da Igrejas Católica, paróquias do Prado e do Candal da Igreja Lusitana e Igreja Metodista do Porto), bem assim como outras instituições, e também cidadãos sem filiação religiosa que frequentaram as suas escolas e onde, no espírito do fundador, nunca foi feita qualquer descriminação religiosa ou social.
Seguiu-se uma sessão de encerramento no auditório do Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, onde foi apresentada por D. Fernando da Luz Soares, bispo emérito daquela igreja, a reedição do livro A Reforma em Portugal, da autoria de Diogo Cassels, pela primeira vez publicado em 1908, complementada com uma visita à exposição “Torne um lugar na história” ali patente, guiada pelo seu curador, o acima referido, historiador António Manuel S. P. Silva, que é também o autor do respetivo catálogo-guia, um muito bem ilustrado e documentado volume de 90 páginas que aborda todos os aspetos desta instituição ao longo deste século e meio.
Entretanto o antigo aluno da instituição, Doutor Joaquim Armindo Pinto de Almeida, diácono da Igreja Católica, ofereceu à associação dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana o seu arquivo pessoal com documentos do auto-organizado grupo dos Jovens do Torne, que na segunda metade dos anos sessenta e na primeira dos anos setenta reunia no já demolido Salão Paroquial, para debater as grandes questões da época, tais como o movimento Maio 68, a Guerra Colonial, Guerra do Vietnam, movimento ecuménico; democratização da sociedade; acesso ao ensino, libertação da mulher e outros, organizando aí programas culturais e de intervenção cívica.

Salon d’ Automne Queirosiano 2018
No próximo dia 10 de novembro, logo após a aula do curso livre “Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português” que decorrerá no Solar Condes de Resende, lecionada pela Prof.ª Doutora Elisa Lessa da Universidade do Minho sobre “Os órgãos ibéricos: instrumentos, textos e contextos no noroeste português”, pelas 17,30 abrirá ao público a 13.ª edição do Salon d’ Automne Queirosiano 2018, que apresentará trabalhos artísticos dos sócios dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, constituídos por pinturas, desenhos, cerâmicas e esculturas de amadores e profissionais, nomeadamente os trabalhos dos alunos do curso de Pintura que ali funciona dirigido pela Professora Pintora Paula Alves. A exposição estará patente ao público até ao final do ano.

Feira de S. Martinho
No dia 11 de novembro, também no Solar Condes de Resende será celebrada a tradicional festividade outonal da Feira de S. Martinho. Para além dos vendedores de diversos produtos tradicionais e artesanato, nomeadamente da região duriense (Pereiros, S. João da Pesqueira), atuará o grupo cantante Eça Bem Dito com canções tradicionais italianas do século XIX e outras canções populares portuguesas.

III Encontro do Grupo Eça

Nos dias 26 e 27 de novembro decorrerá na Fundação Eça de Queiroz em Baião o IIIº Encontro do Grupo Eça, organizado por este grupo representado pelo Professor Doutor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, e pela instituição anfitriã, e ainda pelas universidades de São Paulo e Federal do Ceará e o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, subordinado ao tema «O Mandarim, A Relíquia e as suas fricções». Será conferencista, entre outros, Isabel Pires de Lima, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que falará sobre «”Tudo o que tenho no saco…” – Eça e Os Maias», o título da exposição a inaugurar no dia 29 de novembro na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, constituída por sete núcleos temáticos. Destinada ao universo do público queirosiano, a exposição terá nos estudantes do ensino secundário um dos seus público-alvo, que aí poderão confrontar este «romance charneira» do escritor com a sua biografia, iconografia e geografias física e ficcional. Privilegiando as imagens da vastíssima iconografia eciana, quer da contemporânea do escritor quer da posterior, incluindo o cinema, serão igualmente apresentados alguns documentos originais relevantes tratados de maneira a proporcionarem um frutuoso diálogo com os visitantes.

Eventos passados

Convenção Brasil-Portugal
No passado dia 15 de outubro decorreu no auditório da Associação Empresarial Portuense a Convenção Brasil-Portugal “Acelerando Oportunidades de Negócios”, organizada pelo Group Your Job, Our Work, pelo Grupo Gestão RH e apoiada por várias empresas, entre elas a Urbiface, de que é gestor o Dr. António Pinto Bernardo.

Federação das Confrarias Gastronómicas
No dia 12 de outubro decorreu na sede da Confraria Nabos e Companhia em Carapelhos, Mira, uma assembleia geral destas associações filiadas na Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas com um único ponto na ordem de trabalhos: decidir sobre a possibilidade de os atuais corpos gerentes poderem recandidatar-se a um terceiro mandato nas próximas eleições. Tendo muitas delas estado presentes, a proposta dos atuais órgãos sociais foi aprovada por larga maioria, tendo havido apenas um voto em branco. De seguida, na simpática sede da confraria anfitriã, decorreu um jantar onde foram apresentados os saborosos produtos locais, de entre os quais polvo ensalsado, peixinho da praia frito, sopa de nabiças, sardinha na telha e rojões com grelos, tudo de excelente qualidade e primorosamente confecionado pelos confrades locais. A Confraria Queirosiana esteve representada por Susana Móncóvio e J. A. Gonçalves Guimarães.

Visita guiada
No dia 6 de outubro, para os sócios da Associação Cultural Amigos de Gaia, o historiador da Arte e presidente da direção dos ASCR – Confraria Queirosiana, Prof. Doutor José Manuel Tedim, conduziu uma visita guiada à igreja de Vilar do Paraíso, cuja capela-mor, de notável interesse artístico, era a capela particular do solar dos Camelos, aí se encontrando o panteão dos membros desta família gaiense que se ligou, por casamento, a D. João de Castro, vice-rei da Índia e a Tomé da Costa, morgado da Casa de Canelas, depois Solar Condes de Resende.

Livros

Lançamento do 1.º volume do PACUG


No passado dia 5 de outubro, no salão nobre dos Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia, decorreu a sessão de lançamento do 1.º volume do Património Cultural de Gaia, intitulado Património Humano. Personalidades Gaienses, projeto patrocinado pela Câmara Municipal e em execução pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana. A mesa foi presidida pelo presidente da edilidade, Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, que na ocasião falou sobre as grandes metas orçamentais para o desenvolvimento do concelho e em particular dos projetos culturais. Estava ladeado pelo coordenador-geral do projeto, J. A. Gonçalves Guimarães, que dissertou em volta do conceito de Património e das ambições deste projeto, e pelo Professor Doutor Gonçalo Vasconcelos e Sousa, coordenador do volume, que falou sobre as suas caraterísticas e os critérios de seleção das biografias apresentadas. Também presentes os coordenadores de volume António Manuel S. P. Silva, José Manuel Tedim, Nuno Resende e Teresa Soeiro, e os autores deste volume, António Conde. António Lima, Eva Baptista, José Augusto Sottomayor-Pizarro, Laura Sousa, Licínio Santos, Maria de Fátima Teixeira, Paula Leite Santos, Paulo Costa, Susana Guimarães, Susana Moncóvio e Virgília Braga da Cruz, o quem o presidente entregou um exemplar e agradeceu a colaboração neste projeto. Para além desta cuidada edição está prevista uma outra destinada ao mercado livreiro.

Tongobriga
           
Nesse mesmo dia feriado foi lançado na Casa das Artes no Porto, ao mesmo tempo que um vídeo-filme, o livro “guia arqueológico visual” intitulado Tongobriga, o espírito do lugar, da autoria de António Manuel de Carvalho Lima e Joan Menchon i Bes e editado pela Direção Regional de Cultura do Norte e pela Câmara Municipal de Marco de Canaveses. Destinado a ser o companheiro confidente de uma demorada visita às ruínas romanas do Freixo, apresenta este povoado, não apenas de forma descritiva mas também fotográfica e reconstrutiva, através da sobreposição de transparências impressas a cores, dando uma panorâmica desde as suas origens, através da descrição da vida dos seus habitantes, dos seus principais edifícios e das transformações ocorridas ao longo dos últimos dois mil anos, não apenas numa perspetiva local, mas também regional, peninsular e europeia.


Lamego

Com o título «Um Rico Pano. Antologia de Verso, Prosa e Imagem de Lamego», Nuno Resende apresenta-nos uma viagem à antiga cidade da Beira Douro, desde o século XVI até ao século XX, através do testemunhos de autores do passado e dos nossos dias, de tal modo que o teve para tal de obter os direitos sobre textos cujos autores ainda estão vivos, ou junto dos herdeiros daqueles que, tendo já falecido, os seus escritos estão protegidos por lei, coisa rara entre nós, pois a roubalheira intelectual é tida como “normal”. Dessa obrigação nos dá conta e tal escreveu a páginas 53 para quem quiser aprender como se faz. Na introdução apresenta fichas biográficas e bibliográficas, ativa e passiva, de todos os autores chamados à tessitura deste pano, a que se seguem as descrições e recordações sobre esta terra antiga, nobre, hoje farta de vinhas e outrora de cereais, presuntos e castanha, hospitaleira, tribal, joia de granito, ouros e bordaduras de finezas sem igual. Uma seleção de raras imagens, fotografias, postais, estampas, rematam esta preciosa edição destinada a demorados passeios nas suas páginas.

Gaia 2013 – 2018

No passado dia 18 de Outubro foi lançado no Auditório Municipal de Gaia o livro Gaia: Desenvolvimento Sustentável. Cidade Inteligente 2013 – 2018, editado pela Câmara Municipal, e que disponibiliza em forma de livro, numa versão mais compacta e atualizada numa perspetiva de balanço e prospetiva, o Relatório das Atividades e das Contas do ciclo iniciado em 2013, ilustrado com gráficos e mapas demonstrativos do exercício e dos resultados alcançados. Apresentado por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da edilidade, dele consta o seguinte: «9.32. Em parceria com a Confraria Queirosiana e inúmeros investigadores de renome, a câmara avançou para a criação do roteiro do Património Cultural de Vila Nova de Gaia (PACUG), uma obra em 10 volumes que tenciona marcar a identidade histórica de Gaia» (p. 72/73). Esta apresentação foi complementada com um concerto de Jorge Palma.

Dicionário de Estudos Narrativos


No próximo dia 13 de novembro decorrerá na Universidade Estadual do Rio de Janeiro a apresentação e lançamento do Dicionário de Estudos Narrativos da autoria de Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra, recentemente editado pela editora Almedina, com a presença do autor que será apresentado por Roberto Acizelo, docente daquela universidade.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 122, quinta-feira, 25 de outubro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Eça & Outras


A minha aldeia

         Quase todos nós temos uma aldeia de estimação. Ainda que citadinos, e até às vezes nascidos numa grande metrópole, por via dos pais, dos avós ou dos sogros, ou por outras razões mais estranhas, todos queremos pertencer a um pequeno mundo perdido entre a possível ruralidade e o abandono do interior, às vezes logo ali numa periferia urbana, atrás de qualquer paisagem cuja janela se tem de abrir. Muitas vezes, os que ainda lá habitam, nem sabem que nos arrogamos o direito de também querer ser um deles, ainda que de passagem ou á distância dos quilómetros da vida que nos separa. A nossa aldeia, pode não ser «a mais bonita de Portugal» - o título já tem dona -, pode até nem ser muito «histórica», ou muito «vinhateira», ou muito sabe-se-lá-que-mais, mas ela tem sempre algo único, que mais nenhuma outra tem seja aqui seja na Patagónia: o sino da igreja com um tlim-tlom único que às vezes ouvimos à distância de continentes; o banco de pedra onde se sentou a rainha D. Tal, o teixo que dá a sombra mais fresca do mundo, a água da fonte que mais ardores desperta, o pão que jamais diabo algum amassou, a mina de ouro que, quando for descoberta, tornará Portugal um emirato do Golfo, enfim, não pensem que apenas uma única exclusividade a carateriza, mas várias, pois quando algum extranho mais veemente nos diz que na aldeia dele isto ou aquilo também é assim, logo tiramos novo trunfo da manga sobre qualquer outra insolitude local que o estatela no chão a sua ignorância, pelo menos enquanto ele não estuda melhor a sua aldeia e a nossa. Com tanto amor por ela, não se compreende muito bem porque é que está neste estado de abandono. Não sabemos de quem é a culpa mas, como é sabido, e já o dizia a locutora do PPM nas eleições de 1975, «só simpatia não chega». Também não é dos que lá ficaram, dos que lá resistem enquanto ardem os eucaliptais em volta e a aldeia no centro, os quais, tendo passado a vida a cultivar aqueles inesquecíveis melões, ainda são acusados de não terem transformado o velho solar, cujos donos vivem em Cascais, num resort de luxo.
Isto é o normal nas nossas aldeias de estimação que já são poucas. Em grande parte das outras passam-se agora incríveis fenómenos de promoção mediática. Quando ali voltamos passado um ano, como quem vai em excursão ao Tibete, e reparamos melhor na sua população na festa anual, ocorre-nos logo o que escreveu Eça de Queirós quando estava um ano sem vir a Portugal: «desola-me a população anémica. Que figuras! O ar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores de pele de galinha, um derreamento de rins, o aspeto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquética em corredores de hospital: e depois um ar de vadiagem, de ora aqui vou, sim senhor, de madracice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida... (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas, «Ramalho Ortigão»). Ou seja o encanto da aldeia que tínhamos imaginado, esfumou-se. As sadias raparigas de outrora, já não moram cá e quando voltam trazem estranhas roupas habituais no Sri Lanka, pintam o cabelo que supúnhamos juvenil e encavalitam-se agora nuns sapatos de difíceis tacões que brigam com a calçada onde ela ainda não foi alcatroada para os tratores pouparem os pneus subsidiados. Diz-se que algumas já fizeram dez cursos de formação de apanha de romãs, mas o sonho delas é trabalhar na caixa ou na câmara.
Os que tiveram que emigrar, com o dinheiro que entretanto se lhes começou a crescer, transferiram a arquitetura tradicional da Alsácia-Lorena para a Beira Alta. Uma comissão local de melhoramentos, que promove a festa de verão com um programa “cultural”, onde constam caminhadas e jogos de futebol, despediu o velho S. Gregório, cuja evocação era a 9 de maio sem concorrência de emigrantes, substituindo-o pela Nossa Senhora do Bom Sucesso, celebrada a 15 de agosto, dantes o dia das “sete senhoras” mas agora de muitas mais. O largo da aldeia, onde dantes se erguia alto um frondoso carvalho que entretanto secou por junto dele assarem os porcos para as sandes vendidas para ajudar a paróquia, está em vias de ter monumento. Se noutros tempos se chamou do Marechal Carmona, e depois do Povo, vai passar agora a ostentar o nome de Artur Botelho, o autor de A Europíada, um calhamaço em versos pretensamente camonianos sobre a 1.ª Grande Guerra, mas com XXV cantos, que para o bate-cu dos serranos deixados à sua sorte lá na Flandres os dez de Os Lusíadas não chegavam. O presidente da comissão promotora da homenagem, o Senhor Calhorda, condecorado com a medalha da Ordre Nationale du Mérite e já muito esquecido das suas primeiras e únicas letras, quando se refere à obra pronuncia o título como “A europiada”. Não se apercebendo da razão do efeito hilariante que tal provoca nuns doutores da CCRC que estudaram para padres, mas agora são gestores de verbas comunitárias, também não percebe as reticências que eles têm posto à concessão do subsídio para verem ali gravado num monumento de uma aldeia portuguesa a velha rivalidade franco-alemã, pela qual dois mancebos dali naturais deram a vida nos idos de 1918. Sendo certo que agora somos todos amigos e europeus, então nada impede une jumelage avec une mairie de França e uma outra da Alemanha. E com tudo isto, reportagem na CMTV garantida, talvez até telenovela na RTP, como diz o presidente da União de freguesias da Aldeia de Cima com a Aldeia de Baixo, que já sonha com visitas reciprocas. Mas tirando esta hipótese de progresso, a aldeia manterá o seu sossego, ainda que arqueológico, por mais quinhentos anos, apenas mudando a paisagem do cimo dos montes onde vão passar a zunir uns gigantíssimos vira-ventos que produzem eletricidade e matam as grandes aves que voam distraídas.
Tenho alguns amigos, verdadeiros d. quixotes, que têm lutado serena e discretamente ao longo da vida pela melhoria sensata das suas aldeias de estimação, tentando manter-lhes, ou até acrescentar-lhes, mais-valia à dignidade que sempre possuíram. Creio que continuam a pensar sobre o assunto como ouviram em meninos na lição da catequese: no início das suas vidas a sua aldeia era como o paraíso na Terra; depois uma vontade superior expulsou-os de lá, certamente por terem comido as maçãs que não deviam. Não se sabe muito bem o que entretanto aconteceu, mas quando a vida lhes permitiu voltar a dar-lhe atenção já ali alguma coisa tinha mudado para sempre. Mas eles continuam a ir lá, a la recherche du temps perdu. É uma teimosia como outra qualquer, mas esta quase épica nos tempos que correm: a derrota é certa mas a causa é nobre.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Palestras
Na habitual palestra da última quinta-feira do mês no Solar Condes de Resende, no próximo dia 27 de setembro, pelas 21,30 horas o Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-Confraria Queirosiana promove mais uma palestra sobre uma incontornável figura pública oitocentista, desta feita o Marechal Duque de Saldanha, um herói romântico de quem no seu tempo se disse “Ele poderia ter sido um rei”. Será palestrante o historiador J. A. Gonçalves Guimarães.

Jornadas Europeias de Património

No próximo dia 27 de setembro, pelas 18 horas, decorrerá no Palácio Nacional da Ajuda em Lisboa a apresentação do Programa Nacional das Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema “Partilhar Memórias” e de que é coordenador Guilherme d’ Oliveira Martins. Em Vila Nova de Gaia, como habitualmente, o Solar Condes de Resende, em colaboração com a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana acolherá uma sessão integrada nestas Jornadas que decorrerá no dia 29 de setembro, sábado, a partir das 15 horas, durante a qual serão oradores os historiadores J. A. Gonçalves Guimarães, Susana Guimarães e Susana Moncóvio.

Em Avintes, no Trilho do Febros, no mesmo dia e à mesma hora, o historiador Paulo Jorge Sousa Costa irá falar sobre «Se a água falasse… Memórias da toponímia ribeirinha».
Em Lamego, também integrado nestas Jornadas, no Teatro Ribeiro Conceição decorrerá o lançamento do livro Um Rico Pano: Antologia de Verso, Prosa e Imagem de Lamego da autoria de Nuno Resende, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apresentado por José Pacheco Pereira.


Curso sobre Património Musical
A partir de 10 de novembro próximo vai decorrer no Solar Condes de Resende o seu 26 curso livre desta vez sobre Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português. Pela primeira vez um curso sobre aspetos inéditos ou pouco conhecidos com especial incidência em compositores de Gaia e do Norte de Portugal, mas com a dimensão universal da Música. As aulas recorrerão à audição de excertos das obras referidas e ao complemento da indicação de concertos ao vivo onde as mesmas sejam tocadas durante o período em que decorre o curso.
O Solar Condes de Resende assinala assim o centenário do nascimento do compositor César Morais, num curso que falará de Scarlatti em Portugal, Artur Napoleão, Armando Leça, Jorge Fontes, Pedro Freitas Branco e muitos outros compositores e intérpretes desde a música antiga até à contemporânea, da música popular à erudita. Serão professores Cesário Costa, Daniel Cunha, Eduardo Vítor Rodrigues, Elisa Lessa, Helena Lourosa, Henrique Luís Gomes de Araújo, J. A. Gonçalves Guimarães, Jorge Castro Ribeiro, José Manuel Tedim, Mário Mateus, Rodrigo Teodoro e Rosário Pestana. Aos inscritos será passado um certificado de participação e entregue um CD com textos dos professores sobre os diversos temas das aulas.

Livros

No âmbito das comemorações dos 150 anos da Igreja e Escola do Torne (ver baixo) foi lançada a 2.ª edição do livro Diogo Cassels 1844-1923. A praxis ao serviço da fé de Fernando Peixoto, versão sintetizada da sua dissertação de mestrado apresentada na FLUP em 1995, publicada em versão integral em 2001 e a primeira edição desta síntese em 2005. Publicada na série Biografias pela editora Iniciativas Criativas, esta edição apresenta-se com um prefácio de D. Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, e um posfácio de Helena Peixoto e de José António Afonso sobre o percurso biográfico, académico e profissional do autor falecido em 2008. Este livro foi também apresentado na Feira do Livro do Porto no passado dia 22 de setembro na Galeria Municipal com a presença de Gaspar Martins Pereira.

Governadores civis de Leiria
No dia 21 de setembro no Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, na igreja da Misericórdia local, foi lançado o n.º 17 dos Cadernos de Estudos Leirienses que, entre vários outros estudos, apresenta o de Ricardo Charters d’Azevedo sobre “Os governadores civis de Leiria”.

No dia 22 de setembro, no salão nobre da Junta de Freguesia de Vermoim, Maia, foi lançado a obra coletiva A Mulher da Maia – da periferia à urbe portuense (final do século XIX – início do século XX), editada pelo Clube UNESCO da Maia. Entre os temas apresentados, o Dr. Gabriel Gonçalves escreveu um capítulo sobre “As Pinheireiras” e um sobre “As Leiteiras”, este em co-autoria.


No próximo dia 7 de outubro em Pereiros, S. João da Pesqueira, vai ser lançado um novo livro de A. da Silva Fernandes intitulado Singularidades e Curiosidades da Aldeia (devidamente desordenadas). Depois da publicação de outros títulos seus e alheios sobre este pequeno mundo duriense que tem ajudado a permanecer e a reabilitar para transmitir às gerações vindouras, este livro privilegia a linguagem fotográfica, de tal modo que o autor recusou-se a sobrecarregar a imagem da capa com o título e o seu nome, que apenas figuram na lombada e no rosto. Editado pela Associação dos Amigos de Pereiros, esta edição tem o apoio da ASCR-Confraria Queirosiana e será apresentada por J. A. Gonçalves Guimarães.

150 anos do Torne
        

Fundada em 1868 por Diogo Cassels, um industrial de origem britânia nascido no Porto e estabelecido em Vila Nova de Gaia, comemora-se este ano os 150 anos da Igreja e Escola do Torne, localizada no lugar deste nome em Vila Nova de Gaia, instituição pertencente à Igreja Lusitana, mas que desde sempre acolheu alunos na sua parte educativa sem discriminações confessionais. As comemorações são organizadas pela paróquia de S. João Evangelista e pela Associação das Escolas do Torne e do Prado, e do programa consta a mostra documental Torne (1868-2018), um lugar na história, aberta ao público no passado dia 20 no Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, a qual encerrará ao público no dia 20 de outubro com a reedição da obra de Diogo Cassels A Reforma em Portugal, pela primeira vez publicada em 1908. Nesse mesmo dia haverá um almoço de confraternização de membros daquela congregação religiosa e de antigos alunos das escolas do Torne e do Prado, muitos dos quais são hoje cidadãos empenhados na vida local e nacional.

Prémio Villa Portela
Instituído por Ricardo Charters d’Azevedo e promovido pela Câmara Municipal de Leiria e pelo Centro de Património da Estremadura (CEPAE) está a decorrer até ao dia 15 de outubro o prazo para entrega de trabalhos candidatos à 4.ª edição do Prémio de História Local Villa Portella, que incide sobre projetos de investigação que abranjam a área do Distrito de Leiria e Concelho de Ourém. A entrega do prémio será feita em cerimónia a realizar pela Câmara Municipal de Leiria

Viagem ao Egito faraónico
         Regressaram recentemente de mais uma viagem cultural ao Egito faraónico, conduzida pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um grupo de alunos e outros interessados, que visitaram com particular agrado uma boa parte do trajeto percorrido em 1869 por Eça de Queirós e o Conde de Resende. Para o próximo ano já estão programadas duas viagens guiadas pelo mesmo egiptólogo, a primeira entre 18 de abril e 1 de maio (Férias da Páscoa) e a segunda no verão. A organização das viagens é da agência Novas Fronteiras.

Port Wine Day
No passado dia 10 de setembro decorreu no Cais de Vila Nova de Gaia, na Loja de Informação Turística, o Port Wine Day organizado pela divisão de Turismo da Câmara Municipal local. Para além do produto de referência, de que foram abertas várias garrafas segundo o método da tenaz aquecida que quebra o gargalo, o espaço apresentava uma mostra de trajos das confrarias gaienses, tendo estado presentes a Confraria da Broa de Avintes e uma delegação da Confraria Queirosiana que apreciou a mostra de doçaria e chocolates, tendo o Rancho Folclórico de Mafamude interpretado várias danças e cantares do Entre-Douro-e-Vouga.
A Confraria Queirosiana festejou este dia com o seu Porto 20 ANOS, produzido pela Quinta da Boeira, Vila Nova de Gaia.

Exposição sobre Mário Cláudio
            No Centro Mário Cláudio em Paredes de Coura está patente ao público desde 8 de setembro a exposição “Anos 60 – A Juventude de um Escritor”, que apresenta uma mostra documental biográfica sobre o autor de As Batalhas do Caia. Nos painéis, textos e ilustrações sobre a Guerra Fria, os Hippie e outros movimentos contestatários, a Sociedade de Consumo, as motivações da Juventude, os Beatles, e a canção-hino de Wellington Almeida Pinto “Para não dizer que não falei de flores”, cantada em 1968 por Geraldo Vandré contra a ditadura brasileira e, por extensão, contra todas as ditaduras da época, mais conhecida por “Caminhando e cantando…”.

Convívios
              No próximo dia 3 de outubro decorrerá no restaurante Monte Aventino no Porto um novo almoço convívio dos antigos alunos do Liceu Alexandre Herculano daquela cidade. Estes encontros regulares, para além de alimentarem o espírito de camaradagem, servem para trocar impressões sobre a situação daquela antiga e prestigiada escola de ensino secundário e de memorabilia a ela referente, nomeadamente fotografias e números do jornal Prelúdio.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 121, terça-feira, 25 de setembro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685;
NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154;
email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.