sexta-feira, 25 de maio de 2018

Eça & Outras



O escritor J. Rentes de Carvalho no Mercado de Gaia
J. Rentes de Carvalho de regresso a casa

            Este mês de maio o escritor J. Rentes de Carvalho (JRC) regressou a casa, à terra que o viu nascer. Foi ele próprio quem escreveu «Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930», logo no início do romance Ernestina. Daqui saído para Viana do Castelo em 1945 e daí para muitos outros lugares no mundo, desde 1956 radicado em Amsterdam e daí regressado a Estevais do Mogadouro, a terra dos antepassados, muitas vezes deve ter pensado voltar à sua terra de nascimento, mas tal não tem sido fácil, não pela resistência do escritor, mas por um, talvez divertido, conjunto de circunstâncias. Qualquer um de nós o pode fazer, sossegado, anónimo, disfarçado de turista, mira e remira, mete conversa, tira fotos, chega a casa e confronta memórias, separa a ganga da fantasia do minério da possível verdade, e pronto. Sabe quem é, de onde veio, que grandes e pequenas coisas carrega desde a infância. Mas para J. Rentes de Carvalho não tem sido assim, e no entanto nunca “arredondou” o local do seu nascimento, como outros candidatos à celebridade, falhos de geografias, que aqui tendo nascido, se dizem “do Porto”, quiçá da Torre dos Clérigos.
Até tempos recentes, o Município de Gaia, entretido com as suficiências locais, ignorava nomes como Afonso Ribeiro, Fernando Azevedo, António Sampaio, Eduardo Luís, Jorge Fontes, Simões da Hora, António Reis e tantos outros que, como J. Rentes de Carvalho, se distinguiram noutras terras. Curiosamente tem homenageado alguns “rabelos e rabelas” que pouco ou nada lhe têm dado. JRC desde sempre tentou retribuir à sua terra natal o luminoso acaso de aí ter descoberto a criação do seu mundo. Mas não tem sido fácil. Tendo aqui vivido na infância os cenários reais do Aniki-Bóbó, procurou sempre acompanhar a evolução da cidade e do município e até meter as suas prendas nos livros-roteiro que foi escrevendo sobre Portugal. A 23 de março de 1987 enviou uma carta de Amsterdam para a Biblioteca Municipal, na qual pedia alguns elementos sobre a realidade local, mas pôs no envelope a morada da Câmara Municipal. Esta (o presidente? A chefe da secretaria? O contínuo que fazia a triagem do correio?) devolveram a carta para a Holanda por a morada estar “incorreta”, como se não soubessem onde era a Biblioteca Municipal! Pacientemente JRC lá longe descobre a morada certa e volta à carga em abril seguinte, e desta vez obtém resposta de alguém que sabia quem ele era e do prestígio que já então tinha na cultura portuguesa, e que tenta salvar a “honra do convento” enviando-lhe «duas grandes e pesadas caixas, onde além das informações que eu esperava [JRC] me eram ainda mandadas mostras de carinho». O escritor agradece os elementos enviados e renova a fé na «constância das tantas coisas que a nossa terra continua a ter». Em 1987 o Gaia Semanário publica um conto seu, a que outros se seguem, confidenciando então o autor que de «todos os livros que até agora publiquei, as centenas, se não milhares de artigos que tenho publicado nos jornais, poucos foram os que me deram um sentimento igual». Ainda em junho desse ano aquele semanário publica uma outra carta do escritor dirigida a Hélder Pacheco onde conta as suas raízes gaienses, e em junho do ano seguinte Alberto Andrade, ex-diretor daquele jornal, entretanto extinto, publica no Boletim dos Amigos de Gaia uma «Notícia sobre um escritor holandês chamado Rentes de Carvalho». Em 1992 a Câmara atribui-lhe a medalha de ouro de mérito municipal, mas que só virá a entregar-lhe em 2001 quando finalmente o escritor vem a Gaia em visita restrita para a qual nem sequer foram convidados aqueles que em Gaia o conheciam e que estudavam e divulgavam a sua obra.
            Em março de 2005, estando o autor destas linhas de férias em S. João da Pesqueira, com a equipa do Gabinete de História, Arqueologia e Património a estudar S. Salvador do Mundo, o amigo comum Nelson Rebanda avisou-me que JRC estava em Estevais, e logo decidi ir visitá-lo e, finalmente, conhecê-lo pessoalmente, o que fiz com as colegas Maria de Fátima Teixeira e Eva Baptista. Mas fomos ter à aldeia de Estevais errada, onde naturalmente ninguém o conhecia. Só depois de muita curva chegamos a Estevais do Mogadouro, onde nos indicaram logo a sua casa que recebeu esta inesperada delegação gaiense de braços abertos. Falamos-lhe então da Confraria Queirosiana e ficou o convite para dela vir a fazer parte, o que veio a acontecer no capítulo realizado no Solar Condes de Resende em novembro seguinte. Confiado na instituição, logo nas visitas seguintes ofereceu à sua guarda muito do seu espólio português e da sua passagem pela Universidade de Amsterdam, concretizando a oferta através de protocolo assinado a 19 de junho de 2011 numa visita da Confraria a Mogadouro. Entretanto em abril de 2007 o escritor voltara de novo a Gaia, tendo-se então realizado uma sessão sobre a sua vida e obra na Casa Barbot. No dia seguinte, fizemos uma peregrinatio ao Monte dos Judeus, onde entretanto um influente local tinha mandado edificar um mamarracho indescritível que espera por melhores dias, e à Afurada, onde o pai de JRC, embevecido, um dia o pôs a cantar o fado no posto da Guarda Fiscal.
            Mais de um ano depois, em julho de 2008 recebo um e-mail de uma instituição que pretendia divulgar a sua obra, propondo, entre muitas outras coisas, que «a Homenagem póstuma ao Escritor completará ainda esta iniciativa». Respondi: «Tanto quanto sei o Prof. Rentes de Carvalho está vivo e não tenciona morrer brevemente pelo que tudo leva a crer que será difícil fazer-lhe uma homenagem póstuma nos tempos mais próximos. Para lhe ser feita uma homenagem em vida, que aliás merece, penso que o primeiro passo seria…contactá-lo por escrito…». Não sei se o fizeram, mas entretanto continuamos a nossa troca de correspondência e a ir visitá-lo a Estevais sempre que voltava da Holanda. O que então mais me doía era não haver em Portugal uma boa e renovada edição das suas obra, que incluísse as publicadas na Holanda entre nós desconhecidas. Falei então com a responsável pelas Edições Gailivro e que sim senhor, estavam interessados em fazer-lhe um contrato para a edição das “Obras Completas”. Já era um começo para Gaia e a Pátria se redimirem de distrações. Mas pouco depois a Gailivro é vendida ao grupo LeYa e antes disso dá como sem efeito o contrato com o escritor. Este encolhe os ombros, habituado que estava a que o seu país o ignorasse. Senti uma enorme frustração, jurando vinganças não sei bem a quem.
            Entretanto, talvez por indicação celestial de Eça de Queirós, que segundo J. Rentes de Carvalho, «ele, que me conhece desde criança», surge Francisco José Viegas e a editora Quetzal que sistematicamente, regularmente, profissionalmente, põe nas mãos dos portugueses a obra muito completa deste escritor gaiense, a que outros também chamam seu, o que não tem mal nenhum, pois como é sabido, Gaia é a deusa da Terra e os escritos de JRC são do tamanho da humanidade que vive e luta para ser feliz, tanto quanto possível, neste mundo.
            Finalmente neste ano de 2018, nas comemorações dos 50 anos da sua vida literária, pela mão do Município de Gaia, da Confraria Queirosiana e da editora Quetzal, JRC voltou a casa. Creio que tal é digno e redentor, mas certo de que a vida e obra do escritor irão continuar a descrever as maneiras de se ser gaiense e português com a frontalidade que lhe é reconhecida. Agora, que os navios amarrados ao cais de Gaia já são outros, JRC voltará a partir para Trás-os-Montes e Amsterdam. Mas sabe que poderá sempre voltar a casa pois os seus vizinhos não o esquecem.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana
amigo e admirador de J. Rentes de Carvalho

 Homenagem a J. Rentes de Carvalho
Ao longo do mês de maio o Município de Vila Nova de Gaia, com a colaboração da Confraria Queirosiana e da Quetzal, Editores, prestou uma homenagem ao escritor J. Rentes de Carvalho, nascido no seu centro histórico em 1930. Assim, no dia 4 realizou-se a abertura de uma exposição na Biblioteca Pública Municipal, organizada pelo Pelouro da Cultura e da Programação Cultural sobre a vida e obra do escritor, a qual incluiu algumas peças do seu espólio à guarda da Confraria Queirosiana, tendo no ato J. A. Gonçalves Guimarães falado sobre as suas ligações ao município.
Busto de J. Rentes de Carvalho de Hélder de Carvalho,
no Solar Condes de Resende.
No dia 18 decorreu no Auditório Municipal um colóquio sobre a sua obra com a participação do escritor Bruno Vieira Amaral, do editor Francisco José Viegas e do historiador J. A. Gonçalves Guimarães e moderação do jornalista Mário Augusto. Depois de o escritor ter revisitado alguns recantos da sua infância, no sábado dia 19, teve em sua honra um capítulo extraordinário da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende, com a abertura ao público de uma outra exposição do seu espólio acrescentado com doações recentes, como dois quadros a óleo do Monte dos Judeus, o local onde nasceu, da autoria de Adélio Martins aí presente, estando também expostos dois retratos seus, um deste pintor e um outro do major Simões Duarte, cedido para o efeito. Seguiu-se uma sessão no salão nobre do Solar, com a participação da Escola de Música de Perosinho, através do professor de piano João Queirós, de Carolina Costa, violoncelo e de Inês Marques, violino, que interpretaram obras de Joly Braga Santos e de Gabriel Fauré. Foram insigniados como confrades de honra, o escritor e editor Francisco José Viegas e o escultor Hélder de Carvalho, apadrinhados por JRC. Após a colocação de uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós no Jardim das Camélias, seguiu-se o descerramento de um busto em bronze do escritor, também da autoria de Hélder de Carvalho, no hall do auditório do Solar, onde seguidamente decorreu um jantar de confraternização durante o qual foram declamados versos de Fernando Peixoto e cantadas canções dos anos 30 pelo agrupamento musical Eça Bem Dito.

Capítulo extraordinário da Confraria Queirosiana
Dia Nacional da Gastronomia
           
No próximo fim de semana, dias 26 e 27 de maio, vai decorrer no Cais de Vila Nova de Gaia (Centro Histórico) o Dia Nacional da Gastronomia promovido pela Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, com o patrocínio do Município de Gaia e a colaboração de muitas confrarias nacionais, que apresentarão aos visitantes e turistas os produtos tradicionais das mais diversas regiões do país.
            Do programa consta ainda a distinção pela FPCG de diversas entidades, entre elas o Dr. Manuel Novais Cabral, presidente do IVDP e confrade queirosiano, o lançamento de um selo postal pelos CTT e um brinde coletivo com Vinho do Porto oferecido pelas empresas ali sediadas.
            A Confraria Queirosiana estará presente com a divulgação e venda das suas publicações e do seu Vinho do Porto 10 e 20 anos.

Homenagem nacional a A. Campos Matos
         No próximo dia 5 de junho a Biblioteca Nacional de Portugal vai promover uma homenagem nacional ao arquiteto e queirosianista A. Campos Matos, nascido na Póvoa de Varzim em 1928, autor de um conjunto de incontornáveis publicações sobre a vida, obra e ambientes de Eça de Queirós e a sua época, nomeadamente “Eça de Queiroz – Uma Biografia”, Afrontamento, 2010, com posterior edição em Campinas, Brasil, 2014; “Dicionário de Eça de Queiroz”, 3.ª edição, organização, coordenação e textos, INCM/ Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira das Letras, 2015, e essa inusitada obra de ficção, que só este autor poderia conceber com propriedade, intitulada “Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930)”, Colibri, 2017, já em 3.ª edição revista e aumentada. A homenagem a este notável homem de Letras, galardoado com varias distinções em Portugal, Brasil e França, também confrade de honra da Confraria Queirosiana que se fará representar no ato, constará de um colóquio com vários interventores e de uma exposição de objetos e documentos pessoais reunidos ao longo dos seus profícuos noventa anos.

Confrarias
         No dia 3 de maio decorreu no Mosteiro de Corpus Christi, em Gaia, uma conferência de imprensa sobre o Dia Nacional da Gastronomia que este ano terá lugar no Cais de Gaia nos próximos dias 26 e 27 no Cais de Gaia, como acima se referiu. Para além da Dr.ª Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas que apresentou o programa, falaram ainda representantes do Turismo do Norte de Portugal e de outros departamentos governamentais, tendo encerrado a sessão o presidente da edilidade gaiense, Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues. A Confraria Queirosiana fez-se representar pelo seu mesário-mor.
No dia 5 de maio decorreu em Oleiros o III.º capítulo da Confraria Gastronómica do Cabrito Estonado, no qual estiveram presentes 40 confrarias e 160 pessoas. A Confraria Queirosiana fez-se representar pela Dr.ª Alda Barata Salgueiro.
            No dia 12 de maio decorreu na Quinta da Boeira, em Vila Nova de Gaia, o XXV.º capítulo da Ordem dos Companheiros de São Vicente – Confraria dos Vinhos de Portugal da Bélgica, pela primeira vez celebrado em Portugal. Apadrinhada pela Confraria dos Sabores e Saberes da Beira – Grão Vasco, reuniu na “Maior garrafa do Mundo” existente naquele espaço gaiense várias dezenas de confrarias portuguesas, belgas e francesas, não apenas enófilas ou gastronómicas, mas também de natureza convivial em volta de uma singularidade humana, como uma de alopéticos belgas, cujo emblema é um pente dourado.
Iniciado o desfile das confrarias presentes com a fanfarra dos Bombeiros de Valadares à frente, seguiu-se a entronização de dezenas de novos confrades, entre os quais Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, e os queirosianos Albino Jorge, aí representando a Confraria do Vinho do Porto, e J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira, representando a Confraria Queirosiana.
            Seguiu-se um almoço no restaurante da Quinta da Boeira, com fados e folclore.
    
Palestras e cursos
Na Escola de Hotelaria de Viana
         No passado dia 27 de abril o mesário-mor da Confraria Queirosiana proferiu na Escola de Hotelaria de Viana do Castelo, no seu dia dedicado a Eça de Queirós, uma palestra para alunos e professores sobre «Gastronomia e Enofilia queirosianas», a qual teve a presença da Dr.ª Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas.
            No dia 24 de maio, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês do Solar Condes de Resende, o mesmo investigador falou sobre «O Museu da Universidade de Manchester e as coleções oitocentistas», fazendo um paralelo com a Coleção Marciano Azuaga.

Encontro Associativo
            Decorreu no dia 28 de abril no Parque Biológico de Gaia um Encontro Associativo, organizado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia com a colaboração da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto e da Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, o qual abordou a seguinte temática: “Estratégias de desenvolvimento associativo – organização administrativa”, por Augusto Flor; “Identidade do setor não lucrativo – Contabilidade/ Fiscalidade”, por Carlos Balreira; “Higiene e segurança alimentar”, por Susana Rocha; “Medidas preventivas de segurança contra incêndios e medidas de autoproteção”, por Paula Azevedo, Vitor Primo e Fátima Januário. A Confraria Queirosiana esteve representada por César Oliveira, aí como presidente da FCVNG, J. A. Gonçalves Guimarães da direção da ASCR-CQ e Licínio Santos também desta associação.

Prémio
Maria de Azevedo C. de Vasconcelos e Sousa
            A Federação de Amigos dos Museus de Portugal (FAMP), no dia Internacional dos Museus (18 de maio) anunciou a instituição do prémio Maria de Azevedo Coutinho de Vasconcelos e Sousa, sua fundadora, com o propósito de contribuir para o aumento da participação de jovens adultos nas atividades dos museus, no valor de 5.000 euros.
            Podem concorrer grupos de amigos de museu que tenham promovido até 31 de dezembro deste ano ações que visem a angariação de associados jovens e a sua participação nas atividades que cada grupo desenvolva em apoio do seu museu.

Feiras do Livro
        

Nesta época do ano, para além das grandes feiras do livro de Lisboa e Porto, muitas outras decorrem noutros pontos do país. É o caso de Aveiro, que vai ter a 43ª edição da sua própria feira sob a designação de “Aveiro de Eça”, a qual decorrerá entre 25 de maio e 10 de junho no Mercado Manuel Firmino. Como é sabido, Aveiro é terra eminentemente queirosiana, pois o escritor aí viveu em criança em Verdemilho, na casa que fora de seu avô, o juiz Joaquim José de Queiroz, à data já falecido, o mentor da revolta de 1828 contra o governo miguelista. Este, tal como seu pai, o também juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz, que mandou prender por corrupção o homem mas rico do seu tempo – o Conde do Bolhão – e absolveu Camilo e Ana Plácido do crime de adultério, estão ambos sepultados em jazigo próprio no cemitério do Outeirinho. Tanto aquela casa como o jazigo aguardam há muito a prometida dignificação como monumentos do Roteiro Queirosiano de Aveiro e Nacional.  


Curso de Verão
           

Como habitualmente todos os anos, a Fundação Eça de Queiroz, vai promover o seu Curso Internacional de Verão – Seminário Queirosiano, entre os dias 16 e 21 de julho próximos, este ano subordinado ao tema “As questões da civilização em Eça de Queiroz e Oliveira Martins”, especialmente vocacionado para professores e estudantes universitários portugueses e estrangeiros, estando prevista a atribuição de 20 bolsas a estudantes, cujo prazo de candidatura decorre até 15 de junho próximo. O curso tem a coordenação científica de Orlando Grossegesse, da Universidade do Minho, e como professores convidados Hélder Garmes, da Universidade de São Paulo, Maria Helena Santana da Universidade de Coimbra e Pedro Schacht Pereira, da Ohio State University (EUA).
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 117 – sexta-feira, 25 de maio de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.




quarta-feira, 25 de abril de 2018

Eça & Outras

Património cultural: de geração para geração

         Celebrou-se no passado dia 18 de Abril o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, promovido pelo ICOMOS e em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, sob o lema “O Património Cultural: de geração para geração”, coincidente com a celebração de 2018 como Ano Europeu do Património Cultural. Como vem sendo habitual o Solar Condes de Resende associou-se a estas iniciativas, com a colaboração da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, por sua vez filiada na Federação Portuguesa dos Amigos de Museus de Portugal. Assim, para além do curso sobre o Património Cultural de Gaia, que aqui decorre até maio e do curso sobre Música & Músicos - Património Musical Português, com início em outubro próximo, este dia foi aqui celebrado sob o título «Solar Condes de Resende: de Casa Senhorial a Casa da História de Gaia». Nesse dia acolheu-se no auditóriotodos os interessados em conhecer a sua história ao longo dos tempos, explicada por Susana Guimarães, autora do livro A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766-1816). Família, Património e Casa.Vila Nova de Gaia: Confraria Queirosiana/FLUP/CMGaia, 2006, o qual resultou da sua dissertação de mestrado em História Local e Regional pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, enquanto o autor destas linhas falou aos presentes nas ações deste serviço em prol da História de Gaia através de ações próprias e do apoio à realização de dissertações de mestrado e teses de doutoramento já realizadas e de outras em curso, bem assim como da coordenação do projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia (PACUG) que abrange muitas gerações de gaienses de há dois mil anos para cá.
         É nossa convicção de que não há contemporaneidade sem História, ainda que as atitudes perante o seu conhecimento sejam de assunção, de indiferença ou de negação. No entanto ela estará sempre presente, quer queiramos, quer não. Cada um de nós carrega memórias, recordações, vivências, leituras, experiências desse património escondido no ADN, nas crenças, nos gostos, nos desejos, nos afetos, nos ódios e mesmo nas indiferenças. Nenhuns deles são neutros, e mesmo os que os renegam ou vivam com aparente indiferença, normalmente têm neles ou sobre eles, ainda que não suficientemente claros, algo que querem esconder ou valorizar, ou enfrentar assuntos que gerações anteriores deixaram pendentes. Para além da nossa orfandade cósmica e existencial, se resolvidos os problemas imediatos da sobrevivência, carregamos, além deles, muitas outras angústias étnicas, familiares e sociais mal resolvidas ou por resolver, não só nos domínios das crenças, mas mesmo na afirmação da gentricidade possível, a que cada grande acontecimento histórico acrescenta balizamentos. Sendo certo que o nosso conhecimento do clã familiar, da terra a que pertencemos e do mundo que nos rodeia coincide com a ida para a escola primária, já hoje dificilmente teremos entre nós testemunhos vivos do que foi a criação do Entreposto de Gaia do Vinho do Porto, em 1926, ou da implantação do Estado Novo em 1928; já são poucos os que viveram os reflexos em Portugal da Guerra Civil de Espanha, da 2.ª Grande Guerra e da Bomba Atómica. Mas ainda são muitos os que viveram os tempos da chegada da Televisão, da Guerra da Coreia, das Guerras Coloniais e do Vietname, da emigração para França, da chegada à Lua e do 25 de Abril. Depois há toda uma geração, hoje com cinquenta anos, que não conheceu outro mundo senão o da Democracia, ainda que imperfeita e tateante, e a era da Esperança mundial, ensombrada pelos desastres ecológicos e pelo eclodir dos atuais fundamentalismos religiosos tribais. Esta é a realidade humana vivente que também ela deixará atrás de si um Património Cultural, que não se quer como a tralha do sótão da avozinha, ou o entulho da garagem do avô, mas como um conjunto de construções, edificações e criações, não apenas técnicas e vazias de conteúdos ou de sentidos, mas antes as que testemunhem aos vindouros, não apenas as desgraças recentes, materializadas em cemitérios militares, prisões, bidonvilles e chernobyles, que não queremos ver repetidos, mas sobretudo as excelências desta época nos domínios da ciência e da tecnologia, do cinema e do digital, do combate à fome e à doença, materializados na arte, na música, na escrita e nos happenings sociais, para que os ajudem a viver num mundo ainda melhor a que muitos de nós não chegarão, mas que queremos que exista, como garantia da possível eternidade humana.
         Mas se este é o Património Cultural do nosso tempo, que será a nossa herança para as gerações futuras, também nos são caros os testemunhos do passado remoto deste Pré-história surpreendentemente artística, o legado das civilizações dos grandes rios, ainda quando assentes no vergado dorso do esclavagismo, as lições do sossegado misticismo dos tempos medievais, tão cruéis e tão fanáticos, os olhos arregalados para a redondez da Terra e a multitude dos seus habitantes por parte dos navegadores da Expansão europeia, a descoberta da Liberdade individual ao ritmo das áreas de Mozart, os povos contra os impérios, a indústria contra o sol-a-sol campesino, as promessas messiânicas do marxismo contra o individualismo, a descoberta de que os pores-do-sol e os raiar das auroras, ainda que nem sempre iguais, ainda que sempre belos e desejados, podem ter todas as cores do prisma da ótica humana. Também esse Património está à nossa guarda e urge ser descoberto, estudado, protegido e divulgado. No que diz respeito a Vila Nova de Gaia, à região do Porto, ao norte do País, ao todo nacional, à irmandade lusófona e ao mundo que nos entrou pelo trilho que se fez estrada, vindo de leste ou do sul, pelo rio Douro abaixo ou pela sua barra, que atravessou do Minho para a margem esquerda em barcas ou através das pontes, vindos a pé, de barco, de carroça, de comboio, de automóvel ou de avião, é dessa multidão multissecular que o Solar Condes de Resende estuda, divulga e partilha o Património Cultural.
         Com Eça de Queirós repetimos: «a história é a consciência escrita da Humanidade» (Uma Campanha Alegre); «As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais» (Prosas Bárbaras). O Património é hoje o seu irmão mais novo. Mas não é um faitdivers para enfastiados turistas ou um chapéu para odemasiado sol do oportunismo que, como afinal em muitas outras atividades humanas, também sobre este tema do conhecimento se abate pela ação de charlatães vários. É a memória e a qualidade das criações humanas que não queremos ver destruídas ou negligenciadas, mas antes as passar acrescentadas de geração em geração. E compreenderá a nossa este desafio?

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

 
J. Rentes de Carvalho
         Várias entidades nacionais estão este ano a celebrar os 50 anos da carreira literária do escritor gaiense J. Rentes de Carvalho, iniciada em 1968 com a publicação do romance Montedor. Assim, no passado dia 14 de abril, pelas 17 horas da tarde, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto, promovido pela Porto Editora, decorreu a 65.ª edição de “Porto de Encontro. À conversa com escritores”, onde o escritor foi desafiado a falar sobre a sua vida e obra pelo jornalista Sérgio de Almeida e pelo escritor e editor da sua obra, Francisco José Viegas. Com uma casa completamente cheia de seus devotos admiradores, atendeu depois a longa fila de compradores de várias das edições presentes dos seus livros, nos quais foi escrevendo pacientes dedicatórias.
         Entretanto nos próximos dias 18 e 19 de maio será a vez de o município de Vila Nova de Gaia prestar homenagem a este escritor ali nascido no Monte dos Judeus a 15 de maio de 1930, que tão bem descreve no romance Ernestina, a mais interessante obra literária sobre o Centro Histórico de Gaia nos anos trinta do século passado. Do programa, entre vários outros momentos, consta uma sessão no Auditório Municipal no dia 18 e, no dia seguinte, no Solar Condes de Resende, haverá um capítulo extraordinário da Confraria Queirosiana que lhe é dedicado, a abertura de uma exposição sobre o seu espólio entregue a esta instituição, a inauguração de uma obra de Arte e um jantar de confraternização com canções da infância do escritor.

Livros e revistas
No passado dia 21 de abril, no Centro de Apoio Rural de Carrazeda de Ansiães na Festa de Abril, o escultor Hélder de Carvalho apresentou o seu mais recente livro intitulado Porque não existe um único olhar, edição Notutopic, um álbum de retratos desenhados onde se encontram, entre outros, Amadeu de Sousa Cardoso, Alexandre O’ Neil, Gustavo Maller e Almada Negreiros, bem assim como, entre outras, Paula Rego, MargueriteYourcenar, GeorgiaO’Keeffe e Simone de Beauvoir. Autor de muitas estátuas em bronze em vários largos e praças, de bustos em instituições públicas e privadas e de obras alegóricas em várias coleções, este Mestre com atelier em Vila Nova de Gaia, para além da paisagem do Douro e de Trás-os-Montes, tem-se também dedicado ao retrato desenhado, modelado ou esculpido, quer a partir do natural de personalidades vivas, quer a partir da reinterpretação de iconografia do passado, de grandes vultos da Cultura nacional e internacional. Muitas dessas interpretações têm sido capa do jornal As Artes entre As Letras e reunidos em outras publicações, como a agora apresentada.
Palestras e cursos
         Prosseguem os cursos e palestras organizados pela Confraria Queirosiana ou proferidas por diversos dos seus confrades. Assim, a 29 de março, na habitual palestra das últimas  quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães falou «A propósito de “Feiras Medievais”: história e recriação»; o mesmo conferencista, a 18 de abril, no Dia Internacional de Monumentos e Sítios falou, naquele mesmo local, sobre «O Solar Condes de Resende: de Casa Senhorial a Casa da História de Gaia» e nesse mesmo dia à noite nas instalações da Stella Maris na Foz do Douro, numa sessão organizada pela União de Freguesias de Aldoar, Foz do douro e Nevogilde, com acolaboração da Universidade portucalense infante D. Henrique e outras entidades, sobre o «Marechal Duque de Saldanha: “Ele poderia ter sido um rei”». No dia 20 falou sobre «Gaia? Vila Nova? Vila Nova de Gaia? A história local contada através dos forais», na Escola Secundária Almeida Garrett, numa sessão a propósito dos 500 anos do foral manuelino de Vila Nova de Gaia.
         Entretatanto amanhã, dia 26 de abril, pelas 21,30 horas, ainda no Solar Condes de Resende, Sérgio Veludo Coelho, professor da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto falará sobre «As Fortificações do Cerco do Porto em Gaia».
         Prosseguindo o curso sobre o Património Cultural de Gaia, na sessão de 7 de abril a Prof.ª Doutora Teresa Soeiro deu uma aula sobre «Património Etnográfico e Imaterial de Gaia» e no dia 21 o prof. Doutor J. A. Rio Fernandes falou sobre «Património de Gaia no século XX». O curso terminará no próximo dis 5 de maio com uma aula sobre Legislação do Património pelo Prof. Dr. Carlos Medeiros. No próimo ano letivo o curso terá por tema Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português.
Eça na Suiça
         No passado dia 23, na Unidade de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra, o Professor Doutor Carlos Reis, reputado investigador e divulgador da vida e obra queirosianas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, apresentou uma conferência intitulada «Lesinfluencesétrangèressurl’oeuvre d’ Eça de Queirós», integrada no curso publico «L’expression de l’altéritédanslesculturesdu monde lusophone».

Os Maias, 130 anos
         Nos 130 anos da publicação de Os Maias, o Centro Cultural Olga Cadaval, numa coprodução com a ÉTER – Produção Cultural, apresentou no passado dia 13 de abril no auditório Jorge Sampaio em Sintra, uma versão dramatúrgica do romance queirosiano, com adaptação de Miguel Real e Filomena Oliveira, e encenação desta última, com o apoio da Câmara Municipal de Sintra.

Corpos gerentes da FAMP com o diretor do Solar Condes de Resende

Federação dos Amigos dos Museus de Portugal
      No passado dia 14 de abril decorreu no auditório do Solar Condes de Resende a assembleia geral anual da Federação dos Amigos dos Museus de Portugal (FAMP), tendo os seus corpos gerentes tendo sido recebidos pela vereadora da Cultura e da Programação Cultural da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal, pelo diretor do Solar e mesário-mor da Confraria Queirosiana e pela direção dos Amigos do Solar Condes de Resende, que os obsequiaram com um almoço queirosiano no bar desta Casa. Antes da ordem de trabalhos foi entregue o prémio Professor Reynaldo dos Santos 2016, atribuído à Sociedade de Amigos do Museu Francisco Tavares de Proença Júnior, de Castelo Branco, pela sua exposição evocativa do centenário da morte do fundador, ex-aqueo com a mostra sobre Ópera Chinesa candidatada pelo Grupo de Amigos do Museu do Oriente, em Lisboa. Seguidamente decorreram os trabalhos da assembleia para aprovação do relatório e contas, referente a 2017 e programa de atividades e orçamento para 2018.

Viagem ao Egito
         Nas últimas férias da Páscoa o Instituto Oriental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa levou a cabo a sua 18.ª visita de estudo ao Egito faraónico com a coordenação científica do Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo. Face ao sucesso da iniciativa, a mesma entidade organizará entre 21e 28 de agosto próximos uma nova visita, em colaboração com a agência Novas Fronteiras. Para além dos alunos e docentes daquela Faculdade a visita poderá estar disponível para outros interessados, que assim poderão percorrer os monumentos do país do Nilo, de avião, de barco e em balão, orientados por aquele egiptólogo, autor de numerosa bibliografia sobre aquela fascinante civilização que tanto deslumbrou Eça de Queirós quando o visitou em 1869.                      
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 116 – quarta-feira, 25 de abril de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração Celeste Pinho.

domingo, 25 de março de 2018

Eça & Outras



A. da Silva Fernandes
No 80º aniversário de A. da Silva Fernandes
A Associação dos Amigos de Pereiros
e a Confraria Queirosiana

Existem por esse Portugal fora associações de cidadãos com os mais diversos fins, a maior parte das quais vivendo de uma impagável generosidade dos seus corpos gerentes, no que diz respeito a tempo despendido, dedicação, capacidade de relacionamento, disposição para gastarem dinheiro do próprio bolso para resolver situações que qualquer contabilista não entende ou não abona, e se muitas delas têm propósitos tolos ou de «gato (ou rato) escondido com o rabo de fora», ou servem simplesmente para qualquer pequena promoção pessoal ou de grupo fechado, outras há que têm objetivos úteis, sensatos, simpáticos, exequíveis, que deixam marcas positivas no terreno e na vida das pessoas que elas servem ou que com elas contatam. Tal é o caso da Associação dos Amigos de Pereiros, que, muito para além dos generosos propósitos estatutários, tem como finalidade maior o impedir que a aldeia e freguesia do concelho de S. João da Pesqueira que lhe deu o nome, morra, isto é, deixe de ter habitantes, ou que os que resistem deixem de ter as referências de uma comunidade centenária onde nasceram pessoas que se distinguiram em outras paragens, ou simplesmente ali viveram um dia-a-dia sossegado, criando uma paisagem que chegou aos dias de hoje como o produto dos saberes de muitas gerações.
Por um conjunto de circunstâncias convergentes, tendo o Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana concluído os trabalhos de intervenção arqueológica e patrimonial na Quinta da Ervamoira, no Vale do Côa em 2004, logo no ano seguinte, com o apoio daquela associação e o patrocínio da Câmara Municipal pesqueirense, iniciou o levantamento do património local, com especial incidência nos Pereiros, onde a equipa passou a ficar alojada durante os trabalhos no emblemático santuário de S. Salvador do Mundo e no Vale de Galegos, Trevões. Outras ações complementares incidiram na valorização e divulgação das grandes figuras internacionais ligadas à região, como o Marquês de Soveral e o Barão de Forrester, o inventário e estudo do património religioso, e a sua rentabilização cultural e turística através de programas que então se adivinhavam com futuro, mas que têm teimado em chegar, com a agravante de que Pereiros não pende para o vale do Douro, mas sim para o planalto beirão, para o rio Torto, ali à margem da estrada 222, que começa na avenida da República em Vila Nova de Gaia e vai até à fronteira com a Espanha. Por esse motivo, se no roteiro turístico do Douro outros podem teimar, nesta aldeia só lhe resta a sua associação.
Ainda sem sequer existir um protocolo entre a Associação dos Amigos de Pereiros e a Confraria Queirosiana, que mais tarde viria a ser celebrado, logo a partir de 2005 a colaboração entre as duas instituições traduziu-se na organização de visitas à região e às suas instituições mais representativas, entremeada de palestras, conferências e participação em congressos de arqueologia, património, gastronomia, enologia e turismo, escavações arqueológicas e publicação de livros e artigos, bem assim como o apoio e colaboração a várias edições daquela associação que também se assumiu como entidade editora local e regional.
Eça da Queirós talvez tenha algum dia estado na Pesqueira, na Quinta de Cidrô, do seu amigo Luís Soveral, o futuro marquês desse título, mais tarde seu superior hierárquico como embaixador em Londres e ministro dos Negócios Estrangeiros. Jaime Batalha Reis esteve aí e de tal deixou registo escrito. Já são três “Vencidos da Vida”. Mas, pelo menos é certo que Eça passou na estação ferroviária da Ferradosa a caminho de Salamanca ou de regresso pela linha do Douro, como descreveu em A Cidade e as Serras: «Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas». Esta descrição assenta como uma luva à paisagem pesqueirense, de onde bebeu vinho precioso daquela quinta do seu confrade ali nascido. Por isso também a Pesqueira é terra do universo queirosiano e se não fora por outros motivos, estes chegavam para aquelas relações institucionais. Procuramos relembrá-los e revisitá-los com diversos grupos de estudiosos do Douro, e convidando todos os anos a estar presente no Solar Condes de Resende na Feira de S. Martinho a vender os mimos da produção local, a D. Lídia do restaurante Ernestus, o único existente na aldeia e onde não se pode ir com pressas apreciar o seu inigualável fumeiro.
Pela “equipa dos Pereiros” da Confraria Queirosiana passaram, entre outros, como arqueólogo e professor de Património o autor destas linhas, e ainda Paulo Talhadas dos Santos, professor de Biologia; Maria dos Anjos Ribeiro, professora de Geologia; Nuno Resende, professor de História da Arte; Paulo Alves, botânico; Eva Baptista e Maria de Fátima Teixeira, patrimoniólogas e Joana Leite, arqueóloga. Os resultados dos seus trabalhos estão disponíveis para serem consultados e continuados em variadíssimas publicações académicas e de divulgação. E em toda esta ação será sempre de recordar o carinho e a prestabilidade da população local e o apoio entusiasta do Eng.º António José Lima Costa, então presidente da câmara local e hoje nosso confrade de honra e atento deputado da sua região na Assembleia da República, bem assim como da saudosa professora Maria do Céu Beires, então vereadora do pelouro da Cultura.
Mas por trás de tudo isto esteve sempre a ação persistente, empenhada, preocupada, ilimitada, criativa, de enorme amor pelo seu município de S. João da Pesqueira e pelos Pereiros, a aldeia natal de seus antepassados, do presidente da Associação, o Dr. Alberto Júlio da Silva Fernandes, que a Confraria Queirosiana igualmente tem como confrade de honra e que saúda na ocasião dos seus oitenta anos atívos e profícuos.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça como segundo nome próprio
         O nome Eça foi recentemente admitido pelo Instituto dos Registos e Notariado como segundo vocábulo de nome próprio num caso apresentado pelos pais para registo de uma criança do sexo masculino. Para tal terá contribuído um parecer emitido pela Confraria Queirosiana.
 
Mestre Olga Cavaleiro
Mestrado em Alimentação

         No passado dia 26 de janeiro na sala Silva Dias da Universidade de Coimbra, a presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, Dr.ª Olga Alexandre Gonçalves Cavaleiro, apresentou-se à prova de discussão da dissertação para obtenção do grau de Mestre intitulada «Portugal Gastronómico. A cozinha Portuguesa e as Cozinhas Regionais» elaborada no âmbito do Mestrado em Alimentação, na especialidade de Fontes, Cultura e Sociedade, orientada pelo Prof. Doutor Norberto Nuno Pinto dos Santos, que foi vogal do júri, bem assim como a Prof.ª Doutora Claudete Carla Oliveira Moreira, tendo sido presidente do júri a Professora Doutora Maria José de Azevedo Santos, todos da Faculdade de Letras daquela universidade. A candidata foi aprovada com dezanove valores. A Mesa da Confraria Queirosiana felicita a nova Mestre pelo brilhantismo das suas provas e pela pertinência do tema dos seus estudos em História e Tecnologia da Gastronomia Portuguesa.

Livros e revistas


As Artes entre as Letras
         O número 213 deste jornal datado de 28 de fevereiro passado, apresenta colaboração vária de confrades queirosianos. Além do editorial “Entre Sentidos” da diretora Nassalete Miranda (pág. 2), Guilherme d’ Oliveira Martins escreveu sobre “Levi Guerra – Humanista dos dias de hoje “ (p. 3), a que se segue a entrevista de J. A. Gonçalves Guimarães a “J. Rentes de Carvalho entre Gaia, Amsterdam e Estevais do Mogadouro (p. 4 a 6), com chamada e fotografia à primeira página. Na 18 a habitual página Eça & Outras, da Confraria Queirosiana, desta vez com “O haxixe na vida de Eça e de outras pessoas”, de J. A. Gonçalves Guimarães, o tal que não sabe escrever por medida e, por isso, por gentileza do jornal, a “página” ocupa também a 19, ainda com noticia das comemorações do Foral de Gaia de 1518 e do curso de Genealogia e História da Família que decorreu no Solar Condes de Resende nos passados dias 16 e 17 de março. Um número verdadeiramente queirosiano.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos

Inovação Pedagógica
         No passado dia 23 de fevereiro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no 2.º Encontro INOVAR – “Roteiros da inovação pedagógica: escolas e experiências de referência em Portugal no século XX”, entre outros oradores falaram Eva Baptista sobre “O papel educativo da Associação de Creches de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia” e José António Afonso sobre “A presença do protestantismo em Vila Nova de Gaia: das Escolas ao Associativismo (1868-2015).

Fórum de Avintes
         Decorreu nos passados dias 23 e 24 o 28.º Fórum de Avintes na sede da Junta desta freguesia gaiense. Entre os vários palestrantes falaram Abel Barros sobre «Desporto e as suas origens: o Parque Joaquim Lopes na Gandra» e J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Moradores de Avintes no século XVI: a propósito do Foral de Gaia de 1518».

Palestras escolares
No passado dia 26 de fevereiro no Colégio da Bonança, Vila Nova de Gaia, integrado no programa FantasLíngua XI, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre «A linguagem do Foral de Gaia de 1518» e no dia seguinte, para os alunos dos cursos profissionais de Turismo e Hotelaria do Agrupamento de Escolas de Canelas, sobre «Feiras Medievais: origens, finalidades e evolução».

A Quinta da Boeira em Manchester
        
J. A. Gonçalves Guimarães confrade da FCBP
Nos dias 1 a 3 de março passados a Quinta Boeira, Arte e Cultura, Vila Nova de Gaia, promoveu mais uma sessão de divulgação de produtos portugueses de referência, desta vez em Manchester. Da comitiva, para além dos administradores e pessoal daquela empresa gaiense, liderados por Albino Jorge, faziam parte diversas confrarias enófilas, como a do Vinho do Porto, do Verde, do Carcavelos, do Ribatejo, e outras, o artesão Albino Costa, a TVI, vários jornais e revistas portugueses, e a Confraria Queirosiana representada pelo seu mesário-mor. Esta embaixada de cultura, sabores e tradições ficou alojada no famoso Midland Hotel, fundado em 1903 no centro da cidade, e desde logo ligado á criação da Rolls-Roice e onde se alojaram ao longo dos tempos diversas personalidades das Artes, como The Beatles. Com a presença de uma dezena de exemplares da coleção de modelos de naus e galeões da autoria daquele artesão, num salão deste hotel decorreu a sessão de abertura desta ação, tendo começado por uma breve introdução histórica pelo mesário-mor da Confraria Queirosiana, a que se seguiu uma prova comentada de 200 anos de vinho do Porto comentada pela enóloga Dr.ª Helena Teixeira, e depois a entronização pela Federação Portuguesa das Confrarias Báquicas de Portugal, como seus membros honorários, de José Leite, CEO da Marca Transitários; César Pereira CEO da Gama Consumer; Vanessa Bond, representante da Quinta da Boeira em Inglaterra; J. A. Gonçalves Guimarães, historiador; Luís Segadães, presidente das 7 Maravilhas de Portugal; Chris Rostron, presidente da Associação Consular em Manchester e Jorge Cruz, cônsul geral de Portugal nesta cidade. De tarde esteve patente no mesmo salão, quer ao público quer a lojas gourmet, importadores e restaurantes, uma exposição e prova de vinhos e queijos portugueses de várias regiões.
         O mesário-mor da Confraria Queirosiana teve ainda oportunidade de visitar a magnificente Biblioteca Central, um edifício inspirado no Panteão de Roma da autoria do arquiteto Vincent Harris (1876-1971), mesmo em frente do Midland Hotel, com um funcionamento completamente atraente para os dias de hoje, e o Museu da Universidade de Manchester que exibe uma coleção universalista do século XIX (como a Coleção Marciano Azuaga), exposta de forma atraente, didática e atualizada para os dias de hoje.

Sociedade de Geografia de Lisboa
         O egiptólogo Luís Manuel de Araújo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e vice-presidente da direção da ASCR-CQ, no passado dia 7 de março proferiu no Auditório Adriano Moreira da SGL uma conferência sobre “Oriente Antigo no Ocidente – do Nilo ao Tejo”, integrada num ciclo sobre Oriente Antigo no Ocidente, organizada pela Secção de Arqueologia daquela centenária instituição.

Retificações
No texto da página Eça & Outras anterior (25 de fevereiro), intitulado “E Sexe des Anjes”, onde se lê: «…e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas e pespegá-la na margem do rio Douro», deveria ler-se:  «…e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas, depois de Irene Vilar ter criado o seu Anjo Mensageiro muito mais ortodoxo ou, pelo menos, andrógino, escultura dourada pespegada na margem do rio Douro». Agradecemos ao caro sócio António Emílio Rocha os dados para a retificação.
            Por nos ter sido pedido, informamos que esta página Eça & Outras, já vai na sua terceira série, publicada no seguinte contexto:
2001, dezembro – 1.ª circular para a criação de uma Associação de Amigos do Solar Condes de Resende;
2002.11.22 – Assembleia Geral constituinte da ASCR – Confraria Queirosiana;
2003.01.31 – escritura notarial da ASCR-CQ; n.º 1 da página Eça & Outras, uma folha A4, impressa só de um lado, enviada por e-mail.
I.ª série, n.os 1 a 9, de 31 de janeiro de 2003 a 1 de junho de 2004.
II.ª série, publicada em uma página A3 de O Primeiro de Janeiro ao dia 25 de cada mês, n.os 1 a 46, de 25 de novembro de 2004 a 25 de agosto de 2008, por acordo com a diretora Dr.ª Nassalete Miranda.
III.ª série, n.º 1, de 25 de setembro de 2008, publicada em eca-e-outrasblogspot.com, a partir do n.º 13, de 25 de setembro de 2009 também parcialmente em uma página do jornal As Artes Entre as Letras, por acordo com a diretora acima referida e até à atualidade, num total de 170 páginas publicadas nas três séries. Como entretanto ocorreram alguns lapsos na numeração, informamos que esta página é a n.º 115 desta última série.

Anexo: Bibliografia produzida na sequência da colaboração entre a Confraria Queirosiana e a Associação dos Amigos de Pereiros:

CARDOSO, António Barros (2009) - «Marquês de Soveral - Homem do Douro e do Mundo -  Son of the Douro,Man of the World», recensão crítica. In Revista da Faculdade de Letras. História, III série, vol. 10. Porto: Universidade/Faculdade de Letras/Departamento de História, p. 205-207.
FERNANDES, A. da Silva (2006) – O Rabelo. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros.
FERNANDES, A. da Silva (2013) – Registos da Aldeia: orações, rezas e benzeduras. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros.
FERNANDES, A. Silva; GUIMARÃES, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, 192 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2001) - «A Quinta e o Museu de Ervamoira: da Arqueologia ao Turismo Cultural no Vale do Côa». In Turismo em espaço rural. Porto: Vida Económica/ Associação Portuguesa de Management/Associação dos Amigos de Pereiros, p. 117-123.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006a) - «Um “Vencido da Vida” - Notas biográficas sobre Luís Pinto de Soveral (marquês de Soveral, 1853-1922)». In Revista de Portugal, n.º 3, 2006, Vila Nova de Gaia: Confraria Queirosiana/Edições Gailivro, p. 22-36.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006b) - «Produtos alimentares da Beira Douro no século XVI: persistências e abandonos gastronómicos da região». In Douro Estudos & Documentos, nº 21, 2006. Porto: GEHVID, p. 107-130.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006c) - «A Regata de Barcos Rabelos no dia de S. João». In FERNANDES, A. da Silva (2006) – O Rabelo. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, p. 101-111.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves, coordenação, texto e fotografia (2007) - São Salvador do Mundo santuário duriense (em colaboração com Eva Baptista, Maria de Fátima Teixeira, Maria dos Anjos Ribeiro, Paulo Alves e Paulo Talhadas dos Santos). Vila Nova de Gaia: Município de São João da Pesqueira/Edições Gailivro, 144 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008a) - Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/The Marquis de Soveral, Son of the Douro, Man of the World, versão inglesa de Karen Bennett. Vila Nova de Gaia: Município de São João da Pesqueira/Edições Gailivro, 220 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008b) - «O santuário de São Salvador do Mundo de São João da Pesqueira. Estudo e Proposta de Valorização Patrimonial: I – Arqueologia. In Actas das sessões do III Congresso de Arqueologia de Trás-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior (2006), vol. 04. Vila Nova de Foz Côa: PAVC, p. 154-160.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008c) - «”O sítio mais romântico e importante de todo o Rio Douro” ou S. João da Pesqueira pela mão do Barão de Forrester». In O Barão de Forrester Sessão Evocativa, Outubro de 2008. S. João da Pesqueira, Associação dos Amigos de Pereiros, p. 5-12.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008d) - «O Barão de Forrester e a Arqueologia Duriense». In Barão de Forrester Razão e Sentimento. Uma Histórias do Douro (1831-1861). Régua: Museu do Douro, 2008, p. 134-141.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009a) - «Para uma arqueologia da paisagem duriense – S. Salvador do Mundo e Ribeira de Galegos em S. João da Pesqueira: proposta de rentabilização para fins turísticos». In Actas das I Jornadas Internacionais sobre Enoturismo e Turismo em Espaço Rural. Porto/Maia: APHVIN/GEHVID/ISMAI, 2009, p. 111-128.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009b) - «Baron Forrester and the Archaeology of the Douro».  In Baron Forrester, Sense and Sensibility. A Story of the Douro 1831-1861. Peso da Régua: Museu do Douro, 2009, p. 134-141.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009c) - «D. Carlos e o Marquês de Soveral: o Soberano e o Diplomata». In XVIII Colóquio de História Militar. Política Diplomática, Militar e Social do Reinado D. Carlos no centenário da sua morte. Actas. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2009, p. 129-146.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2011a) - «Gastronomia no Douro. Produtos alimentares da Beira Douro no século XVI. Persistências e abandonos gastronómicos da região». In O Rabelo, S. João da Pesqueira: Douro em Mim, 2011, p. 11-27.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2011b) - «Da Geografia à Toponímia: caracterização da Paisagem de Pereiros». In FERNANDES, A. Silva; Guimarães, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, p. 17-46.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013a) - «Ermo de São Salvador do Mundo, santuário duriense». In Douro, Vinho, História & Património. Wine, History and Heritage, n.º 2, Porto, APHVIN/GEHVID, 2013, p. 155-182.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013b) - «O Ermo de São Salvador do Mundo, santuário duriense». In O Rabelo, Outubro de 2013, p. 06-23.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013c) - «Capelas, pequenos monumentos à humana orfandade», prefácio a RESENDE, Nuno - Capela de Santo António. Pereiros - S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, p. 5/6.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves; TEIXEIRA, Maria de Fátima; OLIVEIRA, Artur Jorge Fernandes (2008) - «Intervenção Arqueológica em São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira. In Côavisão - Cultura e Ciência, nº 10, p. 175-187.
RESENDE, Nuno (2011) - «A Paróquia do Santíssimo Salvador de Pereiros». In FERNANDES, A. Silva; Guimarães, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, p. 47-88.
RESENDE, Nuno (2013) - Capela de Santo António. Pereiros - S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 56 p..
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 115 – domingo, 25 de março de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Eça & Outras


E Sexe des Anjes
Permitam que vos reconte uma velha estória: a 29 de maio de 1453, uma quinta-feira, o sultão Maomet II conquistou Constantinopla para o Império Otomano, acabando assim, sem saber, com a Idade Média europeia e, mais concretamente, com o Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino. Diz-se que enquanto a cidade se debatia na angústia de ser tomada, pilhada e de mudar de governo e até de religião dominante, os seus clérigos, obviamente preocupados com o que é eterno e não com o ocasional, ou mesmo não querendo deixar de dar continuidade às civilizadas subtilezas de um sossegado debate teológico, discutiam nada mais nada menos do que o sexo dos anjos, ou seja, que nestes seres, celestes embora, qual seria, se não tanto a sua anatomia sexual, obviamente não reprodutora pois são criações divinas, no mínimo qual seria a sua inclinação (orientação, diríamos hoje), se masculina, se feminina, que qualquer outra não seria de considerar, pois seria certamente sugestão infiltrada do “anjo caído”, do mafarrico, do Diabo, que com certeza só a insinuaria, como habitualmente, por pirraça, por brincalhotice, por desrespeito para com os demais entes divinos ou divinizados. A questão não seria tanto o saber-se se os anjos se davam a práticas condenáveis fora da regulamentação canónica, se observavam celibato, se poderiam casar, se as suas revoadas preconizavam autênticos woodstocks celestiais, mas já então como linguística e literariamente se deveriam referir, porque, se assexuados, não fazia qualquer sentido continuar a chamar-lhes o/os anjo/anjos, no masculino, e quanto a anja/anjas, com toda a prudência e cautelas que as religiões sempre têm em relação a tudo que cheire a mulher, não seriam de considerar, e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas e pespegá-la na margem do rio Douro junto à sua foz já neste nosso tempo de tanta hesitação teológica, perdidas que estão as diretrizes do Concílio de Trento e quando já não se queimam hereges por engano desde Santa Joana d’Arc.
            O facto de todas as religiões terem anjos, uns seres que voam (para isso têm asas) indiferentes à existência ou não de oxigénio, do magnetismo terrestre, da rarefação intergalática e de outras banalidades da ciência humana, tal não ajuda muito, pois, como a Antropologia e a História têm registado, as religiões não são todas iguais, umas são até mais verdadeiras do que outras, já não falando naquelas que são exclusivas de pequenas tribos eleitas. Curiosamente os anjos de todas as religiões, estava eu tentado (Tentado, ouviram?) a dizer, que são todos iguais, ou muitíssimo parecidos, às vezes até com o mesmo nome, com a mesma performance, o que tem levado os ovnilófilos a quererem filiá-los a todos num só sindicato de extra-terrestres. Mas já no distante século IV-V, numa precocíssima tentativa enciclopédica avant la lettre, o Pseudo-Dionísio, o Areopagita, na sua obra Hierarquia Celeste se deu ao trabalho de os classificar em nove coros e três tríades. Mas quanto ao sexo deles, nada! Só no século XVIII o Marquês de Sade, numa grosseria que aqui não vou, por decência, repetir, tentou resolver a questão durante os trinta e seis anos de cadeia que três regimes políticos diferentes lhe ofereceram para ter tempo de filosofar sobre este e outros assuntos. Mas a sua proposta não tem sido, geralmente, considerada.
            Com esta falta de ciência emanada das autoridades competentes, não admira que ao longo dos tempos fossem proliferando lendas e desvios sociais e literários, como o mito da mulher-anjo, muito querido dos literatos românticos do século XIX, que nem o conclave bizantino, nem jamais qualquer outro, autorizaram ou sequer consideraram, sendo obviamente mais uma insinuação mafarríquica, como muito bem descreveu Eça de Queirós em O Mandarim, quando o Diabo elucida Teodoro sobre a diferença entre Mulheres e Fêmeas, e que para tal compreender, é preciso dinheiro, pois «não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins…». Querubinas, deveria ter Eça escrito, já se vê.
            Dir-me-ão entretanto vosselências: mas o que é que isso interessa nos dias de hoje, desde promissor século XXI em que já vamos a caminho de Marte sem ter ainda encontrado nenhum anjo pelo caminho? Ou andam muito distraídos, ou realmente chumbaram no power point das “Novas Oportunidades”. O sexo dos anjos é hoje um assunto atualíssimo: o Dr. Rui Rio trouxe-o à baila no congresso do seu partido como um tarrenego de possibilidade governativa para resolver os problemas do país a médio prazo, e D. Manuel Clemente parece que sugeriu que os recasados (que não constam, ainda e por enquanto, nas categorias celestes) deixassem crescer as asas e passassem a ser anjinhos bizantinos. E numa época em que os turcos e muitos outros povos islâmicos cercam de novo a Constantinopla europeia com «a presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criancinha sem pão, e a incapacidade ou indiferença de monarquias e repúblicas para realizar a única obra urgente do mundo “a casa para todos, o pão para todos”…» (Eça de Queirós, A Rainha), não há dúvida de que o sexo dos anjos, ou o dos recasados, são temas para continuarmos a divagar enquanto nos cai a realidade em cima.
            Mas falta-nos ainda considerar outros bonzos bizantinos, os militantes da igualdade de género a todo o vapor. Não se tendo eles ainda virado para a questão do sexo dos anjos, aqui lhes ofereço uma solução digna de ser apresentada para aclamação numa respeitabilíssima academia, adianto-me a propor que enquanto se não decide de vez se os ditos são masculinos, femininos, neutros, transexuais ou outra coisa qualquer, que em vez de “o sexo dos anjos” se passe a escrever e a dizer “e sexe des anjes”, para assim não divulgarmos distraidamente opções machistas ou preconceituosas. E obviamente “Es Lusiades” e até “E Biblie” e “E Corãe”, além de “E Diárie de Repúblice” e, the last but not the least “Es Artes Entre Es Letres”. Não, não é catalão, nem qualquer crioulo caribenho; é mais a linguagem de um dialeto minoritário em Portugal, o tate-bitate, muito conhecido dos especialistas em Ensino.
Eu, cá por mim, vou continuar a ser Joaquim António.  
           
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros e revistas

Preparado pelo Professor Doutor Carlos Reis e pela Prof.ª Doutora Maria do Rosário Cunha, respetivamente coordenador e membro do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi apresentado pela Professora Doutora Paula Morão, catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no passado dia 21 de fevereiro na Biblioteca da Imprensa Nacional em Lisboa um novo volume da Edição Crítica de Eça de Queirós, desta vez Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Tendo já sido publicados nesta série diversos volumes da obra do escritor, estas publicações visam reconduzir os textos à sua primitiva ou definitiva pena, confrontando os originais que existam e libertando-os de gralhas, erros, acrescentos e emendas ou mesmo supressões alheias ao escritor.

A Conrad Editora do Brasil, L.da, de S. Paulo, publicou em 2007 uma notável versão de A Relíquia de Eça de Queirós ilustrada por Marcatti, a qual lhe foi sugerida em 2005 pelo editor Alexandre Linares, que para tal lhe envia uma edição do romance publicado com introdução e notas de Augusto Pissarra pela editora Ediouro. Considerado um dos mais geniais artistas brasileiros de Banda Desenhada, Marcatti confessa no fim desta obra: «Me desculpem a leviandade, mas sinto como se tivéssemos nos tornado amigos e guardo comigo a sensação de termos feito o trabalho a quatro mãos». Temos assim mais um estimável contributo brasileiro para a ilustração e divulgação da obra do escritor. Esta edição abre com um texto introdutório de Eduardo Montechi Valladares intitulado «Eça de Queiroz e o Anticlericalismo».

A editora Guerra & Paz lançou a 6 de fevereiro passado uma nova edição de Adão e Eva no Paraíso, seguido de o Senhor Diabo e outros contos de Eça de Queirós. Se no primeiro, muito para além da maestria literária, o escritor mostra o quanto estava atualizado face às mais recentes descobertas e elaborações teóricas do seu tempo sobre a Pré-história e a marcha da Humanidade (e já agora também sobre as parlapatices dos mitómanos, que ainda hoje estão vivos e ativos), para além de “brincar” com questões que ainda hoje fazem parte das nossas interrogações. No segundo, tal como a outros escritores da época, a figura do Diabo, o anjo caído por ser curioso e contestatário, sempre o fascinou e daí o dar-lhe um protagonismo explícito, em obras como “O Mandarim”, ou mais discreto em muitos outros dos seus textos. Os contos de Eça, como de resto toda a sua obra, continuam pois a surpreender-nos.

A Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas tem uma revista digital com o título Nona Arte, de que é diretora a Dr.ª Olga Cavaleiro. O número 44, de setembro de 2017 publicou uma entrevista com a Confraria Queirosiana com ilustrações sobre as suas atividades e publicações, além de artigos sobre “Sabores de Outono” de Olga Cavaleiro, textos sobre as Confrarias dos vinhos de Carcavelos, do Porto e Arinto de Bucelas, e ainda noticiário sobre «Encontro de Confrarias em Santarém e Ovação ao Pote dos Sabores de Portugal» e representações da FPCG. O n.º 45, de dezembro de 2017, apresenta um artigo de Olga Cavaleiro sobre a Matança do Porco e um outro de José Manuel de Paiva Simões sobre a Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores, além de outros sobre a Assembleia Geral ordinária da federação, Gastronomia sustentável, XIII Congresso dos Cozinheiros e representações da FPCG.

Temos presente a edição do n.º 10 da 2ª série da revista Cadernos Culturais Lumiar – Olivais - Telheiras, dirigido por Fernando Andrade Lemos, presidente do Centro Cultural Eça de Queiroz, em Lisboa, dedicado a «Ralph Delgado, historiador dos Olivais e de Angola, jornalista e publicista». Com 392 páginas apresenta os textos das comunicações apresentadas no XXII Colóquio dos Olivais, Lumiar e Telheiras, nomeadamente as comunicações do seu diretor sobre «Eça de Queiroz e o Lumiar» (p. 142); «Uma possível chave para uma chave real ou contributo para a simbólica da Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu em Telheiras – Lisboa» (p.170, trabalho coletivo); «Um poeta popular de Telheiras» (p. 180, com Ana Maria Costa e Marília Abel); «Lembrando Eduardo Sucena» (p. 196); «Os Oito Tritões» (p. 198, com Eduardo Sucena; «A melancolia como chave da leitura da obra de Cesário Verde» (p. 318, com João de Araújo Correia); « O retábulo da Infanta Dona Maria na Igreja da Luz, em Lisboa» (p. 366, com Carlos Revez Inácio e José António Silva, além de muitos outros autores.

Nascido em 2011 no facebook, o Grupo Saudade Perpétua agrupa historiadores profissionais e memorialistas que se dedicam às «vertentes estética, cultural e social do Romantismo em Portugal», tendo realizado o seu 1.º Colóquio em Vila Nova de Gaia e no Porto em Junho de 2016, cujas atas on line foram agora apresentadas numa edição do CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade. Com coordenação editorial de Francisco Queiroz e apoio de Ricardo Charters d’ Azevedo, intitulado Arte, Cultura e Património. Actas do 1.º Colóquio “Saudade Perpétua”, contém nas suas 950 páginas diversas comunicações sobre o tema, nomeadamente de Ricardo Charters d’ Azevedo «Códigos de bom-tom ou civilidade» (pág. 134) e de Susana Moncóvio «Maria da Glória da Fonseca Vasconcelos (n. 1831) e Leonor Augusta Gonçalves Pinto (1849-1931), elementos de uma família de artistas ativos no Porto e em Vila Nova de Gaia entre o século XVIII e o século XX (p. 424). 

Comemorações
25 anos da Escola Secundária Diogo de Macedo
Prosseguem as comemorações dos 25 anos desta escola gaiense, que no passado dia 16 de Fevereiro organizou um jantar/conferência solidário em que falou o Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, sociólogo e presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que dissertou sobre os desafios do presente entre o determinismo e o darwinismo social e as perspetivas para as gerações futuras.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos
Caminhos de Andarilho
No passado dia 1 de fevereiro, no Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto teve início um ciclo de palestras coordenadas por Arnaldo Trindade intitulado Caminhos de Andarilho, desta feita sobre “José Afonso - o Homem”, a qual teve como convidados Jaime Milheiro, João Afonso e Ana Almeida Santos.


Genealogia e História da Família
Nos próximos dias 16 e 17 de março decorrerá no Solar Condes de Resende uma formação sobre Genealogia e História da Família - descubra os seus octavós, com a orientação do Prof. Doutor Francisco Queiroz, autor de numerosos trabalhos sobre estas matérias que interessam a um público cada vez mais vasto.
Destinado ao público em geral, ao cidadão comum, é igualmente interessante para professores e estudantes de Ciências Históricas, Antropologia Cultural e Física e Ciências Biomédicas, por motivos bem conhecidos de todos. Esta ação, organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana.

Exposições

In Tempore Sueborum, Ourense
           

No passado dia 1 de fevereiro, uma delegação da Confraria Queirosiana formada por J. A. Gonçalves Guimarães, António Bernardo, César Oliveira e Licínio Santos estiveram presentes no 19º Salão Internacional de Turismo Gastronómico em Ourense, Galiza onde compareceram representações de 12 países de vários continentes e confrarias de Espanha e Portugal, além da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas. No dia seguinte os dois historiadores presentes visitaram a exposição In Tempore Sueborum patente ao público no Centro Cultural “Marcos Valcárcel”, na igreja de Santa Maria Nai e no Museu Municipal de Ourense, apresentando jóias e peças arqueológicas dos Suevos e do seu tempo provenientes de dez países europeus, entre as quais quadro depositadas no Solar Condes de Resende, três do Castelo de Gaia e uma do Castelo de Crestuma, provenientes de escavações arqueológicas realizadas pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana. Na sequência desta visita, J. A. Gonçalves Guimarães realizou uma palestra no Solar Condes de Resende no passado dia 22 de Fevereiro intitulada «Portucale entre Suevos e Visigodos», onde abordou a destruição de Portucale Castrum Antiquum (Gaia) pelos visigodos em 585.

Esculturas de António Pinto
No passado dia 17 de Fevereiro na Biblioteca Pública Municipal de Gaia abriu ao público uma exposição de esculturas de António Pinto e de pinturas de Luísa Prior, intitulada “O Meu Olhar”. Tendo sido monitor em diversas ações de formação em Portugal e no estrangeiro onde a pedra é a matéria-prima, António Pinto expõe habitualmente no Salon d’Automne Queirosiano no Solar Condes de Resende. Nesta sua primeira exposição individual apresenta vários rostos e figuras femininas em mármore, granito e xisto.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 111 – domingo, 25 de fevereiro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração Ricardo Haddad e Susana Moncóvio.