segunda-feira, 25 de março de 2019

Eça & Outras


Eça & Outras, segunda-feira, 25 de março de 2019

No centenário de César Morais
         Quando no início de 2018 propus na Confraria Queirosiana o tema para a realização do habitual curso livre a iniciar em outubro, desta feita sobre o Património musical, fi-lo com alguns pressupostos: um deles a consciência de que esta é uma das áreas do saber menos conhecidas, pois a História da Música tem entre nós poucos cultores e a interpretação dos seus significantes ainda menos, dado que a existência de musicólogos é relativamente recente. Um outro era que, de um modo geral, mesmo quando os melómanos conhecem as obras musicais às vezes sabem pouco sobre os seus autores e as circunstâncias da sua produção. Depois, embora sabendo que a prática musical é vasta e multimodal, da música popular até à erudita, importava não ignorar ou menosprezar as suas diversas manifestações. Por fim, se é certo que não há nada mais universal do que a música, o ter vindo a constatar que, desde pelo menos a década de vinte do século passado que Vila Nova de Gaia se tem vindo a afirmar como um potencial alfobre de estudiosos, intérpretes, mestres, compositores, professores, maestros e divulgadores em todas as áreas musicais, nem sempre conhecidos como daqui naturais ou ligados por diversas razões a este município: Artur e Alfredo Napoleão; Armando Leça; Dina Teresa; Loubet Bravo; Adriano Correia de Oliveira; Günther Arglebe; Oliveira Lopes; Jorge Fontes; Maria José Morais; Mário Mateus; António Pinho Vargas; Simões da Hora; Cesário Costa; Rui Massena, ou as escolas e suas orquestras, como as da Academia de Vilar do Paraíso, do Conservatório Regional de Gaia, da Escola de Música de Perosinho e da ACMA, as bandas filarmónicas e certamente outros agrupamentos musicais, os bombos dos Mareantes do Rio Douro, um ou outro rancho folclórico, orfeão ou tuna, acontecimentos como o Festival Internacional de Canto Francisco de Andrade e o atual Festival Internacional de Música de Gaia, são apenas alguns exemplos da afirmação dessa pujança musical, que, quantas vezes, se manifesta com sucesso em palcos distantes. Mas neste programa queríamos também lembrar o compositor César Morais, cujo centenário do nascimento passou em 2018. Se é certo que o seu espólio pessoal e musical está hoje guardado e arquivado na Casa Museu Teixeira Lopes, a figura e a obra estão esquecidas. Quando procurávamos elaborar a aula que sobre tal apresentamos neste curso, deparamos com o seguinte testemunho de Álvaro Silva Teixeira, que não conheço pessoalmente, que diz tudo o que eu  poderia dizer, ainda que por outras palavras, e que aqui reproduzo com a devida vénia ao autor:
«HOMENAGEM PÓSTUMA A UM PROFESSOR. CÉSAR MORAIS foi o meu primeiro professor de harmonia e contraponto. Um bonacheirão. Vivia a vida com alegria. Dispersava tolerância e optimismo. Não aspirava à história! Acho que naqueles tempos de contemporaneidade forçada, estava mesmo convencido que o seu nome seria esquecido mal desaparecesse o último dos seus alunos.
Anos depois eu era compositor. Da contemporaneidade! As minhas obras passavam regularmente em todos, ou quase todos, os programas musicais da TV2. As obras de César Morais não passavam. Na realidade nem eram tocadas. A sua estética era clássica e conservadora. Quando falávamos nele era com um misto de ironia e desconsideração. Os nossos "mestres" nem sequer o consideravam um compositor. Nunca coloquei o nome dele no meu curriculum.
Hoje (16 de Agosto de 2004), por puro acaso do destino, veio-me parar às mãos um cd. No topo em letras grandes e brancas lia-se "César Morais" Não relacionei. Pensei ser um novo "compositor contemporâneo" e decidi escutá-lo. Estranhei. Era lindo mas neoclássico. O tal revivalismo, pensei.
Era uma interpretação belíssima da Orquestra Clássica do Porto sob direção de Werner Stiefel com Martin Ostertag no violoncelo. Continuei a escutar, sempre convencido ser algo conservador mas atual e gostei, apesar da estética "caduca"... Olhei para a contracapa e vi a foto de um busto familiar. Continuei sem relacionar. Talvez seja o maestro, pensei. Comecei a ler a biografia do compositor e ia tendo um "baque"- Mas este foi meu professor! O meu primeiro professor de harmonia, exclamei muito alto espantando todos os que se encontravam na sala.
A história é interessante e implacável: alguns dos "mestres" que desprezavam César Morais estão mais ou menos esquecidos. Espero que alguns venham a ser devidamente "recuperados" e valorizados, pois foram compositores de talento. Eu, por contextos vários, abandonei desde há muitos anos o trabalho de criação e desfiz o grupo de música que fundei e dirigi. Alguns de nós (os "contemporâneos") que mantiveram a produção e se "encostaram" a "mestres" influentes, estão no "top" mas talvez a história lhes venha a passar uma rasteira. E também a alguns dos "mestres" que acreditam já ter o seu nome gravado na eternidade...
César Morais faleceu em Agosto de 1992 e eu não soube de nada. É o único compositor português que figura no Dicionário de Biografias Internacionais publicado em Cambridge. Álvaro Silva Teixeira»
No século XIX, ainda sem a possibilidade de ouvir e degustar a música a qualquer momento reproduzida com incrível fidelidade, Eça de Queirós escreveu: «A nossa época é que devia produzir a música como a Grécia produziu a escultura, como a Europa gótica a arquitetura e a era das monarquias e das academias a tragédia raciniana. Com efeito, nunca, como neste tempo, as profundidades da alma, cavadas e alargadas pelas revoluções, estiveram tão fundas e tão ilimitadas. Durante a lei católica e os embrutecimentos monárquicos, a alma movia-se lenta como o mar, unida, calma, pesada, opaca e coberta de brumas. De repente as revoluções passaram pela noite sacudindo os seus fachos severos, donde saltavam constelações. A alma alumiou-se entre repelões brutais» (Prosas Bárbaras).
E para tal, desde então, também muito tem contribuído todo o Património musical, desde os mais modestos sons campestres até aos sinfónicos e gloriosos hinos à alegria universal.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana




150 anos da viagem ao Egito
     Para assinalar os 150 anos da viagem de Eça de Queirós ao Egito na companhia do 5.º Conde de Resende, a Confraria Queirosiana e a empresa de viagens Novas Fronteiras vão estabelecer um protocolo para a realização de Roteiros Queirosianos, o primeiro dos quais a concretizar em dezembro de 2019 com uma viagem ao Egito e Palestina conduzida pelo egiptólogo Professor Luís Manuel de Araújo, decalcada, tanto quanto possível, daquela outra que teve lugar em 1869 e da qual resultou, entre outros textos, o romance A Relíquia. Com partida de Lisboa a 26 de dezembro, os participantes seguirão para o Cairo e Alexandria e daí para a Terra Santa, passando o fim-de-ano em Jerusalém, regressando a 2 de janeiro.
         Entretanto aquele egiptólogo, diretor da Revista de Portugal e autor, entre muitos outros estudos, dos livros Imagens do Egipto Queirosiano e do Dicionário do Antigo Egipto, conduzirá igualmente, em datas mais recentes, nos próximos meses de abril e agosto, outras viagens ao Antigo Egito com a participação dos seus alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e membros de várias outras instituições.

Património Cultural de Gaia
Prosseguem os trabalhos de levantamento, estudo e redação de textos para publicação dos diversos volumes do Património Cultural de Gaia (PACUG) em execução por diversas equipas organizadas e coordenadas pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, sendo este projeto financiado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Tendo já sido publicado o primeiro volume intitulado Património Humano. Personalidades Gaienses, coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, encontra-se em trabalhos finais o segundo volume sobre Património de Gaia no Mundo/ Património do Mundo em Gaia, coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e Francisco Queiroz, a publicar em Junho próximo, a que se seguirá o volume sobre Património de Gaia no século XX, coordenado por José Alberto Rio Fernandes.
Como aquela primeira edição se destinou a distribuição institucional a autarquia gaiense celebrou recentemente um outro protocolo com a ASCR-Confraria Queirosiana e as Edições Afrontamento para uma nova edição para distribuição no circuito comercial.

Eventos passados


José Valle de Figueiredo
            No passado dia 8 de março decorreu na Fundação Cupertino de Miranda no Porto, a homenagem «José Valle de Figueiredo: o Homem e a Obra», promovida pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde «como reconhecimento do incansável labor que, em termos culturais, tem prestado a esta comunidade». O encontro teve início pelas 18 horas com a participação de vários oradores, a que se seguiu um momento poético-musical. Poeta e crítico literário nascido em Tondela em 1942, o homenageado tem uma vasta obra publicadaem livro e artigos dispersos porjornais e revistas. Tem também organizado colóquios, exposições e conferências, e ter produzido uma variada obra literária e ensaística, além de programas para a Rádio Televisão Portuguesa.
         O jornal As Artes entre as Letrasn.º 237 de 27 de fevereiro passado dedicou-lhe a capa sob o título «Um certo Porto grato a Zé Valle de Figueiredo».
        
Antigo Egito
No passado dia 15 de março o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, esteve no Colégio da Bonança em Vila Nova de Gaia onde proferiu uma conferência sobre a civilização do Antigo Egito, a qual prendeu durante largo tempo a atenção dos muitos alunos e docentes daquele estabelecimento de ensino presentes na mesma.

Cursos, conferências e palestras
        
Fernão de Magalhães
         A propósito do início das comemorações dos 500 anos da 1.ª viagem de circum-navegação, no próximo dia 28 de março, pelas 21,30 horas, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do Solar Condes de Resende, o historiador J. A. Gonçalves Guimarães falará sob o tema «Fernão de Magalhães e Vila Nova de Gaia» apresentando as investigações históricas mais recentes que ligam os primeiros anos do futuro navegador a esta povoação ribeirinha da margem esquerda do Rio Douro.

Roteiros queirosianos
         No próximo dia 29 de março o presidente da direção da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana vai fazer uma conferência no Colégio S. Gonçalo em Amarante sobre «A Confraria Queirosiana e os Roteiros queirosianos».

Caminhos de Santiago
        Nos próximos dias 12 e 13 de abril vai decorrer no Forte de S. João Baptista da Foz do Douro um I Congresso Caminhos de Santiago, no qual serão oradores, entre outros, José Augusto Maia Marques, sobre «A Capela Farol de São Miguel-o-Anjo – início simbólico para o Caminho de Santiago»; Paulo Jorge Sousa Costa sobre «Hagiotoponímia medieval do Norte de Portugal, segundo as inquirições de 1258»; e José Valle de Figueiredo sobre «A poesia no Caminho de Santiago».
         Como vai sendo habitual nas iniciativas sobre este tema, não há comunicações sobre as origens deste mito criado no século IX, nem sobre a sua existência desde então para cá, nomeadamente sobre a sua real incidência nas populações e no território.

Ilustres de Canidelo e 25 de Abril
        No dia 23 de abril, ainda o historiador J. A. Gonçalves Guimarães participará na Associação de Solidariedade Social dos Idosos de Canidelo nas comemorações dos seus 20 anos de existência, proferindo uma palestra sobre «Figuras Ilustres de Canidelo», e no dia 25 de abril, pelas 21,30 horas, no Solar Condes de Resende, falará sobre «25 de Abril: documentos para uma quase História»

Música & Músicos
        Aproxima-se do fim o curso livre do Solar Condes de Resende organizado pela Academia Eça de Queirós, com alguns ajustes em termos de datas e professores, mas cumprindo rigorosamente o programa estabelecido. Assim, no sábado 16 de março, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre «O compositor César Morais» e no dia 23, Rosário Pestana, da Universidade de Aveiro, sobre «O compositor e folclorista Armando Leça: resgate, criação e disseminação da música portuguesa». Em Abril, no sábado dia 6, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «Música e Músicos em Gaia», terminando o curso nosábado dia 13, com a lição por Elisa Lessa, da Universidade do Minho, sobre «A música nos conventos femininos em Portugal (séculos XVII a XIX): o caso do Mosteiro de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia».
         No próximo ano letivo o novo curso terá como tema «Revoluções e Constituições» com a intenção da Confraria Queirosiana dar assim o seu contributo para as comemorações do 2.º Centenário da Revolução de 1820.

Concurso de Poesia
         Até ao dia 31 de maio decorre o prazo para entrega dos trabalhos concorrentes à 20.ª edição do Concurso de Poesia Agostinho Gomes, promovido por uma parceria entre a Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, a Junta de Freguesia de Cucujães e o Núcleo de Atletismo de Cucujães, em homenagem a este homem de Letras daí natural. O regulamento e ficha de inscrição podem ser vistos em https://bit.ly/2UNhPU7.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 127,segunda-feira, 25 de março de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Eça & Outras

A.  Campos Matos, o estudo como busca da justiça social
Não é possível em Portugal falar da vida e obra de Eça de Queirós desde os anos 70 do século passado sem conhecer a obra de A. Campos Matos. Efetivamente, tendo descoberto A Relíquia e o seu positivismo ainda muito novo, que complementou com muitas outras leituras, desde que em 1975 publicou Imagens do Portugal Queiroziano (3.ª edição, 2004), que este autor vem regularmente produzindo estudos, ensaios, recensões, edições críticas, e mesmo algumas polémicas em torno da vida e obra do escritor, hoje fundamentais e imprescindíveis para o seu estudo e compreensão. Referindo agora apenas os seus principais contributos, recordamos obviamente o Dicionário de Eça de Queiroz, 1988, obra monumental com edição mais recente em 2015. Mas também Eça de Queiroz/Emília de Castro. Correspondência Epistolar, 2ª edição 1996, e sobretudo Eça de Queiroz. Correspondência, 2008, já com dois acrescentos epistolares, que tanta luz vieram trazer para desfazer mitologias criadas em volta da vida do escritor por apressados memorialistas. Ainda o Dicionário de Citações de Eça de Queiroz, de 2006, para tentar acabar com as frases apócrifas que o escritor jamais escreveu e que circulam na internet ou em publicaçõeszecas menores. Coroando tudo isto, Eça de Queiroz. Uma Biografia, com edições em Portugal e no Brasil, a última das quais de 2017, o mais sólido retrato da vida do escritor até hoje elaborado. Mas a sua produção em torno do autor de Os Maias de modo algum se esgota nestas obras, produzindo com frequência abordagens pontuais de aspetos muito particulares do universo eciano, reunidos, por exemplo, em Sobre Eça de Queiroz, 2002. Imparável nos seus ativos noventa anos, A. Campos Matos recusa-se a ser «apenas um cansado e velho fazedor de livros, que passa» (Eça de Queirós, A Rainha) continuando a surpreender-nos com coletâneas dos seus estudos, como a recente 94 Reflexões sobre Eça de Queiroz e outros escritos, 2018, onde, entre muitas outras análises, refere alguns dislates balzaquianos contidos na chamada «edição crítica» de O Mandarim (p. 19) ou as gralhas repetidas na Capital! ou em Os Maias, além dos discutíveis critérios da sua não partição em dois volumes (p. 183). Mas também «Eça visto pelos brasileiros», «As namoradas americanas do nosso cônsul em Havana»; «Uma dúzia de perguntas para Eça de Queiroz»; «Efabulações queirozianas»; «Eça provinciano?» e muitas outras entradas, como «Verdemilho em Aveiro. Um escândalo nacional»; «O meu espólio queiroziano» e tantas outras mais, preciosas reflexões ou mesmo provocações para uma sempre renovada leitura da vida e obra do seu autor preferido.
Estamos em condições de afirmar que em breve dará à estampa um novo e surpreendente ensaio sobre um dos aspetos mais notáveis da vastíssima cultura daquele autor e do seu elevado espírito conhecedor das questões filosóficas que ocupavam a mente dos grandes pensadores do seu tempo e, afinal, de todos os tempos, intitulado Perante a Névoa e a Realidade, «algo de novo acerca d’ Os Maias e, de um modo geral, sobre grande parte da sua obra». Sobre a Filosofia em Eça de Queiroz, sobre o Eça filósofo, afinal o amigo do filósofo Antero, ambos discípulos de Hegel, Schopenhauer e Marx.
Mas A. Campos Matos de modo algum se fica pelo universo queirosiano nos seus escritos, ou digamos que, para melhor o entender e testar-se a si próprio na sua capacidade para esse entendimento, reflete também sobre o seu próprio percurso intelectual, desta feita num curioso livro de matéria autobiográfica intitulado Constrvtores do mev Mvndo, assim lapidado na capa como se fora num mármore clássico. Ao longo das suas páginas vai-se reencontrando com os autores e pensadores que lhe modelaram o pensamento, a percepção do quotidiano e do universo, a necessidade de manter eternamente jovens o espírito crítico e a tolerância, mesmo en désaccord avec son temps… (André Gide). Colocados por ordem alfabética autoral, e não cronológica na circunstância de terem passado a fazer parte da sua vida, aí encontramos Camões, Camilo, Eça, Sérgio e Coimbra Martins, entre outros, ao lado de Tolstoi, Flaubert, Malraux, Soljenitsine e também mentores da sua profissão de arquiteto como Le Corbusier e Frank Lloyd Wrigh. Tendo eu me iniciado na estrada da vida separado de A, Campos Matos por mais de uma inteira geração, registo com curioso agrado que ambos fomos marcados pela leitura de Estes Dias Tumultuosos de Pierre Van Paassen (1.ª edição portuguesa, 1946), tendo o meu exemplar, que ainda conservo, escapado a uma rusga da PIDE ao domicílio de um amigo de infância escondido na bacia da roupa lavada para estender que sua mãe preparava, pois era então «livro proibido». A. Campos Matos define o autor desta autobiografia, que se reporta às primeiras quatro décadas do século XX, como um jornalista «excelente observador e lúcido comentarista da História» do seu tempo, que afinal alicerçou o nosso. Ideologicamente talvez um «socialista democrata cristão», de origem holandesa que presenciou em Berlim a ascensão dos nazis, tendo então entrevistado Hitler, que classificou como um «maníaco visionário dominado por uma ideia fixa», tendo sofrido prisão em Dachau por ter usado o seu passaporte para salvar um colega perseguido pela polícia política alemã. Mas antes estivera em África, onde adivinhou a incapacidade dos regimes coloniais para a urgente mudança, o que viria a originar os horrores das descolonizações futuras, e também na Palestina, onde à data, para além da desgraça que se adivinhava para o pós-1948, também partilhou episódios picarescos muito semelhantes aos que Eça descreve em A Relíquia. Esteve também na Espanha republicana que democraticamente tinha herdado «um país ocupado por centenas de milhares de monges, mosteiros e igrejas repletos de tesouros, distritos inteiros povoados por idiotas e prisões superlotadas…, um país balcânico e retrógado», cuja esperança de mudança foi travada por Franco, com a ajuda de Hitler, Mussolini e Salazar, através de uma guerra iníqua, que convém lembrar nestes dias em que a mesma Espanha fascista vocifera ainda nas ruas de Madrid. Por fim o relato termina com a derrocada do exército francês que deu origem ao governo colaboracionista de Vichy.
Tal como A. Campos Matos, considero este relato na primeira pessoa deste autor falecido em Nova Iorque em 1968 um testemunho fundamental para a compreensão do século XX mundial, lamentando também que tal obra não tenha sido reeditada, não se encontrando facilmente disponível para leitura por parte das gerações atuais. Entretanto há por aí bibliotecas públicas que apresentam revistas de salão de cabeleireiro repletas das habituais inutilidades como estímulo à leitura dos seus frequentadores…
Como vimos, nem só de Eça ou para Eça vive este autor, mas para algo tão grande como «um ato de espírito», que o próprio escritor entendia que deveria ser sempre «um ato de grande justiça social» (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas).

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Com carimbo do dia 25 de julho de 2018, os CTT lançaram uma emissão filatélica evocativa dos 130 anos da 1.ª edição de Os Maias, composta por sete selos polícromos da autoria de Luiz Duran, um deles alongado com o retrato de Eça de Queirós e o valor facial de 1 €, e seis outros selos de valor facial de 0,53 € com representações idealizadas de algumas personagens do romance, como Afonso da Maia, Carlos da Maia, João da Ega, Maria Eduarda, Condessa de Gouvarinho e Dâmaso Salcede. O texto de apresentação é de Isabel Pires de Lima

Eventos passados
85 anos da Biblioteca Municipal de Gaia
No passado dia 22 de fevereiro decorreu na Biblioteca Municipal de Gaia um colóquio subordinado ao tema “Contributo do movimento associativo para o desenvolvimento cultural de Vila Nova de Gaia e a sua história” em que foram palestrantes, entre outros, J. A. Gonçalves Guimarães, pela ASCR – Confraria Queirosiana; Salvador Almeida, pela Associação Cultural Amigos de Gaia; Isabel Lacerda, pelo Grupo Folclórico de Danças e Cantares de Mafamude.

Exposição de cerâmica
            Também no dia 22 de fevereiro pelas 21,30 horas abriu ao público na Junta de Freguesia de Avintes a exposição «José Ramos – 17 anos de Cerâmica em 80», a qual estará patente ao público até ao dia 30 de março.           

Fórum Avintense
            Ainda nesse dia e no seguinte, decorreu no mesmo local o 29º Fórum Avintense, o qual abriu com uma homenagem ao ceramista acima referido por Cipriano Castro intitulada «José Ramos – o meu professor da primária». Seguiram-se outros conferencistas sobre os mais diversos temas, nomeadamente Abel Barros sobre «Avintes, Passado e Presente: o Areinho»; Nuno Oliveira «Avintes e os rios: A valorização das margens fluviais»; e Paulo Costa «O rio e os poderes feudais».

Cursos, conferências e palestras

Fernão de Magalhães
No próximo dia 28 de fevereiro, pelas 16 horas vai decorrer na Universidade Portucalense o seminário “Ruas do Porto – Avenida Fernão de Magalhães”, no qual serão conferencistas o historiador J. A. Gonçalves Guimarães, sobre «Fernão de Magalhães: figura e obra» e o arquiteto Luís Aguiar Branco sobre «A Avenida Fernão de Magalhães no urbanismo do Porto», tendo como moderador no debate José Manuel Tedim, docente daquela universidade. A participação é gratuita mas obriga a inscrição prévia para: https://bit.ly/2RmyoDW  

Leonardo da Vinci e os discípulos de Ícaro
            Ainda no mesmo dia, mas pelas 21,30 horas, no Solar Condes de Resende, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, aquele primeiro historiador falará sobre «Nos 500 anos de Leonardo da Vinci: Vila Nova de Gaia e os discípulos de Ícaro». É entrada é livre e não carece de inscrição prévia.

Vinho do Porto
            No dia 1 de março pelas 18 horas o Prof. Doutor António Barros Cardoso, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e da APHVIN/GEHVID, falará na Reitoria sobre «O Porto do Vinho». A participação obriga a inscrição prévia para geral@gbliss.pt

Música & Músicos
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre sobre Música & Músicos. Aspetos do Património Musical Português», organizado pela Academia Eça de Queirós, com algumas pequenas alterações de professores motivas por doença de alguns dos inicialmente contatados: assim, no próximo dia 2 de março o Prof. Dr. André Granjo falará sobre Bandas Filarmónicas em Portugal, seguindo-se no sábado, dia 2 de março, «Bandas Filarmónicas em Portugal» por André Granjo, sábado, 09 «O maestro Pedro de Freitas Branco» por Cesário Costa, sábado, 16 «A música nos conventos femininos em Portugal (séculos XVII a XIX): o caso do Mosteiro de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia» por Elisa Lessa, sábado, 23, «O compositor e folclorista Armando Leça: resgate, criação e disseminação da música portuguesa» por Rosário Pestana e em abril, sábado dia 6 «O compositor César Morais» por J. A. Gonçalves Guimarães, que no sábado dia 13 apresentará a última aula do curso sobre «Música e Músicos em Gaia».

Livros
94 Reflexões sobre Eça de Queiroz e outros escritos, de A. Campos Matos, Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, novembro de 2018, 316 páginas, ilustrado com muitas imagens do arquivo do autor, uma série de curtos ensaios «Para aqueles que frequentemente me perguntem algo como:”o Eça é único e o maior de todos, não é verdade?”», complementada com uma entrevista publicada no Club do Colecionador dos CTT em Dezembro de 2017 sobre a sua biografia de Eça, e ainda correspondência trocada com o editor francês Antoine Gallimard, um notável texto sobre « Da aniquilação do Património Humano», um outro sobre falsa correspondência de Eça, seguindo-se a apresentação da 1.ª versão francesa da sua biografia de Eça na Gulbenkian de Paris em 2009 e uma carta de sua neta Inês escrita de Londres para o editor francês acima referido com algumas críticas a obras de Eça em jornais ingleses, datada de Maio de 2018.

Constrvtores do mev Mvndo, de A. Campos Matos, Lisboa: Edições Colibri, novembro de 2018, 104 páginas, ilustrado com retratos de diversos autores, incluindo o seu na badana da contracapa, apresenta as impressões que lhe deixaram ao longo da vida as obras de quarenta e seis nomes maiores da Cultura portuguesa e estrangeira. Uma curiosa revisitação pessoal de autores e obras.

Ainda em 2018 foi publicado pela Universidade Federal de Santa Catarina o livro intitulado Gêmeas Imperfeitas - As Repúblicas do Brasil e de Portugal: unidas no ideal e diferenciadas nas práticas, «uma abordagem plurifacetada das relações entre Portugal e o Brasil na viragem dos séculos XIX-XX», coordenado, entre outros, por José Eduardo Franco. A capa recupera uma notável gravura a cores que também foi capa na Ilustração Portuguesa, 2.ª série, n.º 872, 4 de novembro de 1922. De entre os diversos capítulos publicados destacamos «Dos estreitos limites do internato, fui salvo pelo mar - o padre Luiz Gonzaga Cabral e Jorge Amado» da autoria de Manuel de Novaes Cabral.

No passado dia 7 de Fevereiro, na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) em Lisboa, pelas 18 horas decorreu a abertura da exposição «Em demanda da biblioteca de Fernão de Magalhães» organizada pelo Prof. Doutor Rui Manuel Loureiro, igualmente coordenador e co-autor do livro com o mesmo título aí lançado, que também apresenta textos de Juan Gil, Consuelo Varela e José Manuel Garcia. Esta edição, que teve o patrocínio das câmaras de Vila Nova de Gaia, de Lagos e de Lisboa, apresenta na abertura um texto da presidente daquela autarquia algarvia e um outro pelo Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da edilidade gaiense, sobre a ligação desta cidade à vida de Fernão de Magalhães e sobre a importância do projeto PACUG, em realização pela Confraria Queirosiana, para o conhecimento do Património humano local.
            Esta exposição, com documentos e iconografia magalhaniana, tem o maior interesse para o conhecimento do ambiente cultural que rodeou a vida e o feito de Fernão de Magalhães, bem assim como os testemunhos sobre ambos através de autores da época e das alterações cartográficas posteriores à circum-navegação.

Artes
                                    
O bar do Solar Condes de Resende passou a ter mais uma obra de Arte em exposição permanente. Trata-se de uma escultura em pedra de xisto rosa da autoria do canteiro-ornatista António Pinto, denominada Justiça, oferecida pelo autor à associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, da qual é sócio e confrade.


Artigos publicados no blogue eca-e-outras e no jornal As Artes entre As Letras
            Nos últimos números de 2018 e os do princípios de 2019, o responsável por esta página publicou diversos artigos de fundo ou de crítica quer neste blogue (E&O) quer no jornal As Artes entre As Letras os quais, por motivo de gestão e oportunidade da informação neles contida, não seguiram a habitual ligação entre as duas publicações, o que baralhou um pouco os nossos habituais leitores, que julgaram assim ter perdido a oportunidade de terem lido um ou outro texto. Por esse motivo segue em anexo a listagem dos mesmos e a respetivas datas e locais de edição:
- «Os humanos são dados às representações estéticas», E&O n.º 123, 25 de novembro de 2018; As Artes entre as Letras, n.º 233, 26 de dezembro de 2018, p. 12.
- «Ano Europeu do Património Cultural», E&O n.º 124, 25 de dezembro de 2018; As Artes entre as Letras, n.º 233, 26 de dezembro de 2018, p. 4;
- «Uma primorosa edição comemorativa dos 130 anos de Os Maias», As Artes entre as Letras, n.º 235, 30 de janeiro de 2019, p. 6/7.
- «Faltas de visão e outros astigmatismos», As Artes entre as Letras, n.º 235, 30 de janeiro de 2019, p. 20.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 126, segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.  


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Eça & Outras

Palmatoadas e reguadas

Já lá vai o tempo em que na escola primária os alunos que erravam a escrita, as contas, a gramática, os verbos, os nomes dos rios, as estações de comboio e a História de Portugal, entre muitas outras coisas, eram agredidos pela mestra ou mestre com palmatoadas, várias pancadas dadas na palma das mãos com um instrumento de madeira chamado palmatória. Era eu menino quando houve um grande progresso educacional: a dita fora proibida, dizia-se. Na escola que frequentava só uma professora tinha uma, mas escondida, o que não a impedia de a usar de vez em quando. Fora substituída pela “régua”, uma isso mesmo de pau santo, com que, em vez de proibidas palmatoadas se distribuíam toleradas reguadas. Um grande melhoramento. Felizmente hoje as crianças desconhecem tais instrumentos de tortura, que eram também comummente usados para punir erros na escrita e na fala da pátria língua, quer fosse pela borratada cópia de um texto, pelo ditado com palavras mal escritas, pela conjugação errada dos verbos, pelo desabafo de uma imprecação numa briga com um colega que a professora ouvisse (vulgo palavrões e asneirolas), por uma redação com frases mal construídas. Até a pronúncia “parola”, ou mais ou menos provinciana (segundo a comparação com a do professor, eram corrigidas à reguada, sem esquecer os que teimavam em escrever com a mão esquerda. A aprendizagem da Língua Portuguesa era pois coisa tenebrosa e os erros, divergências ou omissões punidos com castigos. Algumas virtudes, quase teologais, como uma boa caligrafia, ou quando o aluno se revelava na escrita de textos edificantes, gramaticalmente corretos, eram incentivadas e premiadas. No secundário alguns aprendiam rudimentos de Latim, embrenhavam-se nos labirintos linguísticos d’ Os Lusíadas, não pela beleza dos versos, mas pela erudição das charadas gramaticais, liam Camilo e Júlio Dinis e uns tantos outros escritores muito perdidos no tempo. Eça viria mais tarde e, quase sempre, encontrado fora do circuito escolar, como muitos outros divinos prosadores.
         Relembro tudo isto aqui porquê? Porque amiúde dou por mim a merecer-me, já não digo palmatoadas, mas uma ou outra reguada das que não apanhei na infância. Isso mesmo, “dou” erros, não voluntariamente, mas o certo é que eles aparecem na minha escrita para vergonha minha. Esqueci-me de dizer que na minha escola primária, talvez mais doloroso do que as palmatoadas, era a vergonha de as levar porque realmente significavam erros, falhas, mediocridades. Ficou-me. Ainda num texto meu recentemente aqui publicado escrevi “Concelho da Europa” em vez de Conselho da Europa, fintado no subconsciente por ter estado a ler um texto em inglês sobre o Council of Europe. Como também leio regularmente muitos documentos antigos, dos tempos em que ainda não havia acordos ortográficos, em certa conferência olhei aterrado para uma página do meu power point onde aludia à importação de “assucar” do Brasil, exatamente assim, como vulgarmente se escrevia no século XVIII. Outras vezes encontro outros erros escritos, sem eu saber por quê, pelos próprios programas dos computadores, não apenas em palavras mas também em datas: num texto meu “matei” D. Carlos a 27 de Fevereiro sabendo perfeitamente a data certa. Noutro texto escrevi sobre um outro personagem que tinha morrido antes de nascer. Grave. Quantas vezes preocupado com a profundidade do discurso e a clareza da necessária comunicação das ideias descuro estes pormenores ortográficos, gramaticais ou de exatidão cronológica da mensagem que pretendo transmitir. Por isso eu tenho em grandessíssima conta os meus eventuais revisores e agradeço sempre penhorado a quem me corrige, mesmo que com reguadas escusadas, pois sou daqueles que têm para si que cada erro, cada vergonha. Pelo contrário, quando me pedem para rever textos de outrem, procuro sempre escusar-me por saber que bem depressa andarei ali à cata das ideias esquecendo ortografias e sintaxes.
         Há agora uns “entendidos” que desprezam estes pruridos e rigores em nome das “criatividades”. Outros discutem acordos ortográficos como se se tratassem de campeonatos de futebol. Outros pregam-nos as virtudes de escrever queirós com z. Outros são especialistas em gerúndios ou em charadas lexicais. São artes que não domino e que, aqui para nós, rapidamente me enfastiam, embora me fascinem a evolução linguística e a toponímia. Tendo para mim que a Cultura, mais do que um acumular de conhecimentos ou especializações em versos alexandrinos ou outras excelências, é uma permanente busca da nudez crua da Verdade, seja em que domínio do conhecimento for, também estou convicto de que não há manto diáfano que justifique a transformação de fantasias, neste caso de erros, em práticas correntes. Por isso me penitencio, estendo a mão à palmatória e procurarei sempre que, se os meus textos não trouxerem nada de novo que aproveite aos seus leitores, ao menos não tragam o lixo de erros, imperfeições ou omissões. E não apenas as linguísticas.
         Mas na realidade também não estou interessado em cultivar na minha escrita «alguma coisa de cristalino, de aveludado, de ondeante, de marmóreo, que só por si, plasticamente, realizasse uma absoluta beleza – e que expressionalmente, como verbo, tudo pudesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados de alma…», como queria Fradique (A Correspondência de Fradique Mendes), mas não quero eu, o praticar uma beleza formal tolhedeira da humana necessidade de comunicar, disfarçando com “figuras de estilo” a gaguês das imperfeições que os puristas se entreterão a sublinhar a marcador grosso. Tomara conseguir eu gravar pensamentos justos e verdadeiros em algumas lápides, se possível sem os erros do lapidário que em mim às vezes deles se alheia, escrevendo concelho sem atender a bom conselho. 

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos passados

Advogados Europeus
Dr. José de Freitas, presidente das Ordens de Advogados Europeias
No passado dia 29 de novembro reuniram-se em Lille, França, as 32 delegações nacionais das Ordens de Advogados filiadas no CCBE (Conseil des Barreaux Européens | Council of Bars and Law Societies of Europe | Conselho das Ordens de Advogados da Europa), representativas de cerca de um milhão de advogados. Fundado em 1960 e com sede em Bruxelas, a ele aderiu em 1992 a Ordem dos Advogados Portugueses. Para além daquelas filiações do espaço económico europeu, representa ainda 13 outros estados associados e observadores. Tem como objetivos, entre outros, o estabelecer ligações entre as ordens nacionais e as instituições comunitárias e produzir estudos sobre o exercício da profissão de advogado. Nesta sessão foi eleito como seu presidente para 2019 o advogado português Dr. José de Freitas, da empresa Cuatrecasas, que já anteriormente tinha desempenhado as funções de vice-presidente desde 2016. Foram também eleitos como vice-presidentes representantes das ordens da República Checa, Croácia, Alemanha e Irlanda.

Centenário da Faculdade de Letras do Porto



No passado dia 18 de janeiro tiveram início as comemorações do centenário da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a abertura de uma exposição evocativa e a conferência «FLUP 1919 – a ideia, o projeto de transferência, a criação de uma nova Faculdade» pelo Professor Doutor Jorge Fernandes Alves e organizada pelo CITCEM. Fundada em 1919, o seu funcionamento foi suspenso em 1928, logo no início do Estado Novo, tendo tido até então uma plêiade de notáveis professores que deixaram abundante e seleta bibliografia. Tendo retomado a seu funcionamento em 1961, foi-se afirmando através dos seus docentes e discentes no panorama cultural do País.

Monarquia do Norte


No passado dia 19 de janeiro realizou-se no Ateneu Comercial do Porto uma conferência por Carlos Bobone e Nuno Resende sobre «A Monarquia do Norte. Uma história de resistência», lembrando que «durante 25 dias o Porto foi capital do reino de Portugal». Neste acontecimento histórico, cuja ação militar foi comandada por Paiva Couceiro, foi figura de relevo Luís de Magalhães, o amigo de Eça de Queirós e editor póstumo de algumas das suas obras, que foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros o qual, quando detido e julgado em tribunal, se manteve firme na defesa dos seus atos e convicções.

Cursos e palestras

Ontem, dia 24 de janeiro, teve início no ISPGAYA, Vila Nova de Gaia, o 3º Congresso Internacional promovido pela revista de Psicologia, Educação e Cultura subordinado ao tema «O local e o mundo: sinergias na era da informação», que se prolongará para o dia de hoje, 25. Na sessão de abertura falou Lino Tavares Dias, diretor da instituição, tendo a conferência de abertura sob o tema «Sinergias políticas na região» sido proferida por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia». Hoje, na sessão de encerramento às 16 horas, sob o tema «Sinergias nas instituições e nos territórios» falarão, entre outros, Albino Jorge, administrador da Quinta da Boeira sobre «Turismo e o setor do Vinho do Porto» e J. A. Gonçalves Guimarães sobre «O Solar Condes de Resende, Gaia e o Mundo».
Na programação das palestras das últimas quintas-feiras do mês do Solar Condes de Resende, no próximo dia 31 de janeiro, o Prof. Doutor José Manuel Tedim falará sobre «Joaquin Sorolla, pintor espanhol da transição do século XIX para o século XX».
Prossegue entretanto no Solar Condes de Resende o curso livre sobre Música & Músicos. Aspetos do património Musical Português», organizado pela Academia Eça de Queirós: em fevereiro, sábado dia 2, a Dr.ª Helena Lourosa falará sobre «Bandas Filarmónicas em Portugal – uma história emergente», e no sábado 16, o Prof. Doutor José Manuel Tedim falará sobre «Scarlatti e a troca das princesas».
No dia 22 de fevereiro, no âmbito das comemorações dos 85 anos da Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, pelas 18 horas, aí decorrerá uma sessão sobre o «Contributo do movimento associativo para o desenvolvimento cultural de Vila Nova de Gaia e da sua história», em cujo painel participará J. A. Gonçalves Guimarães como coordenador do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-Confraria Queirosiana

Livros
No dia 11de janeiro, na Biblioteca Pública de Penafiel, o historiador Adrião Pereira da Cunha fez a apresentação do seu mais recente trabalho, o livro Humberto Delgado no Portugal de Salazar, editado por Edições Afrontamento, fundamental para o entendimento do regime do Estado Novo e das razões da sua permanência no tempo longo de quase meio século durante o qual os movimentos oposicionistas saíram do seu interior protagonizados por militares como Henrique Galvão, Humberto Delgado e, finalmente, pelo Movimento dos Capitães, depois transformado em Moimento das Forças Armadas pelos setores mais conservadores.


                Pela Associação das Creches de Santa Marinha (Vila Nova de Gaia) acaba de ser publicada a história da instituição escrita por Eva Batista, historiadora e investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, com o título Associação das Creches de Santa Marinha. Espaço de Modernidade Educativa. Tendo a autora enquadrado a sua fundação em 1862 no movimento de apoio à criança proletária do século XIX e da sua educação pelo acesso à escolaridade, aborda igualmente a biografia e importância social e cultural dos vários fundadores pertencentes aos mais diversos quadrantes ideológicos, políticos e religiosos da sociedade gaiense de oitocentos. Faz em seguida uma pormenorizada abordagem da vida da associação, da sua inter-relação com a sociedade local que a amparou até aos dias de hoje, dos apoios que teve de figuras nacionais, dos seus programas de ensino e do seu contributo para a problematização da evolução do ensino infantil em Portugal.

«Na minha casa praticamente não havia livros, a não ser os escolares. Pelos meus 14 anos, já tinha lido A Cidade e as Serras e A Capital, escolhidos por instinto na biblioteca da Gulbenkian em Angra do Heroísmo. Aos 15 anos decidi escrever um romance em que dois irmãos, separados por qualquer razão acidental da vida se reencontravam, se apaixonavam e tinham uma relação amorosa. Naquela época, evidentemente, eu não conhecia o conceito de incesto. Então, pensei que aquela história de um amor entre irmãos era absurda, da ordem do fantástico, impossível por qualquer razão divina ou fisiológica. Pelos meus 18 anos, nas férias do Natal de 1968, em casa de uns tios que tinham alguns livros, fui ler Os Maias. Ai pela página cem, já sabia o que ia acontecer. Ora, ali estava o romance que eu quisera escrever. Isto foi uma coisa magnífica: não só porque me deu a noção de uma certa intuição literária, mas também porque me retirou completamente as ilusões de vir a ser romancista.» (Excerto da entrevista ao Professor Doutor Carlos Reis, publicada na revista Ler, inverno de 2018, n.º 151, sob o tema «Sim, Os Maias! Ao fim de 130 anos, o livro de Eça de Queirós é mesmo o grande romance da nossa literatura», que apresenta ainda entrevistas com outros autores ecianos, bem assim como textos e crónicas sobre a obra do escritor e ainda diversos exercícios literários).

Encontra-se em distribuição o n.º 87 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia referente ao mês de dezembro de 2018, com artigos de, entre outros, MONCÓVIO, Susana – Raúl Marques Carneiro (1890-1969): uma figura do Futurismo algarvio em Vila Nova de Gaia; e COSTA, Virgília Braga da – O combate ao analfabetismo em Portugal. As escolas primárias de Mafamude (1846-1962), 2.ª parte.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 125, sexta-feira, 25 de janeiro de 2019; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos; colaboração: António Pinto Bernardo.


terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Eça & Outras, terça-feira, 25 de dezembro de 2018


Ano Europeu do Património Cultural: 2018 e depois

Vai longe o tempo quando em 1977 o Conselho da Europa publicou o livro Un avenir pour notre passé. Patrimoine Architectural Europeen, edição trilingue, com textos introdutórios de várias personalidades europeias, além da Carta Europeia do Património Arquitetónico e da Declaração de Amsterdam de 1975, no qual apareciam referidos sítios tão desconhecidos como Antalya ou Rolandseck, mas também Berlim, Istambul ou Veneza, além de vilas e cidades portuguesas, aí apontadas não tanto como exemplos a seguir, mas mais então como interrogações onde se punham em prática soluções consideradas adequadas a cada caso para preservar tão diversos testemunhos de memórias do passado, dar-lhes algumas novas capacidades para perdurarem no tempo e os edifícios e sítios aí apresentados estarem preparados para o usufruto dos cidadãos, então não apenas para os turistas, mas sobretudo para os residentes que os deveriam manter vivos. Ou seja, transformar a arquitetura histórica em património integral incluindo obviamente o património humano. Desde então não só muita água correu entre as margens do Sena, do Danúbio e de muitos outros rios da Europa, como o conceito de Património se foi consolidando como disciplina autónoma, já não lhe bastando apenas o exercício da arquitetura, não sendo já possível, sob risco de fraude, de dispensar a geologia e a arqueologia, a história científica e não a literária, as melhores propostas das engenharias, as mais recentes técnicas de restauro, e mesmo os estudos de psicologia de massas e os de gestão e marketing, não só para exponenciar a mais valia efetiva de cada elemento ou conjunto patrimonial, para o tornar rentável no sentido de uma possível autosustentabilidade, mas também para o defender da mistificação pseudocultural promovida por sociedades financeiras que, em detrimento da história e da exegese científica, às quais não chegam (nem querem chegar), preferem as mistificações a que chamam “cultura de massas”, trocando facilmente Carlos Magno pelo Rato Mickey e achando que são equivalentes, ou pespegando venezas e pirâmides egípcias onde desembarcam milhões de deambulantes apressados entre o avião e o autocarro, saboreando uma fast culture omnipresente, efemerizada em intermináveis imagens de telemóvel. Aqueles a que já em 1997, J. Rentes de Carvalho, num texto tão antológico quanto profético, designava como “A Praga”, dando como exemplo «os onze milhões de basbaques que anualmente passam as portas da catedral de Notre Dame em Paris… para ir ver e dizer que viram».
Como entretanto o fenómeno do Turismo também cresceu desmesuradamente, sendo hoje um dos mais marcantes eixos de desenvolvimento da sociedade atual, com os seus enormes ganhos para a economia, mas quase sempre esmurrando continuadamente a cultura e o próprio património, já em 2014 surgiu a ideia de interrogar estas realidades, depois formalizada pela Comissão Europeia em 2016 e, neste ano de 2018, no Ano Europeu do Património Cultural, evento que em Portugal teve elevada adesão, a par da Alemanha e da Irlanda. Mas se tal euforia contou com inúmeras visitas a rotas patrimoniais, encontros e congressos, exposições, oficinas, espetáculos, publicações, festivais, campanhas, animações, concursos, recriações, filmes, multimédia e performances, a investigação e a elaboração conceptual, necessariamente profissionais, demoradas e com linguagem própria, por dificilmente se articularem com os imediatismos das políticas atuais, foram obviamente marginalizadas nos programas elaborados pelas mais diversas entidades intervenientes.
Não se trata aqui de denegrir, ou sequer de minimizar, a importância deste projeto de inegável alcance, tão cultural quanto social, cujo interesse maior estará em «…combater a ignorância e a mediocridade através da compreensão donde vimos e para onde vamos», como escreveu Guilherme d’ Oliveira Martins, o seu coordenador nacional, na comunicação apresentada na Conferência Património Cultural – Desafios XXI realizada no passado dia 25 de novembro em Lisboa. Trata-se aqui tão somente, agora que este Ano Europeu do património se aproxima do fim, de começar  a exigir de nós próprios, como coordenador e interventor em ações que nele se quiseram enquadrar, e de outros em iguais circunstâncias, a necessária reflexão para assegurar que o mesmo valeu a pena e que as ações propostas e executadas não foram meros fogachos efémeros para cumprir programa e calendário, como cremos que o foram muitas das que apanharam a boleia do evento. E de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para «não deixar o património ao abandono, fazer inventários fiáveis e exaustivos, recorrer aos melhores especialistas para a sua preservação e estudo, mobilizar a sociedade civil e incentivar o interesse do público para os diversos domínios da vida cultural, artística, científica ou técnica», como também escreveu aquele autor no dia seguinte na revista Ipsilon, ao assinalar a atribuição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2018 a Bettany Hughes, a historiadora da «leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade». Sem história não há património e sem uma visão alargada da história europeia o património reduzir-se-á a localismos mais ou menos exóticos.
Importa pois agora, da vasta seara semeada, arrancar as ervas daninhas do efémero, do circunstancial e do oportunista, deixando que perdure a ação dos profissionais do património, porque, não tenhamos dúvidas, apesar da diversidade de conceções e opiniões existentes sobre esta disciplina académica, ele é um dos temas de maior consenso e que gera os maiores pretextos de convívio e amizade entre os povos. E por isso também ele tem os seus inimigos, que muitas vezes começam apenas por ser os seus banalizadores que o reduzem ao imediatismo de um quotidiano fatureiro. Mas o património é muito mais do que isso, sendo mesmo nos dias que correm a âncora secular e civilizacional da nossa eternidade possível.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos passados

J. A. Gonçalves Guimarães; Dagoberto Carvalho J.or e José Manuel Tedim

No Capítulo da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia, Portugal

Como iniciar este ‘canto’ de entrada ritual do XVI Capítulo Geral da Confraria Queirosiana, de Vila Nova de Gaia, sem transportar-me – ainda que em espírito e ele jamais esquecerá os pontificais católico-episcopais da quase tricentenária catedral diocesana de minha cidadela de Oeiras do Piauí, no Brasil; Oeiras do nascimento e da vida inteira – para uma daquelas solenes liturgias da velha Igreja Católica Apostólica Romana (ainda pré-conciliar); senão, ali, capitulares, tradicional-episcopais, em sua verdadeira essência. Igualmente protocolares, as duas experiências. A de ontem, para o aluno do velho Ginásio, mais diocesano que municipal; a de hoje por seu caráter ritualístico e a oportunidade de estarmos todos (ou em sua grande maioria), juntos, aqui, sob a inspiração tutelar de José Maria Eça de Queiroz.
Para chegar, acompanho-me da arqueóloga e historiadora Susana Cristina Gomes Gonçalves Guimarães que me autografou seu magnífico livro A Quinta da Costa em Canelas (Família, Patrimônio e Casa, 1766-1816) – com simpatia, como simpática, escreveu na dedicatória, no dia, mesmo, (13 de outubro de 2008), de minha primeira visita ao Solar Condes de Resende e ‘insigniação’ como ‘Grão Louvado da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia’. Nunca mais esqueci suas boas lições, como não me perco no caminho de volta à Quinta e à Confraria, onde seu pai – nosso erudito, operoso e cavalheiro (em grande estilo, à moda das melhores tradições da ilustre Casa revisitada) – recebeu-me, suprema bondade de todos os confrades de número, como Grão Louvado. O que, de muito fiz para tanto merecê-lo, perguntarão os que de outra seara literária sejam; não, decerto, nosso Mesário-Mor escritor, historiador e patrimoniólogo (searas do saber em que, também, ouso trabalhar, em Pernambuco), J. A. Gonçalves Guimarães (a quem tanto fiquei e continuo a dever), mestre, mestríssimo em tudo que faz e escreve. E, mérito seu, maior e, igualmente, reconhecido, o de condutor e porta-estandarte da Confraria que nos une e, internacionalmente, representa. Sou-lhes – a todos – reconhecido.
Outras duas vezes estive em Canelas e na Confraria. Já, então, como um dos seus. Uma formalmente – em companhia de Ana Cristina e Fátima Carvalho –, noite festiva, com sessão solene, música e jantar, em que recebi réplica da ‘badine’ de Eça de Queiroz e apresentei novo livro. Outra, acompanhado por Cristina, petit comité, em tradicional restaurante gaiense, representada – a Confraria – por seu Mesário Mor J. A. Gonçalves Guimarães, Dra. Suzana Moncóvio e o casal Maria Carolina e Desembargador Antônio Alberto Calheiros Lobo.
Chego hoje, trazido, também, pela ‘Revista de Portugal’, velho e sugestivo título de publicação criada e dirigida – em Paris – pelo nosso patrono Eça de Queiroz, que circulou entre julho de 1889 e maio de 1892; não esquecido de que personagens seus Carlos Eduardo e João da Ega já a haviam concebido “como um aparelho de educação superior”, n’ Os Maias.
A ‘Revista’ tornou-se para mim (como, acredito, para os ecianos, todos, e seus leitores, como um todo) ‘ponto de encontro’ com a Confraria, garantido pelo Mesário-mor J. A. Gonçalves Guimarães. No meu caso, também, pelas notícias das visitas e passagens por Portugal e resenhas de livros novos, até que o n. 11, referente ao ano de 2014, reproduzisse – com destaque – a capa de meu De lembrança em lembrança – Eça de Queiroz e outras memórias. O n. 12, do ano seguinte, transcreveu-me, logo após o editorial, o artigo (de saudade) ‘Por quem os sinos dobram?’ – homenagem póstuma à Beatriz Berrini –, publicado, originalmente, no Diario de Pernambuco de 2 de novembro de 2015. E na seção ‘Bibliografia’ referente ao ano, notícia com foto colorida, da ‘receção a Dagoberto Carvalho J.or e embaixador Gelson Fonseca J.or. (cônsul do Brasil no Porto), no solar Condes de Resende’. No n. seguinte, 14, referente a 2017, veio o que se poderia chamar de ‘consagração’, com a publicação completa de ensaio meu, sobre Arte Sacra e Religiosidade: ‘São Gonçalo de Amarante, o Santo que não foi e é. Contribuição ao estudo de um devocionário’.
Não poderia continuar falando de ‘informativos’ da Confraria sem referir-me a esse outro veículo de comunicação e divulgação da causa que abraçamos e que nos garante espaço e ressonância na grande imprensa de nossos dias, ‘Eça & outras’, que nos mantem unidos – a 25 de cada mês (data do aniversário de EQ) – pela internet, transformada em vínculo intelectual entre o criador do segundo e definitivo Fradique Mendes e cada um de seus leitores e críticos de todas as latitudes.  Tempo que passa. Eça de Queiroz que fica!
No ‘Eça & outras’ relativo a 25 de junho último, referência para o meu texto ‘Noventa anos de A. Campos Matos’, um dos maiores ecianos/queirozianos da atualidade, não só portuguesa; também publicado, por intercessão de Gonçalves Guimarães, na revista ‘As Artes entre as Letras’, nos. 223/224, Porto, Portugal, de 25 de julho. No relativo ao mês de agosto deste 2018 quase a passar, texto meu sobre o Solar (queiroziano) de Aveiro, tão familiarmente ligado à infância do futuro grande escritor que ali passou parte da infância, com os avós Joaquim José de Queiroz e Almeida e D. Teodora Joaquina de Almeida.
No Recife, onde resido e de onde venho – deixada a Oeiras do nascimento, onde sou co-patrono de Confraria Eciana –, fui animador da santa causa literária e secretário e presidente, por doze anos, de sua Sociedade Eça de Queiroz; fundada em 1948 por Paulo Cavalcanti, autor do clássico Eça de Queiroz, agitador no Brasil e o jornalista e acadêmico (Academia Pernambucana de Letras) Silvino Lopes.
Disse de onde venho e a que venho ‘rezado’ o missal queiroziano, renovar o ‘ecianismo’ de nossas formações e, por que não confessar, de nossas próprias vocações literárias.

Vila Nova de Gaia, 24 de novembro de 2018
Dagoberto Carvalho Jr.

Eterno Eça em Exposição

Foi inaugurada a 29 de Novembro de 2018, na Fundação Calouste Gulbenkian, com a participação de várias instituições culturais e intervenções do Dr. Guilherme D` Oliveira Martins, Administrador da FCG, de Afonso de Eça de Queiroz Cabral, Presidente da Fundação Eça de Queiroz e da Prof. Doutora Isabel Pires de Lima, Comissária Científica e Curadora, uma exposição comemorativa dos 130 anos da publicação do romance “Os Maias”, esse literário monumento nacional. O título da exposição repousa numa carta, de 20 de Fevereiro de 1881,  endereçada por Eça a Ramalhão Ortigão, na qual comunica ao amigo que o romance estaria praticamente concluído e que prometia: “fazer não só um “romance”, mas um romance em que pusesse “tudo o que tenho no saco”. O cônsul Eça estava, então, em Bristol, tinha livros já publicados que lhe tinham construído o nome. E se o saco queirosiano é um poço profundo, a exposição é uma caixa de ressonâncias. A Comissária deliciou-nos com uma visita guiada de excelência. Esta é uma “visão panorâmica”, explica, não é uma empreitada documental: “É uma exposição para o grande público e fala sobre Os Maias-eixo central da mostra em diálogo com outras obras”. Sublinha-se, assim, o “particular e original realismo” de Eça.
Entra-se no “palco” e este transfigura-se num túnel onde se descobre uma constelação de ideias, de afectos, de artes várias. Patente entre 30 de Novembro de 2018 e 18 de Fevereiro de 2019, é organizada em 7 núcleos: 1888 - A  Vasta Máquina!,AprendizagensGuerra ao RomantismoNorma e DesejoOlhares CruzadosA Arte é tudoLugares.
Documentos, há-os, também: contos, crónicas, romances, muitas cartas que fizeram história, fotografias, pinturas, esculturas, caricaturas, música da época, excertos de filmes…
Eça é, também, um puzzle material, visual e sonoro. Ao som da banda sonora criada pelo musicólogo  Prof. Rui Vieira Nery e inspirada nas alusões musicais da obra do escritor (um loop com operetas francesa, vienense, música erudita portuguesa de raiz rural, danças de salão portuguesas, zarzuelas e ópera francesa) encontramos um acervo intimista - peças fundamentais do seu espólio pessoal - mostrado pela primeira vez no exterior da Casa de Tormes, lar da Fundação Eça de Queiroz, em Santa Cruz do Douro-Baião: a célebre cabaia, a escrivaninha de pé alto e banco onde o escritor trabalhava, o baú dos manuscritos e o tinteiro de latão, a mesa do célebre arroz de favas, a mesa dos espíritos de Eça, a cadeira de Jacinto (personagem de A Cidade e as Serras). Conta-se, assim, com peças originais vindas especialmente da ilustre Casa onde se acham guardadas e expostas.
Há inúmeras fotografias pessoais: de Eça vestido com a cambaia orientalista oferecida, pelo conde de Arnoso, e pose mandarinesca num retrato datado de 1893, ou de fato e bigodes cofiados ao lado dos cúmplices da época, os denominados Vencidos da Vida. Mas, também, o observamos em ambiente familiar: sentado e pensativo na sua sala de trabalho, à mesa com amigos ou com os filhos no jardim da casa de Neuilly, em França. Mas, igualmente, como, por exemplo, desenhos próprios (como Alta Síria traçada pelo seu punho na viagem datada de 1869), capas vintage de Os Maias, caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro ou de João Abel Manta, declinando o escritor como mestre marionetista das suas próprias personagens ou a célebre capa de As Farpas, com um demónio sentado em cima do título, letras de farrapos sinistros…
A exposição é uma galáxia de empatias e afinidades. Há, ainda, para ver excertos de filmes (como o primoroso Os Maias de João Botelho com cenários pintados por João Queiroz), ilustrações (saídas da mão de Bernardo Marques, Rui Campos Matos, Raquel Roque Gameiro…), esculturas e pinturas, como as obras de Paula Rego dedicadas ao romance O Crime do Padre Amaro O Mandarim visto por Júlio Pomar. E a palavra de Eça de Queirós? Está presente, para ser lida…  o desenho expositivo, da autoria do Atelier à Capucha (Raquel Pais e Maria João Ruivo) contempla 53 blocos de folhas A4 com excertos de textos diversos que se pode levar. Esta é uma oportunidade rara para o reencontro possível com o escritor no século XXI, em Lisboa. Em nome d' Os Maias - e do progresso? Eça regressa, portanto, à cidade!
            Da “serra bendita entre as serras”, na companhia, nomeadamente, do Prof. Doutor Eduardo Lourenço, do Dr. Paulo Castilho, do Dr. Paulo Pereira, presidente da Câmara Municipal de Baião, da Drª. Anabela Cardoso, vereadora da Cultura de Baião e directora executiva da Fundação Eça de Queiroz, e do signatário, em representação da Confraria Queirosiana, e de entre muitos outros ilustres queirosianos, o vinho verde de “Tormes”, “esperto e seivoso”, na expressão de Eça de Queiroz, adornou e obsequiou os ecianos presentes na sua inauguração.  Um verdadeiro e singular fim/início desta extraordinária festa e evento.

Manuel Nogueira

Cursos e palestras

Prosseguem no Solar Condes de Resende as aulas do curso livre sobre Música & Músicos. Aspetos do património Musical Português, organizado pela Academia Eça de Queirós. Assim, no passado dia 15 de dezembro J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre “Os músicos Napoleão”, numa sessão em que, para além das referências históricas e musicológicas a Alexandre Napoleão e seus filhos Artur, Aníbal e Alfredo, nascidos de mãe gaiense, foram apresentadas várias gravações incluindo o mais recente CD do pianista e musicólogo Daniel Cunha com obras de Alfredo Napoleão. As sessões prosseguem no dia 5 de janeiro com o tema “Cantar os Reis e o Património Cultural Imaterial em Portugal”, pelo Prof. Doutor Jorge Castro Ribeiro, e no dia 19 sobre “O Orpheon Portuense” pelo Prof. Doutor Henrique Luís Gomes de Araújo. No dia 26 ainda de janeiro o Prof. Doutor Mário Mateus falará sobre o “Conservatório Regional de Gaia – 30 anos ao serviço do Ensino e da Cultura”.

Apresentado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto como tese de doutoramento, entretanto editado pelas Edições Afrontamento, o livro Humberto Delgado no Portugal de Salazar, da autoria do Doutor Adrião Pereira da Cunha, será apresentado pelo autor no próximo dia 27 de dezembro, pelas 21,30 horas, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês do Solar Condes de Resende.

Livros


No passado dia 12 de dezembro no Museu da Misericórdia do Porto, em paralelo com uma visita guiada, foi lançada a obra de Nuno Resende, A Adoração dos Reis Magos de Vieira Lusitano (1699-1783). Para além do enquadramento cultural do tema e das qualidades estéticas deste quadro no conjunto da obra do insigne pintor português, o historiador apresenta uma nova abordagem sobre a sua vida e obra.


Há 20 anos a Porto Editora publicou a primeira edição de Diálogos com José Saramago, de Carlos Reis, resultado de uma entrevista durante três dias e ao longo de quatro sessões de trabalho em Lanzarote, em casa do escritor. Este livro apareceu agora no Brasil, com a chancela da Editora da Universidade Federal do Pará.
Coordenador do Congresso Internacional “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”, que decorreu em Coimbra em outubro passado, Carlos Reis escreveu na apresentação daquela primeira edição «…os Diálogos com José Saramago são do escritor, mais do que meus. A forma como lhe fui colocando as questões não expressa, contudo, uma pura e neutra indagação. Se intitulei o que o aqui fica como diálogos, foi porque procurei investir na questionação uma (ainda assim discreta) atitude de interpelação, por vezes até de interlocução argumentativa, em busca não de uma qualquer verdade que sempre nos escapa, mas, pelo menos, da clarificação de problemas que me parecem significativos: para o escritor, para os seus leitores e, em geral, para o conhecimento da escrita literária saramaguiana. Deste modo, os Diálogos com José Saramago revelam muito do seu pensamento estético e da sua forma de estar na vida, como escritor, mas também como cidadão. É isso que agora é de novo disponibilizado a leitores com diversa motivação: do leitor corrente dos romances de Saramago ao estudioso da sua obra, passando pelo professor que trabalha com os seus textos e pelo estudante que os lê. (Da Nota Prévia; Editora da Universidade Federal do Pará, 2018). 
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 124, terça-feira, 25 de dezembro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos; colaboração Dagoberto Carvalho J.or e Manuel Nogueira.