segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Eça & Outras

Eça & Outras, domingo, 25 de setembro de 2016

Do Realismo ao pós-Neorrealismo

Eça de Queirós nasceu em 1845, pouco depois da frequência obrigatória do ensino primário ter sido estabelecida por decreto, o que demorará décadas a ser verdade. Viveu numa época em que tudo era interrogado e equacionado, nomeadamente a Literatura. Escrevia-se para quê? Para entreter ócios? Para "dar brilho à pena"? Para alardear erudições? Para descarregar frustrações? Para ganhar a vida? Tudo isto foi questionado pela Geração de 70 saída, com bastante ruido, da Universidade de Coimbra. Antero escreve A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais em 1865 e no ano seguinte Eça publicará na Gazeta de Portugal os seus primeiros textos "diferentes", que no ano seguinte largamente praticará no Distrito de Évora. Buscava então novos caminhos, que ensaia em 1897 em As Farpas e teoriza nas Conferências do Casino com «A Nova Literatura ou o Realismo como nova expressão de Arte». É sabido o que veio a seguir com os seus romances O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e outros, onde o desespero das classes populares está sempre presente, ainda que secundarizado pelos "dramas" das classes média e alta.
Mas no final do século XIX reaparecem os escritores preocupados com os suspiros das donzelas e outras banalidades expressas em exotismos, parnasianismos, simbolismos, modernismos e nacionalismos, que pouco tinham a ver com o quotidiano das pessoas comuns e a sua luta pela sobrevivência. Este panorama literário estéril, de jogos florais, que tinha no escritor Júlio Dantas o seu expoente máximo, mas que também encontramos em muitos outros seus contemporâneos e atuais, alguns deles muito endeusados pela opinião pública letrada, nos anos trinta do século XX vai mudar radicalmente quando o sofrimento dos pobres e das classes trabalhadoras em geral passa a ser objeto literário corrente. Chegou-se assim ao Neorrealismo, e retomou-se, diferentemente embora, o caminho desbravado por Eça de Queirós, que por isso alguns intelectuais tentaram “domesticá-lo” no Centenário de 1945. Um dos precursores deste movimento foi o escritor Afonso Ribeiro, de quem já aqui falamos, e que hoje importaria reeditar e voltar a ler, quando os pobres, os refugiados, os migrantes, os desempregados, os excluídos, continuam a ser todos os dias ameaçados e perseguidos por uma nova e mais perversa organização social que domina o mundo, em nome do "desenvolvimento", a partir das grandes capitais ou de pequeníssimas ilhas privadas.      
Nascido em 1911 na Vila da Rua, Moimenta da Beira, frequentou o Seminário e a Escola do Magistério Primário. Em 1937 era colaborador do jornal Sol Nascente do Porto, onde estreava uma nova visão literária sobre a vida das classes excluídas que em 1938 apresenta no livro Ilusão na Morte, sendo por isso considerado um dos precursores do neorrealismo português, tendo em conta que naquele mesmo ano Alves Redol publica Glória e em 1939 Gaibéus, enquanto Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, só aparecerá em 1941.         
Em 1939 vai para o Brasil mas, não tendo conseguido visto de permanência, volta nesse mesmo ano, pois os tempos por ali também estavam conturbados devido às tentativas ditatoriais de Getúlio Vargas para a criação de um Estado Novo brasileiro.                                                                                                       
Regressado a Portugal e ao ensino, fixa-se em Vila Nova de Gaia, tendo lecionado na escola primária de Vilar do Paraíso, bem assim como sua mulher Otília Leitão, também ela professora da instrução primária. Em 1946 é um dos signatários de uma exposição enviada ao ministro da Educação Nacional sobre a «difícil situação económica do professorado português», subscrita por docentes dos ensinos particular, técnico, liceal e superior. Em novembro desse mesmo ano é também um dos muitos signatários de outra exposição, desta feita enviada ao presidente da República, general Carmona, intitulada «Os intelectuais portugueses protestam» sobre as condições de repressão e censura de que eram alvo e a liberdade de expressão e de associação que lhes era negada, na qual encontramos escritores, jornalistas, artistas, arquitetos e criadores intelectuais, subscrita por António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Andrade, Fernando Azevedo e Fernando Lopes Graça, entre muitos outros. No ano seguinte parte com a sua mulher para Moçambique, onde teve várias profissões e continuou a sua atividade de escritor, só regressando de novo a Portugal em 1976, fundando em Lisboa a Editorial Notícias, ligada ao Diário de Notícias, vindo a falecer em Cascais em 1993. Em 2011 a Câmara Municipal de Moimenta da Beira comemorou o centenário do seu nascimento, colocando uma lápide na casa onde nasceu.
Enquanto residiu em Vila Nova de Gaia, para além de artigos e crónicas dispersas por várias publicações, escreveu Plano Inclinado, romance, 1941; Aldeia, romance, 1943; Trampolim, romance, 1944; Povo, contos, 1947. Ainda em 1946 tinha aqui iniciado, com o romance Maria, a publicação de uma trilogia intitulada Escada de Serviço, vindo o segundo romance, O Pão da Vida, a ser publicado somente em 1956 em Lourenço Marques, e finalmente em 1959 O Caminho da Agonia, também publicado naquela colónia. É assim a década de quarenta o período mais fecundo deste escritor, hoje pouco recordado, até porque em todas as suas páginas lembra misérias e condições sub-humanas que ainda hoje existem entre nós e não são bonitas de ver, de ler ou sequer de se saber que existem. Mas ele é, inequivocamente, um dos pioneiros do romance social em Portugal. Os cenários e personagens das suas obras, embora podendo ser colocados em qualquer grande cidade e nos seus arrabaldes, foram obviamente colhidos na sua vivência local como o denunciam certos pormenores do texto. A exceção é o romance Aldeia, o qual, com os mesmos cuidados de universalização, se reporta à sua terra natal na Beira Alta.
Prosa crua e dura, chocante mesmo na sua crueza, mas tristemente verdadeira nos retratos que traça da maior parte das crianças, homens e mulheres que viveram no tempo da 2° Grande Guerra, que as gerações de hoje até talvez tenham dificuldade em acreditar que existiram, porque os pobres e os excluídos atuais são já muito diferentes daqueles outros, pois dão entrevistas na televisão e são referidos em todos os discursos políticos, acabando por originar empregos para a classe média baixa, tais como polícias, professores, assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, médicos, advogados, informáticos e outros que fazem a gestão do seu quotidiano, absorvendo as verbas que eventualmente poderiam contribuir para que os excluídos mudassem de situação. E, além do mais, os pobres hoje são numerosos e votam, naturalmente de acordo com os interesses das classes “dirigentes” que os protegem e os mantêm numa situação da qual, as mais das vezes, nem sequer querem sair. Para quê? O desemprego é uma realidade incontornável, pois a agricultura mecanizou-se e a indústria fabrica toneladas de coisas inúteis e baratas. Competiria à Educação entreter os cidadãos inativos, mas aí ainda vamos atrasados e temos deixado essas tarefas ao turismo, aos cuidados de saúde e às religiões. A sociedade vive da procura de equilíbrios, nem sempre os melhores. Por isso mesmo, talvez sirva para alguma coisa o lembrarmo-nos que os retratados naqueles romances são os bisavós e avós dos adultos atuais, e que, entretanto, a maior parte da literatura do nosso tempo voltou a refugiar-se num onirismo metafórico que ignora a realidade comum, a qual, e salvo muito raras exceções, divulga e impinge uma elevadíssima dose de sensaboria aos seus leitores através do marketing das editoras e dos “prémios” literários pré-cozinhados. Mas, apesar de tudo, oxalá que não tenhamos necessidade de criar um Neo-neorrealismo.

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Registo de trabalhos de investigação

             O sítio da Confraria Queirosiana, no blogue da Academia Eça de Queirós, passou a registar, de acordo com os interessados, os títulos dos temas em investigação por parte dos sócios e confrades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, independentemente da obrigatoriedade do seu registo noutras instituições, como é o caso dos temas de teses de mestrado e doutoramento. Os objetivos são, entre outros, a defesa dos direitos de autor e direitos conexos e o registo da prioridade autoral dos mesmos.

Livros, revista e outros

Quinto – Lisbon to Aberford, de Alan Carrick
           
O autor esteve no Solar Condes de Resende em 1996 à procura de dados sobre o bispo do Porto filho dos condes de Resende e de outras personalidades que se destacaram na região, no país e na Europa no início do século XIX. Produziu agora esta narrativa que parte da existência concreta de uma lápide no adro da igreja de  Aberford  de Henry van Zeller, nascido no Porto a 15 de outubro de 1787 e ali falecido a 31 de janeiro de 1810, com 23 anos. Este livro procura explicar como é que este jovem português, nascido numa das mais importantes famílias de negociantes da região do Porto, foi morrer naquela povoação de New Yorkshire na época em que Portugal, entalado pelos interesses imperialistas da Inglaterra contra a França napoleónica, sofreu invasões francesas, inglesas e espanholas no seu território. Utilizando documentos verdadeiros o autor coloca-nos no palco da época em que todos aqueles interesses estão presentes, em cenários que ainda hoje existem. Escrevemos negociantes e não “negociantes de Vinho do Porto” como ali se escreve, mitologia que essas famílias e os seus cronistas recentes efabulam, pois os Van Zeller, e outros, eram negociantes de “tudo” o que aportava ou saía da barra do Douro, neste caso em maior quantidade os cereais importados de Norte da Europa. O negócio do Vinho do Porto, à época Vinho de Feitoria estava nas mãos dos ingleses anglicanos, pois o seu maior ciente era a Armada Britânica. Em todo o caso um livro fascinante onde o percurso individual se confunde com a  História da Europa da época.

The Horse and the Bull agora em papel

Coordenadas por Fernando Augusto Coimbra foram agora disponibilizadas em edição em papel as Actas do I Congresso Internacional o Cavalo e o Touro, que teve lugar na Golegã e na Chamusca em 2013, intituladas The Horse and the Bull in Prehistory and in History, as quais contêm, entre muitos outros, os textos de ARAÚJO, Luís Manuel de – O cavalo no Egito faraónico: uma avalizadora semiótica do poder, e idemKanakht, “touro poderoso”: um expressivo título da realeza egípcia; COIMBRA, Fernando A. – A possible horse hunting scene in the rock art from Philippi (Grece); idem, O cavalo como animal psicopompo na Europa do I milénio a. C.; idem com SOUSA, Rosário – 30.000 anos de história do cavalo: sua divulgação através da pintura contemporânea; GUIMARÃES, J. A. Gonçalves; GUIMARÃES, Susana - Aprestos e representações equestres da Coleção Marciano Azuaga.

Cursos, palestras, colóquios, jornadas e outros

História da Educação
            No passado dia 8 de setembro decorreu em Lugo, Espanha, o VIII Encontro Ibérico de História da Educação, o qual teve a presença de muitos investigadores desta área oriundos de Espanha, Portugal e de outros países lusófonos e castelhanistas. A investigadora no Solar Condes de Resende, Eva Baptista, apresentou a comunicação «A educação em Vila Nova de Gaia (município do noroeste de Portugal), entre 1880 e 1930: escolas, associações e personalidades».

Jornadas Europeias do Património 2016
Eduardo Vitor Rodrigues nas JEP2016
            No passado sábado, dia24 de setembro decorreram no Solar Condes de Resende as Jornadas Europeias de Património 2016, promovidas pelo Concelho da Europa e em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, este ano sob o tema “Comunidades e Culturas”. Esteve presente como palestrante Eduardo Vitor Rodrigues, professor de Sociologia na FLUP e presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, e ainda Gonçalves Guimarães, António Manuel Silva, Paulo Costa, José Vaz, Eva Baptista, Fátima Teixeira e Joana Ribeiro que apresentaram as suas mais recentes investigações nos domínios do património destinadas ao PACUG (Projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia).
            Estas Jornadas decorreram por todo o país, tendo nelas participado diversos confrades queirosianos, como foi o caso das que se realizaram no Museu Municipal de Penafiel, coordenadas, entre outros, pelo Prof. Doutor Nuno Resende da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Iniciação à escrita hieroglífica
A partir de 28 de setembro decorre na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa este curso organizado pelo seu Centro de História, o qual se prolongará até 14 de dezembro, com a coordenação científica do egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo.

Património de Gaia no Mundo
 No dia 29 de setembro, quinta-feira, decorrerá no Solar Condes de Resende pelas 21,30 horas a palestra sobre o título em epígrafe proferida pelo Prof. Doutor Francisco Queirós, coordenador do respetivo volume do PACUG, o projeto dirigido pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana para a Câmara Municipal de Gaia, com um coordenador geral, dez coordenadores de volume e largas dezenas de investigadores profissionais nas diversas áreas do Património.

Curso de História Naval no Solar
No próximo dia 3 de outubro decorrerá no Palácio da Bolsa no Porto mais uma conferência sobre os desafios do Mar, intitulada “Atlântico Mais – A evolução das operações portuárias”, para a qual foi convidado J. A. Gonçalves Guimarães como investigador de História Naval e coordenador de um curso sobre a mesma temática no Solar Condes de Resende, o qual terá início no próximo dia 15 de outubro, sábado, com uma aula sobre «Uma política marítima para a frente atlântica» pelo sociólogo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, a que se seguirá no dia 22 de outubro «Navios e navegações antigas no Mediterrâneo» pelo egiptólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, lembrando o berço da marinha europeia e norte-africana. Este curso é organizado pelo Solar Condes de Resende com a colaboração da Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente do Ministério da Educação.

XIX Jornadas Culturais de Balsamão
Nos próximos dias 6 a 9 de outubro decorrem estas jornadas no Centro Cultural de Balsamão, Macedo de Cavaleiros, este ano subordinadas ao tema “O contributo do associativismo para a defesa do património”, as quais terão como conferencistas, entre outros, o Dr. Andrade Lemos do Centro Cultural de Telheiras/Centro Cultural Eça de Queirós, o qual, em colaboração, falará sobre «A Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu».

X Edição dos Colóquios do Porto “Encontros com o Tempo”
Nos dias 4 e 5 de novembro decorrerá na Fundação Eng. António de Almeida no Porto uma nova edição destes colóquios, que têm como presidente honorário o Dr. Jaime Milheiro, desta feita subordinado ao tema “Psicanálise e Cultura”. O referido médico psiquiatra, psicanalista e escritor, membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, participará ainda como comentador na conferência de abertura e apresentará o tema «Medicina Desportiva, “Anti-aging”».

Prémio
No passado dia 23 de setembro decorreu na Fundação Eça de Queiroz em Baião a entrega do seu prémio literário patrocinado pela respetiva Câmara Municipal. O júri, de que fez parte, como presidente, o Dr. Guilherme de Oliveira Martins, galardoou a obra «As atualizações dos romances de Eça de Queirós para o pequeno ecrã» de Filomena Antunes Sobral.

Outros eventos

Marca “GAIA Todo um Mundo”


No passado dia 19 de setembro, no Auditório Municipal de Gaia foi apresentado o projeto “Gaia Todo um Mundo”, como citymark e conjunto de conteúdos e propósitos de identificação da comunidade gaiense e as suas características voltadas para o exterior: o ambiente e os parques naturais; o mar atlântico e o Rio Douro, os Vinho do Porto e do Douro, a indústria cerâmica e metalomecânica, o turismo e as unidades hoteleiras; os eventos populares e o património. Do painel de comentadores do projeto faziam parte, além do anfitrião, Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da câmara municipal, e Albino Almeida presidente da assembleia municipal, Manuel de Novaes Cabral, presidente do IVDP e Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto, além de outros.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 95 – domingo, 25 de setembro de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ;
IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Susana Moncóvio.







 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Eça & Outras

Vão proibir a Carmen?

Tempos de Verão no hemisfério norte, seria suposto esperar-se ser esta a época da fraternidade dos povos ao ar livre, das viagens à terra dos outros para ver as pequenas diferenças da grande semelhança da família humana, reunida através dos seus representantes olímpicos no hemisfério sul, no Brasil. Enfim, quase o paraíso na Terra, não fora, mais uma vez o pequeno preconceito, a inútil malvadez, as leis da tribo a sobreporem-se ao bom senso e bom gosto universais.
 Não exatamente só porque a lei o obriga - nem sempre bem pois não desarmadilha os possíveis conflitos a haver - sou pelo respeito e pela defesa da cultura e bem estar das minorias étnicas, simplesmente porque ninguém, nenhuma filosofia, nenhuma religião, nenhum estado, nenhuma sociedade grande ou pequena é dona de qualquer outra, pequena ou mais numerosa, e quanto a umas serem mais “aceitáveis” do que outras, temos falado. Porque desejo exatamente a felicidade de todos os seres humanos no seu corpo físico, espiritual e social; porque são muitas vezes as minorias que dão grandes contributos para o bem estar de toda a humanidade – lembrem-se da borracha dos índios da Amazónia quando olharem para os pneus do vosso automóvel -. Mas o contrário também deve ser verdadeiro: a minoria tem de respeitar a maioria da população onde vive e, se exige respeito para si, também tem de o retribuir, ou seja não deve nem pode criar problemas aos outros. Tudo isto, dito assim, à mesa da esplanada, entre pessoas cultas das democracias ocidentais, parece óbvio, simples e banal. Mas não é. Há quem permanentemente, ainda que de forma velada ou escudada na lei, atice a chama da intolerância mútua e defenda privilégios ou preconceitos de uns sobre os outros. Recentemente alguns municípios franceses proibiram o burquini, por o considerarem um trajo étnico revelador de crença religiosa. Ao contrário da burka, completamente inaceitável em qualquer sociedade, até por violar o princípio do respeito pelo direito à livre identidade pessoal, quer o burquini quer o “lenço islâmico” - este último muito usado em trajes regionais portugueses - não tapam a cara das senhoras que os usam, logo serão apenas uma questão de moda, independentemente dos significados que lhes atribuam. Percebe-se o recente traumatismo humano e social causado por um assassino louco que se dizia islâmico em Nice, mas na França da laicidade, da liberdade e da fraternidade tal é difícil de aceitar, até porque o dito traje de praia representa para as mulheres muçulmanas um enorme avanço na sua libertação da prisão secular que os costumes religiosos lhes impõem: o poderem ir à praia - protegidas do sol demasiado -; o poderem conviver com outras mulheres de outras crenças ou de crenças nenhumas é um enorme avanço. O preconceito contra o burkini ditado pelo tal trauma recente, remete as mulheres islâmicas, ou outras que o queiram usar, de novo para o cativeiro doméstico. O terrorista afinal, desta vez, ganhou. E não tenham esperanças de que o assunto possa vir a ser calmamente discutido nos tempos mais próximos. Como já Eça de Queirós escreveu no século XIX, «o árabe evita falar nas mulheres por um sentimento de extrema reserva, de pudor sensível, de delicadeza áspera. E suponho ainda que evita falar nelas, como duma grande fraqueza. Porque a mulher é realmente a grande fraqueza do árabe» (Eça de Queirós, O Egito).
Em Portugal existem minorias protegidas pela lei e pelo bom senso humanitário e culto de muitos portugueses. Mas nem sempre se espere que essas minorias retribuam essa generosidade. Como é sabido, alguns dos seus elementos tentam delas tirar proveitos indevidos em benefício próprio ou do gruo, pagos pela restante comunidade. O que não é por si só de espantar, pois além de serem, no geral, constituídas por pessoas vulgares, com todos os defeitos e virtudes da espécie humana, da condição social em que se encontram, e até de traumas reais ou imaginários que incorporaram na sua maneira de ser, essa situação dá-lhes, às vezes, alguns privilégios que o cidadão comum não tem. Não vou aqui dizer a que minorias me refiro, pois não tenho tempo nem paciência para aturar eventuais compungidos por dores alheias. Recentemente assistimos a algum sururu levantado pelas declarações de um psicólogo na televisão sobre o comportamento anti-social por parte de alguns membros de uma certa minoria, o que todos sabemos ser verdade, quantas vezes até por má experiência própria de que não fomos ressarcidos. Mas também sabemos que essa parte não é o todo nem os pode caraterizar sob risco de sermos injustos e preconceituosos, e que entre os outros cidadãos “maioritários” também há comportamentos idênticos, ou piores, que baste: veja-se a ação das hordas selvagens de certos adeptos do futebol, aliás protegidos e desculpados pelas direções das empresas milionárias que os sustentam e da “vista grossa” das autoridades.
Refletindo sobre estas questões dei por mim a pensar que se fossemos a dar crédito a  alguns cidadãos, até reunidos em associações, e que destas coisas fazem profissão ou escadaria curricular, a ópera Carmen de Georges Bizet teria de ser banida da programação do S. Carlos e de outros teatros de ópera, ou então o libreto teria de ser profundamente alterado e basear-se, não já na novela de Prosper Mérimée ou no libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy mas, talvez, nos relatórios dos técnicos de inserção social do Instituto do Emprego e Segurança Social. A protagonista representa, ainda que artisticamente, muito do que de pior existe na idiossincrasia atribuída à etnia a que dizem pertencer: não se adapta ao trabalho “normal”, sempre que pode destrói a ordem estabelecida, tenta subornar a autoridade com meneios de assédio sexual, anda metida em contrabandos e fugas ao fisco, e por fim, faz do amor livre a sua bandeira. Neste aspeto, tanto o novelista como o libretista inventaram, pois na tal minoria étnica a que é suposto pertencer isso não é assim, aquela coisa do «L’amour est un oiseau rebelle…» não se lhes aplica, pois os casamentos, regra geral, são combinados pelas famílias, como aliás acontece em muitas outras “etnias”. Aqueles autores aproveitaram a onda de folclorismo andaluz, sevilhano e gaditano oitocentista que neste caso exaltou uma minoria asiática chegada à Europa ocidental no século XIV em desfavor – e desprezo, já agora – para com os mouriscos, os descendentes dos vencidos do Reino de Granada, que são o mais enraizado fundo étnico da região. Mas vá lá a gente fiar-se no bom senso e sabedoria de alguns literatos e outros que tais: inventa-se, divulga-se, aplaude-se e olé! Tem sido assim em muitos aspetos da cultura popular, cuja interpretação é sempre feita à posteriori, quando o fenómeno já está consolidado.
Ora uma das caraterísticas da civilização ocidental sempre foi transformar as diferenças em valores, pois quase sempre perseguidores e perseguidos são farinha do mesmo saco. A Carmen até tem uma estátua em Sevilha, mas creio que não foram os da sua “tribo” que a mandaram erguer.
Cá por mim, se me deixarem, vou continuar a ir ver e ouvir as óperas Carmen, a Guarani de Carlos Gomes, a Porgy and Bess de George Gershwin, e outras obras de Arte em que as diferenças humana, com todos os seus possíveis defeitos e eventuais prejuízos, sejam respeitadas e valorizadas para glória da comunidade universal. Pessoalmente não sei se quero - provavelmente não - ter uma Carmen em casa, mas pelo menos na Literatura e na Ópera não abdico da sua existência e das mais valias civilizacionais que ela me dá.
E já agora, aproveito para pedir, que em nome da civilização, da liberdade e do direito da livre escolha das cidadãs, que parem de perseguir as mulheres, muçulmanas ou outras, que queiram usar o burkini e o tal lenço muito parecido com os das nossas beiroas e alentejanas de antanho. Embora esteja convencido de que, tal como aconteceu com a mini-saia e o biquíni, será tudo uma questão de tempo e de bom senso, duas das leis mais antigas que têm protegido a espécie humana da fúria dos fundamentalistas religiosos ou laicos de todas as épocas e latitudes.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Revistas

Revista de Portugal

            O confrade Dr. Ricardo Hadadd ofereceu à Confraria os quatro volumes primorosamente encadernados da Revista de Portugal fundada e dirigida por Eça de Queirós e publicada no Porto entre 1889 e 1892 por Lugan & Genelioux e de que foram secretários Manuel da Silva Gaio, Luís de Magalhães e Rocha Peixoto. No ano em que se comemoram os 175 anos do nascimento de Alberto Sampaio, um dos seus mais notáveis colaboradores, esta oferta será oficialmente entregue no próximo capítulo no dia 19 de novembro e passará a integrar o espólio queirosiano da Confraria depositado no solar Condes de Resende.

Paskim


Em distribuição o número 45 da IV série do Paskim, de maio a junho de 2016, com o subtítulo “A Confraria de S. Gonçalo de Aveiro, a mais antiga, a mais ativa e a mais divertida de Portugal”, uma publicação que a brincar escreve, desenha e diz coisas muito sérias e, indiscutivelmente, muito próprias. Com a pasmaceira que vai na Universidade Sénior Celestial, nos últimos anos vários confrades inesquecíveis desta confraria “foram chamados” para animar com a sua irreverência os domínios etéreos, para desgosto nosso.

Revista de Marinha
           

          Acaba de sair o número 992 da Revista de Marinha, correspondente aos meses de julho/agosto de 2016, dedicada à Marinha de Comércio, com um destaque para a Construção e Reparação Naval. Sobre a História da Marinha Mercante inclui um artigo de J. A. Gonçalves Guimarães intitulado “A Frota Mercantil do Porto no Período Constitucional”.

Revista Douro


        No passado dia 29 de julho foi lançado na Casa Ramos Pinto no Centro Histórico de Gaia o número 04 da revista Douro, Vinho História & Património/ Wine, History and Heritage, propriedade da APHVIN/GEHVID, de que é diretor António Barros Cardoso, professor de Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem nos conselhos editorial e consultivo vários confrades queirosianos e outros aí publicam trabalhos de investigação, como é o caso neste número de Nuno Resende sobre “Cales: a pedra e a palavra. Propostas para uma análise do nascimento e percurso histórico de um santuário”.

Boletim dos Amigos de Gaia
            

Acaba de sair o número 82 de julho de 2016 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia quase inteiramente preenchido com artigos de sócios e confrades queirosianos: “Educação Cívica e Património Local (Atividade de Enriquecimento Curricular) aplicada à freguesia de Mafamude” por Eva Baptista, Fátima Teixeira e J. A. Gonçalves Guimarães; “Vulnerabilidade a sismos e incêndios no município de Vila Nova de Gaia (2ª parte) por Salvador Almeida; “Cultura e lazer operários em Mafamude, entre o final da Monarquia e o início da República (1893-1914) por Licínio Santos; “A Documentação da Câmara de V. N. de Gaia entre 1832 e2002” por Abel Barros; “ O escultor Joaquim Gonçalves da Silva (1863-1912): a propósito da escultura funerária «A Dor», no cemitério de Mafamude (1ª parte) por Susana Moncóvio.

Homenagem  a  Mário  Cláudio

            Entre 2 e 18 de setembro vai decorrer no Palácio de Cristal no Porto a Feira do Livro, a qual incluirá no seu programa uma homenagem ao escritor Mário Cláudio, que assim verá o seu nome associado a uma das centenárias árvores da Avenida das Tílias.

Palestras,  Colóquios,  Jornadas  e  Cursos

Prosseguem no Solar Condes de Resende as habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês às 21,30 horas, sobre os mais variados temas do projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia (PACUG) em execução pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana. Assim no dia de hoje, 25 de agosto, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “Filantropos, benfeitores e altruístas de Vila Nova de Gaia”.
No próximo dia 16 de setembro, sexta-feira, decorrerá nas instalações do Palácio Conde de Silva Monteiro no Porto, na Comissão de Vitivinicultura da Região dos Vinhos Verdes, um colóquio inserido na programação das comemorações dos 175 anos do nascimento de Alberto Sampaio promovidas pelas Câmaras de Vila Nova de Famalicão, Guimarães e Braga. Neste colóquio sob o tema “O Vinho Verde e Alberto Sampaio” organizado pela Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “Alberto Sampaio e a Revista de Portugal”.
Promovidas pelo Conselho da Europa e em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, este ano com o tema “Comunidades e Culturas”, vão decorrer no sábado, dia 24 de setembro próximo no Solar Condes de Resende as Jornadas Europeias de Cultura 2016, com uma sessão pública entre as 15 e as 19 horas em que serão apresentados os seguintes temas por investigadores do GHAP da Confraria Queirosiana: “Urbanismo e comunidades” por Eduardo Vítor Rodrigues; “Elementos identificadores da comunidade gaiense”, por J. A. Gonçalves Guimarães; “Comunidades e culturas pré-romanas do Baixo Douro”, por António Manuel Silva; “Comunidades gaienses nos reinados de D. Dinis e D. Afonso IV” por Paulo Costa; “Grupos populares de teatro em Vila Nova de Gaia”, por José Vaz; “O Club de Gaia e as Creches de Santa Marinha. Diferentes credos, diferentes hinos, a mesma identidade”, por Eva Baptista; “A comunidade operária da Companhia de Fiação de Crestuma”, por Fátima Teixeira; “O bairro habitacional dos trabalhadores ferroviários em Vila Nova de Gaia a (re)construção da memória de uma comunidade através da história oral”, por Joana Ribeiro.
A partir de 15 de outubro próximo, o Solar Condes de Resende e a Academia Eça de Queirós, grupo de trabalho profissional dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, em colaboração com outras entidades, tendo em conta que a História Naval da região é pouco conhecida do público em geral, dos docentes e dos alunos dos vários graus de ensino, e que em 2019 se comemoram os 500 anos da primeira circum-navegação empreendida por Fernão de Magalhães, um navegador nascido nesta região, vão realizar um curso livre sobre História Naval do Noroeste de Portugal. Este é o 23º dos cursos organizados pelo Solar nas mais diversas áreas, sempre com temas inovadores. Desta vez serão apresentadas por professores e investigadores profissionais com grande capacidade de comunicação, e que ao seu estudo se têm devotado nos últimos anos, as mais recentes novidades sobre esta quase desconhecida história, quando as atividades marítimas e fluviais recrudescem todos os dias em importância económica e social.
Serão conferencistas: Álvaro Garrido, Amândio Barros, Amélia Polónia, César da Fonseca Veloso, Eduardo Vitor Rodrigues, Hugo Barros, J. A. Gonçalves Guimarães, Jorge Fernandes Alves, Luís Manuel de Araújo, Luís Miguel Duarte, Rui Morais, Teresa Soeiro,
Destinado ao público em geral, mas em particular àqueles que têm tradições familiares marinheiras ou que se dedicam às atividades navais, é também particularmente interessante para professores e estudantes das áreas de História, Arqueologia, Património, Sociologia, Comunicação Social e Turismo, bem assim como para os interventores nas áreas da Construção Naval, Pesca, Marinharia, Atividades subaquáticas, Transportes Marítimos e Museologia.
O curso decorrerá ao longo de 13 sessões, aos sábados à tarde no Solar Condes de Resende, entre as 15 e as 17 horas, ao ritmo de duas por mês. O programa definitivo poderá ser visto em confrariaqueirosiana.blogspot.com
A todos os participantes será entregue no final do Curso um certificado de frequência e um CD com os textos dos professores sobre a matéria dada.

Feira  de  Gastronomia  de  Vila  do  Conde

 Dedicada à Cozinha Portuguesa e às comemorações dos 500 anos do Foral manuelino, abriu ao público no passado dia 19 de agosto a 18ª Feira de Gastronomia de Vila do Conde, na terra onde Eça de Queirós foi batizado. A inauguração foi feita pela presidente da edilidade e vereação, com a presença de muitas confrarias gastronómicas e enófilas, entre elas a Confraria Queirosiana representada pelos membros dos corpos gerentes J. A. Gonçalves Guimarães e César Oliveira, os investigadores do GHAP Fátima Teixeira, Licínio Santos e outros confrades como António Pinto, canteiro ornatista e Ricardo Haddad, proprietário do Hotel Lawrence em Sintra, cada vez mais queirosiano.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 94 – quinta-feira, 25 de agosto de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; 
IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com;
 coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Eça & Outras

Eça & Outras, segunda-feira, 25 de julho de 2016

 “A emigração como força civilizadora”
António Aresta, autor de diversos estudos sobre a história macaense, acaba de publicar na Revista de Cultura editada pelo Instituto Cultural de Macau, n.º 52 referente a 2016, uma nova abordagem sobre “Eça de Queiroz e a emigração chinesa de Macau”, assunto esse que tem vindo a merecer a atenção de um cada vez maior número de investigadores que, para além de disponibilizarem cada vez mais e mais cuidada informação sobre a debandada forçada de milhões de chineses para fora da sua terra natal motivada pelos interesses imperialistas de ingleses, franceses, alemães, estadunidenses e japoneses que no século XIX puseram a China a ferro e fogo, os quais também estranham o facto de Eça de Queirós, que humanamente exorbitou das suas funções como cônsul funcionário público para proteger os culies chineses em Havana contra o esclavagismo dos fazendeiros espanhóis de Cuba, ainda não tenha sido reconhecido como um dos benfeitores da Humanidade pelas instancias internacionais precisamente pela sua ação na defesa ativa dos milhares de refugiados/ emigrados/ escravizados chineses que ali chegavam. Sabendo ele do seu embarque em Macau e dando aplicação efetiva à legislação oficial ali publicada, que entendia não ser só “para inglês ver”, registou todos os emigrantes com aquela proveniência no seu consulado e deu-lhes um visto, o que teoricamente transformava em cidadãos portugueses estes refugiados de uma guerra que não pediram nem queriam, mas que foi feita em nome do “progresso” e dos “supremos valores da civilização ocidental”. Não, caro leitor, não estou a falar das guerras da Europa, da Palestina, do Vietname, do Afeganistão, dos Balcãs, da Ucrânia, do Iraque e da Síria, entre outras, e dos seus milhões de refugiados, mas apenas a lembrar-lhe que os governantes que tem elegido democraticamente nos últimos cento e cinquenta anos não têm aprendido nada com a História. E afinal, você que os elege, também não!
E já que falamos em escravatura, perante algumas ideias e organizações simplistas, ou mesmo mistificadoras, que por aí andam, lembremos que essa abjeção humana não tem cor de pele nem crença religiosa que lhe valha. Também houve escravos brancos ao longo das épocas – nem vale a pena aqui lembrar a origem da palavra escravo, do baixo latim sclavus/slavus, em alemão der Sklave, em inglês slave, muito parecida com a palavra eslavo, do latim slavi, no alemão der Slave, no inglês slav. A libertação de escravos brancos, «o resgate de cativos tornar-se-á num dos maiores negócios especializados do Mediterrâneo medieval e moderno» (DUARTE, Luís Miguel (2012) – Ceuta 1415. Seiscentos anos depois. Lisboa: Livros Horizonte, p. 218), o qual só terminaria na I Grande Guerra devido à intensa militarização europeia do norte de África. Por sua vez, se é certo que foram as nações coloniais europeias que mais ganharam com a escravatura africana, as que iam comprar seres humanos aos portos de mar, convém não esquecer que grande parte deles eram capturados por africanos, quantas vezes da mesma etnia, em guerras tribais ou razias organizadas para tal, e depois vendidos na costa. Ou seja, a perfídia não era exclusiva dos “brancos”, mas nascia “ em casa”. Os povos “vermelhos” do Brasil e América do Sul e Central, logo após a chegada dos cristãos europeus, entraram em “resistência pacífica” – como no século XX faria Gandhi na Índia – e por isso preferiam suicidar-se a serem escravizados. Tiveram também um indefetível defensor português da sua condição de liberdade que por pouco não foi sentenciado pela “Santa Inquisição”, o humanista e homem maior da Humanidade chamado Padre António Vieira. Na América do Norte os “vermelhos” foram sistematicamente eliminados pelos colonos protestantes europeus, autores de verdadeiros genocídios sobre os indígenas norte-americanos. Hoje os E. U. A. têm um presidente humanista afro-havaiano – e a história de como os estadunidenses se apoderaram do Havai não é nenhum feito de glória, mas de vergonha, o que poderá explicar o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941, que a propaganda estadunidense sempre apresenta como um ataque à traição, mas nunca explica como é que os “americanos” lá foram parar e o que estavam a fazer num território alheio no meio do Pacífico, com soberania própria antes da perfídia colonial dos yankees. Obama é um homem que transporta consigo muita da memória do sofrimento humano de África e do Novo Mundo, mas também da esperança da Humanidade. O seu provável sucessor poderá vir a ser um símbolo assumido de tudo aquilo que de mentecapto existe na sociedade americana e ocidental. A sua vitória implicaria um enorme retrocesso, pelo menos cultural, para a Humanidade. Hitler também foi democraticamente eleito pelo povo alemão, e deu o que deu. Isto para dizer que, do politicamente popular até ao politicamente correto, dificilmente algum dia veremos nos E. U. A. um presidente Cherokee, Sioux, Comanche ou Apache, o mesmo acontecendo no Canadá, onde os descendentes dos colonos ingleses ainda mantêm a bizarria de terem aquela fleumática velhota que é a rainha de Inglaterra como chefe de estado. Ele há coisas que a razão não entende ou vai demorar séculos a alterar.
            Escravos chineses, ou asiáticos, têm demorado a ser considerados na triste história da escravatura, não apenas por causa do conhecimento dos seus pressupostos civilizacionais estribados no confucionismo, no taoismo ou no budismo, mas porque eles foram, em termos globais, os “últimos a chegar”, numa época em que já era suposto que a Humanidade tivesse vergonha do fenómeno. Por isso os diversos autores lhes chamam “emigrantes asiáticos”, culies, chinas, ou outras designações injuriosas ou sofismáticas. Foram tão escravos como os brancos cativos, os negros capturados ou os vermelhos abatidos, seres humanos a quem alguém entendeu em nome do costume, da religião oficial, da lei do estado ou simplesmente da ganhuça, privar da sua terra e da família, dos meios de subsistência próprios e da condução do seu destino. Afinal é isso a escravatura.
            Já em 2012 tentei perceber o fascínio de Eça de Queirós pela civilização chinesa em “ A representação dos chineses na obra de Eça de Queirós” (GUIMARÃES, J. A. Gonçalves, Revista de Estudos Chineses Zhongguo Yanjiu, Lisboa: Instituto Português de Sinologia, n.º 8, 2012, p. 59-74. Nesse mesmo ano Elina Maria Correia Batista apresentou na Universidade da Madeira a tese de doutoramento “Da emigração entre continentes em Eça de Queiroz: da correspondência consular à obra literária”, onde analisa a emigração dos culies no enquadramento mais geral do “sonho americano”, que igualmente atraiu muitos portugueses insulares e continentais, depois dos anos da “escravatura branca” para o Brasil imperial e republicano.
            Este artigo que agora consideramos dá particular relevância à posição das autoridades de Macau à época, apresentando uma listagem das embarcações que transportaram do porto de Macau para Havana, Calláo de Lima e outros destinos americanos os milhares de escravos chineses perante a indiferença internacional apenas amenizada no caso de Cuba pelo cônsul Eça de Queirós que nem sequer tinha sangue asiático nem era confucionista. Era apenas «um pobre homem da Póvoa de Varzim» e isso lhe bastava para o seu sentido de solidariedade para com as vítimas daquela gritante exploração a que não quis nem pode ficar intelectual, burocrática e humanamente indiferente.
            Terminemos com uma boa notícia: o atual Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. José Luís Carneiro, está a providenciar uma nova edição do notável relatório de Eça de Queirós escrito em 1874 e publicado pela primeira vez em 1979 por Raúl Rego sob o título “A Emigração como força civilizadora” e depois em duas outras edições promovidas por José Lello e Isabel Pires de Lima em 2000 e 2001, que rapidamente esgotaram. Aí escreveu Eça: «Estudadas as feições da emigração livre, a história dos seus movimentos, as suas causas, as suas consequências económicas, as suas relações com o Estado e a possibilidade da sua organização universal, discutida a emigração assalariada nas suas correntes e nos seus resultados sociais, eu julgo terminado este trabalho que é a afirmação, e direi mesmo a apologia, da emigração como força civilizadora». Valeria a pena traduzi-lo para inglês e difundi-lo pelos fóruns mundiais, pois a Humanidade teria muito a ganhar com as reflexões que este texto de Eça viesse a provocar na atual classe política. Talvez também provocasse a ira de um certo senhor que os estadunidenses se preparam para eleger como seu presidente. E o problema não será só deles, mas do mundo inteiro. Já nos chegava Putin e a sua sociedade dopada.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Biblioteca Queirosiana
        
A Confraria Queirosiana foi brindada com a oferta de uma parte muito substancial da Queirosiana do confrade Eng.º Ricardo Charters de Azevedo, composta por muitos títulos antigos, edições clássicas, primeiras edições e raridades bibliográficas, que assim vem enriquecer os seus núcleos bibliográficos de ofertas e depósitos anteriores, como os de Manuel Alves Luís, Prof. José Rentes de Carvalho, Dr.ª Júlia de Castro, Dr. Raúl Ferreira da Silva e Rocha Artes Gráficas, além de doações avulsas por vários sócios. A entrega oficial será feita no próximo capítulo, dia 19 de novembro, havendo notícias de que se preparam outras doações. Estas obras, devidamente catalogadas e referenciadas em nome dos doadores, ficarão no Solar Condes de Resende para consulta dos interessados.

Mestrado
        
Mestre Paulo Sousa Costa


No passado dia 13 de julho prestou provas públicas de dissertação de mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o Dr. Paulo Sousa Costa sobre o tema “Alfândega da Fé de Sobre a Valariça: o domínio senhorial ao senhorio régio (séculos XII – XIV), tendo sido seu orientador o Prof. Doutor José Augusto de Sottmayor-Pizarro. Foi aprovado por unanimidade com distinção e com a classificação de 19 valores, passando pois a Mestre em História – Estudos Medievais.


Livros

A Igreja e Escola do Prado
       

Coordenado por António Manuel S. P. Silva e com textos seus, de José António Afonso e de Alexandra Vidal, foi recentemente publicada a brochura “A Igreja e Escola do Prado. Cento e quinze anos de instrução e testemunho cristão em Coimbrões, Vila Nova de Gaia”, editada pela Igreja Lusitana, a qual faz a memória e a história desta congregação irmã da Igreja e Escola do Torne, ambas fundadas por Diogo Cassels e ambas referência incontornável na História da Educação em Portugal.



Misericórdia do Porto
           
No passado dia 30 de junho foi lançado no Museu da Misericórdia do Porto o volume das Atas do III Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, subordinado ao tema Saúde, Ciência, Património, o qual decorreu na Casa da Prelada no Porto entre 13 e 15 de novembro de 2014. Na sequência das atas dos dois congressos anteriores este volume apresenta o mesmo bom aspeto gráfico e contém, entre outros, os estudos de Francisco Ribeiro da Silva, mesário da SCMP e coordenador do volume, também aqui autor das “Palavras de abertura do III Congresso” (p. 11-13) e de “ A proclamação da República e as imediatas tentativas de interferência do Estado na administração da Santa Casa da Misericórdia do Porto” (p. 515-540); Jorge Fernandes Alves “O legado do Conde de Ferreira e o Hospital de Alienados na reconfiguração da filantropia tradicional”; J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães “José Pamplona Carneiro Rangel (1805-1811) e Manuel Pamplona Carneiro Rangel (1824), Provedores da Santa Casa da Misericórdia do Porto” (401 – 416).

Os Caminhos da Europa


No passado dia 4 de julho as Edições Afrontamento, com a presença do Autor, lançaram no Museu da Misericórdia do Porto o livro “Os Caminhos da Europa. Dez anos no Comité das Regiões 2006 – 2015”, o qual foi apresentado por Margarida Marques e José da Silva Peneda. O conteúdo está assim resumido na contracapa:
«Durante dez anos, de 2006 a 2015, no quadro do comité das Regiões da UE, o autor teve, a oportunidade de participar no debate político europeu sobre o melhor modo de conceber e aplicar as políticas públicas. O presente livro apresenta precisamente alguns dos textos que nesse período escreveu e algumas das intervenções e contributos que nesse âmbito protagonizou e ilustra o modo como a União Europeia e os seus Estados-membros foram capazes de edificar um conceito de desenvolvimento profundamente integrado e inovador - inteligente, sustentável, inclusivo - mesmo no quadro de um modelo mais territorializado de governação - governo multinível -, mas, ao mesmo tempo, a insuficiência do processo decisório europeu, quer no plano económico, quer no plano político.»

O Porto Romântico II


Acabam de ser publicadas em edição digital as Actas do II Congresso “O Porto Romântico”, publicadas pela Universidade Católica do Porto e coordenadas por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, que assina a Introdução. De entre os muitos conferencistas que aqui publicaram trabalhos destaquemos os de Susana Móncóvio sobre “Christina Amélia Machado (1860 – 1884): a primeira aluna da Academia portuense de Belas Artes ou a prefiguração de um destino coletivo”; de Teresa Campos dos Santos (com Eva Mesquita Cordeiro) “Irmandade de Nossa Senhora da Lapa: uma leitura do seu espólio museológico”; e de Laura Cristina Peixoto de Sousa “Faiança do Romantismo: a produção da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade”. De entre os restantes autores alguns deles são também coordenadores e investigadores no projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia em execução pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, patrocinado pela Câmara Municipal de Vila nova de Gaia.

O Cavalo e o Touro
            Acabam de ser editadas em versão digital as Atas do 1º Congresso Internacional – o cavalo e o touro na Pré-história e na História, organizado pelo Centro Português de Geo-História e Pré-história, coordenadas por Fernando Augusto Coimbra e editadas por Cordero Editore, Génova. Nestas Atas podemos encontrar, entre outros, os seguintes trabalhos: ARAÚJO, Luís Manuel de, «O cavalo no Egito Faraónico: uma civilizadora semiótica do poder»; «KA NAKHT, “Touro Poderoso”: um expressivo título da realeza egípcia»; COIMBRA, Fernando Augusto, «O cavalo como animal psicopompo na Europa do 1º milénio a. C.»; «Homem versus touro: contributo para a história de um confronto»; COIMBRA & ILIADIS, Giorgos, «A possible horse hunting scene in the rock art from Philippi (Greece)»; COIMBRA & SOUSA, Rosário «30.000 anos de História do Cavalo: sua divulgação através da pintura contemporânea»; GUIMARÃES, J. A. Gonçalves & GUIMARÃES, Susana, «Aprestos e representações equestres da Coleção Marciano Azuaga».

Auxílio aos Reclusos
         A maior parte das pessoas, ainda que de formação cristã, ignora, ou não quer saber, que visitar os presos é uma das 14 obras de misericórdia, a 6ª das corporais. Para os cidadãos humanistas sem religião tal é simplesmente um gesto de solidariedade para com os seus concidadãos detidos pela comunidade, quantas vezes injustiçados se compararmos as suas culpas com as de outros que continuam em liberdade e a quem essa mesma comunidade disponibiliza justificações e meios para se entenderem com o sistema judicial. Grandes homens e grandes mulheres, com e sem culpa, foram reclusos ao longo da História da Humanidade. A Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos (O.V.A.R.), de que é presidente o nosso confrade Eng.º Manuel Hipólito Almeida dos Santos, disponibiliza a página na internet http://ovarprisoes.wix.com/ovar e a página no facebook https://www.facebook.com/ovarprisoes/ para a obtenção de informação sobre a realidade prisional.

Palestras, colóquios e conferências
         O Património Construído de Gaia: proposta de sistematização e de estudo – Conferência apresentada no dia 30 de junho (noite de S. Futebol!) no Solar Condes de Resende pelo Prof. Doutor Nuno Resende, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e coordenador do PACUG (Projeto de Levantamento do Património Cultural de Gaia) em execução pelo GHAP dos ASCR-CQ, com o patrocínio da Câmara Municipal de Gaia.
            Roteiros de Inovação PedagógicaNo passado dia 16 de julho decorreu em Lisboa, na Escola Oficina n.º 1 no Largo da Graça, a 1ª Reunião Plenária do Projeto INOVAR – Roteiro de Inovação Pedagógica sobre “Experiências de Referência em Portugal no século XX”, financiado pela FCT, o qual reuniu investigadores de diversas universidades portuguesas, entre os quais José António Afonso e Eva Baptista, que ali apresentaram os seus projetos de investigação nesta área.
            Instituições de Assistência em Vila Nova de Gaia ao longo dos tempos. A propósito dos 40 anos da Cercigaia ao serviço da criança, da família e da sociedade – Palestra proferida por J. A. Gonçalves Guimarães nas comemorações que decorreram na Escola Secundária Inês de Castro no dia 23 de julho.
            Pontes sobre o Rio Douro. Abraços e beijos entre Gaia, Porto e Gondomar – Palestra do ciclo das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, a proferir por J. A. Gonçalves Guimarães no dia 28 de julho, coordenador-geral do PACUG.

Medalhas de mérito municipal

João Nicolau de Almeida e Paulo Talhadas dos Santos com J. A. Gonçalves Guimarães
No passado dia 28 de junho no dia do Município em cerimónia no Auditório Municipal, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia distinguiu com medalhas de mérito municipal vários cidadãos e instituições, alguns dos quais sócios dos ASCR - Confraria Queirosiana, nomeadamente, com a medalha de mérito profissional, o enólogo Doutor João Rosas Nicolau de Almeida, criador do vinho Duas Quintas e de outros vinhos do Douro, ex-administrador da Casa Ramos Pinto e atualmente da Quinta Monte do Xisto em Vila Nova de Foz Côa, mentor dos museus de Sítio da Quinta da Ervamoira no Vale do Côa e do da Casa Ramos Pinto em Vila Nova de Gaia, e também, com medalha de mérito universal o Prof. Doutor Paulo José Talhadas dos Santos, biólogo, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, fundador do FAPAS, autor e coordenador de diversos livros e manuais sobre temas da Natureza e coordenador dos estudantes de Biologia das semanas de estudos especializados que se realizaram entre 1996 e 2004 organizadas pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia no Museu de Ervamoira, bem assim como autor do estudo de biologia do projeto de São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira, levado a cabo pelo mesmo Gabinete, já então integrado na Confraria Queirosiana, o que proporcionou um inesperado encontro dos dois galardoados com o coordenador de ambos os projetos.
Foi também galardoado com a medalha de valor e altruísmo o Doutor Eng.º Salvador Almeida, ex-comandante dos Bombeiros Sapadores de Vila Nova de Gaia.

Centro Interpretativo de Tongobriga

No passado dia 22 de julho, pelas 17,30 horas, com a presença do ministro da Cultura, Dr. Luís Filipe Castro Mendes, do diretor regional da Cultura do Norte, Dr. António Ponte, do presidente da Camara Municipal do Marco de Canavezes, Dr. Manuel Moreira, do diretor da Estação Arqueológica do Freixo, Prof. Doutor Lino Tavares Dias e de muitos convidados foi inaugurado o Centro Interpretativo de Tongobriga, que passará a colher os visitantes desta cidade romana do Baixo Douro.
Entretanto foi recentemente publicado o guia ilustrado intitulado “Tongobriga há 1900 anos - Mapa”, coordenado por António Lima que elucida de forma rigorosa e artística o enquadramento e significado as ruínas.

Vivências de Gaia 2016

         Nos dias 22, 23 e 24 esteve aberto ao público no Monte Murado – Pedroso, Vila Nova de Gaia a VI Feira dos Saberes e Sabores – Vivências de Gaia 2016, com programa de animação contínua, gastronomia, jogos tradicionais e artesanato, organizada pela federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, de que é presidente César Oliveira.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 93 – segunda-feira, 25 de julho de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; 
IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: António Manuel S. P. Silva, Fernando Coimbra, Manuel Hipólito Almeida dos Santos, Paulo Costa, Susana Moncóvio.