segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Eça & Outras

Eça & Outras, domingo, 25 de setembro de 2022

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil 

Quadros da História de Portugal

            No átrio da Estação Ferroviária de São Bento no Porto as paredes estão revestidas com painéis de azulejos de Jorge Colaço que representam “quadros da História de Portugal”, além de outras figurações. Produzidos em 1915, estão ali para cumprir uma função decorativa, mas certamente também pedagógica, que leve o espectador a interrogar-se sobre o que representam. Alguns deles são hoje considerados meras invenções, como o que representa Egas Moniz e família com a corda ao pescoço perante o rei de Leão, a resgatar a honra da palavra dada. Estes “quadros históricos” de certo modo são, não apenas coetâneos, mas muito semelhantes aos representados nas aguarelas de Roque Gameiro e Alberto de Sousa reproduzidas nas cromolitografias dos oito «Quadros da História de Portugal» coordenados pelos professores de História Chagas Franco e João Soares, que os serviços de Educação da então jovem República distribuíam pelas escolas do país para serem explicados pelos professores dos alunos do ensino primário. Convém sempre lembrarmo-nos que se trata de recreações artísticas muito distantes da época em que decorreram as ações que representam e das quais nem haverá iconografia coetânea, nem da cena nem dos retratos dos intervenientes, ou seja, o fotógrafo não estava lá (pois só “chegaria” do século XIX…), nem sequer o desenhador, o pintor ou o gravador. São interpretações baseadas, na melhor das hipóteses, na leitura de documentos ou textos da época ou, o mais corrente, em leituras e interpretações muito posteriores. São artísticos, são simbólicos, são didáticos, mas a sua historicidade fica, geralmente, muito a desejar e na mira questionadora da mais recente historiografia. Esta técnica contemporânea de publicar e difundir “quadros” da História de Portugal em diversos suportes e modalidades tem exemplares notáveis que, de um modo geral, ainda não terão merecido a atenção dos historiadores da Educação. Lembro-mo que, quando eu era entre o jovem e o adolescente colecionei os “cromos” da História de Portugal editados pela Agência Portuguesa de Revistas, compilada por António Feio «segundo as Histórias de Portugal oficialmente aprovadas, de António G. Matoso, Chagas Franco e Janeiro Acabado» e ilustrada por Carlos Alberto, num total de 204 imagens coloridas impressas em pequenos retângulos de papel brilhante, legendadas no tardoz, que colávamos numa caderneta que custava quatro escudos e que apresentava na capa uma interpretação da Batalha de Aljubarrota e na contra-capa a do rei D. Dinis a deparar com o “milagre das rosas” da rainha Santa Isabel. Aí se dizia «publicação de interesse pedagógico» e edição do Mundo de Aventuras, uma então regular publicação de Banda Desenhada. A coleção começava com uma figuração da Península Ibérica com a localização de Portugal e terminava com o retrato desenhado do então presidente da República almirante Américo Tomás, destacado na última página. Na penúltima, para além dos retratos de Gomes da Costa, Carmona, Salazar e Craveiro Lopes, um “cromo” alusivo à 1.ª Grande Guerra e à 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro. E mais nada sobre a História portuguesa do século XX.

            Recuando para os anos cinquenta, a Editorial Século publicou um livro com sólida encadernação, capa colorida com o desenho de uma espada quatrocentista e a representação de algumas das sucessivas bandeiras nacionais, intitulado A Nossa Pátria, sem indicação de autor, ilustrado por Eduardo Teixeira Coelho (Angra do Heroísmo 1917 – Florença 2005). O texto ficcionado refere-se à visita a Portugal de um luso-descendente estadunidense e, para cada terra que ele visita, a descrição dos monumentos e acontecimentos mais marcantes da História de Portugal ali ocorridos ou com os quais se relaciona, neste caso ilustrados não tanto como “quadros”, mas mais como imagem-símbolo: Martim Moniz, Vasco da Gama, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Nun’ Álvares, Geraldo Sem Pavor, Mendes da Maia o Lidador, as campanhas da Restauração, Infante D. Henrique, a conquista do Algarve, o alfageme de Santarém, D. Pedro e D. Inês, «vitória em Aljubarrota», Gualdim Paes, Invasões Francesas, Princesa Santa Joana, Viriato «o maior dos Lusitanos», «trágicas lutas civis», D. Pedro IV, e «o berço de Portugal» com D. Afonso Henriques, dezanove imagens ao todo onde D. Nuno Álvares Pereira e Aljubarrota são tema para três delas. Desconhecemos o sucesso do livro que hoje é bastante raro.

Na mesma época os CTT (Correios de Portugal) emitiam uma coleção de bilhetes-postais para correspondência corrente, ao preço de 50 centavos cada, com uma imagem legendada na parte esquerda do observador na face dedicada ao endereço, fazendo parte de uma série intitulada «Conheça a sua História», num total de 86 exemplares diferentes com aspeto de “quadros”, de desenho estilizado, cujo autor ainda não conseguimos determinar, uns impressos a azul, outros a preto, outros a verde, outros a sépia, outros combinando estas cores. O quadro n.º 1 é a «Batalha de S. Mamede» e o n.º 86 a «Reunião em Lisboa do Conselho do Atlântico» (1952), ou seja, apresenta acontecimentos desde «a primeira tarde portuguesa» até um muito mais recente e contemporâneo da emissão da própria coleção. Pelo meio referem-se “quadros” pouco conhecidos, como a participação portuguesa na «Batalha de Matapão» (1717; postal n.º 61), ou controversos como as «Aparições de Fátima» (1917, postal n.º 79), que o regime do Estado Novo queria tornar “histórico”, não apenas na sua fenomenologia social facilmente constatável, mas mesmo na sua improvável génese cosmogónica.

A validade destas Histórias de Portugal em “quadros” ou mesmo em textos que se pretendiam “exemplares”, isto é “verdadeiros”, tinha já sido questionada por Eça de Queirós numa carta enviada ao seu amigo Oliveira Martins, um literato que escrevia sobre História de Portugal, no caso sobre o seu livro A Vida de Nun’Álvares (1893): «Também não me agradam muito certas minudências do detalhe plástico, como a notação dos gestos, etc. Como os sabes tu? Que documento tens para dizer que a rainha, num certo momento, cobriu de beijos o Andeiro, ou que o Mestre passou pensativamente a mão pela face? Estavas lá? Viste? Esses traços, penso eu, não dão mais intensidade de vida, e criam uma vaga desconfiança.» (Eça de Queirós, Correspondência, 26.04.1894). Então para que servirão hoje estes “quadros”, para além dos seus, quantas vezes, logros ilustrativos? Logo mais para nos prevenir que a História é uma interrogação contínua e abolir de vez o «foi assim, foi exatamente assim».

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Comemorações do Bicentenário

            Prosseguem em Portugal e no Brasil as comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil, algumas das quais têm contado com a participação ou a colaboração dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana ou entidades com quem tem protocolos assinados. Assim, no passado dia 1 de setembro a Academia Alagoana de Letras abriu as portas da Casa Jorge de Lima para ouvir o historiador brasileiro Douglas Apratto dissertar sobre «Alagoas e a Independência do Brasil».

Jornadas Europeias de Património 2022

            Ontem, sábado, dia 24 de setembro, decorreu no Solar Condes de Resende entre as 15 e as 17 horas um colóquio integrado nas Jornadas Europeias do Património 2022, que contou com a colaboração de diversos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e do Solar Condes de Resende enquanto equipamento municipal da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. A sessão foi aberta pelo presidente da direção Prof. Doutor José Manuel Tedim a que se seguiram os oradores de acordo com o programa pré-elaborado. Assim, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre um projeto de estudo intitulado «Águas em Gaia, passado, presente e futuro»; Maria de Fátima Teixeira sobre «O Rio Uíma e a produção hidroelétrica da Companhia da Fiação de Crestuma»; João Fernandes, sobre «A energia eólica e a indústria de moagem: os moinhos de vento em Vila Nova de Gaia»; e Cristiana Borges sobre «As fábricas de Sulfureto de Carbono e os protestos contra a poluição atmosférica», a que se seguiu o debate sobre os temas apresentados.

Palestras

            No passado dia 12 de setembro a Associação Comercial, Industrial e e Serviços de Vila Nova de Gaia (ACIGAIA) comemorou 125 anos de existência com uma gala no Auditório Municipal à qual estiveram presentes como convidados diversos confrades queirosianos representando diversas instituições. Do programa constou uma palestra sobre a sua História por J. A. Gonçalves Guimarães, autor de Memória histórica dos antigos comerciantes e industriais de Vila Nova de Gaia; Livro do Centenário da Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia: ACIGAIA, 1997, e coordenador da obra escrita em colaboração com Susana Guimarães e Eva Baptista em 2004, História da Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia/ History of the Commercial and Industrial Association of Vila Nova de Gaia, ainda não publicada.

            Na próxima quinta-feira, dia 29 de setembro, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «O centenário do Marquês de Soveral», a partir da sua obra Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/ The Marquis de Soveral, Son of the Douro, Man of the World, versão inglesa de Karen Bennett. São João da Pesqueira: Câmara Municipal/ Edições Gailivro, 2008.

Livros e Revistas

No stand da Confraria Queirosiana: Sebastião Feyo, J. A. Gonçalves Guimarães, José Manuel Tedim,
Marcelo Rebelo de Sousa, César Oliveira; fotografia de Cristiana Borges

Ainda a Feira do Livro do Porto

Como foi divulgado na passada “folha” Eça & Outras, entre os passados dias 26 de agosto e 11 de setembro, decorreu no Palácio de Cristal no Porto a tradicional Feira do Livro onde, pela segunda vez, a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana (ASCR-CQ) esteve presente com as suas publicações e sobretudo com o seu contato com o público que se foi inteirando dos seus objetivos e realizações. No primeiro dia da Feira o seu stand foi também visitado pelo presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que conversou demoradamente com os membros dos corpos gerentes e investigadoras presentes, acompanhado, entre outros, pelo nosso confrade Professor Doutor Sebastião Feyo, presidente da Assembleia Municipal do Porto. 

Jorge Fernandes Alves, José Manuel Tedim e J. A. Gonçalves Guimarães;
foto de Fátima Teixeira.

Lançamento de «A Frota Mercantil do Porto…»

            No programa delineado para esta presença, a ASCR-CQ lançou no sábado, dia 3 de setembro, na Biblioteca Almeida Garrett a tese de doutoramento de J. A. Gonçalves Guimarães intitulada «A Frota Mercantil do Porto e o Comércio com o Brasil entre 1818 e 1825». A mesa foi composta pelo presidente da direção, Prof. Doutor José Manuel Tedim que apresentou o autor e o orientador da mesma, Professor Doutor Jorge Fernandes Alves da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que perante a assistência escalpelizou as caraterísticas da obra e o seu enquadramento na historiografia nacional. O autor respondeu ainda a algumas interpelações sobre o tema por parte de vários confrades, consócios, colegas e amigos presentes, tendo depois passado a dedicar e a assinar os exemplares que lhe foram sendo apresentados para tal. A obra ficou então à venda no stand da confraria, podendo agora ser adquirida por via postal e o seu Anexo I, um Catálogo de 1300 páginas sobre 1852 embarcações que entraram e saíram a barra do Douro entre aquelas datas ser livremente consultado no site da Academia Eça de Queirós.

As Cinco Pedras

No passado dia 17 de setembro Albert Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras lançou o livro As Cinco Pedras, dedicado aos seus netos Arthur, Bia, Leo, Letícia e Gabriel, que na realidade são também personagens deste livro de contos em que o autor recorda o inefável prazer que teve na infância quando escutava nas horas de calma no pátio da casa as estórias de seus maiores que desejava intermináveis para que o encanto não tivesse fim. Agora num livro bem colorido o autor criou para seus netos não apenas um tributo de afeto mas uma memória que as gerações vindouras saberão por certo adaptar aos dias da herança cultural que através dele recebem. 

Música e Património

            Na próxima quarta-feira, dia 28 de setembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Pública de Braga será lançado o livro Paisagem e Património. O Som, a Música e a Arquitetura, coordenado pela Prof.ª Doutora Elisa Lessa da Universidade do Minho, que assina também assina o trabalho «Uma presença na paisagem sonora histórica lisbonense. Música e músicos beneditinos no Mosteiro de S. Bento da Saúde de Lisboa (séculos XVII a XIX)» aí publicados ao lado de vários outros especialistas sobre os temas desta obra, como Nuno Resende que aí publica «Escutar ao Porto. Reconstituição das paisagens sonoras da cidade do Porto no século XIX: o caso da Rua das Flores».

            A apresentação da obra a cargo de J. A. Gonçalves Guimarães, professor de Património e melómano, decorrerá num colóquio em que falarão vários dos autores presentes na obra. O enquadramento musical será feito pela violinista Mariana Fernandes do Departamento de Música da Universidade do Minho que executará a Sonata para violino solo BWV1003 de J. S. Bach

Exposições

O jornal As Artes Entre as Letras do passado dia 14 de setembro dedicou a capa e um artigo interior à exposição «Espessa Escuridão» com obras de Hélder de Carvalho que são um «testemunho possível da desordem destes nossos dias» em que a sua Arte evidencia à saciedade «a guerra e a irracionalidade» do que se passa na Ucrânia e noutros palcos mundiais da desgraça imposta ao cidadão comum. Tendo estado patente ao público, primeiro em Braga e mais recentemente na estação do Metro de São Bento no Porto até ao dia 20 de setembro, por ela passaram milhares de transeuntes que certamente não ficaram indiferentes à linguagem estética do horror feito azorrague das consciências tranquilas que poderemos encontrar em muitas das gravuras de Goya.

 


                        No passado dia 8 de setembro, no Gabinete da Bienal de Gaia, dos Artistas de Gaia - Cooperativa Cultural, junto da Estação Ferroviária de General Torres, abriu ao público a exposição de esculturas «Múltiplas Expressões» do canteiro ornatista António Pinto, com a presença de muitos dos seus amigos e consócios daquela cooperativa. Na abertura usaram da palavra Agostinho Santos, presidente da instituição e diretor da Bienal de Gaia, J. A. Gonçalves Guimarães, em representação da Confraria Queirosiana, e o autor das obras expostas.

Música

O agrupamento musical Eça Bem Dito, da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, participou na animação do festival da Associazine Sapori Italiani que decorreu entre os dias 20 e 25 de setembro na marginal da Beira Rio de Vila Nova de Gaia entoando um conjunto de canções napolitanas de finais do século XIX e princípios de XX acompanhadas ao piano por Maria João Ventura. A sua próxima atuação será no capítulo da Confraria a 19 de novembro em que entoarão     diversas melodias brasileiras do século XIX.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 169, domingo, 25 de setembro de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil

Brasileiras

Desde os primeiros contatos entre os Portugueses que no dia 22 de abril de 1500 chegaram oficialmente ao território que se viria a chamar Brasil, e os seus naturais, que as diferenças e estranhezas rapidamente se transformaram, quase sempre, em simpatias e afetos mútuos. Mas também na criação de estereótipos que ajudaram a fixar essas diferenças em ambas as comunidades, a que rapidamente as circunstâncias da Expansão Europeia acrescentaram tipos africanos, europeus de várias outras proveniências, e mais tarde orientais e, enfim, todo o mundo. Com o andar dos tempos os estereótipos foram-se multiplicando quer no Brasil, quer em Portugal, divulgados por viajantes, migrantes, desenhadores, pintores e fotógrafos, escritores e cineastas, mas também pelos historiadores, antropólogos e sociólogos, melodistas e cantores. Mas de todos esses tipos ou grupos humanos um deles sempre fascinou a mente, a escrita, a pintura e muitas outras artes de brasileiros e portugueses: referimo-nos “à” mulher brasileira, uma simplificação que nunca existiu, senão fruto de individualizações muito particulares, muito conscritas na paisagem geográfica e humana. Logo naqueles dias existiam certamente vários tipos de mulheres no território, mas os navegadores lusos não sabiam. Sobre as que então conheceram, a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha não poderia ser mais encomiástica: «Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha». Dando ao rei D. Manuel I estas informações tão particulares, logo abaixo continua: «E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo acima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela». Esta comparação ficará no subconsciente masculino português até aos dias de hoje. Mas Caminha insiste no recado: «Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia nenhuma vergonha». Existem depois outros textos, em prosa e verso, a descreverem os diferentes tipos de mulheres brasileiras, quase sempre europeizados, até que com a Independência do Brasil em 1822, lentamente uma nova visão “nativista” se foi instalando na Cultura Brasileira, multiplicando os arquétipos mas autonomizando as diferentes visões sobre eles. Se durante séculos esses relatos nos chegavam através dos Portugueses que iam lá deslumbrar-se, passando as suas impressões ao papel e às memórias orais, a partir do século XIX, lentamente, algumas brasileiras começaram a chegar a Portugal e aqui vieram impressionar alguns escritores, pintores e outros descritores com as suas singularidades. E várias outras mulheres portuguesas foram para lá abrasileirar-se, como aconteceu a Cármen Miranda.

Antero de Figueiredo (1866-1953), um escritor português que hoje ninguém lê, por volta de 1920 descrevia assim uma daquelas recém-chegadas: «Era uma menina brasileira de vinte e cinco anos, alta, forte, de corpo formoso de modelação e ondulação. Tinha a pele de um moreno de âmbar, quase dourado, e os cabelos castanhos secos, com tons de sol. Os olhos de avelã, entre noites de pestanas sedosas no ninho penumbroso das órbitas, eram húmidos do langor sombrio das terras do sul, e tinham em certos momentos, o belisco da malicia dos boulevards latinos (…) O penteado desmanchara-se numa desordem bela, como se os ventos quentes da sensualidade a viessem pentear em toucado de graça estranha, perfumando-o com cheiros tontos de deliciosa perversão. No busto, em que o decote mostrava um colo de polpa de oiro, arfavam seios airosos de graça e sedução; e por detrás da saia leve, os olhos liam e palpavam a linha das coxas esbeltas. Da sua boca, de lábios a arderem em vermelhão de lume, saíam, por ente dentes sorrindo brancuras, versos em francês e inglês, pronunciados com inflexões de encanto…» (FIGUEIREDO, Antero de (1920) – Senhora do Amparo. Lisboa: Livraria Bertrand, pag. 120 e seg.s.).

Ainda estávamos longe de nos ter chegado a Gabriela Cravo e Canela de Jorge Amado, em livro, em novela televisiva, em sucesso popular transversal a toda a sociedade portuguesa. Estes estereótipos da mulher brasileira, e todos os outros que hoje nos são familiares, trouxeram certamente a Portugal algo de novo e de diferente que já Pero Vaz de Caminha adivinhara no início do século XVI ao descrever as primeiras mulheres brasileiras que os Portugueses contemplavam: «que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela».

«Ó voluptuosidade! Tu és a imagem do oceano nos teus caprichos. Ora te embalas docemente dourada com os últimos raios do sol: depois dormes tranquila aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de tempestades» (Eça de Queirós, Prosas Barbaras). E assim é no Brasil e em Portugal.

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Distinções

  Por decisão unânime, o júri do Austria Culture Brasilien-Haus in Österraich & Europäische Geselischaft Der Schonen Kunste, reunido em Viena de Áustria no passado mês de maio, atribuiu à Prof.ª Doutora Annabela Rita o prémio Diamonds de Artes e Educação – Áustria, «como agradecimento e reconhecimento pelas suas realizações no campo das Artes e da Educação». A mesma pedagoga foi recentemente distinguida no Brasil com o prémio Literarte 2022 e a medalha de Destaque Literário 2022, na Galiza pelo Círculo de Escritores da Galícia e em França com o Prix Littéraire Jules Verne 2022.

Feira do Livro do Porto

    


        Entre os próximos dias 26 de agosto e 11 de setembro vai decorrer nos Jardins do Palácio de Cristal no Porto a habitual Feira do Livro, onde a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana estará presente a vender as suas edições, estando mesmo prevista a apresentação de uma reedição e o lançamento de uma obra sobre a História das relações da cidade do Porto com o Brasil à data da independência (ver abaixo).


Organizada por António Manuel S. P. Silva e Maria de Fátima Teixeira e com capa de Sérgio Veludo Coelho com a caricatura do autor vestido de combatente liberal da Serra do Pilar, a obra Eça & Outras. Crónicas Queirosianas, apresenta uma série de textos de J. A. Gonçalves Guimarães publicadas como editorial da página mensal da Confraria Queirosiana publicada no jornal O Primeiro de Janeiro entre 2004 e 2008. Lançada como surpresa de aniversário em julho de 2021, a primeira edição rapidamente esgotou, motivando assim uma nova tiragem que se encontrará disponível na Feira do Livro ou por encomenda para queirosiana@gmail.com ao preço de 15€ cada, portes incluídos.

A 24 de Agosto de 1820 eclode na cidade do Porto uma Revolução constitucional que irá não só ditar o futuro imediato de Portugal e do Brasil, mas também o desta cidade portuária e mercantil, placa giratória de mercadorias entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo, a América do Norte e a América do Sul, as Ilhas Atlânticas, a África e o Brasil. Sobre este cenário J. A. Gonçalves Guimarães elaborou a sua tese de doutoramento intitulada A Frota Mercantil do Porto e o comércio com o Brasil entre 1818 e 1825, agora data à estampa com a chancela da Confraria Queirosiana. No Prefácio, da autoria do Professor Doutor Jorge Fernandes Alves, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pode ler-se: «O autor segue, com pormenores informativos recolhidos em variadas fontes documentais e impressas, o percurso de 155 firmas de armadores-negociantes [da praça mercantil do Porto], cujas fichas traz para o texto do relatório, anotando incidentes marítimos e/ou movimentos comerciais, procurando ainda os entroncamentos familiares e outros dados de natureza individual. A perspetiva usada de micro-história, seguindo os percursos individuais, traduz-se num importante contributo para desvendar o sujeito neste grupo histórico de forte incidência local, atribuindo-lhes um papel no seu mundo, trazendo o homem à superfície nas suas ações e decisões, ainda que no quadro de forças mais amplas que o condicionam, numa opção de investigação que ajuda a conferir à história económica e social novas configurações».

A obra tem ainda como complemento o Anexo I, um Catálogo referente a 1852 embarcações que entraram e saíram a barra do Douro no período estudado, com muitos dados sobre as mesmas (armador, estaleiro, capitão ou mestre, rotas, cargas, consignatários e outras indicações) em muitos casos para datas anteriores e posteriores às deste estudo. O referido Catálogo existe apenas em versão eletrónica acessível em:

https://academiaecadequeiros.blogspot.com podendo igualmente ser solicitado para: queirosiana@gmail.com

Esta obra será lançada ao público durante a Feira do Livro do Porto que decorrerá no Palácio de Cristal na sala multimédia da Biblioteca Municipal Almeida Garrett no dia 3 de setembro, sábado, pelas 14 horas encontrando-se também à venda no stand da Confraria Queirosiana, sendo posteriormente vendida ao público pelo preço de capa de 35€, por encomenda para queirosiana@gmail.com portes incluídos. 

Livros e Revistas

Está em distribuição o Boletim n.º 94 da Associação Cultural Amigos de Gaia, referente a junho passado, especialmente dedicado ao passamento em 31 de dezembro do seu sócio n.º 1, fundador desta publicação, Joaquim Costa Gomes. E também ao centenário do nascimento do pintor Isolino Vaz. Entre outros autores, este número apresenta artigos de Salvador Almeida, Virgília Braga da Costa e Abel Barros.



“Um livro que li”

       Projeto lançado a 31 de julho pela Academia Alagoana de Letras através do seu presidente Alberto Rostand Lanverly, o qual convida um homem de Letras a fazer uma curta palestra gravada sobre o livro ou livros que mais o marcaram na sua vida, depois disponibilizada no Youtube, para quem dela quiser usufruir. Já aí estiveram Paulo Roberto Oliveira Lima a falar sobre As Velas Ardem até ao Fim, de Sádor Marai; Rosalvo Acioly sobre A Menina que Mora em Mim, de Laís Castro Tenório Lima; Fernando Gomes sobre Castrioto Lusitano de Frei Rafael de Jesus; José Geraldo Marques sobre O Livro de Mórmon; J. A. Gonçalves Guimarães sobre Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, na versão de Aquilino Ribeiro; e Douglas Tenório sobre Mãe de Alberto Rostand Lanverly, Manguaba de Carlito Lima e Memória dos Trópicos de Miguel Gustavo Paiva.


No passado dia 12 de agosto o escritor Carlos Lima apresentou o seu novo romance Jaquiá em Maceió na Academia Alagoana de Letras. No próximo dia 27 de agosto a mesma obra será apresentada no Porto na Cachaçaria Bar, Rua Miguel Bombarda, 552, com apresentação do académico e historiador Douglas Apratto, que considera que este autor tem «originalidade única [e] vem pavimentando sua trajetória com obras originais e de indiscutível sabor literário». Este romance, que agora lança, completa a sua Trilogia das Lagoas composta pelos anteriores títulos Manguaba e Mundaú, obras com «bom humor, visão de costumes, sexo, conflitos, situações familiares, a geografia física e humana de cada local apresentado animam o percurso do leitor». Com prefácio do cineasta Cacá Diegues, este considera que estes romances «mantêm o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ficção de Carlito Lima e em sua “cultura local”, é justamente a liberdade narrativa que lhe permite fazer com que alguém, que faz um discurso político importante, por exemplo, possa se interessar súbita e simultaneamente pelo corpo da bela mulher que passa à sua frente».

Palestras

Maria de Fátima Teixeira a falar sobre a
 Companhia de Fiação de Crestuma e a industrialização do município gaiense;
fotografia de Sara Pinheiro

       Integrada na Festa da Saudade organizada pela Associação Caminheiros de Lever, no passado dia 13 de agosto a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, Mestre em História Contemporânea, apresentou na Companhia de Fiação de Crestuma em Lever uma palestra sobre a origem e evolução desta empresa centenária no contexto da industrialização da região desde os finais do século XVIII.

Última Quinta-feira do mês

Hoje, dia 25 de agosto, pelas 18,30, no Solar Condes de Resende, presencialmente ou por videoconferência, J. A. Gonçalves Guimarães apresenta o tema «Arte Publicitária dos Vinhos do Douro e do Porto: os artistas estrangeiros». Desde a segunda metade do século XIX que as casas exportadoras de vinhos do Douro e do Porto cuidaram da sua publicidade através da criação de logótipos e da produção de rótulos e outros informativos de garrafa; marcas de fogo em pipos e caixotes; impressos de vários tipos, catálogos e postais; painéis publicitários; painéis de azulejos; fotografia e cinema; anúncios em jornais e revistas; taças e troféus; partituras; jingles radiofónicos; estátuas, bustos e estatuetas; brindes diversos. Mas foram os cartazes a mais elaborada e perdurável forma de Arte Publicitária produzida desde finais do século XIX.

Nesta palestra serão apresentados os artistas estrangeiros que produziram esses cartazes e onde se foram eles inspirar.

Exposições de Escultura

       Na XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, no polo do Convento San Payo, desde 1 de agosto estão expostas cinco instalações coletivas de António Pinto em co-autoria com Augusta Albuquerque, Luísa Prior e Maria dos Santos, elaboradas a partir de materiais recicláveis que procuram sensibilizar os visitantes para a imperiosa necessidade da preservação ambiental. Podem ser vistas neste local até 31 de dezembro próximo.

         No passado dia 20 de agosto na estação de São Bento do Metro do Porto, o escultor Hélder de Carvalho inaugurou uma exposição de instalações e projetos de esculturas intitulado “Espessa Escuridão” sobre as vítimas da guerra na Ucrânia. A mesma pode ser vista até 20 de setembro próximo.

Feira da Gastronomia

         No passado dia 19 de agosto abriu ao público a Feira de Gastronomia de Vila do Conde, este ano dedicada ao centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro. Tendo sido convidada para participar na abertura, como habitualmente a Confraria Queirosiana fez-se representar por uma delegação, este ano composta por César Oliveira, J. A. Gonçalves Guimarães, Manuel Moreira e António Pinto, que entraram em contato com as entidades autárquicas presentes e outras entidades culturais e confrarias.

Terão lugar nos próximos dias 23, 24 e 25 de setembro as Jornadas Europeias do Património 2022, este ano subordinadas ao tema Património Sustentável, promovidas pelo Conselho da Europa e da Comunidade Europeia e, em Portugal, da Direção-Geral do Património Cultural.

Como habitualmente a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, através do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património, em colaboração com o Solar Condes de Resende e o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia vai associar-se a esta iniciativa através da realização de um colóquio subordinado àquele tema, presencial e por videoconferência, que terá lugar na tarde de sábado, entre as 15 e as 19 horas (com intervalo entre as 17 e as 17,30). A programação geral pode ser acompanhada em  http://w3.patrimoniocultural.pt/jep2022/digital/

O programa do colóquio será oportunamente divulgado. 

Falecimento

Rosalina Pinto;
fotografia 
de Maria da Fátima Teixeira

No passado dia 21 de agosto faleceu Rosalina da Conceição de Sousa Pinto, sócia dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana nascida em Vila Cadiz, Amarante a 11 de novembro de 1947. Tendo vivido desde os cinco anos de idade em Canelas, Vila Nova de Gaia, aí fez a sua formação escolar e um curso de modelagem, corte e costura. Na década de 70 do século passado passou por Luanda, onde teve início o seu gosto pela Pintura que em tempos recentes desenvolveu no Solar Condes de Resende no Curso de Arte e outras Expressões Plásticas com os professores pintores Ariosto Madureira e Paula Costa, tendo exposto no Salon d’ Automne Queirosiano em várias das suas edições.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 168, quinta-feira, 25 de agosto de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Sara Pinheiro.

 


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil

Participantes na IHSS 2022; fotografia CITCEM/FLUP

Escola de Verão no Douro Superior

Uma iniciativa da Universidade do Porto realizada pelo segundo ano consecutivo através do CITCEM-Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras, e que teve uma comissão organizadora composta por Nuno Resende e João Duarte e outros responsáveis por aquele centro, levou ao Douro Superior duas dezenas de estudantes e uma dezena de investigadores e professores para conhecerem, refletirem e debaterem o Património sob o tema «Paisagens, fronteiras, limiares e periferias». Entre os dias 17 e 23 de julho participaram na International Heritage Summer School 2022 estudantes de Antropologia Cultural e Etnologia, Arqueologia, Arquitetura e Urbanismo, Engenharia Civil, Desenvolvimento Sustentável e Bem-Estar, História, História da Arte e Património Cultural vindos da Áustria, Bósnia-Herzegovina, Brasil, Bulgária, Estados Unidos da América, Itália, Portugal, Suíça, Singapura e Turquia, os quais participaram num intenso e abrangente programa, tendo a iniciativa contado com o apoio de diversas entidades nacionais e locais, públicas e privadas. A realização teve ainda o secretariado de Carlo Guadagno da Universidade de Lisboa e o apoio local de Sandra Naldinho, do Museu da Casa Grande e de Libano Pereira da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa. Alojados no Centro de Alto Rendimento de Canoagem do Pocinho, onde decorreram algumas das sessões teóricas e refeições, os trabalhos, maioritariamente apresentados em inglês, tiveram início no dia 18 com a conferência de abertura por Robert Belot da Universidade Jean Monnet (França) sobre «O Património é o futuro da Europa?», seguida de «No limiar da imaginação» por Nuno Resende do CITCEM-FLUP e de «Labirinto vertical» por Duarte Belo, a que se seguiu uma visita guiada à Quinta do Vale Meão, onde recentemente foi descoberto um complexo mineiro possivelmente pré-histórico, que está a ser estudado e preservado.

No dia 19, nas instalações da Associação de Viticultores e Olivicultores de Freixo de Numão, Ricardo Guerra do Instituto Politécnico da Guarda - ESTH-IPG falou sobre «Turismo, Património e Sustentabilidade: propostas de desenvolvimento para o Vale do Douro, seguido por Andreia Arezes do CITCEM- FLUP sobre «Nos limites da Finis terrae: grupos, movimentos e materiais» e por João Muralha da Universidade Nova de Lisboa, FCSH/CHAM sobre «A Arqueologia na Região do Alto Douro: um olhar através da Arqueologia da Paisagem». Na parte da tarde visitaram o Museu da Casa Grande, as ruínas arqueológicas do Prazo e o sítio do Castelo Velho em Freixo de Numão.

No dia 20, de novo na unidade de alojamento desta ação, Mariana Jacob Teixeira da Câmara Municipal do Porto falou sobre «Museu é um lugar de…» e Carlos Mota do Museu do Douro sobre «Atuais fronteiras e princípios da conservação-restauro. Obstáculos e estratégias de um conservador-restaurador numa região periférica: conservação-restauro de património móvel na Região Demarcada do Douro», a que se seguiu uma «oficina» do serviço educativo daquele museu que teve como tema «Paisajar». Da parte de tarde houve visita ao Museu do Côa e ao Museu de Sítio de Ervamoira, onde J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ falou sobre «Quinta da Ervamoira – Vale do Côa: das escavações arqueológicas ao Museu de Sítio».

No dia seguinte, 21 de Julho, após uma visita ao castelo e igrejas de Longroiva e Marialva, o curso foi recebido da parte da tarde nas instalações do futuro Museu Municipal da Mêda pelo presidente da edilidade, Dr. João Germano Mourato, que saudou os participantes salientando a importância destes eventos internacionais para a região. Seguidamente, João Monterroso Montero, da Universidade de Santiago de Compostela, falou sobre «Arquiteturas (des)integradas na paisagem cultural galega, entre a natureza e a construção» e Paula Bessa, da Universidade do Minho-ICS, sobre «Pintura medieval tardo-medieval e da primeira metade do século XVI».

No último dia dos trabalhos, de novo no local de alojamento, a sessão teve como tema «O conhecimento para projetar paisagens frágeis: aglomerados históricos e novos projetos para a saúde do património e das comunidades», tendo falado António Conde e Marianna Calia, da Universidade de Basilicata-DICEM, e Paola Puma da Universidade de Florença-DIDA (Itália), a que se seguiu uma oficina de desenho da paisagem.

Após a sessão de encerramento, em que falaram João Duarte da FLUP-CITEM e Paola Puma da Universidade de Florença salientando a satisfação geral dos participantes, docentes, alunos e entidades apoiantes desta realização, e em que ambos fizeram votos para a sua continuidade no próximo ano, os participantes embarcaram no cais do Pocinho para um passeio fluvial durante o qual contornaram o meandro do Vale Meão desembarcando no cais de Freixo de Numão, tendo-se dirigido para um conhecido restaurante da região onde alguns degustaram peixes do Rio Douro e todos celebraram o estudo e divulgação do Património como importante meio de comunhão entre os povos.

Para além das sessões científicas, das visitas de estudo e trabalhos ao ar livre, houve ainda tempo para os participantes debaterem ou se inteirarem de temas culturais tão diversos como a fotografia no passado e no presente, a obra europeia do escritor José Rentes de Carvalho, mas também sobre a desnaturalização e mistificação de alguns aspetos do Património e esta disciplina académica como base de uma nova atitude para o desenvolvimento sustentável e o seu exercício profissional, ou mesmo sobre a paz na Europa e no Mundo de que a recuperação da catedral de Notre Dame em Paris está a ser um símbolo.

Por estes dias também estes estudantes e professores viveram uma experiência patrimonial semelhante àquela que Eça de Queirós assim descreveu: «Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cavados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro.» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras). Creio bem que jamais esquecerão esta escola de verão duriense.        

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção


Cidadãos distinguidos

No dia 9 de julho passado, dia comemorativo da entrada do exército de D. Pedro no Porto em 1832, a Câmara Municipal desta autarquia homenageou na Casa do Roseiral com medalhas de mérito municipal diversos cidadãos por relevantes serviços prestados à cidade, entre eles, Isabel Pires de Lima e Francisco Ribeiro da Silva, professores jubilados da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, respetivamente das áreas de Literatura e História, Jaime Milheiro, médico psiquiatra e ensaísta e Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto.


Livros e Revistas

Mesa que presidiu à sessão de lançamento, António Barros Cardoso, Paula Carvalhal e Gonçalves Guimarães; foto Fátima Teixeira.

Conforme referimos na página anterior, no passado dia 2 de julho, pelas 17 horas, no Solar Condes de Resende, foram lançados os números 08 e 09 da revista Douro. Vinho História e Património. Wine History and Heritage, editada pela Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID), os quais ainda não tinham sido apresentados ao público devido às hesitações da pandemia.

A apresentação esteve a cargo de J. A. Gonçalves Guimarães em representação da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana com quem a APHVIN/GEHVID tem um protocolo de colaboração para a área da investigação da História do Vinha e do Vinho. Seguiu-se o Prof. Doutor António Barros Cardoso presidente da direção daquela associação, que se referiu a cada um dos trabalhos publicados naqueles números da autoria de investigadores portugueses e estrangeiros e a sua contribuição para um maior conhecimento do vale do Douro e das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia no que especialmente se refere ao vinho do Porto. Esta parte da sessão encerrou com as palavras da Eng.ª Paula Carvalhal, vereadora do Pelouro da Cultura do Município de Gaia que enquadrou este lançamento na retoma plena da atividade cultural por parte da autarquia e das instituições gaienses. Estiveram presentes também alguns autores dos trabalhos publicados, nomeadamente os dois primeiros oradores atrás nomeados e ainda Cristiana Borges Ferreira e Nuno Resende.

Seguiu-se um momento musical com a atuação de José Bordelo em guitarra clássica e do grupo coral Eça Bem Dito, dirigido pala pianista Maria João Ventura que, em homenagem a Adriano Correia de Oliveira, interpretaram fados e baladas de Coimbra do final do século XIX e princípios do século XX.

A sessão terminou com um Porto de Honra com o Vinho do Porto Confraria Queirosiana, 20 anos.

 


Acaba A. Campos Matos de publicar um novo livro surpreendente na sua incontornável bibliografia onde abundam já tantos títulos que são obras de referência da Cultura Portuguesa: bastar-lhe-ia para tal ter publicado o Dicionário de Eça de Queirós, ao qual ainda acrescentou o Dicionário de Citações e muitos outros títulos que tanto têm contribuído para o conhecimento “familiar” do escritor, da sua obra, das suas interrogações, certamente imprescindíveis para o seu estudo académico ou literário, mas muito para além dele.

Desta feita trata-se de um livro de revisitações, muito mais do que de memórias, que intitulou Reminiscências 1932-2020, editado pela Húmus Vila Nova de Famalicão, com o patrocínio do seu «Querido Amigo António Maria Pinheiro Torres» e dedicado também à memória do seu professor, o arquiteto Manuel Paiva Monteiro. Iniciadas aos quatro anos de idade no fabuloso cenário da Estação de São Bento no Porto, o autor vai desfiando em pequenos capítulos ou verbetes os episódios que marcaram a sua via e a sua formação que partilha connosco, não só porque muitos de nós o estimam e admiram e também assim passamos a fazer parte da sua biografia íntima, mas também porque muitos dos seus episódios fazem também parte da vida de todos nós, da Cultura Portuguesa, europeia ou mesmo universal. Só que, em tantos deles, A. Campos Matos esteve lá mais perto, mais dentro de casa, mais na intimidade de cenários e pessoas. Assim faz “nossos” também, além dos omnipresentes Eça e António Sérgio, os “seus” Virgílio Ferreira, José Augusto-França, Américo Guerreiro de Sousa, seu filho Carlos, Olga Cadaval, Guilherme d’ Oliveira Martins, Isabel Pires de Lima, David Mourão Ferreira, Luís dos Santos Ferro, António Borges Coelho, António Maria Pereira, Beatriz Berrini, João Medina e tantos, tantos outros, incluindo o menor deles todos, o escrevinhador destas linhas, a quem um dia, logo pela manhã cedo («São seis da manhã hora em que lhe escrevo esta regra… », pág. 347), resolveu confidenciar-lhe uma sua ideia para uma nova e ousada interpretação de Os Maias, dizendo-o «pessoa capaz de tirar do poço esta minha teoria original…». Não, não sei se serei capaz de tal. Mas deste então tenho pensado na sua ousada ideia de reinterpretação do maior romance da Língua Portuguesa. E por isso irei voltar ao assunto, e também a este livro de afetos e alguns fantasmas de uma das mais longas e produtivas vidas que conheço e que facilmente irmano com a do escritor José Rentes de Carvalho, outro produtivo nonagenário que hoje mesmo de manhã partiu, com a esposa Löeckie ao lado, a guiar o seu automóvel da aldeia de seus ancestrais (Estevais do Mogadouro), para atravessar a Espanha, França e Bélgica até à sua outra casa em Amsterdam. Portugal, para nossa felicidade, anda também por aí a viver eternidades criadoras.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 167, segunda-feira, 25 de julho de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca. blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos: 



sábado, 25 de junho de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil

Mitologias caseiras

          Isso do rigor da memória nas recordações passadas a escrito não é connosco, Portugueses. País literário desde o berço medieval, dado a cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer, mas tudo cantigas, analfabeto na ciência de árabes e moçárabes, avaramente guardada por judaisantes, logo tudo inimigos da fé cantigueira, as atitudes exigentes tiveram de esconder-se ao longo dos tempos das inquisições várias até quase aos dias de hoje. Já não há fogueiras a queimar hereges, mas há micro-ondas para despachar fervuras. Ficamos pois nas facilidades de escrever maus versos e de divulgar mitologias e fantasias, uma espécie de sarampo cultural, quer seja em torres de conhecimento quer seja no banal quotidiano. Isso da investigação, do rigor, da «clara certidão da verdade» dá muito trabalho, e é geralmente inconveniente ou mesmo perigoso. Por isso é mais fácil tocar de ouvido, seguir o método do «parece que» e condimentar a gosto com banalidades. Adiante. Este erudito arrazoado a propósito de um livro de memórias que me veio recentemente à mão, intitulado A Póvoa no seu melhor: crónicas do tempo que passa, da autoria de José de Azevedo e editado pela autarquia poveira em 2020. Nele encontrei o capítulo «Dois Amigos - Júlio Gomes e Sousa Dias» que particularmente me interessou. Estes livros de recordações são normalmente interessantes quando, despretensiosamente, se limitam a divulgar isso mesmo: visões pessoais sobre pessoas, locais e acontecimentos sobre os quais ainda ninguém escreveu e com algum conteúdo que nos acaricie o quotidiano coletivo, sempre limitado pelas possibilidades individuais. Escritas de forma coloquial, estas memórias apresentam-nos outros ângulos de observação sobre algo que também já conhecemos, mas de forma incompleta e até imperfeita e que, por isso mesmo, nos ajudam a completar ou a rever a nossa própria informação. Mas a que se exige alguma pesquisa e rigor para não sobrepormos mitos a fantasias. Para as elaborar não nos podemos pois fiar unicamente na nossa memória ou vivência. Tudo isto a propósito do grande blagueur Basílio de Sousa Dias (BSD), ali invocado com informações, algumas delas fantasistas, como aliás ele gostava. Conhecia-o desde miúdo, de o ver passar ao fim do dia, ou ao começo da noite, em direção ao Porto, pois ele morava no “Prédio Parafuso” na rua Elias Garcia (antiga Dr. Avides ou popularmente “das pipas”, por aí existir a tanoaria a vapor Correia Ribeiro), em Vila Nova de Gaia, e não naquela outra cidade, como o texto em causa afirma. O seu vestir, elegantíssimo, um pouco exótico por excessos, mas desmazelado por falta de ajuda doméstica, o casaco branco estival ou negro, de pele, invernal, as luvas, o chapéu de coco, a comenda de Cristo pendente do colarinho da camisa, não deixavam de atrair a atenção dos passantes para o “Sousa Noites” ou, mais popularmente, o “barão da meia rota” que andava de trolley, embora tivesse tido carro. Dele pouco na realidade se sabia, mas comentava-se que, entre outras excentricidades, acordava os vizinhos martelando nas paredes pela noite fora. Soube depois que colecionava pratos-souvenir que pregava nas paredes da sua habitação emoldurados por mantilhas sevilhanas negras debruadas a ouro. Na sua porta havia uma chapa que avisava “alta tensão perigo de morte” e, volta e meia, no seu patamar exibia-se um estranho “tapete” feito de farinhas, grãos diversos, café, colorau e outros produtos comestíveis dispostos em mais ou menos artística composição. Já não falando no Saab que usou para passear a nonagenária mãe e que ficou a apodrecer num canto de prédio depois dela morrer.

Tive a oportunidade de o conhecer melhor quando começou a aparecer em algumas das realizações do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, como as Jornadas de Antropologia Cultural (1987) e o 2.º Congresso Internacional Sobre o Rio Douro (1996), tendo vindo em peregrinação de afeto ao Solar Condes de Resende pouco antes de falecer a 1 de junho de 2002, com 94 anos, em Braga.

          Devido àquele conhecimento, vindo eu uma certa noite da tardia montagem de uma exposição com uma colega (MGP) em busca de ainda comermos qualquer coisa no desaparecido Café Mucaba, encontrámo-lo a regressar a casa àquela sua habitual hora de recolha e, perante a inevitabilidade do encontro, depois de estranho e hilariante foge que te não vi, lá tivemos de cumprir a já então muito prometida aceitação de visita ao seu tugúrio, experiência surrealista que um dia me merecerá um texto, até porque dele não deve ter ficado nenhum registo fotográfico e tal merece porque irrepetível, excepcional e desde então inexistente.

          Basílio de Sousa Dias apresentava-se com um cartão de visita exuberante, com brasão, e a indicação de inúmeras associações e instituições de que faria parte, entre elas a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Era um personagem gerador de afetos, embora por vezes de um humor mordaz, mas que logo desfazia numa rápida casquinada. Agente artístico, sem dúvida, pelo menos em parte da sua vida, talvez mais de coristas do que de vedetas, escrevia também as suas croniquetas em vários jornais que hoje só por curiosidade se lerão, Apresentava-se como jornalista aposentado. Tendo, em tempos recuados, começado por frequentar o curso de Medicina que precocemente abandonou, tornou-se figura assídua do circo exotérico de Vilar de Perdizes, onde afluíam muitos devotos das perdidas fontes da juventude vendendo barato as angústias pelo tempo perdido.

          Sendo obviamente um excêntrico adorável e do qual guardo uma simpática saudade, ao contrário do que diz o texto que vimos seguindo, não era propriamente um «homem culto», e da inteligência usava sobretudo uma boa dose de sagesse, o que não é a mesma coisa. E também não foi certamente «um dos mais respeitados autores de temas nortenhos» e muito menos um «especialista em trabalhos sobre a história, doçaria e cozinha do Norte» como também ali se escreve, assuntos para os quais desde os anos oitenta do século passado que se requer formação profissional adequada e há efetivamente bons autores. E quanto às «teses» que apresentava em público, tivemos ocasião de escutar com bonomia algumas delas e poderemos dizer que ficariam bem num almanaque do século XIX para entreter quem à sombra de um jardim de camélias as leria com dedicatória do «querido Basilinho».

          Certamente que BSD está nos registos daqueles que o conheceram e na galeria da memória de muitos como um singular barão de opereta. Pretender algo diferente disto é criar fantasias que só se encontram na lápide esverdeada erguida por ele próprio e pregada no muro da saudade por alguns dos seus amigos, mas que não passam de mitomanias, de que o Norte, a Póvoa de Varzim, Gaia e Porto têm mais alguns exemplos, como o Tio Élio, o Senhor Júlio “Luís da Baviera”, e outros excêntricos que ficaram na memória das gentes e das comunidades.

Para além da saudade e da permanência da simpatia que os próprios geraram, não será útil nem necessário escrever exageros croniquentos que também contaminam literaturas mais exigentes, mas isso são outras andanças. E a propósito de personagens de casino e de outras paragens, aqui nos lembramos daquilo que o poveiro até hoje mais célebre escreveu: «…entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o País é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da educação» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre).

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

J. Rentes de Carvalho na RTP e em Gaia

         

No passado dia 20 de junho, no programa «Primeira Pessoa» da RTP, Fátima Campos Ferreira apresentou uma entrevista biográfica do escritor J. Rentes de Carvalho, nascido a 15 de maio de 1930 em Vila Nova de Gaia, ex-professor na Universidade de Amsterdam, cidade onde habitualmente também reside, e autor de uma incontornável obra sobre o Portugal Contemporâneo. No próximo dia 1 de Julho, pelas 18,45, o escritor estará no Centro Histórico de Gaia no World of Wine no lançamento de um álbum fotográfico intitulado Douro, para o qual fez um dilatado prefácio.


Centenário do Marquês de Soveral

No próximo dia 5 de outubro decorrerá a data do centenário da morte de Luís Maria Pinto de Soveral, nascido em São João da Pesqueira a 28 de maio de 1851, o diplomata que ficaria conhecido como Marquês de Soveral. Sendo um dos Vencidos da Vida, e enquanto embaixador em Inglaterra e Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Portugal, amigo e superior hierárquico de Eça de Queirós, mereceu já à Confraria Queirosiana diversas ações evocativas em colaboração com o Município de São João da Pesqueira, a Associação dos Amigos de Pereiros e a APHVIN/GEHVID – Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho. Assim a 22 de outubro de 2005 a Confraria organizou com a colaboração daquelas duas primeiras entidades e da Cooperativa Agrícola de S. João da Pesqueira, uma visita a esta vila duriense que incluiu uma sessão evocativa no salão nobre da autarquia com a presença de muitos confrades que ali se deslocaram, durante a qual J. A. Gonçalves Guimarães proferiu a palestra «Um “Vencido da Vida” – Notas biográficas sobre Luís Pinto de Soveral (marquês de Soveral, 1853-1922)», depois publicada na Revista de Portugal, n.º 3, 2006, p. 22-36. O ano de seu nascimento aparecia então errado em vários escritos biográficos, o que depois será corrigido pela documentação consultada. Na sequência desta ação, o presidente da Câmara, Eng.º António José Lima Costa propôs à Confraria a organização de uma biografia atualizada do ilustre diplomata, a qual, após várias semanas de trabalho no arquivo do Paço Ducal de Vila Viçosa, onde se guarda o seu espólio, tal deu origem ao livro Marquês de Soveral Homem do Douro e do Mundo. Son of the Douro Man of the World, também da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães, edição bilingue com tradução para inglês de Karen Bennett promovida pelo Município de São João da Pesqueira e as Edições Gailivro em 2008, o qual foi lançado na Vindouro desse ano no Museu Eduardo Tavares, com a presença do presidente da edilidade já referido e da saudosa vice-presidente Prof.ª Maria do Céu Beires, aí apresentado pelo Prof. Doutor António Barros Cardoso da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e cuja recensão foi depois publicada na Revista da Faculdade de Letras. História. Universidade do Porto, III série, volume 10, Porto, 2009, p. 205-207. Ainda por convite do Município de São João da Pesqueira, o autor apresentou o livro num programa da RTP sobre o Douro, e em dezembro seguinte a Gailivro promoveu também a sua apresentação na Casa Barbot em Vila Nova de Gaia. No ano seguinte o autor esteve presente a 29 de março no «XVIII Colóquio de História Militar. Política Diplomática, Militar e Social do Reinado D. Carlos no centenário da sua morte», que se realizou no Palácio da Independência em Lisboa, organizado pela Comissão Portuguesa de História Militar, onde apresentou a comunicação «D. Carlos e o Marquês de Soveral: o Soberano e o Diplomata» publicada nas respetivas Actas. A convite da APHVIN/GEHVID, a 29 de março de 2012, o autor apresentou ainda o tema deste seu livro na Biblioteca Municipal de Peso da Régua e a 30 de maio de 2013 na Universidade Lusófona no Porto.

          Mais recentemente, o autor daquela obra gravou para os serviços da autarquia pesqueirense um videofilme sobre a vida o obra do Marquês de Soveral destinado a divulgação nas escolas e junto da população em geral.

Na sequência destas atividades já desenvolvidas em volta da evocação desta figura maior da diplomacia portuguesa do século XIX, a Associação dos Amigos de Pereiros (São João da Pesqueira)  e os Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana decidiram propor ao município pesqueirense a realização de umas comemorações do seu centenário com início em dezembro próximo e o seu prolongamento durante um ano com diversas ações cívicas e culturais.

Academia Alagoana de Letras      

Encontram-se concluídas as obras na sede da Academia Alagoana de Letras, que foi assim devolvida ao seu antigo esplendor arquitetónico, mas também às novas funcionalidades que os nossos tempos exigem. A centenária instituição brasileira continua pois com mais fulgor a acolher diversos eventos culturais, preparando neste momento a 3.ª Festa Literária da Barra de S. Miguel, Alagoas, que terá lugar entre 14 e 18 de setembro próximo. Entretanto seu presidente Alberto Rostand Lanverly publicou recentemente uma sua crónica intitulada “Festas Juninas” onde descreve como Santo António, São João e São Pedro se sentem em casa quer seja em Lisboa, em Gaia, em Alagoas ou em muitas outras terras onde se festeja o solstício de verão na língua de Camões.

Confraria da Broa de Avintes

          Hoje, dia 25 de junho, decorrerá em Avintes, Vila Nova de Gaia, o XXIV capítulo da Confraria da Broa de Avintes, comemorativo dos seus 25 anos de existência. O programa decorrerá na sede dos Plebeus Avintenses com a insigniação de novos membros. A Confraria Queirosiana far-se-á representar por vários confrades.

Conferências e palestras

          Lembrando o Bicentenário da Independência do Brasil, no próximo dia 30 de junho, quinta-feira, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, entre as 18,30 e as 19,30, presencial e por videoconferência, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «A Serra do Pilar e o coração de D. Pedro IV».

Revistas

No próximo sábado dia 2 de julho, pelas 17 horas, no Solar Condes de Resende, serão lançados os números 08 e 09 da revista Douro. Vinho História e Património. Wine History and Heritage, editada pela Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinhos (APHVIN/GEHVID), os quais ainda não tinham sido apresentados a público devido às hesitações da pandemia. Apresentados pelo presidente da direção daquela associação, Prof. Doutor António Barros Cardoso (e também autor de estudos aqui publicados), entre os diversos trabalhos de autores portugueses e estrangeiros encontram-se os de Cristiana Borges Ferreira, J. A. Gonçalves Guimarães e Nuno Resende. A sessão será abrilhantada com uma atuação dos Eça Bem Dito, grupo coral da ASCR-CQ.

 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 166, sábado, 25 de junho de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: