quinta-feira, 24 de março de 2016

Eça & Outras, sexta-feira, 25 de março de 2016

A Confraria dos Carolas Agrícolas do Norte

Tem-se geralmente vindo a considerar que as confrarias gastronómicas e enófilas são um fenómeno recente de sociabilidade portuguesa, posterior aos anos oitenta do século passado. Se tal, de um modo geral, é verdadeiro, vamos demonstrar que houve exceções. Sendo certo que entre nós as confrarias religiosas remontam à Idade Média e que em muitas das suas ações será difícil distinguir o âmbito religioso do profano, o que é certo é que, antes da laicização da sociedade a partir da Revolução de 1820 e da influência maçónica consequente, elas reportavam-se sempre a uma invocação religiosa e existiam alojadas numa igreja ou capela. Este argumento existiu mesmo até 25 de abril de 1974, pois foi ele que, invocado pelo governo civil de então como representante distrital do Estado Novo, impediu a legalização da Confraria do Vinho do Porto antes daquela data. Ainda nos anos sessenta, procurando contornar aqueles impedimentos, constituiu-se em Lisboa a Colegiada de são Martinho, a primeira associação báquica portuguesa. As atualmente existentes remontam todas ao período de democratização da sociedade. Só em França havia então dezenas de confrarias báquicas sob a denominação de confrairies, ordres, compagnons, e outras.
Mas em Portugal nem sempre fora assim: durante a Primeira República constituíram-se algumas confrarias laicas, encerradas ou desaparecidas após 28 de Maio de 1926, à exceção da Confraria dos Carolas Agrícolas do Norte, fundada nos anos trinta no Solar Condes de Resende, por Karl Frithiof Waldemar Löfgren, um sueco então aí residente, radicado em Portugal desde o começo do século XX. O mais curioso, e então provavelmente ignorado, é que nesta mesma Casa, no colapso da Liga Patriótica do Norte, esteve para existir uma «organização de amigos, a Ordem dos Mateiros…» fundada por Antero de Quental, com a imediata adesão de Eça de Queirós e do Conde de Resende [D. Manuel de Castro Pamplona, seu futuro cunhado] «que logo se ofereceu para mandar erguer o mosteiro, nas suas terras de Canelas ou de Resende» (MÓNICA, Maria Filomena (2001) – Eça de Queiroz, 4ª edição. Lisboa: Quetzal, p. 279/280).
O fundador desta outra confraria foi um homem deveras singular: de religião protestante, monárquico convicto e fisioterapeuta, em 1909 era proprietário do Instituto Mecanoterápico do Porto onde ministrava sessões de massagem e ginástica médica. Em 1912 foi delegado do Comité Olímpico sueco para a promoção na Península Ibérica dos jogos de Estocolmo. Em 1918 era gerente da Grand Pension de Nort, na praia da Granja em Vila nova de Gaia. Em 1926 é representante no Porto da Sociedade SKF Limitada, vendedora dos célebres rolamentos. Em 1930 residia na Quinta da Paradela em Pedroso, onde promovia «demonstrações de moderna cultura mecânica», precedidas de notáveis almoços frequentados pelos seus numerosos amigos, incluindo os párocos católicos da região. Com o seu amigo e indefetível republicano dos Carvalhos, Manuel Rodrigues dos Santos Costa, em 1932 funda o Sindicato Agrícola de Pedroso, que promovia a cultura do milho e um concurso de maçarocas, com o qual se apresenta, vestido de «agricultor português» à frente de um grupo de Padeiras de Avintes devidamente trajadas, no cortejo de abertura da Exposição Colonial de 1934, que teve lugar no Palácio de Cristal no Porto, comissariada por Henrique Galvão. O sindicato viria a ser dissolvido a 15 de dezembro de 1940 com apresentação pública de contas.
Em 1935 já residia no Solar dos Condes de Resende, datando daí em novembro desse ano uma comunicação intitulada «Alguns alvitres para fomento de Turismo no Norte de Portugal» apresentada em 1936 no I Congresso Nacional de Turismo, realizado em Lisboa, onde preconizava várias medidas para atrair turistas nórdicos ao noroeste do país e à Madeira, fixando-os temporariamente nos hotéis, mas também através do turismo rural e de habitação, propondo-se para tal constituir uma empresa em nome individual.
Deverá datar destes anos e da sua permanência nesta Casa a ideia da constituição da Confraria dos Carolas Agrícolas do Norte, a qual a 2 de junho de 1945 celebrou o seu 100º almoço mensal no restaurante Lusitânia na Rua do Bonjardim n. 383, na cidade do Porto, tendo na ocasião sido entregue ao fundador um pergaminho assinado por todos os presentes, cerca de cinquenta comensais, com uma capa de veludo bordeaux com uma artística placa em latão decorada com espigas e cachos de uvas e a legenda gravada: «AO/TIO WALDEMAR PEDROSO/LEMBRANÇA DOS CAROLAS AGRÍCOLAS/2 JUNHO 1945», sendo no documento a associação designada por «Velha Confraria dos Carolas Agrícolas», tendo então sido conferido o grau de «Carola-Mor da Agricultura Nortenha» a este «cidadão sueco-português …pela esclarecida e incansável tenacidade que tem posto ao serviço da lavoura de Portugal». De entre os presentes, que assinaram o documento, destaque-se a presença de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que viria a ser o fundador da Reserva Ornitológica de Mindelo; Mário Kol d’ Alvarenga, formado pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e editor dos quinze volumes da Obra de Eça de Queirós do centenário, também co-fundador do Sindicato Agrícola de Pedroso; e Exequiel de Campos, antigo ministro da Agricultura e professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
Tendo também vivido posteriormente na Quinta do Mosteiro de Pedroso, sobre si próprio escreveu: «Tive bons professores e mentores, ensinaram-me a… ter principalmente três aspirações para poder viver feliz: boa saúde, bons amigos e trabalho bem remunerado». Aspirações de um verdadeiro confrade.
Casou com D. Emília Jesus Figueiredo Löfgren, tendo deixado descendentes que ainda hoje vivem em Vila Nova de Gaia. Jaz sepultado no Cemitério Novo de Pedroso, Vila Nova de Gaia.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Vida associativa

FPCG
          No passado dia 11 de março decorreu no Museu da Enguia na Murtosa a assembleia geral ordinária da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, tendo a Confraria Queirosiana sido representada pelo presidente da direção, Prof. Doutor José Manuel Tedim.

ASCR-CQ
         No próximo dia 30 de março irá ter lugar no Solar Condes de Resende a assembleia geral ordinária para análise do relatório e contas referente ao ano de 2015. Paralelamente decorrerá a assembleia geral eleitoral para os corpos gerentes do mandato 2016/2020, decorrente da última revisão de estatutos. A direção cessante apresenta ao ato eleitoral uma lista com os seguintes candidatos: mesa da assembleia geral – presidente, César Fernando Couto Oliveira; secretários, José António Martin Moreno Afonso; Nuno Miguel Resende Jorge e Mendes; suplentes, Henrique Manuel Moreira Guedes e António Manuel Lacerda Vieira; direção - presidente, José Manuel Alves Tedim; vice-presidente, Luís Manuel de Araújo; secretário, Joaquim António Gonçalves Guimarães; tesoureira, Amélia Maria Gomes Sousa Cabral; vogais, Carlos Alberto Dias de Sousa; Susana Maria Simões Moncóvio e António Pinto Bernardo; suplentes, José Manuel de Carvalho Ribeiro e Manuel Guimarães da Fonseca Nogueira; conselho fiscal - presidente, Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa; secretário, Pedro Almiro Neves; relator, Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro; suplente, Laura Cristina Peixoto de Sousa. A tomada de posse será imediata ao encerramento do ato eleitoral.

FAMP
         No dia 9 de abril vai realizar-se no Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, a assembleia geral da Federação dos Amigos dos Museus de Portugal, da qual os Amigos do solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana são membros, a que se seguirá, depois de almoço, uma visita guiada ao museu.

Livros, revistas & jornais

Eça reeditado
         A editora Guerra e Paz acaba de pôr no mercado uma nova edição de “A Cidade e as Serras”, a obra póstuma de Eça em que este se mostra dividido entre o Portugal tradicional e campesino e os destinos cosmopolitas de alguns dos seus cidadãos mais afortunados. A reler sempre com encantamento.

Rentes de Carvalho no Correio da Manhã
         A partir de 25 de março J. Rentes de Carvalho passa a assinar todas as sextas-feiras uma crónica semanal no jornal Correio da Manhã intitulada “Mata-Bicho”, escrita com toda a liberdade pelo autor de O Meças.

Edições da Póvoa de Varzim



A Câmara Municipal de Póvoa de Varzim acaba de editar o livro “Luís Rainha. Um Poveiro Memorável (1915-2012)” coordenado por Manuel Costa, coedição da autarquia e da Fundação Dr. Luís Rainha, sobre a vida, obra e escritos desta figura incontornável da Póvoa do século XX.
Entretanto a Roma Editora publicou mais um volume da “Obra Selecta. Tomo II – Religião política e Sociedade, vol. II” do Professor Doutor João Francisco Marques nosso confrade falecido em 2015, o qual reúne mais um conjunto de textos notáveis deste antigo docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nomeadamente os sobre as minorias religiosas em Portugal

Os Tempos e os Sinais




No próximo dia 6 de abril será apresentado por Isabel Ponce de Leão no Café Guarany no Porto o novo livro de poesias de Maria Virgínia Monteiro intitulado “Os Tempos e os Sinais”.

Palestras & colóquios

Encontros com a Arte
         A partir de 6 de Abril, na sede da Associazione Socio-culturale Italiana del Portogallo Dante Alighieri no Porto, vai decorrer um curso sobre a pintura italiana de Giotto a Tiepolo, ministrado pelo Prof. Doutor José Manuel Tedim, às quartas-feiras entre as 18.30 e as 19.45 horas A frequência implica inscrição prévia.

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios
         No próximo dia 16 de Abril o Solar Condes de Resende, em colaboração com o Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana, vai promover um colóquio a partir das 15 horas integrado naquelas comemorações promovidas em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, este ano subordinadas ao tema “Desporto um Património Comum”, sendo palestrantes: J. A. Gonçalves Guimarães sobre “O apoio de uma empresa de Vinho do Porto (Casa Ramos Pinto) ao Desporto em Portugal e no Brasil”; Licínio Santos sobre “ A História do movimento associativo em torno do Desporto em Vila Nova de Gaia”; Maria de Fátima Teixeira sobre “O Campo de Jogos Comendador Pimenta da Fonseca (Lever), e David Guimarães sobre “Jogos Olímpicos: guerra entre nações, paz entre os homens”. A entrada é livre.

Artes

Prémio Dr. Vasco Valente
         A empresa vinícola Quinta do Vale Meão, através do Círculo Dr. José de Figueiredo – Amigos do Museu Nacional de Soares dos Reis, promove o Prémio de Artes Decorativas Dr. Vasco Valente, no valor pecuniário de 2.500 euros destinado a galardoar um trabalho, inédito ou não, sobre aquela temática.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 89 – sexta-feira, 25 de março de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ;
IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Eça & Outras

Quinta do Vale Meão, de Francisco Javier de Olazabal
        Acaba de aparecer nos escaparates das livrarias a obra “Quinta do Vale Meão”, sobre esta emblemática propriedade do Douro Superior, da autoria de Francisco Javier de Olazabal. Situada na encosta nascente do expressivo meandro do Rio Douro que começa perto da estação ferroviária do Pocinho, prolonga-se até às suaves encostas em frente da foz do Rio Sabor, na área do Douro Vinhateiro classificada como Património Mundial pela UNESCO e bem perto de outra área com igual classificação, a do Vale do Côa e a sua Arte Paleolítica. Ou, se preferirmos, na Região Demarcada do Douro, sub-região do Douro Superior, concelho de Vila Nova de Foz Côa. Os seus terrenos são constituídos pelas principais formações geológicas da região, granitos, xistos e aluviões, o que não só lhe carateriza o suporte geomorfológico como lhe determina a excelência da sua produção vinícola e olivícola.
A Quinta é deslumbrante em qualquer época do ano, quer seja vista a partir da estrada ribeirinha que corre em frente, do outro lado do rio na sua margem direita, quer vista das alturas das suas cotas mais elevadas, de onde se podem apreciar, quase que diríamos em casamento perfeito, os vinhedos, os olivais, os edifícios e o seu enquadramento e, nas encostas, as matas de zimbros, carrascos e carvalhais, para além de uma vegetação arbustiva e herbácea luxuriantes, sobretudo na primavera, por entre os quais esvoaçam borboletas e pássaros multicores e se escondem perdizes, coelhos, javalis e outras espécies cinegéticas mantidas em harmonioso equilíbrio biológico.
Se nos parece geograficamente óbvio o nome de Quinta, aqui também se encontram alguns interessantes microtopónimos, um dos quais é conhecido em todo o mundo, mesmo por quem não lhe conhece a origem, Barca Velha, pedaço desta propriedade e grande adega e lagar que deram o nome a um dos mais famosos vinhos de mesa, hoje comercializado por outra empresa, como se conta neste livro. Outros têm incidência totémica regional, como Senhora da Veiga, nome de capela e invocação antiga em que ainda a população das redondezas se revê e peregrina na festa anual.
O Meão tem ocupação desde a Pré-história e aqui se teria localizado a paróquia suévica de Cantabriano, reminiscência da primazia cristiana neste assento dependente da efémera diocese de Caliábriga, muito antes de D. Dinis honrar a sua vila nova de Foz Côa. Ao longo da Idade Média o território ora foi administrado a bem pelo concelho da Torre de Moncorvo e pelo de Numão, o que acentuaria a denominação de Meão no sentido administrativo de meeiro, ora foi fonte de litígios e por isso tal situação viria a ser regulada por D. Afonso III em 1273, ficando tal consignado no foral de Vila Nova de Foz Côa de 1299. Já na Época Moderna os rendimentos da igreja de Santa Maria da Veiga ainda são importantes para a diocese de Lamego, devido às produções locais de cereais, azeite e vinho, enquanto os moradores das redondezas aí mandavam apascentar os gados ovino, caprino e bovino, extraíam lenhas e caçavam javalis, corços e outras espécies cinegéticas.
Após a implantação do regime liberal acelera-se o processo de alienação dos baldios que teve início no tempo do Marquês de Pombal. Em 1877, Francisco José da Silva Torres, segundo marido de D. Antónia, compra os primeiros hectares da encosta leste do Monte Meão, a que se seguiriam outras licitações que viriam a dar a Quinta do Vale Meão.
Sobre a história da família Ferreira, e de como ela aqui chegou e se fixou, temos neste livro uma clara descrição quase épica, pois tal foi fruto do conhecimento do terreno, das vicissitudes do tempo, da qualidade das pessoas e da sua capacidade de antecipação do futuro, condições que, quando conjugadas com acerto, fazem a felicidade dos investidores, a bonomia dos gerentes, o salário dos trabalhadores, a alegria dos povos, dando a cada grupo a clareza do traço branco orientador na estrada negra da vida. E se a saga da família é hoje conhecida e tida como um esteio fundacional do Património Mundial em que o Vale do Douro se tornou e vai crescendo, o percurso pessoal e coletivo deste seu ramo atual, a família Olazabal, continua aquele desígnio fazendo desta Quinta um destino que, parecendo estar traçado desde há muito, poderia ter saído gorado se não fosse a experiência, a sagacidade, aquele espírito de aventura em que se verificam primeiro as madeiras do galeão antes da partida, para aguentarem as tempestades e as calmarias do projeto. O aprender com o passado tendo a perceção do futuro, essa sua determinação, é o que nos conta o autor na primeira pessoa, como já o terá feito muitas vezes no terraço ou à lareira da Casa do Vale Meão a muitos dos seus amigos.
Depois dos primeiros dois capítulos sobre o passado e o presente, e como eles se harmonizaram num fado de renovação, o autor apresenta-nos com clareza os resultados, a produção dos seus vinhos e azeites, todos de altíssima categoria, todos eles de referência, todos eles já míticos ainda que não há muitos anos presentes nas frasqueiras mais nobres e nas mesas mais deliciadas. O comer e o beber são apenas um dos sete prazeres da vida e não há dúvida que estes produtos aí estão para de tal nos lembrarmos.
Essa excelência passou mesmo já para a Literatura, pois no seu recente romance Mentiras & Diamantes, J. Rentes de Carvalho põe um dos protagonistas a exclamar quando passa em frente desta quinta: «Fazem ali os vinhos que lhes invejo e gostaria de fazer. Mal é que nem o chão do Algarve é o do vale do Douro, nem eu tenho tanto saber. Ao pé deles sou vinhateiro amador» (p. 230).
Se é certo que estes vinhos e azeites são o fruto de uma longa cadeia de saberes, que hoje passam pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e pela compreensão do mundo global que os povos ibéricos começaram a propor no século XVI, são também o resultado do diálogo contínuo com um território muito sui generis que ali está há milhões de anos e cujas potencialidades importa conhecer, pois elas concentram-se em cada bago de uva, em cada azeitona, depois de passarem pelas humanas afeições agrícolas.
Organizado pela Confraria Queirosiana e com design de João Machado, trata-se de um livro proveitoso, informativo, apresentado com uma organização que não é vulgar, antes parecendo uma sinfonia de três andamentos: a saga familiar, o testemunho pessoal, a apoteose final. A sua leitura deverá ser feita degustando um copo de vinho e ouvindo em fundo uma sinfonia de Luís de Freitas Branco ou de Joaquin Rodrigo, esses sons hispânicos que tão bem emolduram esta realidade que a ibericidade dos Olazabal leva do Vale Meão do Douro a todo o mundo. Estará assim esta leitura muito bem acompanhada.
J. A. Gonçalves Guimarães

Dr. Américo Oliveira

No passado dia 31 de janeiro faleceu, após doença prolongada que enfrentou com notável estoicismo, o nosso confrade Dr. José Américo Morais de Oliveira, nascido em Avintes, Vila Nova de Gaia, em 1944. O ilustre finado era licenciado em Geografia e pós-graduado em Estudos Locais e Regionais pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, deixando publicadas diversas monografias, de que se destaca “Montemuro, a última rota da transumância”, obra notável sobre o pastoreio na Beira Alta e Beira Douro, que foi distinguida com o Prémio Ford em 2000, além de muitos outros artigos nas mais diversas publicações. O funeral decorreu no dia 2 de fevereiro da igreja paroquial de Vilar de Andorinho para o cemitério de Avintes.         

Livros & Revistas

“História de Baião”, de Lino Tavares Dias
          No passado dia 6 de fevereiro, na Câmara Municipal de Baião, com a presença do ex-presidente da autarquia e atual Secretário de Estado das Comunidades, Dr. José Luís Carneiro, de muitos convidados, entre os quais dirigentes, sócios e confrades da Confraria Queirosiana, e do autor, Prof. Doutor Lino Augusto Tavares Dias, arqueólogo de Tongobriga e diretor do ISPGaya, foi lançado o terceiro volume da coleção “Em torno de Baião: contributos para a História Económica e Social de Baião”, intitulado “ Baião- Em Torno do Ano Zero”, o qual aborda a romanização da área em que se insere o atual concelho.
      Já em dezembro passado tinha sido lançado o segundo volume intitulado “Baião – Em Torno de 1800 – 1910” da autoria do Prof. Doutor Jorge Fernandes Alves, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, igualmente autor de um outro volume a lançar proximamente.          

“Telheiras”

Propriedade do Centro Cultural Eça de Queiroz, Escola Secundária Eça de Queirós e Centro Cultural de Telheiras (Lisboa), dirigida por Fernando Andrade Lemos e José António Silva, acaba de ser publicado o n.º 8 da 2ª série da revista Telheiras Cadernos Culturais, com 462 páginas de diversificada colaboração, de que destacamos os artigos dos nossos confrades, de Fernando Andrade Lemos «Uma figura de Telheiras. A condessa de Linhares» (em colaboração); «O portal manuelino da Fonte da Senhora da Luz – Reflexões várias» (em colaboração) e «(In)Consciente(s) na Literatura»; e de César Veloso «Quando a Poesia também é notícia – na morte de Manuel de Barros».


“Dicionário de Eça de Queiroz”, de A. Campos Matos
         No pré-programa do festival literário Corrente d’Escritas, na Póvoa de Varzim, foi lançado no passado dia 23 de fevereiro na fortaleza de Nossa Senhora da Conceição o “Dicionário de Eça de Queiroz” de A. Campos Matos, nova edição revista e aumentada editada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, aí apresentada por Isabel Pires de Lima, com a presença do autor. Na circunstância foi também divulgado que a Biblioteca e o espólio queirosianos de sua propriedade, quase de certeza o maior acervo bibliográfico e documental eciano do mundo, ficará depositado no município poveiro, terra da naturalidade do escritor e do seu maior investigador atual, que trabalha já noutras obras a publicar, nomeadamente uma nova edição de “Eça de Quieroz. Uma Biografia”. Entretanto no Museu Municipal abriu no passado dia 13 de fevereiro uma exposição intitulada “A Póvoa de Varzim no século XIX”, a qual estará aberta ao público até ao dia 2 de janeiro de 2017.

“O Meças” de J. Rentes de Carvalho
       
No dia 4 de março aparecerá na FNAC à venda a mais recente obra de J. Rentes de Carvalho, intitulada “O Meças”, a qual, para além de um estupefaciente enredo sobre a perversidade humana na versão portuguesa, creio que virá a destronar definitivamente o boçal e analfabruto Zé Povinho oitocentista como “símbolo do povo Português” (?!), substituindo-o pelo seu bisneto António Roque, emigrante na Alemanha regressado à sua aldeia, um pouco mais letrado e viajado que aquele é certo, mas que, por isso mesmo, muito mais dado a diabolizações, ódios, memórias pesadas com as quais quer ajustar contas, capaz de ações violentas, crimes paradoxais, monstruosidades, daquelas que nos infernizam os noticiários televisivos com acontecimentos tão estúpidos quão inúteis, mas que fazem as delícias dos domésticos, dos jornalistas, dos polícias, dos psicólogos, das assistentes sociais, dos politicólogos, das cartomantes e tutti quanti. Ao ler esta nova obra da mão de mestre do maior escritor dos nossos quotidianos portugueses, que já nem folclóricos são, limpamos o espelho onde nos poderemos ver, se possível esquecendo a esbotenada moldura do autoconvencimento.

“Vinho Verde”       
No próximo dia 5 de março será lançado no Auditório da Caixa de Crédito Agrícola do Noroeste em Viana do Castelo o n.º 1 da revista “ Vinho Verde – História e Património – History and Heritage”, editada pela APHVIN/GEHVID, a qual apresenta diversos estudos de geografia e história sobre este vinho e a região produtora, nomeadamente o artigo “A exportação de Vinho Verde pelas empresas exportadoras de Vinho do Porto: o caso da Casa Ramos Pinto”, da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães e Graça Nicolau de Almeida.


 “Oitentações”, de César da Fonseca Veloso
No próximo dia 12 de março o nosso confrade Dr. César da Fonseca Veloso, habitual colaborador da revista Telheiras, vai lançar o seu novo livro “Oitentações”, publicado por Chiado Editora, no Chiado Clube Literário & Bar no Fórum Tivoli à Avenida da Liberdade em Lisboa, pelas 16 horas. A obra será apresentada por Rui Aires, e enquadrada por momentos de poesia e música.

Palestras e colóquios
Curso do Solar
            Prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre sobre “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos)” ministrado pelos mais recentes investigadores profissionais sobre os temas apresentados: no próximo dia 27 de fevereiro José Manuel Lopes Cordeiro falará sobre “A Ponte Maria Pia” e no dia 5 de março, no encerramento do curso, José Alberto Rio Fernandes falará sobre “A Avenida dos Aliados no Porto”.

Palestras das últimas quintas-feiras
            Com habitualmente, na última quinta-feira de fevereiro, hoje dia 25, pelas 21,30 horas da noite, decorrerá no Solar Condes de Resende mais uma palestra organizada pela Confraria Queirosiana, desta vez sobre o tema “ O Património Arqueológico gaiense e a sua gestão” pelo arqueólogo António Manuel S. P. Silva. No próximo mês de março, dia 31, falará J. A. Gonçalves Guimarães sobre “ O que é um gaiense? A propósito das Personalidades Ilustres como Património Humano local”. Ambos os palestrantes são coordenadores de temas no projeto em curso do levantamento, edição e divulgação do Património Cultural de Gaia, trabalhado pelo Gabinete de Historia, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana e patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Fórum Avintense
Nos dias 26 e 27 de fevereiro decorre na Junta de Freguesia de Avintes, Vila Nova de Gaia, o 26º Fórum Avintense, organizado pela autarquia local com a colaboração da Confraria da Broa de Avintes, este ano tendo como tema o Associativismo, sobre o qual serão apresentadas diversas comunicações por confrades queirosianos: “ O Cooperativismo de Crédito e Consumo em Vila Nova de Gaia (1893 – 1914): a Cooperativa de Crédito e Consumo Instrutiva de Avintes”, por Licínio Santos, e “Karl Frithiof Waldemar Löfgren, criador do Rancho Folclórico das Padeiras de Avintes e da Confraria Gastronómica dos Carolas do Norte”, por J. A. Gonçalves Guimarães.

Associativismo
            No passado dia 5 de fevereiro o MCG (Movimento de Cidadãos por Gaia), na comemoração do seu 5.º aniversário, organizou no teatro d’ Os Plebeus Avintenses a sua 16ª Conferência/Debate sobre “Cultura, Associativismo e Cidadania”, em que foi moderador J. A. Gonçalves Guimarães, secretário da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, tendo sido intervenientes sobre o tema, César Oliveira, na sua qualidade de presidente da Associação das Coletividades de Gaia, e o Dr. Delfim de Sousa, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
            No próximo dia 27 de fevereiro, pelas 15 horas da tarde, abrirá ao público na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia a exposição “Cultura e Associativismo” realizada pelo MCG com a colaboração desta instituição e da Associação das Coletividades Gaienses, estando aí representada a Confraria Queirosiana.

Esculturas

Bustos de Hélder de Carvalho

Hélder de Carvalho e j. A. Gonçalves Guimarães

No passado dia 23 de fevereiro foram inaugurados no átrio principal do novo edifício do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto pelo seu diretor, Professor Doutor António Sousa Pereira, os bustos dos Professores Nuno Grande e Corino de Andrade, da autoria de Hélder de Carvalho, estando presente a comunidade académica. Este escultor tem vindo a imortalizar no bronze figuras vivas, ou recentemente falecidas que enriqueceram o nosso quotidiano.




Roteiros queirosianos

Hotel Lawrence’s

         Localizado em Sintra e tendo iniciado a sua atividade em 1780, o Hotel Lawrence’s é um dos mais antigos da Europa. Nele se hospedaram muitas personalidades célebres, como Lord Byron em 1809, e Eça de Queirós em 1887, que fez dele, e da sua envolvência, o cenário de passagens de “A Tragédia da Rua das Flores”, de “Os Maias” e de “Alves & C.ª”, a ele também se referindo na sua “Correspondência”. É no Lawrence’s que acontece o célebre jantar de “bacalhau à Alencar”, que juntou três amigos a comerem e beberem enquanto filosofavam e poetavam sobre o seu tempo. Em 1908 era sua proprietária D. Eugénia Lawrence Oram.
            Este hotel de referência acaba de ser adquirido por um confrade queirosiano que lhe quer manter e até ampliar a mensagem eciana, através da qual cada hóspede, em boa companhia, terá à sua espera o charme de Sintra, a paisagem, o hotel, o serviço, a cozinha e a adega referidas nas obras de Eça e de alguns outros escritores dos séculos XIX e XX, até ao nosso contemporâneo J. Rentes de Carvalho.

Viagem ao Antigo Egito e América Central
           
No corrente ano de 2016 o egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo vai guiar três viagens cujo tema é o Antigo Egito: a primeira decorre entre 23 de março e 5 de abril desde o Cairo até Uadi Es-Sebua , todo o Egito visitado em 1869 por Eça de Queirós e outros centros de interesse que hoje permitem compreender melhor esta civilização que perdurou por mais de 3000 anos; a segunda viagem decorrerá entre 21 e 28 de agosto entre Lyon, Grenoble, Turim e Milão visitando as mais fascinantes coleções egípcias dos museus da Europa e as cidades onde estes se localizam; a terceira, entre 27 de dezembro e 10 de janeiro, decorrerá na Guatemala, Honduras e México, em busca da civilização Maya e das suas semelhanças e diferenças com a civilização egípcia. Entretanto o mais recente livro daquele professor, intitulado “O Egito faraónico. Uma civilização com 3000 anos” está a tornar-se a referência bibliográfica primordial para estudantes de História Antiga e História da Arte, bem assim como para os viajantes que demandam o país do Nilo.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 88 – quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Eça & Outras


Sebastiões e Sebastianas

            Quando este texto for lido por vocelências já teremos o consumatum est da eleição do presidente da República para os próximos cinco anos, pelo que não corro o risco e a responsabilidade de estar a tentar influenciar as vossas decisões. Assim, durante um quinquénio, com possibilidade de renovação por outro tempo igual, vamos ter à frente do país um homem muito mais a prazo do que o foi o Mestre de Avis após a sua eleição como rei nas Cortes de Coimbra de 1385. Logo ser-lhe-á difícil propor idas a ceutas e outras aventuras, pois o eleito já vai herdar um país metido na aventura dos encobrimentos europeus, onde aliás nos meteram começando logo com a destruição das nossas precárias frotas de pesca e mercante, sobrando algumas fragatas de guerra ao serviço das novas armadas invencíveis, e obrigando-nos a comprar uns submarinos enquanto se espera que cheguemos a acordo sobre o que poderá vir a ser o nosso desígnio marítimo, hoje difícil num país que enjoou o mar no século XIX.
            Em democracia é assim: qualquer cidadão com o cartão válido e sem a justiça à perna a tentar cobrar-lhe nos dias que correm algum incumprimento não prescrito, acompanhado de mais sete mil e quinhentos distraídos que o achem medianamente simpático, ou mesmo iluminado, pode candidatar-se sem grandes custos do seu bolso ou pagos sabe-se lá por quem, e assim passar a expor as suas ideias para salvar a pátria de si própria, pois dos “outros” já se sabe quais são as regras, da geopolítica às finanças, do clima ao concerto global. Tivemos assim o convívio mediático com dez magníficos dez cidadãos despojados de todo o seu interesse pessoal, mas apostados em guindarem-se em nosso nome até ao assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, da UNESCO e da OTAN-NATO, quiçá do Vaticano ou da Associação dos Amigos do Pacífico, obviamente para além da sua assentadela na cadeira presidencial, a qual, ainda que republicana e temporária, tem algumas parecenças com um trono. Não pondo em causa a auto-sinceridade induzida destes D. Sebastiões e D. Sebastianas, o que além do mais seria manifestação de pouca consideração humana pelos seus mais íntimos sonhos ou pesadelos, continuamos a verificar que os portugueses são generosos em dar essa possibilidade a qualquer desconhecido, a de ele se alcandorar ao cargo cimeiro da pátria, mesmo a figuras que fizeram um percurso político tipo slalom gigante na montanha de neve das conveniências da política, escapando a várias avalanches ou mantendo-se congelados na persistência de um mundo que já só existe nos anais da História. Mas não nos podemos queixar de falta de diversidade, pluralidade e individualidade, em alguns casos de personalidades muito momentâneas, pois certamente nunca mais delas ouviremos falar. Se tal não for verdade, quererá dizer que além de generosos somos masoquistas e isso creio que continua a ser considerado desvio comportamental. Iremos então, durante um ou dois mandatos, ouvir o eleito falar da Constituição que temos, tetraneta da de 1822, mas muito mais gorda e miudinha na sua pose de texto fundamental, qual tia velhota e decrépita a que já falta o bom senso e o equilíbrio, pois cada vez que faz uma plástica, quando dois terços dos deputados estão acordados, fica pior. Reproduz-se depois em acórdãos do Tribunal Constitucional que, no essencial, dizem que quando chove é bom, mas que de vez em quando também convém um pouco de sol, ainda que só para alguns, como foi o caso das pensões vitalícias, leia-se bónus, prendas, “mais qualquer coisinha” para a viagem de fim de ano à Madeira, dos políticos e outros prebendados.
            Quanto à campanha, lá vimos a “senhora aparecida”, que aparece sempre que lhe pagam, os habituais gaiteiros e tamborileiros “celtas” do Porto, e uma ou outra velha raposa a farejar uvas maduras, os quais me criaram um problema: em alguns casos até poderia estar de acordo com o candidato, mas nunca, jamais, com alguns dos seus apoiantes mais mediáticos. Ora os primeiros, ou os seus diretores de campanha, deviam perceber que para os menos distraídos não vale tudo. Tivessem lido “A Procissão” de J. Rentes de Carvalho e veriam que nem sempre vamos nela. E, desculpando-me outra boutade cultural, dei por mim a lembrar-me de O Eleito de Thomas Mann, e de como as desgraças às vezes se transformam em glórias da nossa terra.
            Quanto à cruzada anti-corrupção, com a qual obviamente estamos todos de acordo, até porque os corruptos são os atuais “turcos” que ameaçam o império do ocidente, lembrei-me que convém não meter tudo no mesmo saco: em 1886, numa carta a Oliveira Martins, que cismou ser ministro e honesto, Eça de Queirós alertava para que o empenho, hoje a cunha, funcionava às vezes como «...o corretivo do bom senso público aplicado ao disparate oficial. Sempre que um Regulamento, saído dum antro burocrático, impõe ao público uma prática tola - o público coliga-se por meio do empenho, para lhe anular os efeitos funestos» (MATOS, Eça de Queiroz Correspondência, 2008-I:480). Ora eu não ouvi nenhum candidato ou candidata a insurgir-se, pelo menos de forma que se percebesse, contra os «disparates oficiais» saídos dos «antros burocráticos» que todos os dias nos pilham a conta bancária e a paciência, dando origem ao banho de corrosão do Estado sobre o cidadão, que acaba por ter a mesma origem, e não apenas linguística, que a tal corrupção que nos envolve.
Enfim, como escreveria o Eça, tivemos uma “Campanha Alegre”. Vamos ver qual será o IVA desta fatura.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor

Tomada de posse nos corpos Gerentes da FPCG
(fotog. FPCG)
Federação da Gastronomia Portuguesa

            No passado dia 15 de janeiro na cidade do Porto, no Salão Nobre do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, repleto de representantes das confrarias gastronómicas, enófilas e culturais, recebidas pelo seu diretor Manuel de Novaes Cabral, pelas 19 horas tomaram posse os corpos gerentes da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, a que se seguiu um jantar de confraternização no Hotel Porto Palácio. Na presidência permanece a Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal, liderada por Olga Cavaleiro, que na ocasião salientou a importância da comemoração do Dia Nacional da Gastronomia aprovado por unanimidade pela Assembleia da República, no anterior mandato, o qual terá lugar no domingo 29 de maio próximo.

Cursos

            Prossegue no Solar Condes de Resende o curso “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos)”: no próximo sábado, dia 30 de janeiro com o tema “O Estádio do Dragão como nova centralidade urbana do Porto” por Hélder Pacheco, a que se seguirá no dia 13 de fevereiro “A Torre e complexo dos Clérigos” por José Manuel Tedim e a 27 “A Ponte Maria Pia” por José Manuel Lopes Cordeiro. O curso encerrará no dia 5 de março com “A Avenida dos Aliados no Porto” por José Manuel Rio Fernandes.
            Em outubro terá início o 23º curso sobre “História Naval do Noroeste de Portugal”.

Palestras

            Prosseguem no dia 28 de janeiro as habituais palestras das noites de quinta-feira no Solar Condes de Resende, com o tema “O Património Cultural de Vila Nova de Gaia”, por J. A. Gonçalves Guimarães e no dia 25 de fevereiro sobre “Património Arqueológico de Gaia e sua gestão” por António Manuel S. P. Silva. Ambas estas palestras se inserem na problemática do Projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia em realização pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ).
            Entretanto, nos próximos dias 28 de janeiro no Porto, no Auditorium Tryvel às 18 horas, e no dia 11 de fevereiro em Lisboa, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, à mesma hora, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo orientará colóquios sobre “O Antigo Egito: uma viagem de 3000 anos”.

Revistas

           
Em várias revistas nacionais e estrangeiras são vários os confrades queirosianos que publicam artigos de investigação ou de divulgação de temas culturais ou científicos. Assim, enquanto que no jornal As Artes entre as Letras n.º 161, de 30 de dezembro passado, para além da edição em papel da página Eça & Outras, Guilherme d’Oliveira Martins escreveu sobre «A atualidade da obra de Eça», a propósito de edição do Dicionário de A. Campos Matos, e nesse mesmo número, Dominique Sire escreveu sobre «O Diário Íntimo de Carlos da Maia» deste mesmo autor, no número 162, de 13 de janeiro, Guilherme de Oliveira Martins escreve sobre «Viagens de Mandeville». Entretanto na revista Glosas n.º 13, de novembro passado, dedicada a Gilberto Mendes, J. A. Gonçalves Guimarães escreveu sobre «Os quatro músicos Napoleão» e no Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, n.º 81, referente a dezembro passado, de que é diretor Salvador Almeida e membro do corpo redatorial Virgília Braga da Costa, entre outros, publicaram artigos Maria de Fátima Teixeira «A indústria têxtil em Mafamude entre 1850 e 1950» e Salvador de Pinho Ferreira de Almeida «Vulnerabilidade a sismos e incêndios no município de Vila Nova de Gaia (1ª parte)».
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 87 – segunda-feira, 25 de janeiro de 2016; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.



sexta-feira, 25 de dezembro de 2015




Selos, cartas e postais

         Entre os dias 1 a 13 de dezembro decorreu no Solar Condes de Resende a FilexGaya 2015, mostra filatélica organizada pelo Clube de Colecionadores de Gaia, comemorativa dos 170 anos do nascimento de Eça de Queirós. Entre muitos outros aspetos e, entre eles talvez o mais duradouro, o Solar teve pela primeira vez um postal com a imagem do seu pátio de entrada também impressa num selo e obliterada com um carimbo próprio com o seu logótipo, ou seja um inteiro postal.
São conhecidas as representações queirosianas na Filatelia e na Macrofilia portuguesa e brasileira, através de selos, carimbos e inteiros postais, e da Cartofilia com a edição de vários postais que, de tempos a tempos, se vão acrescentando com novos espécimes que fazem as delícias dos colecionadores. Recordemos aqui os selos emitidos pelos Correios de Portugal e pelos do Brasil em 1995, e de novo pelos de Portugal no ano 2000.
Mas menos conhecida ainda será a atividade epistolográfica do escritor que se traduz já em cerca de mil cartas e algumas dezenas de postais publicados por A. Campos Matos, o que demonstra que Eça de Queirós foi um comunicador postal compulsivo ao longo da vida, tendo ainda em conta que nem sequer conhecemos toda a sua correspondência, pois uma boa parte dela terá ido para o fundo do mar, naufragada com o navio que trazia para Portugal uma parte dos seus pertences após o seu falecimento em Paris. Quantas cartas e postais se terão assim perdido irremediavelmente nessa desgraça. Por outro lado, de quando em vez, ainda aparecem cartas inéditas no espólio dos destinatários, já para não falarmos da sua correspondência oficial que deverá existir no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
            No Solar Condes de Resende, no arquivo que foi da família de sua mulher, também existem várias cartas, desde o século XVII até ao início do século XX, algumas das quais já publicadas, mas ainda não tratadas do ponto de vista Pré-filatélico ou Filatélico. Estão também nesse caso alguns outros núcleos documentais em fase de tratamento arquivístico, o espólio J. Rentes de Carvalho e o próprio arquivo do Gabinete de História, Arqueologia e Património.
            Por sua vez a autarquia gaiense possui notáveis coleções epistolares, como é o caso da correspondência entre Camilo Castelo Branco e o seu editor Eduardo da Costa Santos, pertencente à Coleção Marciano Azuaga e em depósito na Biblioteca Pública Municipal, já publicada e estudada por Alexandre Cabral. Também os arquivos pessoais de Teixeira Lopes, com cartas da mulher de Eça de Queirós e de Luís de Magalhães, algumas das quais o escultor publicou nas suas memórias, bem assim como o espólio epistolar de Diogo de Macedo, ambos existentes na Casa Museu Teixeira Lopes. Também muitas outras cartas em arquivos de empresas, instituições e de particulares, como o Arquivo Histórico A. A. Ferreira, cujo núcleo Hunt, Roope & Companhia deu origem ao artigo de Colin Lewis «Newfoundland–Oporto mail 1810-1865», na prestigiada BNATopics, vol. 61, n.º 4, outubro - dezembro de 2004, p. 5-33. Ou o Arquivo Histórico Adriano Ramos Pinto, com correspondência inédita com variadíssimas personalidades, sobretudo portuguesas e brasileiras, e uma fabulosa coleção de cartofilia, para além de tudo o mais que já tivemos oportunidade de publicar, com Graça Nicolau de Almeida, no livro Adriano Ramos Pinto Vinhos e Arte, 2013.
            As coleções epistolares são fundamentais para o entendimento da história universal, nacional e local e o seu estudo poderá um dia aclarar, por exemplo, as verdadeiras relações de Júlio Dinis com Grijó, as de Camilo com o Candal ou as de Adriano de Paiva, o inventor do princípio da televisão, com os físicos do seu tempo. Mas do ponto de vista Pré-filatélico ou Filatélico, elas poderão dar um enorme contributo para o estudo dos Correios em Portugal e das relações da Barra do Douro, e das duas cidades que a ladeiam, com o mundo, através do correio marítimo.
            Ao acolher esta iniciativa do Clube de Colecionadores de Gaia, apoiada pela autarquia e pela Confraria Queirosiana, o Solar teve em mente contribuir para uma maior divulgação da Filatelia e também da rentabilização cultural do seu espólio, enquanto vai acolhendo e divulgando o espólio alheio, partilhando assim a resplandecente luz do conhecimento de uma das mais nobres ocupações humanas que hoje está em rápida transformação: a comunicação postal que vence distâncias e abre portas de entendimento onde antes só havia os muros da distância, do desconhecimento ou da indiferença, substituídos por um possível entendimento através de um selo e um carimbo postal que assim autenticam essa relação, balizando-a no tempo e na história.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor
                                 

Natal de Oeiras
Dagoberto Carvalho Jr.
Chamavam-se “berços”
– de alecrim, andré-miúdo
e ingênua criatividade –
os presépios da minha infância,
cuja visitação era o Natal de Oeiras.
Antes das “árvores” que vieram de fora
e tomaram as salas,
colorindo-as de alegria alheia.
Lembro-me do que foi de Burane,
na Praça da Bandeira;
o de Dona Lourdes, na Rua do Norte;
o do Colégio das Irmãs,
em seu sobrado-convento,
antigo palácio dos presidentes da província.
O da casa de minha avó,
no Beco do Quartel,
tinha cama de madeira
porque o menino já era grande
e dormia de vestido de gesso.
Uma vez faltou luz elétrica.
 Demora-me a noite na memória,
como a lanterna vermelha que me levou
aos santos endereços da saudade.
Que nunca mais deixou de iluminar os meus Natais.
Natal de 2010


Sócios & Confrades

J. Rentes de Carvalho e esposa em Estevais do Mogadouro com delegação da Confraria Queirosiana
Rentes de Carvalho

         Foi recentemente publicado em De Gruyter – Ibero 2015:151-169 um artigo de Carlos Nogueira, da Universidade de Vigo, intitulado «Autobiografia, memória e tempo nos romances de J. Rentes de Carvalho», o qual pode ser visto em ielt.fcsh.unl.pt/notícias,1915, uma notável análise e síntese sobre a obra deste nosso confrade. Entretanto, para voltarem mais uma vez a confirmar que o escritor gaiense, durio-transmontano, holandês, europeu e felizmente ainda terráqueo existe mesmo, em carne, osso, mente e sagesse de vivre, no passado dia 20 de dezembro uma delegação da Confraria Queirosiana, composta por Maria de Fátima Teixeira, Susana Moncóvio e o autor destas linhas e da foto, deslocou-se a Moncorvo e a Estevais do Mogadouro para o cumprimentarem na companhia de sua esposa Loeckie, e ao mesmo tempo procurarem saber dos novos projetos literários, antes da sua próxima “fuga” para Amsterdam, por estrada, como sempre fazem. Na primavera sai novo livro em que Eça estará por detrás da sina migratória dos portugueses.

João Nicolau de Almeida

         No passado dia 16 de dezembro decorreu na Casa Ramos Pinto o habitual almoço de Natal, no qual estiveram presentes administradores e funcionários superiores da empresa, outras personalidades ligadas ao Douro e ao mundo dos vinhos, e o mesário-mor da Confraria Queirosiana, arqueólogo de Ervamoira. Na ocasião festejaram-se os quarenta anos de João Nicolau de Almeida como enólogo da marca e os vinte e cinco anos de sucessos do seu vinho “Duas Quintas”, tendo então sido anunciada pelo próprio a sua próxima passagem de testemunho na administração a Jorge Rosas. Novos desafios o esperam na empresa João Nicolau de Almeida & Filhos, e por isso aqui deixamos a este nosso consócio, glória da vitivinicultura nacional, os nossos votos de continuação de grandes sucessos, nomeadamente com o “Quinta do Monte Xisto 2013”.

Vida Queirosiana

Eça de Queirós em Coimbra

          Com a colaboração do jornal Público, terminaram no passado dia 4 de dezembro na Biblioteca Joanina as comemorações dos 725 anos da Universidade de Coimbra, que Eça de Queirós frequentou, e que tiveram como um dos seus momentos altos uma conversa entre os heterónimos Carlos Fradique Mendes e Bernardo Soares protagonizada pelos académicos Carlos Reis e Jerónimo Pizarro, no dia em que a brasileira Adriana Calcanhotto passou a ser embaixadora desta universidade. Entretanto o projeto Minha Língua, Minha Pátria, que o Público promoveu no Brasil, será também lançado em Portugal no próximo ano.

Prémio Fundação Eça de Queiroz

         Estão abertas as inscrições até ao dia 1 de Março próximo para os concorrentes a este prémio instituído pela Câmara de Baião e pela Fundação Eça de Queiroz, edição 2015/2016. Segundo o regulamento, podem habilitar-se os autores de textos sobre o universo literário de Eça de Queirós e/ou da Geração de 70, nas áreas dos estudos literários, estudos históricos, estudos culturais, estudos ecoliterários e outros. Consultar www.feq.pt/premio-feq-edicão-2015-2016.html

Projetos de investigação

Património Cultural de Gaia

Na sequência do protocolo firmado entre o Município de Vila Nova de Gaia, através da pessoa do seu presidente Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, e a Confraria Queirosiana, representada pelo seu presidente Prof. José Manuel Tedim, celebrado no passado dia 21 de novembro, o qual tem como objetivo o levantamento, análise e divulgação do Património Cultural de Gaia através da edição de 10 livros e outras ações complementares, decorreu no passado dia 11 de dezembro uma reunião geral na Casa da Presidência, à qual estiveram presentes muitos dos coordenadores e investigadores deste projeto. Sobre a importância do mesmo no contexto do programa cultural do município falou o presidente da câmara tendo definido as suas caraterísticas profissionais o coordenador geral J. A. Gonçalves Guimarães. No próximo dia 30 de dezembro decorrerá no Solar Condes de Resende a primeira reunião geral de coordenadores das áreas temáticas e, no dia 4 de janeiro, inicia os seus trabalhos a equipa de investigadores permanentes.

Equipa das ânforas

         No Solar Condes de Resende têm vindo a desenvolver-se uma série de estudos destinados a dissertações de mestrado e teses de doutoramento por um grupo de investigadores de arqueologia luso-espanhol orientados por Rui Morais, professor da FLUP e António Manuel Silva, do Gabinete de História; Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, com o contributo de Pedro Pereira do CITCEM (FLUP), os quais estão a analisar os milhares de fragmentos de ânforas encontrados em escavações arqueológicas em Vila Nova de Gaia desde os finais dos anos setenta do século passado, nomeadamente das estações do Castelo de Gaia, Monte Murado, Igreja do Bom Jesus de Gaia, Castelo de Crestuma e outras, tendo vindo a exponenciar a evidência das fortes e antigas ligações das povoações da margem esquerda do Rio Douro ao mundo mediterrânico. Para os distinguir de outros grupos de investigação que frequentam a Casa, o pessoal do Solar chama-lhes “a equipa das ânforas”.

Livros


O Egito Faraónico

            No passado dia 17 de dezembro foi lançado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa um novo livro de egiptologia de Luís Manuel de Araújo, intitulado O Egito Faraónico. Uma Civilização Com Três Mil Anos. O autor é professor naquela faculdade, investigador no seu Centro de História e secretário da sua revista Cadmo, e diretor da nova série da Revista de Portugal.

Aves de Portugal Continental

            No passado dia 15 de dezembro tinha sido lançado na Biblioteca Pública de Gaia o livro Aves de Portugal Continental, coordenado por José Frade e com prefácio de Nuno Oliveira, editado pela Almalusa.

Cursos e palestras

Cursos do Solar

            Entretanto prosseguiu no Solar Condes de Resende o curso livre sobre “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/ Porto/Matosinhos)” organizado pela Academia Eça de Queirós . Depois de no passado dia 14 de novembro José Manuel Tedim ter falado sobre “O Mosteiro da Serra do Pilar”, a 28 desse mês Luís Manuel Real falou sobre “A Sé do Porto”, a 5 de dezembro foi a vez de Henrique Guedes sobre “A Capela do Senhor da Pedra” e a 12 Joel Cleto sobre “O Mosteiro de Leça do Balio”.
            Seguem-se a 9 de janeiro as palestras sobre o “O Senhor de Matosinhos”, por José Manuel Tedim, a 17 “O Parque Biológico de Gaia e outros parques”, por Nuno Oliveira e a 31 “A Torre e o complexo dos Clérigos”, de novo por José Manuel Tedim. Prosseguindo depois em fevereiro, terminando a 6 de março.

Palestras do Solar

            Devido aos festejos da quadra natalícia e de fim de ano não se realiza no Solar este mês de dezembro a habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, sendo retomadas no dia 28 de janeiro com o tema “O Património Cultural de Gaia” por J. A. Gonçalves Guimarães.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 86 – sexta-feira, 25 de dezembro de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho J.or