sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil 

Capítulo da Confraria Queirosiana

XX Capítulo – novos confrades e respetivos padrinhos

            No passado dia 19 de novembro, sábado anterior ao dia de aniversário de Eça de Queirós que ocorre a 25 de novembro, como vem acontecendo desde 2003, e com uma boa aberta neste tempo chuvoso, decorreu no Solar Condes de Resende em Vila Noa de Gaia o XX.º capítulo anual da Confraria Queirosiana com um programa aparentemente sempre igual, mas sempre imprevisto. Desde o auge da pandemia, ou seja, nestes dois últimos anos, a festa passou a decorrer a partir das onze da manhã e não à noite, e parece que esta opção está para ficar. Logo pela manhã os confrades queirosianos e de outras confrarias foram chegando de várias partes do País até que se lhes juntou a numerosa delegação brasileira em representação da Academia Alagoana de Letras, vinda de Maceió, Alagoas. Também presentes a Associação de Amigos Portugal-Egito; a Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho (APHVIN/ GEHVID); várias outras confrarias e outras instituições que enquadraram o desfile dos novos confrades até ao salão nobre da casa onde decorreu a sessão. A mesa foi composta pelos confrades José Manuel Tedim, presidente da direção, César Oliveira, da assembleia geral e Gonçalves Guimarães, secretário da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana, ladeados pela Engª Paula Carvalhal, vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e pelo Dr. João Fernandes em representação do Solar Condes de Resende.

         Logo no início, e depois durante o programa, atuou o Ensemble Per Soprare da Escola de Música de Perosinho, dirigido pela professora Bruna Carvalho, que interpretou composições de Joe Wolf. José Manuel Tedim começou por saudar os presentes e apresentou uma curta resenha das principais atividades da confraria incluindo as suas edições durante o presente ano; César Oliveira saudou as instituições presentes e Gonçalves Guimarães referiu-se aos confrades distinguidos nas áreas da Cultura, das Letras, das Artes e das Ciências, bem assim como às muitas obras por eles publicadas. Referiu-se também ao facto de este capítulo ser o evento de abertura das comemorações do Centenário do Marquês de Soveral (1851-1922), um dos “Vencidos da Vida” e “chefe” e companheiro de Eça de Queirós que se comemorará ao longo de 2023.

         Seguiu-se uma intervenção do presidente da Academia Alagoana de Letras que aludiu às relações entre ambas as instituições nomeadamente através das suas publicações que divulgam textos dos seus associados e também, este ano, nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil e no Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa-Rio de Janeiro. Procedeu depois à entrega dos diplomas que distinguiram José Manuel Tedim, Gonçalves Guimarães e António Pinto Bernardo como sócios correspondentes daquela academia brasileira.

         Momento alto foi também a apresentação do número 19 desta nova série da Revista de Portugal, pelo seu diretor, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, tendo sido referida a colaboração de cada autor, alguns dos quais presentes na sala, bem assim como a alusão às visitas ao Egito e outros países do Médio Oriente que tem vindo a orientar, na tradição da viagem que Eça de Queirós e o Conde de Resende realizaram em 1869 àquelas paragens.

         Seguidamente foram aceites como novos confrades de número o escritor e advogado Dr. Arnaldo Pais Filho, de Alagoas, grão louvado; Dr. Fernando António Maciel, advogado e professor universitário, grau leitor e ambos de Alagoas; e o economista Dr. João Oliveira e Costa da Póvoa de Varzim, grau leitor, tendo todos como padrinho o Dr. António Pinto Bernardo da direção da Confraria Queirosiana. Como confrade de honra foi investido o engenheiro Patrocínio Azevedo, atualmente vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que para além da profissão de engenheiro civil e da atividade política tem-se empenhado em diversas ações em prol do movimento associativo e da solidariedade social, que teve como padrinho César Oliveira. Após o juramento dos novos confrades, repetido em uníssono por todos os presentes, Patrocínio Azevedo proferiu um breve discurso em nome dos insigniados sobre o significado e simbolismo do ato em que acabava de participar e a importância da Confraria Queirosiana no contexto cultural do município gaiense. A sessão encerrou com as palavras da vereadora do Pelouro da Cultura sobre a importância da confraria na programação desenvolvida a partir do Solar Condes de Resende, nomeadamente os seus cursos livres, aludindo ainda ao seu trabalho cultural e social no âmbito gaiense, mas também nacional e internacional.

         Terminada a sessão os novos confrades, seguidos de todos os demais, dirigiram-se ao jardim das camélias onde depuseram uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós e tiraram as fotos memorativas deste acontecimento.

         Seguiu-se o almoço no pavilhão do solar no qual estavam inscritos cerca de noventa comensais que tiveram ocasião de cantar com os “Eça Bem Dito”, o grupo cantante da confraria, canções do período liberal, nomeadamente o Hino D. Pedro IV, bem assim como diversas melodias portuguesas e brasileiras da Belle Époque que foram de especial agrado da delegação brasileira. Seguiu-se a exibição do Grupo de Danças Andinas do Centro Recreativo de Mafamude, completando assim com agrado o caráter internacionalista desta festa queirosiana.

         Esta associação, fundada em dezembro de 2002 e legalizada no ano seguinte, tem vindo a trabalhar e a crescer ao longo dos anos, mas não esquece nunca as palavras e ensinamentos do seu patrono: «Mas a verdade é que numa época tão intelectual, tão crítica, tão científica como a nossa, não se ganha a admiração universal, ou seja, nação ou indivíduo, só com ter propósito nas ruas e pagar lealmente ao padeiro. São qualidades excelentes, mas insuficientes. Requer-se mais: requer-se a forte cultura, a fecunda elevação de espírito, a fina educação do gosto, a base científica, a altura de ideal… que são, na ordem social, a realização de formas superiores de pensamento». (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas, «Brasil e Portugal»)

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Livros e Revistas

Pela mão do seu presidente e coordenador, Alberto Rostand Lanverly, chegou-nos o Livro da Academia Alagoana de Letras, edição n.º 26, de Abril deste ano de 2022, com edição de Jorge Tenório, a qual, entre muitos outros artigos, apresenta: de Alberto Rostand Lanverly, «Felicidade é a conquista do sucesso interior»; de Arnaldo Paiva Filho, os poemas «Meteoro», «Momento», «Rota Infinita», «Jardim», «Flor de Gelo», «Tentação» e «Busca»; de Carlos Méro, «A Recompensa»; de J. A. Gonçalves Guimarães, «Domingos Carvalho da Silva: poeta nascido português, viveu e morreu brasileiro»; de Manuel de Novaes Cabral, «Dos estreitos limites do internato, fui salvo pelo mar – O P.e Luís Cabral e Jorge Amado»; de Maria Teresa Girão Osório, o poema «O espelho e a pele». Pelo segundo ano consecutivo que apresenta colaboração de confrades da Confraria Queirosiana. 

Livro da Fábrica das Naus

         No passado dia 4 de novembro na Alfandega Régia de Vila do Conde/ Museu da Construção Naval, com o espaço disponível completamente cheio, decorreu a sessão de apresentação do volume IV da Obra Completa de Fernando Oliveira, o Livro da Fábrica das Naus, apresentado pelo administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, Prof. Doutor Guilherme de Oliveira Martins, que na ocasião salientou a excecionalidade da obra deste humanista português do século XVI. Para além das entidades autárquicas estiveram também presentes os diversos especialistas que têm trabalhado nesta edição. A Confraria Queirosiana esteve representada pelo coordenador do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património.

         Alberto Silva Fernandes, como autor, co-autor e coordenador, também na qualidade de presidente da Associação dos Amigos de Pereiros, São João da Pesqueira, tem publicado uma já notável série de livros e opúsculos sobre “a sua” aldeia de Pereiros que a dão a conhecer em todos os seus aspetos. Lançou agora, com o apoio de diversas entidades, entre elas a Confraria Queirosiana, o livro Estórias e Lendas da História de Pereiros, S. João da Pesqueira, coletânea de saborosas narrativas sobre aspetos relevantes aí existentes, como os seus majestoso sobreiros e a sua utilidade (p. 44-46), o incontornável “Ernestus – Cozinha Regional” da D. Lídia, e entre estes “monumentos” muitas estórias entre o picaresco e o noticioso de uma cada vez mais pequena comunidade que teima em permanecer bem e prolongar-se no futuro.

Cursos Colóquios e Palestras

Mosteiro de Moreira da Maia        

         No passado dia 16 de novembro decorreu na Igreja do Divino Salvador em Moreira da Maia o Colóquio sobre os 400 anos do atual edifício do Mosteiro de Moreira, sob o tema “Monges, Mosteiros e Territórios” organizado pela Junta de Freguesia de Moreira da Maia, a Câmara Municipal da Maia e a Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Entre os vários oradores presentes falaram Joel Cleto sobre «O(s) caminho(s) de Santiago»; José Augusto Maia Marques sobre «À Mesa no Mosteiro de Moreira»; Sérgio Veludo Coelho sobre «Valor Militar dos Mosteiros» e J.A. Gonçalves Guimarães sobre «Luís de Magalhães subdiretor da Revista de Portugal». As Atas deste colóquio serão lançadas no dia 20 de janeiro de 2023 no Fórum da Maia.

Colóquios do Lumiar, Lisboa

         Entre 21 e 25 de novembro decorreram em Lisboa na Escola Secundária Eça de Queirós e na Junta de Freguesia do Lumiar os VIII CILB: Colóquios Internacionais Luso-Brasileiros subordinados ao tema «Ates & Letras em diálogo global: nos 200 anos da independência do Brasil». Participaram diversos sócios e confrades queirosianos com diversas comunicações, nomeadamente César Veloso (com Laura Bauerlain) sobre «Liberdade e Dor; Pensamento e Escrita»; Annabela Rita «Entre identidades. Em face de Janus»; Alda Salgueiro «Rotary Club de Lisboa»; Luís Manuel de Araújo «A Maldição de Tutankhamon e outras maldições recentes» e Andrade Lemos (com Fernanda Cabrita e José António Silva) «O Vórtice do Número 5». 

Últimas quintas-feiras do mês

No passado dia 24 de novembro, na habitual programação que a Confraria Queirosiana desenvolve no Solar Condes de Resende nas últimas quintas-feiras do mês, a Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) proferiu uma palestra presencial e via zoom sobre «De Lever a Crestuma: a indústria metalúrgica em Vila Nova de Gaia». 

Amanhã, dia 26 de novembro, integrada no ciclo de conferências das Comemorações dos 600 anos da morte de São Gonçalo de Lagos promovidas pelo Município de Torres Vedras, J. A. Gonçalves Guimarães falará no Museu Municipal Leonel Trindade pelas 16 horas sobre «O culto popular aos santos de nome Gonçalo em Portugal e Brasil. Uma abordagem histórica, arqueológica e antropológica». Os crentes católicos portugueses têm nos seus devocionários referências desiguais a São Gonçalo de Coimbra, São Pedro Gonçalves, São Gonçalo de Amarante, São Gonçalo de Lagos e São Gonçalo Garcia, festejados em âmbito religioso, mas extravasando significados para devoções populares em várias localidades e santuários do continente, regiões insulares e diáspora das antigas colónias, com especial expressão em algumas cidades e povoações portuguesas e do Brasil. Sendo quase todos santos originários de Portugal, ou criados em ambiente cultural português, nesta abordagem vamos procurar estabelecer linhas de continuidade destas devoções desde as suas raízes pré-cristãs até às atuais manifestações ritualizadas de alguns deles como figuras totémicas das comunidades que os adotaram como padroeiros.

Curso sobre o Brasil

No próximo dia 3 de dezembro, sábado, pelas 15 horas por via presencial e via zoom, organizado pela Academia Eça de Queirós, comissão permanente da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana, com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, prosseguirá o 30.º curso livre sobre «O Brasil duzentos anos depois» com uma aula pelo Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães sobre «História do Brasil colonial», prosseguindo no dia 10 de dezembro, com uma aula pelo Prof. Doutor José Manuel Tedim sobre «António Francisco Lisboa (O Aleijadinho) e Manuel da Costa Ataíde, duas figuras da entidade cultural brasileira», continuando depois em janeiro. 

Arte e Exposições

         O escultor Hélder de Carvalho participou recentemente na Exposição comemorativa do centenário da escritora Agustina-Bessa Luís no Museu Amadeu Sousa Cardoso com um seu retrato, um busto em gesso patinado, tendo também recentemente visto inaugurar na rotunda da Indústria, em Meirinhas, Pombal, um busto de sua autoria do filantropo e empresário Adelino Duarte da Mota. 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 171, sexta-feira, 25 de novembro de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

 

 

 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil

Curricula

         Ao longo da minha vida académica, social e profissional tive de elaborar, rever e atualizar várias vezes o meu curriculum e disponibilizá-lo a diversas entidades ou mesmo a torná-lo público. Nada mais normal. Mas ao longo dos anos fui também constatando a existência de vários modelos ou sugestões para a sua elaboração, até à preponderância do modelo «europeu», uma tentativa de uniformização. Tenho na minha biblioteca vários curricula impressos de pessoas mais ou menos célebres, quase todos professores que desempenharam funções públicas relevantes, alguns dos quais com várias décadas. Quando fui professor de Gestão de Património numa universidade, entre outras matérias, ensinava os meus alunos a elaborarem o seu curriculum, mostrando-lhes vários modelos e ensinando-lhes que, para além dos dados fundamentais relativos à cidadania próprios de cada um, dados pessoais certamente, mas públicos, como o nome, a filiação, a data e local de nascimento, o endereço domiciliário, a entidade empregadora (se fora o caso), e aqueles números que a Administração Publica não tem conseguido reduzir a um só (numero de cidadão, de contribuinte, de utente dos serviços de tratamento das doenças), tudo dados públicos que estão disponíveis em diversos endereços e listagens de fácil e óbvio acesso, mas que alguma legislação e empresas de controlo informático de dados querem tornar «privados» para melhor os manusearem e porem a render em proveito próprio. Mas isso é outra questão. Em tudo o mais, o curriculum devia conter dados verdadeiros, verificáveis, que objectivamente fossem relevantes para o fim a que o documento se destina, sendo diferente se para efeitos académicos, se para obter um emprego, se para prosseguir uma carreira através de concurso público ou avaliação privada. Ensinava-lhes que o curriculum não era a autobiografia de cada um, muito menos um auto-elogio e, muito menos ainda, um chorrilho de banalidades irrelevantes.

         Mas ao longo da vida, e também devido àquelas três situações, tive de ler, analisar e opinar sobre curricula de várias outras pessoas, e nem imaginam o que tenho encontrado, mas que poderei sintetizar em três situações, embora às vezes misturadas. Nuns casos curricula com dados falsos ou “torcidos”, nomeadamente no que diz respeito a habilitações académicas oficiais e seus complementos ou às classificações numéricas ou qualitativas obtidas, embora algumas “atestadas” por diversas entidades que era suposto serem sérias. Ou mesmo cursos e pós-graduações inexistentes ou atribuídas por entidades não avalisadas para tal (o caso de cursos ou formações não reconhecidas pelo Estado ou pelas ordens profissionais, por exemplo). Noutros casos uma hipervalorização e profusão de presenças em supostas ações de especialização profissional, mas onde o curriculado se limitou a ter uma atitude passiva. Se é que esteve nas sessões e não na praia (também conheço casos desses), nunca apresentou sequer um simples paper sobre matéria relevante da sua profissão, pelo que as presenças que atesta, às vezes com vistosos “diplomas”, apenas querem dizer que passeia muito. A entidade X apenas certifica que o senhor Y ou a senhora Z estiveram ali ou foram acolá e, às vezes, nem tal podem garantir. Noutros casos os curricula apresentam uma listagem de dados irrelevantes, ou que funcionam mesmo contra o curriculado, a nível, por exemplo, dos passatempos ou atividades de diversão nos “tempos livres”. Se estamos a falar, por exemplo, do currículo profissional de um engenheiro, será pouco interessante o saber-se se ele gosta, ou não, de fazer sonetos ou de pescar à linha, pois isso, nos dias de hoje o empregador mais “psicológico” poderá facilmente encontrar no facebook, se por aí quiser traçar o perfil do empregado, para além da electromecânica ou da química concretas que ele deverá produzir. Um curriculum profissional deverá sempre conter o que o cidadão a quem o mesmo diz respeito realmente já fez, em vez de apresentar “supônhamos” ou “estados de alma”. Para tal é fundamental que seja complementado com a bibliografia produzida relevante sobre matérias de incidência profissional e não os pequenos nadas publicados no jornal da paróquia.

         Mas um problema maior é a apresentação de curricula para exercício profissional diverso daquele para o qual o curriculado tem habilitações. Sobretudo nos últimos anos em que nos quadros da função pública se têm destruído ou desqualificado muitas profissões, passando tudo ao cinzentismo profissional do “técnico superior”, oriundos, em grande parte, da frequência de cursos superiores generalistas e pelo ingresso de elevado número de “gestores” disto e daquilo, e outros indiferenciados, na realidade administrativos que acabam por burocratizar os serviços até ao infinito para se auto-justificarem. Vemos assim instalarem-se nesse panorama diversos candidatos possuidores de tais currícula em detrimento dos profissionais de diversas áreas, muitas vezes complementados com mestrados e doutoramentos em irrelevâncias várias, por licenciados em outras profissões que nunca as exerceram e que também assim ascendem a “gestores” em áreas onde não conseguem sequer elaborar conteúdos, pois não os dominam. Mas é o que temos e não vejo que tal esteja para mudar, sendo exceção as profissões bem definidas, bem organizadas e com entidades profissionais (ordens, sindicatos) ativas e atentas à sua formação, à sua ação e ao seu estatuto social, como sejam os médicos, os advogados, os militares, e poucas mais, que de modo algum querem ser só, ou que lhes chamem, “técnicos superiores”. Estes querem ser conhecidos e respeitados pelo exercício da sua profissão e é isso, e só isso, que devem ostentar nos seus curricula.

         Com a sua inexcedível ironia já Eça de Queirós previra que a[s] universidade[s] haveria[m] de criar inaptos diplomados: «o país, tendo reconhecido nos últimos anos que há cinquenta indivíduos para cada um dos lugares destinados pelo estado... pede instantemente à[s] universidade[s] que lhe mande[m] bacharéis ignorantes… A[s] universidade[s] responde[m] solicitamente que os seus filhos têm a inaptidão mais cabal para o exercício de qualquer cargo» (Eça de Queirós. As Farpas). Atualizando bacharéis para licenciados e pedindo desculpa aos outros, aos que estudam, aos que se esforçam, aos que valem, aos que não estão obviamente no mesmo saco. É que «a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se um bispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um economista. Tudo assim! Veja Vossa Excelência mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não há um bom estofador… (Eça de Queirós, Os Maias). E se o houver, é já com certeza um técnico superior pós-graduado em assentos ergonómicos.

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Comemorações do Bicentenário

Curso «O Brasil duzentos anos depois»

        



No passado dia 15 de outubro no Solar Condes de Resende pelas 15 horas teve início o 30.º curso livre organizado pela Academia Eça de Queirós, comissão permanente da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Ao ato esteve presente a Eng.ª Paula Carvalhal, vereadora do Pelouro da Cultura da autarquia que referiu a frutuosa colaboração entre as entidades envolvidas, o responsável pelo Solar, Prof. Doutor Gonçalves Guimarães e o presidente da direção da entidade organizadora, Prof. Doutor José Manuel Tedim, que após a entrega dos certificados do curso anterior aos alunos presentes proferiu a lição da primeira aula sobre «Património e Cultura brasileiros ontem e hoje». O curso prosseguirá no próximo dia 29 de março com o tema «O Brasil antes dos Portugueses» pelo arqueólogo Dr. António Sérgio dos Santos Pereira.

         No próximo dia 19 de novembro no capítulo da Confraria Queirosiana que decorrerá, como habitualmente, no Solar Condes de Resende, o diretor da Revista de Portugal, Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, apresentará o número 19 desta nova série, também ela comemorativa daquelas duas efemérides, o que se torna logo evidente na própria capa concebida por António Rua a partir de uma peça brasileira do século XIX existente no Solar Condes de Resende. No interior apresentam-se os seguintes artigos: no editorial J. A. Gonçalves Guimarães escreve sobre «Portugal, Brasil e a esperança», a que se segue «A receção da independência do Brasil no parlamento português», por Francisco Ribeiro da Silva; o «Centenário da 1.ª travessia aérea Lisboa - Rio de Janeiro», por J. A. Gonçalves Guimarães; «Bodegas da minha infância», por Alberto Rostand Lanverly; «Eça de Queirós e Graciliano Ramos: diálogo criativo», por Carlos Méro; «Dasdores» (conto), por Jorge Tenório de Albuquerque;

«As conferências do Casino e A Berlinda: um feliz encontro de Eça e Bordalo», por João Alpuim Botelho; «Eça de Queirós, Jacinto de Tormes e os elevadores e ascensores do 202 dos Campos Elísios», por José António Barreto Nunes; «Villa Portela, Leiria: uma reutilização do património de forma a protegê-lo», por Ricardo Charters-d’Azevedo; «Corpo da Guarda: memória de um património genético da cidade do Porto», por Orquídea do Céu Ferreira Félix; «Recordando as civilizações pré-hispânicas do México», por Luís Manuel de Araújo, seguida de duas recensões pelo mesmo autor; a Bibliografia 2021 dos sócios da ASCR-CQ, organizada por Celeste Pinho; terminando com o «Relatório de atividades em 2021 da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana» aprovado em assembleia geral de sócios.

Palestras e conferências

Arqueologia para que te quero?

         No passado dia 10 de outubro na Escola Básica de Valadares o responsável pelo Solar Condes de Resende e arqueólogo do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), J. A. Gonçalves Guimarães, proferiu uma palestra para os seus alunos e professores intitulada «O que é a Arqueologia e para que serve». No final explicou aos interessados como é que se vai para arqueólogo.


No dia 14 de outubro na biblioteca do Quartel da Serra do Pilar, numa organização conjunta do Exército Português (Centro de Recrutamento de Vila Nova de Gaia), da Câmara Municipal (Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner) e com a colaboração do Museu Militar do Porto, do Solar Condes de Resende e da Direção Geral de Cultura do Norte, decorreu um colóquio intitulado «Gaia Villanovense. Gloriosas Ações. Brava Gente», alusivo aos 190 anos da Batalha de 14 de Outubro de 1832, em que foram oradores os investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), Maria de Fátima Teixeira sobre «Dos arcos de ferro aos canhões: a metalurgia na Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro»; e J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Biografias de alguns “Polacos da Serra”», e do Instituto Politécnico do Porto, Sérgio Veludo Coelho (que se apresentou fardado como oficial do Trem do Ouro daquela época), sobre «O teatro de Operações em Vila Nova de Gaia (1832-1833)». No final foi aberta ao público uma exposição sobre esta temática patente no antigo dormitório dos frades.     


No dia 20 de outubro no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia decorreu uma sessão comemorativa do Centenário da Primeira Travessia Aérea Lisboa - Rio de Janeiro – 100TAAS. Com a presença de distintos oficiais da Marinha e da Força Aérea recebidos pela vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal, que na ocasião saudou os presentes e aludiu ao significado das comemorações para Vila Nova de Gaia, após o que o tenente-general piloto aviador António Mimoso e Carvalho, presidente da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea, dissertou sobre os pormenores técnico-científicos daquela travessia como «Uma Missão Inesquecível», a que se seguiu o historiador do Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Memórias de Ícaro em Vila Nova de Gaia». Após este colóquio os presentes procederam à abertura da exposição itinerante 100TAAS patente numa das salas do arquivo, tendo-se depois os presentes dirigido para o Largo dos Aviadores onde foi descerrada uma lápide alusiva a este centenário cravada na pedra do monumento mandado erguer por subscrição pública e ali inaugurado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral a 3 de dezembro de 1922.

Cale e os Calaeci

          No próximo dia 27 de outubro, última quinta-feira do mês, na habitual palestra presencial e por vídeo-conferência, o arqueólogo António Manuel S. P. Silva, do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), falará sobre «Cale e os Calaeci: um roteiro introdutório» tema da sua tese de doutoramento recentemente apresentada na Universidade de Santiago de Compostela, campus de Lugo. A assistência a esta conferência é livre e não carece de inscrição prévia.

         No dia 12 de novembro, sábado, integrada no IV Ciclo de Conferências com visita guiada do Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave 2022, em Famalicão, denominado «Novos contributos para a História da Indústria Portuguesa», a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) Maria de Fátima Teixeira falará sobre «A Indústria Metalúrgica em Crestuma: a Fábrica Paiva Freixo». A presença nesta sessão implica inscrição prévia.

Livros

No passado dia 5 de Outubro, no programa comemorativo da República no município de Coimbra, na sala Francisco Sá de Miranda da Casa Municipal da Cultura e apresentado pelo Professor Doutor Fernando Catroga, foi lançado o livro Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação, de Carlos Santarém Andrade que aí relata a proclamação do novo regime naquela cidade no dia 5 de Outubro de 1910 a partir de jornais da época e outras fontes coetâneas. Natural de Gouveia, o autor é licenciado em Direito e bibliotecário-arquivista pela Universidade de Coimbra, tendo exercido o cargo de diretor da Biblioteca Municipal daquela cidade. Foi também redator da Vértice e diretor do Arquivo Coimbrão, sendo autor, entre outros títulos, de Coimbra e Eça de Queirós (1995). Na biblioteca de que foi diretor encontra-se patente a exposição «Retalhos da vida de um bibliotecário» que apresenta muito do seu espólio pessoal.

        


No passado dia 20 de outubro na sede da Academia Alagoana de Letras foi lançado o livro Do Mestre com Carinho, da autoria de Alberto Rostand Lanverly, presidente daquela agremiação literária brasileira. Habitual cronista em vários periódicos e autor de vários livros, incluindo de literatura infanto-juvenil, que normalmente partem das suas próprias memórias e vivências desde a meninice, este autor de saborosas crónicas tem também dinamizado a projeção literária de seus confrades.

Confrarias

         No passado dia 19 de outubro, na sede da Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, esta entidade promoveu uma primeira reunião informal entre as seguintes associações: Confraria da Broa de Avintes; Confraria da Moamba; Confraria da Pedra; Confraria do Velhote; Confraria do Vinho do Porto; Confraria Queirosiana; e Federação das Confrarias Báquicas de Portugal. Dirigida por César Oliveira, presidente da sua mesa da assembleia geral e com a presença de Paulo Rodrigues, presidente da sua direção, nesta reunião as confrarias presentes deram conta das suas atividades e anseios, tendo sido feita a sugestão de uma maior colaboração entre todas em prol do município onde estão localizadas. Entretanto Albino Jorge, em representação das Confrarias Báquicas de Portugal, aí referiu o ponto da situação do Congresso Mundial de Confrarias que se realizará no nosso país a partir de 27 de maio do próximo ano, com início em Vila Nova de Gaia e cujo programa se desenrolará em várias outras cidades e regiões, trazendo ao nosso país centenas de enófilos dos diversos cantos do mundo. Estas confrarias voltarão a reunir-se no início do próximo ano para nova análise dos seus projetos para 2023.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 170, terça-feira, 25 de outubro de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Eça & Outras

Eça & Outras, domingo, 25 de setembro de 2022

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil 

Quadros da História de Portugal

            No átrio da Estação Ferroviária de São Bento no Porto as paredes estão revestidas com painéis de azulejos de Jorge Colaço que representam “quadros da História de Portugal”, além de outras figurações. Produzidos em 1915, estão ali para cumprir uma função decorativa, mas certamente também pedagógica, que leve o espectador a interrogar-se sobre o que representam. Alguns deles são hoje considerados meras invenções, como o que representa Egas Moniz e família com a corda ao pescoço perante o rei de Leão, a resgatar a honra da palavra dada. Estes “quadros históricos” de certo modo são, não apenas coetâneos, mas muito semelhantes aos representados nas aguarelas de Roque Gameiro e Alberto de Sousa reproduzidas nas cromolitografias dos oito «Quadros da História de Portugal» coordenados pelos professores de História Chagas Franco e João Soares, que os serviços de Educação da então jovem República distribuíam pelas escolas do país para serem explicados pelos professores dos alunos do ensino primário. Convém sempre lembrarmo-nos que se trata de recreações artísticas muito distantes da época em que decorreram as ações que representam e das quais nem haverá iconografia coetânea, nem da cena nem dos retratos dos intervenientes, ou seja, o fotógrafo não estava lá (pois só “chegaria” do século XIX…), nem sequer o desenhador, o pintor ou o gravador. São interpretações baseadas, na melhor das hipóteses, na leitura de documentos ou textos da época ou, o mais corrente, em leituras e interpretações muito posteriores. São artísticos, são simbólicos, são didáticos, mas a sua historicidade fica, geralmente, muito a desejar e na mira questionadora da mais recente historiografia. Esta técnica contemporânea de publicar e difundir “quadros” da História de Portugal em diversos suportes e modalidades tem exemplares notáveis que, de um modo geral, ainda não terão merecido a atenção dos historiadores da Educação. Lembro-mo que, quando eu era entre o jovem e o adolescente colecionei os “cromos” da História de Portugal editados pela Agência Portuguesa de Revistas, compilada por António Feio «segundo as Histórias de Portugal oficialmente aprovadas, de António G. Matoso, Chagas Franco e Janeiro Acabado» e ilustrada por Carlos Alberto, num total de 204 imagens coloridas impressas em pequenos retângulos de papel brilhante, legendadas no tardoz, que colávamos numa caderneta que custava quatro escudos e que apresentava na capa uma interpretação da Batalha de Aljubarrota e na contra-capa a do rei D. Dinis a deparar com o “milagre das rosas” da rainha Santa Isabel. Aí se dizia «publicação de interesse pedagógico» e edição do Mundo de Aventuras, uma então regular publicação de Banda Desenhada. A coleção começava com uma figuração da Península Ibérica com a localização de Portugal e terminava com o retrato desenhado do então presidente da República almirante Américo Tomás, destacado na última página. Na penúltima, para além dos retratos de Gomes da Costa, Carmona, Salazar e Craveiro Lopes, um “cromo” alusivo à 1.ª Grande Guerra e à 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro. E mais nada sobre a História portuguesa do século XX.

            Recuando para os anos cinquenta, a Editorial Século publicou um livro com sólida encadernação, capa colorida com o desenho de uma espada quatrocentista e a representação de algumas das sucessivas bandeiras nacionais, intitulado A Nossa Pátria, sem indicação de autor, ilustrado por Eduardo Teixeira Coelho (Angra do Heroísmo 1917 – Florença 2005). O texto ficcionado refere-se à visita a Portugal de um luso-descendente estadunidense e, para cada terra que ele visita, a descrição dos monumentos e acontecimentos mais marcantes da História de Portugal ali ocorridos ou com os quais se relaciona, neste caso ilustrados não tanto como “quadros”, mas mais como imagem-símbolo: Martim Moniz, Vasco da Gama, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Nun’ Álvares, Geraldo Sem Pavor, Mendes da Maia o Lidador, as campanhas da Restauração, Infante D. Henrique, a conquista do Algarve, o alfageme de Santarém, D. Pedro e D. Inês, «vitória em Aljubarrota», Gualdim Paes, Invasões Francesas, Princesa Santa Joana, Viriato «o maior dos Lusitanos», «trágicas lutas civis», D. Pedro IV, e «o berço de Portugal» com D. Afonso Henriques, dezanove imagens ao todo onde D. Nuno Álvares Pereira e Aljubarrota são tema para três delas. Desconhecemos o sucesso do livro que hoje é bastante raro.

Na mesma época os CTT (Correios de Portugal) emitiam uma coleção de bilhetes-postais para correspondência corrente, ao preço de 50 centavos cada, com uma imagem legendada na parte esquerda do observador na face dedicada ao endereço, fazendo parte de uma série intitulada «Conheça a sua História», num total de 86 exemplares diferentes com aspeto de “quadros”, de desenho estilizado, cujo autor ainda não conseguimos determinar, uns impressos a azul, outros a preto, outros a verde, outros a sépia, outros combinando estas cores. O quadro n.º 1 é a «Batalha de S. Mamede» e o n.º 86 a «Reunião em Lisboa do Conselho do Atlântico» (1952), ou seja, apresenta acontecimentos desde «a primeira tarde portuguesa» até um muito mais recente e contemporâneo da emissão da própria coleção. Pelo meio referem-se “quadros” pouco conhecidos, como a participação portuguesa na «Batalha de Matapão» (1717; postal n.º 61), ou controversos como as «Aparições de Fátima» (1917, postal n.º 79), que o regime do Estado Novo queria tornar “histórico”, não apenas na sua fenomenologia social facilmente constatável, mas mesmo na sua improvável génese cosmogónica.

A validade destas Histórias de Portugal em “quadros” ou mesmo em textos que se pretendiam “exemplares”, isto é “verdadeiros”, tinha já sido questionada por Eça de Queirós numa carta enviada ao seu amigo Oliveira Martins, um literato que escrevia sobre História de Portugal, no caso sobre o seu livro A Vida de Nun’Álvares (1893): «Também não me agradam muito certas minudências do detalhe plástico, como a notação dos gestos, etc. Como os sabes tu? Que documento tens para dizer que a rainha, num certo momento, cobriu de beijos o Andeiro, ou que o Mestre passou pensativamente a mão pela face? Estavas lá? Viste? Esses traços, penso eu, não dão mais intensidade de vida, e criam uma vaga desconfiança.» (Eça de Queirós, Correspondência, 26.04.1894). Então para que servirão hoje estes “quadros”, para além dos seus, quantas vezes, logros ilustrativos? Logo mais para nos prevenir que a História é uma interrogação contínua e abolir de vez o «foi assim, foi exatamente assim».

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Comemorações do Bicentenário

            Prosseguem em Portugal e no Brasil as comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil, algumas das quais têm contado com a participação ou a colaboração dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana ou entidades com quem tem protocolos assinados. Assim, no passado dia 1 de setembro a Academia Alagoana de Letras abriu as portas da Casa Jorge de Lima para ouvir o historiador brasileiro Douglas Apratto dissertar sobre «Alagoas e a Independência do Brasil».

Jornadas Europeias de Património 2022

            Ontem, sábado, dia 24 de setembro, decorreu no Solar Condes de Resende entre as 15 e as 17 horas um colóquio integrado nas Jornadas Europeias do Património 2022, que contou com a colaboração de diversos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e do Solar Condes de Resende enquanto equipamento municipal da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. A sessão foi aberta pelo presidente da direção Prof. Doutor José Manuel Tedim a que se seguiram os oradores de acordo com o programa pré-elaborado. Assim, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre um projeto de estudo intitulado «Águas em Gaia, passado, presente e futuro»; Maria de Fátima Teixeira sobre «O Rio Uíma e a produção hidroelétrica da Companhia da Fiação de Crestuma»; João Fernandes, sobre «A energia eólica e a indústria de moagem: os moinhos de vento em Vila Nova de Gaia»; e Cristiana Borges sobre «As fábricas de Sulfureto de Carbono e os protestos contra a poluição atmosférica», a que se seguiu o debate sobre os temas apresentados.

Palestras

            No passado dia 12 de setembro a Associação Comercial, Industrial e e Serviços de Vila Nova de Gaia (ACIGAIA) comemorou 125 anos de existência com uma gala no Auditório Municipal à qual estiveram presentes como convidados diversos confrades queirosianos representando diversas instituições. Do programa constou uma palestra sobre a sua História por J. A. Gonçalves Guimarães, autor de Memória histórica dos antigos comerciantes e industriais de Vila Nova de Gaia; Livro do Centenário da Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia: ACIGAIA, 1997, e coordenador da obra escrita em colaboração com Susana Guimarães e Eva Baptista em 2004, História da Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia/ History of the Commercial and Industrial Association of Vila Nova de Gaia, ainda não publicada.

            Na próxima quinta-feira, dia 29 de setembro, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «O centenário do Marquês de Soveral», a partir da sua obra Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/ The Marquis de Soveral, Son of the Douro, Man of the World, versão inglesa de Karen Bennett. São João da Pesqueira: Câmara Municipal/ Edições Gailivro, 2008.

Livros e Revistas

No stand da Confraria Queirosiana: Sebastião Feyo, J. A. Gonçalves Guimarães, José Manuel Tedim,
Marcelo Rebelo de Sousa, César Oliveira; fotografia de Cristiana Borges

Ainda a Feira do Livro do Porto

Como foi divulgado na passada “folha” Eça & Outras, entre os passados dias 26 de agosto e 11 de setembro, decorreu no Palácio de Cristal no Porto a tradicional Feira do Livro onde, pela segunda vez, a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana (ASCR-CQ) esteve presente com as suas publicações e sobretudo com o seu contato com o público que se foi inteirando dos seus objetivos e realizações. No primeiro dia da Feira o seu stand foi também visitado pelo presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que conversou demoradamente com os membros dos corpos gerentes e investigadoras presentes, acompanhado, entre outros, pelo nosso confrade Professor Doutor Sebastião Feyo, presidente da Assembleia Municipal do Porto. 

Jorge Fernandes Alves, José Manuel Tedim e J. A. Gonçalves Guimarães;
foto de Fátima Teixeira.

Lançamento de «A Frota Mercantil do Porto…»

            No programa delineado para esta presença, a ASCR-CQ lançou no sábado, dia 3 de setembro, na Biblioteca Almeida Garrett a tese de doutoramento de J. A. Gonçalves Guimarães intitulada «A Frota Mercantil do Porto e o Comércio com o Brasil entre 1818 e 1825». A mesa foi composta pelo presidente da direção, Prof. Doutor José Manuel Tedim que apresentou o autor e o orientador da mesma, Professor Doutor Jorge Fernandes Alves da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que perante a assistência escalpelizou as caraterísticas da obra e o seu enquadramento na historiografia nacional. O autor respondeu ainda a algumas interpelações sobre o tema por parte de vários confrades, consócios, colegas e amigos presentes, tendo depois passado a dedicar e a assinar os exemplares que lhe foram sendo apresentados para tal. A obra ficou então à venda no stand da confraria, podendo agora ser adquirida por via postal e o seu Anexo I, um Catálogo de 1300 páginas sobre 1852 embarcações que entraram e saíram a barra do Douro entre aquelas datas ser livremente consultado no site da Academia Eça de Queirós.

As Cinco Pedras

No passado dia 17 de setembro Albert Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras lançou o livro As Cinco Pedras, dedicado aos seus netos Arthur, Bia, Leo, Letícia e Gabriel, que na realidade são também personagens deste livro de contos em que o autor recorda o inefável prazer que teve na infância quando escutava nas horas de calma no pátio da casa as estórias de seus maiores que desejava intermináveis para que o encanto não tivesse fim. Agora num livro bem colorido o autor criou para seus netos não apenas um tributo de afeto mas uma memória que as gerações vindouras saberão por certo adaptar aos dias da herança cultural que através dele recebem. 

Música e Património

            Na próxima quarta-feira, dia 28 de setembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Pública de Braga será lançado o livro Paisagem e Património. O Som, a Música e a Arquitetura, coordenado pela Prof.ª Doutora Elisa Lessa da Universidade do Minho, que assina também assina o trabalho «Uma presença na paisagem sonora histórica lisbonense. Música e músicos beneditinos no Mosteiro de S. Bento da Saúde de Lisboa (séculos XVII a XIX)» aí publicados ao lado de vários outros especialistas sobre os temas desta obra, como Nuno Resende que aí publica «Escutar ao Porto. Reconstituição das paisagens sonoras da cidade do Porto no século XIX: o caso da Rua das Flores».

            A apresentação da obra a cargo de J. A. Gonçalves Guimarães, professor de Património e melómano, decorrerá num colóquio em que falarão vários dos autores presentes na obra. O enquadramento musical será feito pela violinista Mariana Fernandes do Departamento de Música da Universidade do Minho que executará a Sonata para violino solo BWV1003 de J. S. Bach

Exposições

O jornal As Artes Entre as Letras do passado dia 14 de setembro dedicou a capa e um artigo interior à exposição «Espessa Escuridão» com obras de Hélder de Carvalho que são um «testemunho possível da desordem destes nossos dias» em que a sua Arte evidencia à saciedade «a guerra e a irracionalidade» do que se passa na Ucrânia e noutros palcos mundiais da desgraça imposta ao cidadão comum. Tendo estado patente ao público, primeiro em Braga e mais recentemente na estação do Metro de São Bento no Porto até ao dia 20 de setembro, por ela passaram milhares de transeuntes que certamente não ficaram indiferentes à linguagem estética do horror feito azorrague das consciências tranquilas que poderemos encontrar em muitas das gravuras de Goya.

 


                        No passado dia 8 de setembro, no Gabinete da Bienal de Gaia, dos Artistas de Gaia - Cooperativa Cultural, junto da Estação Ferroviária de General Torres, abriu ao público a exposição de esculturas «Múltiplas Expressões» do canteiro ornatista António Pinto, com a presença de muitos dos seus amigos e consócios daquela cooperativa. Na abertura usaram da palavra Agostinho Santos, presidente da instituição e diretor da Bienal de Gaia, J. A. Gonçalves Guimarães, em representação da Confraria Queirosiana, e o autor das obras expostas.

Música

O agrupamento musical Eça Bem Dito, da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, participou na animação do festival da Associazine Sapori Italiani que decorreu entre os dias 20 e 25 de setembro na marginal da Beira Rio de Vila Nova de Gaia entoando um conjunto de canções napolitanas de finais do século XIX e princípios de XX acompanhadas ao piano por Maria João Ventura. A sua próxima atuação será no capítulo da Confraria a 19 de novembro em que entoarão     diversas melodias brasileiras do século XIX.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 169, domingo, 25 de setembro de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Eça & Outras

Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil

Brasileiras

Desde os primeiros contatos entre os Portugueses que no dia 22 de abril de 1500 chegaram oficialmente ao território que se viria a chamar Brasil, e os seus naturais, que as diferenças e estranhezas rapidamente se transformaram, quase sempre, em simpatias e afetos mútuos. Mas também na criação de estereótipos que ajudaram a fixar essas diferenças em ambas as comunidades, a que rapidamente as circunstâncias da Expansão Europeia acrescentaram tipos africanos, europeus de várias outras proveniências, e mais tarde orientais e, enfim, todo o mundo. Com o andar dos tempos os estereótipos foram-se multiplicando quer no Brasil, quer em Portugal, divulgados por viajantes, migrantes, desenhadores, pintores e fotógrafos, escritores e cineastas, mas também pelos historiadores, antropólogos e sociólogos, melodistas e cantores. Mas de todos esses tipos ou grupos humanos um deles sempre fascinou a mente, a escrita, a pintura e muitas outras artes de brasileiros e portugueses: referimo-nos “à” mulher brasileira, uma simplificação que nunca existiu, senão fruto de individualizações muito particulares, muito conscritas na paisagem geográfica e humana. Logo naqueles dias existiam certamente vários tipos de mulheres no território, mas os navegadores lusos não sabiam. Sobre as que então conheceram, a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha não poderia ser mais encomiástica: «Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha». Dando ao rei D. Manuel I estas informações tão particulares, logo abaixo continua: «E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo acima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela». Esta comparação ficará no subconsciente masculino português até aos dias de hoje. Mas Caminha insiste no recado: «Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia nenhuma vergonha». Existem depois outros textos, em prosa e verso, a descreverem os diferentes tipos de mulheres brasileiras, quase sempre europeizados, até que com a Independência do Brasil em 1822, lentamente uma nova visão “nativista” se foi instalando na Cultura Brasileira, multiplicando os arquétipos mas autonomizando as diferentes visões sobre eles. Se durante séculos esses relatos nos chegavam através dos Portugueses que iam lá deslumbrar-se, passando as suas impressões ao papel e às memórias orais, a partir do século XIX, lentamente, algumas brasileiras começaram a chegar a Portugal e aqui vieram impressionar alguns escritores, pintores e outros descritores com as suas singularidades. E várias outras mulheres portuguesas foram para lá abrasileirar-se, como aconteceu a Cármen Miranda.

Antero de Figueiredo (1866-1953), um escritor português que hoje ninguém lê, por volta de 1920 descrevia assim uma daquelas recém-chegadas: «Era uma menina brasileira de vinte e cinco anos, alta, forte, de corpo formoso de modelação e ondulação. Tinha a pele de um moreno de âmbar, quase dourado, e os cabelos castanhos secos, com tons de sol. Os olhos de avelã, entre noites de pestanas sedosas no ninho penumbroso das órbitas, eram húmidos do langor sombrio das terras do sul, e tinham em certos momentos, o belisco da malicia dos boulevards latinos (…) O penteado desmanchara-se numa desordem bela, como se os ventos quentes da sensualidade a viessem pentear em toucado de graça estranha, perfumando-o com cheiros tontos de deliciosa perversão. No busto, em que o decote mostrava um colo de polpa de oiro, arfavam seios airosos de graça e sedução; e por detrás da saia leve, os olhos liam e palpavam a linha das coxas esbeltas. Da sua boca, de lábios a arderem em vermelhão de lume, saíam, por ente dentes sorrindo brancuras, versos em francês e inglês, pronunciados com inflexões de encanto…» (FIGUEIREDO, Antero de (1920) – Senhora do Amparo. Lisboa: Livraria Bertrand, pag. 120 e seg.s.).

Ainda estávamos longe de nos ter chegado a Gabriela Cravo e Canela de Jorge Amado, em livro, em novela televisiva, em sucesso popular transversal a toda a sociedade portuguesa. Estes estereótipos da mulher brasileira, e todos os outros que hoje nos são familiares, trouxeram certamente a Portugal algo de novo e de diferente que já Pero Vaz de Caminha adivinhara no início do século XVI ao descrever as primeiras mulheres brasileiras que os Portugueses contemplavam: «que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela».

«Ó voluptuosidade! Tu és a imagem do oceano nos teus caprichos. Ora te embalas docemente dourada com os últimos raios do sol: depois dormes tranquila aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de tempestades» (Eça de Queirós, Prosas Barbaras). E assim é no Brasil e em Portugal.

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Distinções

  Por decisão unânime, o júri do Austria Culture Brasilien-Haus in Österraich & Europäische Geselischaft Der Schonen Kunste, reunido em Viena de Áustria no passado mês de maio, atribuiu à Prof.ª Doutora Annabela Rita o prémio Diamonds de Artes e Educação – Áustria, «como agradecimento e reconhecimento pelas suas realizações no campo das Artes e da Educação». A mesma pedagoga foi recentemente distinguida no Brasil com o prémio Literarte 2022 e a medalha de Destaque Literário 2022, na Galiza pelo Círculo de Escritores da Galícia e em França com o Prix Littéraire Jules Verne 2022.

Feira do Livro do Porto

    


        Entre os próximos dias 26 de agosto e 11 de setembro vai decorrer nos Jardins do Palácio de Cristal no Porto a habitual Feira do Livro, onde a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana estará presente a vender as suas edições, estando mesmo prevista a apresentação de uma reedição e o lançamento de uma obra sobre a História das relações da cidade do Porto com o Brasil à data da independência (ver abaixo).


Organizada por António Manuel S. P. Silva e Maria de Fátima Teixeira e com capa de Sérgio Veludo Coelho com a caricatura do autor vestido de combatente liberal da Serra do Pilar, a obra Eça & Outras. Crónicas Queirosianas, apresenta uma série de textos de J. A. Gonçalves Guimarães publicadas como editorial da página mensal da Confraria Queirosiana publicada no jornal O Primeiro de Janeiro entre 2004 e 2008. Lançada como surpresa de aniversário em julho de 2021, a primeira edição rapidamente esgotou, motivando assim uma nova tiragem que se encontrará disponível na Feira do Livro ou por encomenda para queirosiana@gmail.com ao preço de 15€ cada, portes incluídos.

A 24 de Agosto de 1820 eclode na cidade do Porto uma Revolução constitucional que irá não só ditar o futuro imediato de Portugal e do Brasil, mas também o desta cidade portuária e mercantil, placa giratória de mercadorias entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo, a América do Norte e a América do Sul, as Ilhas Atlânticas, a África e o Brasil. Sobre este cenário J. A. Gonçalves Guimarães elaborou a sua tese de doutoramento intitulada A Frota Mercantil do Porto e o comércio com o Brasil entre 1818 e 1825, agora data à estampa com a chancela da Confraria Queirosiana. No Prefácio, da autoria do Professor Doutor Jorge Fernandes Alves, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pode ler-se: «O autor segue, com pormenores informativos recolhidos em variadas fontes documentais e impressas, o percurso de 155 firmas de armadores-negociantes [da praça mercantil do Porto], cujas fichas traz para o texto do relatório, anotando incidentes marítimos e/ou movimentos comerciais, procurando ainda os entroncamentos familiares e outros dados de natureza individual. A perspetiva usada de micro-história, seguindo os percursos individuais, traduz-se num importante contributo para desvendar o sujeito neste grupo histórico de forte incidência local, atribuindo-lhes um papel no seu mundo, trazendo o homem à superfície nas suas ações e decisões, ainda que no quadro de forças mais amplas que o condicionam, numa opção de investigação que ajuda a conferir à história económica e social novas configurações».

A obra tem ainda como complemento o Anexo I, um Catálogo referente a 1852 embarcações que entraram e saíram a barra do Douro no período estudado, com muitos dados sobre as mesmas (armador, estaleiro, capitão ou mestre, rotas, cargas, consignatários e outras indicações) em muitos casos para datas anteriores e posteriores às deste estudo. O referido Catálogo existe apenas em versão eletrónica acessível em:

https://academiaecadequeiros.blogspot.com podendo igualmente ser solicitado para: queirosiana@gmail.com

Esta obra será lançada ao público durante a Feira do Livro do Porto que decorrerá no Palácio de Cristal na sala multimédia da Biblioteca Municipal Almeida Garrett no dia 3 de setembro, sábado, pelas 14 horas encontrando-se também à venda no stand da Confraria Queirosiana, sendo posteriormente vendida ao público pelo preço de capa de 35€, por encomenda para queirosiana@gmail.com portes incluídos. 

Livros e Revistas

Está em distribuição o Boletim n.º 94 da Associação Cultural Amigos de Gaia, referente a junho passado, especialmente dedicado ao passamento em 31 de dezembro do seu sócio n.º 1, fundador desta publicação, Joaquim Costa Gomes. E também ao centenário do nascimento do pintor Isolino Vaz. Entre outros autores, este número apresenta artigos de Salvador Almeida, Virgília Braga da Costa e Abel Barros.



“Um livro que li”

       Projeto lançado a 31 de julho pela Academia Alagoana de Letras através do seu presidente Alberto Rostand Lanverly, o qual convida um homem de Letras a fazer uma curta palestra gravada sobre o livro ou livros que mais o marcaram na sua vida, depois disponibilizada no Youtube, para quem dela quiser usufruir. Já aí estiveram Paulo Roberto Oliveira Lima a falar sobre As Velas Ardem até ao Fim, de Sádor Marai; Rosalvo Acioly sobre A Menina que Mora em Mim, de Laís Castro Tenório Lima; Fernando Gomes sobre Castrioto Lusitano de Frei Rafael de Jesus; José Geraldo Marques sobre O Livro de Mórmon; J. A. Gonçalves Guimarães sobre Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, na versão de Aquilino Ribeiro; e Douglas Tenório sobre Mãe de Alberto Rostand Lanverly, Manguaba de Carlito Lima e Memória dos Trópicos de Miguel Gustavo Paiva.


No passado dia 12 de agosto o escritor Carlos Lima apresentou o seu novo romance Jaquiá em Maceió na Academia Alagoana de Letras. No próximo dia 27 de agosto a mesma obra será apresentada no Porto na Cachaçaria Bar, Rua Miguel Bombarda, 552, com apresentação do académico e historiador Douglas Apratto, que considera que este autor tem «originalidade única [e] vem pavimentando sua trajetória com obras originais e de indiscutível sabor literário». Este romance, que agora lança, completa a sua Trilogia das Lagoas composta pelos anteriores títulos Manguaba e Mundaú, obras com «bom humor, visão de costumes, sexo, conflitos, situações familiares, a geografia física e humana de cada local apresentado animam o percurso do leitor». Com prefácio do cineasta Cacá Diegues, este considera que estes romances «mantêm o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ficção de Carlito Lima e em sua “cultura local”, é justamente a liberdade narrativa que lhe permite fazer com que alguém, que faz um discurso político importante, por exemplo, possa se interessar súbita e simultaneamente pelo corpo da bela mulher que passa à sua frente».

Palestras

Maria de Fátima Teixeira a falar sobre a
 Companhia de Fiação de Crestuma e a industrialização do município gaiense;
fotografia de Sara Pinheiro

       Integrada na Festa da Saudade organizada pela Associação Caminheiros de Lever, no passado dia 13 de agosto a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, Mestre em História Contemporânea, apresentou na Companhia de Fiação de Crestuma em Lever uma palestra sobre a origem e evolução desta empresa centenária no contexto da industrialização da região desde os finais do século XVIII.

Última Quinta-feira do mês

Hoje, dia 25 de agosto, pelas 18,30, no Solar Condes de Resende, presencialmente ou por videoconferência, J. A. Gonçalves Guimarães apresenta o tema «Arte Publicitária dos Vinhos do Douro e do Porto: os artistas estrangeiros». Desde a segunda metade do século XIX que as casas exportadoras de vinhos do Douro e do Porto cuidaram da sua publicidade através da criação de logótipos e da produção de rótulos e outros informativos de garrafa; marcas de fogo em pipos e caixotes; impressos de vários tipos, catálogos e postais; painéis publicitários; painéis de azulejos; fotografia e cinema; anúncios em jornais e revistas; taças e troféus; partituras; jingles radiofónicos; estátuas, bustos e estatuetas; brindes diversos. Mas foram os cartazes a mais elaborada e perdurável forma de Arte Publicitária produzida desde finais do século XIX.

Nesta palestra serão apresentados os artistas estrangeiros que produziram esses cartazes e onde se foram eles inspirar.

Exposições de Escultura

       Na XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, no polo do Convento San Payo, desde 1 de agosto estão expostas cinco instalações coletivas de António Pinto em co-autoria com Augusta Albuquerque, Luísa Prior e Maria dos Santos, elaboradas a partir de materiais recicláveis que procuram sensibilizar os visitantes para a imperiosa necessidade da preservação ambiental. Podem ser vistas neste local até 31 de dezembro próximo.

         No passado dia 20 de agosto na estação de São Bento do Metro do Porto, o escultor Hélder de Carvalho inaugurou uma exposição de instalações e projetos de esculturas intitulado “Espessa Escuridão” sobre as vítimas da guerra na Ucrânia. A mesma pode ser vista até 20 de setembro próximo.

Feira da Gastronomia

         No passado dia 19 de agosto abriu ao público a Feira de Gastronomia de Vila do Conde, este ano dedicada ao centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro. Tendo sido convidada para participar na abertura, como habitualmente a Confraria Queirosiana fez-se representar por uma delegação, este ano composta por César Oliveira, J. A. Gonçalves Guimarães, Manuel Moreira e António Pinto, que entraram em contato com as entidades autárquicas presentes e outras entidades culturais e confrarias.

Terão lugar nos próximos dias 23, 24 e 25 de setembro as Jornadas Europeias do Património 2022, este ano subordinadas ao tema Património Sustentável, promovidas pelo Conselho da Europa e da Comunidade Europeia e, em Portugal, da Direção-Geral do Património Cultural.

Como habitualmente a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, através do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património, em colaboração com o Solar Condes de Resende e o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia vai associar-se a esta iniciativa através da realização de um colóquio subordinado àquele tema, presencial e por videoconferência, que terá lugar na tarde de sábado, entre as 15 e as 19 horas (com intervalo entre as 17 e as 17,30). A programação geral pode ser acompanhada em  http://w3.patrimoniocultural.pt/jep2022/digital/

O programa do colóquio será oportunamente divulgado. 

Falecimento

Rosalina Pinto;
fotografia 
de Maria da Fátima Teixeira

No passado dia 21 de agosto faleceu Rosalina da Conceição de Sousa Pinto, sócia dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana nascida em Vila Cadiz, Amarante a 11 de novembro de 1947. Tendo vivido desde os cinco anos de idade em Canelas, Vila Nova de Gaia, aí fez a sua formação escolar e um curso de modelagem, corte e costura. Na década de 70 do século passado passou por Luanda, onde teve início o seu gosto pela Pintura que em tempos recentes desenvolveu no Solar Condes de Resende no Curso de Arte e outras Expressões Plásticas com os professores pintores Ariosto Madureira e Paula Costa, tendo exposto no Salon d’ Automne Queirosiano em várias das suas edições.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 168, quinta-feira, 25 de agosto de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Sara Pinheiro.