domingo, 25 de julho de 2021

Eça & Outras

Festa de retoma das atividades da Confraria Queirosiana

Aniversários, estações de serviço do Tempo

Foi Eça de Queirós quem escreveu em Notas Contemporâneas (Almanaques): «o Tempo, essa impressão misteriosa a que chamamos Tempo, é para o homem como uma planície, sem forma, sem caminho, sem fim, sem luz, onde ele transita guiado pelo almanaque, que o segura pela mão, o vai puxando e a cada passo murmurando: “Aqui estás em Setembro!... Além finda a semana!... Em breve alcanças o 28… Hoje é sábado…”. Se o almanaque de repente, por facécia ou perfídia, lhe soltasse a mão, o abandonasse, o homem vaguearia irremissivelmente confuso e perdido, dentro da vacuidade e do não-ser do Tempo». Trocando hoje almanaque por agenda creio que o seu pensamento continua a dizer-nos muito. De repente vi chegar um aniversário e tendo procurado contorná-lo ou mesmo esquecê-lo, vários foram aqueles que mo quiseram lembrar com algum estrondo, o qual, se é certo que me tornou seu eterno devedor, pôs à prova a minha capacidade de lho devolver com alguma utilidade. E também por isso aceitei escrever esta minha visão da efeméride. Falar em causa própria.

Como acontece nas festividades solsticiais, três dias depois do amanhecer do Sol o anunciar, mais exatamente no passado dia 3 de julho, numa quinta nas imediações do Solar Condes de Resende decorreu um almoço entre os sócios, confrades e familiares da associação dos Amigos daquela instituição. Inicialmente pensado como uma comemoração dos meus setenta anos, pedi às organizadoras (Maria de Fátima Teixeira e Amélia Cabral), e à direção da associação, que o transformassem na primeira ação pública presencial pós-pandémica, como uma ação de retoma das atividades presenciais, a qual acabou por reunir setenta pessoas, segundo as determinações da Direção Geral de Saúde, o que levou à impossibilidade de presença de mais algumas que não tinham ainda o quadro completo das vacinas ou que estavam retidas em quarentenas obrigatórias ou auto-assumidas. Fora da sua sede habitual, logo à entrada um roll-up queirosiano recordava a entidade que ali os juntava depois de muitos meses de trabalhos, cursos e outras ações por videoconferências ou outros meios. Muitos dos confrades apresentaram-se trajados, iniciando-se o evento com uma prévia e curta sessão durante a qual fez o discurso de boas-vindas o vice-presidente, o egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, acabado de chegar de mais duas viagens de estudo ao Egito faraónico. De seguida foram apresentados os restantes membros dos corpos gerentes 2020-2024 presentes. Também referidos vários emails e outras mensagens enviadas por diversos consócios que não puderam estar presentes, entre os quais Dagoberto Carvalho J.or e Ricardo Haddad ambos no Brasil. Para além de várias gentilezas pessoais para com o aniversariante, os comensais seriam entretanto surpreendidos pela chegada de um estafeta motorizado (interpretado pelo Dr. Licínio Santos…) para fazer a entrega da edição surpresa de um livro que reunia as suas crónicas publicadas entre 2004 e 2008 n’O Primeiro de Janeiro, intitulado Eça & Outras Crónicas Queirosianas, acompanhada de uma carta dirigida ao autor pelo próprio autor de A Relíquia (segundo versão de António Manuel Silva, que organizou a edição com Maria de Fátima Teixeira). A capa, que representa o autor como um dos voluntários liberais da Serra do Pilar, é da autoria do, também ali presente, Prof. Doutor Sérgio Veludo Coelho, seu antigo aluno especialista em História Militar, que entretanto se uniformizou como capitão do Batalhão do Arsenal do Ouro, trazendo consigo «a nomeação do aniversariante como coronel honorário do 3.º Batalhão Móvel de Vila Nova de Gaia por parte de S. A. I. D. Pedro de Bragança, em nome de sua Filha, a Rainha Senhora D. Maria II». Entretanto houve ainda tempo para o Dr. Vítor Ferraz declamar o poema “Dia de Anos” de João de Deus, adaptado às circunstâncias.

Enquanto entre os participantes circulava um Liber Amicorvm Vimarani Dedicatvs Postqvam LXX Diem Natalem Celebravit a recolher depoimentos e assinaturas, o grupo cantante Eça Bem Dito, com a pianista Maria João Ventura, e os cantores Valença Cabral, José Bordelo e Cristiana Borges (além do aniversariante) abrilhantou a sessão com algumas canções do seu repertório que falavam de beijos e de camélias, incluindo o Hino da Confraria (o dos Vencidos da Vida) e, embora tivessem mostrado a diferença europeia de “O Brinde” da Cavalheria Rusticana de Mascagni, foi com o “Parabéns a Você”, de Mildred J. Hill e Patty Hill, em tempos ronronado por Marilyn Monroe, mas aqui na sua habitual versão quase marcial, que procedi à abertura do bolo, receando escangalhar o emblema da Confraria que o decorava.

Entre Amigos vindos de Lisboa, Porto, Arouca e Vila Nova de Gaia, estiveram também presentes as jornalistas Dr.ª Nassalete Miranda do jornal As Arte Entre As Letras e Dr.ª Filipa Júlio de O Gaiense. Se não fossem todos eles, talvez este meu dia não tivesse sido mais um daqueles em que a agenda, «…por facécia ou perfídia», nos solta a mão e nos abandona a um vaguear «irremissivelmente confuso e perdido, dentro da vacuidade e do não-ser do Tempo». Mas não foi. Obrigado e um abraço a todos. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da direção da Confraria Queirosiana

«70 anos de J. A. Gonçalves Guimarães

Não é sem a reverência mais antiga e mais amiga ao Juiz Desembargador António Alberto Calheiros Lobo, da Relação do Porto, que me levou pela mão à Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia; depois de nos conhecermos no Recife, por ocasião de uma de suas vilegiaturas em nossas belas praias; que volto, ainda que em espírito, a essa acolhedora Casa de Cultura Eciana, ou Queirosiana, como oficialmente a chamam os portugueses de nascimento e a que, também, me habituei chamar, pelas muitas viagens, convivência, leituras e escritos. Pelo bem falar de confrades que a fizeram, fazem e engrandecem, a quem saúdo em nome de nosso Mesário-mor Joaquim António Gonçalves Guimarães. Pela condição, mesma, de ‘Grão Louvado’, como, ali, me receberam, todos, na inesquecível noite de 13 de outubro de 2008, conforme discurso de posse adaptado para o Diario de Pernambuco de 6 de dezembro do mesmo ano e incluído em meu livro Eça de Queiroz e Machado de Assis o Realismo de cada um, Editorial Tormes, Recife, 2009.

Voltei outras vezes à Quinta ‘queirozianamente’ consagrada e consagradora de Vila Nova de Gaia para evocar e louvar seu patrono e ouvir e muito aprender com ele e seus estudiosos, à frente dos quais, o referido Gonçalves Guimarães, a quem, agora – de modo especial – homenageio pelo transcurso de seus setenta anos, muitos dos quais dedicados a Eça e sua circunstância, em sua ‘Casa’ memorialmente vilanovense. Passara antes por encontros intelectuais em Lisboa/Oeiras, com especialistas do nível consagrador de Alfredo Campos Matos (para cujo Dicionário de EQ, viria a escrever verbetes); Dário Moreira de Castro Alves que me apresentou livro em Oeiras/ Lisboa e de quem eu viria a apresentar, na Fundação Joaquim Nabuco, Recife, edição do seu eciano Era Porto e entardecia; na Póvoa de Varzim, com Manuel José Ferreira Lopes, quando diretor da Biblioteca Municipal (lançamento de meu livro A Cidadela do Espírito – considerações sobre aArte Sacra na obra de EQ) e, no Porto, com a escritora Isabel Pires de Lima, com quem tivera a honra de participar de seminário eciano na Universidade Federal de Pernambuco.

Além dos livros que o consagram, J. A. Gonçalves Guimarães – como não poderia deixar de ser - está muito na Revista de Portugal, cujo título foi resgatar em publicação editada em Paris, fins do século XIX, pelo próprio Eça de Queiroz. Acompanho a Revista em sua nova fase como a seu editor e autor maior de, praticamente, todos os editoriais, com entusiasmo e interesse pelos temas por ele, ali abordados, como: ‘Quinta da Ervamoira: da Arqueologia ao Museu do Sítio’; «O ‘Relicário de D. João I’, de Filipe José Bandeira oferecido a Salazar»; «Macau na primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934. A viagem à China ao pé da porta»; «Um Vencido da Vida, notas biográficas de Luís Pinto Soveral (Marquês de Soveral), 1853 – 1922»; «História Empresarial, contributos para uma recente disciplina acadêmica em Portugal».

Bem que a minha declaradamente assumida ‘ecite’ e a admiração intelectual por nosso Mesário-mor justificariam outra visita ritual a Casa queiroziana de Vila Nova de Gaia, a que voltaria, mesmo sem a companhia física do paraninfo; não fossem os novos limites da sociabilidade, impostos pela pandemia que já mudou a ‘cara’ do século que, apenas, começa. Imagino – a receber-me - o amigo e mestre J. A. Gonçalves Guimarães, com os trajes rituais da Confraria, impondo a Casa e sua circunstância os augúrios e a confiança da intemporalidade». 

Recife, 21 de maio de 2021

Dagoberto Carvalho Jr.

Honorário da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia, Portugal.

Titular da Cadeira 25 da Academia Piauiense de Letras, Teresina, Piauí, Brasil.

Personalidades  Gaienses

          Comemorando a sua milésima edição, a direção do jornal semanário O Gaiense organizou no passado dia 25 de junho numa empresa de vinhos de Vila Nova de Gaia uma Gala onde foram apresentadas 100 personalidades naturais, residentes ou de algum modo ligadas a este município nomeadas por este órgão de comunicação social por se terem vindo a distinguir na vida local, regional, nacional e internacional. Entre outros, aquele jornal distinguiu o escultor Hélder de Carvalho; o médico psiquiatra Jaime Milheiro; os historiadores Francisco Barbosa da Costa, J. A. Gonçalves Guimarães e José Vaz; o escritor José Rentes de Carvalho, o programador dos auditórios municipais, Manuel Filipe de Sousa e o arquivista e diretor da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda; o gestor Albino Jorge; o professor e membro do Conselho Nacional da Educação, David Rodrigues; a Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia; António Pinho Vargas; Mário Mateus; e Eduardo Vítor Rodrigues, Este órgão da comunicação social foi entretanto distinguido com o prémio “Gazeta da Imprensa Regional”, o maior prémio da Imprensa regional portuguesa, o qual será entregue pelo Presidente da República em data breve.

          Uma exposição aberta ao público no dia 3 de julho no Aquivo Municipal de Vila Nova de Gaia assinala igualmente as 1000 edições deste semanário.

V Encontro de Literaturismo

          Nos passados dias 2 e 3 de julho decorreu a partir da sede da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, na cidade do Porto, em modopresencial e por videoconferência, o V Encontro Nacional de Literaturismo – Roteiros Literários, Turismo e Gastronomia, organizado por José Valle de Figueiredo com a colaboração daquela autarquia, tendo este abordado o tema “D. Jaime” na secção de abertura sobre «Revistas Culturais ditas regionais», tendo também apresentado comunicações, Manuel de Novaes Cabral sobre “Comboios para guardar, olhar e viver: o Museu Nacional Ferroviário no Entroncamento e os seus núcleos museológicos”, e José Augusto Maia Marques sobre “Literatura, Património, Gastronomia e Turismo”, além de outros conferencistas.

Investigadores do GHAP

          Na manhã do passado dia 30 de junho, a convite da Prof.ª Olga Cavaleiro, presidente da Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas e docente da Escola de Hotelaria do Porto, J. A. Gonçalves Guimarães realizou uma visita guiada para alunos nacionais e estrangeiros provenientes de vários países para o programa Cooking Art, a qual, tendo começado à porta daquele estabelecimento de ensino, foi descendo em direção ao Rio Douro parando em lugares emblemáticos onde se falou de produtos tradicionais do Douro, Trás-os-Montes e Beiras, das Francesinhas, das Tripas à Moda do Porto, do bacalhau e de outros produtos vindos de longe para serem incorporados na Gastronomia da região desde épocas distantes. As palavras finais foram já proferidas frente ao Douro e aos armazéns de Vila Nova de Gaia, referindo a sua antiga ligação às terras e paladares do Brasil.

          No dia 4 de julho, o mesmo investigador, a convite da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, participou na 6.ª edição do programa Open House organizado pela Casa da Arquitetura em Matosinhos, este ano chamando a atenção para lugares marcantes da paisagem urbana das principais cidades da Área Metropolitana do Porto sob o mote “Espaços para Respirar”, neste caso a Arqueologia da Paisagem do conhecido Jardim do Morro, o qual resultou de um projeto que remonta a 1927, comummente apelidado como um dos mais belos miradouros do mundo, com uma vista única sobre Vila Nova e o Castelo de Gaia, o Rio Douro e a cidade do Porto.

          No dia 10 de julho, enquanto decorria o encerramento da 4.ª Bienal Internacional de Arte de Gaia na Companhia de Fiação de Crestuma, em Lever, a investigadora Maria de Fátima Teixeira gravou uma entrevista em vídeo de divulgação da História daquela empresa, realizado por Artur Sousa para a sua rubrica no Facebook “À Conversa Com”, o qual foi emitida em três partes que tem já milhares de visualizações.

Livros

«A página Eça & Outras iniciou a sua vida pública a 31 de março de 2003, como veículo de divulgação das atividades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, instituição sedeada em Vila Nova de Gaia, e dos seus confrades e associados; ao mesmo tempo, rapidamente, veio a constituir-se como um «observatório queirosiano», dando conta de notícias, publicações e outros eventos de interesse para o estudo e valorização da obra eciana. Publicada originalmente como modesta folha volante policopiada, nessa qualidade se manteve, com uma periodicidade tendencialmente mensal, até junho de 2004. A abrangência das noticias e a pertinência dos comentários começaram, todavia, a justificar maior audiência e a exigir outros suportes de divulgação, o que levou a que a edição de novembro de 2004 viesse a público no suplemento «Das Artes Das Letras», do prestigiado jornal portuense O Primeiro de Janeiro, em janeiro de 2005, assim se inaugurando uma segunda série das «folhas», agora quase sempre acompanhadas de um texto ou crónica introdutória, por vezes sob forma epistolar, como sucedeu com a «Carta a Eça de Queiroz» que abriu essa segunda vida da página queirosiana. Nos anos seguintes, com infatigável ritmo mensal, foi no Janeiro que a folha queirosiana marcou encontro com os seus muitos leitores. Em 2008, com a cessação da edição impressa daquele periódico, Eça & Outras foi publicada no blogue da Confraria e, em maio de 2009, migrou para o novo jornal cultural As Artes Entre As Letras, onde continua a vir a público com a mesma periodicidade.

A presente recolha, realizada expressamente ex amicis Vimaranis para assinalar o seu aniversário natalício, reúne crónicas publicadas entre 2004 e 2008. Passada mais de uma década, esses textos mantém a frescura, a pertinência e a capacidade de restaurar o prazer com que originalmente foram lidos, sinal da acuidade do olhar e do discurso escorreito e bem regrado que definem a boa prosa. Mesmo trazendo-nos à memória «novidades [pouco] novas» - como costuma gracejar Gonçalves Guimarães – os bons nacos literários agora congregados, por certo abrirão o apetite para uma natural sequência, o que, de agora em diante, caberá à agência crítica do autor, em resposta aos convites que certamente lhe irão transmitir muitos fiéis apreciadores da página da Confraria». 

António Manuel Silva

Fátima Teixeira


          Acabam de ser publicadas pela editora Eikon de Bucareste as Poesias de Carlos Fradique Mendes, traduzidas, prefaciadas e comentadas pela Professora romena Cristina Petrescu. Neste seu livro apresenta as composições poéticas deste heterónimo coletivo criado em 1869 por Eça de Queirós, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, tendo-o dedicado à Professora Isabel Pires de Lima. Licenciada, mestre e doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Babes-Bolyai, estudou depois Literatura Portuguesa na Universidade de Bucareste. Ultimamente tem ensinado Língua Portuguesa, variante brasileira, na Casa do Brasil naquela primeira academia. É também intérprete de canções portuguesas e brasileiras, para além das suas próprias composições.

          Em 2016 esteve presente no capítulo da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende convidada pelo Dr. Henrique Guedes.    

Eleições na FAMP

       No passado dia 3 de julho, por videoconferência, como anunciamos na folha passada, decorreu a assembleia geral eleitoral da Federação dos Amigos dos Museus de Portugal (FAMP), da qual a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana faz parte, tendo sido eleita uma nova direção liderada pelo Professor Doutor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, a qual integra também, como vice-presidente, Dr.ª Maria do Rosário Alvellos; secretária, Dr.ª Maria Leonor Marinho; tesoureiro, Dr. Nuno Cruz Neves; e vogais, Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, em representação daquela segunda associação; Dr.ª Maria José Moniz Pereira; e Dr. José Bernardo Barahona. Os novos corpos gerentes tiveram já a sua primeira reunião no passado dia 7 de julho por videoconferência, onde analisaram os objetivos do mandato, atividades, novos associados, meios digitais, prémios Reynaldo dos Santos e Maria de Azevedo Coutinho de Vasconcelos e Sousa, além de outros aspetos organizativos.

Prémio de Turismo

          O Turismo do Centro de Portugal no passado dia 15 de Junho distinguiu a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, na qual a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana é filiada, depondo nas mãos da sua presidente da direção, Dr.ª Olga Cavaleiro, o galardão que exprime o seu reconhecimento «pelo contributo impar no desenvolvimento e notoriedade do Centro de Portugal».

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 155, domingo, 25 de julho de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: António Manuel Silva; Dagoberto Carvalho J.or; Henrique Guedes.

 

 

 

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Eça & Outras

Acordo caligráfico

De tempos a tempos a sociedade portuguesa elege um tema de interesse mais ou menos coletivo sobre o qual todos opinam. Não tem mal nenhum, é sinal de democracia e antes dizer asneiras em liberdade do que pretensas e efémeras verdades sob censura. Um desses temas, entretanto já substituído pelos prognósticos da epidemia, foi o mais recente acordo ortográfico. Como se fora o primeiro. Ou o último. E daí o charibari de opiniões que tem originado nos media, como se a Língua Portuguesa até aí tivesse sido em bronze gravada e, a partir de agora, esborratada em folhas de plástico descartável. Gente de todas as profissões com algum acesso a qualquer tribuna não deixaram de perorar contra as novas regras e houve mesmo quem tivesse proposto o resolver da questão como se ainda estivéssemos no tempo de D. Afonso III: só era português o que fosse falado e escrito do Minho ao Algarve, que “o resto” – os milhões de falantes por esse mundo fora, os bons escritores das antigas colónias, a evolução natural da língua, tudo isso eram “erros” a rever ou, no mínimo, a tolerar, mas não a aceitar e, muito menos, a incorporar. Alguma bacoquice nacional acreditaria mesmo que em dado tempo houve uma Língua Portuguesa virginal, pura e cristalina, certamente nascida no mítico berço da nacionalidade e da qual qualquer afastamento era, no mínimo, uma traição à Pátria. Sabem as mentes mais informadas que estas convicções não têm ponta por onde se lhes pegue. Entretanto o linguista Fernando Venâncio publicou um precioso livro intitulado Assim nasceu uma língua. Assi naceu ua língua, com um subtítulo elucidativo Sobre as origens do português, editado pela Guerra & Paz e já com várias edições. Como sobre ele se expressou José Rentes de Carvalho também direi: se nós mandássemos (ilusão celestial que também nos assiste), seria este livro de leitura obrigatória para todos os estudantes do ensino superior. E não apenas para os “de línguas”, mas para todos, até porque há por aí muito médico e arquiteto que, por entre duas receitas ou três projetos, também quer ser escritor premiado. O problema é a língua em algumas das suas valências, sobretudo a capacidade de transmitir mensagens que fiquem.

Mas recordemos alguns factos: já existem esboços de "acordo ortográfico" para a Língua Portuguesa pelo menos desde 1540 com a Grammatica de João de Barros e não desde ontem. Como se trata de uma língua viva é natural que, de tempos a tempos, haja necessidade de adaptar a sua fala a uma representação ortográfica a qual, para não ser anárquica ou ao sabor de cada um, carece de um acordo, um conjunto de regras que depois se fixam nos dicionários e gramáticas, revistos na sua ortografia e significados também de tempos a tempos. Sobretudo após as revoluções essa necessidade também se evidencia: foi assim em 1820; foi assim a seguir à República. Normal o é que no pós-25 de Abril também tal se equacionasse logo que possível. Este "manusear" da língua e das suas propriedades, se na realidade diz respeito a todos os seus falantes, deve ser confiado aos linguistas e gramáticos que a estudam e observam continuamente, que discutem e confrontam a sua matriz com a realidade e com as expressões idiomáticas que ela vai adquirindo com os mais variados contributos endógenos e exógenos. Sendo a língua, com as suas variadas pronúncias e acentuações, propriedade de todos os seus falantes, aqueles profissionais estudam duas realidades de sentidos opostos: por um lado uma língua-padrão normativa, erudita a artificial; por outro, as diversas particularidades dos seus falares e grafias. Assim posta em resumo, é esta a questão da ortografia da Língua Portuguesa ou de qualquer outra. Por isso vejo com alguma bonomia possível muita gente a falar e a escrever sobre “o acordo", sabendo-se que já existiram vários, todos eles com algo de controverso para os hábitos diários da escrita ou da leitura na época em que se apresentam. Sendo natural que algumas pessoas se sintam desconfortáveis com algumas atualizações, deverão lembrar-se que a língua é uma ferramenta que usamos todos os dias inadvertidamente e, quanto a "ferramentas", ficamos sempre aborrecidos quando nos mudam "a caixa dos pregos". Sobre tal escreveu Eça de Queirós, «…as línguas…são apenas instrumentos do saber – como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuína e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma delas e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e água da vida – é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado num pau simples, se aplicasse, durante os meses em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flores e folhagens ao comprido do pau» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes). E entretanto nada de frutuosas colheitas.

Chamando à colação este ou aquele escritor, este ou aquele jornalista que escrevem assim ou assado, julgando-se alguns os donos da língua, direi que sim senhor, mas só da deles. Porque o fundamental é que nos entendamos bem, quer no que escrevemos quer no que falamos. Quanto às regras atualizadas, elas não saltarão como que por encanto nem para a esferográfica, nem para o quadro da sala de aula. Mas nos dias de hoje estarão sempre disponíveis e atualizáveis num computador perto de si. Por isso não se preocupe muito com os acordos, pois há quem, com sabedoria e prática, os estude e proponha por si. E, se puder, ouça e leia mais os linguistas, do que os charadistas do "assim se escreve em bom português". É que a coisa não é assim tão simples, nem se resolve por portaria do ministério do bom senso e bom gosto. E aposto que Camões, Garrett, Eça de Queirós e outros terão opinião semelhante. Os quais, para além de um temporário acordo ortográfico, talvez lhe proponham antes que pratique um bom, limpo e útil acordo caligráfico, mesmo escrevendo no computador.


J. A. Gonçalves Guimarães
Secretário da direção da Confraria Queirosiana

Conclusão de projeto de investigação

          No passado dia sete de junho, através de videoconferência, e perante um júri presidido pelo Professor Doutor Luís Miguel Duarte da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e composto pelos Professores Doutores Jorge Fernandes Alves, como orientador, ambos da FLUP, tendo como arguentes António Rafael Amaro, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e Amândio Barros, do Instituto Politécnico do Porto, e ainda como vogais Gaspar Martins Pereira da FLUP e João Ramalho Cosme da Universidade Nova de Lisboa, o historiador J. A. Gonçalves Guimarães apresentou publicamente a sua tese de doutoramento intitulada “A Frota Mercantil do Porto e o comércio com o Brasil entre 1818 e 1825”, coroando assim um projeto de investigação sobre os armadores-negociantes e os grandes veleiros do segundo maior porto nacional, o complexo portuário do Baixo Douro (Porto-Vila Nova de Gaia) dos finais do Ancien Regime aos alvores do Liberalismo e nos primeiros tempos da independência do Brasil. O autor, licenciado em História e mestre em Arqueologia, fez o curso de doutoramento em História Contemporânea também naquela faculdade, tendo sido Professor Auxiliar convidado da Universidade Portucalense Infante D. Henrique, criador dos cursos livres do Solar Condes de Resende e docente convidado de várias outras instituições. A obra, que entretanto ficará disponível online, deverá ser publicada em breve, assim dando à estampa mais um projeto desenvolvido por um dos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património, grupo de trabalho fundado em 1982 naquela faculdade, desde 1987 sediado no Solar Condes de Resende e desde 2004 integrado como grupo de trabalho profissional nos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, de que é atualmente coordenador científico.

Medalha de Mérito

       No passado dia 10 de junho, feriado nacional, a União de Freguesias de Mafamude e de Vilar do Paraíso, Vila Nova de Gaia, galardoou com a Medalha de Mérito Cultura e Recreio 2021 o canteiro-ornatista António Pinto, em tempos monitor de um curso de canteiros que decorreu no Solar Condes de Resende e autor de diversas obras de escultura em pedra regularmente presentes no Salon d’Automne da Confraria Queirosiana e outras atualmente expostas na 4.ª Bienal de Arte de Gaia em exibição na Companhia de Fiação de Crestuma, em Lever, Vila Nova de Gaia.


Dr. Manuel Filipe, diretor dos Auditórios de Gaia no uso da palavra;
foto MFT.

Auditório Municipal de Gaia

       No domingo treze de junho passado o Auditório Municipal de Gaia comemorou 24 anos de abertura ao público sob a direção do Dr. Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa, que na ocasião recebeu das mãos de Paulo Rodrigues, presidente da Federação das Coletividades de Gaia, uma placa comemorativa alusiva à efeméride. Ao ato estiveram presentes a vereadora do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal e o secretário da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, entre outros. A evocativa cerimónia decorreu após mais uma sessão do 27.º Festival Internacional de Música de Gaia, organizado pelo Conservatório local, com a exibição do notável grupo Ars Longa de Havana que trouxe a este palco memórias da música barroca colonial através do programa “Gulamba Gulembe – Ressonâncias de África na América Colonial”, que encantaram uma sala cheia de acordo com os condicionalismos da pandemia.

 

Dr.ª Maria de Fátima Teixeira com os organizadores e participantes na Companhia de Fiação de Crestuma em Lever;
foto de Jorge Ricardo Pinto

Investigadores do GHAP

       Como habitualmente, diversos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património, grupo de trabalho profissional da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana têm participado em diversas ações de formação ou de divulgação de temas das suas profissões e estarão presentes em outras a realizar em datas próximas. Assim, no passado dia 19, sábado, na 7.ª edição de “Aprender na Rua” organizada pela Associação Portuguesa de Geógrafos sob a direção dos Professores Doutores José Alberto Rio Fernandes e Jorge Ricardo Pinto, a qual decorreu nas instalações da Companhia de Fiação de Crestuma, em Lever, Vila Nova de Gaia, a Prof.ª Maria de Fátima Teixeira falou sobre a história daquela unidade de produção oitocentista, dos seus antecedentes e das suas atuais valências, tema da sua dissertação de mestrado, entretanto publicada, mas também dos estudos que tem desenvolvido sobre a industrialização em Vila Nova de Gaia a partir deste local iniciático.

          No passado dia 23 de junho, véspera de S. João e feriado municipal nas cidades de Vila Nova de Gaia, Porto e Valongo, J. A. Gonçalves Guimarães, coordenador do G.H.A.P., gravou uma entrevista para o Porto Canal sobre o significado dos festejos do solstício de verão e das páticas antigas ou mais recentes que lhes estão associadas.

Eleições na FAMP

    No próximo dia 3 de julho por videoconferência vai realizar-se a assembleia geral da Federação de Amigos dos Museus de Portugal, de que a ASCR-CQ faz parte. Da ordem de trabalhos, para além da apreciação e votação do relatório do exercício de 2020 e contas da direção e da apreciação e votação do parecer do conselho fiscal, fazem parte a eleição dos órgãos sociais para o quadriénio 2021-2025 e a eleição de associados honorários, além de outros assuntos. 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 154, sexta-feira, 25 de junho de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana;
C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540;
IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com;
www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Eça & Outras

As memórias de guerra

Fui recentemente visitar um amigo de longa data no seu retiro geresiano, que me informou que estava a escrever as suas memórias do tempo em que esteve na Última Guerra Colonial e dos acontecimentos que nela viveu, muitos dos quais dolorosos e que ainda hoje o atormentam. Homem generoso e sensível, confidenciou-me que, tal como acontece com muitos outros que por lá passaram, não tem sido fácil viver com este peso. O passar ao papel essas más recordações, acompanhado de um permanente exercício de reflexão sobre elas e o seu enquadramento num determinado contexto de guerra, tem-lhe proporcionado algum alívio. Outros têm preferido negar, tentando esquecer ou tentando apagar, sem o conseguirem. É conhecido que, com a liberdade de expressão e divulgação que o 25 de Abril proporcionou, o afã memorialístico dos antigos combatentes tem produzido um número infindável de livros, uns ficcionados, outros testemunhos escritos, e também em gravações sonoras e de imagens, coleções de memorabília, algumas delas com objetos macabros ou, no mínimo, insólitos, outros etnográficos, além de outros perigosos, como armas ou munições e outra militária, representativos desses catorze anos de guerra em cinco frentes: Estado Português da Índia, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste. Se é certo que muitos escrevem, e até publicam, essas memórias absolutamente pessoais, mas também colectivas, pois a guerra tocou a todos de uma forma ou de outra, a sua qualidade é muito variável, pois depende da capacidade de escrita do autor, das situações que viveu ou que observou e da compreensão que sobre elas teve ou tem agora no ato de as passar ao papel ou a outro suporte. Recordemos que durante as comissões de serviço uma das tarefas que minoravam o distanciamento era a prática, às vezes diária, da correspondência com a namorada ou a madrinha de guerra, os pais, outros familiares ou amigos distantes. Por isso muitos dos combatentes produziram então, cada um à sua conta, centenas de cartas e de aerogramas, hoje fontes inesgotáveis de memórias, quando guardados. Em alguns casos já publicados em livro, como por exemplo, Morto por te ver. Cartas de um soldado à namorada (Angola, 1967-1969), de Cesário Costa, Porto: Edições Afrontamento, 2007.

Se este afã publicista é legítimo e até compreensível, recordemos que, noutro contexto, sobre ele escreveu Eça de Queirós: «Eis aí uma maneira de perpetuar as ideias de um homem que eu afoitamente aprovo – publicar-lhe a correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem – que o valor das ideias (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes), ou seja, que a publicação das correspondências deveria ser adiada para depois da ausência viva dos correspondentes. Mas neste caso dos antigos combatentes a urgência tem-se entendido como uma necessidade de aclarar uma discussão que continua em aberto sobre a da legitimidade e utilidade da Última Guerra Colonial. Voltando a Eça, já ele tinha escrito no século XIX: «Para que temos colónias? E ai de nós que não as teremos por muito tempo! Bem cedo elas nos serão expropriadas por utilidade humana. A Europa pensará que imensos territórios, pelo facto lamentável de pertencerem a Portugal, não devem ficar perpetuamente sequestrados do movimento da civilização; e que tirar as colónias à nossa inércia nacional, é conquistá-las para o progresso universal.» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre). Como é sabido, ninguém entre nós quis saber destas reflexões para nada e, passados cem anos, deu no que deu: mortos, estropiados, inadaptados, retornados e refugiados, e felicidades adiadas. E produção de memórias, como exercício de tentativa da sua compreensão.

          Este tipo de escrita, as memórias pessoais, não é novo, embora ao longo dos tempos tenha assumido formas muito variadas. Mesmo Eça de Queirós (1845-1900) parte das memórias da sua ida ao Próximo Oriente em 1869, foram logo publicadas em janeiro seguinte no jornal Diário de Notícias e, anos mais tarde, num livro com o título de O Egipto. Notas de Viagem, tendo guardado as restantes recordações dessa viagem para as ficcionar no romance A Relíquia. Alguns escritores (e quantos outros que ainda o não são) alimentam diários de bordo da sua própria e imaginada caravela, publicando-os depois de bem revistos e literaturizados. Mas estes textos não são propriamente “memórias”, pois estas pressupõem um certo distanciamento no tempo em relação aos acontecimentos narrados.

          Mas estamos a referir-nos a memórias de guerra, exercício também com alguma tradição entre nós, pelo menos desde as Guerras Napoleónicas, mas quase sempre de publicação demasiado tardia, como é o caso de alguns relatos das campanhas coloniais pós-Ultimatum. Em relação à primeira Grande Guerra, ainda aparecem relatos inéditos, como era o caso das Memórias de um Expedicionário a Moçambique (1917-1919), de José Pereira do Couto Soares, publicadas pela Confraria Queirosiana em 2016, as quais esperaram quase um século para serem divulgadas, ou das memórias da participação no teatro de guerra europeu de Francisco da Silva, enfermeiro hípico na 1.ª Guerra Mundial, escrito por Susana Guimarães a partir de arquivo familiar do dito e publicado na Revista de Portugal n.º 13 também em 2016.

Mas agora a nossa urgência civilizacional reclama que as memórias da guerra se soltem nos nossos dias. Para repouso da mente e da reconciliação com o passado recente em que se unam, ainda que no esconjuro da desgraça, os que foram seus responsáveis como mandantes (alguns ainda vivos), outros protagonistas e outros apenas como espectadores, nomeadamente a maioria das mulheres daqueles tempos. Se alguns há muito que tentaram lavar as mãos, ninguém da minha geração as tem limpas deste assunto. E temos consciência disso. 

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da Confraria Queirosiana


A Confraria Queirosiana brinda à Academia Alagoana de Letras no celebração do Acordo entre as duas instituições; 
foto Maria de Fátima Teixeira

Acordo de Cooperação Luso-Brasileiro

Como foi anunciado na página anterior, no passado dia 12 de maio, via Zoom, foi assinado um acordo de cooperação entre a associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana e a Academia Alagoana de Letras (AAL). Assim, entre as dezanove e as vinte horas (15 e 16 no Brasil), a partir do auditório do Solar Condes de Resende, foi partilhado o seguinte programa, conduzido pelo secretário da direção J. A. Gonçalves Guimarães, acompanhado pelo presidente da direção, José Manuel Tedim, vogais Amélia Cabral, António Pinto Bernardo, e Manuel Moreira; presidente da assembleia geral César Oliveira; do conselho fiscal Fernando Rui Soares; os investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património, Maria de Fátima Teixeira, Licínio Santos e Cristiana Borges, que asseguraram a parte técnica; em representação do Município de Vila Nova de Gaia a vereadora da Cultura e também confrade, Paula Carvalhal. Também presentes, via Zoom, o vice-presidente Luís Manuel de Araújo e o vogal da direção Manuel Nogueira; o presidente do conselho fiscal Manuel Filipe, além de vários outros confrades. Perante uma numerosa delegação da AAL visível no écran do computador, a sessão abriu com uma saudação do seu presidente, Professor Doutor Alberto Rostand Lanverly que salientou a transcendência do momento para ambas as instituições e a Cultura Lusófona, a que se seguiu a leitura do Acordo pelo secretário da AAL, Doutor Diogenes Tenório Júnior, tendo o mesmo sido assinado por ambos os presidentes em cópias previamente cruzadas. Seguidamente proferiu uma saudação o Prof. Doutor José Manuel Tedim, e a Eng.ª Paula Carvalhal em nome do município gaiense.

O momento literário do programa foi anunciado pelo alagoano Dr. Marcelo Malta, também ele confrade queirosiano, que apresentou o jubiloso ator Chico de Assis, que declamou o texto “O Povo” de Eça de Queirós e depois uma composição em verso de Jorge de Lima.

Do lado de Portugal os confrades presentes cantaram o Hino da Confraria (a Rosa Tirana, com versos atuais de António Rua), pela primeira vez apresentado como Hino dos Vencidos da Vida num jantar em casa do Conde de Arnoso, em Lisboa, a 21 de maio de 1889. Desta vez, com acompanhamento ao piano por Maria João Ventura, do grupo cantante Eça Bem Dito, a que se seguiu um brinde aos académicos alagoanos apresentado por César Oliveira com o Porto 20 Anos “Confraria Queirosiana” produzido pela Quinta da Boeira.

A sessão encerrou com as palavras do sócio da AAL, Doutor Carlos Barro Mero, fazendo votos para que a Acordo agora assinado passe a ser um instrumento permanente de união de propósitos culturais entre os dois lados do Atlântico.

Entre outras divulgações a assinatura deste Acordo foi noticiada a 15 de maio nos jornais Gazeta de Alagoas, pelo jornalista Maylson Honorato, com chamada à primeira página, e em O Gaiense, pela jornalista Filipa Júlio.


Alberto Rostand Lanverly, presidente da AAL, exibe o Acordo assinado.

História-Património-Turismo

Pela Academia Eça de Queirós prossegue a preparação do 29.º curso do Solar Condes de Resende a iniciar no próximo mês de Outubro, coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim, desta feita subordinado ao tema “Turismo - História – Património”, o qual decorrerá ao longo de 13 sessões de duas horas cada, em modo presencial e por videoconferência, entre as 15 e as 17 horas. Estão já definidas as áreas a abordar, desde ao origens históricas do Turismo até à sua importância económica, social, cultural e até geopolítica dos dias de hoje, passando pelos “turismos” religioso, literário, militar, hoteleiro, gastronómico, enófilo, musical e outros, abordados por especialistas nas várias matérias, alguns dos quais docentes em vários estabelecimentos do Ensino Superior. Aceitaram já serem professores neste curso, para além dos coordenadores, Nuno Resende e Barros Cardoso da FLUP, Sérgio Veludo Coelho da ESE/IPPorto, e Maria de Fátima Teixeira do GHAP, aguardando-se a confirmação de outros professores convidados.

Livros e Autores

       Estando em curso as comemorações dos 200 anos da Revolução de 24 de Agosto de 1820 que introduziu Portugal na Época Contemporânea, as suas consequências levaram à guerras civis entre liberais e absolutistas que só terminaram com a Convenção de Gramido de 29 de junho de 1847. O momento alto dessas movimentações militares foram efetivamente os sítios à cidade do Porto em 1828, onde se acantonou a revolta militar de Aveiro organizada pelo juiz Teixeira de Queirós, bisavô de Eça de Queirós, e em 1832-1833, o denominado Cerco do Porto, cidade onde se tinha refugiado o exército de D. Pedro, e no qual desempenhou um especial papel estratégico o Mosteiro da Serra do Pilar em Vila Nova de Gaia, baluarte inconquistável encravado nas linhas miguelistas.

          Estes combates foram travados por militares de carreira e milicianos, conscritos, voluntários e mercenários em ambos os lados. Sérgio Veludo Coelho, professor de Património e investigador de História Militar, um dos melhores especialistas desta área e período, acaba de publicar Guerra Civil 1828-1834. Tropas & Uniformes. Porto: Fronteira do Caos, 2021, obra muito ilustrada com gravuras da época, complementadas com desenhos dos uniformes, armas e acessórios, rigorosos do ponto de vista histórico, mas também graficamente muito apelativos nas suas cores, de todos os corpos militares, de oficiais, sargentos e praças e estandartes de ambos os exércitos, também de sua autoria. De entre as ilustrações saliente-se, por geralmente pouco conhecido ou referido, o célebre canhão-obus Paixhans, o “Mata-Malhados”, colocado no cimo do Castelo de Gaia para bombardear o Mosteiro da Serra do Pilar e assim tentar daí desalojar os defensores liberais.

          Uma obra fundamental sobre os protagonistas, dos quais ainda hoje existem descendentes que quererão honrar a memória dos seus antepassados que acreditavam naquilo por que lutaram. Esta obra terá em breve uma edição inglesa.

Prémio das Artes Decorativas

No próximo dia 27 de maio, pelas 17 horas, será entregue pelo Doutor Francisco de Olazabal, no Museu Soares dos Reis, o prémio das Artes Decorativas Dr. Vasco Valente, instituído pelo Círculo Dr. José de Figueiredo, em homenagem ao primeiro diretor da instituição, e desde 2017 patrocinado pela Quinta do Vale Meão (Francisco de Olazabal & Filhos, L.da). O júri da edição de 2019, atribuiu o prémio à Mestre Diana Felícia Pinto, pelo seu trabalho “De Campanis Fundendis – A Fábrica de Fabrico de Sinos de Rio Tinto”.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 153, terça-feira, 25 de maio de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

domingo, 25 de abril de 2021

Eça & Outras

 Humor britânico

A minha geração nunca mais esquecerá as séries de televisão Monthy PythonYes, Prime Minister, ou Mister Bean, as quais materializaram para nós o proverbial humor britânico. Os mais eruditos já tinham lido Three Men on a Boat, de Jerome K. Jerome, divulgado a primeira vez no já distante ano de 1889, quando em Portugal é publicado o livro As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, traduzido por, ou com a revisão de, Eça de Queirós, que lhe acrescenta um incomparável british humour superior ao do texto original. Lembremos aqui, a propósito, o estudo analítico da versão queirosiana por Alan Freeland, publicado na Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, dirigida pelo Professor Carlos Reis.

Tudo isto a propósito do recente passamento do príncipe Filipe, duque de Edimburgo, dono de um notável sentido de humor com aquelas características de sátira, absurdo, autocrítica e inalterável postura, ainda que o mundo desabe à volta, que tão bem definem o humor britânico. E por isso não resisto a contar aqui uma situação em que revelou essa sua faceta entre nós.

A 23 de março de 1985, acompanhando sua mulher a rainha Isabel II de Inglaterra, visitou a cidade do Porto, tendo ambos sido recebidos nos Paços do Concelho pelo presidente da República, general Ramalho Eanes, e pelo presidente da Câmara, eng.º Carlos Brito. Logo aí os discursos de boas vindas enfatizaram os históricos lugares comuns de circunstância: a “velha aliança” entre Portugal e Inglaterra, o casamento de D. João I e da inglesa D. Filipa de Lencastre em 1387, de que depois aqui nasceria o Infante D. Henrique, a Feitoria Inglesa e o vinho do Porto. Seguiram daí para a Feitoria Inglesa, onde outros discursos lembraram de novo a “velha aliança”, o casamento de D. João I e D. Filipa de Lencastre em 1387, o Infante D. Henrique, o vinho do Porto e a própria Feitoria. Dali o cortejo deslocou-se à ribeira do Porto para ser saudado pelos marinheiros de uma corveta da Marinha de Guerra Portuguesa surta no Douro e pelos tripulantes de uma dúzia de barcos velhos, um rebocador, duas traineiras, meia dúzia de embarcações de desporto ou passeata, as que se arranjaram para a ocasião em memória das navegações de outros tempos. As sirenes apitavam, o povo saudava, os canhões lá deram os tiros da praxe, os Mareantes do Rio Douro da outra banda com os seus bombos, a chamarem a atenção para os armazéns de Vila Nova de Gaia. E o povo gritava, saudava e vibrava com a presença do casal real, que seguiu a pé, pisando um escorregadio tapete de flores até à Casa do Infante onde decorreu o almoço. Depois do repasto, os brindes… e de novo… a “aliança”…o casamento de D. Filipa de Lencastre em 1387… o Infante…o vinho do Porto…, tudo isto repetidamente traduzido pelos “línguas” de serviço junto dos régios ouvidos, que com tanta insistência já deviam estar a caminho de decorar estes pilares da eloquência local.

Pelo final da tarde a real visita culminou com uma sessão de cumprimentos no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, com o casal real rodeado pelas autoridades, jornalistas, seguranças e outros habitués nestas coisas. A “guarda de honra” foi feita pelos membros da Confraria do Vinho do Porto, que aliás foram incansáveis na tentativa de dar algum brilho a esta visita. Os representantes das instituições convidadas para apresentarem os seus cumprimentos foram enfiados na Sala dos Retratos e, a partir daí, anunciados um a um com solenidade por um mestre de cerimónias: «vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha Isabel II o senhor fulano de tal em representação da instituição tal…. E por aí fora. Felicíssimos pela distinção, no auge da sua íntima euforia, a maior parte dos cumprimentadores ou não foi elucidada ou esqueceu-se de se informar sobre uma questão agora fundamental: como é que se cumprimenta uma rainha e o príncipe consorte ? E o mestre de cerimónias, com a regularidade do relógio da Sé quando dá horas, lá chamava: «vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha Isabel II o senhor fulano de tal…» que entrava com um rosto sorridente, pescoço esticado e peito inchado no smoking usado nos bailes do Club Portuense já um pouco apertado, avançando com passo firme pela porta de acesso, situação que rapidamente passava a desesperado pânico à medida que deslizava em direção à soberana, príncipe consorte e demais autoridades. Alguns estacavam a meio, olhavam atónitos à sua volta em busca de um ali inexistente manual de etiqueta, começavam a suar frio, mas lá partiam de mão direita em riste para um aperto de mão mole e delicado ou efusivo e agitado, conforme os casos, distribuindo depois réplicas à direita e à esquerda, às vezes com uma pequena vénia ou passo de dança com vénia antes ou depois do cumprimento à rainha. Mas tudo isto muito à vontade do freguês, muito variado. E eis que a dado momento, na lenta sequência protocolar o mestre de cerimónias anuncia: «… vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha a senhora D. Filipa de Lencastre…». Nesta altura o príncipe Filipe, vendo entrar uma senhora já octogenária, entre o intrigado e o divertido, busca em volta uma possível explicação, exclamando para os circundantes: «mas então ela ainda é viva?». Não, não era a inglesa que em 1387 tinha casado no Porto com o rei D. João I, mas sim uma senhora portuguesa muito mais recente, descendente daquela estirpe real e com o mesmo nome, neste caso a esposa de D. Henrique de Cernache, conde de Campo Bello e bailio da Ordem de Malta também ali presente.

É caso para considerar como escreveu Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra. Crónicas de Londres: «um inglês é sempre excêntrico, mesmo quando é sublime».

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da Confraria Queirosiana

Acordo de Cooperação Luso-Brasileiro

Entre a Confraria Queirosiana e a Academia Alagoana de Letras (AAL) vai ser celebrado um acordo de cooperação previsto por videoconferência para o dia 9 de maio pelas 19 horas (hora portuguesa), que tem como objectivos «promover a cooperação entre as duas instituições com o fim de realizarem conjuntamente actividades destinadas à promoção das culturas portuguesa e brasileira em todos os continentes e, notadamente, nos países lusófonos».

Fundada a 1 de novembro de 1919 a AAL tem a sua sede própria no município de Maceió, Alagoas, sendo o seu corpo social composto por quarenta académicos distribuídos por cadeiras numeradas que evocam alagoanos ilustres, entre os quais o lexicógrafo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira e o ex-presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello. O actual presidente é o engenheiro Alberto Rostand Lanverly.

O contato entre ambas as entidades foi já iniciado no capítulo da Confraria Queirosiana de novembro de 2019, onde foi empossado como confrade o Dr. Marcelo Malta, vice-prefeito de Satuba, Estado de Alagoas. Entretanto os sócios e confrades da Confraria Queirosiana foram convidados a enviarem textos seus para o próximo número da publicação anual daquela academia, tendo sido feito idêntico convite aos seus académicos para colaborarem no próximo número da Revista de Portugal.

Curso livre sobre o Antigo Egito

Com uma aula extra sobre «A escrita hieroglífica egípcia», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e vice-presidente dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (ASCR-CQ), decorreu ontem dia 24 de abril a 14.ª e última sessão do curso sobre o Antigo Egito, organizado pela Academia Eça de Queirós da associação ASCR-CQ, certificado pelo Ministério da Educação, através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente e coordenado por aquele egiptólogo. Com sessões aos sábados entre as 15 e as 17 horas, devido às restrições de presença e circulação impostas pela pandemia, foi quase inteiramente ministrado por videoconferência (à exceção da primeira sessão), o que também permitiu a sua frequência por parte de alunos de Lisboa e outras localidades, ou mesmo do Brasil.

Desde a sessão de abertura, a 17 de outubro, teve como professores J. A. Gonçalves Guimarães (ASCR-CQ) sobre «O que é que Vila Nova de Gaia terá a ver com o (Antigo) Egito?), seguindo-se o Prof. Doutor José Varandas (FLUL), «O Mar Mediterrâneo na Antiguidade» (31 de outubro); Luís Manuel de Araújo (também da Associação de Amizade Portugal-Egito), que além da aula de encerramento, já referida, apresentou ainda «A longa história da civilização egípcia» (14 de novembro); «Coleções egípcias em Portugal» (12 de dezembro); «A viagem de Eça de Queirós e do Conde de Resende ao Egito» (20 de fevereiro); e «O “Livro dos Mortos” do Antigo Egito» (27 de março); o Prof. Doutor José das Candeias Sales (Universidade Aberta) leccionou «Egiptologia e egiptomania» (4.ª sessão); «A arquitetura do Antigo Egito» (9 de janeiro); e «O Antigo Egito no Cinema» (17 de abril); o Prof. Doutor Rogério Sousa (FLUL) sobre «A arte funerária do Antigo Egito» (23 de janeiro) e «Erotismo e sexualidade no antigo Egito» (6 de março); e o Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão (FLUL) sobre «As ciências no Antigo Egito» (6 de fevereiro); e «A literatura do Antigo Egito» (10 de abril), num total de 14 sessões.

O próximo curso, a iniciar em outubro com sessões presenciais e por videoconferência, terá como tema História – Património – Turismo.

Livros e Autores 


Com edição coordenada pela Professora Doutora Annabela Rita e patrocinada por diversos institutos universitários de Lisboa, Madrid, Paris, Roma e Curitiva, foi publicado um volume com a farsa em um acto de Filomena Oliveira e Miguel Real Aproxima-te um pouco de nós e vê. Eça em cena 120 anos depois, seguida de ensaios de Annabela Rita, Fernando Andrade Lemos e outros autores.

Passados dez anos após a primeira edição, Ricardo Charters d’ Azevedo apresenta-nos um novo livro com a revisão do seu curioso estudo intitulado Quem escreveu o Couseiro ?, sobre quem será o autor do curioso texto intitulado «O Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria», cuja primeira versão remonta ao início do século XVII. Nesta revisitação encontra o leitor um capítulo dedicado à análise das propostas de outros autores que entretanto escreveram sobre o assunto na tentativa de desvendarem aquela autoria, seguido de uma atualização do texto original à luz do muito que nestes últimos dez anos se publicou sobre Leiria.

O autor conclui que nunca se saberá ao certo quem escreveu aquele texto, apresentando entretanto aquilo que define como «somente uma teoria, uma boa teoria, julgo eu, que espero que continue a ser comentada e rebatida, para que possamos aprofundar os nossos conhecimentos sobre este assunto».

VII Colóquio Internacional Luso-Brasileiro

         Como referimos na página de março vai realizar-se em Lisboa entre 22 e 27 de novembro este colóquio (que é também o XXIV Colóquio Eça de Queiroz/ Telheiras), o qual terá lugar na Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais (dias 19 e 20), na Escola Secundária António Damásio, Olivais (dia 21), e na Universidade Europeia, Carnide (dia 22 e 23). Com coordenação geral do Dr. Fernando Andrade Lemos, a comissão científica tem como presidente a Professora Doutora Annabela Rita da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Dr.ª Nassalete Miranda do jornal As Artes entre As Letras, entre outros. Nas sessões estão inscritos com comunicação diversos confrades queirosianos. Logo na primeira sessão Alfredo Campos Matos falará sobre «Apresentação da Primeira Versão Francesa da Biografia de Eça, na Gulbenkian de Paris com o título “Vie et oeuvre d’Eça de Queiroz”» e Fernando Andrade Lemos e outros sobre «A “Vessica Piscis” na Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu – Telheiras». No dia 21 falarão o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, vice-presidente da Confraria Queirosiana, sobre «A Coleção Egípcia do Museu Nacional do Rio de Janeiro» e o Dr. César Veloso sobre «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós». No final de cada sessão decorrerá o lançamento de várias obras de autores presentes neste colóquio, o qual serve também para a acreditação de professores. Para inscrição e mais informações ver https://coloquioslusobrasi.wixsite.com/cilb2018  

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 152, domingo, 25 de abril de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Eça & Outras

Antepassados, vendem-se!

Fui recentemente abordado através do Facebook por um “fornecedor de árvores genealógicas", o qual se ofereceu para me disponibilizar a minha como descendente de D. Pedro e D. Inês e de um arcebispo, pelo menos. Rapidamente percebi que se tratava de um cangalheiro de antepassados que tenta por a “empresa pessoal” a render, obviamente a troco da respectiva gratificação não faturada. Constatei na sua página pessoal do Facebook que tem como habilitações o ter frequentado um determinado externato e que trabalha no Ministério da Justiça! Já conheci vários outros, ou deles ouvi falar, e alguém me disse que este negócio ilegal vai de vento em popa, normalmente exercido por pessoas sem qualquer preparação académica adequada para tal. Aquele que acima refiro, afirmou-me, por escrito, que «…não há possibilidades de ter dados para trás de 1580…pois foi a data a partir da qual se começou a fazer o registo sistemático dos assentos de baptismo, casamento e óbito nas igrejas…», talvez devido ao “vazio social” criado pelo desastre de Alcácer-Quibir, acrescentaria qualquer outro seu “compadre especialista”. Ora, qualquer historiador profissional sabe a origem dos registos paroquiais e que, por exemplo, no Arquivo Distrital do Porto existem registos anteriores àquela data, desde a década de trinta do século XVI. Adiante.

E veio-me à mente o título de uma interessantíssima peça de teatro de Joaquim Paço d'Arcos, Antepassados, vendem-se, à qual, quando jovem, assisti no Teatro Experimental do Porto e que já nessa época me alertou para a questão das genealogias e das inerentes mitomanias. Como historiador, sobre elas tenho a seguinte opinião: as resenhas genealógicas feitas na actualidade devem ser trabalho de investigação historiográfica, pelo que só serão válidas se feitas por profissionais da História a título individual, ou como sócios de empresa ou instituição com investigadores devidamente habilitados. Se feitas por quaisquer outros licenciados, ou nem por isso, nem sequer serão de considerar. Entretanto, muitas das árvores genealógicas feitas no passado por diversos autores têm vindo a ser objecto de rigorosa revisão pelos historiadores e é ver a que conclusões estes chegam. Como é sabido as genealogias baseiam-se, antes de mais, na leitura de documentos, registos paroquiais e outros da mais variada origem, natureza e objetivos, os quais, além de terem de ser bem lidos, paleograficamente falando, terão de ser devidamente enquadrados no seu contexto histórico, pois se assim não for podem dar origem a transcrições e interpretações erradas. Como bem o sabem os profissionais, muitas vezes a fiabilidade de um documento depende não apenas do facto de ser fisicamente verdadeiro, mas também de ter de o ser no seu conteúdo, pois existem documentos autênticos com conteúdos deliberadamente falsos ou, pelo menos, ambíguos. Essa fiabilidade depende também da qualidade intelectual de quem os escreveu: um assento paroquial escrito por um pobre padre-cura de paróquia rural normalmente não tem a mesma qualidade informativa do escrito por um padre doutor. Depois convém cruzar os dados de vários documentos referentes aos mesmos indivíduos, que ora acrescentam ora mudam de nome, e convém saber por quê. Não há muitos registos de crisma. Em todo o caso os historiadores sabem o que dizem os documentos mas não sabem o que se passou no palheiro. O documento garante uma situação social, mas não moral nem biológica. Em todos os tempos houve situações diversas que o "bom nome" adequou às conveniências com a cumplicidade, ou até a ignorância, dos envolvidos. A partir do século XVI, se é certo que passaram a ser sistemáticos os registos paroquiais, alguns deles são, pelo menos, duvidosos e as árvores genealógicas a que podem dar origem poderem estar erradas, ou falseadas. A razão é bem compreensível: entre aldrabar os dados sobre uns avós ou perder a fortuna, ou mesmo a vida, por pertencerem a uma família de judaizantes, protestantes ou outros heterodoxos perseguidos pelos poderes vigentes. Quem tinha dinheiro e tempo para tal, arranjava documentos genealógicos falsos para não ser perseguido ou incomodado. Nesses casos convém perceber que estamos a lidar com informação deliberadamente adulterada. Depois havia também o caso de crianças que nasciam com doze e treze meses: já o pai estava para a Índia há mais de um ano e a mãe "co'as soidades" não havia meio de parir, o que normalmente ocorria noutra terra onde o calendário pessoal não era conhecido. Quanto ao uso de apelidos familiares ou títulos sociais, convém também perceber que tal não era automático nem linear e que, não obstante as tentativas de uniformização ou regulação, tal variou ao longo dos tempos, mas também ao longo da vida do mesmo indivíduo. No meio da variada documentação consultada, só os historiadores conseguem aperceber-se das manobras de ocultação ou de fabrico de mentiras sociais, ou de verdades inconvenientes. A biologia pode ajudar a destrinçar algumas interrogações, através dos estudos de ADN, bem assim como as Ciências Forenses, mas só nos casos em que restos mortais, inequivocamente referenciados, existam. Podem juntar-se alguns estudos epigráficos ou heráldicos, também raros e que carecem sempre de uma boa análise crítica. Por tudo isto, e muito mais, creio ter demonstrado que os estudos genealógicos de qualquer indivíduo ou família são assunto para historiadores profissionais, e não para qualquer pessoa. Como já Eça de Queirós tinha anotado, «em Portugal…todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por Excelência (A Correspondência de Fradique Mendes). É talvez com esta convicção que vemos hoje muitos cidadãos entretidos a colecionar antepassados como quem coleciona cromos, lendo à letra, e muitas vezes a muito má letra, os documentos do passado. E para encontrarem o que até previamente desejam existem sujeitos sem habilitações ou com habilitações impróprias e inadequadas a ganharem dinheiro com essa actividade, nomeadamente até para obterem benesses públicas concedidas por determinada legislação de exceção. Aqui o Estado esqueceu-se de obrigar à «clara certidão da verdade» certificada por tem autoridade para tal. Por tudo isto convém repetir, para quem estiver interessado, que as árvores genealógicas só têm credibilidade e aceitação se forem feitas por profissionais habilitados e competentes, pois de outro modo não servem rigorosamente para nada, historiograficamente falando. E assim como nos dias de hoje não é ginecologista quem quer, também o não é quem se diz genealogista. E mesmo as árvores genealógicas credíveis nem sempre são fáceis ou conclusivas: veja-se, por exemplo, a de Fernão de Magalhães, que tem dado origem a inúmeros candidatos a "descendentes". A História social conhece muito bem estes fenómenos de mitomanias pessoais, familiares ou coletivas.

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da Confraria Queirosiana


Eça de Queirós e o Vinho Verde

       No passado dia 17 de março, na 7.ª sessão da 2.ª temporada de apresentação de vinhos de Confrades, realizada através da Plataforma Zoom e organizada pela Confraria do Vinho Verde, J. A. Gonçalves Guimarães fez uma intervenção sobre «O Vinho Verde na obra de Eça de Queirós», a partir de um trabalho com esse mesmo título que em 2010 publicou em colaboração com Susana Guimarães, à qual assistiram não só membros daquela confraria, mas também vários confrades queirosianos. A sessão pode ser vista em: htpps://www.youtube.com/watch?v= CAb4ec66h3s

Livros

Nos dias 20 e 21 passados, a Comissão de Vitivinicultura da Região dos Vinhos Verdes organizou um evento intitulado «Dois dedos de Conversa sobre Livros e Vinhos Verdes» com a colaboração da editora Alêtheia. No domingo, dia 21, pelas 12 horas, J. A. Gonçalves Guimarães comentou a edição do livro de Eça de Queirós, O Egipto. Notas de Viagem, reeditado por aquela editora em 2015, aludindo à génese da obra na viagem realizada em 1869 pelo escritor, na companhia do 5.º conde de Resende, à inauguração do Canal de Suez, logo parcialmente publicada em folhetins no Diário de Notícias, tendo-se então gorado a hipótese da sua publicação em livro, o que só veio a acontecer em 1926, numa edição organizada pelo seu filho mais velho, com critérios muito pessoais. Entretanto as notas então recolhidas serviram como passagens ou capítulos de algumas outras obras que Eça publicou, mormente em A Relíquia, onde “esgotou” os apontamentos sobre a Baixa Síria e a Palestina. Neste programa, foram ainda referidas as contribuições recentes para a interpretação desta obra por diversos estudiosos queirosianos, como A. Campos Matos e o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, bem assim como a seu interesse para o leitor actual, não deixando de ser referida a possibilidade de se tornar livro de cabeceira daqueles que, ainda hoje, realizam uma viagem ao Egito parcialmente decalcada da realizada em 1869 e guiada por aquele egiptólogo, autor de Imagens do Egipto Queirosiano. Recordações da jornada oriental de Eça de Queirós e o Conde de Resende em 1869, Solar Condes de Resende, 2002.

Colóquio sobre Eça de Queirós

         O Centro Cultural Eça de Queiroz de Telheiras, Lisboa, está a preparar a organização do seu 6.º Colóquio Internacional Luso-Brasileiro e 26.º Colóquio Eça de Queiroz, a realizar entre os dias 22 e 27 de novembro deste ano. O programa será divulgado em breve,

Curso sobre o Antigo Egito

        Prossegue o curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ), com uma pequena alteração no calendário e a inclusão de uma lição extra. Assim depois da 10.ª sessão sobre «Erotismo e sexualidade no antigo Egito», pelo Prof. Doutor Rogério Sousa no passado dia 10 de março, o curso prosseguirá no próximo dia 27 com uma aula sobre «O “Livro dos Mortos” do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo e em abril, dia 10, a 12.ª sessão sobre «A literatura do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão. No sábado, dia 17, será a vez da 13.ª sessão sobre «O Antigo Egito no cinema», pelo Prof. Doutor José das Candeias Sales, encerrando o curso no sábado, dia 24, com «A escrita hieroglífica egípcia», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, se for possível através de aula presencial no Solar Condes de Resende e por videoconferência para os alunos inscritos

Mestrado

No passado dia 24 de novembro apresentou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a sua dissertação de Mestrado em História e Património, intitulada «Viticultura, vinho e inovação tecnológica no livro antigo da Biblioteca Pública Municipal do Porto, século XVIII», a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, Dr.ª Cristiana Filipa Borges Ferreira, a qual teve como orientadores os Prof. Doutores António Barros Cardoso, da FLUP e Jorge Bernardo Lacerda de Queiroz, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, tendo sido aprovada com 17 valores. A nova Mestra vai prosseguir a sua graduação académica.

 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 151, quinta-feira, 25 de março de 2021; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.