quinta-feira, 25 de maio de 2023

Eça & Outras

Ano do Centenário do “Vencido da Vida” e diplomata Luís Maria Pinto de Soveral, Marquês de Soveral (1851-1922)

 

Memórias de vida

         Nos últimos tempos tenho acompanhado a edição, ou mesmo sido convidado para fazer a prefaciação ou participar no lançamento de memórias escritas e publicadas por alguns amigos e compagnons de route. Como percorremos juntos alguns breves trechos ou alguns mais longos quilómetros da estrada larga da vida, nuns casos mais, noutros menos, também ali me encontro neste ou naquele episódio, numas ou noutras páginas, frases, imagens, circunstâncias.

         Em 2017 o meu amigo Ricardo Nicolau de Almeida publicou o livro Setenta à Hora, que abre com várias frases lapidares sobre «a ilusão da vida» e termina com um verso da famosa canção criada por Violeta Parra, depois gravada por Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina «…gracias à la vida que me ha dado tanto». Um livro saboroso, mas apesar dessa qualidade, não tanto como as mesmas estórias contadas na primeira pessoa, que muitas vezes ouvi e recordo. E mesmo algumas delas com enredo e desfecho muito mais interessantes do que a sua versão escrita. Será isto verdade ou terei sido eu que, ao lê-las, saltei da cadeira de ouvinte para a de narrador de estórias alheias? Lembrando que ambos pertencíamos à Afons’eiros, cooperativa cultural que nas décadas de oitenta/ noventa editou alguns livros, apareço na sua narrativa em duas circunstâncias para mim excecionais: na vontade que Ricardo tinha de voltar a ligar a Casa Ramos Pinto, onde era executivo, à vida cultural de Gaia, da região e do Douro, o que deu origem às escavações arqueológicas em Ervamoira, Vale do Côa, por onde passei com a minha equipa durante vinte anos da minha vida, tendo lá deixado um pequeno museu de sítio ainda em funcionamento, além de variada bibliografia publicada. Noutras páginas recorda-me na preparação do programa que seu pai Fernando Nicolau de Almeida, então chanceler da Confraria do Vinho do Porto, concebera para a cidade do Porto receber um congresso mundial de confrarias báquicas, em que iríamos recriar o casamento de D. João I com D. Filipa de Lancastre e para o qual eu, então praticante hípico e proprietário de uma égua e de um cavalo com minha filha Susana, tinha já apalavrados sessenta cavalos e cavaleiros que iriam começar a treinar no campo de manobras da Serra do Pilar. Mas entretanto, e por motivo diferente do que conta o autor do livro, não foi tanto a efetiva falta de colaboração do bispo do Porto que impediu a concretização do evento, mas sim o facto de ter começado a Guerra do Golfo e as restrições que tal implicou nas viagens aéreas, fazendo adiar o congresso.

Dos vários episódios que não constam no seu livro, notei a ausência da sua versão da viagem que realizamos em 1986 pelo Rio Douro acima, até à Régua e regresso, durante três dias, a bordo do iate Runa, propriedade do nosso confrade Major Simões Duarte, numa época em que os barcos de cruzeiro ainda só iam até Alpendurada. Durante a viagem confirmei a existência de uma estação arqueológica romana na “Ilha dos Amores”, em Castelo de Paiva, e na volta, sem querer, estragamos um comício partidário na margem do rio na albufeira do Carrapatelo, pois os participantes, quando viram o barco a dirigir-se para a barragem para a descida, coisa então raramente ou nunca vista, deixaram os candidatos a falar sozinhos e vieram todos a correr ver a embarcação e os seus oito tripulantes fazerem a transposição do desnível das cotas do rio.

Ainda nesse mesmo ano de 2017 a Casa Ramos Pinto publica um e-book intitulado Impressões de João Nicolau de Almeida, irmão do autor anterior e, até esse ano, também ele executivo nesta empresa. Essa edição reuniu mais de noventa depoimentos de familiares, amigos e personalidades do mundo duriense e dos vinhos, entre portugueses e estrangeiros, entremeados com muito boas fotografias e diversas obras gráficas, que testemunham a sua perceção sobre o homenageado que chegou a ser «the man of the year» pela revista Wines & Spírits. Sobre o seu apoio ao projeto cultural de Ervamoira e o seu museu de sítio, bem assim como sobre a continuidade do seu saber vinícola nas novas gerações de vitivinicultores, aí deixei a minha prosa que certamente não deslustrou no conjunto das memórias aí recolhidas.

Um outro amigo, Joaquim Vaz, antigo despachante no Porto e ex-provedor da Misericórdia de Gaia, escreveu e publicou os seus Momentos de uma vida, 2022, para o que me pediu um posfácio, tendo recordado no livro a minha apresentação em 2014 de um outro livro sobre o industrial António Almeida da Costa, fundador da Fábrica de Cerâmica e Fundição das Devesas e benfeitor dos primórdios da instituição, da autoria de Fernando Silva Correia, que decorreu no salão nobre na mesma sessão em que o bispo D. Manuel Martins foi feito irmão honorário da instituição.

Mais um outro amigo, Joaquim Armindo Pinto de Almeida, pediu-me um prefácio para o seu livro Um Barco nas Ondas do Mar – a Poesia, recentemente editado, o qual, para além de composições poéticas, tem uma série de relatos sobre a sua infância que escreveu para os netos, onde eu obviamente não apareço, mas estou lá. É que não só nos conhecemos desde a escola primária do Torne, como com ele, desde a infância, partilhei muitos dos cenários, pessoas e acontecimentos que ali descreve.

Mas o mais recente é o livro de um outro amigo de longa data, o escritor e historiador José Vaz, intitulado Enquanto o Sol não se põe. Memórias. Aí regista a nossa ação na fundação da Associação de Escritores de Gaia; a consecutiva presença nas sessões anuais do Fórum de Avintes, que ajudou a concretizar; a clarificação histórica da data do documento mais antigo conhecido sobre Avintes; e a minha solidariedade profissional como historiador na sua criação da cooperativa Audientis – Centro de Documentação e Investigação em História Local.

Estou assim também feito personagem destas narrativas pessoais de alguns amigos, com mais ou menos pormenor, com mais ou menos benevolência. Mas estes livros de memórias não podem trazer “tudo”, nem são geralmente escritos para satisfazer a curiosidade de quem depois os lê. São escritos para que o autor se dispa, ou vista, de modo diferente do habitual, perante os seus leitores. E neles a verdade, essa desconhecida e difícil estrangeira, é sempre caleidoscópica e cada um tem dela uma diferente perceção, colhida a partir do promontório de onde vê as ações alheias ou, quando nelas participa, é certo que com a verdade dança, mas por isso mesmo não consegue ver a totalidade do baile que o rodeia.

Isto de memórias tem pois muito que se lhe diga: «Queixou-se logo amargamente da sua falta de memória. Uma coisa tão indispensável em quem segue a vida pública, a memória! e ele desgraçadamente, não possuía nem um átomo» (Eça de Queirós, Os Maias). Não é o caso destes amigos.

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da direção

Distinções

Dr.ª Manuela Garrido, Coração de Ouro 2022

No passado dia 5 de maio a delegação norte da Fundação Portuguesa de Cardiologia agraciou com o prémio Coração de Ouro 2022 a Dr.ª Manuela Garrido, conselheira desta fundação há cerca de 20 anos e responsável pelo projeto «Gaia no Coração» desenvolvido para a prevenção da doença cardiovascular e da morte súbita, o qual já dotou muitas instalações com equipamentos de desfibrilação, bem assim como promoveu a formação de técnicos de DAE para acorrerem a eventuais necessitados de pronta intervenção neste domínio. 

18 de maio de 2023 - Dia dos Museus

    A associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, com sede no Solar Condes de Resende, Vila Nova de Gaia, membro da FAMP - Federação dos Amigos de Museus de Portugal e representada nos seus corpos diretivos, por sua vez federados na WFFM - World Fedetation of Friends of Museums, e também a Academia Alagoana de Letras, Maceió, Brasil, protocolada com a primeira, vêm lembrar que existem em Portugal e no Brasil os seguintes Museus, Arquivos e outras instituições com espólio queirosiano (os interessados em consultar ou visitar devem inteirar-se previamente das condições em cada instituição):

- Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa: Arquivo Conde de Resende (BNDP); bibliografia queirosiana; documentos queirosianos em espólios diversos.

- Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim: espólio queirosiano de A. Campos Matos e outra bibliografia queirosiana.

- Casa-Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia: original em gesso da estátua “A Verdade” (Eça de Queirós); correspondência com a viúva e amigos do escritor.

- Cemitério de Santa Cruz do Douro, Baião: jazigo recente (1989) dos restos mortais de Eça de Queirós e seus filhos (os restos mortais do escritor vão ser trasladados para o Panteão Nacional).

- Cemitério do Outeirinho, Aradas, Aveiro: jazigo do avô, do pai e de outros familiares de Eça de Queirós.

- Circulo Eça de Queiroz, Lisboa: espólio queirosiano que pertenceu ao Dr. Baltazar Rebelo de Sousa.

- Fundação Eça de Queiroz, Quinta de Vila Nova, Santa Cruz do Douro, Baião: propriedade que pertenceu, por herança, à mulher do escritor; espólio da casa que habitou em Paris; parte do arquivo da família da mulher; outras aquisições.

- Grémio Literário, Lisboa: roteiro queirosiano de Lisboa; memorabilia e iconografia queirosianas.

- Hotel Lawrence, Sintra: roteiro queirosiano de Sintra; bibliografia queirosiana.

- Museu da Cidade, Lisboa: original em mármore da estátua “A Verdade” (Eça de Queirós), da autoria de Teixeira Lopes.

- Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro: documentação e bibliografia queirosianas.

- Solar Condes de Resende, Canelas, Vila Nova de Gaia: propriedade que pertenceu ao 6.º Conde de Resende, cunhado do escritor; Arquivo Condes de Resende, adquirido pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia à Marquesa de Ficalho, neta do escritor e a outros descendentes; estátua em bronze de Eça de Queirós por Hélder de Carvalho; espólio da Confraria Queirosiana: biblioteca queirosiana Ricardo Charters d’ Azevedo; espólio J. Rentes de Carvalho (Centro de Estudos Eça de Queirós).

Palestras e  Conferências

    O Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo e vice-presidente da Confraria Queirosiana, para além das viagens ao Egito na senda da jornada de Eça de Queirós e do Conde de Resende em 1869, continua também a sua missão de investigador e de conferencista nos mais diversos espaços e para os mais diversificados públicos. Disso mesmo dá conta o n.º 16, referente a março/abril de 2023, do Magazine Cultural – Âmbito Cultural El Corte Inglês na sua página 3 onde noticia a conferência que realizou em Lisboa a 3 de março passado na sala desta empresa com o nome da publicação, sobre o tema «Os grandes faraós do Antigo Egipto», ali noticiada através duma elucidativa sinopse e duma resenha biográfica do conferencista.

         No passado dia 13 de maio no Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto decorreu uma homenagem ao poeta António Nobre com uma conversa entre Mário Cláudio e Jaime Milheiro moderada por Arnaldo Trindade, seguida de leitura de poemas por vários declamadores.

ÚLTIMAS 5.as FEIRAS DO MÊS

        Hoje, quinta-feira dia 25 de maio, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, o Dr. João Fernandes, atual responsável pelo Solar Condes de Resende, falará sobre «António Soares dos Reis: um positivista? A obra de António Soares dos Reis constitui um dos expoentes máximos da escultura nacional, não obstante as dificuldades da História da Arte para a definir ou categorizar. Reveladora de um ecletismo que espelha não apenas as particularidades pessoais do escultor, mas todo o seu percurso formativo e o contexto socio-cultural do território em que viveu, a produção artística de Soares dos Reis torna evidentes as limitações das categorizações artísticas que têm condicionado o seu estudo. Iremos contextualizar o escultor e a sua obra no tempo e espaço, demonstrando o importante papel desempenhado pela sua formação académica, mas também o do próprio território em que viveu e dos seus círculos de amizade». 

Entrar na reunião Zoom

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Amanhã, dia 26, no Wine & Blues Fórum que decorrerá entre as 14,30 e as 19,30 horas no Auditório do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo, entre vários oradores, falarão o Prof. Doutor António Barros Cardoso, presidente da APHVIN/ GEHVID, sobre «O Vinho Verde em Viana do Lima; o Prof. Doutor José António Oliveira, do Instituto Politécnico do Porto, sobre «A surpreendente projeção dos vinhos do Vale do Lima nas grandes exposições internacionais: uma revelação histórica»; e o Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ, sobre «Iconografia minhota na publicidade dos vinhos portugueses». 

DIA NACINAL DA GASTRONOMIA PORTUGUESA 2023

            Promovido pela Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, com a colaboração da Confraria Gastronómica O Galo de Barcelos e da Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe, decorrerão nos dias 26, 27 e 28 próximos as celebrações do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa com sessões no Auditório Municipal e Casa do Rio em Barcelos e no Pavilhão Multiusos de Fafe. Do programa consta uma tertúlia gastronómica, atuação de grupos de teatro, coros, jogo do pau, banda de música, ranchos folclóricos, concertinas e cantares ao desafio, para além da confeção de culinária tradicional e desfiles de confrarias.

            Nos próximos dias 27 de maio a 3 de junho decorre em Portugal o 52ND International Congresso of Wine Brotherhoods F.I.C.B. 2023, da Federação Internacional das Confrarias Báquicas organizada em Portugal pela Federação das Confrarias Báquicas de Portugal com sede em Vila Nova de Gaia. Com a cerimónia de abertura marcada para as 18,30 do dia 27 no hotel Hilton Porto-Gaia, no dia 28 os congressistas deslocam-se à região do Vinho Verde, no dia 29 à região dos Vinhos do Douro, no dia 30 haverá um fórum às 9,30 no Hilton Porto-Gaia e à tarde um desfile das confrarias com início no Centro Histórico de Gaia, travessia de barco para a ribeira do Porto e desfile atá a Centro de Congressos da Alfândega, onde decorrerá a cerimónia de entronização de novos confrades pela Confraria do Vinho do Porto, seguida de jantar de gala. No dia 31 o congresso partirá para Lisboa, no dia 1 estará no Alentejo, no dia 2 em Oeiras, terminando no dia 3 de junho. Na Fórum do dia 30 falarão: Gilberto Igrejas, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto sobre «Port and Douro Wines Institute in the track of One Health Quadripartite Collaboration»; Carlos Brito, presidente do Observatório do Vinho do Porto, sobre «Marketing and the Wine Brotherhoods»; J. A. Gonçalves Guimarães, da Confraria Queirosiana e da International Heritage Summer School 2023 CITCEM/ FLUP, sobre «Wine and Culture in Portugal»; Carlos de Jesus, diretor de Marketing & Comunicação da Corticeira Amorim, sobre «Cork, Wine and Sustainability»; e Bianchi de Aguiar, ex-presidente da OIV e do IVDP, sobre «The wine-growing landscapes recognized by UNESCO. The case of Alto Douro Wine Region».

Artes

        No passado dia 18 de abril o escultor Hélder de Carvalho inaugurou na Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação da Universidade do Porto uma instalação de esculturas intitulada «Sombras que não quero ver» baseada em textos poéticos de Gonçalo M. Tavares.

António Pinto é um dos artistas que expõem no núcleo da V Bienal Internacional de Arte de Gaia na Faculdade de Medicina Dentaria da Universidade do Porto que estará em exibição até 8 de julho próximo. Aí poderá ser vista a sua versão em granito da Santa Apolónia.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 177, quinta-feira, 25 de maio de 2023; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (pessoa coletiva com estatuto de utilidade pública); C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

terça-feira, 25 de abril de 2023

Eça & Outras

Ano do Centenário do “Vencido da Vida” e diplomata Luís Maria Pinto de Soveral, Marquês de Soveral (1851-1922)

Poetas de Gaia e do Mundo

Recentemente dois Amigos de longa data, Joaquim Armindo Pinto de Almeida, e David Rodrigues, ambos pessoas de trabalhos e comprometimentos públicos em áreas diversas, mas com preocupações sociais convergentes, e que eu conheço desde os tempos da escola primária e dos Jovens do Torne dos anos sessenta, convidaram-me, no primeiro caso, para escrever um prefácio no seu mais recente livro de prosas e versos, intitulado Um barco nas ondas do Mar – a poesia, Teto das Nuvens, 2023 e, no segundo caso, para apresentar o seu mais recente livro de haiku, escola poética japonesa que cultiva desde há anos a esta parte, intitulado Diafragmas, Elefante Editores, 2023. Não fora o facto de serem dois Amigos incontornáveis teria dito que não, que não faria tal, não por qualquer arrogância tola ou descabida, mas por vários motivos bem simples: não sou profissional da Literatura e nem sequer me mantenho muito atualizado nesta área; até sou um descabelado reticente em relação a muito do que se publica; sou um poeta frustrado, com dois livritos publicados há muito e hoje curiosidades de alfarrabista, então frutos de divagações de juvenilidades tardias; e, além de tudo isto e certamente o mais importante, para lhes não estragar o percurso dos livros com pieguices tolas em que a amizade se sobreponha a uma análise artística – que Poesia, antes de tudo o mais, é Arte Literária – para não parecer que eu, modesto cultivador da História, ando agora a perorar sobre os coturnos da fama alheias. E aqui vai a minha desfaçatez nesta situação: meter os meus dois Amigos e as suas produções poéticas numa longa tradição de poetas gaienses, nascidos, criados, ou ligados de várias formas a esta terra. Não existindo livro algum que elenque os seus nomes ou produções, temos contudo algumas tentativas de os reunir. A mais antiga antologia que conheço é uma pequena edição de finais dos anos sessenta intitulada «Mais do que ler, muito é necessário adivinhar», asserção pedida emprestada a D. Francisco Manuel de Melo. Em 1985 publicaram-se as atas do 1.º Encontro de Escritores de Gaia na revista Mea Villa n.º 1 onde aí se fala de três poetas, e logo depois, em 1986, numa outra publicação da falecida Associação de Escritores de Gaia, intitulada Memória dum Rio, já se apresentam vinte e oito! Em 2001 o poeta, homem de Teatro e depois historiador Fernando Peixoto, então presidente da Junta de Freguesia de Santa Marinha, organiza e publica as atas do 1.º Encontro de Escritores e Artistas desta freguesia, onde vamos continuar a encontrar alguns daqueles a quem José Gomes Ferreira chamou “teimosos”. Em 2016 a Confraria Queirosiana publicou no volume das Memórias de um expedicionário a Moçambique (1917-1919) do gaiense José Pereira do Couto Soares, a sua “Colecção de Poesias Seleccionadas”, uma muito substancial antologia, com versos de poetas consagrados entremeados de muitos “anónimos” e do poeta gaiense João Alves Pereira e outros de pendor anarquista ou socializante das primeiras décadas do século XX, hoje geralmente esquecidos. Existirão porventura algumas outras publicações antológicas de poesia gaiense a considerar. Mas não haverá quem delas cuide.

De um modo geral os profissionais das Letras ignoram que a Ars Poetica se iniciou aqui no século XIII com o trovador João da Gaia, passando por João Soares Coelho e Estêvão Coelho, se não quisermos incluir o próprio rei D. Dinis, aqui proprietário, onde lhe nasceu uma filha, e que a Vila Nova deu Foral em 1288 como um deles. Alguns destes trovadores perpetuar-se-ão na família dos Sás, de Arcozelo e de Gaia, os quais, crescendo em importâncias várias, não apenas poéticas, evidentemente, se mudaram uns para a Corte, outros para Itália, outros para o Porto (como foi o caso de João Rodrigues de Sá, com versos no Cancioneiro), outros para retiro em quinta do Minho, como o célebre poeta Sá de Miranda. Já os Brandões, Fernão Brandão Pereira e seu irmão Diogo Brandão, também da sua quinta de Avintes asseguraram presença relevante naquela antologia de Garcia de Resende.

Com Gaia mergulhada numa «apagada e vil tristeza» durante o centralismo moderno, e os poetas locais a fazerem vida noutras paragens, só no século XIX por aqui poetaram Almeida Garrett, o próprio Camilo, Júlio Dinis e depois os letristas de canções ainda hoje famosas, como António Cabral e a sua Samaritana, que Gaia também é terra de cantores. Das primeiras décadas do século XX temos o esquecido Bernardo Lucas e o muito mais lembrado poeta janota galante Alfredo Cunha, o «Cunha da Rasa» autor de Os Meus Versos (1928) e de 100 Sonetos de Amor (1930). Os anos trinta e quarenta do século passado vão conhecer um trio de poetas na Granja: António Porto-Além, poeta helénico (Ressurreição, 1936), António Lousada, criador de êxitos dos fadistas Teresa de Noronha e João Braga (Os Meus Fados, 1968), e Sophia de Mello Breyner e os seus poemas de maresias enroladas nas areias do passado em busca de futuros (Poesias, 1944). Paralelamente, e buscando a saúde no mar de Francelos, aí lapidava sonetos Oliveira Guerra (Ave Maria, 1932), enquanto Carlos Valle deambulava de café em café (Fumaradas, 1945), e na Avenida da República, Maria Alberta Menéres descobria a poesia (Quotidiana, 1943) aos dez anos de idade. Mas novos mundos se abriam para a poesia gaiense: Domingos Carvalho da Silva nascido ali nos Carvalhos, estalagem de guitarristas e cantadores, daqui saiu para o Brasil e ali se abriu à sua singularidade poética que a América do Sul acolheu a desbravar novas lusofonias (Rosa Extinta, 1945).

Nos anos cinquenta e sessenta do século passado acolheram-se aqui vários outros poetas, uns locais, como o mago do cinema António Reis (Poemas Quotidianos, 1957); outros aqui chegados de outras paragens, trazendo alguma insatisfação pascoaliana, como Ilídio Sardoeira (A Minha Aldeia, 1940); ou o galeguismo rosaliano de Agostinho Gomes (Da Minha Saudade, 1941), ou a modernidade escultural de Aureliano Lima (Rio Subjacente, 1963), ou o regresso a Ítaca de Albano Martins (Secura Verde, 1950), ou o retorno da mala de cartão de Fernando Morais (Voltar a Gaia, 2000).

Viria depois a geração do The Times They Are A’changin de Bob Dylan (1964), onde pontificaram Nuno Guimarães, cantor de baladas coimbrãs (Corpo Agrário, 1970); Fernando Peixoto com o seu Zé de Gaia, um teimoso herói de ocasião; o salto no futuro da Literatura Cibernética I e II de Pedro Barbosa (1977); ou ainda As Passagens Secretas (1982) de Amadeu Baptista; e mais alguns outros que a atualidade traz poetizando por aí numa teimosia tão discreta quão persistente, e que por agora não vou nomear, porque estamos aqui a cuidar dos mais recentes livros de Joaquim Armindo e de David Rodrigues, que neles recolheram sugestões das últimas camélias que elegantemente desabam do seu pé cansadas da sua beleza. Sendo todos gaienses, deles não direi que formam uma escola, uma academia, mas que todos têm para si, como escreveu Eça de Queirós, que a poesia «…nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na memória, pela sedução do ritmo, as leis da tribo… e a poesia tendeu sempre, e tenderá constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos, e mais concisos, as ideias que estão interessando e conduzindo os homens (Eça de Queirós, Cartas Inéditas de Fradique Mendes).

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Homenagem a A. Campos Matos

No passado dia 13 de Abril decorreu no Grémio Literário em Lisboa uma homenagem promovida por esta instituição ao Arq. Alfredo Campos Matos, nascido na Póvoa de Varzim em 1928, tendo falecido em Lisboa a 5 de Janeiro passado. Para além da sua obra de arquitecto, desde os seus catorze anos que se dedicou ao estudo e divulgação da vida, obra e legado de Eça de Queirós, sobre as quais publicou variadíssimas obras consubstanciadas no monumental Dicionário de Eça de Queiroz, presentemente em 3.ª edição. Nesta sessão estiveram presentes muitos dos seus amigos e admiradores de longa data: para além de António Pinto Marques, director da instituição anfitriã, participaram Guilherme de Oliveira Martins, Eugénio Lisboa, e Rui Campos Matos, filho do homenageado, que apresentaram testemunhos eloquentes sobre o ilustre finado, tendo na ocasião Isabel Pires de Lima proferido uma alocução intitulada «Ecite como Deslumbramento – Alfredo Campos Matos». A sessão encerrou com as palavras de Pedro Rebelo de Sousa, presidente do Círculo Eça de Queiroz de Lisboa. A direção da Confraria Queirosiana esteve representada pelo Dr. Manuel Nogueira.

Intercâmbio com o Brasil

Restaurante Palato, Ponta Verde, Maceió: da esquerda para a direita do leitor: António Pinto Bernardo;
Carlos Méro, Fernando Maciel, Alberto Rostand Lanverly e Arnaldo Paiva Filho.

Recentemente esteve em Alagoas, Brasil, o Dr. António Pinto Bernardo, vogal da direção da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, reforçando os contatos e programas em desenvolvimento com a Academia Alagoana de Letras, que decorrem do protocolo de colaboração celebrado entre ambas as instituições.

Da parte dos seus académicos vão-nos chegando algumas edições nas áreas da literatura e cronistica. No primeiro caso são geralmente obras muito bem escritas, produzidas por autores que sabem discorrer com graça sobre vidas e quotidianos e surpreendendo o leitor desde o princípio ao fim, se é que há um fim em estórias de vida. É o caso dos dois livros que hoje apresentamos:

Sobre A Virgem do Alto dos Bodes de Jorge Tenório (Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2015), escreveu Carlito Lima «Um título pitoresco para uma história bem elaborada, factível, enorme densidade humana. Os personagens parecem tão reais que tornar-se-ão inesquecíveis.

Jorge Tenório escreve cenas dramáticas, eróticas, hilárias, com linguagem simples, acessível, sem rebuscamento. O autor [desta obra] (e de outras obras premiadas) nos oferece uma oportunidade feliz para que possamos, como leitor, mergulhar nas emoções que transbordam da envolvente história que ele construiu, a qual é ambientada nas décadas de 60 e 70 numa cidade bem nordestina, a alagoana Palmeira dos Índios, retratando a vida e os costumes da época com autenticidade e precisão».

Por sua vez, o livro mais recente de Arnaldo Paiva Filho, intitulado Dona Santa (São Paulo: Primeiro Capítulo, 2022) é assim apresentado: «Esta obra é uma ficção baseada na história de sua bisavó materna, conhecida por dona Santa, senhora do engenho Riachão, e se passa na segunda metade do século XIX e início do século XX. A narrativa tem como foco a decisão da matriarca de retirar o sobrenome da família do marido de sua descendência, em razão de culpar um primo do esposo pelo seu falecimento prematuro, deixando-a viúva aos vinte e oito anos, com a responsabilidade de criação de três filhos menores e de administrar um engenho de cana-do-açúcar… numa sociedade monarquista, escravocrata e machista, repleta de injustiças e preconceitos sociais, conduz o leitor a rever e compreender o papel feminino na sociedade brasileira da época…».

Dois belos livros sobre uma realidade que os portugueses também vão conhecendo pela Literatura e pela Telenovela, estando disponíveis para ler, tomara que a Arte televisiva fosse uma breve realidade a juntar a outros conhecidos sucessos de algumas produtoras brasleiras

Palestras  e  Conferências

Desde 25 de março passado que vários confrades realizaram diversas palestras e conferências ao serviço de várias instituições, entre elas a Confraria Queirosiana. Assim, no dia domingo dia 16 de abril, J. A. Gonçalves Guimarães, a convite da Academia do Bacalhau do Porto, proferiu num restaurante de Moreira da Maia uma palestra sobre «Os 200 anos independência do Brasil em Portugal». O mesmo historiador no dia 24 de abril pelas 21,30 horas participou na Tuna Musical de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia, na tertúlia «Tempos idos…Tempos vindos…», tendo como companheiros o ator e teatrólogo Mário Moutinho e o economista social Carlos Jorge A. Silva, tendo moderado o debate Filipe Santos presidente da coletividade. Seguiram-se atuações de poesia dita por Eduardo Roseira, fados e baladas alusivas ao 25 de Abril pelo Grupo de Fados Enfermeiros do Porto e interpretações de música e dança pelo elenco desta coletividade.

No próximo dia 27 de abril, a habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês que a Confraria Queirosiana realiza presencialmente e via zoom a partir do Solar Condes de Resende, será proferida pela Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património sobre o tema: «Colecionismo: do inventariar ao estudar».

Cursos

No passado sábado, dia 22 de abril, foi proferida a última aula do curso livre sobre «O Brasil duzentos anos depois» sobre o tema «O Brasil e os Exilados Políticos Portugueses» pelo Doutor Adrião Pereira da Cunha. A aula anterior sobre o tema «Os Brasileiros de Torna-Viagem» tinha sido proferida pela Prof.ª Doutora Ana Sílvia Albuquerque no dia 15 de abril. Ficou assim concluído o programa proposto, passando os alunos que o requereram à fase da creditação de conhecimentos junto do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente do Ministério da Educação.

A Academia Eça de Queirós, grupo de trabalho da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana para o Ensino está já a proceder à organização do próximo curso a iniciar em outubro próximo e que será comemorativo do 40.º aniversário das 1.as Jornadas Locais e Regionais organizadas em 1983 pelo Gabinete de História e Arqueologia com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Como já divulgamos, vai decorrer entre os dias 16 e 22 de julho em Vila Nova de Foz Côa, São João da Pesqueira e Lamego a International Heritage Summer School 2023, organizada pela Universidade do Porto através do CITCEM/ FLUP, com a colaboração das universidades do Minho, Granada, Jean Monet, Santiago de Compostela e Florença, e com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, SantResende, Município de São João da Pesqueira, Quinta do Vale Meão e outras entidades locais e regionais. Da comissão organizadora fazem parte, pelo CITCEM / FLUP, Nuno Resende e João Duarte, e pela Confraria Queirosiana, J. A. Gonçalves Guimarães. O programa contará com o concurso de vários professores convidados e dará particular atenção às comemorações dos 250 anos da morte de Nicolau Nasoni (José Manuel Tedim); dos 100 anos da morte do Marquês de Soveral (J. A. Gonçalves Guimarães) e de vários outros aspetos do Douro Património Cultural da Humanidade. O programa pode ser visto em IHSS 2023.4.25.

Artes

No passado dia 8 de abril decorreu na Companhia de Fiação de Crestuma em Lever, Vila Nova de Gaia, a abertura da 5.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2023 organizada pela cooperativa Artistas de Gaia com o patrocínio do município, a qual teve a presença do Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da edilidade, da Eng.ª Paula Carvalhal, vereadora do pelouro da Cultura; de diversas personalidades locais e regionais da Arte e da Política; e várias instituições, ente elas a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana representada pelo membro da direção António Pinto Bernardo e o subdiretor da Revista de Portugal, J. A. Gonçalves Guimarães, estando presentes ainda outros confrades queirosianos como o proprietário deste antigo complexo fabril Dr. Ricardo Haddad, a Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, autora dos diversos estudos sobre a sua história e ainda vários outros confrades artistas e visitantes. As palavras de abertura foram proferidas pelo Doutor Agostinho Santos, presidente da direção daquela cooperativa que expôs os objetivos deste cada vez mais amplo e internacional acontecimento cultural, a sua projeção no tempo e realizações noutros municípios.

No dia 23 teve lugar no auditório o primeiro dos Debates da Bienal sob o tema «Revolução: 50 anos 50 artistas», com a moderação da curadora Dr.ª Ilda Figueiredo e a presença de muitos artistas e visitantes. Enquanto tal decorria, uma equipa de reportagem da Max Canal do Rio de Janeiro, programa «Assim é Portugal», procedia a filmagens e entrevistas com o proprietário do complexo, representantes da autarquia, organizadores da Bienal, e artistas e historiadores da Confraria Queirosiana sobre o certâmen, a História Local, as relações internacionais aqui representadas e o intercâmbio artístico entre Portugal e o Brasil, a difundir no outro lado do Atlântico, mas sempre tão próximo do Rio Douro e das cidades que o bordejam.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 176, terça-feira, 25 de abril de 2023; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública); C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.





sábado, 25 de março de 2023

Eça & Outras

Ano do Centenário do “Vencido da Vida” e diplomata Luís Maria Pinto de Soveral, Marquês de Soveral (1851-1922)

Os 25 anos da FAMP

Anteriormente denominada Associação de Amigos dos Museus de Portugal, formada então por diversos grupos, entre eles os Amigos do Museu de Arte Antiga, do Museu do Chiado, do Museu da Marinha, todos em Lisboa, mas também pelo Círculo Dr. José de Figueiredo do Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto, a 28 de agosto de 1998 decidiram fundar a Federação dos Amigos dos Museus de Portugal (FAMP) para potencializarem as suas ações e partilha de experiências no âmbito do associativismo em volta da museologia. A história destas associações e do seu persistente trabalho na promoção de museus e de espaços e coleções musealizadas começou ainda no século XIX, mas está praticamente por escrever na História do Associativismo em Portugal. Normalmente formadas por cidadãos que dedicam a sua especial atenção a uma destas estruturas culturais, públicas ou privadas, umas tendo renascido, outras sido criadas a partir dos anos quarenta do século passado e outras muito mais recentemente, agrupam em afetos e preocupações alguns doadores, familiares de instituidores ou seus descendentes, investigadores, museólogos, profissionais do restauro, funcionários, colecionadores, antiquários, divulgadores ou simplesmente cidadãos encantados com obras de Arte e objetos do passado que pretendem ver preservados em instituições credíveis como fonte permanente de ensino, usufruto cultural e deleite das gerações. Para estes militantes do saber da conservação e da partilha das memórias com significado intemporal, os museus, sítios e coleções são verdadeiras escolas permanentes onde a sociedade pode usufruir da herança histórica protegida pelo estado, autarquias, empresas, instituições ou colecionadores, através de programas e ações que retratam pessoas, acontecimentos, épocas e expressões artísticas ou outras com várias mensagens com enquadramento cultural.

Grupos semelhantes existem em todo o mundo, filiados na Federação Mundial de Amigos dos Museus (World Federation of Friends of Museums – WFFM), uma organização não governamental, com estatuto consultivo junto da UNESCO desde 1989, formada por mais de três dezenas de federações nacionais e grupos de amigos, desde a Europa até à Oceânia, mais de um milhão de associados representados por uma assembleia geral, um conselho cultural e um conselho executivo, que se reuniram em Lisboa em 2010, e onde a FAMP também se filiou, subscrevendo o seu Código de Ética que, em termos gerais, estipula que a ação e a função dos grupos de amigos são o apoio ao respetivo museu e seus objetivos, de forma prática, construtiva e independente, em permanente sintonia com os seus responsáveis, constituindo um elo de ligação entre a instituição e a comunidade de modo menos formal e mais proveitoso. Em consonância com estes princípios a FAMP tem como sua principal função a dinamização dos grupos existentes, intensificando a comunicação entre eles e apoiando a sua ação, fomentando a criação de novos grupos e projetando na sociedade a defesa da sua herança cultural e das suas atividades específicas. Para além da realização dos seus encontros anuais, tem também participado em vários congressos mundiais e assembleias-gerais em várias cidades do mundo, materializando assim a colaboração com a UNESCO e o ICOMOS.

            Contando atualmente com mais de vinte grupos de amigos de museus de norte a sul de Portugal, a FAMP procura continuamente a criação de novos grupos que, em sintonia com as forças locais, façam da cultura um hábito quotidiano. Sedeada no Museu Nacional dos Coches em Lisboa, é reconhecida pelo Ministério da Cultura e declarada de superior interesse cultural e nacional.

Para celebrar o seu quarto de século os atuais corpos sociais, com a colaboração de alguns dos seus associados beneméritos e honorários, organizaram um programa sob o lema «Museus, Sustentabilidade e Bem-Estar» que decorreu no passado dia 18 de março no Picadeiro Real do Museu dos Coches em Lisboa, começando com a realização da assembleia- geral pelas 10,15 horas, seguida de visita ao museu, depois almoço de confraternização dos representantes dos diversos grupos presentes e, pelas 15 horas a atribuição do Prémio Professor Reynaldo dos Santos 2023 patrocinado por uma instituição bancária, seguida de homenagem a diversas personalidades que se têm dedicado ao voluntariado cultural de forma persistente e abnegada e também aos grupos de amigos presentes. A celebração terminará com um momento musical com a atuação da soprano Maria João de Sousa e do Quarteto Opus 28, seguida de Porto de Honra.

A FAMP vai, pois, continuar a estar «entre aqueles, porém, felizmente numerosos, que têm a religião do objeto de arte, e para quem o colecionar é a forma superior do viver…» (Eça de Queirós, «Uma Coleção de Arte»), congregando todos os que, colecionadores ou não, escolheram um museu, sítio musealizado ou uma coleção organizada para ajudarem a tornar este mundo muito mais útil, culto e feliz, como é o caso da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, filiada na FAMP.

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da direção

Palestras e Conferências

Customer Summit

            Nos passados dias 7, 8 e 9 de março decorreu o The Customer Summit Brasil Portugal 23, organizado pela Associação Portuguesa de Management, no qual o Professor de Marketing, Doutor Carlos Brito, foi o speaker com intervenção final no dia 9 de março. Este mesmo conferencista apresentou no passado dia 23 de março pelas 18 horas um webinar na Ordem dos Economistas sobre o tema «Como criar uma marca forte».

            O escultor Henrique Moreira foi homenageado no passado dia 10 de março na Biblioteca da Universidade Portucalense Infante D. Henrique (UPT) na sequência de um trabalho de mestrado da Dr.ª Ana Martins e da direção do seu Departamento de Turismo, Património e Cultura, com a organização de uma exposição de fotografias das suas principais obras e uma mesa-redonda em que participaram Laura Castro, diretora da Direção Regional da Cultura do Norte; Cipriano Castro, antigo aluno da UPT e atual presidente da Junta de Freguesia de Avintes, localidade onde o escultor nasceu; J. A. Gonçalves Guimarães, antigo docente da UPT e atualmente coordenador do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana; Joaquim Pinto da Silva, diretor da “Progresso da Foz” do Porto, e Luís Moreira, bisneto do escultor, os quais falaram de diversos aspetos da sua vida e das inúmeras obras que deixou espalhadas por todo o Portugal e em coleções particulares.

            A comunicação de J. A. Gonçalves Guimarães intitulada «Henrique Moreira - escultor de memórias da 1.ª Grande Guerra» será de novo apresentada no próximo dia 30 de março, presencial e via zoom, nas habituais palestras da última quinta-feira do mês do Solar Condes de Resende.

Lixa Filgueiras

            Evocando o centenário do seu nascimento, no passado dia 16 de março, na sede da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, decorreu uma sessão de homenagem ao Professor Arquiteto Octávio Lixa Filgueiras nascido nesta última localidade, organizada por José Valle de Figueiredo e Joaquim Pinto da Silva.

            Lembrando essa efeméride, também a revista Gaya, II.ª série, que em breve reaparecerá editada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação ASCR-Confraria Queirosiana, publicará um artigo inédito do saudoso investigador sobre os «Falsos barcos rabelos construídos em estaleiros urbanos».

Marmoirais medievais

            No dia 20 de março o Centro de Arqueologia de Arouca, pelas 21,30 horas, organizou uma das suas habituais “Conversas no Museu” a partir do Museu Municipal de Arouca e via facebook, desta vez sobre «O Memorial de Santo António (Arouca) e os marmoirais medievais» tendo como palestrante o arqueólogo Doutor António Manuel S. P. Silva.

Nicolau Nasoni

            Comemorando os 250 anos da morte do pintor e arquiteto Nicolau Nasoni, entre 8 de abril e 27 de agosto decorrerão uma série de atividades, tais como visitas, palestras e caminhadas a vários locais nasonianos organizadas pelo historiador Joel Cleto, entre as quais, a 15 de abril, à Igreja do Bom Jesus de Matosinhos guiada por José Manuel Tedim; a 10 de junho à Igreja de Santa Marinha de Vila Nova de Gaia e Igreja da Misericórdia do Porto, guiada por José Ferreira e Silva; a 12 de agosto à Quinta da Prelada, Porto, por Nuno Resende; a 9 de setembro à Igreja e Torre dos Clérigos no Porto, por Francisco Queiroz; e a 9 de outubro ao Palácio do Freixo, também no Porto, por João Rapagão.

            Nicolau Nasoni foi trazido de La Valleta para Portugal por membros da família gaiense dos Cernache, tradicionalmente cavaleiros e bailios da Ordem de Malta aqui residentes desde 1415, à qual pertencia o deão Jerónimo de Cernache seu grande mentor em muitas das obras que deixou, desde o jardim na casa dessa família ali junto ao Castelo de Gaia, até ao Palácio do Freixo no Porto, sua antiga propriedade.

Real Gabinete

            Nos próximos dias 11 a 14 de abril decorrerá no Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro o programa do XI Colóquio do PPLB – Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras, subordinado ao tema «Modernismos Luso-brasileiros: História, Ciências e Cultura» e ainda as comemorações dos 25 anos do CER – Centro de Estudos Regianos.

Curso no Solar

O curso «O Brasil duzentos anos depois», prossegue no Solar Condes de Resende, presencial e por videovigilância. Assim, no dia 04 de março o Prof. Doutor António Barros Cardoso falou sobre «O Brasil e o Vinho do Porto» e no dia 18 o Prof. Doutor Rodrigo Teodoro de Paula sobre «A música e a dança urbana entre o Brasil e Portugal (1770-1830)». No próximo dia 1 de abril o Prof. Doutor João Pedro Marques falará sobre «O Brasil Oitocentista e o tráfico transatlântico de escravos».

Livros

Apresentado ao público no Capítulo da Confraria Queirosiana de 19 de novembro de 2022, está já disponível o livro Património Cultural de Gaia. Património de Gaia no Mundo, coordenado pelos historiadores J. A. Gonçalves Guimarães e Francisco Queiroz, com textos seus e de Alda Bessa; Ana Filipa Correia; Ana Pessoa; Ana Venâncio; André Dangelo; Andréa L. Bachettini; Annelise Montone; António Conde; Cláudia Emanuel; Cristina Moscatel; Daniele Fonseca; Fabiane R. Moraes; Fabíola Franco Pires; Fernando Cerqueira Barros; Francisco Queiroz; J. A. Gonçalves Guimarães; José Francisco Alves; José Guilherme Abreu; Keli C. Scolari; Manuel Ferreira da Silva; Margarete R. F. Gonçalves; Margarida Rebelo Correia; Maria Isabel Moura Ferreira; Mariana Rodrigues; Marilene da Silva; Paula Santos Triães; Rosário Salema de Carvalho e Susana Moncóvio, editado em Vila Nova de Gaia pela Câmara Municipal/ Solar Condes de Resende/ ASCR – Confraria Queirosiana, com 350 páginas, o segundo de uma série de obras de investigação profissional dedicadas ao Património Cultural de Gaia. Para além da divulgação institucional feita pela autarquia gaiense, encontra-se agora também disponível on line em http://academiaecadequeiros.blogspot.com                https://www.slideshare.net/queirosiana/pacug2livropdf e à venda na edição papel, ao preço de 30 € cada (IVA e portes incluídos), pedidos para queirosiana@gmail.com

Vasco Gonçalves

Ontem, dia 25 de março pelas 18 horas, na Universidade Popular do Porto, foi apresentado pelo Doutor Adrião Cunha o livro Colectânea do Centenário do nascimento do General Vasco Gonçalves, promovida pela Associação Conquistas da Revolução.

            Hoje, dia 25 de março pelas 15,30 horas, no auditório da Junta de Freguesia da Batalha haverá uma tertúlia sobre «A Estrada D. Maria Pia» organizada pelo Centro de Património da Estremadura com a colaboração de outras entidades em que será moderador o Eng.º Ricardo Charters de Azevedo, autor do livro A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791.

            No próximo dia 4 de abril, terça-feira, 18, 30 horas, na Biblioteca Municipal de Galveias (ao Campo Pequeno), em Lisboa, David Rodrigues lança um novo livro de poemas intitulado Diagramas, composto por 333 haiku que serão apresentados por Richard Zimler com leituras de Paula Pina. Natural de Vila Nova de Gaia, professor catedrático jubilado da Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, tem-se dedicado como docente e conferencista internacional à Educação Inclusiva. É também pianista de jazz e de há muito que cultiva com sucesso esta escola oriental de poesia. No dia 14 de abril, pelas 18,30 horas, no auditório da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia haverá uma nova apresentação da obra com a presença do autor, por Fátima Vieira e J. A. Gonçalves Guimarães e com leituras de Helena David.

Associativismo

Celebração dos 25 anos da FAMP no Picadeiro Real,
Lisboa; fotografia de Luís Raposo.

Como acima referimos no texto de abertura desta página, decorreram no passado dia 18 de março no Museu dos Coches em Lisboa as comemorações dos 25 anos da Federação dos Amigos dos Museus de Portugal (FAMP), na qual a associação Amigos do Solar Condes de Resende– Confraria Queirosiana (ASCR-CQ) está filiada e por isso aí se fez representar pelo secretário da direção, J. A. Gonçalves Guimarães, que pertence à direção daquela entidade e que ali esteve também na qualidade de presidente do júri do Prémio Reynaldo dos Santos 2023 entregue nesse evento, e pelo vogal da direção Manuel Nogueira.

            A partir das 10 horas da manhã na biblioteca do novo edifício do Museu dos Coches, onde a FAMP tem a sua sede, decorreu a assembleia geral para apresentação e aprovação do relatório de atividades e contas referente ao ano de 2022, o plano de atividades e orçamento para 2023, e ainda outros aspetos da vida da associação aprovados por unanimidade e aclamação, como foi o caso da cooptação da escolha da Dr.ª Maria do Rosário Alvellos para presidente da direção. Seguiu-se uma visita à magnífica exposição de viaturas do museu guiada pelo seu diretor, o museólogo Doutor Mário Antas, e um almoço de confraternização num restaurante das redondezas, já com a presença de René Faure em representação da Fédération Française des Sociétés d’ Amis de Musées e também da World Federation of Friends of Museums – WFFM).

             Da parte da tarde, a partir das 15 horas, no magnífico enquadramento cénico do Picadeiro Real, decorreu a sessão comemorativa dos 25 anos, com a presença de muitos profissionais dos Museus, das organizações tutelares nacionais e internacionais, como o Prof. Doutor Luís Raposo do ICOM, e também dos grupos de Amigos, que acompanharam com expetativa a atribuição do Prémio Reynaldo dos Santos patrocinado pela Fundação Millenium, ali representada pelo embaixador António Monteiro. O júri, constituído pelo Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, em representação da FAMP; Prof.ª Doutora Alexandra Curvelo da NOVA-FCSC; Prof.ª Doutora Sandra Leandro da Universidade de Évora; Dr.ª Joana Sousa Monteiro do Museu de Lisboa; e Prof. Doutor António Pestana de Vasconcelos também da Universidade de Évora, atribuiu o prémio à exposição «Resgatar da Ordem. Iconografias [s]em reserva[s]» organizada pelo Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, promovida pela sua Liga dos Amigos do Museu, contemplados com 2.500 €. Foram ainda atribuídas duas menções honrosas, uma à exposição «Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano» organizada pelo Museu de Arte Contemporânea/ Museu do Chiado, com a mostra de 175 obras de artistas portugueses e estrangeiros do galerista Mário Teixeira da Silva e promovida pela respetiva associação de Amigos, e outra à exposição «Mariano Benlliure. Legado Artístico em Portugal» do Museu Nacional Grão Vasco, de Viseu, promovida pelo Grupo de Amigos do Museu Grão Vasco (GAMUS), recebendo cada uma a quantia de 1.000 €. O júri decidiu ainda atribuir duas menções especiais, sem prémio pecuniário, às exposições «História de um Império. Coleção Távora Sequeira Pinto», promovida pelo Grupo de Amigos do Museu do Oriente (GAMO), Lisboa, e «In Memoriam. Abel Flórido e Francisco Laranjo», pela Liga dos Amigos do Museu de Lamego.

            Foi também feita uma homenagem a personalidades que se têm dedicado ao voluntariado cultural, aos grupos de amigos e aos jovens amigos presentes e anunciada a criação pela FAMP do Prémio Excelência ODS Amigos dos Museus, consagrado à sustentabilidade, e a instituição pela WFFM nos segundos domingos de outubro de cada ano, do Dia Internacional dos Amigos dos Museus, que este ano ocorrerá a 8 desse mês sob o tema "A Hospitalidade".

Seguiu-se um momento musical em que atuou a soprano Maria João de Sousa acompanhada pelo quarteto de câmara Opus 28, tendo a sessão encerrado com o convívio num Porto de Honra.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 175, sábado, 25 de março de 2023; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública); C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: FAMP; Luís Raposo.