quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Eça & Outras, quinta-feira, 25 de outubro de 2018



Não somos as nossas doenças

Recentemente o meu amigo Jaime Milheiro, ilustre médico psiquiatra e psicanalista pensador sobre as orfandades humanas, publicou um artigo na Revista da Ordem dos Médicos intitulado «Não precisamos de doença para morrer» onde, com a sua habitual clareza e sagacidade, enumera as três razões para cairmos na situação clínica e social de se “estar doente”: «Agressões externas…; Agressões internas…; Doenças propriamente ditas…». Vale a pena ler e refletir sobre este texto e os que se lhe seguirão. Acontece que quando me chegou às mãos tinha eu alinhavado este outro devido ao facto de recentemente ter sido dado como curado de uma doença. Não sendo eu médico, as minhas reflexões partem de um ponto de vista mais antropológico e da história social, mas confirmam completamente aquela sua asserção: doença e morte não são necessariamente sinónimas, bastando para tal lembrar a quantidade de pessoas saudáveis que morrem nas guerras ou nos desastres rodoviários. Creio que adoecemos porque: 1 – herdamos dos nossos antepassados aleijões genéticos para tal; 2 – ao longo da vida praticamos ou deparámo-nos com insuficiências e excessos (alimentares, comportamentais, conceptuais) que nos afastam dum inexistente equilíbrio biológico, fundamental para a sobrevivência; 3 – sofremos agressões físicas e culturais do meio em que vivemos, desde o clima, poluições várias, inadequado manuseio de máquinas e produtos artificiais, lutas com outros humanos, animais ou forças da natureza, exercício de práticas sociais violentas ou mutiladoras do físico ou da mente, e consequências do excesso de ocupação da paisagem pela civilização (os acidentes automóveis, por exemplo). Tendo cada um de nós à nascença uma muito pré-determinada esperança finita de vida, tudo aquilo que é doença (perda de autonomia do corpo ou da mente), pode afastar-nos da condição de cidadãos “normais” vivendo sossegadamente num determinado espaço e tempo, transformando-nos em doentes, seres dependentes do sistema de assistência controlado pelas indústrias, comércios e serviços farmacêuticos e de cuidados médicos, e também do Serviço Nacional de Saúde, cada um certamente com objetivos diferentes, mas convergentes na prática.
Ora a vida de um cidadão não pode nem deve reduzir-se às suas inevitáveis doenças, sob risco da sua existência não servir para grande coisa, nem para si próprio nem para os outros. Se quanto às heranças genéticas pouco podemos fazer, a não ser ter esperança na evolução das ciências médicas, mas controlando as suas inevitáveis perversidades, no que diz respeito às nossas enfermidades provocadas pelas insuficiências e pelos excessos, convém não esquecer que muitas delas são insidiosamente provocadas pela sociedade em que vivemos, mesmo pelas práticas culturais dos nossos grupos de conforto (família, “tribo”, clubes vários), ou por nós próprios, muitas vezes tendo consciência de tal, outras vezes nem por isso. Nem valerá a pena lembrarmos as doenças provocadas pelo tabagismo, alcoolismo, consumo exagerado de carne, fast food, bebidas açucaradas, cosméticos e produtos químicos, drogas legais e ilegais ou práticas sociais alucinatórias. Tentemos evitá-las (o que não é fácil) e, quando se revelam, descartá-las o mais rapidamente possível, o que implica, quantas vezes, o “mudar de vida” e de grupo social. O transformarmo-nos em consumidores compulsivos de cuidados médicos desnecessários é o mesmo que passarmos a ser uma espécie de drogados que, se bem que legais, têm os mesmos problemas de qualquer outro toxicodependente: não conseguiremos dispensar a “dose” nem as salas de “chuto” (clínicas, hospitais, centros de saúde…) para manter a vida no padrão que a sociedade nos impõe. Quanto às doenças que aparecem ou persistem após os traumatismos provocados por acidentes, tentemos não ser atropelados para os evitar. Mas ele há azares na vida.
Eça de Queirós sempre se queixou de problemas intestinais. Morreu doente relativamente novo, aos cinquenta e cinco anos, tendo buscado na ciência médica até ao fim uma panaceia para os seus males. Mas ele e a sua doença não coabitavam: «O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...», escreveu em Os Maias. Tinha bem a noção de que “uma fraca alma faz fraco o forte corpo”. Por isso também escreveu: «adoro a Vida - de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro - porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadáver rígido no seu esquife vive tanto como urna águia batendo furiosamente o voo. E a minha religião está toda no credo de Atanásio, com uma pequena variante: - Creio na Vida todo-poderosa, criadora do Céu e da Terra... » (A Correspondência de Fradique Mendes), mesmo sabendo que a vida é curta e que também a ele se aplicou «o conhecido verso de Malherbe sobre a rápida vida das rosas - que viveu o que vive um foguete, o espaço dum estalo e dum clarão» (O Conde de Abranhos).
Resta-me dizer-vos que, cá por mim, não tenciono aceitar as minhas doenças como condicionantes obsessivas da minha existência a prazo. Faço o possível por colocá-las no conveniente estendal da existência, lavando-as, secando-as e passando-as a ferro conforme as necessidades de continuarem a ser compatíveis com tudo o resto que me possa fazer feliz. Tento que para mim os serviços de saúde sejam uma boa lavandaria das mazelas do corpo, mas não os quero transformar nos meus templos de Orfeu.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos a decorrer ou a acontecer

Curso sobre Património Musical


No próximo sábado, dia 27 de outubro, terá lugar no Solar Condes de Resende pelas 15 horas a abertura do novo curso livre para o ano letivo 2018/2019, sobre “Música & Músicos. Aspetos do Património Musical Português”. Como habitualmente, no início da sessão serão chamados os professores e alunos do curso anterior sobre o Património Cultural de Gaia para a entrega dos certificados de frequência e dos CD com a documentação do mesmo. A sessão será presidida pelo Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gala, que após este ato, como sociólogo e professor, dará a aula de abertura do curso subordinada ao tema “Sociologia da Música”. Estarão igualmente presentes o Prof. Doutor José Manuel Tedim, presidente da ASCR-CQ e diretor da Academia Eça de Queirós e J. A. Gonçalves Guimarães diretor do Solar e coordenador dos cursos. Esta sessão é de entrada livre; a frequência das restantes sessões do novo curso implica inscrição prévia.

O Trabalho do Historiador


Nesta semana de 22 a 26 de outubro a Editorial Caminho está a promover na Livraria Buchholz em Lisboa uma homenagem a António Borges Coelho nos seus 90 anos, através de um ciclo de palestras intitulado «O Trabalho do Historiador». São conferencistas: Cláudio Torres, diretor do Campo Arqueológico de Mértola; Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo; Vítor Serrão, diretor do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Manuel Loff, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Hermenegildo Fernandes, diretor do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A entrada é livre.

150 anos do Torne

Prolongando no tempo as comemorações dos 150 anos da Igreja e Escola do Torne, Vila Nova de Gaia, decorre hoje, dia 25 de outubro pelas 21,30 horas no Solar Condes de Resende uma palestra sobre o tema “Os 150 anos do Torne: uma evocação histórica”, pelo historiador António Manuel S. P. Silva.
O encerramento oficial desta evocação decorreu no passado dia 20 de outubro e constou de um momento devocional na Igreja de S. João Evangelista, seguido do descerramento de uma lápide na fachada do edifício da primitiva capela-escola fundada pelo industrial Diogo Cassels em 1868, a que se seguiu um almoço de confraternização entre antigos e atuais dirigentes e membros desta comunidade da Igreja Lusitana e dos seus organismos sociais de educação e assistência, tendo estado presentes autoridades civis (Câmara Municipal) e religiosas (Diocese do Porto, igrejas paroquiais de Santa Marinha, Mafamude e capelania da Serra do Pilar da Igrejas Católica, paróquias do Prado e do Candal da Igreja Lusitana e Igreja Metodista do Porto), bem assim como outras instituições, e também cidadãos sem filiação religiosa que frequentaram as suas escolas e onde, no espírito do fundador, nunca foi feita qualquer descriminação religiosa ou social.
Seguiu-se uma sessão de encerramento no auditório do Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, onde foi apresentada por D. Fernando da Luz Soares, bispo emérito daquela igreja, a reedição do livro A Reforma em Portugal, da autoria de Diogo Cassels, pela primeira vez publicado em 1908, complementada com uma visita à exposição “Torne um lugar na história” ali patente, guiada pelo seu curador, o acima referido, historiador António Manuel S. P. Silva, que é também o autor do respetivo catálogo-guia, um muito bem ilustrado e documentado volume de 90 páginas que aborda todos os aspetos desta instituição ao longo deste século e meio.
Entretanto o antigo aluno da instituição, Doutor Joaquim Armindo Pinto de Almeida, diácono da Igreja Católica, ofereceu à associação dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana o seu arquivo pessoal com documentos do auto-organizado grupo dos Jovens do Torne, que na segunda metade dos anos sessenta e na primeira dos anos setenta reunia no já demolido Salão Paroquial, para debater as grandes questões da época, tais como o movimento Maio 68, a Guerra Colonial, Guerra do Vietnam, movimento ecuménico; democratização da sociedade; acesso ao ensino, libertação da mulher e outros, organizando aí programas culturais e de intervenção cívica.

Salon d’ Automne Queirosiano 2018
No próximo dia 10 de novembro, logo após a aula do curso livre “Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português” que decorrerá no Solar Condes de Resende, lecionada pela Prof.ª Doutora Elisa Lessa da Universidade do Minho sobre “Os órgãos ibéricos: instrumentos, textos e contextos no noroeste português”, pelas 17,30 abrirá ao público a 13.ª edição do Salon d’ Automne Queirosiano 2018, que apresentará trabalhos artísticos dos sócios dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, constituídos por pinturas, desenhos, cerâmicas e esculturas de amadores e profissionais, nomeadamente os trabalhos dos alunos do curso de Pintura que ali funciona dirigido pela Professora Pintora Paula Alves. A exposição estará patente ao público até ao final do ano.

Feira de S. Martinho
No dia 11 de novembro, também no Solar Condes de Resende será celebrada a tradicional festividade outonal da Feira de S. Martinho. Para além dos vendedores de diversos produtos tradicionais e artesanato, nomeadamente da região duriense (Pereiros, S. João da Pesqueira), atuará o grupo cantante Eça Bem Dito com canções tradicionais italianas do século XIX e outras canções populares portuguesas.

III Encontro do Grupo Eça

Nos dias 26 e 27 de novembro decorrerá na Fundação Eça de Queiroz em Baião o IIIº Encontro do Grupo Eça, organizado por este grupo representado pelo Professor Doutor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, e pela instituição anfitriã, e ainda pelas universidades de São Paulo e Federal do Ceará e o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, subordinado ao tema «O Mandarim, A Relíquia e as suas fricções». Será conferencista, entre outros, Isabel Pires de Lima, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que falará sobre «”Tudo o que tenho no saco…” – Eça e Os Maias», o título da exposição a inaugurar no dia 29 de novembro na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, constituída por sete núcleos temáticos. Destinada ao universo do público queirosiano, a exposição terá nos estudantes do ensino secundário um dos seus público-alvo, que aí poderão confrontar este «romance charneira» do escritor com a sua biografia, iconografia e geografias física e ficcional. Privilegiando as imagens da vastíssima iconografia eciana, quer da contemporânea do escritor quer da posterior, incluindo o cinema, serão igualmente apresentados alguns documentos originais relevantes tratados de maneira a proporcionarem um frutuoso diálogo com os visitantes.

Eventos passados

Convenção Brasil-Portugal
No passado dia 15 de outubro decorreu no auditório da Associação Empresarial Portuense a Convenção Brasil-Portugal “Acelerando Oportunidades de Negócios”, organizada pelo Group Your Job, Our Work, pelo Grupo Gestão RH e apoiada por várias empresas, entre elas a Urbiface, de que é gestor o Dr. António Pinto Bernardo.

Federação das Confrarias Gastronómicas
No dia 12 de outubro decorreu na sede da Confraria Nabos e Companhia em Carapelhos, Mira, uma assembleia geral destas associações filiadas na Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas com um único ponto na ordem de trabalhos: decidir sobre a possibilidade de os atuais corpos gerentes poderem recandidatar-se a um terceiro mandato nas próximas eleições. Tendo muitas delas estado presentes, a proposta dos atuais órgãos sociais foi aprovada por larga maioria, tendo havido apenas um voto em branco. De seguida, na simpática sede da confraria anfitriã, decorreu um jantar onde foram apresentados os saborosos produtos locais, de entre os quais polvo ensalsado, peixinho da praia frito, sopa de nabiças, sardinha na telha e rojões com grelos, tudo de excelente qualidade e primorosamente confecionado pelos confrades locais. A Confraria Queirosiana esteve representada por Susana Móncóvio e J. A. Gonçalves Guimarães.

Visita guiada
No dia 6 de outubro, para os sócios da Associação Cultural Amigos de Gaia, o historiador da Arte e presidente da direção dos ASCR – Confraria Queirosiana, Prof. Doutor José Manuel Tedim, conduziu uma visita guiada à igreja de Vilar do Paraíso, cuja capela-mor, de notável interesse artístico, era a capela particular do solar dos Camelos, aí se encontrando o panteão dos membros desta família gaiense que se ligou, por casamento, a D. João de Castro, vice-rei da Índia e a Tomé da Costa, morgado da Casa de Canelas, depois Solar Condes de Resende.

Livros

Lançamento do 1.º volume do PACUG


No passado dia 5 de outubro, no salão nobre dos Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia, decorreu a sessão de lançamento do 1.º volume do Património Cultural de Gaia, intitulado Património Humano. Personalidades Gaienses, projeto patrocinado pela Câmara Municipal e em execução pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana. A mesa foi presidida pelo presidente da edilidade, Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, que na ocasião falou sobre as grandes metas orçamentais para o desenvolvimento do concelho e em particular dos projetos culturais. Estava ladeado pelo coordenador-geral do projeto, J. A. Gonçalves Guimarães, que dissertou em volta do conceito de Património e das ambições deste projeto, e pelo Professor Doutor Gonçalo Vasconcelos e Sousa, coordenador do volume, que falou sobre as suas caraterísticas e os critérios de seleção das biografias apresentadas. Também presentes os coordenadores de volume António Manuel S. P. Silva, José Manuel Tedim, Nuno Resende e Teresa Soeiro, e os autores deste volume, António Conde. António Lima, Eva Baptista, José Augusto Sottomayor-Pizarro, Laura Sousa, Licínio Santos, Maria de Fátima Teixeira, Paula Leite Santos, Paulo Costa, Susana Guimarães, Susana Moncóvio e Virgília Braga da Cruz, o quem o presidente entregou um exemplar e agradeceu a colaboração neste projeto. Para além desta cuidada edição está prevista uma outra destinada ao mercado livreiro.

Tongobriga
           
Nesse mesmo dia feriado foi lançado na Casa das Artes no Porto, ao mesmo tempo que um vídeo-filme, o livro “guia arqueológico visual” intitulado Tongobriga, o espírito do lugar, da autoria de António Manuel de Carvalho Lima e Joan Menchon i Bes e editado pela Direção Regional de Cultura do Norte e pela Câmara Municipal de Marco de Canaveses. Destinado a ser o companheiro confidente de uma demorada visita às ruínas romanas do Freixo, apresenta este povoado, não apenas de forma descritiva mas também fotográfica e reconstrutiva, através da sobreposição de transparências impressas a cores, dando uma panorâmica desde as suas origens, através da descrição da vida dos seus habitantes, dos seus principais edifícios e das transformações ocorridas ao longo dos últimos dois mil anos, não apenas numa perspetiva local, mas também regional, peninsular e europeia.


Lamego

Com o título «Um Rico Pano. Antologia de Verso, Prosa e Imagem de Lamego», Nuno Resende apresenta-nos uma viagem à antiga cidade da Beira Douro, desde o século XVI até ao século XX, através do testemunhos de autores do passado e dos nossos dias, de tal modo que o teve para tal de obter os direitos sobre textos cujos autores ainda estão vivos, ou junto dos herdeiros daqueles que, tendo já falecido, os seus escritos estão protegidos por lei, coisa rara entre nós, pois a roubalheira intelectual é tida como “normal”. Dessa obrigação nos dá conta e tal escreveu a páginas 53 para quem quiser aprender como se faz. Na introdução apresenta fichas biográficas e bibliográficas, ativa e passiva, de todos os autores chamados à tessitura deste pano, a que se seguem as descrições e recordações sobre esta terra antiga, nobre, hoje farta de vinhas e outrora de cereais, presuntos e castanha, hospitaleira, tribal, joia de granito, ouros e bordaduras de finezas sem igual. Uma seleção de raras imagens, fotografias, postais, estampas, rematam esta preciosa edição destinada a demorados passeios nas suas páginas.

Gaia 2013 – 2018

No passado dia 18 de Outubro foi lançado no Auditório Municipal de Gaia o livro Gaia: Desenvolvimento Sustentável. Cidade Inteligente 2013 – 2018, editado pela Câmara Municipal, e que disponibiliza em forma de livro, numa versão mais compacta e atualizada numa perspetiva de balanço e prospetiva, o Relatório das Atividades e das Contas do ciclo iniciado em 2013, ilustrado com gráficos e mapas demonstrativos do exercício e dos resultados alcançados. Apresentado por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da edilidade, dele consta o seguinte: «9.32. Em parceria com a Confraria Queirosiana e inúmeros investigadores de renome, a câmara avançou para a criação do roteiro do Património Cultural de Vila Nova de Gaia (PACUG), uma obra em 10 volumes que tenciona marcar a identidade histórica de Gaia» (p. 72/73). Esta apresentação foi complementada com um concerto de Jorge Palma.

Dicionário de Estudos Narrativos


No próximo dia 13 de novembro decorrerá na Universidade Estadual do Rio de Janeiro a apresentação e lançamento do Dicionário de Estudos Narrativos da autoria de Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra, recentemente editado pela editora Almedina, com a presença do autor que será apresentado por Roberto Acizelo, docente daquela universidade.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 122, quinta-feira, 25 de outubro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Eça & Outras


A minha aldeia

         Quase todos nós temos uma aldeia de estimação. Ainda que citadinos, e até às vezes nascidos numa grande metrópole, por via dos pais, dos avós ou dos sogros, ou por outras razões mais estranhas, todos queremos pertencer a um pequeno mundo perdido entre a possível ruralidade e o abandono do interior, às vezes logo ali numa periferia urbana, atrás de qualquer paisagem cuja janela se tem de abrir. Muitas vezes, os que ainda lá habitam, nem sabem que nos arrogamos o direito de também querer ser um deles, ainda que de passagem ou á distância dos quilómetros da vida que nos separa. A nossa aldeia, pode não ser «a mais bonita de Portugal» - o título já tem dona -, pode até nem ser muito «histórica», ou muito «vinhateira», ou muito sabe-se-lá-que-mais, mas ela tem sempre algo único, que mais nenhuma outra tem seja aqui seja na Patagónia: o sino da igreja com um tlim-tlom único que às vezes ouvimos à distância de continentes; o banco de pedra onde se sentou a rainha D. Tal, o teixo que dá a sombra mais fresca do mundo, a água da fonte que mais ardores desperta, o pão que jamais diabo algum amassou, a mina de ouro que, quando for descoberta, tornará Portugal um emirato do Golfo, enfim, não pensem que apenas uma única exclusividade a carateriza, mas várias, pois quando algum extranho mais veemente nos diz que na aldeia dele isto ou aquilo também é assim, logo tiramos novo trunfo da manga sobre qualquer outra insolitude local que o estatela no chão a sua ignorância, pelo menos enquanto ele não estuda melhor a sua aldeia e a nossa. Com tanto amor por ela, não se compreende muito bem porque é que está neste estado de abandono. Não sabemos de quem é a culpa mas, como é sabido, e já o dizia a locutora do PPM nas eleições de 1975, «só simpatia não chega». Também não é dos que lá ficaram, dos que lá resistem enquanto ardem os eucaliptais em volta e a aldeia no centro, os quais, tendo passado a vida a cultivar aqueles inesquecíveis melões, ainda são acusados de não terem transformado o velho solar, cujos donos vivem em Cascais, num resort de luxo.
Isto é o normal nas nossas aldeias de estimação que já são poucas. Em grande parte das outras passam-se agora incríveis fenómenos de promoção mediática. Quando ali voltamos passado um ano, como quem vai em excursão ao Tibete, e reparamos melhor na sua população na festa anual, ocorre-nos logo o que escreveu Eça de Queirós quando estava um ano sem vir a Portugal: «desola-me a população anémica. Que figuras! O ar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores de pele de galinha, um derreamento de rins, o aspeto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquética em corredores de hospital: e depois um ar de vadiagem, de ora aqui vou, sim senhor, de madracice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida... (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas, «Ramalho Ortigão»). Ou seja o encanto da aldeia que tínhamos imaginado, esfumou-se. As sadias raparigas de outrora, já não moram cá e quando voltam trazem estranhas roupas habituais no Sri Lanka, pintam o cabelo que supúnhamos juvenil e encavalitam-se agora nuns sapatos de difíceis tacões que brigam com a calçada onde ela ainda não foi alcatroada para os tratores pouparem os pneus subsidiados. Diz-se que algumas já fizeram dez cursos de formação de apanha de romãs, mas o sonho delas é trabalhar na caixa ou na câmara.
Os que tiveram que emigrar, com o dinheiro que entretanto se lhes começou a crescer, transferiram a arquitetura tradicional da Alsácia-Lorena para a Beira Alta. Uma comissão local de melhoramentos, que promove a festa de verão com um programa “cultural”, onde constam caminhadas e jogos de futebol, despediu o velho S. Gregório, cuja evocação era a 9 de maio sem concorrência de emigrantes, substituindo-o pela Nossa Senhora do Bom Sucesso, celebrada a 15 de agosto, dantes o dia das “sete senhoras” mas agora de muitas mais. O largo da aldeia, onde dantes se erguia alto um frondoso carvalho que entretanto secou por junto dele assarem os porcos para as sandes vendidas para ajudar a paróquia, está em vias de ter monumento. Se noutros tempos se chamou do Marechal Carmona, e depois do Povo, vai passar agora a ostentar o nome de Artur Botelho, o autor de A Europíada, um calhamaço em versos pretensamente camonianos sobre a 1.ª Grande Guerra, mas com XXV cantos, que para o bate-cu dos serranos deixados à sua sorte lá na Flandres os dez de Os Lusíadas não chegavam. O presidente da comissão promotora da homenagem, o Senhor Calhorda, condecorado com a medalha da Ordre Nationale du Mérite e já muito esquecido das suas primeiras e únicas letras, quando se refere à obra pronuncia o título como “A europiada”. Não se apercebendo da razão do efeito hilariante que tal provoca nuns doutores da CCRC que estudaram para padres, mas agora são gestores de verbas comunitárias, também não percebe as reticências que eles têm posto à concessão do subsídio para verem ali gravado num monumento de uma aldeia portuguesa a velha rivalidade franco-alemã, pela qual dois mancebos dali naturais deram a vida nos idos de 1918. Sendo certo que agora somos todos amigos e europeus, então nada impede une jumelage avec une mairie de França e uma outra da Alemanha. E com tudo isto, reportagem na CMTV garantida, talvez até telenovela na RTP, como diz o presidente da União de freguesias da Aldeia de Cima com a Aldeia de Baixo, que já sonha com visitas reciprocas. Mas tirando esta hipótese de progresso, a aldeia manterá o seu sossego, ainda que arqueológico, por mais quinhentos anos, apenas mudando a paisagem do cimo dos montes onde vão passar a zunir uns gigantíssimos vira-ventos que produzem eletricidade e matam as grandes aves que voam distraídas.
Tenho alguns amigos, verdadeiros d. quixotes, que têm lutado serena e discretamente ao longo da vida pela melhoria sensata das suas aldeias de estimação, tentando manter-lhes, ou até acrescentar-lhes, mais-valia à dignidade que sempre possuíram. Creio que continuam a pensar sobre o assunto como ouviram em meninos na lição da catequese: no início das suas vidas a sua aldeia era como o paraíso na Terra; depois uma vontade superior expulsou-os de lá, certamente por terem comido as maçãs que não deviam. Não se sabe muito bem o que entretanto aconteceu, mas quando a vida lhes permitiu voltar a dar-lhe atenção já ali alguma coisa tinha mudado para sempre. Mas eles continuam a ir lá, a la recherche du temps perdu. É uma teimosia como outra qualquer, mas esta quase épica nos tempos que correm: a derrota é certa mas a causa é nobre.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Palestras
Na habitual palestra da última quinta-feira do mês no Solar Condes de Resende, no próximo dia 27 de setembro, pelas 21,30 horas o Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-Confraria Queirosiana promove mais uma palestra sobre uma incontornável figura pública oitocentista, desta feita o Marechal Duque de Saldanha, um herói romântico de quem no seu tempo se disse “Ele poderia ter sido um rei”. Será palestrante o historiador J. A. Gonçalves Guimarães.

Jornadas Europeias de Património

No próximo dia 27 de setembro, pelas 18 horas, decorrerá no Palácio Nacional da Ajuda em Lisboa a apresentação do Programa Nacional das Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema “Partilhar Memórias” e de que é coordenador Guilherme d’ Oliveira Martins. Em Vila Nova de Gaia, como habitualmente, o Solar Condes de Resende, em colaboração com a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana acolherá uma sessão integrada nestas Jornadas que decorrerá no dia 29 de setembro, sábado, a partir das 15 horas, durante a qual serão oradores os historiadores J. A. Gonçalves Guimarães, Susana Guimarães e Susana Moncóvio.

Em Avintes, no Trilho do Febros, no mesmo dia e à mesma hora, o historiador Paulo Jorge Sousa Costa irá falar sobre «Se a água falasse… Memórias da toponímia ribeirinha».
Em Lamego, também integrado nestas Jornadas, no Teatro Ribeiro Conceição decorrerá o lançamento do livro Um Rico Pano: Antologia de Verso, Prosa e Imagem de Lamego da autoria de Nuno Resende, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apresentado por José Pacheco Pereira.


Curso sobre Património Musical
A partir de 10 de novembro próximo vai decorrer no Solar Condes de Resende o seu 26 curso livre desta vez sobre Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português. Pela primeira vez um curso sobre aspetos inéditos ou pouco conhecidos com especial incidência em compositores de Gaia e do Norte de Portugal, mas com a dimensão universal da Música. As aulas recorrerão à audição de excertos das obras referidas e ao complemento da indicação de concertos ao vivo onde as mesmas sejam tocadas durante o período em que decorre o curso.
O Solar Condes de Resende assinala assim o centenário do nascimento do compositor César Morais, num curso que falará de Scarlatti em Portugal, Artur Napoleão, Armando Leça, Jorge Fontes, Pedro Freitas Branco e muitos outros compositores e intérpretes desde a música antiga até à contemporânea, da música popular à erudita. Serão professores Cesário Costa, Daniel Cunha, Eduardo Vítor Rodrigues, Elisa Lessa, Helena Lourosa, Henrique Luís Gomes de Araújo, J. A. Gonçalves Guimarães, Jorge Castro Ribeiro, José Manuel Tedim, Mário Mateus, Rodrigo Teodoro e Rosário Pestana. Aos inscritos será passado um certificado de participação e entregue um CD com textos dos professores sobre os diversos temas das aulas.

Livros

No âmbito das comemorações dos 150 anos da Igreja e Escola do Torne (ver baixo) foi lançada a 2.ª edição do livro Diogo Cassels 1844-1923. A praxis ao serviço da fé de Fernando Peixoto, versão sintetizada da sua dissertação de mestrado apresentada na FLUP em 1995, publicada em versão integral em 2001 e a primeira edição desta síntese em 2005. Publicada na série Biografias pela editora Iniciativas Criativas, esta edição apresenta-se com um prefácio de D. Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, e um posfácio de Helena Peixoto e de José António Afonso sobre o percurso biográfico, académico e profissional do autor falecido em 2008. Este livro foi também apresentado na Feira do Livro do Porto no passado dia 22 de setembro na Galeria Municipal com a presença de Gaspar Martins Pereira.

Governadores civis de Leiria
No dia 21 de setembro no Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, na igreja da Misericórdia local, foi lançado o n.º 17 dos Cadernos de Estudos Leirienses que, entre vários outros estudos, apresenta o de Ricardo Charters d’Azevedo sobre “Os governadores civis de Leiria”.

No dia 22 de setembro, no salão nobre da Junta de Freguesia de Vermoim, Maia, foi lançado a obra coletiva A Mulher da Maia – da periferia à urbe portuense (final do século XIX – início do século XX), editada pelo Clube UNESCO da Maia. Entre os temas apresentados, o Dr. Gabriel Gonçalves escreveu um capítulo sobre “As Pinheireiras” e um sobre “As Leiteiras”, este em co-autoria.


No próximo dia 7 de outubro em Pereiros, S. João da Pesqueira, vai ser lançado um novo livro de A. da Silva Fernandes intitulado Singularidades e Curiosidades da Aldeia (devidamente desordenadas). Depois da publicação de outros títulos seus e alheios sobre este pequeno mundo duriense que tem ajudado a permanecer e a reabilitar para transmitir às gerações vindouras, este livro privilegia a linguagem fotográfica, de tal modo que o autor recusou-se a sobrecarregar a imagem da capa com o título e o seu nome, que apenas figuram na lombada e no rosto. Editado pela Associação dos Amigos de Pereiros, esta edição tem o apoio da ASCR-Confraria Queirosiana e será apresentada por J. A. Gonçalves Guimarães.

150 anos do Torne
        

Fundada em 1868 por Diogo Cassels, um industrial de origem britânia nascido no Porto e estabelecido em Vila Nova de Gaia, comemora-se este ano os 150 anos da Igreja e Escola do Torne, localizada no lugar deste nome em Vila Nova de Gaia, instituição pertencente à Igreja Lusitana, mas que desde sempre acolheu alunos na sua parte educativa sem discriminações confessionais. As comemorações são organizadas pela paróquia de S. João Evangelista e pela Associação das Escolas do Torne e do Prado, e do programa consta a mostra documental Torne (1868-2018), um lugar na história, aberta ao público no passado dia 20 no Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, a qual encerrará ao público no dia 20 de outubro com a reedição da obra de Diogo Cassels A Reforma em Portugal, pela primeira vez publicada em 1908. Nesse mesmo dia haverá um almoço de confraternização de membros daquela congregação religiosa e de antigos alunos das escolas do Torne e do Prado, muitos dos quais são hoje cidadãos empenhados na vida local e nacional.

Prémio Villa Portela
Instituído por Ricardo Charters d’Azevedo e promovido pela Câmara Municipal de Leiria e pelo Centro de Património da Estremadura (CEPAE) está a decorrer até ao dia 15 de outubro o prazo para entrega de trabalhos candidatos à 4.ª edição do Prémio de História Local Villa Portella, que incide sobre projetos de investigação que abranjam a área do Distrito de Leiria e Concelho de Ourém. A entrega do prémio será feita em cerimónia a realizar pela Câmara Municipal de Leiria

Viagem ao Egito faraónico
         Regressaram recentemente de mais uma viagem cultural ao Egito faraónico, conduzida pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um grupo de alunos e outros interessados, que visitaram com particular agrado uma boa parte do trajeto percorrido em 1869 por Eça de Queirós e o Conde de Resende. Para o próximo ano já estão programadas duas viagens guiadas pelo mesmo egiptólogo, a primeira entre 18 de abril e 1 de maio (Férias da Páscoa) e a segunda no verão. A organização das viagens é da agência Novas Fronteiras.

Port Wine Day
No passado dia 10 de setembro decorreu no Cais de Vila Nova de Gaia, na Loja de Informação Turística, o Port Wine Day organizado pela divisão de Turismo da Câmara Municipal local. Para além do produto de referência, de que foram abertas várias garrafas segundo o método da tenaz aquecida que quebra o gargalo, o espaço apresentava uma mostra de trajos das confrarias gaienses, tendo estado presentes a Confraria da Broa de Avintes e uma delegação da Confraria Queirosiana que apreciou a mostra de doçaria e chocolates, tendo o Rancho Folclórico de Mafamude interpretado várias danças e cantares do Entre-Douro-e-Vouga.
A Confraria Queirosiana festejou este dia com o seu Porto 20 ANOS, produzido pela Quinta da Boeira, Vila Nova de Gaia.

Exposição sobre Mário Cláudio
            No Centro Mário Cláudio em Paredes de Coura está patente ao público desde 8 de setembro a exposição “Anos 60 – A Juventude de um Escritor”, que apresenta uma mostra documental biográfica sobre o autor de As Batalhas do Caia. Nos painéis, textos e ilustrações sobre a Guerra Fria, os Hippie e outros movimentos contestatários, a Sociedade de Consumo, as motivações da Juventude, os Beatles, e a canção-hino de Wellington Almeida Pinto “Para não dizer que não falei de flores”, cantada em 1968 por Geraldo Vandré contra a ditadura brasileira e, por extensão, contra todas as ditaduras da época, mais conhecida por “Caminhando e cantando…”.

Convívios
              No próximo dia 3 de outubro decorrerá no restaurante Monte Aventino no Porto um novo almoço convívio dos antigos alunos do Liceu Alexandre Herculano daquela cidade. Estes encontros regulares, para além de alimentarem o espírito de camaradagem, servem para trocar impressões sobre a situação daquela antiga e prestigiada escola de ensino secundário e de memorabilia a ela referente, nomeadamente fotografias e números do jornal Prelúdio.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 121, terça-feira, 25 de setembro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685;
NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154;
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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Eça & Outras


sábado, 25 de agosto de 2018

Fake News

         Imaginemo-nos numa máquina do tempo qualquer a ler em julho de 1139 a seguinte notícia no então inexistente semanário Notícias de Portugal, sediado em Coimbra, de reduzidíssima tiragem, copiado à mão em pergaminho, mas desde há pouco tempo mais divulgado graças ao novo método de impressão através de pranchas de madeira com letras móveis sobre um produto até agora por aqui desconhecido chamado papel, trazido de Bizâncio através de Veneza por uma família de chineses que aqui aportou com a sua carroça. Aí se poderia ler: “Grande vitória do Príncipe Alfonso ben Enrik. No passado dia 25 de julho, em que se celebra o glorioso apóstolo da Hispânia S. Tiago, o príncipe portucalense ido do Coimbra por Leiria com uma pequena mesnada, internou-se no território ocupado pelos infiéis, tendo derrotado nos campos do além Tejo um numeroso exército de islamitas chefiado por cinco reis mouros, que foram todos mortos e os guerreiros sobreviventes feitos escravos pelos cristãos combatentes. O príncipe nem sequer hesitou em dar-lhes combate pois, estando em oração com os seus cavaleiros antes da refrega, apareceu-lhes sobre as nuvens Jesus Cristo abençoando-os, pelo que os heroicos guerreiros tencionam vir em penitência ao Mosteiro de Santa Cruz agradecer a intervenção divina que de forma tão clara protegeu mais esta ação de Alfonso como rei ungido de Portugal a haver.”
Regressados, felizmente, aos dias de hoje, facilmente percebemos que acabamos de ler uma bem antiga fake new, uma notícia falsa, que hoje qualquer cidadão minimamente letrado desmonta. Provavelmente esta “batalha” nunca ocorreu, pois ninguém sabe o local certo onde poderá ter ocorrido, não houve nesta data nenhuma ação de “cinco reis” na fronteira descrita nas crónicas árabes, nem se lhes sabe o nome. Tudo leva a crer que estamos perante uma notícia fabricada para ajudar a campanha de marketing de D. Afonso Henriques na fundação de Portugal como reino independente de Leão e Castela do ponto de vista político, de Santiago de Compostela no simbólico-religioso, dos mouros na supremacia militar, para fazer curriculum junto do papado, então potência supranacional e sancionadora do poder real. E se na época pode muito bem ter sido redigida com os elementos acima referidos, e até com outros que não chegaram até nós, na realidade o relato mais antigo que sobre ela conhecemos data apenas do início do século XV, ou seja cerca de duzentos e setenta e cinco anos depois da data em que poderia ter ocorrido. Essas narrativas muito posteriores foram-lhe acrescentando pormenores e significantes: seria por ali ter visto as cinco chagas de Cristo que D. Afonso Henriques teria inventado os cinco besantes heráldicos das quinas portuguesas, os quais, como é sabido, são mais tardios e de outra origem bem mais prosaica, e outros mimos de fantasia que hoje apenas olhamos com alguma condescendência patriótica para com as crendices de tão longínquos e simples avós, mas não sem a crítica da razão que gerações de gente honesta e estudiosa aplicaram às fake news da História nacional. Se nos lembrarmos o que foi na primeira metade do século XIX o combate de Herculano contra a demagogia crendeira de “autoridades” da sua época (BUESCU, O Milagre de Ourique…, 1987) e que eu próprio, em menino, ainda ouvi esta versão na escola primária, e que em tempos muito mais recentes, para estupefação minha, ainda ouvi um jovem professor de História debitar ingenuamente a versão da origem divina das quinas sem qualquer sentido crítico, então, mesmo sem “máquinas do tempo”, só nos resta continuar a refletir sobre o que é a verdade da História na comunicação social e sobre a possibilidade de perenidade de algumas fake news, se estas não forem de imediato desmentidas ou, pelo menos, enquadradas num grau de plausibilidade mínimo, tentando descortinar qual o pérfido objetivo da sua manipulação. Ora, como concluiu Eça de Queirós, que não era cientista, mas a quem a ciência e o seu exercício não eram indiferentes, «…fora da observação dos factos e da experiência dos fenómenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade» (colaboração no Distrito de Évora).
No que diz respeito a mitologias antigas, por estranho que pareça, à medida que o conhecimento científico é cada vez mais divulgado e com ele melhorado o sentido crítico dos cidadãos escolarizados, muitas vezes as fake news de crendices e obscurantismo com séculos de existência, em vez de regredirem no seu impacto social e cultural, apresentam-se de novo muito ampliadas, graças a “romances históricos” (na realidade balelas literárias pseudo-históricas feitas por não profissionais), à ficção cinematográfica divulgada acriticamente pelos canais televisivos (mesmo os que têm o rótulo de “História”) e sobretudo por um certo Turismo, que impinge ao viajante “balcões de Julieta” não apenas em Verona mas, se for preciso, em Las Vegas ou em Macau, que o turista de pacote tudo compra e leva à família como recuerdo. Mas quem inventa ou desfactualiza notícias dos dias de hoje, tenha lá os motivos mais santos que tiver, presta um mau serviço à sociedade e, no fundo, acha que os destinatários do que escreve ou divulga são ingénuos facilmente manipuláveis. Talvez as notícias falsas de hoje não tenham possibilidades de uma vida tão longa como a da “batalha de Ourique”, mas também sabemos que os objetivos dos seus promotores não são exatamente os de alcançarem o paraíso depois de mortos, mas sim o de conseguirem negócios muito palpáveis e rendosos a seu favor a breve trecho neste mundo.
            Já no seu tempo Eça de Queirós escreveu que «é o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os atos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença das outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes» (colaboração no Distrito de Évora). Se este ainda hoje é o grande código de conduta dos bons profissionais da comunicação social, e por extensão os dos historiadores, esses profissionais da comunicação social de antanho, também muitos outros historiadores e jornalistas existem ao serviço de interesses particulares que nos querem fazer crer que a divindade lhes costuma aparecer nas nuvens. Ora uma forma de distinguirmos uns dos outros, de nos precavermos contra as fake news é não as repetirmos de imediato sem passarem pelo contraditório, o procurarmos saber sempre se a sua fonte é séria e credível, e mesmo assim o tentarmos descortinar que doutrinação escondida transportam para além dos factos, devendo estes serem obviamente sempre verdadeiros na origem.
            Estamos também fartos dos órgãos de comunicação social «…que por um lado inflama[m] as exigências mais vorazes – e por outro fornece[m] pedra e cal às resistências mais iníquas…, os que não só atiça[m] as questões já dormentes, como borralhos de lareira, até que delas salte novamente uma chama furiosa…» (Eça de Queirós, Correspondência de Fradique Mendes) .
Face ao gigantismo comunicativo em que hoje estamos mergulhados, convém termos sempre à mão um bom e despejado caixote do lixo para tanta fake new, mas também uma boa gaveta sempre arrumada e disponível para acolhermos o inalienável direito à informação, à crítica das fontes, dos conteúdos e da qualidade dos seus profissionais, e ao livre debate das ideias. É o que devemos a todos aqueles que no passado e no presente se bateram em nome da Verdade honesta e humanamente possível.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Carta do Brasil

Casa de Verdemilho no estado a que chegou nos dias de hoje;
fotografia de Jorge Campos Henriques

Eça e o solar queiroziano de Aveiro
                                                                                 
Não calaremos ao silêncio da Sociedade Eça de Queiroz, do Recife, no que respeita ao abandono e indiferença – que aos ecianos de verdade tanto nos incomoda – a que vem sendo relegado o Solar dos Queirozes, em Verdemilho, Aveiro, Portugal. Tão distante e perdido no mapa e na memória (dos que não leram o autor de ‘Os Maias’ ou, apenas, superficial e ligeiramente o fizeram); o sítio onde viveu significativa parte da infância, nosso patrono literário, José Maria Eça de Queiroz, há de resistir às intempéries do tempo e ao desinteresse de muitos.  Poucos, decerto, os brasileiros que – por preceito e fidelidade ao grande escritor português e, por consequência, ao mundo de sua vivência física e intelectual – incluíram em suas vilegiaturas ao país fundador e irmão, obrigatória e ritual passagem pela eciana (dizemos nós) casa solarenga da hoje cidade universitária de Aveiro, onde estivemos desde primeira viagem – e não foram poucas – àquela boa terra. Haja esperança!
O alerta de risco iminente do patrimônio histórico-literário representado pela casa vem da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia, que não esquece seu ‘Grão Louvado’ no Recife – bondade deles –, em erudito e oportuno editorial do mesário mor J. A. Gonçalves Guimarães que, do alto de seu saber literário e de historiador, além de respeitado ‘patrimoniólogo’, a todos nos convoca para a defesa da nobre causa.
A casa construída pelo avô paterno de Eça de Queiroz, Joaquim José de Queiroz (formado em Direito, por Coimbra, juiz e fidalgo cavaleiro da Casa Real), incorporava à fachada o brasão que lhe fora concedido em 30 de junho de 1835. Ali viveu o futuro grande romancista significativa parte da infância, começada por Vila do Conde. O imóvel que pertenceu à família até 1904 (A. Campos Matos/EQ – Fotobiografia), perdeu o brasão – ainda bem que recolhido ao Museu de Aveiro – foi descaracterizado por um primeiro andar. Não podemos compactuar com o abandono que o ameaça, mesmo discordando do personagem maior do grande Eça, Carlos Fradique Mendes, o segundo (pois há um primeiro Fradique, poeticamente coletivo, do tempo lisboeta do Cenáculo); para quem “tudo tende à ruína num país de ruínas.” Sobretudo, porque Portugal já não é o mesmo dos tempos fradiqueanos e tem consciência cultural e patrimonial de seus mais caros valores. A europeização política muito terá contribuído para isso.
Aos aveirenses deveria bastar e muito honrar (também a todos os portugueses, brasileiros e demais ‘falantes’ do mesmo idioma), o reconhecimento do próprio Eça, em carta de 1884, a Oliveira Martins, seu companheiro no mais famoso grupo intelectual português, a ‘Geração de 70’: “Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe de ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé...”. 

29 de julho de 2018
Dagoberto Carvalho Jr.

Carlos Reis no Brasil

 Professor Carlos Reis na TV Paranaíba
            No passado dia 3 de agosto o Professor Doutor Carlos Reis deu uma entrevista à TV Paranaíba em que falou sobre «A grande arte de Eça: Eça renovou a língua portuguesa; ele tem graça, tem agilidade, tem sátira, é cómico, é divertido, sem deixar, ao mesmo tempo, de ser muito sério, sob essa graça que ele tem, porque é assim que se faz a grande arte.
No Brasil há uma espécie de meio irmão de Eça de Queirós, chamado Machado de Assis, que, sob a capa de uma ironia às vezes uma pouco melancólica, também faz passar, como Eça, mensagens muito importantes sobre a vida, sobre o amor, sobre a morte, sobre a esperança, sobre a decadência, sobre tudo isso de que se fez a arte destes grandes escritores do século XIX ».

Feira de Gastronomia

            Como habitualmente a Confraria Queirosiana, a convite da Câmara Municipal de Vila do Conde, terra queirosina, fez-se representar por alguns elementos dos seus corpos gerentes na abertura da sua 20.ª Feira de Gastronomia no passado dia 17 de agosto, este ano dedicada aos países da União Europeia. Após a visita aos diversos stands por parte da presidente da autarquia, acompanhada pelos responsáveis pela organização, Dr. António Saraiva Dias, diretor da Casa de Antero de Quental e Carlos Laranja, e pelos representantes de várias confrarias, seguiu-se um jantar, no início do qual J. A. Gonçalves Guimarães fez uma breve alusão a aspetos históricos de Vila do Conde. Também presente a presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas Dr.ª Olga Cavaleiro, e o Dr. Manuel Pinheiro, chanceler da Confraria do Vinho Verde.

Palestras

No próximo dia 30 de agosto, na habitual palestra da última quinta-feira do mês do Solar Condes de Resende, o Dr. Rui Ferreira, mestre em Património, Arte e Turismo Cultural pelo Instituto Politécnico do Porto/ Escola Superior de Educação, falará sobre “O Núcleo de Armas de Fogo da Coleção Marciano Azuaga”, que tem vários e curiosos exemplares desde o século XVII até ao século XX. O acervo desta Casa foi recentemente enriquecido com a oferta à Confraria Queirosiana pelo escritor J. Rentes de Carvalho da espingarda de caça que pertenceu a seu avô, uma Tower de carregar pela boca de meados do século XIX, a qual já se encontra em exposição na mostra evocativa que lhe é dedicada ali patente ao público.

Jornadas de Balsamão

         Nos próximos dias 4 a 7 de outubro decorrem no Convento de Balsamão, Macedo de Cavaleiros, as XXI Jornadas Culturais de Balsamão, organizadas pelo Centro Cultural local com o apoio da autarquia local e de outras entidades. As sessões de apresentação de trabalhos decorrerão naquele convento e na Casa do Povo de Rio de Onor. Entre os diversos palestrantes, Fernando Andrade Lemos, do Centro Cultural Eça de Queirós de Telheiras, falará em colaboração, sobre D. Tomás de Almeida: uma «autopsicografia» deste antigo cardeal patriarca de Lisboa filho dos Condes de Avintes. Será também feito o lançamento do livro de Actas das XX Jornadas.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 120, quarta-feira, 25 de agosto de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração Dagoberto Carvalho J.or.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Eça & Outras

Não desistiremos de Verdemilho
            «Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé ao velho e conhecido palheiro de José Estêvão». Isto escreveu Eça de Queirós a Oliveira Martins em 1884. Hoje, caro leitor, terás sérias dificuldades em visitar e perceber o abandono a que têm sido votadas as ruinas da Casa de Verdemilho, onde o escritor viveu com sua avó em menino, o que o levou àquela afetiva afiliação aveirense, e que foi de seu avô Joaquim José de Queirós, o magistrado que organizou a revolta de 1828 contra o absolutismo persecutório de D. Miguel, ali perto onde seu pai, o também juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, viveu e foi o redator principal de O Campeão do Vouga. Ambos estão sepultados em jazigo de família no próximo cemitério do Outeirinho, onde Eça também deveria estar – ou no Panteão Nacional – se não tivesse sido entregue às mitologias familiares.
            Pelas mais variadas razões – e nem sempre as melhores, convenhamos – Eça não nos sai do quotidiano. Mérito seu, sem dúvida; mediocridade nossa quantas vezes e quase sempre. Recentemente a parte do país que lê ficou chocada por ter constatado que Os Maias já não são leitura obrigatória no ensino secundário. Não seria tanto para tal se isso não se inserisse num plano geral de banalização da Cultura portuguesa: o próprio escritor considerou a obra «uma coisa extensa e sobrecarregada» (carta a Oliveira Martins, 1888), caraterística que não terá muita aceitação nos dias de hoje em que tudo é pack e take away, quando temos as séries de TV e o filme, os resumos comentados para “tirar” boa nota nos exames e as facilidades da internet. Ouvi em tempos dizer a A. Campos Matos (que escreveu a continuação da “vida” de Carlos da Maia num notável Diário) que a leitura daquele romance não deveria ser obrigatória, por assim afastar a juventude, que naturalmente não vai lá com obrigações, do prazer de ler a obra por gosto e com gosto. Por sua vez J. Rentes de Carvalho (que também a continuou em Os Novos Maias. O Rio Somos Nós, coleção Eça Agora, Expresso, 2013), num recente apontamento intitulado «O ukase sobre “Os Maias”» publicado no Expresso Diário no dia 19 passado, insurge-se contra tal explicando «Não é porque a Eça de Queirós devo muito e sei o seu valor, que me põe de avesso o ukase dos senhores da Educação, mas porque o considero um crime. Qualquer português adulto, em seu juízo e um mínimo de escolaridade, sabe que Eça de Queirós é mais que um nome, uma estátua ou uma placa de rua». E a alternativa de que a obra pode ser substituída por qualquer outra do mesmo autor, não nos deixa sossegados, pois com a falta de estudos e conhecimento que sobre o autor e a obra têm muitos professores que a “deram” na faculdade pelas sebentas do costume, com a regionalização do ensino, também Eça irá ser divulgado em “batuques literários” (a expressão é de JRC) locais, e lá veremos os alunos a estudarem livros que nunca escreveu, como “As Cidades e as Serras de Baião”, ou “A Ilustre Casa de Ramires de Resende”, ou quiçá “O Conde de Abranhos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, essa linda terra do nosso Minho”, como o senhor deputado se apresentava. Continuando a citar JRC, «pelo que a nós, os de boa vontade, cientes do valor da obra do “pobre homem da Póvoa de Varzim”, resta-nos fazer trabalho de missão: convencer os que o ignoram, que a obra de Eça de Queirós nos dá um genial retrato do país que éramos, fomos, continuamos a ser, mas onde para mal de todos nós os mangas-de-alpaca só conhecem uma velocidade: a marcha atrás». Mesmo quando tudo parece juntar-se para nos tentar desanimar.
            Recentemente Jorge Campos Henriques, autor de Eça em Aveiro. Raízes e outras histórias, editado pela Câmara Municipal local em 2001, o mais completo estudo-síntese sobre, afinal, este “peixe da ria” e os seus antepassados do Solar dos Queirozes em Verdemilho, colecionador durante toda a vida de bibliografia queirosiana, incluindo primeiras e raras edições, além de documentação sobre o avô liberal, e desde sempre esperançado na dignificação do jazigo e na recuperação das ruinas da casa para um Centro Cultural Queirosiano (para o qual o Arq.to A. Campos Matos chegou a fazer um anteprojeto tão singelo quanto funcional) ao qual ofereceria o seu espólio, perante a sucessiva indiferença das administrações municipais e da Universidade de Aveiro, acabou por oferecer uma parte do seu espólio à Casa de Antero de Quental de Vila do Conde, a terra onde Eça foi batizado, e o restante a um colecionador privado. É triste, mas acontece. A Jorge Campos Henriques resta-nos dizer: não vamos desistir de Verdemilho nem da sua dignificação, até porque se aproxima o duplo centenário da Revolução de 1820, quando um grupo de portugueses arriscou a vida e a fortuna para regenerar o país. Deu no que deu, mas desde então outras gerações de homens e mulheres de Aveiro e de outras terras, até à atualidade, ainda não desistiram. Como do célebre forte Álamo se diz, repetiremos: Remember Verdemilho.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana



Foral de 1518
            Decorrem no Município de Vila Nova de Gaia as comemorações dos 500 anos do Foral Manuelino de 1518 com várias iniciativas. Assim, no passado dia 28 de junho, na celebração do Dia do Município no Auditório Municipal, foram agraciados pelo presidente da Câmara, Eduardo Vitor Rodrigues, com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal, Sebastião Feyo de Azevedo, ex-reitor da Universidade do Porto e Manuel de Novaes Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Porto e do Douro. No início dessa mesma sessão, J. A. Gonçalves Guimarães fez a apresentação do livro aí lançado O Foral Manuelino de Vila Nova de Gaya. 1518-2018, editado pela autarquia, o qual, para além da edição fac-similada o documento e respetiva transcrição, apresenta uma introdução de Cândido dos Santos, vertida para inglês por Susana Guimarães, e ainda estudos de Francisco Ribeiro da Silva e de Amândio Barros, sobre a cidade e o município no século XVI.

J. Rentes de Carvalho
           
        No passado dia 3 de julho uma delegação da Câmara Municipal de Gaia e da Confraria Queirosiana deslocou-se a Estevais do Mogadouro para retribuir e agradecer ao escritor J. Rentes de Carvalho a sua presença no ciclo de atividades que lhe foram dedicadas no passado mês de maio em Vila Nova de Gaia. Entretanto está patente ao público uma exposição evocativa da sua vida e da sua obra na Biblioteca Pública de Perosinho, continuando no Solar Condes de Resende a exposição do seu espólio depositado na Confraria Queirosiana, recentemente acrescido com 10 videocassetes com entrevistas em programas televisivos sobre a sua obra, desde a década de noventa do século passado, realizados na Holanda e em Portugal, além de uma espingarda caçadeira de carregar pela boca, marca Tower, século XIX, que pertenceu a seu avô.
           Entretanto no passado mês de dezembro as Edições Lusitânia do Porto publicaram um livro de Caros Nogueira, doutorado em Literatura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e co-regente da cátedra José Saramago da Universidade de Vigo, intitulado São feitas de palavras as palavras. Ensaios de Literatura Portuguesa, no qual, entre muitos outros ensaios, apresenta «Montedor, de J. Rentes de Carvalho: romance clássico moderno», p. 261-283 e «Autobiografia, memória e tempo nos romances de J. Rentes de Carvalho», p. 285-312.

Confrarias
A delegação da Confraria Queirosiana no cortejo evocativo do Foral de1518
        No dia 30 de junho a Confraria Queirosiana, através de uma sua delegação, esteve presente no cortejo comemorativo da outorga do Foral manuelino a Vila Nova de Gaia, o qual percorreu a Avenida da República entre o Jardim do Morro e a nova praça do Município, e no qual participou a vereação e dezenas de associações cívicas e recreativas, tendo o desfile terminado com uma recreação histórica daquele acontecimento histórico, cuja importância para os dias de hoje na coesão da comunidade gaiense foi na ocasião sublinhada pelo presidente da Câmara, Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues.

Ofertas à Confraria Queirosiana
Ao longo dos anos vários têm sido os sócios dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e outros doadores que legaram à instituição diversos espólios bibliográficos e outros que se encontram depositados e disponíveis na sua sede: entre várias peças avulsas resultado de várias doações, recordamos os espólios de Manuel Inácio Luiz (doado por seu filo Acácio Luís), Prof. J. Rentes de Carvalho, Dr.ª Júlia Cunha (doado pelo Dr. Marcus Vinicius Cocentino Fernandes), Dr. Raúl Ferreira da Silva, Rocha Artes Gráficas, Eng.º Charters de Azevedo, Carlos Alberto de Jesus Almeida (partituras musicais e outros doadas por sua filha Paul Almeida) e Arq.to António Rocha Ferreira. No que se refere a obras de Arte, para além de um quadro a óleo do Visconde de Beire, de Susana Guimarães, de um de Eça de Queirós, de A. Dias Machado, de um retrato de J. Rentes de Carvalho de Adélio Martins, do busto em bronze do mesmo escritor por Hélder de Carvalho, recentemente foram oferecidos uma paisagem a óleo de Alexandre Rufo, e dois outros quadros a óleo de Adélio Martins, representando o Largo dos Judeus e a paisagem de Gaia e do Porto que dele se avista, baseados na obra Ernestina de J. Rentes de Carvalho.

As Artes entre as Letras
        
         Com data de 27 de junho foi lançado o n.º 221 do jornal As Artes Entre as Letras comemorativo do seu 9.º aniversário, o qual foi celebrado com uma sessão no salão nobre da Reitoria da Universidade do Porto no passado dia 30 de junho, na qual a Confraria Queirosiana esteve representada por José Manuel Tedim e António Pinto Bernardo, respetivamente presidente e vogal da sua direção. Este número, entre outros autores, apresenta textos da sua diretora, Nassalete Miranda, de Guilherme de Oliveira Martins (e um notável retrato seu da autoria de Hélder de Carvalho), Sebastião Feyo de Azevedo, José Valle de Figueiredo, Manuel de Novaes Cabral, A. Campos Matos, J. A. Gonçalves Guimarães, J. Rentes de Carvalho e Francisco Ribeiro da Silva.


Hélder de Carvalho
Edgar Cardoso por Hélder de Carvalho
Nos últimos tempos o escultor Hélder de Carvalho tem apresentado ao público notáveis trabalhos seus, quer magníficos retratos publicados no jornal As Artes Entre as Letras, como o de Guilherme de Oliveira Martins no recente numero de aniversário, quer obras modeladas em barro e vertidas em bronze. Para além do busto do escritor J. Rentes de Carvalho, inaugurado no Solar Condes de Resende no passado dia 19 de maio, no dia 22 de junho, durante a visita do II World Heritage Congresss. Steel Bridges of Large Arch ao Laboratório Edgar Cardoso, situado em Gaia junto à Ponte Maria Pia, apresentou aos congressistas um estudo para um busto do patrono da instituição. No dia 29 de junho inaugurou um grande busto de Alberto Amaral, ex-reitor da Universidade do Porto, na respetiva Faculdade de Ciências.

Psicanálise e Cultura
           
Nos próximos dias 9 e 10 de novembro, na Fundação Eng. António de Almeida no Porto, vai decorrer o XI Colóquio sobre Psicanálise e Cultura, sob o tema “A Civilização e os seus (Des)Contentamentos”, o qual tem como presidente honorário Jaime Milheiro, médico, psicanalista e autor de notável obra sobre os desafios do quotidiano numa sociedade que já não tem as sobrevivências como horizonte. Do programa constam abordagens sobre “Inteligência artificial, civilização artificial… subjetividades artificiais?”; “O admirável mundo novo”; “O futuro de uma ilusão”; e “A arte de fazer a arte”. O programa divulgado apresenta-se com o texto “No tropel dos bisontes” de Jaime Milheiro que nos interroga: «Seremos apenas, de facto, uns cabeçudos sem história nem memória?».

Livros e Periódicos

Douro
           Douro. Vinho, História & Património. Wine, History and Heritage, propriedade da Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID), dirigida pelo Prof. Doutor António Barros Cardoso, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que fez a sua apresentação, seguido do diretor do IVPD, Dr. Manuel de Novaes Cabral, que salientou a importância desta revista para a contextualização da História dos vinhos portugueses, seguido da Prof. Doutora Célia Taborda, da Universidade Lusófona do Porto, que fez a apresentação do seu conteúdo. Este número, entre vários estudos de investigadores portugueses e estrangeiros, apresenta, do seu diretor, para além do editorial, «Douro e Porto – destinos cruzados pelos meandros de um Rio»; de Maria de Fátima Teixeira, investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-Confraria Queirosiana, «A Fábrica de Arcos de Ferro da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas o Alto Douro»; e de Nuno Resende, também da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e coordenador no PACUG, «Imagens e caminho: a fotografia como fonte para o estudo das vias. O caso da cidade do Porto (1849-1930)», e ainda uma recensão sobre «Judeus de Lamego e outros cristãos-novos do Alto Douro (séculos XV-XVIII)» de J. M. Braz.

No dia 19 de julho no Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto teve lugar a sessão de lançamento do número 6 da revista

Poemas da minha vida

Na sequência do que vem fazendo há anos com personalidades marcantes da vida portuguesa, desta vez a editora Modo de Ler do Porto convidou Manuel de Novaes Cabral, diretor do IVDP a reunir em livro os seus “Poemas da Minha Vida”, uma coletânea de versos escritos por amigos seus, os quais foram lançados em agradáveis sessões, no passado dia 5 de julho na Cooperativa Árvore no Porto, e no dia 11 na Livraria Buchholz em Lisboa. A apresentação contou com a presença de literatos, diseurs, cantores, confrades e amigos do autor desta antologia.


Tendais
Nuno Resende autografa a sua obra mais recente
No passado dia 22 de julho, pelas 11,30 horas da manhã, foi lançado na residência paroquial de Santa Cristina de Tendais, Município de Cinfães, um novo livro de Nuno Resende, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, intitulado A Igreja de Tendais. Culto, comunidade e Memória, que vem assim adicionar mais um volume à já sua notável bibliografia sobre o património duriense.

Palestras
 Na habitual palestra das últimas quintas-feiras do Solar Condes de Resende, excecionalmente no passado dia 5 de julho por no dia 28 se ter comemorado o Dia do Município, o Dr. André Macedo apresentou o seu estudo sobre “A necrópole romana do Monte Sameiro em Valadares”; na próxima quinta-feira, 26 de julho pelas 21,30 horas, o Dr. Paulo Costa, falará sobre “Os forais medievais de Vila Nova de Gaia”.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 119, quarta-feira, 25 de julho de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.