sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 217, sexta-feira, 25 de setembro de 2026


Civilizados ou grunhos?

Muitos de nós conhecem razoavelmente a história da civilização, do progresso humano ao longo dos tempos em todas as latitudes. Os media divulgam hoje o que parece ser, e é apresentada como tal, uma civilização mundial nos seus apogeus. Mal acabados de chegar das desvanecidas ruralidades de oitocentos e estupefactos perante o galopante progresso, alguns fazem-na ter origem extraterrestre; outros na magnitude de um deus ou de vários deuses celestiais; outros na constante transformação da matéria organizada em diálogo com a natureza. No primeiro caso a civilização já nos teria chegado pronta a utilizar; no segundo dependerá sempre das benevolências divinas; no terceiro, do acaso das combinações das moléculas em diversos cenários naturais e das necessidades que elas passam a determinar na combinação seguinte. Tudo isso concentrado no homo sapiens e nos seus filiais protótipos mecano-eletrónicos, já existentes ou a haver.

Se todos temos, portanto, uma razoável ideia do que seja a civilização, recordemos aqui que não é muito fácil - nem consensual - a sua definição: desde remotas eras que tal têm tentado os filósofos, os que se dedicam ao estudo da Filosofia «a ciência geral dos princípios e causas». Mas a civilização, ainda que se evidencie em ideias e atitudes, é sobretudo através das suas manifestações materializadas que mais a reconhecemos: alterações antrópicas da paisagem, notáveis edifícios, artes irrepetíveis, objetos muito diversos, armazéns de conhecimentos físicos, químicos, energéticos e de saberes. Daí que as suas descrições, totais ou parciais, se encontrem desenvolvidas por historiadores em inúmeras obras, onde não faltam as tentativas de explicar a «marcha da humanidade». Como nem sempre se dispõe ou se abrange a lição arqueológica dos vestígios materiais, existem também as descrições dos jornalistas e de outros descritores, ou as simplesmente turísticas, o usufruir sem problematizar.

Nos anos quarenta do século passado um dicionário dizia que civilização era o «estado de adiantamento e cultura social» (Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, 14.ª edição, vol. I, 1949, p. 647) pressupõe-se que de um povo, um continente, o mundo todo. Sabemos hoje muito bem que esse «adiantamento» não foi igual em todo o lado, atingindo diversos «estados», patamares de civilização diferenciados. E a coisa pluralizou-se e complicou-se. E sobrevei-o o ceticismo sobre o assunto, mesmo em mentes brilhantes e produtoras de obras de referência. Perguntando a Kenneth Clark, historiador da Arte, museógrafo e historisofo britânico (1903-1983), autor de uma célebre série para a BBC depois materializada num famoso livro simplesmente intitulado Civilização, com um subtítulo esclarecedor: O Contributo da Europa para a Civilização Universal (Lisboa: Gradiva Edições, S. A., 2021), este respondeu: «O que é a civilização? Não sei. Não consigo defini-la em termos abstratos – por enquanto. Mas penso conseguir reconhecê-la quando a vejo; e neste momento estou a olhar para ela» (op. cit. p. 20). No final da obra, que analisa o que de melhor a Europa deu ao mundo em 2000 anos, em vez de uma enxurrada de definições académicas prefere concluir para si que nesta civilização de tantas maravilhas, «a ordem é melhor que o caos, a criação melhor que a destruição. Prefiro a delicadeza à violência e o perdão à vingança. De modo geral penso que o conhecimento é melhor do que a ignorância, e tenho a certeza de que a empatia humana é melhor do que a ideologia. Acredito que, apesar dos triunfos recentes da ciência, os homens não mudaram assim tanto nos últimos dois mil anos, e por conseguinte, devemos tentar continuar a aprender com a História. A História somos nós próprios» (op. cit. p. 412).

Mas, entretanto, emergiram de novo os bárbaros, os que não querem saber deste progresso humano para nada, acusando-o de, afinal, ter falhado no essencial, «a casa para todos, o pão para todos» (Eça de Queirós, A Rainha, 1898). Só que há diferenças nessa mesma constatação; para os civilizados é a preocupação de a tentar resolver; para os segundos é apenas o proclamar da sua existência para destruírem o que resta da boa vontade e da esperança civilizacional e com isso lucrarem milhões com os caos que advogam: espalhar a doença, pois a saúde não dá lucro; alimentar a guerra, pois ela precisa de fábricas e de mão-de-obra barata; tirarem a ciência da prática humana para a confiarem à «inteligência artificial».

Quer isto dizer que vem aí uma nova Idade Média protagonizada pelos grunhos do mundo e os derrotistas caseiros? Não sei. Nunca li São Cipriano nem Nostradamus, mas sim Voltaire, Rousseau e Bertrand Russsell. Pela minha parte os novos bárbaros não terão o caminho facilitado. Pelo sim, pelo não, quando passo por um robot em ação atiro-lhe com um «bom dia senhor robot!». Alguns, educadamente, respondem.

«A complicada abundância da nossa civilização material, as nossas máquinas, os nossos telefones, a nossa luz elétrica, tem-nos tornado intoleravelmente pedantes: estamos prontos a declarar desprezível uma raça, desde que ela não sabe fabricar pianos de Erard; e se há algures um povo que não possua como nós o talento de compor óperas cómicas, consideramo-lo ipso-facto votado para sempre à escravidão (Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra).

Mas isto não é assunto para perdermos tempo em conversa inútil com grunhos.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador


A ASCR-CQ organiza e promove…

 

                

                                Nassalete Miranda; J. A. Gonçalves Guimarães; Nuno Resende; fotografia de Fátima Teixira


Presença na Feira do Livro do Porto

Como vem sendo habitual, a ASCR - CQ, em colaboração com a APHVIN/ GHEVID, esteve presente na Feira do Livro do Porto que decorreu nos jardins da Palácio de Cristal ente os passados dias 21 de agosto e 6 de setembro, com a finalidade de promover as suas edições e divulgar as suas atividades junto do público interessado. A permanência no stand 109 foi assegurada por diversos dirigentes, pela técnica superior Dr.ª Maria de Fátima Teixeira e pelos investigadores-tarefeiros do Gabinete de História, arqueologia e Património da associação.

Nesta festa do livro, da leitura e da usufruição cultural, também como habitualmente, decorreram diversos eventos paralelos, de que destacamos, no Lago dos Cavalinhos, no dia 2 de setembro a apresentação da edição crítica d’ O Primo Basílio, vigésimo quarto título da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós em publicação pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, comentada pelo Professor Doutor Carlos Reis, coordenador do projeto, e pelas professoras Isabel Pires de Lima e Mónica Figueiredo, como investigadoras de Literatura especialistas em Eça de Queirós, e ainda pelo Dr. Cláudio Garrado em representação da entidade editora. Antes desta sessão aquele professor da Universidade de Coimbra e nosso confrade visitou o stand da associação, onde adquiriu obras que ainda não tinha.

No dia seguinte, e no mesmo lugar, decorreu o lançamento do livro Eça & Outras 3. Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 de J. A. Gonçalves Guimarães, custeado pelo autor e editado pela associação, ali apresentado pela ex-diretora daquele jornal portuense e atual diretora do jornal As Artes entre As Letras, Dr.ª Nassalete Miranda, que prefaciou a obra, e comentado nos seus conteúdos pelo Prof. Doutor Nuno Resende, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tendo por fim o autor aludido à finalidade desta coletânea e aventado o volume que se seguirá no próximo ano. Esta apresentação foi transmitida em direto inserida no ciclo de palestras da primeira quinta-feira do mês, mas devido à diferença horária praticada e outros condicionalismos, o tema do livro voltará a ser repetido pelo autor na primeira palestra do dia 3 de setembro à hora habitual (18,30-19,30), presencial no Solar Condes de Resende e via zoom.

 

A Ciência como Cultura

 


                                                                                Albrecht Dürer, Melancolia, 1514, pormenor


34.º Curso livre «A Ciência como Cultura» (2026-2027) que decorrerá no Solar Condes de Resende e outras instituições científicas da Área Metropolitana do Porto, a partir de 24 de outubro, organizado pelos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, EUP e a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia/ Solar Condes de Resende. A sessão de abertura decorrerá no Observatório Astronómico Professor Doutor Manuel de Barros, Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia.

 

A inscrição é gratuita para os associados dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana e para os professores que requeiram certificação, podendo ser extensiva aos associados de outras entidades protocoladas até ao limite da capacidade de frequência das aulas. A todos os inscritos será passado um certificado de frequência.

Lecionarão: Professor Doutor José Luís Santos, catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Prof. Doutor António José Guerner Dias da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Professora Doutora Helena Sant’ Ovaia, catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Doutor Nuno Oliveira, doutorado em Biologia pela Universidade de Coimbra; Dr. Paulo Alves, licenciado em Biologia, ex-investigador do CIBIO/InBIO; diretor científico da Floradata; Doutor José Manuel Grosso-Silva do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP); Prof. Doutor Mike Weber da Estação Litoral da Aguda, Vila Nova de Gaia; Mestre Inês Alves, prestadora desserviços no Instituto de Medicina Legal do Porto; Professor Doutor Levi Guerra, catedrático jubilado da Faculdade de Medicina do Porto; Prof. Engenheiro Fernando Alberto Nogueira da Rocha, jubilado da FEUP; Professor Doutor Carlos Fiolhais, catedrático jubilado da Universidade de Coimbra; Professor Doutor Luís Borges Gouveia, catedrático da Universidade Fernando Pessoa; Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ).

As aulas, serão presenciais no Solar Condes de Resende ou noutra instituição indicada no programa, e também por videoconferência, em média dois sábados à tarde por mês, entre as 15 e as 17 horas, com um pequeno intervalo por volta das 16. O curso será certificado pelo Ministério da Educação com créditos para os professores que o requeiram. Contactos: queirosiana€gmail.com; 934500335

 

A ASCR-CQ esteve em…

Festival Internacional de Música de Gaia

No passado dia 19 de setembro teve lugar no Auditório Municipal de Gaia o concerto sinfónico de abertura do 32.º Festival Internacional de Música de Gaia, agora promovido pela Associação Filarmonia de Gaia, sob a direção do Prof. Mário Mateus e a direção executiva de Walter Mateus. A direção da ASCR-CQ, como desde sempre, fez-se representar num dos mais importantes acontecimentos musicais do Norte de Portugal. Seguindo-se um diversificado programa de grande qualidade que terminará com um grande concerto com orquestra e coro do Conservatório Regional de Gaia no Mosteiro de Grijó cm a interpretação do Te Deum de Charpentier no próximo dia 17 de outubro pelas 21, 39 horas.

 

Palestras organizadas pelo Solar Condes de Resende

O serviço da Câmara Municipal de Gaia/ Solar Condes de Resende tem vindo a realizar uma série de palestras designadas Património de A_Z em torno da Coleção Marciano Azuaga doada ao município em 1904 e em grande parte aqui depositada em 1987, tendo desde então alguns dos seus diversos núcleos sido estudados, expostos e publicados e algumas das suas peças estado presentes em exposições locais, nacionais e internacionais. A atual direção do Solar montou uma exposição permanente dos principais núcleos, promovendo a reabilitação da memória do doador através da voz de diversos especialistas neste novo contexto. Assim, a 6 de junho foi a vez de Luís Ceríaco, da Universidade do Porto: a 20, Elisabete Pereira da Universidade de Évora; a 12de setembro, Rui Morais da FLUP - habitual colaborador dos projetos do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ -; a 19 de setembro Clara Moura Soares da FLUL e Pedro Redol da FCTUNL; a 10 de outubro Carlos Fabião da FLUL e a 24 de outubro Ana Cristina Sousa da FLUP. Amanhã, 26 de setembro, abrirá aí ao público às 16 horas a exposição temporária «Arte Negra pelo olhar de Diogo de Macedo», que resultou da investigação da Dr.ª Claudina Martins no âmbito do seu mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que na ocasião fará a apresentação deste seu trabalho académico. A ASCR-CQ tem vindo a divulgar estas atividades e estado presente através de vários dos seus dirigentes e associados.

 

Casa da Cultura de Avintes

23 de setembro, quarta-feira, na Casa da Cultura de Avintes decorreu a primeira sessão do clube de leitura dos Amigos da Biblioteca de Avintes ainda inserida nas comemorações do bicentenário de Camilo Castelo Branco, a qual foi animada por J. A. Gonçalves Guimarães, que na ocasião recordou o que têm sido essas comemorações em Vila Nova de Gaia feitas por diversas entidades. Em termos de proposta de leitura, para além de recordar que hoje existem muitos e variados meios que não se resumem ao livro ou ao jornal, propôs aos presentes os diversos textos de «As polémicas entre Camilo e Eça de Queirós».

 

                                                                                Mestre Filipa Júlio

Mestrado em Jornalismo

Filipa Alexandra de Freitas Júlio, licenciada em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, é jornalista há mais de duas décadas e a sua atividade profissional tem sido marcada pela escrita, pela reportagem, pela edição e por diferentes projetos de comunicação, sempre com foco em histórias de vida, património e desconstrução de problemáticas sociais e culturais. Passou por O Primeiro de Janeiro, O Norte Desportivo e O Gaiense, entre outros projetos, mantendo atualmente colaboração jornalística com o programa Quero Justiça, de Paulo Jorge Duarte (CMTV). Em 2015-2016, Filipa Júlio criou e implementou o projeto «Memória e Cultura - Resgate e preservação do património cultural através da memória autobiográfica de idosos locais», vencedor do orçamento participativo da União de Freguesias de Grijó e Sermonde, que publicou o livro Raízes - Memória a fazer cultura. È associada da ASCR-CQ.

Recentemente Filipa Júlio – como assina os seus trabalhos – concluiu na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra o seu mestrado em Jornalismo e Comunicação com uma dissertação intitulada «Silêncios e Invisibilidades da Violência no Namoro: A cobertura do jornalismo digital português (2014-2023)» disponível em acesso aberto no Estudo Geral da Universidade de Coimbra https://estudogeral.uc.pt/.

 

Publicações…


«J. Rentes de Carvalho, agora com 96 anos, dá continuidade à publicação dos seus diários depois de Recordações e Andorinhas, editado no final do ano passado. Mantendo a obsessão com os portugueses e Portugal, o nosso “romeiro sem romaria” (é esse o seu ex-libris) mostra-nos o país através de pequenos apontamentos sobre as personagens e vidas comuns com que se vai cruzando» (divulgação da Quetzal). Voltas e Disfarces chegou ao mercado ontem dia 24 de setembro.

 


«A edição crítica d’ O Primo Basílio, vigésimo quarto título da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, contempla um dos grandes romances queirosianos e, ao mesmo tempo, um dos seus textos mais problemáticos. A expressão não é excessiva, se tivermos em conta, entre outros, dois aspetos da composição e da recomposição deste relato: a quantidade e a qualidade das correções a que Eça submeteu a sua prosa, na passagem para a segunda edição; o curto lapso de tempo em que esse trabalho decorreu e que se iniciou, de facto, logo que o romance se esgotou, no próprio ano de 1878 em que veio a público. Conforme nota Isabel Pires de Lima, na extensa introdução que escreveu, bastaram três meses para que se esgotasse uma primeira tiragem de 3 mil exemplares, número apreciável, para a época» (divulgação da INCM). Ver notícia acima.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 217, sexta-feira, 25 setembro de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Carlos Réis, João Fernandes; Filipa Júlio.