domingo, 25 de janeiro de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 209, domingo, 25 de janeiro de 2026

 

O jornal Prelúdio do Liceu Alexandre Herculano no Porto

 

O jornal Prelúdio, a «gazeta dos alunos do liceu de Alexandre Herculano», mas na realidade do Centro Escolar n.º 6 da Mocidade Portuguesa, controlado pelas autoridades escolares, terá aparecido em 1947 por ação dos então alunos Manuel Alegre de Melo Duarte (o poeta e político Manuel Alegre) e de José Augusto Baptista Lopes e Seabra (o académico, político e diplomata José Augusto Seabra), que viriam a ser dois consequentes democratas oposicionistas. Não havia então muita forma de fugir à realidade escolar estatal: o n.º 5, de maio de 1953 tem na primeira página um artigo intitulado «Homenagem a Salazar» com um seu retrato desenhado por um aluno do 6.º ano. Não tendo tido acesso a todos os números publicados, devo a «minha coleção» (reprodução de grande parte deles) ao meu amigo “alexandrino” Dr. Manuel Nogueira, ilustre advogado e meu confrade queirosiano, para além dos quatro exemplares em que participei como aluno e elemento da redação no ano letivo de 1969/ 70. A primeira série foi orientada pelo Dr. Cruz Malpique, a qual teve entre os seus redatores o gaiense José Miguel Leal da Silva, engenheiro químico notável, “homem de fábrica e de minas”, com várias licenciaturas, mestre em Antropologia e doutorando aos 90 anos em recursos mineiros, recentemente falecido e a quem já me referi a propósito das minas de volfrâmio do Alto das Torres em Gaia e com quem ainda convivi em almoços de antigos alunos. Uma segunda série do «jornal dos alunos do Liceu Alexandre Herculano» teve início em dezembro de 1959 (n.º 1), prolongando-se com o mesmo cabeçalho até ao número 27, junho de 1965. Começando por ter como orientador o Dr. Olívio de Carvalho, foram-no depois o Dr. Gaspar da Costa a partir do n.º 9, março de 1961, depois outra vez o Dr. Olívio de Carvalho a partir do n.º 11, maio de 1961, e finalmente o Padre Alexandrino Brochado a partir do número 19 de maio de 1963 e que se vai manter nessas funções até o ano letivo 1969/ 1970. A partir do número 28, novembro de 1965, o jornal apresenta um cabeçalho diferente, que volta a alterar-se no n.º 29 de março de 1966 e que vai manter-se até ao fim: uma coluna à esquerda com as letras LAH na parte cimeira e em baixo um quadrado com a seguinte legenda: «JORNAL DOS ALUNOS DO LICEU/ DE ALEXANDRE HERCULANO/ AO ABRIGO DO DECRETO N.º 36508 DE/ 17.9.47 C.E.N. 6 – MOCIDADE PORTUGUESA» (https:// livro.dglab.gov.pt>sites>DGLB;https://www.juvenilbase.com/detalhes. php?id=3043 «Catálogo português de literatura juvenil, banda desenhada e cadernetas de cromos», acedidos em 2025.11. 17), com dados incompletos.

Entre 1966 e 1969 publicaram-se 13 números, uma média de quatro por ano. No ano letivo1969/ 70, sendo eu então membro da sua redação, no n.º 42 de dezembro, as letras LAH/ PRE/ LÚ/ DIO e o aviso tutelar acima referido aparecem na coluna à esquerda, mas o espaço da direita foi totalmente preenchido pelo desenho a nanquim que fiz para o efeito, mantendo-se nos n.os 43, 44 e 45, só variando a cor de fundo, respetivamente vermelho vivo, verde, azul e laranja. Pelos vistos a edição foi desde então suspensa, pois a 23 de abril de 1973 o Jornal de Notícias, num artigo de Joaquim Fernandes com a fotografia de uma das minhas capas, anunciava que ia sair o n.º 46. Não sei se saiu.

Mesmo sob a demasiado evidente tutela do regime salazarista, até para este fazer passar a ideia de que acolhia com benevolência a natural rebeldia juvenil, o que não era verdade, o Prelúdio lá ia trazendo alguns artigos, fotografias e imagens que refletiam as nossas preocupações e ansiedades. Mas, se por um lado lá estavam os “feijões verdes” (os filiados na Mocidade Portuguesa), por outro, a PIDE, que no meu caso começou cedo a querer saber das minhas atividades estudantis e culturais. Andava eu no sétimo ano naquele liceu em 1970 quando elaboraram o primeiro relatório onde «consta ter arte para a pintura e desenho e como tal usa hábitos extravagantes, protótipos de um “tedy-boy”… tratando-se de um elemento contestatário por estar na ordem do dia. Moralmente, nada de anormal foi apurado em seu desabono». Na realidade não sabiam “da missa a metade”.

Alguns nomes, ainda hoje recordados, passaram pelas suas páginas; para além dos referidos diretores, encontramos José Régio e Agostinho Gomes, antigos professores, Pedro Homem de Mello e Eugénio de Andrade com poemas oferecidos para publicação ou entrevistas e artigos de divulgação; entre os colaboradores encontramos Horácio Tavares de Carvalho, depois notário e romancista; José Viale Moutinho, jornalista e escritor; José Pacheco Pereira professor de Filosofia; José António Salvador e Mendonça Prada, jornalistas, João Louro, futuro médico, tempos depois detido pela polícia política quando era dirigente da associação de estudantes da Faculdade de Medicina do Porto, e tantos outros que aqui deram os primeiros passos na crónica, no conto, na reportagem, nos devaneios filosóficos, na análise ensaística, na arte de aprenderem a escrever a sua  mensagem nas entrelinhas. E no meio de muitas personagens do status quo estadonovista trazidas às suas páginas, ali aparecem cantores, atores, professores, padres e outros oposicionistas, e timidamente a Arte Contemporânea de vanguarda, Vieira da Silva e Picasso, e outros temas quentes para o regime, como a guerra na Nigéria e no Biafra, ou desanuviantes, como o Zip-Zip no Porto. E claro, poesia, muita poesia, incluindo a colaboração das alunas do Liceu Rainha Santa Isabel, as meninas “do outro lado da rua” que por essa via entravam no reduto da masculinidade imposta do Liceu Alexandre Herculano. Outra “fenda na muralha” era a letra das canções famosas à época, dos Beatles, certamente, mas de muitos outros e até os versos do ex-aluno Manuel Alegre que o regime quis silenciar, a «Trova do Vento que Passa», que Adriano Correia de Oliveira tinha musicado e todos trauteávamos onde quer que fosse. E volta e meia, lá aparecem artigos e notícias sobre Teatro, sobre a imprescindível Festa dos Finalistas no Teatro Sá da Bandeira ou no Coliseu, conforme os anos e as comissões. E muito curioso, amiudadas referências à Universidade de Coimbra e nenhuma à do Porto. E os “feijões verdes” não escreviam? Claro que sim: «Honrar o Ultramar, defender a Pátria»; «Porque nos batemos em África» e os inevitáveis «Camões – símbolo da Raça», «Nun’ Álvares Pereira, um símbolo da Pátria», uma entrevista a João Ameal, e um «Diálogo amigo e franco com o Senhor Reitor» o deputado da União Nacional, Martinho Vaz Pires, além de outros lá pelo meio. Et pour cause.

E Eça de Queirós, tinha? Pouco, mas sim: no n.º 15 de junho de 1962 encontramos o artigo «Alguns aspectos característicos do estilo queirosiano» da autoria do Dr. Olívio da Costa Carvalho, que depois de referir os neologismos criados pelo escritor, conclui: «Mas onde o seu espírito se revela singular é nas sínteses, de pensamento com que define opiniões, conceitos ou ideias. Repare-se nestas palavras que o escritor põe na boca de Topsius, em «A Relíquia», que é uma admirável síntese da essência da filosofia grega: «Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles o fruto… E desta árvore assim completa, se tem nutrido o espírito humano».

Foi assim o Prelúdio jornalístico da nossa vida e da de muitos outros que aqui recordamos.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador

 

A ASCR-CQ organiza e promove…

Curso sobre Camilo Castelo Branco

 

No Solar Condes de Resende prossegue, presencial e por videoconferência o curso livre evocativo dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-2025); assim, no sábado dia 10 de janeiro, Mestre Maria de Fátima Teixeira, do Gabinete de História, Arqueologia e Património falou sobre «Teixeira de Vasconcelos, escritor “camiliano”», enquanto que ontem, dia 24 de janeiro, o Mestre António Conde, do Grémio Literário Vilarrealense falou sobre «Domingos Carvalho da Silva, um poeta brasileiro» nascido em Pedroso, Vila Nova de Gaia, personalidade da Literatura de Língua Portuguesa que tem vindo a estudar e divulgar na terra do seu nascimento e do qual mostrou um espolio pessoal com peças únicas. De referir que o Mestre António Conde fez como dissertação de mestrado na FLUP um trabalho de investigação sobre uma figura camiliana, seu antepassado.

Palestra das últimas passam a primeiras quintas-feiras do mês

Como referimos na página anterior as palestras das últimas quintas-feiras do mês passam em 2026 a ser as Palestras da primeira quintas-feiras do mês. Devido aos feriados de 25 de dezembro e 1 de janeiro a primeira palestra do novo ano foi na quinta-feira dia 8 de janeiro, sendo palestrante J. A. Gonçalves Guimarães sob o tema «Os pilares da City Mark gaiense». A próxima será na quinta-feira, e 5 de fevereiro sobre «I Mariani di Devesas: seda e algodão», a importantíssima família de industriais gaienses do século XIX, pelo Dr. Alexandre Farinhote.


A ASCR-CQ esteve em…


 



No sábado, dia 27 de dezembro na sede do Rancho Regional de Gulpilhares, nas comemorações do seu 89º aniversário, J. A. Gonçalves Guimarães proferiu uma palestra sobre «Um trajo folclórico de Avintes e um outro de São Paio de Oleiros, tudo Terra de Santa Maria» a propósito da evolução dos trajes folclóricos femininos na região.

Na sexta-feira, dia 9 de janeiro, o presidente da direção esteve em Lisboa com as chefias de dois departamentos do Exército Português para visita a instalações culturais e respetivas produções, respetivamente o Major-General Torrado e o Coronel Augusto, do Departamento de Finanças no Palácio dos Condes de Resende, e o Major-General Cavaleiro do Arquivo Histórico Militar no Palácio dos Marqueses do Lavradio; tendo sido abordada a hipótese de realização pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ e aquelas entidades de um projeto de História.

No mesmo dia pelas 20,30 realizou-se num restaurante de Belém o jantar de fim de ano da FAMP durante o qual foram abordados diversos aspetos organizativos, os prémios anuais, a adesão de novas associações de amigos e visitas programadas a diversos Museus e Coleções.

 


No passado dia 22 de janeiro, pelas 21 horas, no auditório da Casa da Cultura de Avintes e organizado pelo Pedra d’Audiência Cine Clube, o presidente da direção participou numa tertúlia sobre Literatura e Cinema, concretamente sobre o filme “O Mistério da Estrada de Sintra” de Jorge Paixão da Costa, de 2007, encapuçado ao lado de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, para ver se se descobria se efetivamente houve crime ou apenas desbragado ciúme, pretexto também para falar na filmografia queirosiana portuguesa, brasileira e mexicana e em Vila Nova de Gaia no Cinema Português. Uma noite muito participativa.

 

Associados e confrades…

 


A dia 21 de janeiro decorreu em Lisboa na Rua Almirante Reis, n.º 38 o I Seminário Internacional em Educação Inclusiva UAb/UNESP, organizado pela Universidade Aberta e pela Universidade Estadual Paulista, onde foi conferencista convidado o Professor Doutor David Rodrigues, catedrático da Universidade de Lisboa e conselheiro nacional de Educação.

 

LIVROS e periódicos

 

 

No passado dia 10 de janeiro o jornal semanário Audiência, ano XXI, edição 717, páginas 2 e 3, publicou uma desenvolvida reportagem de texto e muito ilustrada, assinada por Tânia Durães, sobre o capítulo da Confraria Queirosiana levado a efeito no Solar Condes de Resende no passado dia 22 de novembro. Para além do relevo dado ao discurso do Dr. Alberto Santos, escritor e Secretário de Estado da Cultura, nesta cerimónia feito confrade de honra, e às declarações do Dr. Paulo Ferreira do Amaral, assessor do Presidente da Câmara Dr. Luís Filipe Menezes e do Doutor Albert Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras e confrade de honra, que trouxe consigo uma delegação de vinte e cinco elementos, entre os quais o ator Francisco de Assis que foi ali também insigniado como confrade de honra.

 


Dia 22 de Janeiro pelas 18 horas, no Museu Alberto Sampaio em Guimarães, foi feita a presentação do mais recente livro do Prof. Doutor Nuno Resende sobre Camilo e a sua obra que ficará como um dos marcos das Comemorações dos "200 Anos", intitulado Corografia sentimental: um dicionário toponímico e geográfico da obra de Camilo, sobre o qual o próprio autor escreveu «É o meu trabalho mais querido». Patrocinado pela CCDR-N, o mesmo será ainda apresentado noutros lugares de diversas terras camilianas nos tempos mais próximos.


Ainda A Cidade e as Serras

Na Biblioteca da Imprensa Nacional em Lisboa foi recentemente apresentado o livro De Lisboa às Serras: A evolução de Eça de Queiroz, da autoria de Philipp Kampschroer, por Cláudio Garrudo, diretor de edição e cultura da INCM, e Carlo Arrigoni, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Segundo a apresentação, «decorridos mais de 125 anos sobre a data da sua morte, a obra de Eça de Queiroz continua a suscitar novas investigações e abordagens», como a que o autor faz neste livro, que indica que no percurso literário de Eça, Lisboa e as Serras são mais do que meros cenários, sustentando toda uma interpretação da realidade nacional no panorama europeu». 

 


Foi apresentada ao público em 7 de junho de 2025 a obra A Vilariça e o Baixo Sabor na Idade Média (Séc. XII a XIV) da autoria do medievalista Paulo Sousa Costa, patrocinada pela autarquia e editada pela Lema d’ Origem, no âmbito das comemorações do 800.º aniversário da concessão da carta de foral a Santa Cruz da Vilariça. Do programa fez parte a inauguração da exposição “800º Aniversário da Concessão da Carta de Foral a Santa Cruz da Vilariça”, na Praça Francisco António Meireles, seguindo-se nos Paços do Concelho a apresentação deste livro. Na ocasião o autor referiu que o mesmo «tem por base um estudo académico, mas é complementado por vários artigos que partem dele e melhoram o conhecimento sobre a região, o território que é a Vilariça e o Baixo Sabor e que formavam uma região com alguma singularidade do passado histórico. A investigação fundamenta-se nesse território onde este foral é um dos mais importantes que vai organizar o território sobre a tutela». O foral de Santa Cruz da Vilariça foi outorgado por D. Sancho II, em 8 de junho de 1225, dando assim origem ao concelho de Santa Cruz da Vilariça. A sede deste concelho permaneceu em Santa Cruz da Vilariça até 1285, quando D. Dinis atribui carta de foral a Torre de Moncorvo.

Corrigenda:

Na edição de 25 de novembro, na secção referente ao Capítulo da Confraria Queirosiana onde se refere os graus dos novos confrades aí insigniados, o correto é o seguinte: «Foram insigniados os novos confrades, grau leitor: Dr.ª Ângela Moreira; Dandara Correia de Lima; e Eng.ª Nádia Oliveira. Grau louvado: Dr. João Bernardo Pena Gouveia de Campos e Dr. Manuel Gonçalves Morim. Como confrades de honra, grau mecenas, a Dr.ª Manuela Fernanda da Rocha Garrido; e o Eng.º Mário Armando Martins Duarte; grau louvado, o Ator Francisco de Assis; grau mecenas, o Dr. Alberto Santos, secretário de estado da Cultura; escritor e fundador da Escritaria». Pelo lapso nos casos detetados incorretos pedimos desculpa.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 209, domingo, 25 de janeiro de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: António Pinto Bernardo; Nuno Resende; Paulo Sousa e Costa.

 

 

 

 

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