quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 210, quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 

Uma city mark para o nosso tempo

Vem de muito antes dos tempos do Grand Tour a divulgação de imagens ou frases que poderão caber no conceito de city marks, como o Coliseu de Roma, a Tower Bridge de Londres, as Pirâmides do Egito. Outras são do século XIX, da época da industrialização, como a Torre Eiffel em Paris, ou a Estátua da Liberdade em Nova YorK. Lisboa tem hesitado entre a manuelina Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, este dos anos quarenta do século XX. No Porto impôs-se, desde o século XVIII, a Torre dos Clérigos. Vila Nova de Gaia só recentemente assumiu como tal o Mosteiro da Serra do Pilar, que já lá está, com o aspeto atual, desde o século XVII.

Ao longo dos tempos dentro do conceito de city marks serviram-se também comparações: “Edimburgo a Atenas do Norte”; “Monza, a Manchester italiana”; “Aveiro a Veneza de Portugal”, mas a reversão não é utilizada; nunca ninguém chamou à cidade de Manchester a Monza de Inglaterra, a Atenas, a Edimburgo da Grécia, ou a Veneza a Aveiro de Itália. Ou frases feitas, como “Porto a cidade do Trabalho”; “Braga a cidade dos cinco Pês”; “Guarda, a dos cinco Efes”; “Coimbra a cidade dos doutores”; “com Fafe ninguém fanfe”, e por aí fora, nem sempre lisonjeiras para as cidades em causa.

Quando não existem, ou não são conhecidas estas imagens, frases ou ditos, há quem tente inventá-los ou criar no público apetências para eles, mas nem sempre tal resulta, mesmo recorrendo à Literatura: Camilo Castelo Branco escreveu: «Vila Nova de Gaia, a maior taberna do mundo», que não vingou, não só porque o conceito de taberna não anda em dias felizes, como o turismo regional, pouco dado ao estudo da História e seus significados, já desde os anos sessenta do século passado que resolvera chamar caves aos armazéns, sem perceber a diferença entre os conceitos e diversidades geográfico-funcionais das construções assim denominadas, apoucando as de Vila Nova de Gaia, cujas valências portuárias, não apenas vinícolas, se foram também perdendo.

O estudo académico das city mark nos cursos de Turismo, Relações Públicas, Relações Internacionais, Marketing, e outros, é relativamente recente e terá a ver com o desenvolvimento exponencial do primeiro; com a regionalização e tentativas de individualização das comunidades mega-urbanas e urbanas, e com a aposta em economias low cost, que têm na massificação o seu valor acrescentado. Tenho perante mim a dissertação de licenciatura em Relações Públicas «Estratégia de Comunicação para a Construção de uma Imagem de Marca», de 2004, e a dissertação de mestrado em Marketing «City Marketing: Estratégia de Desenvolvimento Económico. Análise do Place Attachement na cidade de Vila Nova de Gaia», de 2013, ambas da autoria de Nuno Ricardo Pereira Guimarães e apresentadas ao então Instituto Superior da Maia, hoje Universidade da Maia. O autor, que fez carreira na área das Relações Públicas e Marketing Territorial, no primeiro caso estudou uma bem conhecida empresa de vinhos do Porto e do Douro também pela sua excecional publicidade desde 1880, e procurou descobrir-lhe os “segredos” que, quando teorizados, serviriam para o desenvolvimento da city mark de Vila Nova de Gaia, aspeto que trabalhou na dissertação de mestrado e que, como profissional da área empenhado gostaria de ter visto concretizados, ou pelo menos considerados, na sua cidade natal pela entidade para quem trabalhava. Refira-se, a propósito, que para esta teorização, teve ocasião de estudar in loco casos estrangeiros de sucesso. Mas tal não aconteceu, pois o vampirismo intelectual existe, e a visibilidade da city mark local foi em 2016 adjudicada a uma empresa privada.

Passada que foi uma década de utilização da atual city mark gaiense importa analisar os seus pressupostos e determinar o grau de aceitação pelos dois públicos destinatários: os naturais e os forasteiros. Se os primeiros a assimilaram como coisa sua e afirmação de identidade e se os segundos a tiveram como diferenciadora de uma cidade, que ainda por cima partilha o mesmo espaço geográfico e elementos paisagísticos muito fortes comuns com a vizinha cidade do Porto: o Rio Douro; as pontes; o vinho do Porto.

Os elementos diferenciadores das duas cidades foram de há muito assumidos e seria interessante analisar isso na própria heráldica municipal ao longo dos tempos. Já no tempo dos logótipos, Vila Nova de Gaia passou no final do século passado da silhueta do Mosteiro da Serra do Pilar para a do edifício dos Paços do Concelho, até que em 2016 se fixou na palavra GAIA com cada letra pintada por uma cor primária, com a legenda «todo um mundo» já por mim sugerida num artigo publicado na revista municipal como «de Gaia para o Mundo» em 2006.

Como estas coisas não são eternas, seja lá qual for o desenvolvimento que a city mark gaiense venha a ter, terá sempre de ter em conta algumas antiquíssimas valências locais e outras mais recentes: trata-se de uma terra de migrações e migrantes desde há 2500 anos, portanto de chegadas e partidas, de vias terrestres, estradas, e em breve TGV; de diversificação industrial; de embarcações de turismo; do caminho de Santiago; teve batalhas fundacionais e da liberdade (Lide de Gaia; Aljubarrota; Cerco do Porto); vende dois produtos de qualidade, um universal, o vinho do Porto, outro que não consegue afirmar-se, a broa de Avintes. A valorização destes pressupostos está dificultada por algumas fragilidades locais ou ausências continuadas: Gaia como a Southwark do Porto tem dificuldade em ser a «rive gauche»; a falta de uma universidade e de um clube local prestigiado não facilitam a fixação destas valências; embora tenha estúdios de televisão desde os anos sessenta do século XX a comunicação social local não é acutilante; a sentimento de comunidade anda as mais das vezes diluído numa paroquialidade tacanha. Não obstante a naturalidade e presença de homens e mulheres notáveis ao longo dos tempos, como Fernão de Magalhães, o navegador, Adriano de Paiva, o inventor do princípio da televisão, ou José Rentes de Carvalho, o maior escritor português vivo, as fragilidades atrás apontadas dificultam a sua assunção e divulgação. Mas tem dois monumentos emblemáticos, o Mosteiro da Serra do Pilar, carregado de significantes europeus, e a Capela do Senhor da Pedra, ruralidades enviadas ou regressadas mar fora; duas coletividades populares inconfundíveis, os Mareantes do Rio Douro, que recentemente desfilaram com os seus bombos no dia 1 de Dezembro na Avenida da Liberdade em Lisboa, à frente do desfile de bandas militares e outras no dia da Independência. A festa de São Gonçalo de Gaia poderia ser um outro “Palio de Siena” europeu. Depois o Rancho Regional de Gulpilhares, instituição que busca identidades que se medem com exigências assumidas entre o local e o universal. Se é certo que o século XX aqui chegou às Devesas com o comboio em 1864, desde então a industria local teve picos de internacionalização que hoje se afirmam na indústria automóvel e já na aeronáutica. Mas morre a emblemática fundição artística de bronze: persistem os escultores, mas não têm quem lhe fundam as estátuas. No que diz respeito a eventos, se alguns são de carácter abrangente, como o “Festival Internacional de Música de Gaia” organizado pelo Conservatório local com décadas de prestígio, ou o “Gaia Folk”, que trás agrupamentos folclóricos estrangeiros até nós, outros têm todo lugar afirmado no panorama nacional, como a “Bienal de Gaia”, ou no regional, como o “Gaia é Fado” ou o “Melhor Escola”, promovidos pelo jornal O Gaiense. Alguns outros, ou foram temporários, ou são partilhados com a Área Metropolitana, como o “Red Bull Air Race”. E o “Cerco do Porto” (2028-2034) que expressão terá?

«Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante canada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas: - ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo numa feira.» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras).

Tudo isto são canteiros onde a city mark floresce, ou não.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador

 

A ASCR-CQ organiza e promove…

Curso sobre Camilo Castelo Branco

 

Prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre evocativo dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-2025): no sábado, dia 7 de fevereiro, Júlio Gago, teatrólogo e antigo dirigente do Teatro Experimental do Porto, falou sobre «Camilo e o Teatro», enquanto no sábado, dia 21 deste mesmo mês, o jornalista de Televisão, Mário Augusto, apresentou a aula sobre «Camilo e o Cinema», tendo no final visitado a Sala Rentes e Carvalho patente no Solar e reunido com a direção para análise dos projetos para divulgação do espólio deste escritor de Gaia que em Maio completará 96 anos de idade.

Entretanto prosseguem os contatos para a organização do próximo curso intitulado «A Cultura como Ciência», tendo para tal o presidente da direção reunido no passado dia 29 de janeiro com o Prof. Doutor José Luís Santos, diretor do Observatório Astronómico Professor Doutor Manuel de Barros, no Monte da Vigem em Vila Nova de Gaia. Foi entretanto enviado um primeiro esboço do curso a todos os professores contactados para um acerto final do mesmo, e que em breve será divulgado.

Palestra das primeiras quintas-feiras do mês

No passado dia 5 de fevereiro, como anunciado, o Dr. Alexandre Farinhote, investigador do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia e membro dos corpos gerentes da ASCR – Confraria Queirosiana falou sobre sobre «I Mariani di Devesas: seda e algodão», uma importantíssima família de industriais gaienses do século XIX.

 

A ASCR-CQ esteve em…



No passado dia 27 de janeiro, o Dia Internacional do Vinho do Porto foi mais uma vez comemorado no Museu do Vinho de São João da Pesqueira com a presença de 80 convidados pelo Município presidido pelo Dr. Manuel Natário Cordeiro para um jantar-tertúlia sobre este produto embaixador de Portugal. Foi servido um impecável, criativo e ousado repasto, mais uma vez a cargo da direção, professores e alunos de muito diversificadas origens da Esprodouro, a Escola de Hotelaria e Turismo local, e com a colaboração de produtores de vinhos de exceção. O Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-Confraria Queirosiana e a Associação Portuguesa da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) estiveram representados neste acontecimento emblemático da Região Duriense pelo seu presidente da direção.

No sábado dia 31 de janeiro, elementos da direção e vários associados estiveram presentes na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia para assistirem à palestra do Dr. João Fernandes, responsável pelo Solar Condes de Resende e associado da ASCR – Confraria Queirosiana, sobre «Abade Santana de Mafamude, personagem camiliano» no âmbito das comemorações dos 200 anos de Camilo da nossa associação, do Solar e da Biblioteca. No final gerou-se animado debate sobre este antigo abade gaiense, a sociedade da época e ade nossos dias.

No dia 1 de fevereiro, domingo, pelas 16, 30 horas, a direção da ASCR –Confraria Queirosiana, representada pelo seu presidente, pelo Dr. Manuel Moreira (também em representação da Misericórdia de Gaia e da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto) e pela Dr.ª Maria de Fátima Teixeira, estiveram presentes na gala dos 100 anos da Associação Desportiva e Cultural de Santa Isabel, Canelas, Vila Nova de Gaia, que decorreu no auditório da Junta de Freguesia de Canelas. Na ocasião a direção da centenária, mas pujante, coletividade, distinguiu a associação ASCR – Confraria Queirosiana com a medalha comemorativa da efeméride.

No dia seguinte, dia 2, segunda-feira, pelas 21 horas, os mesmos elementos estiveram presentes na gala do jornal Audiência, no Pavilhão de Olival, que distinguiu diversos cidadãos com evidência na vida pública em Vila Nova de Gaia, nos Açores, em diversas outras terras de Portugal e na diáspora portuguesa nomeadamente no Canadá. Entre as personalidades destacadas foi agraciado o Dr. Luís Filipe Meneses, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, na ocasião a dirigir os operacionais da Proteção Civil no combate aos efeitos da intempérie.

 


No sábado, dia 14 de fevereiro, decorreu no Mosteiro de Grijó um Colóquio de homenagem a Frei António Domingues de Sousa Costa por ocasião do Centenário do seu nascimento em São Félix da Marinha, Vila Nova de Gaia, organizado pela Universidade Católica do Porto, pela Ordem Franciscana, pela Junta de Freguesia de Grijó e pela Paróquia de São Salvador de Grijó, que editou e distribuiu uma brochura com um texto alusivo à vida e obra deste eminente medievalista português e antigo doutor

da Universidade do Vaticano. Na ocasião a ASCR-Confraria Queirosiana esteve representada pelos dirigentes, doutores J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel S. P. Silva, tendo também comparecido um assinalável número de associados e confrades.

Na sexta-feira dia 20 a direção da ASCR – Confraria Queirosiana esteve presente no Auditório Municipal de Gaia na abertura do XII FESTEATRO – Teatro Amador de Vila Nova de Gaia, com a peça «Alistados à Força» de Pedro Miguel Dias, que igualmente assinou a encenação.

 

Outros projetos

 

A direção da ASCR-Confraria Queirosiana está a equacionar a retoma ou a colaboração em vários projetos que iniciou e desenvolveu em anos passados através do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património, nomeadamente o projeto de escavações e patrimonialização do Castelo de Crestuma do qual será publicado um livro com os resultados de incidência local, nacional e internacional do seu estudo, entre 2010 e 2015, no próximo mês de maio. Para tal tem desenvolvido várias reuniões dos coordenadores daquele grupo de trabalho, nomeadamente J. A. Gonçalves Guimarães; António Manuel S. P. Silva e Maria de Fátima Teixeira.

Outros projetos contemplam a elaboração de uma monografia sobre uma antiga empresa de Vinho do Porto, outro sobre um palácio em Lisboa, outro sobre a patrimonialização de um cenário iconográfico do Douro, a participação nas cerimónias do dia 10 de junho num país estrangeiro, o patrocínio da Revista de Portugal n,º 23 por uma empresa vinícola, a colaboração com o Festival Internacional de Música de Gaia, e o lançamento das revistas Gaya 03 e outras publicações no próximo mês de março.

 

Associados…

 


Neste mês de fevereiro, o Professor Doutor David Rodrigues poeta da escola Haiku, esteve na Índia como convidado para participar no Goa Arts and Literature Festival onde, entre outras participações, coordenou um workshop de poesia com alunos goeses. Das muitas andanças suas pelo país do deslumbramento nos dará conta num artigo que vai publicar no próximo número 23 da Revista de Portugal a sair em novembro próximo.

Regressou recentemente do estado de Alagoas, Brasil, o dirigente da ASCR – Confraria Queirosiana Dr. António Pinto Bernardo, que ali permaneceu um dilatado tempo mantendo contatos com a direção da Academia Alagoana de Letras, a Irmandade Eça de Queiroz, de que é o principal impulsionador nestas especiais relações luso-brasileiras, e com outras instituições culturais trazendo notícias das candidaturas de novos confrades para insigniação no próximo capítulo de novembro e de outros projetos em desenvolvimento.

 

Homenagens




No passado dia 27 de janeiro na ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários, Casa do Farol, Porto, o Dr. Manuel de Novaes Cabral, presidente da Fundação do Museu Nacional Ferroviário foi homenageado com um jantar pelo Rotary Club Porto Foz.

 



«O volume miscelâneo aqui apresentado, homenageia a professora Annabela Rita por ocasião da sua aposentação. Figura proeminente dos estudos literários em Portugal, Annabela de Carvalho Vicente Rita é especialista no estudo dos escritores mais emblemáticos da Literatura Portuguesa dos últimos dois séculos. O modo fecundo como tem desenvolvido um original diálogo entre os textos literários e o mundo diverso das artes (pintura, cinema, fotografia, etc.), operando uma hermenêutica intertextual e interartes para dela extrair significados complexos oriundos da natural polissemia dos campos simbólicos e da semântica dos ideários subjacentes aos temas de fundo, permite-nos considerar Annabela Rita uma filósofa da Literatura e mestre do diálogo interartes. Em suma, podemos caracterizar o modo de estar, de ensinar, de organizar e de produzir o pensamento crítico de Annabela Rita como sendo o de uma verdadeira universitária. O seu pensamento é plural, interdisciplinar e profundamente aberto ao mundo impelido na procura constante de compreender e integrar a perspetiva do Outro, do Outro cultural, do Outro religioso, do Outro que pensa diferente de nós. Na verdade, Annabela Rita é uma cidadã do mundo, que plasma na sua produção científica uma tonalidade universal. É esta grande figura de cidadã da cultura e de intervenção cívica, bem como a sua ação pedagógica e intelectual fecundas, que queremos, no momento da sua aposentação, recordar e homenagear com a publicação deste volume, no qual participaram amigos e colegas de Annabela Rita com poemas, contos, testemunhos pessoais e ensaios que ficarão para sempre na memória pessoal da homenageada e na memória coletiva dos participantes.»

(excerto da Apresentação reproduzido na página da editora)

 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 210, quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração:

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 209, domingo, 25 de janeiro de 2026

 

O jornal Prelúdio do Liceu Alexandre Herculano no Porto

 

O jornal Prelúdio, a «gazeta dos alunos do liceu de Alexandre Herculano», mas na realidade do Centro Escolar n.º 6 da Mocidade Portuguesa, controlado pelas autoridades escolares, terá aparecido em 1947 por ação dos então alunos Manuel Alegre de Melo Duarte (o poeta e político Manuel Alegre) e de José Augusto Baptista Lopes e Seabra (o académico, político e diplomata José Augusto Seabra), que viriam a ser dois consequentes democratas oposicionistas. Não havia então muita forma de fugir à realidade escolar estatal: o n.º 5, de maio de 1953 tem na primeira página um artigo intitulado «Homenagem a Salazar» com um seu retrato desenhado por um aluno do 6.º ano. Não tendo tido acesso a todos os números publicados, devo a «minha coleção» (reprodução de grande parte deles) ao meu amigo “alexandrino” Dr. Manuel Nogueira, ilustre advogado e meu confrade queirosiano, para além dos quatro exemplares em que participei como aluno e elemento da redação no ano letivo de 1969/ 70. A primeira série foi orientada pelo Dr. Cruz Malpique, a qual teve entre os seus redatores o gaiense José Miguel Leal da Silva, engenheiro químico notável, “homem de fábrica e de minas”, com várias licenciaturas, mestre em Antropologia e doutorando aos 90 anos em recursos mineiros, recentemente falecido e a quem já me referi a propósito das minas de volfrâmio do Alto das Torres em Gaia e com quem ainda convivi em almoços de antigos alunos. Uma segunda série do «jornal dos alunos do Liceu Alexandre Herculano» teve início em dezembro de 1959 (n.º 1), prolongando-se com o mesmo cabeçalho até ao número 27, junho de 1965. Começando por ter como orientador o Dr. Olívio de Carvalho, foram-no depois o Dr. Gaspar da Costa a partir do n.º 9, março de 1961, depois outra vez o Dr. Olívio de Carvalho a partir do n.º 11, maio de 1961, e finalmente o Padre Alexandrino Brochado a partir do número 19 de maio de 1963 e que se vai manter nessas funções até o ano letivo 1969/ 1970. A partir do número 28, novembro de 1965, o jornal apresenta um cabeçalho diferente, que volta a alterar-se no n.º 29 de março de 1966 e que vai manter-se até ao fim: uma coluna à esquerda com as letras LAH na parte cimeira e em baixo um quadrado com a seguinte legenda: «JORNAL DOS ALUNOS DO LICEU/ DE ALEXANDRE HERCULANO/ AO ABRIGO DO DECRETO N.º 36508 DE/ 17.9.47 C.E.N. 6 – MOCIDADE PORTUGUESA» (https:// livro.dglab.gov.pt>sites>DGLB;https://www.juvenilbase.com/detalhes. php?id=3043 «Catálogo português de literatura juvenil, banda desenhada e cadernetas de cromos», acedidos em 2025.11. 17), com dados incompletos.

Entre 1966 e 1969 publicaram-se 13 números, uma média de quatro por ano. No ano letivo1969/ 70, sendo eu então membro da sua redação, no n.º 42 de dezembro, as letras LAH/ PRE/ LÚ/ DIO e o aviso tutelar acima referido aparecem na coluna à esquerda, mas o espaço da direita foi totalmente preenchido pelo desenho a nanquim que fiz para o efeito, mantendo-se nos n.os 43, 44 e 45, só variando a cor de fundo, respetivamente vermelho vivo, verde, azul e laranja. Pelos vistos a edição foi desde então suspensa, pois a 23 de abril de 1973 o Jornal de Notícias, num artigo de Joaquim Fernandes com a fotografia de uma das minhas capas, anunciava que ia sair o n.º 46. Não sei se saiu.

Mesmo sob a demasiado evidente tutela do regime salazarista, até para este fazer passar a ideia de que acolhia com benevolência a natural rebeldia juvenil, o que não era verdade, o Prelúdio lá ia trazendo alguns artigos, fotografias e imagens que refletiam as nossas preocupações e ansiedades. Mas, se por um lado lá estavam os “feijões verdes” (os filiados na Mocidade Portuguesa), por outro, a PIDE, que no meu caso começou cedo a querer saber das minhas atividades estudantis e culturais. Andava eu no sétimo ano naquele liceu em 1970 quando elaboraram o primeiro relatório onde «consta ter arte para a pintura e desenho e como tal usa hábitos extravagantes, protótipos de um “tedy-boy”… tratando-se de um elemento contestatário por estar na ordem do dia. Moralmente, nada de anormal foi apurado em seu desabono». Na realidade não sabiam “da missa a metade”.

Alguns nomes, ainda hoje recordados, passaram pelas suas páginas; para além dos referidos diretores, encontramos José Régio e Agostinho Gomes, antigos professores, Pedro Homem de Mello e Eugénio de Andrade com poemas oferecidos para publicação ou entrevistas e artigos de divulgação; entre os colaboradores encontramos Horácio Tavares de Carvalho, depois notário e romancista; José Viale Moutinho, jornalista e escritor; José Pacheco Pereira professor de Filosofia; José António Salvador e Mendonça Prada, jornalistas, João Louro, futuro médico, tempos depois detido pela polícia política quando era dirigente da associação de estudantes da Faculdade de Medicina do Porto, e tantos outros que aqui deram os primeiros passos na crónica, no conto, na reportagem, nos devaneios filosóficos, na análise ensaística, na arte de aprenderem a escrever a sua  mensagem nas entrelinhas. E no meio de muitas personagens do status quo estadonovista trazidas às suas páginas, ali aparecem cantores, atores, professores, padres e outros oposicionistas, e timidamente a Arte Contemporânea de vanguarda, Vieira da Silva e Picasso, e outros temas quentes para o regime, como a guerra na Nigéria e no Biafra, ou desanuviantes, como o Zip-Zip no Porto. E claro, poesia, muita poesia, incluindo a colaboração das alunas do Liceu Rainha Santa Isabel, as meninas “do outro lado da rua” que por essa via entravam no reduto da masculinidade imposta do Liceu Alexandre Herculano. Outra “fenda na muralha” era a letra das canções famosas à época, dos Beatles, certamente, mas de muitos outros e até os versos do ex-aluno Manuel Alegre que o regime quis silenciar, a «Trova do Vento que Passa», que Adriano Correia de Oliveira tinha musicado e todos trauteávamos onde quer que fosse. E volta e meia, lá aparecem artigos e notícias sobre Teatro, sobre a imprescindível Festa dos Finalistas no Teatro Sá da Bandeira ou no Coliseu, conforme os anos e as comissões. E muito curioso, amiudadas referências à Universidade de Coimbra e nenhuma à do Porto. E os “feijões verdes” não escreviam? Claro que sim: «Honrar o Ultramar, defender a Pátria»; «Porque nos batemos em África» e os inevitáveis «Camões – símbolo da Raça», «Nun’ Álvares Pereira, um símbolo da Pátria», uma entrevista a João Ameal, e um «Diálogo amigo e franco com o Senhor Reitor» o deputado da União Nacional, Martinho Vaz Pires, além de outros lá pelo meio. Et pour cause.

E Eça de Queirós, tinha? Pouco, mas sim: no n.º 15 de junho de 1962 encontramos o artigo «Alguns aspectos característicos do estilo queirosiano» da autoria do Dr. Olívio da Costa Carvalho, que depois de referir os neologismos criados pelo escritor, conclui: «Mas onde o seu espírito se revela singular é nas sínteses, de pensamento com que define opiniões, conceitos ou ideias. Repare-se nestas palavras que o escritor põe na boca de Topsius, em «A Relíquia», que é uma admirável síntese da essência da filosofia grega: «Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles o fruto… E desta árvore assim completa, se tem nutrido o espírito humano».

Foi assim o Prelúdio jornalístico da nossa vida e da de muitos outros que aqui recordamos.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador

 

A ASCR-CQ organiza e promove…

Curso sobre Camilo Castelo Branco

 

No Solar Condes de Resende prossegue, presencial e por videoconferência o curso livre evocativo dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-2025); assim, no sábado dia 10 de janeiro, Mestre Maria de Fátima Teixeira, do Gabinete de História, Arqueologia e Património falou sobre «Teixeira de Vasconcelos, escritor “camiliano”», enquanto que ontem, dia 24 de janeiro, o Mestre António Conde, do Grémio Literário Vilarrealense falou sobre «Domingos Carvalho da Silva, um poeta brasileiro» nascido em Pedroso, Vila Nova de Gaia, personalidade da Literatura de Língua Portuguesa que tem vindo a estudar e divulgar na terra do seu nascimento e do qual mostrou um espolio pessoal com peças únicas. De referir que o Mestre António Conde fez como dissertação de mestrado na FLUP um trabalho de investigação sobre uma figura camiliana, seu antepassado.

Palestra das últimas passam a primeiras quintas-feiras do mês

Como referimos na página anterior as palestras das últimas quintas-feiras do mês passam em 2026 a ser as Palestras da primeira quintas-feiras do mês. Devido aos feriados de 25 de dezembro e 1 de janeiro a primeira palestra do novo ano foi na quinta-feira dia 8 de janeiro, sendo palestrante J. A. Gonçalves Guimarães sob o tema «Os pilares da City Mark gaiense». A próxima será na quinta-feira, e 5 de fevereiro sobre «I Mariani di Devesas: seda e algodão», a importantíssima família de industriais gaienses do século XIX, pelo Dr. Alexandre Farinhote.


A ASCR-CQ esteve em…


 



No sábado, dia 27 de dezembro na sede do Rancho Regional de Gulpilhares, nas comemorações do seu 89º aniversário, J. A. Gonçalves Guimarães proferiu uma palestra sobre «Um trajo folclórico de Avintes e um outro de São Paio de Oleiros, tudo Terra de Santa Maria» a propósito da evolução dos trajes folclóricos femininos na região.

Na sexta-feira, dia 9 de janeiro, o presidente da direção esteve em Lisboa com as chefias de dois departamentos do Exército Português para visita a instalações culturais e respetivas produções, respetivamente o Major-General Torrado e o Coronel Augusto, do Departamento de Finanças no Palácio dos Condes de Resende, e o Major-General Cavaleiro do Arquivo Histórico Militar no Palácio dos Marqueses do Lavradio; tendo sido abordada a hipótese de realização pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ e aquelas entidades de um projeto de História.

No mesmo dia pelas 20,30 realizou-se num restaurante de Belém o jantar de fim de ano da FAMP durante o qual foram abordados diversos aspetos organizativos, os prémios anuais, a adesão de novas associações de amigos e visitas programadas a diversos Museus e Coleções.

 


No passado dia 22 de janeiro, pelas 21 horas, no auditório da Casa da Cultura de Avintes e organizado pelo Pedra d’Audiência Cine Clube, o presidente da direção participou numa tertúlia sobre Literatura e Cinema, concretamente sobre o filme “O Mistério da Estrada de Sintra” de Jorge Paixão da Costa, de 2007, encapuçado ao lado de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, para ver se se descobria se efetivamente houve crime ou apenas desbragado ciúme, pretexto também para falar na filmografia queirosiana portuguesa, brasileira e mexicana e em Vila Nova de Gaia no Cinema Português. Uma noite muito participativa.

 

Associados e confrades…

 


A dia 21 de janeiro decorreu em Lisboa na Rua Almirante Reis, n.º 38 o I Seminário Internacional em Educação Inclusiva UAb/UNESP, organizado pela Universidade Aberta e pela Universidade Estadual Paulista, onde foi conferencista convidado o Professor Doutor David Rodrigues, catedrático da Universidade de Lisboa e conselheiro nacional de Educação.

 

LIVROS e periódicos

 

 

No passado dia 10 de janeiro o jornal semanário Audiência, ano XXI, edição 717, páginas 2 e 3, publicou uma desenvolvida reportagem de texto e muito ilustrada, assinada por Tânia Durães, sobre o capítulo da Confraria Queirosiana levado a efeito no Solar Condes de Resende no passado dia 22 de novembro. Para além do relevo dado ao discurso do Dr. Alberto Santos, escritor e Secretário de Estado da Cultura, nesta cerimónia feito confrade de honra, e às declarações do Dr. Paulo Ferreira do Amaral, assessor do Presidente da Câmara Dr. Luís Filipe Menezes e do Doutor Albert Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras e confrade de honra, que trouxe consigo uma delegação de vinte e cinco elementos, entre os quais o ator Francisco de Assis que foi ali também insigniado como confrade de honra.

 


Dia 22 de Janeiro pelas 18 horas, no Museu Alberto Sampaio em Guimarães, foi feita a presentação do mais recente livro do Prof. Doutor Nuno Resende sobre Camilo e a sua obra que ficará como um dos marcos das Comemorações dos "200 Anos", intitulado Corografia sentimental: um dicionário toponímico e geográfico da obra de Camilo, sobre o qual o próprio autor escreveu «É o meu trabalho mais querido». Patrocinado pela CCDR-N, o mesmo será ainda apresentado noutros lugares de diversas terras camilianas nos tempos mais próximos.


Ainda A Cidade e as Serras

Na Biblioteca da Imprensa Nacional em Lisboa foi recentemente apresentado o livro De Lisboa às Serras: A evolução de Eça de Queiroz, da autoria de Philipp Kampschroer, por Cláudio Garrudo, diretor de edição e cultura da INCM, e Carlo Arrigoni, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Segundo a apresentação, «decorridos mais de 125 anos sobre a data da sua morte, a obra de Eça de Queiroz continua a suscitar novas investigações e abordagens», como a que o autor faz neste livro, que indica que no percurso literário de Eça, Lisboa e as Serras são mais do que meros cenários, sustentando toda uma interpretação da realidade nacional no panorama europeu». 

 


Foi apresentada ao público em 7 de junho de 2025 a obra A Vilariça e o Baixo Sabor na Idade Média (Séc. XII a XIV) da autoria do medievalista Paulo Sousa Costa, patrocinada pela autarquia e editada pela Lema d’ Origem, no âmbito das comemorações do 800.º aniversário da concessão da carta de foral a Santa Cruz da Vilariça. Do programa fez parte a inauguração da exposição “800º Aniversário da Concessão da Carta de Foral a Santa Cruz da Vilariça”, na Praça Francisco António Meireles, seguindo-se nos Paços do Concelho a apresentação deste livro. Na ocasião o autor referiu que o mesmo «tem por base um estudo académico, mas é complementado por vários artigos que partem dele e melhoram o conhecimento sobre a região, o território que é a Vilariça e o Baixo Sabor e que formavam uma região com alguma singularidade do passado histórico. A investigação fundamenta-se nesse território onde este foral é um dos mais importantes que vai organizar o território sobre a tutela». O foral de Santa Cruz da Vilariça foi outorgado por D. Sancho II, em 8 de junho de 1225, dando assim origem ao concelho de Santa Cruz da Vilariça. A sede deste concelho permaneceu em Santa Cruz da Vilariça até 1285, quando D. Dinis atribui carta de foral a Torre de Moncorvo.

Corrigenda:

Na edição de 25 de novembro, na secção referente ao Capítulo da Confraria Queirosiana onde se refere os graus dos novos confrades aí insigniados, o correto é o seguinte: «Foram insigniados os novos confrades, grau leitor: Dr.ª Ângela Moreira; Dandara Correia de Lima; e Eng.ª Nádia Oliveira. Grau louvado: Dr. João Bernardo Pena Gouveia de Campos e Dr. Manuel Gonçalves Morim. Como confrades de honra, grau mecenas, a Dr.ª Manuela Fernanda da Rocha Garrido; e o Eng.º Mário Armando Martins Duarte; grau louvado, o Ator Francisco de Assis; grau mecenas, o Dr. Alberto Santos, secretário de estado da Cultura; escritor e fundador da Escritaria». Pelo lapso nos casos detetados incorretos pedimos desculpa.

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