terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

 

Eça & Outras, terça, 25 de fevereiro de 2025

 

IIº Centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-1890)

 

Celebrar Camilo nos seus duzentos anos

Todos teremos algumas boas razões para celebrar Camilo Castelo Branco nos duzentos anos do seu nascimento em Lisboa. Algumas de incidência nacional: ele é, sem dúvida alguma, um dos grandes escritores nacionais de todos os tempos e um dos expoentes da cultura portuguesa do século XIX. Todos lemos alguns dos seus romances mais célebres; muitos de nós viram o seu retrato nas notas de cem escudos antes do euro; alguns viram um ou outro filme baseado em alguma das suas obras; uma ou outra das suas peças de teatro; uma ou outra série televisiva sobre a sua vida ou parte dela. Mas mesmo não conhecendo muito da sua biografia sabemos que o romancista teve uma vida de romance. E sabemos que pôs fim à vida com um tiro de revolver recusando a condenação da cegueira irreversível. Ainda tenho o primeiro livro que dele li e reli: A Bruxa do Monte Córdova, que alguém me ofereceu andava eu ainda na escola primária. Entre os treze e os quinze anos “decidi” que haveria de ler “todos” os livros de Camilo, imposição que de todo não cumpri por tola e por haver outras leituras à espera. Camilo para mim era (e continua a ser…) o Portugal rural que vem trabalhar para a cidade esperando oportunidades na periferia; o Portugal brasileiro de torna-viagem que regressa às berças; o bacharel desajeitado que fazem deputado na capital; os padres e outros religiosos que não conseguem esconjurar os próprios pecados, quanto mais os dos outros; as meninas que esperam, esperam e depois ficam de esperanças, quando não tuberculosas; o profissional da escrita que a eleva aos píncaros da arte.

Repartido em pedaços vivenciais e ficcionais desde Coimbra a Vila Real, de Braga a Lamego e Viseu, de Famalicão ao Porto, cidade que o adotou porque, além de tudo o mais, Camilo fica-lhe bem: na Foz do Coração, Cabeça e Estômago (o seu melhor romance…); no Rio Douro da partida dos barcos para o Brasil; na cadeia de todos os amores de perdição e de salvação, ele por aqui viveu, vagabundeou, fez que estudou, teve algumas ocupações temporárias, amou, intrigou, interferiu, escreveu e se afirmou. E também por outras terras que este ano o vão recordar no restante dicionário toponímico camiliano.

Certa vez um amigo desafiou-me para participar num colóquio sobre temática camiliana, começando logo por me acautelar: “embora Camilo tenha pouco a ver com Gaia…”; para o esclarecer apresentei então uma comunicação intitulada «O que é que Camilo tem a ver com Vila Nova de Gaia?», a qual vou reeditar, melhorada, no curso que a Confraria Queirosiana está a preparar para evocar os 200 anos.

Efetivamente na sua vida e obra existem variadíssimos aspetos e circunstâncias que o ligam a Gaia e a Vila Nova. Antes de mais um roteiro ou itinerário descrito ou usado como cenário para vários dos seus romances, divagações ou deambulações: o Rio Douro da Companhia do Marquês de Pombal, do Forrester e dos outros “ingleses”; a Vila Nova dos armazéns, das estalagens e das freiras de Corpus Christi; o castelo de Gaia, o Candal, a Rasa; as quintas de Vilar do Paraíso, o solar dos Camelos de Miranda, a casa do coronel Hugo Owen e suas filhas; a estrada para Ovar e a romaria ao Senhor da Pedra; Avintes, padeiras, barqueiras e outras cachopas das freguesias rurais vistas aqui ou nas ruas do Porto; versos que fez a um inventado “visconde de Quebrantões”, um dândi da época. Estas e outras evidências, com a colaboração de Anselmo Freitas, foram incluídas no livro Roteiro Camiliano de Vila Nova de Gaia, e na exposição itinerante paralela, editados pelo Solar Condes de Resende em 1991. Podia já ser suficiente, mas há mais: a Coleção Marciano Azuaga recolheu a correspondência entre o escritor e o seu último editor, Eduardo da Costa Santos, que também foi comandante dos bombeiros municipais de Vila Nova de Gaia. Publicada em 1923 por Júlio Brandão, terá dado origem ao despeitado ensaio Os Azeiteiros de Camilo (1925) da autoria do ex-presidente da câmara Manuel Ferreira de Castro, e mais recentemente de novo estudada e publicada por Alexandre Cabral em 1988. Em 1944, o publicista José de Lima, administrador da Casa Ferreira dos vinhos, utilizando o arquivo da família (o filho de D. António foi concunhado de Camilo o que o levou a deixar o seu nome perpetuado numa inscrição evocativa na Quinta do Vesúvio no Douro…) publicou um livro de correspondência sobre Ana Plácido temporariamente recolhida num convento. Vila Nova de Gaia também tem e teve camilianista devotos, colecionadores de recordações, memorabilia e edições, algumas das quais podem ser vistas em catálogos como A “Camiliana” da Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, organizado por Alberto Luís Moreira e publicado em 1990, na edição do qual colaborei. Outro ensaio da autoria de um autor gaiense, A cegueira de Camilo e a miopia de um médico, foi escrito pelo médico oftalmologista Rufino Ribeiro, edição de autor, 1970, que também era pintor e autor de um retrato do escritor que foi capa de uma sua biografia.

Podemos ainda recordar as esculturas e bustos feitos por Teixeira Lopes, Diogo de Macedo e Henrique Moreira, nomeadamente o existente à entrada da avenida de seu nome no Porto. Ou as pinturas e desenhos de Joaquim Lopes e Isolino Vaz.

Um outro assunto que merecerá um estudo mais desenvolvido é a origem do título nobiliárquico do escritor, o de visconde de Correia Botelho: os seus ascendentes destes apelidos eram, desde longa data, proprietários no Castelo de Gaia, lugar que, como vimos, Camilo conhecia bem. Tendo recusado outras hipóteses, foi a ligação a este local muito especial de Vila Nova de Gaia que o levou a considerá-los e não quaisquer outros.

Mas Camilo continua hoje, e certamente assim continuará a ser recordado, como o escritor «…cujo verbo é prodigioso, acumulando tudo o que o génio nacional inventou para se exprimir!» (Eça de Queirós, Cartas Inéditas de Fradique Mendes).

J. A. Gonçalves Guimarães

Historiador


Camões 500 Anos

Exposição Universal da Matriz Portuguesa – Camões 500 Anos, organizada por A Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento, a qual a associação ASCR- Confraria Queirosiana se associou, recebeu o Estatuto de Interesse Cultural, concedido pelo Ministério da Cultura.

Entretanto, em junho de 2025 as Marchas Sanjoaninas de Vila Nova de Gaia terão como tema os 500 anos do nascimento de Camões.

A ASCR-CQ esteve em…

No dia 9 de fevereiro, domingo, a associação representada pelo presidente da direção, correspondeu ao convite e esteve presente num espetáculo popular organizado pela Comissão de Festas da Paróquia de Coimbrões no Auditório do Quartel dos Bombeiros Voluntários desta localidade gaiense, tendo no final sido convidado para ver a biblioteca da corporação e o espólio documental que pertenceu ao Padre Romero Vila, antigo capelão e seu sócio honorário, ficando o Gabinete de História, Arqueologia e Património de propor um plano para a rentabilização cultural dos mesmos.

No dia 14, o presidente esteve no Centro de Estudos Camilianos em Vila Nova de Famalicão para acertar colaboração para o curso evocativo dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco a ter início a 4 de outubro próximo no Solar Condes de Resende.

No dia 16, idem na sessão dos 113 anos do Centro Recreativo de Mafamude, Vila Nova de Gaia.

No dia 17, idem na Casa Comum (reitoria da Universidade do Porto) no lançamento do livro do confrade Adrião Pereira da Cunha, Henrique Galvão, o Intelectual, o Político, o Revolucionário

No sábado 22, idem e outros associados na abertura da exposição "Visões Inquietas" do confrade honorário Hélder de Carvalho no Mosteiro de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia, apresentada pela confrade Eng. Paula Carvalhal, vereadora do Pelouro da Cultura e da Programação Cultural da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

 

No dia 24, no Auditório de Olival, decorreu a XX Gala do jornal Audiência na qual foram distinguidas muitas individualidades e instituições pela sua relevante contribuição para a promoção de diferentes áreas da sociedade, ao longo da sua vida ou com destaque durante o ano 2024, tendo a associação estado representada pelo presidente da direção.

 

Curso e palestra no Solar

                                O Prof. David Rodrigues na sua conferência; fotografia de Maria de Fátima Teixeira

No passado dia 30 de janeiro, e dando início ao ciclo de conferências presenciais e por vídeoconferência organizadas pelos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana integradas no programa da concessão de honras de Panteão Nacional a José Maria Eça de Queiroz pela Assembleia da República, o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo falou sobre «Eça de Queirós no Egito e Terra Santa», também divulgada no blogue Faraó & Companhia.

Prossegue entretanto também no Solar Condes de Resende o curso livre «“Portugal, a Flor e a Foice” (J. Rentes de Carvalho), comemorativo dos 50 anos da Revolução do 25 de Abril»: no sábado dia 1 de fevereiro, o Prof. Doutor Nuno Resende, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto deu uma aula sobre «A Fotografia e o 25 de Abril de 1974» e no sábado dia 15, o Professor Doutor David Rodrigues catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, professor emérito da Universidade de Lovaina e Conselheiro Nacional da Educação, falou sobre «Educação: 25 é metade de 50 ou 50 é o dobro de 25?».

 

Atividades de associados e confrades

    O Prof. Luís Manuel de Araújo na sua conferência no Solar Condes de Resende; fotografia de Maria de Fátima Teixeira

Durante o mês de fevereiro diversos associados e confrades da ASCR-CQ desenvolveram diversas atividades profissionais, algumas das quais chegaram ao nosso conhecimento. Assim, a 12 deste mês, o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo fez uma conferência na Biblioteca do Exército no Palácio dos Marqueses de Lavradio em Lisboa sobre «Das Bibliotecas do Antigo Egito à Biblioteca de Alexandria», e a 19 do mesmo mês, na Academia Portuguesa da História, também em Lisboa, uma outra conferência sobre «Sarcófagos Egípcios em Portugal».

No passado dia 11 tomaram posse no Palácio da Bolsa no Porto os órgãos sociais da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Economistas para o quadriénio 2025-2028, dos quais faz parte o confrade Prof. Doutor Carlos Brito da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

 

Livros e Periódicos

 


Com o texto de Nuno Resende «A cidade pelo olhar de Guilherme Camarinha nas tapeçarias dos Paços do Concelho», fotografias de Renato Roque e design de Rui Mendonça, a Câmara Municipal do Porto acaba de publicar um belo livro que apresenta, interpreta e descodifica as tapeçarias do pintor gaiense Guilherme Camarinha existentes nos Paços do Concelho, mas também em outros edifícios emblemáticos da cidade, como a Cooperativa dos Pedreiros, a Faculdade de Medicina ou o Tribunal da Relação. Com prefácio do presidente Rui Moreira, aquele historiador da Arte e professor na Faculdade de Letras leva-nos a descobrir nestas singulares produções um Porto mítico com pessoas, acontecimentos e símbolos esteticizados pela «linguagem caleidoscópica deste mestre».

 


Com prefácio do Prof. Doutor António Barros Cardoso, que também fez a apresentação da obra aquando do seu lançamento, o historiador Adrião Pereira da Cunha nesta sua obra «…socorre-se de notória multiplicidade de documentos…» para nos disponibilizar uma biografia de um dos mais controversos portugueses do século XX, o Capitão Henrique Galvão, militar, inspetor colonial, comissário de exposições e deputado colonial, o qual, desiludido com as incapacidades do regime do Estado Novo para transformar Portugal, foi depois o autor de atos revolucionários que revelaram ao mundo a situação interna de um país subjugado, desde o desvio de um avião comercial em pleno voo para lançar panfletos sobre Lisboa até ao assalto do paquete Santa Maria que rebatizou como Santa Liberdade. E também as suas problemáticas relações com o General Humberto Delgado, que acabaria assassinado pela PIDE junto à fronteira portuguesa.

Por Forjães. Boletim Informativo, Ano 4, nº 19, dezembro de 2024, da Junta de Freguesia de Forjães, município de Esposende, inseriu na p. 49 uma notícia da visita que a ASCR-CQ ali realizou em fevereiro daquele ano para ver os painéis de Jorge Colaço no Centro Cultural Escolas Rodrigues de Faria, bem assim como à Igreja Matriz e a outro património local, por iniciativa do nosso confrade Arq.to José Alberto Couto, com a colaboração do Professor Brochado de Almeida e o dedicado acolhimento da Junta de Freguesia.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 198, terça-feira, 25 fevereiro de 2025; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

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