Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil
Fitas queimadas
Chegado o mês de maio ocorre em Coimbra, no Porto, e de há uns anos a esta parte noutras cidades agora com academias, uma festarola estudantil que extravasa os muros dos estabelecimentos onde tem origem. Lisboa teve em tempos alguns arremedos, mas não virou tradição. Referimo-nos obviamente à Queima das Fitas, cuja origem e evolução está já explicada em diversos estudos. A sua parte mais visível, e mais incidente na vida local, é o cortejo em que participam todas as academias com carros alegóricos, mais ou menos engalanados. Compreende-se que assim seja, como manifestação de regozijo dos estudantes do ensino superior pelo facto de estarem a acabar um curso que os habilita a exercerem uma profissão em princípio exigente e de grande incidência técnica, cultural, económica e social. É também o corolário de uma certa fase da vida que teve alguns rituais corporativos, a que chamam praxe, às vezes muito pouco fraternais ou mesmo muito pouco aceitáveis, e já muito longe do preconizado no célebre Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portvguesa, com várias edições, e que provavelmente nunca foi lido pelas atuais gerações. No que à atividade praxística diz respeito há até uma constatação fácil de tirar: salvo uma ou outra exceção, a sua deselegância ou mesmo perniciosidade individual e social é tanto mais repugnante quanto mais recente for a academia onde os seus atos ocorrem.
Não
tanto sobre estes acontecimentos mais ou menos folclóricos que entopem as ruas
da cidade do Porto uma vez por ano, mas do interesse histórico que uma outra
das suas produções pode suscitar, gostaria agora de vos falar dos esquecidos
livros de curso, preciosas edições que também têm alguma tradição académica em
Portugal mas, que eu saiba, a que ainda não foi votada qualquer especial atenção.
E, no entanto, se quisermos caracterizar devidamente o ensino universitário na
época a que dizem respeito, não há como ignorá-los, pois eles estão muito para
além das estatísticas e da documentação oficial, esparramando nas suas páginas
o momento biográfico de cada aluno e o que ele ou ela pensavam da utilidade ou
da função social do curso, bem assim como os seus pais, os padrinhos, os
namorados, alguns colegas. Para além do curso ou variante, do nome e da
caricatura do visado – gerações de caricaturistas estão aí representados, uns
famosos e persistentes, outros ocasionais – apresentam-se também ali as suas
virtudes ou pequenos hábitos, anseios ou projetos de vida em quadras ou versos
geralmente maus e de “pé-quebrado”, mas mesmo assim muito reveladores sobre
quem é o novo “doutor” ou “doutora”, generosa denominação popular do título
académico obtido pelos diplomados, bacharéis ou licenciados, conforme a época,
a academia ou o curso, e quando este não tinha imediata conotação
profissionalizante, como é o caso dos engenheiros, dos arquitetos, dos
enfermeiros ou outros, mas ali todos “doutores”. Tanto quanto sei esta prática
editorial em muitos casos contínua, mais ou menos elaborada, mas sempre com
edições limitadas a pouco mais do que o número dos que concluíram o curso,
perdendo-se depois nas andanças dos espólios pessoais. Quando com eles nos
deparamos podemos aí encontrar interessantes elementos proto-biográficos de
ministros e de sábios, as mais das vezes de vulgaríssimos cidadãos, que pouco
ou nada acrescentaram à magnificência nacional das Ciências, das Artes e das
Letras. Mas, potencialmente, todos textos premonitórios ou proféticos na glória
ou nos anonimatos dos discentes das academias portuguesas.
Veio-me
à mão o Livro de Curso da Faculdade de Letras da Universidade do Porto de 1971,
com o subtítulo No final da rota, novos
rumos, com silhueta de barco à vela com âncora à proa na capa da autoria de
um arquiteto José Duarte. No miolo a alusão a todos os “Fitados de Letras” da
Queima das Fitas desse ano, com ou sem caricatura, com ou sem versalhada. Pode
realmente ter sido um final de rota para os então 63 finalistas de Ciências
Históricas e os 27 de Ciências Filosóficas, muitos dos quais terão agora, em
média, setenta e cinco anos, mas dos quais as bibliotecas pouco ou nada
registam, sendo embora esse um dos atributos das profissões que escolheram, o
de descobrir, conferir e divulgar conhecimentos naquelas áreas através da
escrita e das publicações. Será, pois, muito interessante espiolhar ali algumas
luzes que nos façam entender o que pensavam então os novos “doutores” da forma
como iriam exercer a profissão de historiadores, filósofos ou outras derivadas
– bibliotecários, arquivistas – que requeriam pós-graduações. E não resisti a
comparar esse livro com o do meu ano de curso (Finalistas de Letras 1981-82)
da mesma faculdade: evidentes diferenças, numéricas e outras, logo na própria
dimensão do livro, que apresenta agora 69 alunos de Filosofia, 173 de História
e 27 da variante de Arte e Arqueologia, seguidas de um numeroso contingente de
alunos e alunas de Línguas e Literatura, espalhados por Estudos
Portugueses…Franceses…Ingleses e Alemães, com várias agregações de idiomas. E
se é certo que muitos dos nomes ali constantes se podem encontrar hoje nos
ficheiros da Biblioteca Nacional, no que diz respeito às caricaturas e à
versalhada familiar e amiga, no geral elas são muito semelhantes, passada que
fora uma década. A sociedade, no essencial, mudara muito pouco nos seus
objetivos. Mas já então havia, por parte de alguns alunos mais vividos ou com
outras experiências de formação, uma outra perceção do que deveria ser a
universidade e o seu propósito social, cultural e profissional. Não terá sido
por acaso que nesse mesmo ano, para além da “tradicional” Queima das Fitas onde
os alunos e alunas de “Letras” mais ou menos se integraram no respetivo
programa, que um pequeno grupo organizou a 12 de maio nos jardins e no interior
das instalações um questionante «Faculdade de Letras Show!!» integrado numa contra
realização chamada «A Teima das Pitas», sob o mote adaptado de um conhecido
fado coimbrão: «Letras tem mais encantos [oh se tem!] na hora da despedida». Já
então havia alguma consciência de que nem todos os alunos daquela faculdade se
destinavam exclusivamente ao ensino e que, para exercer as profissões de historiador,
arqueólogo ou outras inerentes, saíam dali com um grande e muito evidente deficit de consciência profissional na
sua preparação, que só alguns viriam a superar. A maioria acomodou-se ao pouco
que a sociedade lhe ofereceu como emprego. «E em Portugal não se pode avaliar a
eficácia da Academia – como se não pode apreciar a utilidade de um instrumento
durante longos anos esquecido ao canto de um casarão, enferrujando-se e
apodrecendo sob a escuridade e o bolor» (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas).
Dir-me-ão que tal já não é verdade, que hoje as universidades passam por crivos de aferição de qualidade, há para aí uns rankings, e outras orações gestionárias. Mas quanto à consciência profissional dos seus formandos, na área em que trabalho que é a da História e ofícios correlativos, creio bem que estamos exatamente como nos anos setenta, ou no tempo de Eça.
J. A. Gonçalves Guimarãessecretário da direção
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Provas de doutoramento de António Manuel S. P. Silva
fotografia de José Manuel Tedim
Doutoramento
Provas de doutoramento de António Manuel S. P. Silva fotografia de José Manuel Tedim |
No passado dia 9 de maio decorreram
na Faculdade de Humanidades da Universidade de
Santiago de Compostela, em Lugo, as provas de doutoramento em Estudos
Culturais (Arqueologia e História Antiga) de António Manuel S. P.
Silva com a apresentação e defesa da sua tese intitulada Cale e os Callaeci. Territórios e
Comunidades na foz do Rio Douro entre a Proto-história e a Romanidade, a
qual teve como orientadores os professores doutores Gerardo Pereira-Menaut
(USC) e Rui Morais (FLUP) e, por falecimento do primeiro, os professores
doutores Dolores Dopico e Manuel Villanueva (USC).
O júri do ato académico, presidido pelo Prof. Doutor Amílcar Guerra
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) contou com a participação dos
professores doutores Ana Suárez Piñeiro (USC) e Fermín Perez Losada
(Universidade de Vigo). Após uma brilhante apresentação do tema
por parte do doutorando seguiram-se as intervenções dos membros do júri,
unânimes na apreciação da obra como exaustiva e exemplar, seguindo-se algumas
pequenas intervenções de outros doutores presentes na assistência, conforme é
uso nas universidades espanholas, tendo sido a tese classificada com
nota máxima (sobresaliente cum laude).
O Doutor António Manuel S. P. Silva é também co-coordenador do Gabinete de História, Arqueologia e Património e membro dos corpos gerentes dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, e assim esta instituição fez-se representar no ato através dos Doutores José Manuel Alves Tedim e J. A. Gonçalves Guimarães, respetivamente presidente e secretário da direcção e também co-coordenadores daquele Gabinete. Estiveram igualmente presentes familiares e amigos do doutorado que no final o festejaram.
Independência de Timor – 20 Anos
Coincidindo com as
comemorações dos 20 anos da Independência de Timor, o realizador Francisco
Manso está a rodar no arquipélago da Madeira uma nova série de ficção, agora
sobre a invasão japonesa de Timor-Leste em 1942. Denominada “Abandonos” e
protagonizada pelo ator Marco Delgado, relata em sete episódios a união de
timorenses, australianos e portugueses contra o inimigo comum escrita pelo
falecido historiador António Monteiro Cardoso na obra Timor na Segunda Guerra Mundial –
Diário do Tenente Pires, publicada em 2007. A série deverá ser estreada
ainda este ano tanto em Portugal como em Timor.
Entretanto, a convite das autoridades timorenses, um significativo grupo de personalidades portuguesas estiveram presentes em Díli nas cerimónias comemorativas da independência que decorreram nos últimos dias, nomeadamente o Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa e o Chefe da Casa Real Portuguesa, D. Duarte Pio,
Instituições
Manuel de Novaes Cabral, ex-diretor do Instituto Português dos Vinhos do Douro e do Porto, cônsul honorário da França no Porto e diretor do Museu Nacional Ferroviário, foi feito académico de número da Academia Internacional de Cerimonial e Protocolo por ocasião do XVIII Congresso Internacional de Protocolo que decorreu em Granada, Espanha, em abril passado, inaugurando a cadeira n.º 14 cujo patrono é o Marquês de Pombal.
Livros e Revistas
Assinalando
o Dia Internacional dos Museus, no passado dia 21de maio no Museu da Indústria
Têxtil da Bacia do Vale do Ave em Famalicão, e apresentado pelo seu diretor,
Prof. Doutor José Manuel Lopes Cordeiro, foi lançado o número correspondente ao
1.º semestre de 2022 da revista Arqueologia Industrial. Entre os
diversos artigos publicados encontra-se «A indústria metalúrgica em Crestuma,
Vila Nova de Gaia. A Fábrica Paiva Freixo» da autoria de Maria de Fátima
Teixeira, investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património
(ASCR-CQ). Após este lançamento, aquele docente da Universidade do Minho fez
uma visita guiada à exposição ali patente sobre os 175 anos da Fábrica do Rio
Vizela.
Da autoria de Francisco Queiroz, Ricardo Charters d‘ Azevedo e Miguel Saraiva, o livro Villa Portela. Mais de um Século de História, editado pela Horas de Ler, apresenta uma exaustiva descrição deste edifício emblemático de Leiria e dos seus proprietários ao longo dos tempos, cujas obras de adaptação a equipamento cultural começaram no passado dia 26 de abril. O livro será posto à venda no dia 4 de Junho.
Prosseguem no Solar Condes de Resende
nas últimas quintas-feiras do mês, entre as 18,30 a as 19,30 horas, presenciais
e por videoconferência, as habituais palestras sobre os mais diversos temas,
feitas por jovens investigadores ou por especialistas em determinadas matérias.
Amanhã, dia 26 de maio, o historiador Paulo Jorge C. Sousa Costa falará sobre
«Senhorios nobres no julgado de Gaia no século XIII», um tema tanto mais
interessante quanto hoje vão sendo cada vez mais raros os estudos profissionais
sobre a Idade Média da região.
Exposições
No
passado dia 14 de maio abriu ao público no Palácio do Raio em Braga a exposição
do escultor Hélder de Carvalho Espessa Escuridão, com trabalhos que
materializam a seguinte interrogação: «Em tempos de crueldade e horror, até
onde vai a nossa consciência perante a violência da guerra?». Estará aberta até
11 de junho.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 165, quarta-feira, 25 de
maio de 2022; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de
Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB:
0018000055365059001540; IBAN:
PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt;
confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com;
vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães
(TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.