Eça & Outras, domingo, 25 de agosto de 2024
500 anos
do nascimento de Luís de Camões;
100 anos do passamento de Teófilo Braga
A História e a Literatura
De
tempos a tempos, de quando em vez, lá vem a questão da validade ou da
imprescindibilidade, ou simplesmente a oportunidade de compra no supermercado
de “romances históricos”, assim chamadas as obras escritas que abordam e
descrevem temas do passado, sejam eles acontecimentos, instituições,
personalidades, ou tudo junto. Há mesmo quem se dedique quase em exclusividade
à sua produção, pelos vistos com rendoso proveito. Se compulsarmos a biografia
de alguns escritores (“aqueles que escrevem regularmente”) lá veremos que raros
são os que resistem a aventurarem-se nesta área produtiva de narrativas. Por
outro lado corre paralela uma outra questão: essas obras são do domínio da
História ou da Literatura? Ou mais de uma ou menos de outra? E trazem
subjacentes duas outras questões: afinal o que é a História, como prática
profissional ou exercício cultural? Para que serve? Quem pode exercer essa
profissão? E igualmente perguntar-se na mesma linha de raciocínio: e o que é a
Literatura, quer como prática ou conjunto de conhecimentos, quer como
profissão? E para que serve? Um literato é um profissional da Literatura? E um
professor de Literatura “tem de ser” um escritor ou literato? Pressupõe-se,
deseja-se, “exige-se” que os protagonistas destas profissões ou atividades
“escrevam bem”. E lá virá a outra repetitiva questão: e o que é isso de
“escrever bem”? Será um pouco como o amor: sabe-se que existe, mas é difícil
defini-lo. E, no entanto, há tratados sobre o tema, uns escritos por
profissionais (que deveriam chamar-se amorólogos…), outros nem por isso,
escritos que são por “opinadores”. Sobre o “escrever bem” também há tratados,
métodos, cursilhos e cursos, workshops adjetivados
para “escrita criativa”. Quem é que os ministra? Algum “prémio Nobel”
desempregado? Creio que ainda os não há pra “escrita científica”. Mas pode ser
ignorância minha.
Estas
questões poderiam pôr-se para qualquer área do saber: um livro de Matemática
tem de ser “bem escrito” ou a objetividade do tema dispensa literatices e basta
o estar certo nos cálculos? E um livro de Direito, limita-se a debitar acórdãos
e jurisprudências ou faz do texto uma excelência de exercício estilístico sem
prejuízo das matérias de facto? E um livro de Medicina descreve as belezas de
um corpo saudável sem adjetivações ou a melhor técnica para usar o bisturi numa
operação ao cóccix sem se preocupar com assuntos laterais, o que certamente o
tornará um tratado pouco agradável de ler. Ou poderá dar-se a tiradas lexicais?
Mas
voltemos à falsa questão de uma História mais ou menos literária, como tema
para debate e reflexão. Existem fundamentalmente três tipos de textos (melhor
diríamos fontes) como base da escrita da História: os da época, em que
distinguiríamos os diretos, aqueles que foram escritos com o propósito de
relatarem os factos, os cenários, os intervenientes; e os indiretos, aqueles
que tiveram outras finalidades, mas que, com mais ou menos evidência, o que se
pede aos primeiros também lá está. Em ambos os casos tomá-los como informação
“pura” ou absoluta é tolice, como muito bem sabem os historiadores
profissionais, que aprendem a lê-los e a usá-los após aturada análise interna e
externa e variadas provas e contra-provas de validade. No terceiro tipo de
textos estão os produzidos por não intervenientes nos factos e acontecimentos
relatados, portanto posteriores aos ditos, e muito mais interpretativos e
opiniáticos do que os primeiros. E aqui podem distinguir-se, basicamente, dois
tipos de textos: os produzidos por historiadores profissionais e os produzidos
por outros “escritores”. A maior ou menor validade de cada um deles é assunto
de âmbito corporativo.
Há
historiadores profissionais que "se treinam" na Arte Literária,
escrevendo "romances históricos", na realidade historiografias
ficcionadas, como Umberto Eco e outros de igual categoria. Estão no seu direito
e proveito e vale a pena analisar esses exercícios simultaneamente pro-históricos e literários e tentar
discernir o que neles há das fontes históricas ou de mera ficção do autor. O
problema, a desnecessariedade, a trapalhice, a fraude, a nulidade, a
trampolinice, vêm da situação contrária em que autores com mera formação
literária, ficcional, jornalística ou quelque
chose comme ça, se arrogam a escrever "romances históricos" onde
a lição e a profissão histórica é torcida e retorcida em função dos seus
objetivos: "a princesa que chora", "o rei infeliz" e outras
banalidades bacocas. Há muitos anos que venho dialogando com os meus caros
colegas licenciados, mestres e doutores em História e "ofícios
correlativos" sobre o facto de que, tirando meia dúzia de abençoados com
emprego e carreira garantidos, e certamente na maior parte dos casos por grande
mérito próprio bem patente na obra produzida e na fama que têm na praça
pública, à maioria dos outros todos andam
a roubar o emprego, o ganha-pão, a possibilidade de exercerem a profissão que
escolheram, de receberem a adequada consideração a que os seus cursos
universitários e a sua produção científica e cultural lhes dá direito. Ainda
recentemente estive num município onde é o médico delegado de saúde quem faz a
História Local! E o município paga e embandeira em arco com a inutilidade, pois
jamais algum historiador vai perder tempo a analisar ou criticar as
"investigações" do facultativo que deveria estar a escrever livros
sobre saúde pública ou gripes. E em algumas das outras câmaras os
"turismos" e as "culturas" põem licenciados em ginástica ou
outras aptidões inadequadas a fazer visitas de conteúdo histórico. Os que não
são profissionais das nossas profissões acham que para debitar bla-blas
"culturais" ou "turísticos" servem quaisquer papagaios ou
papagaias falantes "licenciados" em quaisquer concursos públicos e
habilidades privadas. Despertai e indignai-vos, oh Colegas, se não quereis ser
confundidos com os indiferenciados sociais e culturais! Eu continuarei a lutar
pela dignidade das nossas profissões.
Eça de Queirós escreveu: «O Português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… vá-se por água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.» (Eça de Queirós, Os Maias). Em História já não estamos nem aí, como diz a “malta nova”. Hoje as exigências da profissão são outras. E se também forem literárias, pois que o sejam, que por mais não perde. O menos é que faz falta.
J. A. Gonçalves
Guimarães
historiador
Palestras
No próximo dia 29 de agosto, quinta-feira, decorrerá mais uma palestra das últimas quinta-feira do mês no Solar Condes de Resende, entre as 18,30 e as 19,30 horas, presencial e por videoconferência. Desta feita o tema será: «Dos primeiros encontros musicais aos sons da Independência: música e músicos no Brasil Colonial (1500-1822)» pelo qual, e de certo modo, o historiador Henrique Guedes dará continuidade ao tema da sua palestra anterior sobre a música popular brasileira.
Exposição
Filatélica Nacional
Entre os próximos dias 3 e 8 de setembro decorre na Escola Secundária Almeida Garrett “Gaia-24”, pela segunda vez uma Exposição Filatélica Nacional nesta cidade. Organizada pelo Clube de Coleccionadores de Gaia, conta com a colaboração dos CTT, da ESAG, da Federação Portuguesa de Filatelia – APD e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Para além dos inúmeros espécimes filatélicos expostos, poderão ser apostos na correspondência de quem o pretender Carimbos Comemorativos de escritores e escultores ligados a Vila Nova de Gaia, tais como Almeida Garrett, Eça de Queirós, Sophia de Mello Breyner e António Teixeira Lopes. O carimbo de Eça de Queirós será aposto no dia 4 de setembro. A associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana associou-se a esta iniciativa que promove o seu patrono através de textos para o respetivo Catálogo escritos pelo presidente da direção sobre «Gaienses de nascimento, de adoção e de circunstância. Reflexão sobre biografias locais», seguido de pequenos textos biográficos das personalidades acima referidas e ainda do escultor Soares dos Reis. A direção convida todos os seus Amigos e Confrades
Presença da associação
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António Pinto Bernardo, Beth Lopes, Alberto Rostand Lanverly e Arnaldo Paiva Filho |
No passado dia 13 de maio o dirigente António Pinto Bernardo participou na Prefeitura da Barra de São Miguel, Alagoas, Brasil, numa reunião preparatória com a Dr.ª Beth Lopes, secretária da Cultura daquela autarquia, Alberto Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras e Arnaldo Paiva Filho, vice-presidente do Instituto de História e Geografia de Alagoas e vice-presidente da Academia Alagoana de Letras, sobre um evento cultural a realizar em outubro de 2024 (5.ª festa literária da Barra de São Miguel e 7ª Portugal em Cena), cujo patrono é Eça de Queirós. Do programa faz parte uma transmissão direta do Solar Condes de Resende para a TV Alagoana, em que serão intervenientes, Irene Fialho, investigadora na área de Literatura e especialista em Eça de Queirós, J. A. Gonçalves Guimarães, presidente da ASCR-CQ e Doutor em História Contemporânea e António Pinto Bernardo da direção da ASCR-CQ e profissional da Comunicação Social.
Nos dias 15 a 18 de agosto a ASCR-CQ,
através de vários dirigentes, funcionária e colaboradores esteve presente na feira
WOWtêntico 2024, promovida pelo World Of Wine, Vila Nova de Gaia, para
divulgação das suas atividades, publicações e os escritores Eça de Queirós e J.
Rentes de Carvalho. Para além de empresas de Artesanato a região, estiveram
igualmente presentes diversos municípios a promoverem o seu Património Cultural
incluindo a sua Gastronomia e os seus Vinhos.
Como habitualmente, no passado dia 16 de agosto, a ASCR-Confraria Queirosiana, através dos dirigentes J. A. Gonçalves Guimarães e António Pinto Bernardo, esteve presente na abertura da 24.ª Feira de Gastronomia de Vila do Conde. Depois da volta pelo circuito da feira com os seus variadíssimos produtos nacionais, aos convidados foi servido pela autarquia local um magnífico jantar alusivo aos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, tendo na ocasião o presidente da ASCR-CQ lido um poema do celebrado poeta e distribuído pelos autarcas presentes o último número da Revista de Portugal.
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Nuno Resende, Alexandre Farinhote, Cristiana Borges, Fátima Teixeira, Pinto Bernardo, Barros Cardoso, Sílvia Trilho e Gonçalves Guimarães. |
Na passada sexta-feira, dia 23 de agosto, pelas 12 horas, abriu a Feira do Livro do Porto 2024 nos jardins do Palácio de Cristal, este ano dedicada ao poeta Eugénio de Andrade. A ASCR-CQ e a Associação Portuguesa da História da Vinha e do Vinho (APHVIN/ GEHVID), estão presentes com as suas publicações no pavilhão 107. Na abertura estiveram presentes diversos dirigentes das duas associações, que aí receberam a delegação inaugural chefiada pelo presidente da Câmara do Porto, Dr. Rui Moreira que acompanhava Sua Excelência o Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que na troca de cumprimentos com os dirigentes, associados e colaboradores presentes no nosso stand se mostrou muito bem informado de que a Revista de Portugal de novembro próximo também será dedicada ao centenário do Presidente da República Professor Doutor Teófilo Braga de quem a ASCR-CQ detém um interessante espólio que lhe foi oferecido pelo Dr. Marcus Vinícius Cocentino Fernandes e que tem vindo a ser trabalhado pelo Prof. Doutor José Moreno Afonso, da Universidade do Minho.
Nova direção, cumprimenta e reúne
Dando continuidade ao seu programa de
apresentação de cumprimentos e de projetos e programas em curso ou a
desenvolver, no passado dia 24 de agosto a direção da ASCR-CQ reuniu com uma
delegação do Partido Social Democrata, concelhia de Vila Nova de Gaia, chefiada
pelo Engenheiro Rui Rocha Pereira, vereador da Câmara Municipal de Vila Nova de
Gaia, deputado da Assembleia Metropolitana do Porto e da Assembleia Municipal
de Vila Nova de Gaia e ex-presidente da Associação Modicus de Sandim. Seguem-se outras personalidades, instituições,
associações e partidos políticos com assento na Assembleia Municipal já
agendadas para os próximos tempos.
Distinções
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Dr. Manuel Moreira |
O provedor da Misericórdia de Vila Nova de Gaia e dirigente da associação Amigos do Solar Condes de Resende- Confraria Queirosiana, Dr. Manuel Moreia foi galardoado com o Troféu Prestígio 2023 que lhe será entregue na próxima XIX Gala do jornal Audiência GP – Grande Porto. Natural de Marco de Canaveses, mas desde muito novo residente em Vila Nova de Gaia, é licenciado em Administração Regional e Autárquica e pós-graduado em Gestão Autárquica Avançada, sendo associado dirigente de diversas instituições de carácter social, cultural, desportivo, recreativo e humanitário. Ex-vereador na Câmara Municipal de Gaia, em 2005, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Marco de Canaveses com três maiorias absolutas durante 12 anos. Foi o último governador civil do distrito do Porto, e é, desde 2004, associado dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, e seu confrade de honra grau mecenas, e atual membro da direção.
Revistas
Com data de 2023 acaba de nos chegar às mãos a edição 27 do Livro da Academia Alagoana de Letras, com capa dedicada ao poeta alagoano Jorge de Lima, editada por Jorge Tenório e no qual colaboraram Alberto Rostand Lanverly, «O Tapete Mágico» e «De onde eu vim»; Arnaldo Paiva Filho, «O Marinheiro»; Carlos Méro, «Auto de Fé»; Fernando Maciel, «Jorge de Lima, o multifacetado príncipe dos poetas alagoanos»; Fradique Rua Mendes, «Órfão Infinito», a quem um “vá-se lá saber porquê» omitiu um último verso do poema que agora aqui vai: «Creio bem que não acabará esta orfandade»; façam o favor de completar à mão; J. A. Gonçalves Guimarães, «Identidades Brasileiras no Centro Histórico de Gaia»; João Luís Fernandes, «A Procissão de Cinzas da Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto e seus ecos no Brasil», entre muitos outros. Mas não veio só a magnífica publicação, mas sim acompanhada da gentileza de dois livros com dedicatórias ao redator desta página: «Revelação. Poemas de Alfredo Gazzaneo Brandão», Recife, 2001, e «Simplesmente Crônicas», Viva Editora, Maceió, Alagoas, 2023, do mesmo autor. Pelo que vou lendo, os primos alagoanos são notáveis contadores de estórias.
Com data de junho passado, está em distribuição o n.º 98 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, agora sob o título Patrimónios, e de que é diretor o Doutor Engenheiro Salvador Almeida. Entre outros artigos, este número apresenta de Virgília Braga da Costa, «As Comemorações do Tricentenário de Camões e a Rua Luís de Camões, em Vila Nova de Gaia» ocorridas em 1880.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 192,
domingo, 25 de agosto de 2024; propriedade da associação cultural Amigos do
Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade
Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264,
Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB:
0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e
publicação no jornal As Artes Entre As
Letras: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção:
Amélia Cabral; colaboração: António Pinto Bernardo.