Ano do Centenário do “Vencido da Vida” e diplomata Luís Maria Pinto de Soveral, Marquês de Soveral (1851-1922)
Memórias
de vida
Nos últimos tempos
tenho acompanhado a edição, ou mesmo sido convidado para fazer a prefaciação ou
participar no lançamento de memórias escritas e publicadas por alguns amigos e compagnons de route. Como percorremos
juntos alguns breves trechos ou alguns mais longos quilómetros da estrada larga
da vida, nuns casos mais, noutros menos, também ali me encontro neste ou
naquele episódio, numas ou noutras páginas, frases, imagens, circunstâncias.
Em 2017 o meu amigo Ricardo Nicolau de
Almeida publicou o livro Setenta à Hora,
que abre com várias frases lapidares sobre «a ilusão da vida» e termina com um
verso da famosa canção criada por Violeta Parra, depois gravada por Mercedes
Sosa, Joan Baez e Elis Regina «…gracias à la vida que me ha dado tanto». Um
livro saboroso, mas apesar dessa qualidade, não tanto como as mesmas estórias
contadas na primeira pessoa, que muitas vezes ouvi e recordo. E mesmo algumas
delas com enredo e desfecho muito mais interessantes do que a sua versão
escrita. Será isto verdade ou terei sido eu que, ao lê-las, saltei da cadeira
de ouvinte para a de narrador de estórias alheias? Lembrando que ambos
pertencíamos à Afons’eiros, cooperativa cultural que nas décadas de oitenta/
noventa editou alguns livros, apareço na sua narrativa em duas circunstâncias
para mim excecionais: na vontade que Ricardo tinha de voltar a ligar a Casa
Ramos Pinto, onde era executivo, à vida cultural de Gaia, da região e do Douro,
o que deu origem às escavações arqueológicas em Ervamoira, Vale do Côa, por
onde passei com a minha equipa durante vinte anos da minha vida, tendo lá
deixado um pequeno museu de sítio ainda em funcionamento, além de variada
bibliografia publicada. Noutras páginas recorda-me na preparação do programa
que seu pai Fernando Nicolau de Almeida, então chanceler da Confraria do Vinho
do Porto, concebera para a cidade do Porto receber um congresso mundial de
confrarias báquicas, em que iríamos recriar o casamento de D. João I com D.
Filipa de Lancastre e para o qual eu, então praticante hípico e proprietário de
uma égua e de um cavalo com minha filha Susana, tinha já apalavrados sessenta
cavalos e cavaleiros que iriam começar a treinar no campo de manobras da Serra
do Pilar. Mas entretanto, e por motivo diferente do que conta o autor do livro,
não foi tanto a efetiva falta de colaboração do bispo do Porto que impediu a
concretização do evento, mas sim o facto de ter começado a Guerra do Golfo e as
restrições que tal implicou nas viagens aéreas, fazendo adiar o congresso.
Dos
vários episódios que não constam no seu livro, notei a ausência da sua versão
da viagem que realizamos em 1986 pelo Rio Douro acima, até à Régua e regresso,
durante três dias, a bordo do iate Runa, propriedade do nosso confrade Major
Simões Duarte, numa época em que os barcos de cruzeiro ainda só iam até
Alpendurada. Durante a viagem confirmei a existência de uma estação
arqueológica romana na “Ilha dos Amores”, em Castelo de Paiva, e na volta, sem
querer, estragamos um comício partidário na margem do rio na albufeira do
Carrapatelo, pois os participantes, quando viram o barco a dirigir-se para a
barragem para a descida, coisa então raramente ou nunca vista, deixaram os
candidatos a falar sozinhos e vieram todos a correr ver a embarcação e os seus
oito tripulantes fazerem a transposição do desnível das cotas do rio.
Ainda
nesse mesmo ano de 2017 a Casa Ramos Pinto publica um e-book intitulado Impressões de João Nicolau de Almeida,
irmão do autor anterior e, até esse ano, também ele executivo nesta empresa.
Essa edição reuniu mais de noventa depoimentos de familiares, amigos e
personalidades do mundo duriense e dos vinhos, entre portugueses e
estrangeiros, entremeados com muito boas fotografias e diversas obras gráficas,
que testemunham a sua perceção sobre o homenageado que chegou a ser «the man of
the year» pela revista Wines &
Spírits. Sobre o seu apoio ao projeto cultural de Ervamoira e o seu museu
de sítio, bem assim como sobre a continuidade do seu saber vinícola nas novas
gerações de vitivinicultores, aí deixei a minha prosa que certamente não
deslustrou no conjunto das memórias aí recolhidas.
Um
outro amigo, Joaquim Vaz, antigo despachante no Porto e ex-provedor da
Misericórdia de Gaia, escreveu e publicou os seus Momentos de uma vida, 2022, para o que me pediu um posfácio, tendo
recordado no livro a minha apresentação em 2014 de um outro livro sobre o
industrial António Almeida da Costa, fundador da Fábrica de Cerâmica e Fundição
das Devesas e benfeitor dos primórdios da instituição, da autoria de Fernando
Silva Correia, que decorreu no salão nobre na mesma sessão em que o bispo D.
Manuel Martins foi feito irmão honorário da instituição.
Mais
um outro amigo, Joaquim Armindo Pinto de Almeida, pediu-me um prefácio para o
seu livro Um Barco nas Ondas do Mar – a
Poesia, recentemente editado, o qual, para além de composições poéticas,
tem uma série de relatos sobre a sua infância que escreveu para os netos, onde
eu obviamente não apareço, mas estou lá. É que não só nos conhecemos desde a
escola primária do Torne, como com ele, desde a infância, partilhei muitos dos
cenários, pessoas e acontecimentos que ali descreve.
Mas
o mais recente é o livro de um outro amigo de longa data, o escritor e
historiador José Vaz, intitulado Enquanto
o Sol não se põe. Memórias. Aí
regista a nossa ação na fundação da Associação de Escritores de Gaia; a
consecutiva presença nas sessões anuais do Fórum de Avintes, que ajudou a
concretizar; a clarificação histórica da data do documento mais antigo
conhecido sobre Avintes; e a minha solidariedade profissional como historiador
na sua criação da cooperativa Audientis – Centro de Documentação e Investigação
em História Local.
Estou
assim também feito personagem destas narrativas pessoais de alguns amigos, com
mais ou menos pormenor, com mais ou menos benevolência. Mas estes livros de
memórias não podem trazer “tudo”, nem são geralmente escritos para satisfazer a
curiosidade de quem depois os lê. São escritos para que o autor se dispa, ou
vista, de modo diferente do habitual, perante os seus leitores. E neles a
verdade, essa desconhecida e difícil estrangeira, é sempre caleidoscópica e
cada um tem dela uma diferente perceção, colhida a partir do promontório de
onde vê as ações alheias ou, quando nelas participa, é certo que com a verdade
dança, mas por isso mesmo não consegue ver a totalidade do baile que o rodeia.
Isto de memórias tem pois muito que se lhe diga: «Queixou-se logo amargamente da sua falta de memória. Uma coisa tão indispensável em quem segue a vida pública, a memória! e ele desgraçadamente, não possuía nem um átomo» (Eça de Queirós, Os Maias). Não é o caso destes amigos.
J.
A. Gonçalves Guimarães
Secretário da direção
Distinções
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Dr.ª Manuela Garrido, Coração de Ouro 2022 |
No passado dia 5 de maio a delegação norte da Fundação Portuguesa de Cardiologia agraciou com o prémio Coração de Ouro 2022 a Dr.ª Manuela Garrido, conselheira desta fundação há cerca de 20 anos e responsável pelo projeto «Gaia no Coração» desenvolvido para a prevenção da doença cardiovascular e da morte súbita, o qual já dotou muitas instalações com equipamentos de desfibrilação, bem assim como promoveu a formação de técnicos de DAE para acorrerem a eventuais necessitados de pronta intervenção neste domínio.
18 de maio de 2023 - Dia dos Museus
A associação
Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, com sede no Solar
Condes de Resende, Vila Nova de Gaia, membro da FAMP - Federação dos Amigos de
Museus de Portugal e representada nos seus corpos diretivos, por sua vez
federados na WFFM - World Fedetation of
Friends of Museums, e também a Academia Alagoana de Letras, Maceió, Brasil,
protocolada com a primeira, vêm lembrar que existem em Portugal e no Brasil os
seguintes Museus, Arquivos e outras instituições com espólio queirosiano (os
interessados em consultar ou visitar devem inteirar-se previamente das
condições em cada instituição):
- Biblioteca Nacional de Portugal,
Lisboa: Arquivo Conde de Resende (BNDP); bibliografia queirosiana; documentos
queirosianos em espólios diversos.
- Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa
de Varzim: espólio queirosiano de A. Campos Matos e outra bibliografia
queirosiana.
- Casa-Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de
Gaia: original em gesso da estátua “A Verdade” (Eça de Queirós);
correspondência com a viúva e amigos do escritor.
- Cemitério de Santa Cruz do Douro,
Baião: jazigo recente (1989) dos restos mortais de Eça de Queirós e seus filhos
(os restos mortais do escritor vão ser trasladados para o Panteão Nacional).
- Cemitério do Outeirinho, Aradas,
Aveiro: jazigo do avô, do pai e de outros familiares de Eça de Queirós.
- Circulo Eça de Queiroz, Lisboa: espólio
queirosiano que pertenceu ao Dr. Baltazar Rebelo de Sousa.
- Fundação Eça de Queiroz, Quinta de Vila
Nova, Santa Cruz do Douro, Baião: propriedade que pertenceu, por herança, à
mulher do escritor; espólio da casa que habitou em Paris; parte do arquivo da
família da mulher; outras aquisições.
- Grémio Literário, Lisboa: roteiro
queirosiano de Lisboa; memorabilia e iconografia
queirosianas.
- Hotel Lawrence, Sintra: roteiro
queirosiano de Sintra; bibliografia queirosiana.
- Museu da Cidade, Lisboa: original em
mármore da estátua “A Verdade” (Eça de Queirós), da autoria de Teixeira Lopes.
- Real Gabinete Português de Leitura, Rio
de Janeiro: documentação e bibliografia queirosianas.
- Solar Condes de Resende, Canelas, Vila Nova de Gaia: propriedade que pertenceu ao 6.º Conde de Resende, cunhado do escritor; Arquivo Condes de Resende, adquirido pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia à Marquesa de Ficalho, neta do escritor e a outros descendentes; estátua em bronze de Eça de Queirós por Hélder de Carvalho; espólio da Confraria Queirosiana: biblioteca queirosiana Ricardo Charters d’ Azevedo; espólio J. Rentes de Carvalho (Centro de Estudos Eça de Queirós).
Palestras
e Conferências
O Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo,
egiptólogo e vice-presidente da Confraria Queirosiana, para além das viagens ao
Egito na senda da jornada de Eça de Queirós e do Conde de Resende em 1869,
continua também a sua missão de investigador e de conferencista nos mais
diversos espaços e para os mais diversificados públicos. Disso mesmo dá conta o
n.º 16, referente a março/abril de 2023, do Magazine Cultural – Âmbito Cultural
El Corte Inglês na sua página 3 onde noticia a conferência que realizou em
Lisboa a 3 de março passado na sala desta empresa com o nome da publicação,
sobre o tema «Os grandes faraós do Antigo Egipto», ali noticiada através duma
elucidativa sinopse e duma resenha biográfica do conferencista.
No passado dia 13 de maio no Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto decorreu uma homenagem ao poeta António Nobre com uma conversa entre Mário Cláudio e Jaime Milheiro moderada por Arnaldo Trindade, seguida de leitura de poemas por vários declamadores.
ÚLTIMAS 5.as
FEIRAS DO MÊS
Hoje, quinta-feira dia 25 de maio, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês, o Dr. João Fernandes, atual responsável pelo Solar Condes de Resende, falará sobre «António Soares dos Reis: um positivista? A obra de António Soares dos Reis constitui um dos expoentes máximos da escultura nacional, não obstante as dificuldades da História da Arte para a definir ou categorizar. Reveladora de um ecletismo que espelha não apenas as particularidades pessoais do escultor, mas todo o seu percurso formativo e o contexto socio-cultural do território em que viveu, a produção artística de Soares dos Reis torna evidentes as limitações das categorizações artísticas que têm condicionado o seu estudo. Iremos contextualizar o escultor e a sua obra no tempo e espaço, demonstrando o importante papel desempenhado pela sua formação académica, mas também o do próprio território em que viveu e dos seus círculos de amizade».
Entrar na reunião Zoom
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Amanhã, dia 26, no Wine & Blues Fórum que decorrerá entre as 14,30 e as 19,30 horas no Auditório do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo, entre vários oradores, falarão o Prof. Doutor António Barros Cardoso, presidente da APHVIN/ GEHVID, sobre «O Vinho Verde em Viana do Lima; o Prof. Doutor José António Oliveira, do Instituto Politécnico do Porto, sobre «A surpreendente projeção dos vinhos do Vale do Lima nas grandes exposições internacionais: uma revelação histórica»; e o Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ, sobre «Iconografia minhota na publicidade dos vinhos portugueses».
DIA NACINAL DA
GASTRONOMIA PORTUGUESA 2023
Promovido pela Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, com a colaboração da Confraria Gastronómica O Galo de Barcelos e da Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe, decorrerão nos dias 26, 27 e 28 próximos as celebrações do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa com sessões no Auditório Municipal e Casa do Rio em Barcelos e no Pavilhão Multiusos de Fafe. Do programa consta uma tertúlia gastronómica, atuação de grupos de teatro, coros, jogo do pau, banda de música, ranchos folclóricos, concertinas e cantares ao desafio, para além da confeção de culinária tradicional e desfiles de confrarias.
Nos próximos dias 27 de maio a 3 de junho decorre em Portugal o 52ND International Congresso of Wine Brotherhoods F.I.C.B. 2023, da Federação Internacional das Confrarias Báquicas organizada em Portugal pela Federação das Confrarias Báquicas de Portugal com sede em Vila Nova de Gaia. Com a cerimónia de abertura marcada para as 18,30 do dia 27 no hotel Hilton Porto-Gaia, no dia 28 os congressistas deslocam-se à região do Vinho Verde, no dia 29 à região dos Vinhos do Douro, no dia 30 haverá um fórum às 9,30 no Hilton Porto-Gaia e à tarde um desfile das confrarias com início no Centro Histórico de Gaia, travessia de barco para a ribeira do Porto e desfile atá a Centro de Congressos da Alfândega, onde decorrerá a cerimónia de entronização de novos confrades pela Confraria do Vinho do Porto, seguida de jantar de gala. No dia 31 o congresso partirá para Lisboa, no dia 1 estará no Alentejo, no dia 2 em Oeiras, terminando no dia 3 de junho. Na Fórum do dia 30 falarão: Gilberto Igrejas, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto sobre «Port and Douro Wines Institute in the track of One Health Quadripartite Collaboration»; Carlos Brito, presidente do Observatório do Vinho do Porto, sobre «Marketing and the Wine Brotherhoods»; J. A. Gonçalves Guimarães, da Confraria Queirosiana e da International Heritage Summer School 2023 CITCEM/ FLUP, sobre «Wine and Culture in Portugal»; Carlos de Jesus, diretor de Marketing & Comunicação da Corticeira Amorim, sobre «Cork, Wine and Sustainability»; e Bianchi de Aguiar, ex-presidente da OIV e do IVDP, sobre «The wine-growing landscapes recognized by UNESCO. The case of Alto Douro Wine Region».
Artes
No passado dia 18
de abril o escultor Hélder de Carvalho inaugurou na Faculdade de Ciências da
Nutrição e da Alimentação da Universidade do Porto uma instalação de esculturas
intitulada «Sombras que não quero ver» baseada em textos poéticos de Gonçalo M.
Tavares.
António
Pinto é um dos artistas que expõem no núcleo da V Bienal Internacional de Arte
de Gaia na Faculdade de Medicina Dentaria da Universidade do Porto que estará
em exibição até 8 de julho próximo. Aí poderá ser vista a sua versão em granito
da Santa Apolónia.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 177, quinta-feira, 25 de maio de 2023; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (pessoa coletiva com estatuto de utilidade pública); C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.