Ano do Centenário da 1.ª Travessia Aérea Lisboa – Rio de Janeiro e do Bicentenário da Independência do Brasil
Curricula
Ao longo
da minha vida académica, social e profissional tive de elaborar, rever e
atualizar várias vezes o meu curriculum e disponibilizá-lo a diversas entidades
ou mesmo a torná-lo público. Nada mais normal. Mas ao longo dos anos fui também
constatando a existência de vários modelos ou sugestões para a sua elaboração,
até à preponderância do modelo «europeu», uma tentativa de uniformização. Tenho
na minha biblioteca vários curricula impressos de pessoas mais ou menos
célebres, quase todos professores que desempenharam funções públicas
relevantes, alguns dos quais com várias décadas. Quando fui professor de Gestão
de Património numa universidade, entre outras matérias, ensinava os meus alunos
a elaborarem o seu curriculum, mostrando-lhes vários modelos e ensinando-lhes
que, para além dos dados fundamentais relativos à cidadania próprios de cada
um, dados pessoais certamente, mas públicos, como o nome, a filiação, a data e
local de nascimento, o endereço domiciliário, a entidade empregadora (se fora o
caso), e aqueles números que a Administração Publica não tem conseguido reduzir
a um só (numero de cidadão, de contribuinte, de utente dos serviços de
tratamento das doenças), tudo dados públicos que estão disponíveis em diversos
endereços e listagens de fácil e óbvio acesso, mas que alguma legislação e
empresas de controlo informático de dados querem tornar «privados» para melhor
os manusearem e porem a render em proveito próprio. Mas isso é outra questão.
Em tudo o mais, o curriculum devia conter dados verdadeiros, verificáveis, que
objectivamente fossem relevantes para o fim a que o documento se destina, sendo
diferente se para efeitos académicos, se para obter um emprego, se para
prosseguir uma carreira através de concurso público ou avaliação privada.
Ensinava-lhes que o curriculum não era a autobiografia de cada um, muito menos
um auto-elogio e, muito menos ainda, um chorrilho de banalidades irrelevantes.
Mas ao
longo da vida, e também devido àquelas três situações, tive de ler, analisar e
opinar sobre curricula de várias outras pessoas, e nem imaginam o que tenho
encontrado, mas que poderei sintetizar em três situações, embora às vezes
misturadas. Nuns casos curricula com dados falsos ou “torcidos”, nomeadamente
no que diz respeito a habilitações académicas oficiais e seus complementos ou
às classificações numéricas ou qualitativas obtidas, embora algumas “atestadas”
por diversas entidades que era suposto serem sérias. Ou mesmo cursos e
pós-graduações inexistentes ou atribuídas por entidades não avalisadas para tal
(o caso de cursos ou formações não reconhecidas pelo Estado ou pelas ordens
profissionais, por exemplo). Noutros casos uma hipervalorização e profusão de
presenças em supostas ações de especialização profissional, mas onde o
curriculado se limitou a ter uma atitude passiva. Se é que esteve nas sessões e
não na praia (também conheço casos desses), nunca apresentou sequer um simples paper sobre matéria relevante da sua
profissão, pelo que as presenças que atesta, às vezes com vistosos “diplomas”,
apenas querem dizer que passeia muito. A entidade X apenas certifica que o
senhor Y ou a senhora Z estiveram ali ou foram acolá e, às vezes, nem tal podem
garantir. Noutros casos os curricula apresentam uma listagem de dados
irrelevantes, ou que funcionam mesmo contra o curriculado, a nível, por
exemplo, dos passatempos ou atividades de diversão nos “tempos livres”. Se
estamos a falar, por exemplo, do currículo profissional de um engenheiro, será
pouco interessante o saber-se se ele gosta, ou não, de fazer sonetos ou de
pescar à linha, pois isso, nos dias de hoje o empregador mais “psicológico”
poderá facilmente encontrar no facebook, se por aí quiser traçar o perfil do
empregado, para além da electromecânica ou da química concretas que ele deverá
produzir. Um curriculum profissional deverá sempre conter o que o cidadão a
quem o mesmo diz respeito realmente já fez, em vez de apresentar “supônhamos”
ou “estados de alma”. Para tal é fundamental que seja complementado com a
bibliografia produzida relevante sobre matérias de incidência profissional e
não os pequenos nadas publicados no jornal da paróquia.
Mas um
problema maior é a apresentação de curricula para exercício profissional
diverso daquele para o qual o curriculado tem habilitações. Sobretudo nos
últimos anos em que nos quadros da função pública se têm destruído ou
desqualificado muitas profissões, passando tudo ao cinzentismo profissional do
“técnico superior”, oriundos, em grande parte, da frequência de cursos superiores
generalistas e pelo ingresso de elevado número de “gestores” disto e daquilo, e
outros indiferenciados, na realidade administrativos que acabam por
burocratizar os serviços até ao infinito para se auto-justificarem. Vemos assim
instalarem-se nesse panorama diversos candidatos possuidores de tais currícula
em detrimento dos profissionais de diversas áreas, muitas vezes complementados
com mestrados e doutoramentos em irrelevâncias várias, por licenciados em
outras profissões que nunca as exerceram e que também assim ascendem a
“gestores” em áreas onde não conseguem sequer elaborar conteúdos, pois não os
dominam. Mas é o que temos e não vejo que tal esteja para mudar, sendo exceção as
profissões bem definidas, bem organizadas e com entidades profissionais (ordens,
sindicatos) ativas e atentas à sua formação, à sua ação e ao seu estatuto
social, como sejam os médicos, os advogados, os militares, e poucas mais, que
de modo algum querem ser só, ou que lhes chamem, “técnicos superiores”. Estes
querem ser conhecidos e respeitados pelo exercício da sua profissão e é isso, e
só isso, que devem ostentar nos seus curricula.
Com a
sua inexcedível ironia já Eça de Queirós previra que a[s] universidade[s]
haveria[m] de criar inaptos diplomados: «o país, tendo reconhecido nos últimos
anos que há cinquenta indivíduos para cada um dos lugares destinados pelo
estado... pede instantemente à[s] universidade[s] que lhe mande[m] bacharéis
ignorantes… A[s] universidade[s] responde[m] solicitamente que os seus filhos
têm a inaptidão mais cabal para o exercício de qualquer cargo» (Eça de Queirós.
As Farpas). Atualizando bacharéis
para licenciados e pedindo desculpa aos outros,
aos que estudam, aos que se esforçam, aos que valem, aos que não estão obviamente no mesmo saco. É que «a
desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se um
bispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um economista. Tudo
assim! Veja Vossa Excelência mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom
estofador? Não há um bom estofador… (Eça de Queirós, Os Maias). E se o houver, é já com certeza um técnico superior
pós-graduado em assentos ergonómicos.
J. A. Gonçalves Guimarães
secretário da direção
Comemorações
do Bicentenário
Curso «O
Brasil duzentos anos depois»
No
próximo dia 19 de novembro no capítulo da Confraria Queirosiana que decorrerá,
como habitualmente, no Solar Condes de Resende, o diretor da Revista de Portugal, Prof. Doutor Luís
Manuel de Araújo, apresentará o número 19 desta nova série, também ela comemorativa
daquelas duas efemérides, o que se torna logo evidente na própria capa concebida
por António Rua a partir de uma peça brasileira do século XIX existente no
Solar Condes de Resende. No interior apresentam-se os seguintes artigos: no editorial
J. A. Gonçalves Guimarães escreve sobre «Portugal, Brasil e a esperança», a que
se segue «A receção da independência do Brasil no parlamento
português», por Francisco Ribeiro da Silva; o «Centenário da 1.ª
travessia aérea Lisboa - Rio de Janeiro», por J. A. Gonçalves Guimarães; «Bodegas
da minha infância», por Alberto Rostand Lanverly; «Eça de Queirós e Graciliano Ramos: diálogo criativo»,
por Carlos Méro; «Dasdores» (conto),
por Jorge
Tenório de Albuquerque;
«As conferências do Casino e A Berlinda: um feliz encontro de Eça e Bordalo», por João Alpuim Botelho; «Eça de Queirós, Jacinto de Tormes e os elevadores e ascensores do 202 dos Campos Elísios», por José António Barreto Nunes; «Villa Portela, Leiria: uma reutilização do património de forma a protegê-lo», por Ricardo Charters-d’Azevedo; «Corpo da Guarda: memória de um património genético da cidade do Porto», por Orquídea do Céu Ferreira Félix; «Recordando as civilizações pré-hispânicas do México», por Luís Manuel de Araújo, seguida de duas recensões pelo mesmo autor; a Bibliografia 2021 dos sócios da ASCR-CQ, organizada por Celeste Pinho; terminando com o «Relatório de atividades em 2021 da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana» aprovado em assembleia geral de sócios.
Palestras
e conferências
Arqueologia para que te quero?
No passado dia 10 de outubro na Escola Básica de Valadares o responsável pelo Solar Condes de Resende e arqueólogo do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), J. A. Gonçalves Guimarães, proferiu uma palestra para os seus alunos e professores intitulada «O que é a Arqueologia e para que serve». No final explicou aos interessados como é que se vai para arqueólogo.

No dia 14 de outubro na biblioteca do Quartel da Serra do Pilar, numa organização conjunta do Exército Português (Centro de Recrutamento de Vila Nova de Gaia), da Câmara Municipal (Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner) e com a colaboração do Museu Militar do Porto, do Solar Condes de Resende e da Direção Geral de Cultura do Norte, decorreu um colóquio intitulado «Gaia Villanovense. Gloriosas Ações. Brava Gente», alusivo aos 190 anos da Batalha de 14 de Outubro de 1832, em que foram oradores os investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), Maria de Fátima Teixeira sobre «Dos arcos de ferro aos canhões: a metalurgia na Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro»; e J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Biografias de alguns “Polacos da Serra”», e do Instituto Politécnico do Porto, Sérgio Veludo Coelho (que se apresentou fardado como oficial do Trem do Ouro daquela época), sobre «O teatro de Operações em Vila Nova de Gaia (1832-1833)». No final foi aberta ao público uma exposição sobre esta temática patente no antigo dormitório dos frades.

No dia 20 de outubro no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia decorreu uma sessão comemorativa do Centenário da Primeira Travessia Aérea Lisboa - Rio de Janeiro – 100TAAS. Com a presença de distintos oficiais da Marinha e da Força Aérea recebidos pela vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal, que na ocasião saudou os presentes e aludiu ao significado das comemorações para Vila Nova de Gaia, após o que o tenente-general piloto aviador António Mimoso e Carvalho, presidente da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea, dissertou sobre os pormenores técnico-científicos daquela travessia como «Uma Missão Inesquecível», a que se seguiu o historiador do Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Memórias de Ícaro em Vila Nova de Gaia». Após este colóquio os presentes procederam à abertura da exposição itinerante 100TAAS patente numa das salas do arquivo, tendo-se depois os presentes dirigido para o Largo dos Aviadores onde foi descerrada uma lápide alusiva a este centenário cravada na pedra do monumento mandado erguer por subscrição pública e ali inaugurado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral a 3 de dezembro de 1922.
Cale e os Calaeci
No próximo dia 27 de outubro, última quinta-feira do mês, na habitual palestra presencial e por vídeo-conferência, o arqueólogo António Manuel S. P. Silva, do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), falará sobre «Cale e os Calaeci: um roteiro introdutório» tema da sua tese de doutoramento recentemente apresentada na Universidade de Santiago de Compostela, campus de Lugo. A assistência a esta conferência é livre e não carece de inscrição prévia.
No dia 12 de novembro, sábado, integrada no IV Ciclo de Conferências com visita guiada do Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave 2022, em Famalicão, denominado «Novos contributos para a História da Indústria Portuguesa», a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) Maria de Fátima Teixeira falará sobre «A Indústria Metalúrgica em Crestuma: a Fábrica Paiva Freixo». A presença nesta sessão implica inscrição prévia.
Livros

No passado dia 5 de Outubro, no programa comemorativo da República no município de Coimbra, na sala Francisco Sá de Miranda da Casa Municipal da Cultura e apresentado pelo Professor Doutor Fernando Catroga, foi lançado o livro Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação, de Carlos Santarém Andrade que aí relata a proclamação do novo regime naquela cidade no dia 5 de Outubro de 1910 a partir de jornais da época e outras fontes coetâneas. Natural de Gouveia, o autor é licenciado em Direito e bibliotecário-arquivista pela Universidade de Coimbra, tendo exercido o cargo de diretor da Biblioteca Municipal daquela cidade. Foi também redator da Vértice e diretor do Arquivo Coimbrão, sendo autor, entre outros títulos, de Coimbra e Eça de Queirós (1995). Na biblioteca de que foi diretor encontra-se patente a exposição «Retalhos da vida de um bibliotecário» que apresenta muito do seu espólio pessoal.

Confrarias
No
passado dia 19 de outubro, na sede da Federação das Coletividades de Vila Nova
de Gaia, esta entidade promoveu uma primeira reunião informal entre as
seguintes associações: Confraria da Broa de Avintes; Confraria da Moamba;
Confraria da Pedra; Confraria do Velhote; Confraria do Vinho do Porto;
Confraria Queirosiana; e Federação das Confrarias Báquicas de Portugal.
Dirigida por César Oliveira, presidente da sua mesa da assembleia geral e com a
presença de Paulo Rodrigues, presidente da sua direção, nesta reunião as
confrarias presentes deram conta das suas atividades e anseios, tendo sido
feita a sugestão de uma maior colaboração entre todas em prol do município onde
estão localizadas. Entretanto Albino Jorge, em representação das Confrarias
Báquicas de Portugal, aí referiu o ponto da situação do Congresso Mundial de
Confrarias que se realizará no nosso país a partir de 27 de maio do próximo
ano, com início em Vila Nova de Gaia e cujo programa se desenrolará em várias
outras cidades e regiões, trazendo ao nosso país centenas de enófilos dos
diversos cantos do mundo. Estas confrarias voltarão a reunir-se no início do
próximo ano para nova análise dos seus projetos para 2023.
_________________________________________________________
Eça
& Outras, III.ª série, n.º 170, terça-feira, 25 de outubro de 2022;
propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende -
Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt;
confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com;
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima
Teixeira; inserção: Amélia Cabral.