quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Eça & Outras

 Dos tempos de Eça até aos dias de hoje

          Nas duas crónicas anteriores escrevi sobre o que é que a associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (ASCR-CQ) tem publicado sobre Eça de Queirós e o seu universo. Mas a sua ação editorial não se resume aos temas ecianos: como vem expresso nos estatutos compete-lhe também «promover a investigação arqueológica, antropológica, histórica, patrimonial, artística, literária e científica, sobre quaisquer formas de expressão e outras acções que valorizem e divulguem o conhecimento». Por isso tem produzido outros estudos e publicações.

          Quando em 2004 assumiu a integração do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, que a partir daí passou a designar-se Gabinete de História, Arqueologia e Património (GHAP), aceitou igualmente todo o seu legado, incluindo o projeto de escavações arqueológicas e levantamento do Património realizado no vale do Côa entre 1985 e 2004, patrocinado pela Casa Ramos Pinto, o qual deu origem a estudos divulgados em outras tantas revistas e atas de reuniões científicas. Sobre ele publicou a Confraria em 2015 a síntese Quinta da Ervamoira: da Arqueologia ao Museu de Sítio, da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães (JAGG) na sua Revista de Portugal, n.º 12. Em publicação desde 2004, esta sua revista, a partir do n.º 4 (2007) publica os relatórios de actividades da associação, bem assim como vários textos relativos a alguns destes projecto.

          A partir de 2005 a equipa do Gabinete iniciou trabalhos em S. João da Pesqueira, através de uma equipa multidisciplinar, como já tinha acontecido na Quinta da Ervamoira, tendo também feito escavações arqueológicas em S. Salvador do Mundo. Deste projecto, que teve o patrocínio da autarquia local, resultou a publicações em 2007 do livro São Salvador do Mundo santuário duriense, coordenado por JAGG e editado por Edições Gailivro. Como esta ação teve também o apoio da Associação dos Amigos de Pereiros, da aldeia onde a equipa ficava alojada, desta permanência saíram, ainda em 2011, o livro Pereiros. S. João da Pesqueira, de A. Silva Fernandes; JAGG e Nuno Resende (NR) e, em 2013, deste último autor, Capela de Santo António. Pereiros, S. João da Pesqueira, ambos planeados pelo GHAP. Foi também durante esta permanência que, para além da produção de outros livros e textos, que a 28 de março de 2005 foi feita uma primeira visita ao escritor José Rentes de Carvalho, então em Estevais de Mogadouro, da qual resultou a doação do seu espólio pessoal à Confraria, o qual tem vindo a ser tratado e divulgado, como se pode ver em O Núcleo Documental J. Rentes de Carvalho – I. «Revista de Portugal», n.º 15, novembro de 2018.

          A partir de 2006 a Confraria vem realizando a sua mostra anual de Arte, aberta aos sócios profissionais e amadores, também como corolário do seu curso de Pintura, cujos catálogos, de 2006 a 2019, têm sido elaborados por Maria de Fátima Teixeira (MFT) sob a designação de Salon d’Automne Queirosiano e editados pela Confraria com patrocínios pontuais.

Também os temas de comemorações nacionais têm sido lembrados através de estudos publicados. Assim, no ano do Centenário da República foi lançado o livro Republicanos, Monárquicos e outros: as vereações gaienses durante a 1ª República, 1910-1926, da autoria de JAGG, edição apoiada pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Gaianima e Junta de Freguesia de Avintes. A evocação do Centenário da 1.ª Grande Guerra mereceu-lhe a publicação de SOARES, José Pereira do Couto (2016) – Memórias de um Expedicionário a Moçambique (1917-1919), tendo a edição sido apoiada pelo seu neto Dr. Fernando Rui Morais Soares, que também ofereceu o manuscrito original à Confraria. Por sua vez, a Revista de Portugal n.º 13 publicaria em 2016, de Susana Guimarães (SG), Francisco da Silva, enfermeiro hípico na 1.ª Guerra Mundial.

Em 2020 foi comemorado o meio século do Ano Internacional da Educação instituído pelas Nações Unidas através da UNESCO, neste ano também como Património Cultural pela Comunidade Europeia. Para tal lembrar, em colaboração com o Arquivo Histórico da Igreja Lusitana, editou o livro Esboço. Boletim dos Jovens do Torne. 50 anos de persistências 1970-2020, edição fac-similada dos três boletins com aquele título então proibidos de circular pela censura, o último dos quais dedicado àquele tema.

            A História Empresarial mereceu-lhe a organização de um dos cursos livres do Solar realizado no inverno de 2013/2014. Nesse primeiro ano foi editado o livro de Graça Nicolau de Almeida e JAGG, Adriano Ramos Pinto Vinhos e Arte, um projecto patrocinado pela Casa Adriano Ramos Pinto (Vinhos) SA. Em 2015 também o GHAP colaborou na organização e produção da obra de Francisco Javier de Olazabal, Quinta do Vale Meão produzida para a empresa Sociedade F. Olazabal & Filhos, L.da que a editou, e cujos trabalhos complementares de JAGG foram publicados na revista Douro. Vinho, História. Património, n.º 3. Por sua vez a empresa Quinta da Boeira, Arte e Cultura teve também a colaboração da Confraria Queirosiana em diversas acções de promoção de produtos portugueses em Madrid, Copenhaga e Manchester, com uma mostra de modelos de embarcações históricas e conferências sobre Portugal e a Expansão Europeia, acompanhadas pela edição de dois livros de JAGG em 2016 e 2017, Modelos de embarcações históricas portuguesas dos séculos XVI a XIX; Modelos de embarcaciones históricas portuguesas de los siglos XVI a XIX, e idem com tradução em francês e inglês.

          Tendo o Gabinete, desde a sua fundação realizado escavações arqueológicas em Vila Nova de Gaia, em vários sítios com horizontes cronológicos diversos, em 2010 foi iniciado o projeto CASTR’UÍMA, programa de investigação e valorização cultural do Complexo Arqueológico do Castelo de Crestuma, patrocinado por Águas e Parque Biológico de Gaia, o qual se prolongou, nesta fase, até 2015, voltando a ter trabalhos complementares nas suas imediações em 2019/2020. Embora a maior parte dos trabalhos já produzidos e apresentados tenha sido publicado em atas de congressos e diversas revistas da especialidade nacionais e estrangeiras, sob a égide da Confraria foram publicados em 2013, de António Manuel S. P. Silva (AMS) e JAGG, Castelo de Crestuma. A Arqueologia em busca da História, editado por Águas e Parque Biológico de Gaia e ASCR - Confraria Queirosiana, e, ainda nesse ano, de AMS, Arqueologia do Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia).Resultados preliminares da campanha de 2013, na «Revista de Portugal», n.º 10. Entretanto o GHAP tem abraçado outros projectos de Arqueologia e Património que, a seu tempo, serão objecto de outras publicações.

          Sempre que consegue patrocínios para tal a ASCR-CQ edita, ou apoia a edição, das provas académicas dos seus membros. Tal já tinha sido o caso em 2006 da dissertação de mestrado de SG, intitulada A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766 – 1816). Família, Património e Casa, editada pela Palimage Edições, a ASCR-CQ o Instituto de História Moderna/ FLUP, já referida a propósito das obras queirosianas. Em 2012 foi a vez da dissertação de NR intitulada Vínculos Quebrantáveis. O Morgadio de Boassas e suas relações, séculos XVI-XVIII editada em Coimbra pela Palimage com o apoio da ASCR-CQ. Em 2017 foi publicada a de MFT sobre a Companhia de Fiação de Crestuma. Do fio ao pavio, editada pela ASCR-CQ e Edições Afrontamento, com o patrocínio da Sudantex, e ainda nesse mesmo ano a de Licínio Santos sobre Cultura e Lazer. Operários em Gaia, entre o final da Monarquia e o início da República (1893-1914), os mesmos editores e igualmente patrocinada.

            Em 2015 foi assinado um protocolo entre a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e a ASCR-CQ para a organização de uma equipa que produzisse dez volumes sobre o Património Cultural de Gaia em todas as suas vertentes, tendo já sido publicado em 2018 o volume coordenado por JAGG e Gonçalo de Vasconcelos e Sousa Património Cultural de Gaia. Património Humano. Personalidades Gaienses. Como esta primeira edição, por força de lei, só pode ser destinada a fins institucionais, em 2019 foi feita uma reimpressão destinada ao mercado em colaboração com as Edições Afrontamento

            Entretanto para dar a conhecer os seus estatutos, sócios, confrades, e principais actividades, a associação publicou em 2004, com o patrocínio do vinho do Porto Romariz, Confraria Queirosiana, coordenado por JAGG, o qual teve uma 2.ª edição revista em 2016 por Amélia Cabral, JAGG, e Susana Moncóvio esta editada com o patrocínio de Urbiface Meios Publicitários.

            A Confraria Queirosiana vai também assim cumprindo os seus desígnios culturais afirmando-se também como uma pequena editora que este ano estará presente na Feira do Livro do Porto no próximo mês de junho. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da direção

Eça de Queirós no Panteão Nacional

Do Brasil recebemos o seguinte texto:

«Dagoberto Carvalho Jr.

Da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia, Portugal

e da Academia Piauiense de Letras, Teresina, Piauí, Brasil 

Grande e boa notícia chega-me de Portugal, através do chanceler Gladstone Vieira Belo, de nossa não extinta Sociedade Eça de Queiroz – fundada no Recife (como Clube de Amigos do romancista português), pelo escritor Paulo Cavalcanti e o jornalista Silvino Lopes, em 1945, por ocasião do centenário do pobre (grande homem) da Póvoa de Varzim; por nós, apenas, reorganizado – a boa notícia da ‘elevação’ do grande, incomensuravelmente, grande Eça de Queiroz a honras de ‘Panteão Nacional’ tidas – ali – como ápice, que o é, do público e imorredouro reconhecimento da República Portuguesa. Outra data, esta, que, eu – recuperada a saúde –, haveria de ter aproveitado para possível ressurgimento dos ‘Vencidos do Recife’, que o artista gráfico Mário Paciência eternizou em nanquim, emoldurado na minha sala de leituras eça-oeirenses. Ali apareço com o próprio Eça de Queiroz, Paulo Cavalcanti, Pelópidas Silveira, Gladstone Vieira Belo, Fernando da Cruz Gouvêa, Luiz Arraes, Marly Mota, José Quidute e Marcus Prado. Quadro que – para honra nossa – ilustra a página 587 do Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz, do arquiteto A. Campos Matos.

Mas, o que esta página se propõe, mesmo, é o público e universal elogio e registro da grande homenagem a Eça, que Portugal – por sua mais representativa escala de poder, a Assembleia da República – como que fechou (por enquanto, visto que ele, eternamente as merecerá) as homenagens mais que sesquicentenárias ao inspirado criador de O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Relíquia, O Mandarim e A Tragédia da Rua das Flores, para ficarmos por aqui, em sua representatividade maior.

O repto lançado pela Fundação Eça de Queiroz, transformou-se em proposta do Deputado José Luís Carneiro (Partido Socialista) e, ato contínuo, motivou a Assembleia – como um todo – “concedendo honras de Panteão Nacional aos restos mortais de José Maria Eça de Queiroz”; referendado, assim, o reconhecimento em que já os seus leitores, de Portugal e do mundo, sempre o tivemos. Pronunciaram-se, solidários com a iniciativa, os deputados João Cotrim de Figueiredo (Iniciativa Liberal); Ana Rita Bessa (CDS); José Luís Ferreira (PEV); Paulo Rios (PSD); Ana Mesquita (PCP), que citou o presidente da Fundação Eça de Queiroz, bisneto do escritor, para quem, numa “época em que os índices de leitura, em particular, entre os estudantes baixam assustadoramente, tenho a esperança, talvez, ingênua, de que um acontecimento como este alerte para a maravilhosa descoberta da leitura”. A propósito, concluiu a parlamentar: “Também o PCP assim o espera”. Pronunciaram-se, ainda, os deputados André Silva (PAN) e Alexandra Vieira, do Bloco de Esquerda. Para ela, o romancista homenageado “era exemplo do que hoje podemos considerar ativista, enaltecida sua capacidade de levar os leitores a pensar”.

PS – José Maria Eça de Queiroz morreu a 16 de agosto de 1900, sendo sepultado no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Em setembro de 1989, os seus restos mortais foram trasladados para jazigo da família, em Santa Cruz do Douro, Baião, onde este ‘devoto’ brasileiro os foi visitar em companhia de ninguém menos que D. Maria da Graça Salema de Castro, então presidente da Fundação Eça de Queiroz (Tormes, Baião) e Beatriz Berrini, da Universidade Católica de São Paulo, expressão maior do ‘ecianismo’ de seu tempo luso-brasileiro.

Recife, 27 de janeiro de 2021»

Monumento a Eça de Queirós em Lisboa, de Teixeira Lopes.


           
Entretanto outras vozes se levantam, não para contestar a homenagem nacional ao escritor, que tem recolhido unanimidades, mas divergindo na maneira de o fazer. Assim, o jornalista António Eça de Queiroz, bisneto do escritor, tem-se oposto no Facebook e através de uma Petição Pública a mais esta trasladação dos restos mortais do bisavô. No seu entender eles deverão permanecer no jazigo de família em Santa Cruz do Douro para onde foram levados em 1989 quando o jazigo onde estavam em Lisboa foi posto à venda. E propõe que, a exemplo de outros portugueses que já estão honrados no Panteão Nacional através de cenotáfios, ou seja, sem a presença dos seus restos mortais, em alguns casos “perdidos para sempre na voragem dos tempos”, como é o caso dos de Camões, que Eça de Queirós ali receba as honras que a Assembleia da República lhe atribuiu através da colocação do original da estátua esculpida por Teixeira Lopes, que em tempos esteve em lugar público no largo do Barão de Quintela em Lisboa, tendo entretanto sido arrecadava por ser sistematicamente vandalizada. Seria assim dignificado o homenageado com um notável cenotáfio e também cumprida a deliberação da Assembleia.

            Na sua reunião mensal de 9 de fevereiro passado, a direcção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana decidiu por unanimidade congratular-se com a deliberação da Assembleia da República que concedeu honras de Panteão Nacional ao seu patrono, tendo esse voto sido secundado pelo presidente da Assembleia Geral da associação.

Buenas noches señor Soares

            O escritor Mário Cláudio acaba de ver publicada uma sua obra em Espanha, um novo contributo para a internacionalização deste escritor português contemporâneo. Traduzida por Ana Balén Cao Míguez, esta obra e uma novela passada na Lisboa dos anos trinta e que tem como protagonista Bernardo Soares, um semi-heterónimo de Frenando Pessoa muito perto dele próprio, aqui recriado por Mário Cláudio, como aliás já o tem feito com sucesso noutras obras sobre personalidades reais ou ficcionais da Literatura Portuguesa. Entre a rotineira actividade contabilística do Comércio da baixa lisboeta e os sonhos do protagonista, só a imaginação nos pode valer, a ele, ao autor e aos seus leitores, agora também em língua de Cervantes.

31.º Fórum de Avintes

            No próximo dia 27 de fevereiro decorre na Junta de Freguesia de Avintes o 31.º Fórum, com uma sessão transmitida a partir das 15 horas na página do Facebook, durante a qual haverá cinco intervenções de, entre outros, Paulo Costa e J. A. Gonçalves Guimarães, na qual este último falará sobre «Os Vanzeller da Quinta de Fiães em Avintes e a Revolução de 1820». Prefaciando este encontro, no dia anterior a Junta divulgou deste mesmo historiador um videofilme sobre «D. Maia Isabel Vanzeller, a Senhora das vacinas».        

Curso sobre o Antigo Egito

         O curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ) prossegue aos sábados, entre as 15 e as 17 horas, por videoconferência. Assim, em fevereiro decorreram as 8.ª e 9.ª sessões, a primeira no sábado, dia 6, sobre «As ciências no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão e no sábado, dia 20, sobre a «A viagem de Eça de Queirós e do Conde de Resende ao Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, tendo esta sido a primeira sessão internacional com uma inscrição de Maceió, Brasil. O curso seguirá com a 10.ª sessão no próximo dia 6 de março com o tema «Erotismo e sexualidade no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Rogério Sousa e a 11.ª será no dia 27 do mesmo mês sobre a «Escrita hieroglífica e outras escritas do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, prevendo-se que esta sessão possa vir também a ser presencial, para além da habitual videoconferência, se as condições sanitárias o permitirem,

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 150, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Eça & Outras

Ainda há novidades sobre Eça de Queirós? (II)

            No passado artigo falei dos livros que a Confraria Queirosiana tem publicado desde 2002 sobre a vida e obra de Eça de Queirós. Falemos agora na publicação dos muitos artigos, sobre idêntica temática, dispersos pela Revista de Portugal, publicada desde 2004. Logo no primeiro número, e da autoria de Paulo Sá Machado, publicou-se «Eça de Queiroz no Coleccionismo». No n.º 3, de 2006, Luís Manuel de Araújo iniciava a sua colaboração com estudos sobre a viagem do escritor com o 5.º conde de Resende ao Egito e Palestina em 1869, publicando «Egiptomania queirosiana e eçamania egiptológica», que haveria depois de continuar. Ainda nesse número J. A. Gonçalves Guimarães publicaria «Um “Vencido da Vida” – Notas biográficas sobre Luís Pinto de Soveral (marquês de Soveral, 1853-1922), que daria origem à obra biográfica em livro já referida no artigo anterior. No n.º 6, 2009, de Norberto Barroca a revista publicaria «Eça de Queirós no Teatro» e de José António Afonso «A “questão educativa” na Revista de Portugal (1889-1892). Uma sondagem». No n.º 7, no ano seguinte, Anabela Mimoso escreveria sobre «A construção do corpo em As Farpas» e para o n.º 8, saído em 2011, Dagoberto Carvalho J.or mandaria do Brasil o seu artigo «Revolução pela Palavra: a Geração de 70 e a República Portuguesa», enquanto Maria de Fátima Teixeira publicaria «Referências transmontanas e altodurienses na vida e obra de Eça de Queirós», na sequência de uma proposta de investigação sistemática sobre os condiscípulos de Eça de Queirós na universidade e as suas possíveis relações com o escritor, anteriormente proposta por J. A. Gonçalves Guimarães numa conferência na Câmara Municipal de Baião em maio de 2006 e logo dada a conhecer no jornal O Primeiro de Janeiro, republicada depois no n.º 9 da Revista de Portugal de 2012 com o título «Os condiscípulos de Eça de Queirós em Coimbra naturais do distrito do Porto», assunto a que voltará mais tarde para o roteiro queirosiano do Alentejo. Ainda nesse número Jaime Milheiro publica «Sonhando com Eça (em Gaia)», sobre o Eça-escritor, o Eça-pessoa e o Eça-sonhador.

No n.º 10, Luís Manuel Araújo regressa com «Eça de Queirós e o Egito do bakchich»; J. A. Gonçalves Guimarães com «Roteiros queirosianos: da biografia à ficção literária» e Anabela Mimoso com «Revisitar a Geração Coimbrã à luz do integralismo de José Rebelo Bettencourt». No n.º 12 de 2015, Nuno Resende publica «O lugar de Cinfães na sátira literária oitocentista», destacando tal em algumas obras de Camilo e de Eça, entre outros. Ainda nesse número, Maria Alda T. Barata Salgueiro publica «A construção épica do Amor na poesia de Antero de Quental». No número seguinte, n.º 13 de 2016, Susana Moncóvio faz uma incidente abordagem biográfica a «D. Luís Manuel Benedito da Natividade de Castro Pamplona de Sousa Holstein e a escola de Canelas (V. N. Gaia) em 1869: liberalidade e costumes», e a sua particular ligação ao Solar Condes de Resende e ao próprio escritor. No n.º 14 do ano seguinte, esta investigadora apresenta «Luise Ey (1854-1936): aspectos biográficos de uma divulgadora de Eça de Queirós na Alemanha». Sabendo-se das interrogações suscitadas pela passagem de Eça pelo Colégio da Lapa no Porto, em grande parte motivadas pelo desaparecimento da sua documentação, no n.º 15 de 2018, Felicidade Moura Ferreira procura algumas respostas em documentação da época que publica em «O Colégio da Lapa e a educação dos filhos da burguesia portuense do século XIX: o caso da família de Tomás António de Araújo Lobo». Ainda neste número, Jorge Campos Henriques dá contas de «Eça de Queirós e Aveiro – “O Solar dos Queiroses”: um triste fim», tema a que voltará numa curta nota no n.º 16 de 2019, intitulada «Aveiro e a Fundação Eça de Queirós». Neste número, César Veloso publica «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós». ou seja, porque será que não se conhece nenhum texto do escritor sobre o Football Association, já tão popular na Inglaterra do seu tempo, enquanto que Susana Moncóvio escreve sobre as suas curiosidades museográficas em «Eça de Queirós e a colecção de FrédericSptizer (1815-1890). Perspetivas críticas».

O n.º 17, publicado em novembro do ano 2020, apresenta três artigos de incidência queirosiana: iniciando uma série que se prolongará, Maria de Fátima Teixeira publica «Hotéis queirosianos: Hotel Lawrence» de Sintra», apresentando a sua história documentada desde o século XVIII até à actualidade; de Ricardo Charters d’Azevedo, uma actualizada síntese em «Notas sobre Eça de Queirós em Leiria» e, de Mara Verónica Sevinatti o relato de uma recente viagem ao roteiro queirosiano do Próximo Oriente conduzida pelo Prof. Luís Manuel de Araújo, corolário das muitas que já fez e voltará certamente a fazer.

Afirmando desde já que o n.º 18 da Revista de Portugal, a publicar no corrente ano de 2021, incluirá também, pelo menos, um artigo sobre temática queirosiana direta, e voltando a sublinhar que esta resenha não abrange os muitos livros e artigos publicados pelos confrades noutras editoras e publicações, podemos então concluir que a associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana, através dos seus sócios e confrades, tem dado o seu contributo para novas interpretações, ou pelo menos para novos olhares, sobre Eça e a Geração de 70; os diversos roteiros queirosianos em que se destaca o do Egito; aspectos sobre alguns cenários da sua biografia e dos seus personagens; a família de sua mulher; e aspectos da sua obra e adaptações da mesma. Mesmo no que diz respeito à iconografia queirosiana, também têm sido republicadas algumas imagens raras ou pouco conhecidas: assim, na capa do n.º 9 da Revista de Portugal, e na sua página 28, a fotografia mais antiga de Eça que se conhece, talvez contemporânea da sua ida para a Universidade de Coimbra, proveniente do espólio da sua falecida neta D. Emília Maria de Castro de Eça de Queiroz Cabral, e pela primeira vez divulgada em GUIMARÃES, Gonçalves; CORREIA, Ana Filipa (2000) – Roteiro Queirosiano de Vila Nova de Gaia. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal/ Solar Condes de Resende; página 77; e também o muito pouco conhecido «Eça de Queiroz – (Desenho do natural, por Colaço)» publicado a primeira vez na capa de A Revista. Illustração Luso-Brasileira, anno 1 – número 2, 20 de julho de 1893, que fez a capa do n.º 12 publicado em 2015, comemorativo dos 170 anos do seu nascimento.

Creio bem que não tem sido um contributo despiciendo. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça de Queirós no Panteão Nacional

        No passado dia 14 de janeiro, por proposta do deputado José Luís Carneiro, ex-presidente da Câmara Municipal de Baião e ex-secretário de estado das Comunidades Portuguesas, e de mais outros três deputados, a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, conceder honras de Panteão Nacional a Eça de Queirós, o que implicará a trasladação dos seus restos mortais do cemitério de Santa Cruz do Douro para Lisboa. Recorde-se que o escritor, depois de morrer em Paris a 16 de agosto de 1900, foi trazido de barco para Lisboa, de carro fúnebre para o Alto de São João na capital, e dai em 1989 para o cemitério de Santa Cruz do Douro em Baião para um jazigo onde foram igualmente depositados os restos mortais de seus filhos e de outros parentes. Agora os seus restos mortais partirão de novo para a capital, onde repousarão entre outros grandes portugueses.

Congresso sobre Eça de Queirós

          Tendo sido adiado devido à pandemia, está previsto para outubro de 2021 a realização de um Congresso Internacional sobre Eça de Queirós evocativo dos 150 anos da inauguração do Canal de Suez, onde o escritor esteve presente na companhia do 5.º conde de Resende, organizado pelo Movimento Internacional Lusófono com a colaboração de outras entidades, entre as quais a Confraria Queirosiana. As sessões decorrerão em Lisboa e o programa previsto será divulgado oportunamente.

Com J. Rentes de Carvalho em Estevais do Mogadouro, 
dezembro de 2020; fotografia de Fátima Teixeira.

Cartas de (e para) Eça

O organizador (e autor das preciosas notas) da edição de Eça de Queiroz. Correspondência, 2 volumes, A. Campos Matos, continua a revelar-nos cartas inéditas do escritor, tendo acrescentado àquela obra já duas Adendas e apresentado recentemente no jornal As Artes Entre As Letras, n.º 280 de 16 de dezembro de 2020, mais uma carta inédita, datada de Paris, 13 de março de 1894, atingindo assim o fantástico número de 914 cartas publicadas, se tivermos em atenção que mais algumas – nunca saberemos quantas – foram para o fundo do mar com o vapor que trazia parte dos seus pertences vindos de Paris para Lisboa após a sua morte.

Entretanto também há quem continue a escrever cartas a Eça de Queirós. Nós próprios já o fizemos e o escritor, em resposta, soprou-nos do Além que até nos responderia por escrito, mas “lá em cima” é tudo sem papel, sem fios, sem suportes materiais. É tudo através de ondas energéticas. Mas aconselhou-nos a pormo-nos no meio do pátio do Solar Condes de Resende em dia de sol fagueiro que a resposta haveria de chegar. Mas que não seria novidade e até já estaria escrita numa das suas obras, recomendando-me paciência para procurar. E ainda segredou: “use o Dicionário de Citações ou então telefone ao Campos Matos que ele, de certeza, sabe onde já terei respondido às questões que me põe”.

Quem também lhe escreve com alguma frequência é o escritor J. Rentes de Carvalho através do seu blogue Tempo Contado. No passado dia 15 de dezembro em «Cartas a Eça de Queirós (3)» poderemos ler este trecho: «Bem gostava eu de lhe dar boas notícias da pátria, mas a infeliz não mostra força nem talento para aprender outro papel, continua a representar a velha e estafada tragicomédia, agora com a diferença de que não precisa de empenhar os anéis, e até vive melhor de mão estendida à caridade.». Entretanto a 29 desse mês fomos visitá-lo com toda a segurança a Estevais do Mogadouro, onde se sente confinado e impedido de voltar por estrada a Amsterdam, devido à pandemia que encerrou os hotéis do trajeto onde costuma pernoitar. Mas quem tem 90 anos já se vai habituando a esperar por dias melhores que certamente chegarão, muito mais devagar do que a nossa pressa em querer voltar a viver “normalizados”, pelo menos tanto quanto os habitantes de Diu nos intervalos do Cerco. Outros combates ainda nos esperam.

Curso sobre o Antigo Egito

          Prossegue aos sábados, entre as 15 e as 17 horas, por videoconferência, o curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ). Em fevereiro decorrerão as 8.ª e 9.ª sessões, a primeira no sábado, dia 6, sobre «As ciências no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão; no sábado, dia 20, sobre a «Escrita hieroglífica e outras escritas do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo. O curso continua a despertar um interesse cada vez maior, que se traduz em novas inscrições para cada sessão. Logo que as condições o permitam regressará à modalidade presencial, ou pelo menos a sessões mistas, com assistência e por videoconferência.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 149, segunda-feira, 25 de janeiro de 2021; 
propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; 
NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; 
email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; 
eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Eça & Outras

Ainda há novidades sobre Eça de Queirós?

       «Vocês lá na Confraria Queirosiana, no Solar Condes de Resende, lá vão divulgando a vida e obra de Eça de Queirós …, mas, para além disso, têm acrescentado alguma coisa ao que já se sabe, têm corrigido erros transmitidos de texto em texto, têm feito mais alguma coisa do que o divulgar?». Esta questão foi-nos assim posta recentemente, e nem nos competiria a nós responder-lhe, pois, ao tal fazer, parece aquela, sempre suspeita, defesa em causa própria. Poderíamos simplesmente responder: veja o que desde 2002 temos feito em termos de estudos, participação em congressos, publicação de textos, organização de cursos sobre temática queirosiana, revelação de documentos inéditos ou pouco conhecidos, divulgação de textos e iniciativas alheias que nos parecem válidas, apresentação de espetáculos e da filmografia baseada na vida ou na obra do escritor, propostas de correções ou de novas reflexões sobre o já publicado, quer em eventos, quer em publicações diversas, quer na Revista de Portugal (RP), quer no blogue eca-e-outras e no jornal As Artes Entre As Letras, quer em outros meios, as quais poderão ser referenciadas na bibliografia de alguns dos sócios e confrades, que sistematicamente publicamos naquela revista desde 2005 (RP, n.º 3, 2006, p. 60). Mas o melhor é mesmo apresentar aqui uma resenha do já publicado pela própria Confraria, não contando pois para esta remembrança o apresentado pelos seus membros noutras edições.

         Comecemos então pelos livros editados, ainda que com o apoio de outras editoras e entidades diversas: logo em 2002, Imagens do Egipto Queirosiano, de Luís Manuel de Araújo, álbum muito ilustrado (312 p.), sobre um aspeto fundamental da construção do ideário humanista e cosmopolita do escritor, a que se seguiu em 2006 a dissertação de mestrado de Susana Cristina Gomes Gonçalves Guimarães, A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766 – 1816). Família, Património e Casa, sobre a história da família de sua mulher e do Solar Condes de Resende (427 p.), onde a Confraria tem a sua sede por protocolo com a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Ainda nesse ano preparamos e publicamos, talvez pela primeira vez em livro autónomo, uma edição crítica das mais notáveis obras de Eça, o conto S. Cristóvão, com três estudos complementares para melhor entendimento da mesma por Anabela Mimoso. J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim (224 p.). Em 2008, após exaustiva pesquisa no arquivo do Paço Ducal de Vila Viçosa, onde se encontra o seu arquivo pessoal, saiu a obra de J. A. Gonçalves Guimarães, Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/ Son of the Douro Man of the World, sobre este “Vencido da Vida”, amigo e “chefe” do escritor no Ministério dos Negócios Estrangeiros (220 p). Em 2019 foi feita a publicação de Eça de Queirós e o Caminho de Ferro, de Joana Ribeiro, produzido no âmbito do projeto dos investigadores tarefeiros do Solar Condes de Resende.

Nestes cinco livros de temática queirosiana direta, creio que foram dadas importantes contribuições para o aprofundamento de diversas questões biográficas, nomeadamente: a importância na sua vida e obra da viagem que fez com o 5.º conde de Resende (que nunca foi seu cunhado, como erradamente aparece escrito, pois morreu novo; seu cunhado foi o 6.º conde de Resende, irmão do primeiro), ao Egito e Palestina em 1869, cuja análise tem sido continuada noutros artigos entretanto publicados e até no curso sobre o Antigo Egito que decorre este inverno no Solar dirigido pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo autor daquele livro e de muitos outros escritos sobre esta temática; se os antepassados paternos e maternos do escritor já tinham sido objeto de diversas análises, tal não tinha ainda acontecido, de forma exaustiva, com a família de sua mulher, e sobretudo sobre a casa onde, segundo Eça escreveu em carta enviada de Londres a 28 de julho de 1885 ao futuro cunhado, pela primeira vez reparou na senhora com quem viria a casar, a mãe de seus filhos «A minha afeição por tua irmã não foi improvisada o ano passado, na Granja e na Costa Nova. Data de uma ocasião mais antiga, de quando eu te fui ver a Canelas» (Eça de Queiroz Correspondência, coordenação de A. Campos Matos, 2008, vol. I, p. 386) Tal foi feito no livro de Susana Guimarães, tendo também esta historiadora igualmente continuado a apresentar estudos sobre a Casa e este ramo da família; se os “Vencidos da Vida” tinham desde há muito sido objeto de vários artigos e obras monográficas, não havia uma biografia de Luís de Soveral baseada no seu arquivo pessoal, que ligasse o futuro marquês não apenas a Lisboa e sobretudo a Londres, os palcos onde brilhou de forma inexcedível, não apenas às suas lides diplomáticas, mas sobretudo às suas raízes durienses, a S. João da Pesqueira, ao Porto e a Vila Nova de Gaia, ao vinho do Porto e à Praia da Granja por onde todos eles, Eça e os restantes “vencidos”, passaram e cujo estudo está por fazer. Tal é o que podemos encontrar nesta biografia.

Se é certo que Eça foi um infatigável viajante, a pé, a cavalo, de carruagem e de barco, não há dúvidas que elegeu o comboio como o seu meio predileto e sobre ele escreveu com devoção e encanto. Nestes nossos dias em que o desenvolvimento dos comboios de alta velocidade, dos intercidades e dos “metro”, estão na ordem do dia, para uma necessária e urgente remodelação, através do texto deste exaustivo livro sobre a relação do escritor com os “seus” comboios, Joana Ribeiro propõe-nos uma agradável e útil viagem em todos os cenários e ficções percorridos pelo escritor.

Estando já hoje conhecida a totalidade dos escritos de Eça e em curso a meritória tarefa de os expurgar de acrescentos alheios, com a apresentação de todas as variantes realmente saídas da sua mente e da sua pena por uma equipa dirigida por Carlos Reis; sendo já pouco provável o aparecimento de mais inéditos (hipótese nunca descartada por A. Campos Matos, que continua a publicar novas interpretações e revisitações da obra), em 2006 a confraria abalançou-se a republicar o conto S. Cristóvão, não “a seco”, como até então tinha sido feito, ou apenas com interpretações sociológicas ou literárias, mas indo mais longe e, sem descurar aquelas, acrescentou-lhes análises históricas e iconográficas. Esta edição popular mereceria uma edição mais monumental e o texto deveria servir para argumento de um filme de sucesso.

Ficando agora por falar sobre os entretanto numerosos estudos que a Confraria tem publicado, o que faremos oportunamente, sabemos que não só alguns deles estarão a ser reunidos em livro, como é propósito desta continuar a divulgar “novidades novas” sobre a vida, obra e época de Eça de Queirós e todo o universo que inspiram, não apenas numa análise literária mas sobretudo multidisciplinar. Eça de Queirós, como literato, não foi apenas o escritor admirável que a unanimidade lhe reconhece: foi também um questionador de pensamentos e atitudes, individuais e sociais, com as quais dificilmente continuamos a lidar.  

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça de Queirós no Panteão?

         Recentemente um grupo de deputados do Partido Socialista, entre os quais José Luís Carneiro, apresentou na Assembleia da República um projeto de resolução recomendando ao Estado a concessão de honras de Panteão Nacional ao escritor, o que parece recolher pacífica unanimidade, até porque o repouso dos seus restos mortais tem sido bastante agitado. Recordemos brevemente as peripécias a que já foram sujeitos: tendo Eça falecido em Paris, daí teve um funeral até ao Havre, de onde veio de barco até Lisboa. Na capital teve funeral com honras de Estado desde o Cais das Colunas até ao cemitério do Alto de S. João, onde ficou num jazigo da família de sua mulher. Foi então aventada a hipótese de ser encontrada uma sepultura definitiva, tendo sido proposto o jazigo do pai e do avô no cemitério do Outeirinho, em Aveiro, perto do solar de Verdemilho, onde viveu na infância. Anos depois várias personalidades propuseram o Panteão Nacional, nomeadamente o jornalista António Valdemar, que por tal se bateu até junto da Assembleia da República. Em 1989 foram os restos mortais trasladados para o cemitério de Santa Cruz do Douro, Baião, perto da Quinta de Vila Nova, sede da Fundação Eça de Queiroz, onde entretanto tinha sido construído um jazigo de família.

Tendo entretanto sua mulher Emília de Castro falecido na Granja em 1934 e sido sepultada no cemitério de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, não foi a sepultura remida pela família nos anos seguintes, pelo que se perderam as referências aos seus restos mortais, que por isso não acompanharam os do marido. Tudo leva a crer que Eça terá um novo funeral, um quinto funeral, situação que lhe mereceria certamente um texto de profunda reflexão sobre o humano destino após a morte.

         Devido a mais um acaso, uma daquelas curiosidades de que a vida está cheia, se tal se concretizar, desta vez Eça ficará sepultado muito perto do antigo palácio dos condes de Resende em Lisboa, ali por detrás no largo de Santa Clara, atualmente conhecido por Casão Militar, antiga residência dos antepassados de sua mulher, cujas armas ostenta no cunhal voltado para o antigo Hospital da Marinha, à Feira da Ladra. Coincidências.

Curso sobre o Antigo Egito

         A partir do Solar Condes de Resende e seguindo o calendário pré-determinado, prossegue o curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ) até agora ministrado por videoconferência. Assim, no dia 28 de novembro, foi a vez da 4.ª sessão sobre «Egiptologia e egiptomania», pelo Prof. Doutor José das Candeias Sales, da Universidade Aberta, e no dia 12 de dezembro a 5.ª sessão sobre «Coleções egípcias em Portugal», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo. Em janeiro próximo decorrerão a 6.ª sessão no sábado dia 9, de novo com o Prof. Doutor José das Candeias Sales sobre «A arquitetura do Antigo Egito» e no sábado, dia 23, a 7.ª sessão sobre «A arte funerária do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Rogério Sousa. Logo que as condições o permitam o curso regressará à modalidade presencial, ou pelo menos a sessões mistas, com assistência e por videoconferência.

Autores, livros e revistas


O Prof. Doutor Paulo Talhadas dos Santos, biólogo do Instituto de Zoologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, ex-dirigente do FAPAS, e também, entre os anos de 1997 e 2001, o orientador dos alunos e licenciados em Biologia durante as Semanas de Estudos Especializados de Ervamoira (Vale do Côa), que decorriam ali durante as férias da Páscoa coordenadas pelo editor desta página, então numa frutuosa cooperação entre aquele instituto, a Universidade Portucalense Infante D. Henrique e o Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, da qual resultaram não apenas alguns conteúdos da exposição do Museu de Sítio de Ervamoira, mas também alguns trabalhos publicados em diversas revistas. Foi ainda autor e coordenador dos textos da especialidade na obra São Salvador do Mundo santuário duriense. Património Natural, Arqueológico e Etnográfico, também coordenada por J. A. Gonçalves Guimarães e levada a cabo em 2007 por uma equipa daquele Gabinete entretanto integrado desde 2004 na Confraria Queirosiana. Entre outras distinções, aquele professor e investigador recebeu a medalha de ouro de Mérito Científico da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Lutando denodadamente contra a doença que o tem vitimado, com o apoio da esposa e do filho, continua a produzir novos livros que vem adicionando à sua basta bibliografia, como é agora o caso de Fauna Exótica invasora em Portugal Continental, Açores e Madeira que acaba de publicar através das Edições Afrontamento. Os seus amigos, alunos e admiradores saúdam o biólogo, o professor, e o companheiro de tantas jornadas de conhecimento e defesa do Património Natural e Ambiental, e também o cidadão que não se deixa abater pela adversidade.


No IV Encontro Nacional de Literaturismo organizado pela União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, que decorreu, desta vez por videoconferência, no passado dia 27 de novembro, foi apresentado o n.º 1 da coleção Cadernos de Literaturismo, intitulado Por variadas terras não andadas, título extraído de um poema do escritor e publicista José Valle de Figueiredo, o grande mentor e animador destes encontros. No interior, entre diversos outros textos, encontram-se os de J. A. Gonçalves Guimarães, «Os biógrafos e os estudos biográficos sobre Eça de Queirós»; de José Augusto Maia Marques, «Ensaio sobre a geografia literária de As Mulheres da Beira de Abel Botelho»; e de José Valle de Figueiredo, «O Descoberto».  

         No passado dia 15 de outubro esteve para ser lançado no salão nobre da Ordem dos Médicos no Porto o álbum de textos e desenhos sobre a sociedade actual e as suas toleimas intitulado Saponárias, da autoria de Jaime Milheiro (autor) e Joaquim Pinto Vieira (ilustrador), editado pela Cordão de Leitura, o qual deveria ter contado com a presença de Manuel Sobrinho Simões, prefaciador, e de Arnaldo Saraiva como convidado especial. Devido ao agravamento da situação da pandemia a sessão foi adiada para data a indicar. Encontrando-se entretanto já à venda, a obra está a despertar enorme interesse entre aqueles que já a conhecem, não só por ser completamente diferente na forma dos livros habitualmente publicados pelo autor, mas também pelo facto da musicalidade dos seus versos ter sugerido o seu aproveitamento como libreto operático do nosso tempo trágico-cómico.


Nesta época natalícia, recordemos também aqui com os nossos leitores nos EUA, a encantadora edição de 2015 da Tagus Press, o departamento da Universidade de Massachusetts Dartmouth Center for Portuguese Studies and Culture, da tradução para inglês do conto S. Cristóvão de Eça de Queirós, nove anos após a edição em português da Confraria, ali apresentada como  Saint Christopher «uma narrativa muito mais importante nos dias de hoje quando reflexões sobre religião, hipocrisia e justiça social são mais urgentes do que o eram quando a obra apareceu em 1912». Que o digam os cidadãos dos EUA, que acabam de se livrar de um presidente que, com certeza, nunca leu este conto. Tradução de Gregory Rabassa, professor emérito de Línguas e Literaturas Hispânicas no Queens College e na The Graduate School, Cuny (Nova Iorque, EUA) e Earl E. Fitz, professor de Português, Espanhol e Literatura Comparada na Universidade de Vanderbilt (Nashville, EUA). A edição foi ainda enriquecida com palavras de apresentação pelo Professor Doutor Carlos Reis, que recentemente se jubilou, apresentando a sua “última aula” na Universidade de Coimbra.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 148, sexta-feira, 25 de dezembro de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; c.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Eça & Outras de novembro 2020

Dia do 175º aniversário natalício de Eça de Queirós

Que futuro para as bibliotecas de papel?

        Há um facto com que no dia-a-dia se deparam os profissionais para quem os livros são ferramentas de trabalho, o qual lhes exige alguma reflexão e adaptação, mas que não está a ser fácil nem cómodo lidar com ele, se não do ponto de vista prático, pelo menos da afetividade. Referimo-nos à transição dos livros e periódicos impressos em papel para os e-books. Como ferramentas de trabalho que ambos são, irão continuar a ser utilizados, mas já se constata a presença em crescendo dos segundos. Não é o juízo final que chega, mas apenas uma mudança de paradigma tecnológico e com ele – supõe-se e deseja-se – mais alguma evolução e felicidade para a Humanidade. Os livros e os periódicos tradicionais passarão à categoria de obra artística de ciência, de literatura, de memória, de arte gráfica. De documento histórico. Como tal serão guardados, preservados, lidos, estudados, transmitidos e, agora, digitalizados. Através deste recente processo serão também salvos de destruições e disponibilizados, não só alguns raríssimos textos, cópias únicas, manuscritos, como aqueles que só existem em sistemas de cópia não convencional, reproduzidos através de vários processos químicos, mecânicos ou fotoquímicos para leitura imediata e pouco preocupada com a sua utilidade futura, aqueles a que os bibliotecários chamam “literatura cinzenta”, que a prazo desapareceriam por degradação do suporte ou do pigmento, como no caso de tantos deles produzidos no Maio de 1968 em Paris ou em Portugal no antes e pós 25 de Abril. E tantos deles com surpreendente clarividência para além do seu momento.

Desde 1439 quando Gutenberg redescobriu (ou introduziu) no Ocidente a impressão por carateres móveis, já existente na China desde o final do século VII, que esta tecnologia veio substituir a morosidade da cópia manual sobre base de pergaminho ou papiro pelo papel, que não assistíamos a uma mudança tão profunda na divulgação de textos e imagens. Desde então, e sem se precisarmos de ser um Jacinto, todos aqueles que trabalham com livros já passaram por complicadas situações, com as nossas casas ou apartamentos acossados por uma «…invasão dos livros… solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos c repletos de autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, [que] perpetuamente, torrencialmente, [as] invadiam por todas as largas portas… onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar! … Não se abria um armário sem que. de dentro, se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina sem que detrás surgisse, hirta, uma rima de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente. de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda coleção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet! (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras).

Agora que este cenário está em fase de se alterar, não vale a pena ignorá-lo nem carpir saudades escusadas: a atual geração escolar já só ocasionalmente lê livros e revistas em papel e não vai querer ficar com a biblioteca do avô, não só pelo espaço que esta ocupa e o peso que os livros têm (são feitos de madeira!), mas sobretudo pelos títulos e autores ali reunidos esquecendo que, tal como ele, as ciências envelhecem e os gostos literários mudam de geração para geração. Claro que haverá sempre os “clássicos”, a que outros, com o tempo, se irão juntando. Mesmo as bibliotecas públicas já têm sérios problemas de espaço e de funcionamento: as que têm depósito legal – pensado numa época em que havia pouca atividade editora, mas agora muito atrasado devido à explosão editorial das últimas décadas – ao terem de guardar “tudo” o que se publica, encheram as prateleiras de montanhas de textos irrelevantes. Mas também nas bibliotecas que compram os livros se verificam aquisições de autores promovidos por operações de marketing que os vendem como quem promove sabonetes, e que, com certeza, muitos deles não ficarão para a posteridade como obras de referência. Em última análise, só o tempo ditará a utilidade futura destes livros, mas é possível, com alguma atenção e diálogo, ir tendo uma percepção da qualidade dos que se editam. Esperemos, contudo, que tal não volte a ser função de qualquer aparelho de censura ou de comité de iluminados, como já existe no conselho nacional de leitura que tem recomendado aos educadores e aos jovens estudantes alguns livros aborrecidíssimos protegidos por lobbies de bem pensantes. É que, entretanto, outras formas de comunicação se foram desenvolvendo, muito mais gráficas, sonoras e interactivas, que são outras formas de “escrita” tão válidas como as do velho abecedário e das línguas comuns. Já comunicamos pela linguagem do cosmos, só que ainda à procura dos seus cânones e das suas academias.

Posto isto, e quando nos dias de hoje passou a ser vulgar encontrar bibliotecas no lixo, que fazer com os livros em papel que temos em casa e que já não vamos ler ou reler? O mais decente é partilhá-los graciosamente, pois sempre haverá quem os queira ler e guardar. E doemos as edições raras das obras eternas que porventura tenhamos a instituições dirigidas por gente que saiba de que é que estamos a falar. Às outras não vale a pena, pois não distinguem aquilo que tem marcas de perenidade dos fogachos editoriais da moda baseados em falaciosas ideias de igualitarismos tolos.

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Aniversário de Eça de Queirós

 

Todos os anos, desde 2003, que  a Confraria Queirosiana realiza o seu capítulo anual no Solar Condes de Resende no sábado anterior ao dia 25 de novembro, dia natalício do escritor. Este ano, devido às restrições sanitárias provocadas pela pandemia, foi o mesmo substituído por uma sessão evocativa por videoconferência evocativa do 175.º aniversário de Eça de Queirós que ocorreu no passado sábado, dia 21 de novembro entre as 15 e as 17 horas. A abertura da sessão foi feita pelo presidente da direção José Manuel Tedim que saudou os sócios e confrades que acederam à plataforma um uso, referindo a adaptação das tarefas realizadas n presente ano à presente conjuntura sanitária. Seguiu-se o presidente da mesa da assembleia geral, César Oliveira, que recordou os confrades falecidos em 2020. A Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas também se fez representar através da sua presidente Olga Cavaleiro que saudou a Confraria queirosiana e as suas acções em prol da Cultura Portuguesa. De seguida foi passado um videofilme do capítulo de 2019 e a apresentação da Revista de Portugal, n.º 17, pelo seu diretor Luís Manuel de Araújo. «A Confraria Queirosiana e a divulgação da vida, obra e época de Eça de Queirós» foi o tema escolhido por J. A. Gonçalves Guimarães para apresentar nesta primeira sessão, dando a conhecer o que a agremiação tem feito nesta área. Após a saudação por parte de alguns outros sócios, a sessão encerrou à hora prevista, após a intervenção da vereadora do pelouro da Cultura e da Programação Cultural da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal, também confrade, que salientou o papel da Confraria na promoção da Cultura a nível local, nacional e nas relações luso-brasileiras.

«O Nosso Cônsul Em Havana 

Na passada quinta-feira 19 de novembro estreou em 14 salas de cinemas de todo o pais o filme realizado por Francisco Manso e com Elmano Sancho no papei de Eça de Queirós sobre um dos aspectos menos conhecidos da vida do escritor: o de defensor dos Direitos Humanos enquanto Cônsul Português em Cuba. Em O Nosso Cônsul em Havana, «numa mistura de ação, drama, romance e até um toque de comédia, o filme acompanha a chegada de Eça a Havana e o desfilar de personagens com quem convive, desde as mais altas eminências políticas a fazendeiros e grandes proprietários, às mulheres por quem se apaixonou e aos inimigos que fez no Casino de Havana e noutros palcos de jogo e de posições geopolíticas».

Comemorações também na Póvoa de Varzim

          Para além da Confraria Queirosiana, também outras entidades comemoram os 175 anos do nascimento de Eça de Queirós. Assim hoje, dia 25 de novembro, a autarquia poveira através da Companhia Poveira Nós da Dança, em residência artística na Casa Eça, inicia a temporada 2020/2021, em parceria com o Quorum Ballet, com um programa com palavras, música, teatro e dança, tendo como base a obra literária do escritor, concretamente a peça coreográfica «À Mesa com Eça» apresentada no palco da Casa Eça que será, a partir de agora, o palco para residências artísticas de escritores, bailarinos e coreógrafos, assim como um espaço para pequenos eventos culturais.

Curso sobre o Antigo Egito

          Prossegue entretanto, a partir do Solar Condes de Resende, o curso sobre o Antigo Egito, o qual, devido às restrições de circulação devido à pandemia tem sido ministrado por videoconferência. Assim, no passado dia 31 de outubro decorreu a 2.ª sessão sobre «O mar Mediterrâneo na Antiguidade», pelo Prof. Doutor José Varandas da FLUL; no sábado 3 de novembro, a 3.ª sessão versou sobre «A longa história da civilização egípcia», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo também da FLUL; no próximo dia 28 decorrerá a 4.ª sessão sobre «Egiptologia e egiptomania», pelo Professor Doutor José das Candeias Sales, da Universidade Aberta. No próximo mês de dezembro a 5.ª sessão decorrerá no dia 12, sobre a «Escrita hieroglífica e outras escritas do Antigo Egito», de novo pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo.

          O curso prosseguirá no próximo mês de janeiro conforme o calendário previsto e com algumas sessões presenciais logo que as condições o permitam.

Louvor público

Professor Dr. Manuel Filipe Dias Tavares

O conselho pedagógico do Agrupamento de Escolas Diogo de Macedo aprovou por unanimidade um voto de louvor ao professor Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa, no momento em que cessou funções como docente nesta unidade escolar de Vila Nova de Gaia. Tendo sido presidente da Comissão Instaladora da Escola Secundária de Olival, mais tarde Escola Secundária Diogo de Macedo, hoje sede do agrupamento com o mesmo nome, desempenhou funções de presidente do conselho directivo, assessor da direcção, representante do grupo de História, coordenador do secretariado dos exames nacionais, diretor da Galeria de Arte Diogo de Macedo, coordenador da equipa do jornal Face ao Douro, tendo participado em inúmeros grupos de trabalho, sempre com «enorme rigor, responsabilidade. dedicação, competência profissional e verdadeiro sentido de serviço à escola pública». procurando que a instituição onde leccionou fosse um factor de desenvolvimento da região, tendo conseguido «estabelecer inúmeras parcerias com os agentes locais e municipais, tanto no domínio cultural como social. As qualidades pessoais e profissionais no exercício das suas funções constituem uma referência para toda a comunidade escolar», conforme se pode ler no Louvor da Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares publicado no Diário da República, 2.ª série Parte C, n.º 211 de 29 de outubro de 2020, p. 65. O louvado é presidente do conselho fiscal da ASCR – Confraria Queirosiana.

Autores, livros e revistas

Todos os anos, desde 2004, que no capítulo anual da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana que se realiza na Casa Queirosiana Internacional de Vila Nova de Gaia, no sábado anterior ou no dia 25 de novembro, dia natalício de Eça de Queirós, a apresentação publica de um novo número da Revista de Portugal, fundada em 1892 por aquele escritor. Este ano, pelos motivos conhecidos e de acordo com as leis sanitárias em vigor, não se realiza aquela cerimónia, mas apenas uma videoconferência para todos os seus sócios e confrades, durante a qual o seu diretor, o egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo fará a apresentação do número 17 desta nova série. A capa apresenta um colorido diploma de medalha de ouro alcançada na Exposition Internacionale du Progres au Caire, de 1895, quando o Egito ainda estava integrado no Império Otomano, curiosamente atribuída a uma empresa portuguesa que produzia e exportava vinho do Porto. O documento encontra-se no Arquivo Histórico Adriano Ramos Pinto, em Vila Nova de Gaia, tendo sido cedido pela empresa para esta capa. A contracapa apresenta o cartaz do curso que decorre no Solar Condes de Resende sobre o Antigo Egito. E, como veremos, não são estas as únicas alusões ao país do Nilo neste número. A revista abre com um editorial de um dos seus directores adjuntos sobre «Nos duzentos anos da Revolução de 1820», a que se segue o In Memoriam dos confrades falecidos no presente ano, Norberto Barroca, Nondina de Castro, António Alberto do Amaral Coutinho Calheiros Lobo e Acácio Edgar Alves Luís, recordados por J. A. Gonçalves Guimarães e Dagoberto Carvalho J.o; segue-se «A legislação sanitária, de Pombal ao Liberalismo» por J. A. Gonçalves Guimarães, um texto sobre o combate às epidemias no período considerado; numa sequência de estudos que hão-de continuar a ser publicados nestas páginas, apresenta-se o primeiro da série «Hotéis Queirosianos. Hotel Lawrence em Sintra» por Maria de Fátima Teixeira, a que se seguem umas «Notas sobre Eça de Queirós em Leiria» por Ricardo Charters-d’Azevedo. Numa entrevista conduzida por José António Afonso ficamos a saber quem foi o poeta «Fernando Morais. As palavras nómadas», colaborador que foi dos primeiros números desta revista, e uma nova réplica  à questão de «O Colmeal da Marofa», motivada pela publicação recente de um livro com inverdades sobre o assunto, por José Pereira da Graça. Relatando uma actividade que se vem fazendo com alguma regularidade com a colaboração da Confraria Queirosiana – as viagens culturais ao Egito e à Palestina na esteira da viagem de Eça de Queirós e do conde de Resende em 1869, aqui se publica uma reportagem da última realizada, «Seguindo os passos de Eça no Egito e Terra Santa» por Mara Verónica Sevinatti . Como habitualmente a revista apresenta a Bibliografia dos sócios e confrades referente ao ano anterior (2019), organizada por Celeste Pinho, e o Relatório de atividades também referente àquele ano, com perspectivas para o mandato dos novos corpos gerentes de 2020 a 2024.

Promovida pelo Grupo Eça da Universidade de São Paulo, acaba de ser editado em ebook de distribuição gratuita (http://ge.fflch.usp.br/livros) a obra A relíquia do mandarim, organizada por Ana Marcia Alves Siqueira e José Carlos Siqueira de Souza e editada no Rio de Janeiro pela Oficina Raquel. Entre os vinte e três autores de outros tantos textos sobre a epígrafe do volume, encontram-se os textos dos portugueses Carlos Reis, «Eça de Queiroz e a epistemologia do olhar», e Isabel Pires de Lima, «A relíquia no pincel de Paula Rego: género e poder».

      Entretanto no site Queirosiana.wordpress.com o Professor Doutor Carlos Reis continua a publicar textos essenciais sobre a vida e obra do escritor, nomeadamente e em tempos recentes «Carlos da Maia: o fracasso de uma geração» (7 de novembro) e «Eça de Queirós e o Direito» (15 de novembro).

 

        Entre os dias 18 e 22 de novembro, com abertura no Museu Arqueológico do Carmo em Lisboa, sessões na Faculdade de Letras da Universidade do Porto entre 19 e 21, e visita ao Castro de Monte Mozinho em Penafiel no dia 22, decorreu o III Congresso de Arqueologia da Associação dos Arqueólogos Portugueses, no qual participaram diversos arqueólogos do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR- Confraria Queirosiana (ainda que também em representação de outras instituições). António Manuel S. P. Silva, em colaboração com outros, apresentou as seguintes comunicações: «São Julião da Branca (Albergaria-a-Velha) – Investigação e valorização de um povoado do Bronze Final»; «O castro de Ovil (Espinho), um quarto de século de investigação – resultados e questões em aberto»; «O Castro de Salreu (Estarreja), um povoado proto-histórico no litoral do Entre Douro e Vouga»; «O Castro do Muro (Vandoma/Baltar, Paredes) – notas para uma biografia de ocupação da Idade do Bronze à Idade Média»: Laura Sousa, também em colaboração, apresentou «A Necrópole Romana do Eirô, Duas Igrejas (Penafiel): intervenção arqueológica de 2016»; Joaquim Filipe Ramos, «Cerâmicas e Vidros da Antiguidade Tardia do Edifício sob a Igreja do Bom Jesus (Vila Nova de Gaia)»

          Entretanto, as respectivas atas, num total de 2138 páginas e sob o título Arqueologia em Portugal 2020 - Estado da Questão, publicadas em colaboração com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o CITCEM - Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» e outras entidades, encontram-se disponíveis em museuarqueologicodocarmo.pt/publicações/III_congresso_actas/ Actas_IIICAAP_completo.pdf

          Contêm as subsecções: 1. Historiografia e Teoria; 2. Gestão, Valorização e Salvaguarda do Património; 3. Didáctica da Arqueologia; 4. Arte Rupestre; 5. Pré-História; 6. Proto-História; 7. Antiguidade Clássica e Tardia; 8. Época Medieval; 9. Época Moderna e Contemporânea.

O Eng.º Manuel Hipólito Almeida dos Santos, presidente da Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos (O.V.A.R.), acaba de publicar um livro sobre as prisões, sob o formato de ebook, disponível no link https;//www. Leyaonline.com/pt/livros/historia-e-politica/política/a-abolicao-das-prisoes-ebook, intitulado A Abolição das Prisões. Contributo para Acabar com uma Crueldade. Militante indefectível da obra de misericórdia que é o visitar os presos, esta sua humana experiência de muitos anos transformou-o num especialista sobre este candente problema da humanização da nossa sociedade. São suas as seguintes palavras: «A vivência dentro das prisões é geradora de sentimentos de frustração, desânimo e revolta, tendo em conta estarmos em presença de situações cruéis, desumanas e degradantes, sem que se vislumbre sentido útil na finalidade da sua existência, quer para os reclusos, quer para quem lá trabalha. As prisões são fonte de conflitos sociais e familiares, envolvendo reclusos e funcionários prisionais. As prisões não ressocializam nem promovem a paz social. Somente alimentam o desejo de vingança das vítimas e dalguma opinião pública, não tendo efeito relevante no ressarcimento dos danos dos crimes. Além de que promovem o sensacionalismo primitivista que alimenta certos órgãos de comunicação social. A convicção de que essa desumanidade, provocadora de penas e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, proibidas por tratados e convenções internacionais, não pode continuar a existir nem é passível de correcção, aliada à ineficácia e fracasso do modelo penitenciário existente no mundo ocidental há pouco mais de 200 anos, não tem outro caminho que não seja a sua abolição. Tal constatação é reforçada pelo contributo retirado das bases filosóficas das maiores religiões professadas no mundo, que assentam nos pilares do perdão e da misericórdia e não na vingança, tendo em conta a imperfeição do ser humano e a sua condição de potencial pecador. A alternativa passa pela assunção da prevenção da prática de atos anti-sociais como a via exclusiva e prioritária a implementar, complementada com o novo modelo de justiça preventiva que tem vindo a ser instaurado em vários países, deixando de se aplicar penas de privação da liberdade».

Entretanto este autor, com 40 anos de experiência de visitas regulares a prisioneiros, concedeu uma entrevista à jornalista Joana Gorjão Henriques do jornal Público no passado dia 16 de novembro sob o título «A luta pelo fim da escravatura foi grande. Temos de fazer igual para as prisões», que em 2021 gastarão 300 milhões do orçamento do estado, em que 80% dos reclusos o são por assuntos relacionados com o tráfico e consumo de drogas, e em que as taxas de ressocialização dos mesmos são incrivelmente baixas, segundo dados que ali apresentou. O autor pretende com a sua acção e o seu livro colocar este assunto na agenda nacional dos cidadãos para que se vão encontrando soluções para a resolução deste grave problema humano. 


No passado dia 19 de novembro o psiquiatra e psicanalista Dr. Jaime Milheiro participou numa mesa redonda na Fundação Fernando Pessoa para lançamento do seu novo outro livro Ensaio Sobre os Humanos..., a qual teve a presença, além de outros académicos, do Professor Doutor Salvato Trigo para quem esta obra «suscita, sem dúvida, uma profunda reflexão cultural e uma interpelação ética essencial sobre a nossa condição de primatas evoluídos, construídas sobre alicerces científicos muito sólidos, aqui bem decantados pela vida profissional e cidadã do seu autor, cuja riqueza lhe permitiu transformar o conhecimento em sabedoria, isto é, em saber com ressonância e com gosto, temperado por uma ciência com consciência, pois aquela sem esta não passa de urna dor de alma, como disse o canónico François Rabelais!» O evento foi transmitido em direto no canal Youtube da UFP.

Prémio Literário

          Francisco José Viegas foi recentemente agraciado com o prémio literário Fernando Namora, no valor de 15.000 euros, promovido pela Porto Editora, e que distinguiu o seu romance A Luz de Pequim publicado em 2019. Como vem sendo constante na sua obra, o protagonista é o ficcional Jaime Ramos, inspector da Polícia Judiciária em fim de carreira, dividido entre o crime internacional e as reflecções sobre o quotidiano para o comum dos mortais. Sem dúvida uma personagem da Literatura portuguesa Contemporânea

 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 147, quarta-feira, 25 de novembro de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; c.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.