sábado, 25 de julho de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 215, sábado, 25 de julho de 2026


                                    Prof. Doutor Paulo Tallhadas dos Santos; arquivo ASCR-CQ


O biólogo Paulo Talhadas dos Santos

Na rotina quotidiana de ler os e-mails, no passado dia 25 de junho recebi um inesperado do caríssimo amigo Paulo Talhadas dos Santos, professor de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, militante da divulgação e defesa da natureza e da biodiversidade e por isso ex-dirigente do FAPAS, mas também, e para honra minha, o coordenador dos biólogos das Semanas de Estudos Especializados que organizei no Museu de Sítio de Ervamoira, Vale do Côa, nas quais esteve entre 1997 e 2002, tendo ainda a sua colaboração na organização da equipa que dirigi no estudo de São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira, como assinalei no livro que sobre tal publicamos em 2007. Tal como o programa anterior, ambos foram organizados pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, entretanto integrado na Confraria Queirosiana, da qual Talhadas dos Santos viria a ser em 2003 o associado-fundador número 10. Já então uma insidiosa e inesperada doença neurológica o atacava de forma irreversível, não logrando, porém, vencê-lo no carácter e na mente que continuaram ativas e despertas até há poucos dias atrás quando faleceu a 10 de julho passado. Devido à sua doença os nossos contatos foram-se espaçando na prática dos dias, mas não na consideração e nos meus agradecimentos pela persistente e desinteressada colaboração em vários projetos no Douro e em Gaia. A última vez que estivemos fisicamente juntos foi há anos atrás no Auditório Municipal de Gaia, quando a câmara local lhe atribuiu a medalha de ouro por mérito profissional. Disfarcei a comoção como pude e falamos dos dias de trabalhos passados enquanto a patrimonióloga Maria de Fátima Teixeira, que nos acompanhou ativamente naquelas andanças, se afastou comovida e incapaz de disfarçar a dor e a revolta contra a injustiça da vida que tantas vezes se abate sobre pessoas boas e úteis, como é o caso.

Paulo Talhadas dos Santos nasceu em Nova Lisboa, Angola e veio para Portugal em 1975, tendo-se matriculado no curso de Biologia na faculdade onde se doutorou na especialidade de Ecologia Animal e onde viria a ser professor, lecionando ecologia marinha, biologia da conservação, gestão e conservação dos recursos naturas, biodiversidade e educação ambiental. Foi também investigador em biologia marinha e estuarina do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, membro do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, do Colégio do Ambiente da Ordem dos Biólogos e presidente do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS). Foi ainda comentador de programas de temas ambientais na RTP2 nos anos 90 e colunista no Jornal de Notícias e outros periódicos em tempos mais recentes, para além dos trabalhos científicos que publicou e da edição e promoção de diversos guias da natureza que promoveu.

Àquele e-mail de 25 de junho seguiu-se um outro a 1 de julho que me trouxe três preciosos textos sobre o que foi a sua experiência em Ervamoira, em tempos postados na sua página da Internet «Armazém de Baús»: “Ervamoira”, 01.08.2019; “Espargos silvestres”, 03.07.2021; e “Pergaminhos e outros escritos”, 02.02.2026, que contam com algum pormenor o que foram os trabalhos daquelas semanas e a sua relação com a paisagem, as pessoas e as circunstâncias. Muitos dos trabalhos científicos então produzidos por alguns dos membros da equipa seus ex-alunos estão dispersos por atas de encontros científicos, diversos volumes temáticos e publicações periódicas da época ou mesmo posteriores, tendo chegado a planearmos a edição de um livro sobre as diversas áreas de produção científica dos 20 anos de trabalhos em Ervamoira (1984-2004) que estiveram sob a minha responsabilidade, cabendo-me as áreas de arqueologia, história, antropologia e património; às minhas ex-alunas Felicidade Ferreira a molinologia e a Carla Pinto a cerâmica tradicional; a Paulo Rocha a geologia e a geomorfologia; a Paulo Alves a botânica; a Paulo Talhadas dos Santos a zoologia (mamíferos, aves, répteis e anfíbios); a Grosso-Silva a entomologia e, obviamente, a João Nicolau de Almeida a vitivinicultura e enologia locais. Recordo que na área inicial da Quinta da Ervamoira não existiam quaisquer gravuras e os poucos vestígios pré-históricos que encontramos nas nossas escavações eram muito incipientes, talvez por se tratar de uma das áreas mais amplas e planas de todo o Vale do Côa.

Como atrás deixei expresso tive ainda a sua colaboração em vários outros projetos que, de certo modo, decorreram da experiência daquelas semanas, certamente pioneiras na região e talvez no panorama científico nacional, onde a prática comum era então cada universidade e curso estarem fechados sobre si próprios. A partir do abundante espólio osteológico animal exumado na estação arqueológica de Ervamoira chegamos a perspetivar a possibilidade de criação no seu departamento de um laboratório de Zooarqueologia, mas que não chegou a concretizar. Devido a todas estas colaborações e cumplicidades, em maio de 2000, como responsável pelo mestrado em Ambiente na sua faculdade e sendo eu professor no curso de ciências históricas-ramo Património na Universidade Portucalense, onde lecionava «Estudo e valorização do Património Natural», convidou-me para dar uma aula aos seus alunos sobre «A interação do Património Natural com os outros Patrimónios».

De há muito que observo que vários amigos me visitam ou contactam poucos dias antes de morrerem, às vezes apenas para, sem o saberem, mais um último abraço, outras para um último recado sobre o que está pendente, outras a legarem-me uma última tarefa que já não poderão executar. Procuro ser digno de tamanha confiança e por isso também tomei os textos que Talhadas dos Santos me enviou nos seus últimos dias de vida como uma passagem de testemunho de três pérolas de um legado comum em que, com alguns outros, fomos por várias épocas felizes na busca do conhecimento. Com ele, «na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte se assemelhassem» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras). O biólogo Talhadas dos Santos permanecerá entre nós como um trevo de cinco folhas.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador

 

A ASCR-CQ organiza e promove…

02 de julho – prosseguem as habituais palestras das primeiras quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende organizadas pela Confraria Queirosiana, desta feita assinalando os 50 anos da Constituição de 1976, o Prof. Doutor Adrião Cunha fez uma palestra sobre as Constituições Portuguesas.


A ASCR-CQ esteve em…

06 de julho -  J. A. Gonçalves Guimarães, coordenador do Gabinete de História, Arqueologia e Património esteve no Colégio de Nossa Senhora da Bonança, Vila Nova de Gaia, uma  formação de professores em que dissertou sobre «Identidade Gaiense», tema a que se vem dedicando.

 

         J. A. Gonçalves Guimarães, Paula Carvalhal e Manuel de Novaes Cabral; arquivo ASCR-CQ


14 de julho – a convite de Manuel de Novaes Cabral, Cônsul Honorário da França no Porto, escritor e confrade queirosiano de honra, que organizou a comemoração do Dia Nacional da França no Liceu Internacional Francês do Porto, o presidente da Confraria Queirosiana, J.A. Gonçalves Guimarães, aí conviveu com diversos confrades e outros convidados também presentes, entre eles a Eng. Paula Carvalhal, da Fundação Eça de Queirós e o Senhor Madath A.  Jamal, Cônsul Honorário da Tunísia e da Associação do Corpo Consular do Porto para colaboração futura.

15 de julho – pela primeira vez desde 1975 que o presidente da direção da ASCR-Confraria Queirosiana se encontrou num restaurante em Caxarias, Ourém, com os seus antigos camaradas de armas da Companhia de Artilharia que esteve aquartelada em Chipera. Moçambique, nos finais da Última Guerra Colonial Portuguesa, o que já relembrou no artigo «Documentos pessoais em volta do 25 de Abril de 1974, com um abraço a Salgueiro Maia» publicado na Revista de Portugal, nº 21 de 2024, que na ocasião distribuiu pelos presentes. Entre vários deles foi abordada a situação associativa dos antigos combatentes, a publicação das suas memórias e a sua relação com os países onde prestaram serviço, neste caso, Moçambique. Novo encontro ficou marcado para setembro.

 

        J. A. Gonçalves Guimarães, o realizador Francisco Manso e Maria de Fátima Teixeira; 
            arquivo ASCR-CQ


21 de julho – a convite de Francisco Manso Filmes & Audiovisuais, realizador, produtor e  nosso confrade honorário, a Confraria Queirosiana esteve presente no Cinemax em Penafiel, na antestreia da sua mais recente realização, o telefilme "Correr o Fado", baseado no conto homónimo da autoria do nosso confrade de honra e escritor Dr. Alberto S Santos, atual Secretário de Estado da Cultura, que esteve presente, bem assim como o Dr. José Fragoso, diretor de programas da RTP1, que exibirá esta sua coprodução no próximo dia 27 de julho, segunda feira, no horário da noite. Presentes também muitos dos atores, técnicos e outros patrocinadores desta belíssima adaptação cinematográfica de um tema de profundas raízes portuguesas.

 

                                    Professores Nuno Resende e Mário Barroca; arquivo ASCR-CQ

23 de julho - a ASCR-CQ esteve presente na abertura da exposição «Portugal Triste/ Sad Portugal» composta por «fotografias amadoras e vernaculares da Coleção Nuno Resende: uma revisitação da imagem de Portugal (1850-1980), de que foi curador este professor da FLUP e nosso confrade, a qual estará patente ao público até 9 de outubro na Casa dos Livros (Palacete Burmester) da Universidade do Porto, ao Campo Alegre.

 

24 de julho, pelas 18 horas, na Livraria Sá da Costa, ao Chiado, em Lisboa, o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo e vice-presidente da ASCR-CQ, fez uma palestra sobre o novo e espetacular Grande Museu Egípcio, em Guiza, no Cairo, recentemente visitado nas suas últimas viagens de estudo ao roteiro queirosiano da Egito.


Distinções


                                            Professor Doutor Guilherme d’ Oliveira Martins

A 20 de julho passado, no Palácio de Belém em Lisboa, o Presidente da República António José Seguro, conferiu posse como Chanceler das Ordens Honoríficas Portuguesas ao Professor Doutor Guilherme d’ Oliveira Martins, docente da Universidade Lusíada, Lisboa e nosso confrade honorário, em conjunto com mais duas outras personalidades.

 

Publicações…


No passado dia 27 de junho, a memória da poetisa Florbela Espanca (1894-1930) ficou para sempre eternizada no Forte de São João da Foz no Porto, fortaleza onde ela viveu durante um dos seus efémeros casamentos. através do lançamento do livro Um amor de Flor Bela: Florbela Espanca e Luiz Maria Cabral, da autoria do nosso confrade de honra Manuel de Novaes Cabral, ali apresentado pelo confrade Joaquim Pinto da Silva, em representação de “O Progresso da Foz”, e pela confrade Professora Doutora Isabel Pires de Lima. Se há livros que não se medem pela sua dimensão mas pelo interesse do seu conteúdo, este é um deles, tendo sabido o autor contornar muito bem o que interessa sobre a biografia e a obra do poetisa do amor em chama viva e o inultrapassável gosto de estar a coletar memórias escritas, documentais, orais e fotográficas sobre um seu familiar, em todo o caso um homem singular, pois foi médico, profissão que nunca exerceu, músico e compositor de mérito, que viveu de rendimentos e deixou duas filhas de uma discreta vizinha, vivendo uma serena vida dupla até que a morte o surpreendeu, deixando rastos em alguns sonetos da flor bela de uja vida foi um meteoro.

Apos o lançamento do livro, e por iniciativa organizada pelo Instituto da Defesa Nacional (IDN) e pela associação “O Progresso da Foz”, integrada nas comemorações dos 50 anos daquele instituto, foi colocada numa das paredes uma lápide comemorativa de homenagem á poetisa alentejana ali em tempos residente.

 



O livro "Juntos e Justos: Construindo a Educação Inclusiva" de David Rodrigues, depois de ter sido editado no Brasil pela editora "Diálogos" foi editado em Portugal pela editora da Pró-Inclusão e lançado no 9º Congresso Internacional da Pró-Inclusão que realizou nos dias 23, 24 e 25 de julho na Universidade Lusófona de Lisboa e onde o autor foi um dos oradores convidados.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 215, sábado, 25 julho de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Joaquim Pinto da Silva, Luís Manuel de Araújo.