terça-feira, 25 de maio de 2021

Eça & Outras

As memórias de guerra

Fui recentemente visitar um amigo de longa data no seu retiro geresiano, que me informou que estava a escrever as suas memórias do tempo em que esteve na Última Guerra Colonial e dos acontecimentos que nela viveu, muitos dos quais dolorosos e que ainda hoje o atormentam. Homem generoso e sensível, confidenciou-me que, tal como acontece com muitos outros que por lá passaram, não tem sido fácil viver com este peso. O passar ao papel essas más recordações, acompanhado de um permanente exercício de reflexão sobre elas e o seu enquadramento num determinado contexto de guerra, tem-lhe proporcionado algum alívio. Outros têm preferido negar, tentando esquecer ou tentando apagar, sem o conseguirem. É conhecido que, com a liberdade de expressão e divulgação que o 25 de Abril proporcionou, o afã memorialístico dos antigos combatentes tem produzido um número infindável de livros, uns ficcionados, outros testemunhos escritos, e também em gravações sonoras e de imagens, coleções de memorabília, algumas delas com objetos macabros ou, no mínimo, insólitos, outros etnográficos, além de outros perigosos, como armas ou munições e outra militária, representativos desses catorze anos de guerra em cinco frentes: Estado Português da Índia, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste. Se é certo que muitos escrevem, e até publicam, essas memórias absolutamente pessoais, mas também colectivas, pois a guerra tocou a todos de uma forma ou de outra, a sua qualidade é muito variável, pois depende da capacidade de escrita do autor, das situações que viveu ou que observou e da compreensão que sobre elas teve ou tem agora no ato de as passar ao papel ou a outro suporte. Recordemos que durante as comissões de serviço uma das tarefas que minoravam o distanciamento era a prática, às vezes diária, da correspondência com a namorada ou a madrinha de guerra, os pais, outros familiares ou amigos distantes. Por isso muitos dos combatentes produziram então, cada um à sua conta, centenas de cartas e de aerogramas, hoje fontes inesgotáveis de memórias, quando guardados. Em alguns casos já publicados em livro, como por exemplo, Morto por te ver. Cartas de um soldado à namorada (Angola, 1967-1969), de Cesário Costa, Porto: Edições Afrontamento, 2007.

Se este afã publicista é legítimo e até compreensível, recordemos que, noutro contexto, sobre ele escreveu Eça de Queirós: «Eis aí uma maneira de perpetuar as ideias de um homem que eu afoitamente aprovo – publicar-lhe a correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem – que o valor das ideias (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes), ou seja, que a publicação das correspondências deveria ser adiada para depois da ausência viva dos correspondentes. Mas neste caso dos antigos combatentes a urgência tem-se entendido como uma necessidade de aclarar uma discussão que continua em aberto sobre a da legitimidade e utilidade da Última Guerra Colonial. Voltando a Eça, já ele tinha escrito no século XIX: «Para que temos colónias? E ai de nós que não as teremos por muito tempo! Bem cedo elas nos serão expropriadas por utilidade humana. A Europa pensará que imensos territórios, pelo facto lamentável de pertencerem a Portugal, não devem ficar perpetuamente sequestrados do movimento da civilização; e que tirar as colónias à nossa inércia nacional, é conquistá-las para o progresso universal.» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre). Como é sabido, ninguém entre nós quis saber destas reflexões para nada e, passados cem anos, deu no que deu: mortos, estropiados, inadaptados, retornados e refugiados, e felicidades adiadas. E produção de memórias, como exercício de tentativa da sua compreensão.

          Este tipo de escrita, as memórias pessoais, não é novo, embora ao longo dos tempos tenha assumido formas muito variadas. Mesmo Eça de Queirós (1845-1900) parte das memórias da sua ida ao Próximo Oriente em 1869, foram logo publicadas em janeiro seguinte no jornal Diário de Notícias e, anos mais tarde, num livro com o título de O Egipto. Notas de Viagem, tendo guardado as restantes recordações dessa viagem para as ficcionar no romance A Relíquia. Alguns escritores (e quantos outros que ainda o não são) alimentam diários de bordo da sua própria e imaginada caravela, publicando-os depois de bem revistos e literaturizados. Mas estes textos não são propriamente “memórias”, pois estas pressupõem um certo distanciamento no tempo em relação aos acontecimentos narrados.

          Mas estamos a referir-nos a memórias de guerra, exercício também com alguma tradição entre nós, pelo menos desde as Guerras Napoleónicas, mas quase sempre de publicação demasiado tardia, como é o caso de alguns relatos das campanhas coloniais pós-Ultimatum. Em relação à primeira Grande Guerra, ainda aparecem relatos inéditos, como era o caso das Memórias de um Expedicionário a Moçambique (1917-1919), de José Pereira do Couto Soares, publicadas pela Confraria Queirosiana em 2016, as quais esperaram quase um século para serem divulgadas, ou das memórias da participação no teatro de guerra europeu de Francisco da Silva, enfermeiro hípico na 1.ª Guerra Mundial, escrito por Susana Guimarães a partir de arquivo familiar do dito e publicado na Revista de Portugal n.º 13 também em 2016.

Mas agora a nossa urgência civilizacional reclama que as memórias da guerra se soltem nos nossos dias. Para repouso da mente e da reconciliação com o passado recente em que se unam, ainda que no esconjuro da desgraça, os que foram seus responsáveis como mandantes (alguns ainda vivos), outros protagonistas e outros apenas como espectadores, nomeadamente a maioria das mulheres daqueles tempos. Se alguns há muito que tentaram lavar as mãos, ninguém da minha geração as tem limpas deste assunto. E temos consciência disso. 

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da Confraria Queirosiana


A Confraria Queirosiana brinda à Academia Alagoana de Letras no celebração do Acordo entre as duas instituições; 
foto Maria de Fátima Teixeira

Acordo de Cooperação Luso-Brasileiro

Como foi anunciado na página anterior, no passado dia 12 de maio, via Zoom, foi assinado um acordo de cooperação entre a associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana e a Academia Alagoana de Letras (AAL). Assim, entre as dezanove e as vinte horas (15 e 16 no Brasil), a partir do auditório do Solar Condes de Resende, foi partilhado o seguinte programa, conduzido pelo secretário da direção J. A. Gonçalves Guimarães, acompanhado pelo presidente da direção, José Manuel Tedim, vogais Amélia Cabral, António Pinto Bernardo, e Manuel Moreira; presidente da assembleia geral César Oliveira; do conselho fiscal Fernando Rui Soares; os investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património, Maria de Fátima Teixeira, Licínio Santos e Cristiana Borges, que asseguraram a parte técnica; em representação do Município de Vila Nova de Gaia a vereadora da Cultura e também confrade, Paula Carvalhal. Também presentes, via Zoom, o vice-presidente Luís Manuel de Araújo e o vogal da direção Manuel Nogueira; o presidente do conselho fiscal Manuel Filipe, além de vários outros confrades. Perante uma numerosa delegação da AAL visível no écran do computador, a sessão abriu com uma saudação do seu presidente, Professor Doutor Alberto Rostand Lanverly que salientou a transcendência do momento para ambas as instituições e a Cultura Lusófona, a que se seguiu a leitura do Acordo pelo secretário da AAL, Doutor Diogenes Tenório Júnior, tendo o mesmo sido assinado por ambos os presidentes em cópias previamente cruzadas. Seguidamente proferiu uma saudação o Prof. Doutor José Manuel Tedim, e a Eng.ª Paula Carvalhal em nome do município gaiense.

O momento literário do programa foi anunciado pelo alagoano Dr. Marcelo Malta, também ele confrade queirosiano, que apresentou o jubiloso ator Chico de Assis, que declamou o texto “O Povo” de Eça de Queirós e depois uma composição em verso de Jorge de Lima.

Do lado de Portugal os confrades presentes cantaram o Hino da Confraria (a Rosa Tirana, com versos atuais de António Rua), pela primeira vez apresentado como Hino dos Vencidos da Vida num jantar em casa do Conde de Arnoso, em Lisboa, a 21 de maio de 1889. Desta vez, com acompanhamento ao piano por Maria João Ventura, do grupo cantante Eça Bem Dito, a que se seguiu um brinde aos académicos alagoanos apresentado por César Oliveira com o Porto 20 Anos “Confraria Queirosiana” produzido pela Quinta da Boeira.

A sessão encerrou com as palavras do sócio da AAL, Doutor Carlos Barro Mero, fazendo votos para que a Acordo agora assinado passe a ser um instrumento permanente de união de propósitos culturais entre os dois lados do Atlântico.

Entre outras divulgações a assinatura deste Acordo foi noticiada a 15 de maio nos jornais Gazeta de Alagoas, pelo jornalista Maylson Honorato, com chamada à primeira página, e em O Gaiense, pela jornalista Filipa Júlio.


Alberto Rostand Lanverly, presidente da AAL, exibe o Acordo assinado.

História-Património-Turismo

Pela Academia Eça de Queirós prossegue a preparação do 29.º curso do Solar Condes de Resende a iniciar no próximo mês de Outubro, coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim, desta feita subordinado ao tema “Turismo - História – Património”, o qual decorrerá ao longo de 13 sessões de duas horas cada, em modo presencial e por videoconferência, entre as 15 e as 17 horas. Estão já definidas as áreas a abordar, desde ao origens históricas do Turismo até à sua importância económica, social, cultural e até geopolítica dos dias de hoje, passando pelos “turismos” religioso, literário, militar, hoteleiro, gastronómico, enófilo, musical e outros, abordados por especialistas nas várias matérias, alguns dos quais docentes em vários estabelecimentos do Ensino Superior. Aceitaram já serem professores neste curso, para além dos coordenadores, Nuno Resende e Barros Cardoso da FLUP, Sérgio Veludo Coelho da ESE/IPPorto, e Maria de Fátima Teixeira do GHAP, aguardando-se a confirmação de outros professores convidados.

Livros e Autores

       Estando em curso as comemorações dos 200 anos da Revolução de 24 de Agosto de 1820 que introduziu Portugal na Época Contemporânea, as suas consequências levaram à guerras civis entre liberais e absolutistas que só terminaram com a Convenção de Gramido de 29 de junho de 1847. O momento alto dessas movimentações militares foram efetivamente os sítios à cidade do Porto em 1828, onde se acantonou a revolta militar de Aveiro organizada pelo juiz Teixeira de Queirós, bisavô de Eça de Queirós, e em 1832-1833, o denominado Cerco do Porto, cidade onde se tinha refugiado o exército de D. Pedro, e no qual desempenhou um especial papel estratégico o Mosteiro da Serra do Pilar em Vila Nova de Gaia, baluarte inconquistável encravado nas linhas miguelistas.

          Estes combates foram travados por militares de carreira e milicianos, conscritos, voluntários e mercenários em ambos os lados. Sérgio Veludo Coelho, professor de Património e investigador de História Militar, um dos melhores especialistas desta área e período, acaba de publicar Guerra Civil 1828-1834. Tropas & Uniformes. Porto: Fronteira do Caos, 2021, obra muito ilustrada com gravuras da época, complementadas com desenhos dos uniformes, armas e acessórios, rigorosos do ponto de vista histórico, mas também graficamente muito apelativos nas suas cores, de todos os corpos militares, de oficiais, sargentos e praças e estandartes de ambos os exércitos, também de sua autoria. De entre as ilustrações saliente-se, por geralmente pouco conhecido ou referido, o célebre canhão-obus Paixhans, o “Mata-Malhados”, colocado no cimo do Castelo de Gaia para bombardear o Mosteiro da Serra do Pilar e assim tentar daí desalojar os defensores liberais.

          Uma obra fundamental sobre os protagonistas, dos quais ainda hoje existem descendentes que quererão honrar a memória dos seus antepassados que acreditavam naquilo por que lutaram. Esta obra terá em breve uma edição inglesa.

Prémio das Artes Decorativas

No próximo dia 27 de maio, pelas 17 horas, será entregue pelo Doutor Francisco de Olazabal, no Museu Soares dos Reis, o prémio das Artes Decorativas Dr. Vasco Valente, instituído pelo Círculo Dr. José de Figueiredo, em homenagem ao primeiro diretor da instituição, e desde 2017 patrocinado pela Quinta do Vale Meão (Francisco de Olazabal & Filhos, L.da). O júri da edição de 2019, atribuiu o prémio à Mestre Diana Felícia Pinto, pelo seu trabalho “De Campanis Fundendis – A Fábrica de Fabrico de Sinos de Rio Tinto”.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 153, terça-feira, 25 de maio de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

domingo, 25 de abril de 2021

Eça & Outras

 Humor britânico

A minha geração nunca mais esquecerá as séries de televisão Monthy PythonYes, Prime Minister, ou Mister Bean, as quais materializaram para nós o proverbial humor britânico. Os mais eruditos já tinham lido Three Men on a Boat, de Jerome K. Jerome, divulgado a primeira vez no já distante ano de 1889, quando em Portugal é publicado o livro As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, traduzido por, ou com a revisão de, Eça de Queirós, que lhe acrescenta um incomparável british humour superior ao do texto original. Lembremos aqui, a propósito, o estudo analítico da versão queirosiana por Alan Freeland, publicado na Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, dirigida pelo Professor Carlos Reis.

Tudo isto a propósito do recente passamento do príncipe Filipe, duque de Edimburgo, dono de um notável sentido de humor com aquelas características de sátira, absurdo, autocrítica e inalterável postura, ainda que o mundo desabe à volta, que tão bem definem o humor britânico. E por isso não resisto a contar aqui uma situação em que revelou essa sua faceta entre nós.

A 23 de março de 1985, acompanhando sua mulher a rainha Isabel II de Inglaterra, visitou a cidade do Porto, tendo ambos sido recebidos nos Paços do Concelho pelo presidente da República, general Ramalho Eanes, e pelo presidente da Câmara, eng.º Carlos Brito. Logo aí os discursos de boas vindas enfatizaram os históricos lugares comuns de circunstância: a “velha aliança” entre Portugal e Inglaterra, o casamento de D. João I e da inglesa D. Filipa de Lencastre em 1387, de que depois aqui nasceria o Infante D. Henrique, a Feitoria Inglesa e o vinho do Porto. Seguiram daí para a Feitoria Inglesa, onde outros discursos lembraram de novo a “velha aliança”, o casamento de D. João I e D. Filipa de Lencastre em 1387, o Infante D. Henrique, o vinho do Porto e a própria Feitoria. Dali o cortejo deslocou-se à ribeira do Porto para ser saudado pelos marinheiros de uma corveta da Marinha de Guerra Portuguesa surta no Douro e pelos tripulantes de uma dúzia de barcos velhos, um rebocador, duas traineiras, meia dúzia de embarcações de desporto ou passeata, as que se arranjaram para a ocasião em memória das navegações de outros tempos. As sirenes apitavam, o povo saudava, os canhões lá deram os tiros da praxe, os Mareantes do Rio Douro da outra banda com os seus bombos, a chamarem a atenção para os armazéns de Vila Nova de Gaia. E o povo gritava, saudava e vibrava com a presença do casal real, que seguiu a pé, pisando um escorregadio tapete de flores até à Casa do Infante onde decorreu o almoço. Depois do repasto, os brindes… e de novo… a “aliança”…o casamento de D. Filipa de Lencastre em 1387… o Infante…o vinho do Porto…, tudo isto repetidamente traduzido pelos “línguas” de serviço junto dos régios ouvidos, que com tanta insistência já deviam estar a caminho de decorar estes pilares da eloquência local.

Pelo final da tarde a real visita culminou com uma sessão de cumprimentos no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, com o casal real rodeado pelas autoridades, jornalistas, seguranças e outros habitués nestas coisas. A “guarda de honra” foi feita pelos membros da Confraria do Vinho do Porto, que aliás foram incansáveis na tentativa de dar algum brilho a esta visita. Os representantes das instituições convidadas para apresentarem os seus cumprimentos foram enfiados na Sala dos Retratos e, a partir daí, anunciados um a um com solenidade por um mestre de cerimónias: «vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha Isabel II o senhor fulano de tal em representação da instituição tal…. E por aí fora. Felicíssimos pela distinção, no auge da sua íntima euforia, a maior parte dos cumprimentadores ou não foi elucidada ou esqueceu-se de se informar sobre uma questão agora fundamental: como é que se cumprimenta uma rainha e o príncipe consorte ? E o mestre de cerimónias, com a regularidade do relógio da Sé quando dá horas, lá chamava: «vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha Isabel II o senhor fulano de tal…» que entrava com um rosto sorridente, pescoço esticado e peito inchado no smoking usado nos bailes do Club Portuense já um pouco apertado, avançando com passo firme pela porta de acesso, situação que rapidamente passava a desesperado pânico à medida que deslizava em direção à soberana, príncipe consorte e demais autoridades. Alguns estacavam a meio, olhavam atónitos à sua volta em busca de um ali inexistente manual de etiqueta, começavam a suar frio, mas lá partiam de mão direita em riste para um aperto de mão mole e delicado ou efusivo e agitado, conforme os casos, distribuindo depois réplicas à direita e à esquerda, às vezes com uma pequena vénia ou passo de dança com vénia antes ou depois do cumprimento à rainha. Mas tudo isto muito à vontade do freguês, muito variado. E eis que a dado momento, na lenta sequência protocolar o mestre de cerimónias anuncia: «… vai apresentar os seus cumprimentos a sua majestade a rainha a senhora D. Filipa de Lencastre…». Nesta altura o príncipe Filipe, vendo entrar uma senhora já octogenária, entre o intrigado e o divertido, busca em volta uma possível explicação, exclamando para os circundantes: «mas então ela ainda é viva?». Não, não era a inglesa que em 1387 tinha casado no Porto com o rei D. João I, mas sim uma senhora portuguesa muito mais recente, descendente daquela estirpe real e com o mesmo nome, neste caso a esposa de D. Henrique de Cernache, conde de Campo Bello e bailio da Ordem de Malta também ali presente.

É caso para considerar como escreveu Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra. Crónicas de Londres: «um inglês é sempre excêntrico, mesmo quando é sublime».

J. A. Gonçalves Guimarães

secretário da Confraria Queirosiana

Acordo de Cooperação Luso-Brasileiro

Entre a Confraria Queirosiana e a Academia Alagoana de Letras (AAL) vai ser celebrado um acordo de cooperação previsto por videoconferência para o dia 9 de maio pelas 19 horas (hora portuguesa), que tem como objectivos «promover a cooperação entre as duas instituições com o fim de realizarem conjuntamente actividades destinadas à promoção das culturas portuguesa e brasileira em todos os continentes e, notadamente, nos países lusófonos».

Fundada a 1 de novembro de 1919 a AAL tem a sua sede própria no município de Maceió, Alagoas, sendo o seu corpo social composto por quarenta académicos distribuídos por cadeiras numeradas que evocam alagoanos ilustres, entre os quais o lexicógrafo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira e o ex-presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello. O actual presidente é o engenheiro Alberto Rostand Lanverly.

O contato entre ambas as entidades foi já iniciado no capítulo da Confraria Queirosiana de novembro de 2019, onde foi empossado como confrade o Dr. Marcelo Malta, vice-prefeito de Satuba, Estado de Alagoas. Entretanto os sócios e confrades da Confraria Queirosiana foram convidados a enviarem textos seus para o próximo número da publicação anual daquela academia, tendo sido feito idêntico convite aos seus académicos para colaborarem no próximo número da Revista de Portugal.

Curso livre sobre o Antigo Egito

Com uma aula extra sobre «A escrita hieroglífica egípcia», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e vice-presidente dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (ASCR-CQ), decorreu ontem dia 24 de abril a 14.ª e última sessão do curso sobre o Antigo Egito, organizado pela Academia Eça de Queirós da associação ASCR-CQ, certificado pelo Ministério da Educação, através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente e coordenado por aquele egiptólogo. Com sessões aos sábados entre as 15 e as 17 horas, devido às restrições de presença e circulação impostas pela pandemia, foi quase inteiramente ministrado por videoconferência (à exceção da primeira sessão), o que também permitiu a sua frequência por parte de alunos de Lisboa e outras localidades, ou mesmo do Brasil.

Desde a sessão de abertura, a 17 de outubro, teve como professores J. A. Gonçalves Guimarães (ASCR-CQ) sobre «O que é que Vila Nova de Gaia terá a ver com o (Antigo) Egito?), seguindo-se o Prof. Doutor José Varandas (FLUL), «O Mar Mediterrâneo na Antiguidade» (31 de outubro); Luís Manuel de Araújo (também da Associação de Amizade Portugal-Egito), que além da aula de encerramento, já referida, apresentou ainda «A longa história da civilização egípcia» (14 de novembro); «Coleções egípcias em Portugal» (12 de dezembro); «A viagem de Eça de Queirós e do Conde de Resende ao Egito» (20 de fevereiro); e «O “Livro dos Mortos” do Antigo Egito» (27 de março); o Prof. Doutor José das Candeias Sales (Universidade Aberta) leccionou «Egiptologia e egiptomania» (4.ª sessão); «A arquitetura do Antigo Egito» (9 de janeiro); e «O Antigo Egito no Cinema» (17 de abril); o Prof. Doutor Rogério Sousa (FLUL) sobre «A arte funerária do Antigo Egito» (23 de janeiro) e «Erotismo e sexualidade no antigo Egito» (6 de março); e o Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão (FLUL) sobre «As ciências no Antigo Egito» (6 de fevereiro); e «A literatura do Antigo Egito» (10 de abril), num total de 14 sessões.

O próximo curso, a iniciar em outubro com sessões presenciais e por videoconferência, terá como tema História – Património – Turismo.

Livros e Autores 


Com edição coordenada pela Professora Doutora Annabela Rita e patrocinada por diversos institutos universitários de Lisboa, Madrid, Paris, Roma e Curitiva, foi publicado um volume com a farsa em um acto de Filomena Oliveira e Miguel Real Aproxima-te um pouco de nós e vê. Eça em cena 120 anos depois, seguida de ensaios de Annabela Rita, Fernando Andrade Lemos e outros autores.

Passados dez anos após a primeira edição, Ricardo Charters d’ Azevedo apresenta-nos um novo livro com a revisão do seu curioso estudo intitulado Quem escreveu o Couseiro ?, sobre quem será o autor do curioso texto intitulado «O Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria», cuja primeira versão remonta ao início do século XVII. Nesta revisitação encontra o leitor um capítulo dedicado à análise das propostas de outros autores que entretanto escreveram sobre o assunto na tentativa de desvendarem aquela autoria, seguido de uma atualização do texto original à luz do muito que nestes últimos dez anos se publicou sobre Leiria.

O autor conclui que nunca se saberá ao certo quem escreveu aquele texto, apresentando entretanto aquilo que define como «somente uma teoria, uma boa teoria, julgo eu, que espero que continue a ser comentada e rebatida, para que possamos aprofundar os nossos conhecimentos sobre este assunto».

VII Colóquio Internacional Luso-Brasileiro

         Como referimos na página de março vai realizar-se em Lisboa entre 22 e 27 de novembro este colóquio (que é também o XXIV Colóquio Eça de Queiroz/ Telheiras), o qual terá lugar na Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais (dias 19 e 20), na Escola Secundária António Damásio, Olivais (dia 21), e na Universidade Europeia, Carnide (dia 22 e 23). Com coordenação geral do Dr. Fernando Andrade Lemos, a comissão científica tem como presidente a Professora Doutora Annabela Rita da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Dr.ª Nassalete Miranda do jornal As Artes entre As Letras, entre outros. Nas sessões estão inscritos com comunicação diversos confrades queirosianos. Logo na primeira sessão Alfredo Campos Matos falará sobre «Apresentação da Primeira Versão Francesa da Biografia de Eça, na Gulbenkian de Paris com o título “Vie et oeuvre d’Eça de Queiroz”» e Fernando Andrade Lemos e outros sobre «A “Vessica Piscis” na Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu – Telheiras». No dia 21 falarão o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, vice-presidente da Confraria Queirosiana, sobre «A Coleção Egípcia do Museu Nacional do Rio de Janeiro» e o Dr. César Veloso sobre «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós». No final de cada sessão decorrerá o lançamento de várias obras de autores presentes neste colóquio, o qual serve também para a acreditação de professores. Para inscrição e mais informações ver https://coloquioslusobrasi.wixsite.com/cilb2018  

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 152, domingo, 25 de abril de 2021; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Eça & Outras

Antepassados, vendem-se!

Fui recentemente abordado através do Facebook por um “fornecedor de árvores genealógicas", o qual se ofereceu para me disponibilizar a minha como descendente de D. Pedro e D. Inês e de um arcebispo, pelo menos. Rapidamente percebi que se tratava de um cangalheiro de antepassados que tenta por a “empresa pessoal” a render, obviamente a troco da respectiva gratificação não faturada. Constatei na sua página pessoal do Facebook que tem como habilitações o ter frequentado um determinado externato e que trabalha no Ministério da Justiça! Já conheci vários outros, ou deles ouvi falar, e alguém me disse que este negócio ilegal vai de vento em popa, normalmente exercido por pessoas sem qualquer preparação académica adequada para tal. Aquele que acima refiro, afirmou-me, por escrito, que «…não há possibilidades de ter dados para trás de 1580…pois foi a data a partir da qual se começou a fazer o registo sistemático dos assentos de baptismo, casamento e óbito nas igrejas…», talvez devido ao “vazio social” criado pelo desastre de Alcácer-Quibir, acrescentaria qualquer outro seu “compadre especialista”. Ora, qualquer historiador profissional sabe a origem dos registos paroquiais e que, por exemplo, no Arquivo Distrital do Porto existem registos anteriores àquela data, desde a década de trinta do século XVI. Adiante.

E veio-me à mente o título de uma interessantíssima peça de teatro de Joaquim Paço d'Arcos, Antepassados, vendem-se, à qual, quando jovem, assisti no Teatro Experimental do Porto e que já nessa época me alertou para a questão das genealogias e das inerentes mitomanias. Como historiador, sobre elas tenho a seguinte opinião: as resenhas genealógicas feitas na actualidade devem ser trabalho de investigação historiográfica, pelo que só serão válidas se feitas por profissionais da História a título individual, ou como sócios de empresa ou instituição com investigadores devidamente habilitados. Se feitas por quaisquer outros licenciados, ou nem por isso, nem sequer serão de considerar. Entretanto, muitas das árvores genealógicas feitas no passado por diversos autores têm vindo a ser objecto de rigorosa revisão pelos historiadores e é ver a que conclusões estes chegam. Como é sabido as genealogias baseiam-se, antes de mais, na leitura de documentos, registos paroquiais e outros da mais variada origem, natureza e objetivos, os quais, além de terem de ser bem lidos, paleograficamente falando, terão de ser devidamente enquadrados no seu contexto histórico, pois se assim não for podem dar origem a transcrições e interpretações erradas. Como bem o sabem os profissionais, muitas vezes a fiabilidade de um documento depende não apenas do facto de ser fisicamente verdadeiro, mas também de ter de o ser no seu conteúdo, pois existem documentos autênticos com conteúdos deliberadamente falsos ou, pelo menos, ambíguos. Essa fiabilidade depende também da qualidade intelectual de quem os escreveu: um assento paroquial escrito por um pobre padre-cura de paróquia rural normalmente não tem a mesma qualidade informativa do escrito por um padre doutor. Depois convém cruzar os dados de vários documentos referentes aos mesmos indivíduos, que ora acrescentam ora mudam de nome, e convém saber por quê. Não há muitos registos de crisma. Em todo o caso os historiadores sabem o que dizem os documentos mas não sabem o que se passou no palheiro. O documento garante uma situação social, mas não moral nem biológica. Em todos os tempos houve situações diversas que o "bom nome" adequou às conveniências com a cumplicidade, ou até a ignorância, dos envolvidos. A partir do século XVI, se é certo que passaram a ser sistemáticos os registos paroquiais, alguns deles são, pelo menos, duvidosos e as árvores genealógicas a que podem dar origem poderem estar erradas, ou falseadas. A razão é bem compreensível: entre aldrabar os dados sobre uns avós ou perder a fortuna, ou mesmo a vida, por pertencerem a uma família de judaizantes, protestantes ou outros heterodoxos perseguidos pelos poderes vigentes. Quem tinha dinheiro e tempo para tal, arranjava documentos genealógicos falsos para não ser perseguido ou incomodado. Nesses casos convém perceber que estamos a lidar com informação deliberadamente adulterada. Depois havia também o caso de crianças que nasciam com doze e treze meses: já o pai estava para a Índia há mais de um ano e a mãe "co'as soidades" não havia meio de parir, o que normalmente ocorria noutra terra onde o calendário pessoal não era conhecido. Quanto ao uso de apelidos familiares ou títulos sociais, convém também perceber que tal não era automático nem linear e que, não obstante as tentativas de uniformização ou regulação, tal variou ao longo dos tempos, mas também ao longo da vida do mesmo indivíduo. No meio da variada documentação consultada, só os historiadores conseguem aperceber-se das manobras de ocultação ou de fabrico de mentiras sociais, ou de verdades inconvenientes. A biologia pode ajudar a destrinçar algumas interrogações, através dos estudos de ADN, bem assim como as Ciências Forenses, mas só nos casos em que restos mortais, inequivocamente referenciados, existam. Podem juntar-se alguns estudos epigráficos ou heráldicos, também raros e que carecem sempre de uma boa análise crítica. Por tudo isto, e muito mais, creio ter demonstrado que os estudos genealógicos de qualquer indivíduo ou família são assunto para historiadores profissionais, e não para qualquer pessoa. Como já Eça de Queirós tinha anotado, «em Portugal…todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por Excelência (A Correspondência de Fradique Mendes). É talvez com esta convicção que vemos hoje muitos cidadãos entretidos a colecionar antepassados como quem coleciona cromos, lendo à letra, e muitas vezes a muito má letra, os documentos do passado. E para encontrarem o que até previamente desejam existem sujeitos sem habilitações ou com habilitações impróprias e inadequadas a ganharem dinheiro com essa actividade, nomeadamente até para obterem benesses públicas concedidas por determinada legislação de exceção. Aqui o Estado esqueceu-se de obrigar à «clara certidão da verdade» certificada por tem autoridade para tal. Por tudo isto convém repetir, para quem estiver interessado, que as árvores genealógicas só têm credibilidade e aceitação se forem feitas por profissionais habilitados e competentes, pois de outro modo não servem rigorosamente para nada, historiograficamente falando. E assim como nos dias de hoje não é ginecologista quem quer, também o não é quem se diz genealogista. E mesmo as árvores genealógicas credíveis nem sempre são fáceis ou conclusivas: veja-se, por exemplo, a de Fernão de Magalhães, que tem dado origem a inúmeros candidatos a "descendentes". A História social conhece muito bem estes fenómenos de mitomanias pessoais, familiares ou coletivas.

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da Confraria Queirosiana


Eça de Queirós e o Vinho Verde

       No passado dia 17 de março, na 7.ª sessão da 2.ª temporada de apresentação de vinhos de Confrades, realizada através da Plataforma Zoom e organizada pela Confraria do Vinho Verde, J. A. Gonçalves Guimarães fez uma intervenção sobre «O Vinho Verde na obra de Eça de Queirós», a partir de um trabalho com esse mesmo título que em 2010 publicou em colaboração com Susana Guimarães, à qual assistiram não só membros daquela confraria, mas também vários confrades queirosianos. A sessão pode ser vista em: htpps://www.youtube.com/watch?v= CAb4ec66h3s

Livros

Nos dias 20 e 21 passados, a Comissão de Vitivinicultura da Região dos Vinhos Verdes organizou um evento intitulado «Dois dedos de Conversa sobre Livros e Vinhos Verdes» com a colaboração da editora Alêtheia. No domingo, dia 21, pelas 12 horas, J. A. Gonçalves Guimarães comentou a edição do livro de Eça de Queirós, O Egipto. Notas de Viagem, reeditado por aquela editora em 2015, aludindo à génese da obra na viagem realizada em 1869 pelo escritor, na companhia do 5.º conde de Resende, à inauguração do Canal de Suez, logo parcialmente publicada em folhetins no Diário de Notícias, tendo-se então gorado a hipótese da sua publicação em livro, o que só veio a acontecer em 1926, numa edição organizada pelo seu filho mais velho, com critérios muito pessoais. Entretanto as notas então recolhidas serviram como passagens ou capítulos de algumas outras obras que Eça publicou, mormente em A Relíquia, onde “esgotou” os apontamentos sobre a Baixa Síria e a Palestina. Neste programa, foram ainda referidas as contribuições recentes para a interpretação desta obra por diversos estudiosos queirosianos, como A. Campos Matos e o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, bem assim como a seu interesse para o leitor actual, não deixando de ser referida a possibilidade de se tornar livro de cabeceira daqueles que, ainda hoje, realizam uma viagem ao Egito parcialmente decalcada da realizada em 1869 e guiada por aquele egiptólogo, autor de Imagens do Egipto Queirosiano. Recordações da jornada oriental de Eça de Queirós e o Conde de Resende em 1869, Solar Condes de Resende, 2002.

Colóquio sobre Eça de Queirós

         O Centro Cultural Eça de Queiroz de Telheiras, Lisboa, está a preparar a organização do seu 6.º Colóquio Internacional Luso-Brasileiro e 26.º Colóquio Eça de Queiroz, a realizar entre os dias 22 e 27 de novembro deste ano. O programa será divulgado em breve,

Curso sobre o Antigo Egito

        Prossegue o curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ), com uma pequena alteração no calendário e a inclusão de uma lição extra. Assim depois da 10.ª sessão sobre «Erotismo e sexualidade no antigo Egito», pelo Prof. Doutor Rogério Sousa no passado dia 10 de março, o curso prosseguirá no próximo dia 27 com uma aula sobre «O “Livro dos Mortos” do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo e em abril, dia 10, a 12.ª sessão sobre «A literatura do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão. No sábado, dia 17, será a vez da 13.ª sessão sobre «O Antigo Egito no cinema», pelo Prof. Doutor José das Candeias Sales, encerrando o curso no sábado, dia 24, com «A escrita hieroglífica egípcia», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, se for possível através de aula presencial no Solar Condes de Resende e por videoconferência para os alunos inscritos

Mestrado

No passado dia 24 de novembro apresentou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a sua dissertação de Mestrado em História e Património, intitulada «Viticultura, vinho e inovação tecnológica no livro antigo da Biblioteca Pública Municipal do Porto, século XVIII», a investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, Dr.ª Cristiana Filipa Borges Ferreira, a qual teve como orientadores os Prof. Doutores António Barros Cardoso, da FLUP e Jorge Bernardo Lacerda de Queiroz, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, tendo sido aprovada com 17 valores. A nova Mestra vai prosseguir a sua graduação académica.

 

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 151, quinta-feira, 25 de março de 2021; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Eça & Outras

 Dos tempos de Eça até aos dias de hoje

          Nas duas crónicas anteriores escrevi sobre o que é que a associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (ASCR-CQ) tem publicado sobre Eça de Queirós e o seu universo. Mas a sua ação editorial não se resume aos temas ecianos: como vem expresso nos estatutos compete-lhe também «promover a investigação arqueológica, antropológica, histórica, patrimonial, artística, literária e científica, sobre quaisquer formas de expressão e outras acções que valorizem e divulguem o conhecimento». Por isso tem produzido outros estudos e publicações.

          Quando em 2004 assumiu a integração do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, que a partir daí passou a designar-se Gabinete de História, Arqueologia e Património (GHAP), aceitou igualmente todo o seu legado, incluindo o projeto de escavações arqueológicas e levantamento do Património realizado no vale do Côa entre 1985 e 2004, patrocinado pela Casa Ramos Pinto, o qual deu origem a estudos divulgados em outras tantas revistas e atas de reuniões científicas. Sobre ele publicou a Confraria em 2015 a síntese Quinta da Ervamoira: da Arqueologia ao Museu de Sítio, da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães (JAGG) na sua Revista de Portugal, n.º 12. Em publicação desde 2004, esta sua revista, a partir do n.º 4 (2007) publica os relatórios de actividades da associação, bem assim como vários textos relativos a alguns destes projecto.

          A partir de 2005 a equipa do Gabinete iniciou trabalhos em S. João da Pesqueira, através de uma equipa multidisciplinar, como já tinha acontecido na Quinta da Ervamoira, tendo também feito escavações arqueológicas em S. Salvador do Mundo. Deste projecto, que teve o patrocínio da autarquia local, resultou a publicações em 2007 do livro São Salvador do Mundo santuário duriense, coordenado por JAGG e editado por Edições Gailivro. Como esta ação teve também o apoio da Associação dos Amigos de Pereiros, da aldeia onde a equipa ficava alojada, desta permanência saíram, ainda em 2011, o livro Pereiros. S. João da Pesqueira, de A. Silva Fernandes; JAGG e Nuno Resende (NR) e, em 2013, deste último autor, Capela de Santo António. Pereiros, S. João da Pesqueira, ambos planeados pelo GHAP. Foi também durante esta permanência que, para além da produção de outros livros e textos, que a 28 de março de 2005 foi feita uma primeira visita ao escritor José Rentes de Carvalho, então em Estevais de Mogadouro, da qual resultou a doação do seu espólio pessoal à Confraria, o qual tem vindo a ser tratado e divulgado, como se pode ver em O Núcleo Documental J. Rentes de Carvalho – I. «Revista de Portugal», n.º 15, novembro de 2018.

          A partir de 2006 a Confraria vem realizando a sua mostra anual de Arte, aberta aos sócios profissionais e amadores, também como corolário do seu curso de Pintura, cujos catálogos, de 2006 a 2019, têm sido elaborados por Maria de Fátima Teixeira (MFT) sob a designação de Salon d’Automne Queirosiano e editados pela Confraria com patrocínios pontuais.

Também os temas de comemorações nacionais têm sido lembrados através de estudos publicados. Assim, no ano do Centenário da República foi lançado o livro Republicanos, Monárquicos e outros: as vereações gaienses durante a 1ª República, 1910-1926, da autoria de JAGG, edição apoiada pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Gaianima e Junta de Freguesia de Avintes. A evocação do Centenário da 1.ª Grande Guerra mereceu-lhe a publicação de SOARES, José Pereira do Couto (2016) – Memórias de um Expedicionário a Moçambique (1917-1919), tendo a edição sido apoiada pelo seu neto Dr. Fernando Rui Morais Soares, que também ofereceu o manuscrito original à Confraria. Por sua vez, a Revista de Portugal n.º 13 publicaria em 2016, de Susana Guimarães (SG), Francisco da Silva, enfermeiro hípico na 1.ª Guerra Mundial.

Em 2020 foi comemorado o meio século do Ano Internacional da Educação instituído pelas Nações Unidas através da UNESCO, neste ano também como Património Cultural pela Comunidade Europeia. Para tal lembrar, em colaboração com o Arquivo Histórico da Igreja Lusitana, editou o livro Esboço. Boletim dos Jovens do Torne. 50 anos de persistências 1970-2020, edição fac-similada dos três boletins com aquele título então proibidos de circular pela censura, o último dos quais dedicado àquele tema.

            A História Empresarial mereceu-lhe a organização de um dos cursos livres do Solar realizado no inverno de 2013/2014. Nesse primeiro ano foi editado o livro de Graça Nicolau de Almeida e JAGG, Adriano Ramos Pinto Vinhos e Arte, um projecto patrocinado pela Casa Adriano Ramos Pinto (Vinhos) SA. Em 2015 também o GHAP colaborou na organização e produção da obra de Francisco Javier de Olazabal, Quinta do Vale Meão produzida para a empresa Sociedade F. Olazabal & Filhos, L.da que a editou, e cujos trabalhos complementares de JAGG foram publicados na revista Douro. Vinho, História. Património, n.º 3. Por sua vez a empresa Quinta da Boeira, Arte e Cultura teve também a colaboração da Confraria Queirosiana em diversas acções de promoção de produtos portugueses em Madrid, Copenhaga e Manchester, com uma mostra de modelos de embarcações históricas e conferências sobre Portugal e a Expansão Europeia, acompanhadas pela edição de dois livros de JAGG em 2016 e 2017, Modelos de embarcações históricas portuguesas dos séculos XVI a XIX; Modelos de embarcaciones históricas portuguesas de los siglos XVI a XIX, e idem com tradução em francês e inglês.

          Tendo o Gabinete, desde a sua fundação realizado escavações arqueológicas em Vila Nova de Gaia, em vários sítios com horizontes cronológicos diversos, em 2010 foi iniciado o projeto CASTR’UÍMA, programa de investigação e valorização cultural do Complexo Arqueológico do Castelo de Crestuma, patrocinado por Águas e Parque Biológico de Gaia, o qual se prolongou, nesta fase, até 2015, voltando a ter trabalhos complementares nas suas imediações em 2019/2020. Embora a maior parte dos trabalhos já produzidos e apresentados tenha sido publicado em atas de congressos e diversas revistas da especialidade nacionais e estrangeiras, sob a égide da Confraria foram publicados em 2013, de António Manuel S. P. Silva (AMS) e JAGG, Castelo de Crestuma. A Arqueologia em busca da História, editado por Águas e Parque Biológico de Gaia e ASCR - Confraria Queirosiana, e, ainda nesse ano, de AMS, Arqueologia do Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia).Resultados preliminares da campanha de 2013, na «Revista de Portugal», n.º 10. Entretanto o GHAP tem abraçado outros projectos de Arqueologia e Património que, a seu tempo, serão objecto de outras publicações.

          Sempre que consegue patrocínios para tal a ASCR-CQ edita, ou apoia a edição, das provas académicas dos seus membros. Tal já tinha sido o caso em 2006 da dissertação de mestrado de SG, intitulada A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766 – 1816). Família, Património e Casa, editada pela Palimage Edições, a ASCR-CQ o Instituto de História Moderna/ FLUP, já referida a propósito das obras queirosianas. Em 2012 foi a vez da dissertação de NR intitulada Vínculos Quebrantáveis. O Morgadio de Boassas e suas relações, séculos XVI-XVIII editada em Coimbra pela Palimage com o apoio da ASCR-CQ. Em 2017 foi publicada a de MFT sobre a Companhia de Fiação de Crestuma. Do fio ao pavio, editada pela ASCR-CQ e Edições Afrontamento, com o patrocínio da Sudantex, e ainda nesse mesmo ano a de Licínio Santos sobre Cultura e Lazer. Operários em Gaia, entre o final da Monarquia e o início da República (1893-1914), os mesmos editores e igualmente patrocinada.

            Em 2015 foi assinado um protocolo entre a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e a ASCR-CQ para a organização de uma equipa que produzisse dez volumes sobre o Património Cultural de Gaia em todas as suas vertentes, tendo já sido publicado em 2018 o volume coordenado por JAGG e Gonçalo de Vasconcelos e Sousa Património Cultural de Gaia. Património Humano. Personalidades Gaienses. Como esta primeira edição, por força de lei, só pode ser destinada a fins institucionais, em 2019 foi feita uma reimpressão destinada ao mercado em colaboração com as Edições Afrontamento

            Entretanto para dar a conhecer os seus estatutos, sócios, confrades, e principais actividades, a associação publicou em 2004, com o patrocínio do vinho do Porto Romariz, Confraria Queirosiana, coordenado por JAGG, o qual teve uma 2.ª edição revista em 2016 por Amélia Cabral, JAGG, e Susana Moncóvio esta editada com o patrocínio de Urbiface Meios Publicitários.

            A Confraria Queirosiana vai também assim cumprindo os seus desígnios culturais afirmando-se também como uma pequena editora que este ano estará presente na Feira do Livro do Porto no próximo mês de junho. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Secretário da direção

Eça de Queirós no Panteão Nacional

Do Brasil recebemos o seguinte texto:

«Dagoberto Carvalho Jr.

Da Confraria Queirosiana de Vila Nova de Gaia, Portugal

e da Academia Piauiense de Letras, Teresina, Piauí, Brasil 

Grande e boa notícia chega-me de Portugal, através do chanceler Gladstone Vieira Belo, de nossa não extinta Sociedade Eça de Queiroz – fundada no Recife (como Clube de Amigos do romancista português), pelo escritor Paulo Cavalcanti e o jornalista Silvino Lopes, em 1945, por ocasião do centenário do pobre (grande homem) da Póvoa de Varzim; por nós, apenas, reorganizado – a boa notícia da ‘elevação’ do grande, incomensuravelmente, grande Eça de Queiroz a honras de ‘Panteão Nacional’ tidas – ali – como ápice, que o é, do público e imorredouro reconhecimento da República Portuguesa. Outra data, esta, que, eu – recuperada a saúde –, haveria de ter aproveitado para possível ressurgimento dos ‘Vencidos do Recife’, que o artista gráfico Mário Paciência eternizou em nanquim, emoldurado na minha sala de leituras eça-oeirenses. Ali apareço com o próprio Eça de Queiroz, Paulo Cavalcanti, Pelópidas Silveira, Gladstone Vieira Belo, Fernando da Cruz Gouvêa, Luiz Arraes, Marly Mota, José Quidute e Marcus Prado. Quadro que – para honra nossa – ilustra a página 587 do Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz, do arquiteto A. Campos Matos.

Mas, o que esta página se propõe, mesmo, é o público e universal elogio e registro da grande homenagem a Eça, que Portugal – por sua mais representativa escala de poder, a Assembleia da República – como que fechou (por enquanto, visto que ele, eternamente as merecerá) as homenagens mais que sesquicentenárias ao inspirado criador de O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Relíquia, O Mandarim e A Tragédia da Rua das Flores, para ficarmos por aqui, em sua representatividade maior.

O repto lançado pela Fundação Eça de Queiroz, transformou-se em proposta do Deputado José Luís Carneiro (Partido Socialista) e, ato contínuo, motivou a Assembleia – como um todo – “concedendo honras de Panteão Nacional aos restos mortais de José Maria Eça de Queiroz”; referendado, assim, o reconhecimento em que já os seus leitores, de Portugal e do mundo, sempre o tivemos. Pronunciaram-se, solidários com a iniciativa, os deputados João Cotrim de Figueiredo (Iniciativa Liberal); Ana Rita Bessa (CDS); José Luís Ferreira (PEV); Paulo Rios (PSD); Ana Mesquita (PCP), que citou o presidente da Fundação Eça de Queiroz, bisneto do escritor, para quem, numa “época em que os índices de leitura, em particular, entre os estudantes baixam assustadoramente, tenho a esperança, talvez, ingênua, de que um acontecimento como este alerte para a maravilhosa descoberta da leitura”. A propósito, concluiu a parlamentar: “Também o PCP assim o espera”. Pronunciaram-se, ainda, os deputados André Silva (PAN) e Alexandra Vieira, do Bloco de Esquerda. Para ela, o romancista homenageado “era exemplo do que hoje podemos considerar ativista, enaltecida sua capacidade de levar os leitores a pensar”.

PS – José Maria Eça de Queiroz morreu a 16 de agosto de 1900, sendo sepultado no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Em setembro de 1989, os seus restos mortais foram trasladados para jazigo da família, em Santa Cruz do Douro, Baião, onde este ‘devoto’ brasileiro os foi visitar em companhia de ninguém menos que D. Maria da Graça Salema de Castro, então presidente da Fundação Eça de Queiroz (Tormes, Baião) e Beatriz Berrini, da Universidade Católica de São Paulo, expressão maior do ‘ecianismo’ de seu tempo luso-brasileiro.

Recife, 27 de janeiro de 2021»

Monumento a Eça de Queirós em Lisboa, de Teixeira Lopes.


           
Entretanto outras vozes se levantam, não para contestar a homenagem nacional ao escritor, que tem recolhido unanimidades, mas divergindo na maneira de o fazer. Assim, o jornalista António Eça de Queiroz, bisneto do escritor, tem-se oposto no Facebook e através de uma Petição Pública a mais esta trasladação dos restos mortais do bisavô. No seu entender eles deverão permanecer no jazigo de família em Santa Cruz do Douro para onde foram levados em 1989 quando o jazigo onde estavam em Lisboa foi posto à venda. E propõe que, a exemplo de outros portugueses que já estão honrados no Panteão Nacional através de cenotáfios, ou seja, sem a presença dos seus restos mortais, em alguns casos “perdidos para sempre na voragem dos tempos”, como é o caso dos de Camões, que Eça de Queirós ali receba as honras que a Assembleia da República lhe atribuiu através da colocação do original da estátua esculpida por Teixeira Lopes, que em tempos esteve em lugar público no largo do Barão de Quintela em Lisboa, tendo entretanto sido arrecadava por ser sistematicamente vandalizada. Seria assim dignificado o homenageado com um notável cenotáfio e também cumprida a deliberação da Assembleia.

            Na sua reunião mensal de 9 de fevereiro passado, a direcção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana decidiu por unanimidade congratular-se com a deliberação da Assembleia da República que concedeu honras de Panteão Nacional ao seu patrono, tendo esse voto sido secundado pelo presidente da Assembleia Geral da associação.

Buenas noches señor Soares

            O escritor Mário Cláudio acaba de ver publicada uma sua obra em Espanha, um novo contributo para a internacionalização deste escritor português contemporâneo. Traduzida por Ana Balén Cao Míguez, esta obra e uma novela passada na Lisboa dos anos trinta e que tem como protagonista Bernardo Soares, um semi-heterónimo de Frenando Pessoa muito perto dele próprio, aqui recriado por Mário Cláudio, como aliás já o tem feito com sucesso noutras obras sobre personalidades reais ou ficcionais da Literatura Portuguesa. Entre a rotineira actividade contabilística do Comércio da baixa lisboeta e os sonhos do protagonista, só a imaginação nos pode valer, a ele, ao autor e aos seus leitores, agora também em língua de Cervantes.

31.º Fórum de Avintes

            No próximo dia 27 de fevereiro decorre na Junta de Freguesia de Avintes o 31.º Fórum, com uma sessão transmitida a partir das 15 horas na página do Facebook, durante a qual haverá cinco intervenções de, entre outros, Paulo Costa e J. A. Gonçalves Guimarães, na qual este último falará sobre «Os Vanzeller da Quinta de Fiães em Avintes e a Revolução de 1820». Prefaciando este encontro, no dia anterior a Junta divulgou deste mesmo historiador um videofilme sobre «D. Maia Isabel Vanzeller, a Senhora das vacinas».        

Curso sobre o Antigo Egito

         O curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ) prossegue aos sábados, entre as 15 e as 17 horas, por videoconferência. Assim, em fevereiro decorreram as 8.ª e 9.ª sessões, a primeira no sábado, dia 6, sobre «As ciências no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão e no sábado, dia 20, sobre a «A viagem de Eça de Queirós e do Conde de Resende ao Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, tendo esta sido a primeira sessão internacional com uma inscrição de Maceió, Brasil. O curso seguirá com a 10.ª sessão no próximo dia 6 de março com o tema «Erotismo e sexualidade no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Rogério Sousa e a 11.ª será no dia 27 do mesmo mês sobre a «Escrita hieroglífica e outras escritas do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, prevendo-se que esta sessão possa vir também a ser presencial, para além da habitual videoconferência, se as condições sanitárias o permitirem,

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 150, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Eça & Outras

Ainda há novidades sobre Eça de Queirós? (II)

            No passado artigo falei dos livros que a Confraria Queirosiana tem publicado desde 2002 sobre a vida e obra de Eça de Queirós. Falemos agora na publicação dos muitos artigos, sobre idêntica temática, dispersos pela Revista de Portugal, publicada desde 2004. Logo no primeiro número, e da autoria de Paulo Sá Machado, publicou-se «Eça de Queiroz no Coleccionismo». No n.º 3, de 2006, Luís Manuel de Araújo iniciava a sua colaboração com estudos sobre a viagem do escritor com o 5.º conde de Resende ao Egito e Palestina em 1869, publicando «Egiptomania queirosiana e eçamania egiptológica», que haveria depois de continuar. Ainda nesse número J. A. Gonçalves Guimarães publicaria «Um “Vencido da Vida” – Notas biográficas sobre Luís Pinto de Soveral (marquês de Soveral, 1853-1922), que daria origem à obra biográfica em livro já referida no artigo anterior. No n.º 6, 2009, de Norberto Barroca a revista publicaria «Eça de Queirós no Teatro» e de José António Afonso «A “questão educativa” na Revista de Portugal (1889-1892). Uma sondagem». No n.º 7, no ano seguinte, Anabela Mimoso escreveria sobre «A construção do corpo em As Farpas» e para o n.º 8, saído em 2011, Dagoberto Carvalho J.or mandaria do Brasil o seu artigo «Revolução pela Palavra: a Geração de 70 e a República Portuguesa», enquanto Maria de Fátima Teixeira publicaria «Referências transmontanas e altodurienses na vida e obra de Eça de Queirós», na sequência de uma proposta de investigação sistemática sobre os condiscípulos de Eça de Queirós na universidade e as suas possíveis relações com o escritor, anteriormente proposta por J. A. Gonçalves Guimarães numa conferência na Câmara Municipal de Baião em maio de 2006 e logo dada a conhecer no jornal O Primeiro de Janeiro, republicada depois no n.º 9 da Revista de Portugal de 2012 com o título «Os condiscípulos de Eça de Queirós em Coimbra naturais do distrito do Porto», assunto a que voltará mais tarde para o roteiro queirosiano do Alentejo. Ainda nesse número Jaime Milheiro publica «Sonhando com Eça (em Gaia)», sobre o Eça-escritor, o Eça-pessoa e o Eça-sonhador.

No n.º 10, Luís Manuel Araújo regressa com «Eça de Queirós e o Egito do bakchich»; J. A. Gonçalves Guimarães com «Roteiros queirosianos: da biografia à ficção literária» e Anabela Mimoso com «Revisitar a Geração Coimbrã à luz do integralismo de José Rebelo Bettencourt». No n.º 12 de 2015, Nuno Resende publica «O lugar de Cinfães na sátira literária oitocentista», destacando tal em algumas obras de Camilo e de Eça, entre outros. Ainda nesse número, Maria Alda T. Barata Salgueiro publica «A construção épica do Amor na poesia de Antero de Quental». No número seguinte, n.º 13 de 2016, Susana Moncóvio faz uma incidente abordagem biográfica a «D. Luís Manuel Benedito da Natividade de Castro Pamplona de Sousa Holstein e a escola de Canelas (V. N. Gaia) em 1869: liberalidade e costumes», e a sua particular ligação ao Solar Condes de Resende e ao próprio escritor. No n.º 14 do ano seguinte, esta investigadora apresenta «Luise Ey (1854-1936): aspectos biográficos de uma divulgadora de Eça de Queirós na Alemanha». Sabendo-se das interrogações suscitadas pela passagem de Eça pelo Colégio da Lapa no Porto, em grande parte motivadas pelo desaparecimento da sua documentação, no n.º 15 de 2018, Felicidade Moura Ferreira procura algumas respostas em documentação da época que publica em «O Colégio da Lapa e a educação dos filhos da burguesia portuense do século XIX: o caso da família de Tomás António de Araújo Lobo». Ainda neste número, Jorge Campos Henriques dá contas de «Eça de Queirós e Aveiro – “O Solar dos Queiroses”: um triste fim», tema a que voltará numa curta nota no n.º 16 de 2019, intitulada «Aveiro e a Fundação Eça de Queirós». Neste número, César Veloso publica «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós». ou seja, porque será que não se conhece nenhum texto do escritor sobre o Football Association, já tão popular na Inglaterra do seu tempo, enquanto que Susana Moncóvio escreve sobre as suas curiosidades museográficas em «Eça de Queirós e a colecção de FrédericSptizer (1815-1890). Perspetivas críticas».

O n.º 17, publicado em novembro do ano 2020, apresenta três artigos de incidência queirosiana: iniciando uma série que se prolongará, Maria de Fátima Teixeira publica «Hotéis queirosianos: Hotel Lawrence» de Sintra», apresentando a sua história documentada desde o século XVIII até à actualidade; de Ricardo Charters d’Azevedo, uma actualizada síntese em «Notas sobre Eça de Queirós em Leiria» e, de Mara Verónica Sevinatti o relato de uma recente viagem ao roteiro queirosiano do Próximo Oriente conduzida pelo Prof. Luís Manuel de Araújo, corolário das muitas que já fez e voltará certamente a fazer.

Afirmando desde já que o n.º 18 da Revista de Portugal, a publicar no corrente ano de 2021, incluirá também, pelo menos, um artigo sobre temática queirosiana direta, e voltando a sublinhar que esta resenha não abrange os muitos livros e artigos publicados pelos confrades noutras editoras e publicações, podemos então concluir que a associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana, através dos seus sócios e confrades, tem dado o seu contributo para novas interpretações, ou pelo menos para novos olhares, sobre Eça e a Geração de 70; os diversos roteiros queirosianos em que se destaca o do Egito; aspectos sobre alguns cenários da sua biografia e dos seus personagens; a família de sua mulher; e aspectos da sua obra e adaptações da mesma. Mesmo no que diz respeito à iconografia queirosiana, também têm sido republicadas algumas imagens raras ou pouco conhecidas: assim, na capa do n.º 9 da Revista de Portugal, e na sua página 28, a fotografia mais antiga de Eça que se conhece, talvez contemporânea da sua ida para a Universidade de Coimbra, proveniente do espólio da sua falecida neta D. Emília Maria de Castro de Eça de Queiroz Cabral, e pela primeira vez divulgada em GUIMARÃES, Gonçalves; CORREIA, Ana Filipa (2000) – Roteiro Queirosiano de Vila Nova de Gaia. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal/ Solar Condes de Resende; página 77; e também o muito pouco conhecido «Eça de Queiroz – (Desenho do natural, por Colaço)» publicado a primeira vez na capa de A Revista. Illustração Luso-Brasileira, anno 1 – número 2, 20 de julho de 1893, que fez a capa do n.º 12 publicado em 2015, comemorativo dos 170 anos do seu nascimento.

Creio bem que não tem sido um contributo despiciendo. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça de Queirós no Panteão Nacional

        No passado dia 14 de janeiro, por proposta do deputado José Luís Carneiro, ex-presidente da Câmara Municipal de Baião e ex-secretário de estado das Comunidades Portuguesas, e de mais outros três deputados, a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, conceder honras de Panteão Nacional a Eça de Queirós, o que implicará a trasladação dos seus restos mortais do cemitério de Santa Cruz do Douro para Lisboa. Recorde-se que o escritor, depois de morrer em Paris a 16 de agosto de 1900, foi trazido de barco para Lisboa, de carro fúnebre para o Alto de São João na capital, e dai em 1989 para o cemitério de Santa Cruz do Douro em Baião para um jazigo onde foram igualmente depositados os restos mortais de seus filhos e de outros parentes. Agora os seus restos mortais partirão de novo para a capital, onde repousarão entre outros grandes portugueses.

Congresso sobre Eça de Queirós

          Tendo sido adiado devido à pandemia, está previsto para outubro de 2021 a realização de um Congresso Internacional sobre Eça de Queirós evocativo dos 150 anos da inauguração do Canal de Suez, onde o escritor esteve presente na companhia do 5.º conde de Resende, organizado pelo Movimento Internacional Lusófono com a colaboração de outras entidades, entre as quais a Confraria Queirosiana. As sessões decorrerão em Lisboa e o programa previsto será divulgado oportunamente.

Com J. Rentes de Carvalho em Estevais do Mogadouro, 
dezembro de 2020; fotografia de Fátima Teixeira.

Cartas de (e para) Eça

O organizador (e autor das preciosas notas) da edição de Eça de Queiroz. Correspondência, 2 volumes, A. Campos Matos, continua a revelar-nos cartas inéditas do escritor, tendo acrescentado àquela obra já duas Adendas e apresentado recentemente no jornal As Artes Entre As Letras, n.º 280 de 16 de dezembro de 2020, mais uma carta inédita, datada de Paris, 13 de março de 1894, atingindo assim o fantástico número de 914 cartas publicadas, se tivermos em atenção que mais algumas – nunca saberemos quantas – foram para o fundo do mar com o vapor que trazia parte dos seus pertences vindos de Paris para Lisboa após a sua morte.

Entretanto também há quem continue a escrever cartas a Eça de Queirós. Nós próprios já o fizemos e o escritor, em resposta, soprou-nos do Além que até nos responderia por escrito, mas “lá em cima” é tudo sem papel, sem fios, sem suportes materiais. É tudo através de ondas energéticas. Mas aconselhou-nos a pormo-nos no meio do pátio do Solar Condes de Resende em dia de sol fagueiro que a resposta haveria de chegar. Mas que não seria novidade e até já estaria escrita numa das suas obras, recomendando-me paciência para procurar. E ainda segredou: “use o Dicionário de Citações ou então telefone ao Campos Matos que ele, de certeza, sabe onde já terei respondido às questões que me põe”.

Quem também lhe escreve com alguma frequência é o escritor J. Rentes de Carvalho através do seu blogue Tempo Contado. No passado dia 15 de dezembro em «Cartas a Eça de Queirós (3)» poderemos ler este trecho: «Bem gostava eu de lhe dar boas notícias da pátria, mas a infeliz não mostra força nem talento para aprender outro papel, continua a representar a velha e estafada tragicomédia, agora com a diferença de que não precisa de empenhar os anéis, e até vive melhor de mão estendida à caridade.». Entretanto a 29 desse mês fomos visitá-lo com toda a segurança a Estevais do Mogadouro, onde se sente confinado e impedido de voltar por estrada a Amsterdam, devido à pandemia que encerrou os hotéis do trajeto onde costuma pernoitar. Mas quem tem 90 anos já se vai habituando a esperar por dias melhores que certamente chegarão, muito mais devagar do que a nossa pressa em querer voltar a viver “normalizados”, pelo menos tanto quanto os habitantes de Diu nos intervalos do Cerco. Outros combates ainda nos esperam.

Curso sobre o Antigo Egito

          Prossegue aos sábados, entre as 15 e as 17 horas, por videoconferência, o curso sobre o Antigo Egito organizado pela Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ). Em fevereiro decorrerão as 8.ª e 9.ª sessões, a primeira no sábado, dia 6, sobre «As ciências no Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Telo Ferreira Canhão; no sábado, dia 20, sobre a «Escrita hieroglífica e outras escritas do Antigo Egito», pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo. O curso continua a despertar um interesse cada vez maior, que se traduz em novas inscrições para cada sessão. Logo que as condições o permitam regressará à modalidade presencial, ou pelo menos a sessões mistas, com assistência e por videoconferência.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 149, segunda-feira, 25 de janeiro de 2021; 
propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; 
NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; 
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eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral