sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 217, sexta-feira, 25 de setembro de 2026


Civilizados ou grunhos?

Muitos de nós conhecem razoavelmente a história da civilização, do progresso humano ao longo dos tempos em todas as latitudes. Os media divulgam hoje o que parece ser, e é apresentada como tal, uma civilização mundial nos seus apogeus. Mal acabados de chegar das desvanecidas ruralidades de oitocentos e estupefactos perante o galopante progresso, alguns fazem-na ter origem extraterrestre; outros na magnitude de um deus ou de vários deuses celestiais; outros na constante transformação da matéria organizada em diálogo com a natureza. No primeiro caso a civilização já nos teria chegado pronta a utilizar; no segundo dependerá sempre das benevolências divinas; no terceiro, do acaso das combinações das moléculas em diversos cenários naturais e das necessidades que elas passam a determinar na combinação seguinte. Tudo isso concentrado no homo sapiens e nos seus filiais protótipos mecano-eletrónicos, já existentes ou a haver.

Se todos temos, portanto, uma razoável ideia do que seja a civilização, recordemos aqui que não é muito fácil - nem consensual - a sua definição: desde remotas eras que tal têm tentado os filósofos, os que se dedicam ao estudo da Filosofia «a ciência geral dos princípios e causas». Mas a civilização, ainda que se evidencie em ideias e atitudes, é sobretudo através das suas manifestações materializadas que mais a reconhecemos: alterações antrópicas da paisagem, notáveis edifícios, artes irrepetíveis, objetos muito diversos, armazéns de conhecimentos físicos, químicos, energéticos e de saberes. Daí que as suas descrições, totais ou parciais, se encontrem desenvolvidas por historiadores em inúmeras obras, onde não faltam as tentativas de explicar a «marcha da humanidade». Como nem sempre se dispõe ou se abrange a lição arqueológica dos vestígios materiais, existem também as descrições dos jornalistas e de outros descritores, ou as simplesmente turísticas, o usufruir sem problematizar.

Nos anos quarenta do século passado um dicionário dizia que civilização era o «estado de adiantamento e cultura social» (Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, 14.ª edição, vol. I, 1949, p. 647) pressupõe-se que de um povo, um continente, o mundo todo. Sabemos hoje muito bem que esse «adiantamento» não foi igual em todo o lado, atingindo diversos «estados», patamares de civilização diferenciados. E a coisa pluralizou-se e complicou-se. E sobrevei-o o ceticismo sobre o assunto, mesmo em mentes brilhantes e produtoras de obras de referência. Perguntando a Kenneth Clark, historiador da Arte, museógrafo e historisofo britânico (1903-1983), autor de uma célebre série para a BBC depois materializada num famoso livro simplesmente intitulado Civilização, com um subtítulo esclarecedor: O Contributo da Europa para a Civilização Universal (Lisboa: Gradiva Edições, S. A., 2021), este respondeu: «O que é a civilização? Não sei. Não consigo defini-la em termos abstratos – por enquanto. Mas penso conseguir reconhecê-la quando a vejo; e neste momento estou a olhar para ela» (op. cit. p. 20). No final da obra, que analisa o que de melhor a Europa deu ao mundo em 2000 anos, em vez de uma enxurrada de definições académicas prefere concluir para si que nesta civilização de tantas maravilhas, «a ordem é melhor que o caos, a criação melhor que a destruição. Prefiro a delicadeza à violência e o perdão à vingança. De modo geral penso que o conhecimento é melhor do que a ignorância, e tenho a certeza de que a empatia humana é melhor do que a ideologia. Acredito que, apesar dos triunfos recentes da ciência, os homens não mudaram assim tanto nos últimos dois mil anos, e por conseguinte, devemos tentar continuar a aprender com a História. A História somos nós próprios» (op. cit. p. 412).

Mas, entretanto, emergiram de novo os bárbaros, os que não querem saber deste progresso humano para nada, acusando-o de, afinal, ter falhado no essencial, «a casa para todos, o pão para todos» (Eça de Queirós, A Rainha, 1898). Só que há diferenças nessa mesma constatação; para os civilizados é a preocupação de a tentar resolver; para os segundos é apenas o proclamar da sua existência para destruírem o que resta da boa vontade e da esperança civilizacional e com isso lucrarem milhões com os caos que advogam: espalhar a doença, pois a saúde não dá lucro; alimentar a guerra, pois ela precisa de fábricas e de mão-de-obra barata; tirarem a ciência da prática humana para a confiarem à «inteligência artificial».

Quer isto dizer que vem aí uma nova Idade Média protagonizada pelos grunhos do mundo e os derrotistas caseiros? Não sei. Nunca li São Cipriano nem Nostradamus, mas sim Voltaire, Rousseau e Bertrand Russsell. Pela minha parte os novos bárbaros não terão o caminho facilitado. Pelo sim, pelo não, quando passo por um robot em ação atiro-lhe com um «bom dia senhor robot!». Alguns, educadamente, respondem.

«A complicada abundância da nossa civilização material, as nossas máquinas, os nossos telefones, a nossa luz elétrica, tem-nos tornado intoleravelmente pedantes: estamos prontos a declarar desprezível uma raça, desde que ela não sabe fabricar pianos de Erard; e se há algures um povo que não possua como nós o talento de compor óperas cómicas, consideramo-lo ipso-facto votado para sempre à escravidão (Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra).

Mas isto não é assunto para perdermos tempo em conversa inútil com grunhos.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador


A ASCR-CQ organiza e promove…

 

                

                                Nassalete Miranda; J. A. Gonçalves Guimarães; Nuno Resende; fotografia de Fátima Teixira


Presença na Feira do Livro do Porto

Como vem sendo habitual, a ASCR - CQ, em colaboração com a APHVIN/ GHEVID, esteve presente na Feira do Livro do Porto que decorreu nos jardins da Palácio de Cristal ente os passados dias 21 de agosto e 6 de setembro, com a finalidade de promover as suas edições e divulgar as suas atividades junto do público interessado. A permanência no stand 109 foi assegurada por diversos dirigentes, pela técnica superior Dr.ª Maria de Fátima Teixeira e pelos investigadores-tarefeiros do Gabinete de História, arqueologia e Património da associação.

Nesta festa do livro, da leitura e da usufruição cultural, também como habitualmente, decorreram diversos eventos paralelos, de que destacamos, no Lago dos Cavalinhos, no dia 2 de setembro a apresentação da edição crítica d’ O Primo Basílio, vigésimo quarto título da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós em publicação pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, comentada pelo Professor Doutor Carlos Reis, coordenador do projeto, e pelas professoras Isabel Pires de Lima e Mónica Figueiredo, como investigadoras de Literatura especialistas em Eça de Queirós, e ainda pelo Dr. Cláudio Garrado em representação da entidade editora. Antes desta sessão aquele professor da Universidade de Coimbra e nosso confrade visitou o stand da associação, onde adquiriu obras que ainda não tinha.

No dia seguinte, e no mesmo lugar, decorreu o lançamento do livro Eça & Outras 3. Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 de J. A. Gonçalves Guimarães, custeado pelo autor e editado pela associação, ali apresentado pela ex-diretora daquele jornal portuense e atual diretora do jornal As Artes entre As Letras, Dr.ª Nassalete Miranda, que prefaciou a obra, e comentado nos seus conteúdos pelo Prof. Doutor Nuno Resende, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tendo por fim o autor aludido à finalidade desta coletânea e aventado o volume que se seguirá no próximo ano. Esta apresentação foi transmitida em direto inserida no ciclo de palestras da primeira quinta-feira do mês, mas devido à diferença horária praticada e outros condicionalismos, o tema do livro voltará a ser repetido pelo autor na primeira palestra do dia 3 de setembro à hora habitual (18,30-19,30), presencial no Solar Condes de Resende e via zoom.

 

A Ciência como Cultura

 


                                                                                Albrecht Dürer, Melancolia, 1514, pormenor


34.º Curso livre «A Ciência como Cultura» (2026-2027) que decorrerá no Solar Condes de Resende e outras instituições científicas da Área Metropolitana do Porto, a partir de 24 de outubro, organizado pelos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, EUP e a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia/ Solar Condes de Resende. A sessão de abertura decorrerá no Observatório Astronómico Professor Doutor Manuel de Barros, Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia.

 

A inscrição é gratuita para os associados dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana e para os professores que requeiram certificação, podendo ser extensiva aos associados de outras entidades protocoladas até ao limite da capacidade de frequência das aulas. A todos os inscritos será passado um certificado de frequência.

Lecionarão: Professor Doutor José Luís Santos, catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Prof. Doutor António José Guerner Dias da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Professora Doutora Helena Sant’ Ovaia, catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; Doutor Nuno Oliveira, doutorado em Biologia pela Universidade de Coimbra; Dr. Paulo Alves, licenciado em Biologia, ex-investigador do CIBIO/InBIO; diretor científico da Floradata; Doutor José Manuel Grosso-Silva do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP); Prof. Doutor Mike Weber da Estação Litoral da Aguda, Vila Nova de Gaia; Mestre Inês Alves, prestadora desserviços no Instituto de Medicina Legal do Porto; Professor Doutor Levi Guerra, catedrático jubilado da Faculdade de Medicina do Porto; Prof. Engenheiro Fernando Alberto Nogueira da Rocha, jubilado da FEUP; Professor Doutor Carlos Fiolhais, catedrático jubilado da Universidade de Coimbra; Professor Doutor Luís Borges Gouveia, catedrático da Universidade Fernando Pessoa; Prof. Doutor J. A. Gonçalves Guimarães, do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ).

As aulas, serão presenciais no Solar Condes de Resende ou noutra instituição indicada no programa, e também por videoconferência, em média dois sábados à tarde por mês, entre as 15 e as 17 horas, com um pequeno intervalo por volta das 16. O curso será certificado pelo Ministério da Educação com créditos para os professores que o requeiram. Contactos: queirosiana€gmail.com; 934500335

 

A ASCR-CQ esteve em…

Festival Internacional de Música de Gaia

No passado dia 19 de setembro teve lugar no Auditório Municipal de Gaia o concerto sinfónico de abertura do 32.º Festival Internacional de Música de Gaia, agora promovido pela Associação Filarmonia de Gaia, sob a direção do Prof. Mário Mateus e a direção executiva de Walter Mateus. A direção da ASCR-CQ, como desde sempre, fez-se representar num dos mais importantes acontecimentos musicais do Norte de Portugal. Seguindo-se um diversificado programa de grande qualidade que terminará com um grande concerto com orquestra e coro do Conservatório Regional de Gaia no Mosteiro de Grijó cm a interpretação do Te Deum de Charpentier no próximo dia 17 de outubro pelas 21, 39 horas.

 

Palestras organizadas pelo Solar Condes de Resende

O serviço da Câmara Municipal de Gaia/ Solar Condes de Resende tem vindo a realizar uma série de palestras designadas Património de A_Z em torno da Coleção Marciano Azuaga doada ao município em 1904 e em grande parte aqui depositada em 1987, tendo desde então alguns dos seus diversos núcleos sido estudados, expostos e publicados e algumas das suas peças estado presentes em exposições locais, nacionais e internacionais. A atual direção do Solar montou uma exposição permanente dos principais núcleos, promovendo a reabilitação da memória do doador através da voz de diversos especialistas neste novo contexto. Assim, a 6 de junho foi a vez de Luís Ceríaco, da Universidade do Porto: a 20, Elisabete Pereira da Universidade de Évora; a 12de setembro, Rui Morais da FLUP - habitual colaborador dos projetos do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ -; a 19 de setembro Clara Moura Soares da FLUL e Pedro Redol da FCTUNL; a 10 de outubro Carlos Fabião da FLUL e a 24 de outubro Ana Cristina Sousa da FLUP. Amanhã, 26 de setembro, abrirá aí ao público às 16 horas a exposição temporária «Arte Negra pelo olhar de Diogo de Macedo», que resultou da investigação da Dr.ª Claudina Martins no âmbito do seu mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que na ocasião fará a apresentação deste seu trabalho académico. A ASCR-CQ tem vindo a divulgar estas atividades e estado presente através de vários dos seus dirigentes e associados.

 

Casa da Cultura de Avintes

23 de setembro, quarta-feira, na Casa da Cultura de Avintes decorreu a primeira sessão do clube de leitura dos Amigos da Biblioteca de Avintes ainda inserida nas comemorações do bicentenário de Camilo Castelo Branco, a qual foi animada por J. A. Gonçalves Guimarães, que na ocasião recordou o que têm sido essas comemorações em Vila Nova de Gaia feitas por diversas entidades. Em termos de proposta de leitura, para além de recordar que hoje existem muitos e variados meios que não se resumem ao livro ou ao jornal, propôs aos presentes os diversos textos de «As polémicas entre Camilo e Eça de Queirós».

 

                                                                                Mestre Filipa Júlio

Mestrado em Jornalismo

Filipa Alexandra de Freitas Júlio, licenciada em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, é jornalista há mais de duas décadas e a sua atividade profissional tem sido marcada pela escrita, pela reportagem, pela edição e por diferentes projetos de comunicação, sempre com foco em histórias de vida, património e desconstrução de problemáticas sociais e culturais. Passou por O Primeiro de Janeiro, O Norte Desportivo e O Gaiense, entre outros projetos, mantendo atualmente colaboração jornalística com o programa Quero Justiça, de Paulo Jorge Duarte (CMTV). Em 2015-2016, Filipa Júlio criou e implementou o projeto «Memória e Cultura - Resgate e preservação do património cultural através da memória autobiográfica de idosos locais», vencedor do orçamento participativo da União de Freguesias de Grijó e Sermonde, que publicou o livro Raízes - Memória a fazer cultura. È associada da ASCR-CQ.

Recentemente Filipa Júlio – como assina os seus trabalhos – concluiu na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra o seu mestrado em Jornalismo e Comunicação com uma dissertação intitulada «Silêncios e Invisibilidades da Violência no Namoro: A cobertura do jornalismo digital português (2014-2023)» disponível em acesso aberto no Estudo Geral da Universidade de Coimbra https://estudogeral.uc.pt/.

 

Publicações…


«J. Rentes de Carvalho, agora com 96 anos, dá continuidade à publicação dos seus diários depois de Recordações e Andorinhas, editado no final do ano passado. Mantendo a obsessão com os portugueses e Portugal, o nosso “romeiro sem romaria” (é esse o seu ex-libris) mostra-nos o país através de pequenos apontamentos sobre as personagens e vidas comuns com que se vai cruzando» (divulgação da Quetzal). Voltas e Disfarces chegou ao mercado ontem dia 24 de setembro.

 


«A edição crítica d’ O Primo Basílio, vigésimo quarto título da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, contempla um dos grandes romances queirosianos e, ao mesmo tempo, um dos seus textos mais problemáticos. A expressão não é excessiva, se tivermos em conta, entre outros, dois aspetos da composição e da recomposição deste relato: a quantidade e a qualidade das correções a que Eça submeteu a sua prosa, na passagem para a segunda edição; o curto lapso de tempo em que esse trabalho decorreu e que se iniciou, de facto, logo que o romance se esgotou, no próprio ano de 1878 em que veio a público. Conforme nota Isabel Pires de Lima, na extensa introdução que escreveu, bastaram três meses para que se esgotasse uma primeira tiragem de 3 mil exemplares, número apreciável, para a época» (divulgação da INCM). Ver notícia acima.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 217, sexta-feira, 25 setembro de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Carlos Réis, João Fernandes; Filipa Júlio.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 216, terça-feira, 25 de agosto de 2026

Caixa do Correio

Daqui por alguns anos, não muitos, as caixas do correio que temos nas nossas residências tornar-se-ão objetos obsoletos. E todos sabemos porquê. Hoje em dia há muito pouca correspondência composta por carta, um texto escrito numa folha de papel metida num envelope. E na maior parte das vezes trata-se de correio institucional, a conta da água, das telecomunicações, na época própria o aviso para pagar o IMI ou o IRS, uma ou outra multa de estacionamento e mesmo estas missivas em vias de extinção e a serem substituídas pelo correio eletrónico. O que parece não estar em vias de extinção é o correio não endereçado, missivas de vários tamanhos e feitios, de mui diversificados tipos e gramagens de papeis e cartolinas, geralmente impressas, mas também escritas à mão, mais ou menos coloridas e que todos os dias alguém introduz na nossa caixa do correio. Podemos chamar-lhe «publicidade», mas há de tudo o que se possa imaginar. Geralmente nem sequer leio ou recolho este correio não franqueado, e por isso mesmo ele vai-se acumulando no fundo da caixa durante meses ou anos até que um dia resolva limpar essa acumulação e deitá-la no papel velho. Foi o que me aconteceu já não sei quantas vezes na vida desde que nos anos setenta do século passado passei a morar em residência própria. E foi o que me ia acontecendo há dias, quando resolvi esvaziar o fundo da caixa depois de vários anos. Mas um rebate de curiosidade foi mais forte e resolvi separar as mensagens por lotes de conteúdos e objetivos. Não, não vou fazer um estudo sociológico, publicitário ou qualquer outro de igual jaez, primeiro por não ser profissional dessas áreas, segundo porque a minha curiosidade é muito mais imediata e empírica e tem os seus limites. Quem quiser que aproveite a ideia e faça um mestrado com ela. Não sei se o virei a ler, pois não será sobre a minha caixa do correio. E é essa que agora me interessa.

Ora então o que é que diversas pessoas e entidades andaram para lá a meter durante largos meses? Em maior quantidade e diversidade missivas de agentes imobiliários, quase todas com fotografias dos ditos e duas perguntas que não pedi: se sei quanto vale hoje o meu apartamento e se não o quero vender. Não e não. A partir de determinada ocasião apareceram as missivas escritas à mão, fotocopiadas para a desejada multiplicação. Deduzo pela quantidade recebida e mesmo pelo teor da sua prosa que a zona onde moro é muito procurada para «comprar, vender ou investimento». E eu sem o saber. Por agora vou continuar a morar aqui. Mas sempre posso ter necessidade de pequenas obras que impliquem pintura, revestimento, gesso e reboco projetado e outras técnicas de construção civil, várias empresas a quererem resolver-me o problema e, se for necessário, um eletricista, um picheleiro ou um canalizador, fechaduras, portas e janelas, estores e persianas, caldeiras e máquinas de lavar, limpeza de chaminés, demolições (!?), reabilitação completa. Muitos papeis e cartões de empresas várias. Em grande número os que tratam de desentupimentos e esgotos. Alguns querem vender-me «conforto e inovação», logo a mim que, depois do mobiliário minimalista da época do meu primeiro casamento, adquiri uma mobília estilo século XVII que tem mais de cinquenta anos de bom e efetivo serviço e está para durar: o senhor Pereirinha, afamado cadeireiro, que o diga. Resisto também heroicamente ao «sonho para todos» do «viscoelástico anatómico» em colchões, seja lá isso o que for. Também encontro ofertas de outros produtos e serviços: brinquedos em que «a batalha do bem contra o mal nunca termina», escolas de condução; lavandaria e engomadoria; compra e venda de antiguidades e colecionismo; um fotógrafo; derivados de canabis e acessórios; serviços de mudanças e de administração de condomínios.

Mas há mais: empresas que trazem a casa comestíveis de supermercado ou diversas iguarias de «take away», de «rodízio» e «novas pizzas», «exclusivas» (!?), prontas a comer, «com montanhas de queijo» e algumas com «quase um metro», além de «burgers», «francesinhas», «cachorros», «pica paus» e «pregos», todas as alegrias da plastic food. E para que o meu help a este mundo de maravilhas não falhe, diversas empresas a oferecerem-me comunicações através de centenas de canais, com filmes ou séries feitas nos states sobre doidos, assassinos, seres perigosos, além de «dados móveis» ilimitados, «internet ultra-rápida». Tomara eu tempo para alguns deles com jornalismo sério. E, com fotografia com ocultante estrela em certas anatomias, a Malu «acabada de chegar» disponibiliza carícias inesquecíveis e discretas ao domicílio.

Também indicações de salas de estudo «para crianças do futuro» ou que preparam «os alunos para o amanhã», consultores para a «home sweet home», a «sabedoria da tiazinha, cartomancia – tarot», o professor De La Mine «problemas de amor e amarração», com um «dom hereditário» para «trabalho de macumba, discreto rápido e eficaz», enquanto o professor Tony «vidente espiritual poderoso» é especialista em «limpeza espiritual; negócio & sucesso; saúde & bem estar; sorte & proteção; orientação espiritual» e o mestre La Bamba «grande astrólogo vidente africano… grande cientista espiritualista, com super magia negra e branca mais forte. Garantia 100%. Máxima rapidez». Mas também uma entidade religiosa, certamente monárquica, pois quer que eu me vá inteirar num estádio de futebol das excelências do «Reino de Deus» que um dia «governará a Terra» prometendo-me «Felicidade Eterna». Mais prosaicamente a paróquia católica local promove a campanha da sacola «…para um Natal feliz aquém (sic) mais precisa», a junta de freguesia promove um «Natal Solidário» e os «novos locais de voto», várias instituições pedem 0,5% do meu IRS para prossecução dos seus objetivos e alguns partidos políticos promovem o “cabeça de lista” a eleger para a junta ou a câmara para os colocar «na vanguarda» sabe-se lá de quê.

Prevendo, talvez, que tudo isto é demasiado e cansativo, recebo também folhetos sobre viagens e férias «em segurança a preços excecionais» e, no caso de aceitar, a oferta de um relógio/ bracelete, um unguento de baba de lesma e possibilidade de adquirir uma poltrona relaxante que, a ser verdade o que diz no folheto, me fará certamente desistir do «passeio de barco com porco assado» no rio Zêzere.

E lembro-me do que escreveu Eça sobre Antero e os papéis a destruir: «Ele dardejou sobre mim dois olhares devoradores. Depois considerou, ainda enrugado, a pilha acertada dos papéis cortados, e, um sorriso, aquele sorriso de Antero que era como um sol nascente, iluminou, fez toda clara e rósea a sua boa face onde havia um não sei quê de filósofo de Alexandria e de piloto do Báltico: - O ritmo – murmurou – é necessário mesmo no delírio» (Eça de Queirós, Um génio que era um santo). E papéis com este texto também hão de ir parar ao saco do papel a reciclar.

J. A. Gonçalves Guimarães

Historiador

 

                                                Fotografia: faraoecompanhia.blogspot.com

Professor Doutor José Augusto Ramos (1942-2026)

Faleceu no passado dia 28 de julho em Lisboa aos 84 anos o Professor Doutor José Augusto Ramos (1942-2026), emérito da Faculdade de Letras de Lisboa, um dos maiores historiadores da Antiguidade e civilizações do Próximo Oriente. Tendo sido colega e amigo do Prof. Doutor Manuel Luís de Araújo, através dele colaborou com o Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia para lecionar em 2002/2003 no curso livre «Introdução ao Estudo de Línguas Antigas», que decorreu no Solar Condes de Resende, duas aulas sobre Hebraico. A direção da associação Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana partilhou a sua consternação pela partida deste notável humanista, grande professor e homem sábio, bom e afável que nos deu a honra de participar naquela nossa realização.


A ASCR-CQ organiza e promove…

Palestra da primeira quinta-feira do mês de setembro

Na próxima quinta-feira do mês, dia 3 de setembro, a partir das 17 horas, a habitual palestra das primeiras quintas feiras do mês terá um formato inusitado: será feita presencial no Largo dos Cavalinhos no Palácio de Cristal no Porto e transmitida via zoom para quem quiser assistir onde quer que se encontre sendo disponibilizado o respetivo link. Em vez das 18,30-19,30, decorrerá entre as 17 e as 17,45 devido à programação local. O tema será Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães, tendo ainda a intervenção de Nassalete Miranda, diretora do jornal As Artes entre As Letras e Nuno Resende professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


A ASCR-CQ esteve em…

Doutoramento

No passado dia 28 de julho o presidente da direção esteve presente nas provas de doutoramento de José Manuel Cidade Filipe da Silva, licenciado em Direção Musical e mestre em Ensino da Música pelo Curso Superior do Conservatório de Música de Gaia, além de outras formações do seu notável curriculum, as quais decorreram na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. O tema em apreciação «As bandas de música civis como agentes de educação não formal e informal» mereceu erudito debate por parte dos sete elementos do júri que tiveram palavras de grande apreço para com o exaustivo trabalho do novel doutor que sempre esteve ligado à Banda Musical 1.º de Agosto de Coimbrões e mais recentemente ao Conservatório Regional de Música de Gaia fundado nos anos oitenta pelo Professor Doutor Maestro Mário Mateus.

 

Reunião com vereador do Turismo

No dia 20 de agosto, o presidente da associação e a secretária da direção estiveram reunidos na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia com o vereador da Economia e Turismo Dr. Fernando Machado, para lhe apresentarem as ações que a ASCR-CQ vem desenvolvendo nesta área, nomeadamente a sensibilização dos seus associados com as mais diversas profissões e cargos públicos e privados residentes em Portugal, Brasil, Roménia e Moçambique, na divulgação dos valores de Vila Nova de Gaia e das valências culturais do Solar Condes de Resende e na receção das delegações presentes nos seus capítulos, nomeadamente a da Academia Alagoana de Letras chefiada pelo presidente Doutor Alberto Rostand Lanverly acompanhado de outras figuras de importância económica, social e cultural do estado alagoano, e também os provenientes de outros países, que assim entram em contato com as potencialidades gaienses e da região metropolitana. Sendo a associação filiada e protocolada com diversas instituições internacionais, como a Federação de Amigos dos Museus de Portugal, a Academia Alagoana de Letras, e outras, participa em ações de divulgação dos valores de Portugal, dos países da CPLP e da Língua que a todos nos une, através do estudo e usufruto dos textos de Eça de Queirós, Rentes de Carvalho e outros escritores e criadores lusófonos.

 

Feira do Livro do Porto


Como habitualmente a ASCR-CQ está no Palácio de Cristal na Feira do Livro do Porto a vender as suas produções impressas, conjuntamente com as da Associação Portuguesa para o estudo da História da Vinha e da Vitivinicultura (APHVIN/ GHEVID) no pavilhão 109. A abertura teve lugar pelas 12 horas do dia 21 de agosto, tendo estado presentes, além do presidente da direção, diretores António Pinto Bernardo. Manuel Guimarães Nogueira e Nuno Resende, tendo posteriormente por lá passado outros dirigentes. Como habitualmente do programa da feira faz parte o lançamento de novas edições e sessões de autógrafos de vários associados e confrades. A feira encerra dia 6 de setembro.

 

Feira de Gastronomia de Vila do Conde

Também no dia 21 de agosto, mas pelas 18 horas, a Confraria Queirosiana esteve presente na abertura da Feira de Gastronomia de Vila do Conde, terra queirosiana, o que vem fazendo de há anos a esta parte. Entre as muitas confrarias e outras instituições presentes, a nossa esteve representada pelo presidente da direção, os dirigentes António Pinto Bernardo e Manuel Guimarães Nogueira e o confrade António Pinto. Depois da habitual deambulação pelos stands com muitas e variadas iguarias da Gastronomia Portuguesa, a Câmara Municipal obsequiou as delegações presentes com um magnífico jantar no restaurante temático da feira.

 

Publicações…



No passado final do mês de junho foi publicado e distribuído o número 102 da revista semestral Patrimónios. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia que esta associação edita ininterruptamente desde 1976 com artigos dos seus associados, desta feita com um último artigo de uma série sobre a propriedade onde se fixou a instituição católica Opus Dei em Arcozelo; uma memória sobre Maria Felicidade do Couto Browne no duplo centenário de Camilo Castelo Branco; uma segunda parte de um bem documentado estudo sobre o professor e artista plástico, fresquista e vitralista,  António Coelho de Figueiredo, autor do célebre tríptico existente no átrio da Escola Secundária António Sérgio e de muitos outros por aí espalhados. E ainda «A biografia de um magistrado português» de José Pereira da Graça. Além de notícias várias sobre a vida da associação.


Pela mão amiga de Paulo M. J. Afonso, natural de Outeiro, Bragança, professor associado de Astronomia do departamento de Física e Astronomia do American River College, Sacramento, Califórnia, acabamos de receber o vol. 21, n.º 2 do The Journal of San Diego History editado pelo San Diego History Center, dedicado a «Cabrilho and beyond: Portuguese navigators in Alta California and the Pacific». O presidente da ASCR-CQ conheceu-o em 2023 quando a 24 de setembro na Festa das Vindimas, organizada pela Quinta da Boeira com a colaboração da Federação das Confrarias Báquicas Portuguesas, decoreu no Auditório do Hotel Forte de São Francisco em Chaves, o Fórum Cabrilho Navegador Português, onde apresentou o tema «Navegadores Portugueses e suas Biografias: entre a História e a apropriação de mitos». O Prof. Paulo Afonso foi aí o convidado de honra que nos veio inteirar de uma reiterada provocação da comunidade hispânica dos EUA que vinha espalhando a fake new de que o navegador Cabrilho era, não Português, mas sim Espanhol. Embora alguns historiadores profissionais nacionais e estrangeiros já se tivessem debruçado sobre o assunto, havia que o voltar a reequacionar em duas vertentes: a erudita e a da opinião pública. Já antes Paulo Afonso, como académico e como transmontano na diáspora, vinha dando o seu contributo para esclarecer a questão junto da comunidade portuguesa da Califórnia, contatando os descendentes portugueses do navegador e outros académicos hispânicos e estadunidenses sobre o assunto. E continuou com uma investigação pessoal em arquivos franceses para analisar raríssima cartografia antiga da região que atesta a primazia das navegações lusas e a atribuição do nome de Cabrilho a acidentes geográficos da costa.

Nesta revista publica o seu esclarecedor artigo New historical findings about Cabrilho and other Portuguese and Genoese in the maritime discovery of California, 1542-1543, onde conclui que «Este trabalho pode ser também um ponto de partida para novas avenidas na pesquisa histórica» (AFONSO, 2025: 22, tradução).

 


    

No próximo dia 3 de setembro, quinta-feira, pelas 17 horas, na Feira do Livro do Porto, junto ao Lago dos Cavalinhos, quinta-feira, será feito o lançamento do livro Eça & Outras 3. Textos publicados n’ O Primeiro de Janeiro entre 2005 e 2008 de J. A. Gonçalves Guimarães, com capa de Sérgio Veludo Coelho e prefácio de Nassalete Miranda (que estará presente no lançamento), editado pela ASCR-Confraria Queirosiana.

Sendo a terceira coletânea de artigos e crónicas dispersas deste autor, desta vez trata-se das publicadas naquele jornal e no período citado, revistas para a presente edição, nelas deambulando por temas sobre a região do Porto e a China; o Douro e os seus carismas; Eça de Queirós com novidades novas; sabedorias velhas e relhas em poetas quinhentistas; cruzados do Estado Novo; um sermão laico sobre os “cinco” São João venerados entre nós; e outras curiosidades. Como os dois volumes anteriores da mesma coleção editados pela Confraria Queirosiana, o primeiro sobre Crónicas Queirosianas e o segundo sobre J. Rentes de Carvalho 95 anos ativos, trata-se de textos entre a crónica, a recensão e a crítica.

O livro estará à venda no pavilhão 109 da Feira do Livro do Porto pelo preço de 17 €, no lançamento está prevista, além do autor, a presença da prefaciadora Nassalete Miranda, do Prof. Doutor Nuno Resende da FLUP e do Prof. Doutor Sérgio Veludo Coelho da UTP autor da capa.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 216, terça-feira, 25 agosto de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Luís Manuel de Araújo; Paulo Afonso.

sábado, 25 de julho de 2026

 

Eça & Outras, III.ª série, n.º 215, sábado, 25 de julho de 2026


                                    Prof. Doutor Paulo Tallhadas dos Santos; arquivo ASCR-CQ


O biólogo Paulo Talhadas dos Santos

Na rotina quotidiana de ler os e-mails, no passado dia 25 de junho recebi um inesperado do caríssimo amigo Paulo Talhadas dos Santos, professor de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, militante da divulgação e defesa da natureza e da biodiversidade e por isso ex-dirigente do FAPAS, mas também, e para honra minha, o coordenador dos biólogos das Semanas de Estudos Especializados que organizei no Museu de Sítio de Ervamoira, Vale do Côa, nas quais esteve entre 1997 e 2002, tendo ainda a sua colaboração na organização da equipa que dirigi no estudo de São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira, como assinalei no livro que sobre tal publicamos em 2007. Tal como o programa anterior, ambos foram organizados pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, entretanto integrado na Confraria Queirosiana, da qual Talhadas dos Santos viria a ser em 2003 o associado-fundador número 10. Já então uma insidiosa e inesperada doença neurológica o atacava de forma irreversível, não logrando, porém, vencê-lo no carácter e na mente que continuaram ativas e despertas até há poucos dias atrás quando faleceu a 10 de julho passado. Devido à sua doença os nossos contatos foram-se espaçando na prática dos dias, mas não na consideração e nos meus agradecimentos pela persistente e desinteressada colaboração em vários projetos no Douro e em Gaia. A última vez que estivemos fisicamente juntos foi há anos atrás no Auditório Municipal de Gaia, quando a câmara local lhe atribuiu a medalha de ouro por mérito profissional. Disfarcei a comoção como pude e falamos dos dias de trabalhos passados enquanto a patrimonióloga Maria de Fátima Teixeira, que nos acompanhou ativamente naquelas andanças, se afastou comovida e incapaz de disfarçar a dor e a revolta contra a injustiça da vida que tantas vezes se abate sobre pessoas boas e úteis, como é o caso.

Paulo Talhadas dos Santos nasceu em Nova Lisboa, Angola e veio para Portugal em 1975, tendo-se matriculado no curso de Biologia na faculdade onde se doutorou na especialidade de Ecologia Animal e onde viria a ser professor, lecionando ecologia marinha, biologia da conservação, gestão e conservação dos recursos naturas, biodiversidade e educação ambiental. Foi também investigador em biologia marinha e estuarina do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, membro do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, do Colégio do Ambiente da Ordem dos Biólogos e presidente do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS). Foi ainda comentador de programas de temas ambientais na RTP2 nos anos 90 e colunista no Jornal de Notícias e outros periódicos em tempos mais recentes, para além dos trabalhos científicos que publicou e da edição e promoção de diversos guias da natureza que promoveu.

Àquele e-mail de 25 de junho seguiu-se um outro a 1 de julho que me trouxe três preciosos textos sobre o que foi a sua experiência em Ervamoira, em tempos postados na sua página da Internet «Armazém de Baús»: “Ervamoira”, 01.08.2019; “Espargos silvestres”, 03.07.2021; e “Pergaminhos e outros escritos”, 02.02.2026, que contam com algum pormenor o que foram os trabalhos daquelas semanas e a sua relação com a paisagem, as pessoas e as circunstâncias. Muitos dos trabalhos científicos então produzidos por alguns dos membros da equipa seus ex-alunos estão dispersos por atas de encontros científicos, diversos volumes temáticos e publicações periódicas da época ou mesmo posteriores, tendo chegado a planearmos a edição de um livro sobre as diversas áreas de produção científica dos 20 anos de trabalhos em Ervamoira (1984-2004) que estiveram sob a minha responsabilidade, cabendo-me as áreas de arqueologia, história, antropologia e património; às minhas ex-alunas Felicidade Ferreira a molinologia e a Carla Pinto a cerâmica tradicional; a Paulo Rocha a geologia e a geomorfologia; a Paulo Alves a botânica; a Paulo Talhadas dos Santos a zoologia (mamíferos, aves, répteis e anfíbios); a Grosso-Silva a entomologia e, obviamente, a João Nicolau de Almeida a vitivinicultura e enologia locais. Recordo que na área inicial da Quinta da Ervamoira não existiam quaisquer gravuras e os poucos vestígios pré-históricos que encontramos nas nossas escavações eram muito incipientes, talvez por se tratar de uma das áreas mais amplas e planas de todo o Vale do Côa.

Como atrás deixei expresso tive ainda a sua colaboração em vários outros projetos que, de certo modo, decorreram da experiência daquelas semanas, certamente pioneiras na região e talvez no panorama científico nacional, onde a prática comum era então cada universidade e curso estarem fechados sobre si próprios. A partir do abundante espólio osteológico animal exumado na estação arqueológica de Ervamoira chegamos a perspetivar a possibilidade de criação no seu departamento de um laboratório de Zooarqueologia, mas que não chegou a concretizar. Devido a todas estas colaborações e cumplicidades, em maio de 2000, como responsável pelo mestrado em Ambiente na sua faculdade e sendo eu professor no curso de ciências históricas-ramo Património na Universidade Portucalense, onde lecionava «Estudo e valorização do Património Natural», convidou-me para dar uma aula aos seus alunos sobre «A interação do Património Natural com os outros Patrimónios».

De há muito que observo que vários amigos me visitam ou contactam poucos dias antes de morrerem, às vezes apenas para, sem o saberem, mais um último abraço, outras para um último recado sobre o que está pendente, outras a legarem-me uma última tarefa que já não poderão executar. Procuro ser digno de tamanha confiança e por isso também tomei os textos que Talhadas dos Santos me enviou nos seus últimos dias de vida como uma passagem de testemunho de três pérolas de um legado comum em que, com alguns outros, fomos por várias épocas felizes na busca do conhecimento. Com ele, «na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte se assemelhassem» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras). O biólogo Talhadas dos Santos permanecerá entre nós como um trevo de cinco folhas.

J. A. Gonçalves Guimarães

historiador

 

A ASCR-CQ organiza e promove…

02 de julho – prosseguem as habituais palestras das primeiras quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende organizadas pela Confraria Queirosiana, desta feita assinalando os 50 anos da Constituição de 1976, o Prof. Doutor Adrião Cunha fez uma palestra sobre as Constituições Portuguesas.


A ASCR-CQ esteve em…

06 de julho -  J. A. Gonçalves Guimarães, coordenador do Gabinete de História, Arqueologia e Património esteve no Colégio de Nossa Senhora da Bonança, Vila Nova de Gaia, uma  formação de professores em que dissertou sobre «Identidade Gaiense», tema a que se vem dedicando.

 

         J. A. Gonçalves Guimarães, Paula Carvalhal e Manuel de Novaes Cabral; arquivo ASCR-CQ


14 de julho – a convite de Manuel de Novaes Cabral, Cônsul Honorário da França no Porto, escritor e confrade queirosiano de honra, que organizou a comemoração do Dia Nacional da França no Liceu Internacional Francês do Porto, o presidente da Confraria Queirosiana, J.A. Gonçalves Guimarães, aí conviveu com diversos confrades e outros convidados também presentes, entre eles a Eng. Paula Carvalhal, da Fundação Eça de Queirós e o Senhor Madath A.  Jamal, Cônsul Honorário da Tunísia e da Associação do Corpo Consular do Porto para colaboração futura.

15 de julho – pela primeira vez desde 1975 que o presidente da direção da ASCR-Confraria Queirosiana se encontrou num restaurante em Caxarias, Ourém, com os seus antigos camaradas de armas da Companhia de Artilharia que esteve aquartelada em Chipera. Moçambique, nos finais da Última Guerra Colonial Portuguesa, o que já relembrou no artigo «Documentos pessoais em volta do 25 de Abril de 1974, com um abraço a Salgueiro Maia» publicado na Revista de Portugal, nº 21 de 2024, que na ocasião distribuiu pelos presentes. Entre vários deles foi abordada a situação associativa dos antigos combatentes, a publicação das suas memórias e a sua relação com os países onde prestaram serviço, neste caso, Moçambique. Novo encontro ficou marcado para setembro.

 

        J. A. Gonçalves Guimarães, o realizador Francisco Manso e Maria de Fátima Teixeira; 
            arquivo ASCR-CQ


21 de julho – a convite de Francisco Manso Filmes & Audiovisuais, realizador, produtor e  nosso confrade honorário, a Confraria Queirosiana esteve presente no Cinemax em Penafiel, na antestreia da sua mais recente realização, o telefilme "Correr o Fado", baseado no conto homónimo da autoria do nosso confrade de honra e escritor Dr. Alberto S Santos, atual Secretário de Estado da Cultura, que esteve presente, bem assim como o Dr. José Fragoso, diretor de programas da RTP1, que exibirá esta sua coprodução no próximo dia 27 de julho, segunda feira, no horário da noite. Presentes também muitos dos atores, técnicos e outros patrocinadores desta belíssima adaptação cinematográfica de um tema de profundas raízes portuguesas.

 

                                    Professores Nuno Resende e Mário Barroca; arquivo ASCR-CQ

23 de julho - a ASCR-CQ esteve presente na abertura da exposição «Portugal Triste/ Sad Portugal» composta por «fotografias amadoras e vernaculares da Coleção Nuno Resende: uma revisitação da imagem de Portugal (1850-1980), de que foi curador este professor da FLUP e nosso confrade, a qual estará patente ao público até 9 de outubro na Casa dos Livros (Palacete Burmester) da Universidade do Porto, ao Campo Alegre.

 

24 de julho, pelas 18 horas, na Livraria Sá da Costa, ao Chiado, em Lisboa, o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo e vice-presidente da ASCR-CQ, fez uma palestra sobre o novo e espetacular Grande Museu Egípcio, em Guiza, no Cairo, recentemente visitado nas suas últimas viagens de estudo ao roteiro queirosiano da Egito.


Distinções


                                            Professor Doutor Guilherme d’ Oliveira Martins

A 20 de julho passado, no Palácio de Belém em Lisboa, o Presidente da República António José Seguro, conferiu posse como Chanceler das Ordens Honoríficas Portuguesas ao Professor Doutor Guilherme d’ Oliveira Martins, docente da Universidade Lusíada, Lisboa e nosso confrade honorário, em conjunto com mais duas outras personalidades.

 

Publicações…


No passado dia 27 de junho, a memória da poetisa Florbela Espanca (1894-1930) ficou para sempre eternizada no Forte de São João da Foz no Porto, fortaleza onde ela viveu durante um dos seus efémeros casamentos. através do lançamento do livro Um amor de Flor Bela: Florbela Espanca e Luiz Maria Cabral, da autoria do nosso confrade de honra Manuel de Novaes Cabral, ali apresentado pelo confrade Joaquim Pinto da Silva, em representação de “O Progresso da Foz”, e pela confrade Professora Doutora Isabel Pires de Lima. Se há livros que não se medem pela sua dimensão mas pelo interesse do seu conteúdo, este é um deles, tendo sabido o autor contornar muito bem o que interessa sobre a biografia e a obra do poetisa do amor em chama viva e o inultrapassável gosto de estar a coletar memórias escritas, documentais, orais e fotográficas sobre um seu familiar, em todo o caso um homem singular, pois foi médico, profissão que nunca exerceu, músico e compositor de mérito, que viveu de rendimentos e deixou duas filhas de uma discreta vizinha, vivendo uma serena vida dupla até que a morte o surpreendeu, deixando rastos em alguns sonetos da flor bela de uja vida foi um meteoro.

Apos o lançamento do livro, e por iniciativa organizada pelo Instituto da Defesa Nacional (IDN) e pela associação “O Progresso da Foz”, integrada nas comemorações dos 50 anos daquele instituto, foi colocada numa das paredes uma lápide comemorativa de homenagem á poetisa alentejana ali em tempos residente.

 



O livro "Juntos e Justos: Construindo a Educação Inclusiva" de David Rodrigues, depois de ter sido editado no Brasil pela editora "Diálogos" foi editado em Portugal pela editora da Pró-Inclusão e lançado no 9º Congresso Internacional da Pró-Inclusão que realizou nos dias 23, 24 e 25 de julho na Universidade Lusófona de Lisboa e onde o autor foi um dos oradores convidados.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 215, sábado, 25 julho de 2026; propriedade da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot. com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A. Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Joaquim Pinto da Silva, Luís Manuel de Araújo.