domingo, 25 de outubro de 2020

Eça & Outras

Nous sommes tous Samuel!

         O título de uma das crónicas anteriores soa-me agora tristemente trágico. Quando perguntava se tinha chegado a hora dos historiadores, referia-me à constatação do reconhecimento que uma boa parte da sociedade parecia começar a ter pela sua ação profissional, quer na investigação quer no ensino, capaz de revelar aos seus concidadãos a possível verdade histórica, despida de preconceitos e de propósitos mistificadores, e assim ajudarem a compreender melhor o nosso quotidiano repleto de questões longínquas no tempo. Para se perceber melhor como o ser humano e as sociedades têm evoluído através da entreajuda e da fraternidade vividas em liberdade, ou pelo contrário, como têm regredido em épocas de egoísmos, violência e perseguição às diferenças étnicas e filosóficas que os indivíduos, as tribos e as nações carregam. Quando o papa Francisco proclama na sua encíclica Fratelli tutti, está a exprimir, com a santidade que lhe assiste, uma humana vontade de séculos de luta contra o obscurantismo e a intolerância que os historiadores conhecem melhor do que ninguém em todos os seus episódios, os quais não escondem nem devem jamais ser escondidos. Por isso quase sempre os historiadores são detestados, são perseguidos e são mesmo assassinados pelos intolerantes, os fanáticos, os que querem só para si uma parte da Humanidade, que só existe sendo de todos. Por isso há quem lhes prefira os mistificadores do passado.

         No passado dia 16 de outubro, nos arredores de Paris, foi morto um professor do ensino secundário de História e Geografia de 47 anos, de seu nome Samuel Paty, por um fanático emigrado de 18 anos, generosamente acolhido em França anos antes. Quais os aparentes motivos? Numa das suas aulas de Educação Cívica, a 5 de outubro, este professor tinha abordado a questão da liberdade de expressão e o direito a ser-se ou não crente, usando, como exemplo, umas caricaturas de Maomé que tinham sido publicadas no Charlie Hebdo, o jornal humorista francês atacado por extremistas islâmicos em 2015, do que resultou então vários mortos entre os caricaturistas presentes na redação. Logo depois o professor começou a ser insultado nas redes sociais, acabando por ser assassinado e decapitado perto da escola onde lecionava por um sujeito que não conhecia de lado nenhum, mas que, veio depois a saber-se, era conivente com uma rede de pais de alunos que não queriam aquelas aulas de formação cívica e que espiolhavam as opiniões e as aulas daquele professor. A França e o mundo livre levantaram-se indignados contra mais este ataque à liberdade de ensino e à laicidade da escola pública e, no fundo, à liberdade individual e à soberania da República Francesa. O professor, que assim foi sacrificado por um fanático e já não poderá dar mais aulas, foi desagravado pelo presidente da República e os franceses prestam-lhe homenagens, com a solidariedade de muitos historiadores e professores do mundo livre, a que humildemente nos associamos a esse gigantesco abraço ao colega assassinado. Se a sua morte em si já foi chocante, os requintes de malvadez traduzidos na decapitação com uma faca de grande envergadura ainda a tornaram mais sórdida. E de novo voltou a discussão sobre a abertura e acolhimento da Europa a fanáticos religiosos que querem ir para o seu céu fazendo vítimas na Terra.

         Ninguém ignora que muitos indivíduos mal formados se acoitam na desculpa religiosa para perpetrarem os seus crimes contra a humanidade. Mas as atitudes tenebrosas não são exclusivas de algumas seitas religiosas. Recentemente, entre 22 e 25 de março, duas jovens algarvias de 19 e de 23 anos com alguma formação profissional e socialmente inseridas - uma era segurança, outra enfermeira - assassinaram barbaramente um jovem seu conhecido que trabalhava no setor hoteleiro para lhe roubarem 70.000 euros que tinha recebido do seguro da morte da mãe que anos antes tinha sido vítima de acidente rodoviário. Depois do seu ato, decapitaram e desmembraram o jovem, tendo distribuído os seus restos mortais por vários sítios do Algarve. Dos dedos que lhe cortaram utilizaram as impressões digitais para desbloquearem o cartão bancário. Toda esta perversidade foi decalcada de um episódio de série policial das muitas que passam nos canais portugueses de televisão, onde o cidadão comum e os seus filhos são permanentemente aliciados para verem filmes de psicopatas, criminosos, traficantes e anormais de todo o género produzidos pela indústria americana do audiovisual e por cá vendidos pelas operadoras de telecomunicações. Mas então qual o “deus” ou que mitologia a desta “religião”, que também tem fanáticos e fundamentalistas e de que estas jovens portuguesas serão devotas? Obviamente o dinheiro, o vale tudo para um enriquecimento rápido e ilícito, certamente associado a outros comportamentos anti-sociais que ninguém terá estranhado, mas que deram nisto, e sem um pingo de humanidade ou de comiseração para com a sua vítima. Estas jovens esconderam o corpo, temendo as consequências do seu ato; o assassino do professor dos arredores de Paris fotografou o resultado do seu hediondo crime e exibiu-o no Twitter. O perigo para a nossa civilização não está pois apenas no fundamentalismo islâmico, pois ele vem de vários quadrantes, de várias crenças, algumas delas pacificamente instaladas em nossas casas à distância de um clique. Será que já estaremos naquela fase social em que marchamos como seres de antigamente «…contentes, sob o estalido do açoite, sem pensar mais e sem mais querer, porque a palavra essencial foi dita, eles são livres, e lá está Xerxes no seu carro de ouro para querer e pensar por eles»? (Eça de Queirós, Cartas de Paris. Ecos de Paris). É que o “eles”, somos nós, os que querem continuar a acreditar na liberdade, igualdade, fraternidade. Os Samuel de todo o mundo livre.

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana


No passado dia 30 de setembro faleceu Acácio Edgar Alves Luís nascido no Porto a 14 de abril de 1938. Antigo chefe de secção da Bayer, foi dirigente do Futebol Club do Porto nos anos sessenta, da Cooperativa do Povo Portuense, da Cooperativa Afons’eiro (Vila Nova de Gaia) e sócio de várias outras coletividades, entre elas o Clube Fenianos Portuenses e o Clube Nacional de Montanhismo (Árvore, Vila do Conde). Foi sócio e confrade de honra da associação Amigos do Solar Condes de Resende-Confraria Queirosiana, tendo sido insigniado a 25 de novembro de 2017. a quem ofereceu a biblioteca de seu pai, o positivista Manuel Inácio Luiz, bem assim como algumas peças, hoje históricas, que pertenceram ao centenário Mercado do Bolhão no Porto. Foi sepultado em jazigo de família no cemitério do Prado do Repouso no Porto.

A 17 de outubro passado teve início, no Solar Condes de Resende, o curso livre sobre o Antigo Egito, organizado pela Academia Eça de Queirós (AEQ/ASCR-CQ) e pelo Solar Condes de Resende, coordenado pelo egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, docente jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vice-presidente da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana (ASCR-CQ), da Associação de Amizade Portugal-Egito e diretor da Revista de Portugal. Estando previsto que a sessão de abertura tivesse uma palestra sobre «Migrações e integração social: a interculturalidade como fator de coesão», pelo sociólogo Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, por questões de agenda inadiáveis, como presidente da Câmara Municipal de Gaia, fez-se representar pela vereadora do pelouro da Cultura e da Programação Cultural, Eng.ª Paula Carvalhal, que na ocasião ressaltou a importância destes cursos na vida cultural do município e do próprio Solar. Seguidamente falou o Prof. Doutor José Manuel Tedim, presidente da direcção da ASCR-CQ e da AEQ saudando os presentes e aludindo à excelência destes cursos organizados pelo Solar Condes de Resende desde 1991 e desde 2008 com a colaboração da AEQ, e ainda mais recentemente certificados pelo Ministério da Educação através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente (CFAEGN), sendo este o 28.º curso. Em seguida, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre as alterações ao programa de curso anterior sobre Revoluções & Constituições provocadas pela pandemia, e a forma como serão resolvidas, bem assim como as que poderão ocorrer neste curso que agora começa. Apresentou depois o curriculum académico e a obra publicada do egiptólogo coordenador do curso, dissertando em seguida sobre «O que é que Vila Nova de Gaia terá a ver com o (Antigo) Egito?». No final Carlos Sousa, da direção da ASCR-CQ, referiu-se à plataforma informática do CFAEGN para certificação dos cursos aos alunos inscritos que exercem a docência nos ensinos base e secundário. A palestra anunciada para a abertura será de novo oportunamente agendada. Devido às medidas sanitárias que se prevêem é possível que o calendário deste novo curso também venha a ter várias adaptações. 

Aniversário de Eça de Queirós

No próximo dia 21 de novembro não haverá o habitual capítulo da Confraria Queirosiana, comemorativo do 175.º aniversário de Eça de Queirós. Mas para assinalar a efeméride vai decorrer no auditório do Solar Condes de Resende uma sessão evocativa com o lançamento da Revista de Portugal, nova série, n.º 17 que será apresentada pelo seu diretor o egiptólogo Luís Manuel de Araújo. 

Autores e livros


Com data de setembro passado acaba de ser publicada pelo Instituto Anglicano de Estudos Teológicos a brochura da autoria de António Manuel S. P. Silva intitulada Igreja Lusitana. Uma Breve História, comemorativa dos 140 anos desta entidade religiosa. Trabalho de divulgação histórica, apresenta a seguinte sequência de capítulos: “Um país sem Reforma com um protestantismo tardio”; “Antecedentes oitocentistas - a matriz anglicana”; “A reforma religiosa no norte do país”; “A fundação da Igreja Lusitana”; “Entre duas revoluções: o longo século XX”; e “Renovação e identidade – A Igreja em busca do seu tempo”, terminando com uma “Orientação bibliográfica” e um “Pequeno glossário”. Tratando-se de uma síntese, muito bem ilustrada, deixa indicações para quem quiser saber mais sobre a instituição.


No passado dia 17 de outubro foi lançado na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia o livro Balanço para o Futuro - Gaia cidade Sustentável e Humanista, coordenado pelo sociólogo e presidente da câmara Eduardo Vítor Rodrigues, com prefácio de Ramos Horta, Prémio Nobel da Paz. Abordando as alterações ocorridas no espaço municipal nos últimos sete anos, este livro pretende aproximar os cidadãos do debate democrático, prestando contas e informando sobre as grandes opções tomadas para o desenho da polis no presente e a estratégia para o desenvolvimento futuro daquele que já é o maior município da Área Metropolitana do Porto, cuja presidência é precisamente ocupada pelo autor. O livro estará á venda nas livrarias e o produto da sua venda reverterá a favor de instituições gaienses que apoiam a terceira idade.

Exposições

Coleção de Arte de Mário Cláudio

        Na Cooperativa Árvore no Porto abriu ao público no passado dia 10 de outubro a exposição da coleção de Arte reunida ao longo da vida por esse escritor, que assim encerra as comemorações dos seus 50 anos de vida literária, a qual estará aberta até ao dia 30 deste mês.

Adiamento de curso e congressos

Devido à situação sanitária do país que não recomenda nem deslocações nem ajuntamentos, vários têm sido os eventos culturais, nomeadamente cursos e congressos, que têm sido adiados, entre outros, a International Heritage Summer School organizada pelo CITCEM/ Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a colaboração das universidades de Santiago de Compostela e de Florença, dedicada ao Património Cultural, a Paisagem e a Construção de Identidades Territoriais, a qual decorrerá em Vila Nova de Foz Côa, no Museu do Côa, e em S. João da Pesqueira, remarcada para 19 a 24 de julho de 2021; também o Congresso Douro & Porto2020 - Memória & Futuro, organizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, remarcado para 19 a 21 de julho de 2021; e ainda o Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução de 1820, organizado, entre outras instituições, pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, remarcado para outubro de 2021. Em todos estes acontecimentos estão envolvidos, como professores ou como conferencistas, vários confrades queirosianos.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 146, domingo, 25 de outubro de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; c.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Eça & Outras

A escrita da História

         Mas então só os historiadores podem escrever sobre História? Numa sociedade livre e democrática não pode qualquer cidadão escrever sobre o que lhe dá na real gana? Há censuras, restrições corporativas? Depende. Experimentem fazer essas mesmas perguntas ou colocar essas mesmas questões mudando historiador para jurista sobre Direito, médico sobre Medicina, engenheiro sobre Engenharia, arquitecto sobre Arquitetura e terão logo metade da questão aclarada e a resposta dada. Mas sem esquecerem que existe a História do Direito, a História da Medicina, a História da Engenharia, a História da Arquitetura (ou, mais ampla, a da Arte). Aí responderia que talvez seja melhor os profissionais encontrarem-se e trabalharem em colaboração, unindo saberes e metodologias. Uma coisa é escrever sobre uma ciência humana, outra escrever versos, desabafos, opiniões, crónicas, memórias. Ou glosar ciência alheia em textos síntese.

          Mas isso é na estrita esfera dos saberes próprios de cada ciência. E na divulgação, na decomposição das grandes questões em explicações acessíveis aos não especialistas, aos alunos das escolas, ao público em gertida, achar-se que se podem alargar os furos do cinto do rigor quando se trata de divulgaral, podem outros, que não os historiadores, escrever sobre História? Direi que depende dos objetivos e da honestidade das metodologias a aplicar. Não é lícito, logo à pação e que se pode atrair o público misturando factos históricos com invenções ou delírios ficcionais. Quando tal acontece, se foi feito por historiadores profissionais, devem os mesmos ser corrigidos pelos seus pares; se tal for feito por outros profissionais, há que criticá-los na praça pública e se os seus relatos deliberadamente falaciosos estiverem ao serviço de entidades que com isso ganham dinheiro, há que denunciá-los às entidades de defesa do consumidor por estarem a vender um “ bacalhau podre” como se fora de boa qualidade. Se tal acontece num supermercado com os produtos alimentares, porque não pode acontecer com os “alimentos do espírito” que tão importantes são para a coesão das comunidades?

Podem (ou devem) então outros profissionais, nomeadamente os jornalistas, escrever sobre História? Depende, e logo em primeiro lugar, se estão ou não a roubar o trabalho aos historiadores. Nesse caso não podem nem devem. Mas o melhor é analisar dois exemplos relativamente recentes, um aceitável e outro mau.

Como se lembram, no ano 2000 voltaram à conversa as velhas superstições milenaristas, que antes de mais se esquecem que a “era cristã” nem sequer é universal. Dois jornalistas ingleses, Robert Lacey (formado também em História) e Danny Danziger, cavalgando a onda do interesse do público pelo assunto, escreveram o livro Ano 1000. Como se vivia na viragem do primeiro milénio, editado em Portugal pela Campo das Letras. Para tal serviram-se de um manuscrito, o Calendário Juliano de Trabalhos da Catedral da Cantuária, escrito por volta de 1020, no qual cada folha foi adornada com preciosos desenhos referentes às atividades próprias de cada mês. E a partir daí compuseram uma narrativa jornalística da época, mas muito bem fundamentada em excelente bibliografia historiográfica (que divulgam em notas e no final), tendo ainda o cuidado de consultarem muitos especialistas em Idade Média, arqueólogos e documentalistas, a quem pediram para lerem e corrigirem o seu texto antes de o publicarem, e cujos nomes constam nos agradecimentos finais. Eles próprios declaram que não escreveram um livro de História, mas sim um livro que incluísse as suas perguntas «a alguns dos mais eminentes historiadores e arqueólogos», criando assim uma obra tão agradável de ler quanto rigorosa nas múltiplas abordagens ao tema e remetendo quem quiser saber mais para as obras da especialidade consultadas.

Agora o mau exemplo. Português, para meu desgosto. Publicou recentemente a Visão Biografia o seu número 5, referente a julho/ setembro, dedicado a Eça de Queiroz. O génio da escrita, edição dirigida por Mafalda Anjos, licenciada em Direitoe jornalista, com um numeroso grupo de colaboradores. Não obstante a Biografia ser um exercício da História, não há entre eles um único historiador. E no entanto há ali não só capítulos biográficos sobre Eça e outros contemporâneos, como sobre a sociedade oitocentista, mas tudo muito pesado e déjà lu, sem quaisquer referências bibliográficas, tudo aparentemente saído da cabecinha pensadora destes não-historiadores. Mesmo quando, quase no fim, a publicação nos quer apresentar uma bibliografia queirosiana, não só faltam nela obras fundamentais, como a terceira edição do Dicionário de A. Campos Matos (apresentam a 2.ª do ano 2000!), como incluíram a hoje quase inútil Vida e Obra de Eça de Queiroz, de João Gaspar Simões, na versão de 1973. Sobre a Geração de 70 continuam a transmitir a ideia errada de que a mesma só era composta por literatos (ou pior ainda, de que no Portugal do tempo de Eça todo o conhecimento se reduzia ao dos literatos ou, vá lá, também a alguns artistas). Depois a repetição, pela enésima vez, de alguns erros biográficos, como o de que o escritor viajou «até ao Egito e Palestina com o futuro cunhado» (p. 11; o 5.º Conde de Resende nunca foi cunhado de Eça, pois morreu antes dele casar com sua irmã); que aquando dos jantares dos Vencidos da Vida o Marquês de Soveral era «diplomata em Roma» (p. 70), quando o era em Londres há muito tempo; segue-se a abundante, e também habitual, fantasia de confundir em leituras primárias a ficção queirosiana (metáforas literárias por excelência) com a realidade geográfica e factual da época, em várias páginas e artigos, e nenhuma alusão a factos determinantes, como a invenção em 1878 da telescopia elétrica, precursora da televisão, por Adriano de Paiva, seu condiscípulo em Coimbra (sabendo-se a militante curiosidade de Eça pelos inventos da sua época); ou mesmo a total omissão de factos fundamentais da sua vida e obra, como as duas namoradas que conheceu em Cuba, uma dos quais que com ele se irá cruzar mais tarde na Europa; a sua viagem aos EUA e ao Canadá «para ver o progresso»; a sua defesa intransigente dos direitos dos coolies, que deixou expressa num notável relatório só publicado em 1979, recentemente levada ao cinema por Francisco Manso, o que nem sequer é referido nesta publicação, embora lá se fale de outras versões cinematográficas. Para além de alguns testemunhos pessoais, que são o que são e valem o que valem, e de interpretações literárias de aspetos da obra por Carlos Reis e Isabel Pires de Lima, esta publicação não tem pois qualquer interesse como descrição e interpretação biográfica do escritor, pois, como já se disse, mesmo do ponto de vista iconográfico, é um déjà vu. Mas Eça continua a vender, mesmo o mais do mesmo.

«As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais», escreveu Eça, quando jovem (Prosas Bárbaras). Obviamente que nada temos contra o bom jornalismo. Mas a História não é um diletantismo jornalístico mas sim o estudo profissional persistente, sistemático, descobridor e explicativo das acções humanas e dos diversos ramos do saber. 

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Autores, livros e revistas

Um dos setores em franca recuperação nesta época de pandemia ativa é o da produção e divulgação do conhecimento escrito em livros e revistas. Mas para além da qualidade dos textos produzidos, começa agora a ser exigível a qualidade gráfica da obra publicada, cuja primeira preocupação deve ser, não a beleza do design, mas a facilidade de leitura. Um livro que ao ler canse o leitor por ter a letra demasiado pequena, imagens ilegíveis ou outras aberrações gráficas, não deve sequer ser editado. Os mínimos recomendados são letra corpo 12 e notas, legendas e bibliografia corpo 10, com imagens inteiras e legíveis, devidamente legendadas, E os direitos autorais referenciados e respeitados. Edita-se muito e isso é bom; exijamos agora qualidade para o prazer e utilidade da leitura.

Esboço 50 anos depois

        


Amanhã, dia 26 de setembro, no Solar Condes de Resende em Vila Nova de Gaia, integrado nas Jornadas Europeias de Património 2020, em que o tema este ano é “Património Educação”, o Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-Confraria Queirosiana), a Paróquia Lusitana de São João Evangelista (V. N. Gaia) e o Arquivo Histórico da Igreja Lusitana, com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, vão realizar a partir das 14,30 um colóquio intitulado “O Esboço: Património, Educação e Juventude nos anos sessenta”, em que serão oradores Eduardo Vitor Rodrigues sobre “A Educação como Património: ontem e hoje”; J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Perspetivas educacionais em Vila Nova de Gaia nos anos sessenta do século XX”; Joaquim Armindo Pinto de Almeida sobre “A pró-revista Esboço (1969-1970); Júlio Castro sobre “Os Jovens do Torne e o Movimento Ecuménico”; António Manuel S. P. Silva e outros sobre “A Igreja Lusitana e os Jovens do Torne: um Património da Memória”, seguido de debate e canções de luta dos anos sessenta, por David Rodrigues. No final da sessão será feita a apresentação da edição fac-similada dos três números publicados da pró-revista Esboço, a qual foi proibida de circular a 18 de maio de 1970 pela Direção dos Serviços de Censura «por ser ilegal e inconveniente no seu contexto», tendo os seus promotores sido objecto de inquérito pela PIDE. Esta edição, que recebeu o título de Esboço – boletim dos Jovens do Torne: 50 anos de persistências 1970-2020, para além das páginas fac-similadas da revista, apresenta textos alusivos de António Manuel S. P. Silva; David Rodrigues; J. A. Gonçalves Guimarães e Joaquim Armindo Pinto de Almeida, ficando disponível para venda on line.

Grande Prémio do Romance e Novela   

As novelas Um verão assim, As máscaras de sábado e Damascena, de Mário Cláudio, apareceram à venda no passado dia 25 de agosto reunidas no volume Três Novelas, também lançado na Feira do Livro do Porto em sessão de autógrafos do autor. Entretanto a 14 de setembro este foi de novo agraciado pela Associação Portuguesa de Escritores/ Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas com o Grande Prémio do Romance e Novela 2019 pela obra Tríptico da Salvação editado pela D. Quixote. Mário Cláudio já tinha sido distinguido com este prémio em 1984, com Amadeu e em 2014 com Retrato de Rapaz.           

Porto visto de cima


No passado dia 10 de setembro a editora Centro Atlântico apresentou na Igreja da Misericórdia do Porto a obra Porto Visto de Cima / From Above, com texto de José Manuel Alves Tedim e fotografia de Libório Manuel Silva. No dia seguinte foi a mesma obra apresentada na Feira do Livro do Porto com sessão de autógrafos pelos autores.

Geografia do Porto 

        


No passado dia 10 de Setembro, também na Feira do Livro do Porto foi lançado o livro Geografia do Porto coordenado por José Alberto Rio Fernandes, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, acompanhado de uma extensa equipa de colaboradores, entre eles os arqueólogos António Manuel A. S. Silva e Sérgio Monteiro-Rodrigues que escreveram o capítulo «Das origens da ocupação humana às origens da cidade», contribuindo assim para a compreensão do cenário geográfico que chegou aos nossos dias.




Amigos de Gaia

Encontra-se em distribuição o Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, n.º 90, referente a junho de 2020, com artigos de Jaime Milheiro, Virgília Braga da Costa e Salvador Almeida, entre outros. 

Eça no Brasil     


Pela mão amiga do Dr. Ricardo Haddad chegaram-nos do Brasil os dois volumes de Eça de Queirós. Ensaios e Estudos. S. Paulo: Biblioteca 24X7, 2010, de Sylvio Lago, membro de várias academias brasileiras nascido em 1939, com uma extensa bibliografia de ensaios sobre Literatura, Música e outros temas culturais. Nestes dois volumes aborda desde questões biográficas do escritor, como «Raízes brasileiras e a infância de Eça de Queirós», a Geração de Setenta, aspetos da escrita, técnica narrativa e pensamento, personagens, outros escritores contemporâneos, como Camilo, Machado, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão e outros, a popularidade de Eça no Brasil e a sua influência na Literatura Brasileira e, por fim, uma Bibliografia Queirosiana. Embora muitos destes temas já tenham sido abordados por muitos outros biógrafos e ensaístas, permanecendo em muitos deles controvérsias e contradições, é sempre interessante comparar as conclusões e os novos pontos de vista que vão surgindo. E sobretudo como é que o Brasil culto continua a dedicar uma enorme atenção e apreço à vida e obra de Eça de Queirós, cujo pai, o juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, recorde-se, nasceu no Rio de Janeiro em 1820, no ano da Revolução que tão determinante seria para Portugal e para o próprio Brasil e da qual estamos a comemorar os 200 anos.

Palestras, conferências e workshops

         No passado dia 11 de setembro pelas 21 horas, decorreu no espaço Porto CCD o encontro “Júlio Machado Vaz à conversa com Jaime Milheiro” promovido pela Universidade Sénior Eugénio de Andrade.

         Nos próximos dias 28 e 30 de outubro, Francisco José Viegas, editor e autor de romances policiais, vai realizar um workshop intitulado «À beira do abismo – uma introdução à Literatura Policial».

Vida académica 

“Última aula”

         No próximo dia 28 de setembro pelas 16,50 horas no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra, o Professor Doutor Carlos Reis, catedrático daquela universidade e autor de notável obra sobre Literatura Portuguesa na qual sobressaem os estudos queirosianos, proferirá a sua lição de jubilação, a qual será também transmitida pelo sistema streaming através da ligação uc.pt/ em direto.

Revolução de 1820

         Com coordenação de Francisco Ribeiro da Silva e outros, encontra-se patente ao público desde 15 de julho no Museu da Misericórdia do Porto a exposição «A Misericórdia do Porto e a Revolução Liberal 1820-1834», a qual encerrará no dia 2 de novembro próximo.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 145, sexta-feira, 25 de setembro de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; c.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Eça & Outras

Chegou a hora dos historiadores?

       No passado dia 17 de agosto o Congresso Nacional do Brasil aprovou a lei que regulamenta o exercício da profissão de historiador, a qual só pode ser exercida por «portadores de diploma do curso superior em História, expedido por instituto regular de ensino» (Art.º 3.º – I), os quais têm como atribuições (Art.º 4.º) o «I - magistério da disciplina de História…; II - organização de informações para publicações, exposições e eventos sobre temas de História; III – planejamento, organização, implantação e direção de serviços de pesquisa histórica; IV – assessoramento, organização, implantação e direção de serviços de documentação e informação histórica; V – assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos para fins de preservação; VI – elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos»; (Art.º 5.º) «Para o provimento e exercício de cargos, funções ou empregos de historiador, é obrigatória a comprovação de registro profissional…»; (Art.º 6.º) «As entidades que prestam serviços em História manterão, em seu quadro de pessoal ou em regime de contrato para prestação de serviços, historiadores legalmente habilitados»; (Art.º 7.º) «o exercício da profissão de Historiador requer prévio registro perante a autoridade trabalhista competente». Este diploma, publicado no Diário Oficial, resultou de um parto difícil, pois foi inicialmente vetado pelo atual presidente da República, o qual, embora se chame Jair Messias Bolsonaro, não precisará de ser profeta para adivinhar o que a História dele dirá. Regressado o projeto de diploma ao Senado voltou a ser votado e desta vez favoravelmente pelo que o presidente foi obrigado, nos termos da lei e ainda que a contragosto, a promulgá-lo. É sem dúvida uma grande vitória para os historiadores brasileiros e, por extensão que se adivinha, para os de todas as nacionalidades dos PALOP´s, onde, mais tarde ou mais cedo, face ao descalabro existente, a necessidade da regulamentação da profissão se imporá. A grande mentora deste regulamento tem sido a ANPUH – Associação Nacional de História do Brasil, fundada em 1961 e com delegações em todos os estados, a qual representa os historiadores profissionais das áreas do ensino, arquivo, museologia e património histórico, e que agora se empenhará na aplicação desta lei. Também desde 17 de dezembro de 2009 que, por decreto-lei, a 19 de agosto se comemora o Dia do Historiador em homenagem a Joaquim Nabuco (1849-1910), abolicionista e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, que nesse dia nasceu em Pernambuco. Este ano o motivo para festejar foi o estatuto profissional acabado de publicar, recordando que o historiador é aquele que «veio para ressuscitar o tempo», como Carlos Drummond de Andrade escreveu num seu poema.

         E entretanto em Portugal? Além de não haver qualquer associação semelhante, mas apenas instituições que, embora se reclamem da História, têm como sócios muitos indivíduos com outras formações, profissões e ocupações com as quais, entretanto, se terão zangado ao longo da vida, achando que podem vir, quantas vezes já na reforma, à profissão de historiador “fazer uma perninha”, nada contribuindo pois essas associações para o prestígio do exercício profissional porque na realidade usam a História como um fait divers decorativo cultural e social. Até à data apenas os arqueólogos, esses historiadores da cultura material, talvez pelo facto de terem de lidar no mercado de trabalho com empreitadas e contratos, despertaram mais cedo para a necessidade da organização profissional. Tendo sido criada em Lisboa, ainda no século XIX, uma Real Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses, na época em que já se sabia que «as ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais» (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras), logo em 1911, com a saída dos arquitetos para associação própria, passou a denominar-se Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP), gerindo o Museu Arqueológico do Carmo e procurando chamar a atenção para a arqueologia em Portugal. Mas durante muitos anos não foi seguramente uma associação profissional, mas sim, tirando algumas exceções, apenas uma agremiação de amadores de antiguidades. Felizmente hoje já não é assim e esta centenária instituição tem já uma secção de profissionais da Arqueologia.

         Para suprir essa ausência organizativa, na década de noventa do século passado, no primeiro mestrado em Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto nasceu uma comissão denominada Pró-APA (Pró-Associação Profissional de Arqueólogos) que após meses de reuniões e debates em vários locais do país (entre eles o Solar Condes de Resende), em dezembro de 1992 legalizou esta associação, que viria a prestar um valioso contributo ao exercício da profissão, publicando um Código de Ética e muitos outros textos programáticos, graças à notável acção de alguns dos seus então dirigentes, como António Manuel Silva e Luís Raposo. Passado o testemunho do seu funcionamento às gerações mais novas, estas não souberam mantê-la. Mas entretanto foi criado o Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia – STARQ, uma estrutura vertical que engloba não apenas os arqueólogos, mas também os antropólogos físicos e os técnicos e operários de Arqueologia. Tem pois por objectivo as questões laborais de todo o setor, não sendo portanto uma associação profissional.

Neste momento é este o panorama da falta de organização e de consciência profissional dos historiadores na atual sociedade portuguesa, frequentemente confundidos com amadores que invadem as suas atividades ou com profissionais de outras áreas que as abocanham, por exemplo, encomendas de monografias e de outros estudos históricos para autarquias ou entidades privadas.

       Em entrevista concedida a João Céu e Silva no Diário de Notícias de 9 de maio passado, o escritor J. Rentes de Carvalho disse o seguinte: «Nas universidades e no público os historiadores [portugueses] estão hoje, o que é um desastre e grande pena, relegados a um lugar menor. Perderam muito da sua importância e da influência que tinham, as suas opiniões tornaram-se quase só notas de rodapé que os jornalistas usam quando fingem querer dar peso ao que escrevem. Há poucos com grande competência e são cada vez menos os que lhes prestam atenção».

         Creio bem que dificilmente se poderia dizer melhor sobre a actual situação dos historiadores em Portugal. Mas todos os dias raia uma nova aurora, até neste distraído setor profissional.

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana


Juiz Desembargador Jubilado

Dr. António Alberto do Amaral Coutinho Calheiros Lobo


         No passado dia 23 de agosto faleceu em Espinho o Juiz Desembargador jubilado Dr. António Alberto do Amaral Coutinho Calheiros Lobo. O ilustre finado desempenhou relevantes cargos ao longo da sua carreira no Ministério da Justiça, tendo passado por diversos tribunais em Portugal, Guiné. Angola e Moçambique, até á sua jubilação como juiz desembargador da Relação do Porto. Além de sócio e confrade dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, era também membro de várias instituições nacionais. As cerimónias fúnebres decorreram hoje, terça-feira dia 25 de agosto, pelas 10 horas da manhã na Igreja Católica de Espinho, tendo-se a Confraria feito representar por vários membros dos corpos gerentes e outros associados e confrades.

Revolução de 24 de Agosto de 1820

 Professor Doutor Jorge Fernandes Alves    
    

     Passaram ontem, duzentos anos sobre a Revolução Constitucional. O que ela representou para a tentativa de modernização de Portugal e do reassumir da sua posição no concerto das nações está a ser reequacionado por muitos historiadores no aprofundamento de aspectos inéditos, pouco conhecidos ou em trabalhos de síntese. É o caso do Professor Doutor Jorge Fernandes Alves que acaba de publicar no Público um artigo intitulado «De 24 de Agosto à Aurora da Liberdade», e ainda um outro sobre «José Ferreira Borges. Um liberal entre as leis e os exílios» os quais fazem parte de uma série de trabalhos sobre a efeméride intitulada «200 Anos da Revolução Liberal» que este jornal, de que é diretor o jornalista e historiador Manuel Carvalho, publicados entre os dias 15 e 27 deste mês e da autoria de vários historiadores.

Entretanto irá em breve prosseguir no Solar Condes de Resende o curso livre sobre Revoluções & Constituições, organizado pela Academia Eça de Queirós da Confraria Queirosiana, o qual foi interrompido pelo estado de emergência motivado pela pandemia, faltando apenas duas sessões para a sua conclusão.

         Também alguns investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património da mesma associação têm desenvolvido trabalhos nesta área, alguns já apresentados, outros a serem divulgados em congressos que decorrerão até ao final do ano, bem assim como apresentados em provas académicas.                 

Observatório do Vinho do Porto

Professor Doutor Carlos Melo Brito  

          Foi recentemente criado em Vila Nova de Gaia o Observatório do Vinho do Porto que tem como funções a defesa da sua genuinidade e incentivo à sua divulgação e exportação. Dos corpos gerentes fazem parte, entre outros, Albino Jorge da Silva e Sousa, profundo conhecedor do sector, e Carlos de Melo Brito, doutorado em Marketing, vice-reitor da Universidade Portucalense e autor do livro Estrutura e Dinâmica do sectordo Vinho do Porto (1997) entretanto eleito seu presidente. Uma das primeiras acções desta agremiação tem sido a campanha para a reposição do «selo à cavaleiro» no gargalo das garradas pelo qual o IVDP atesta a genuinidade do produto e que várias gerações de consumidores se habituaram a identificar como tal.              

Santeiros de S. Mamede do Coronado

Prof. Doutor José Manuel Alves Tedim

       No concurso da RTP sobre as 7 Maravilhas da Cultura Popular estão a participar diversas candidaturas, entre elas a dos Santeiros de S. Mamede do Coronado, Trofa, que se evidenciou como uma das mais votadas. Nesta freguesia concentraram-se durante gerações os escultores de imagens religiosas em madeira, depois policromadas, existentes em igrejas, santuários e capelas católicas, mas também em museus e coleções particulares e, um pouco por todo o mundo, onde existem emigrantes e descendentes de portugueses. Pujante nos séculos XVIII e XIX, esta actividade tem vindo a decair sobretudo a partir dos anos setenta do século passado.

         O padrinho desta candidatura é o investigador e docente de História da Arte, Prof. Doutor José Manuel Alves Tedim, ele próprio descendente de uma das mais prestigiadas famílias destes criadores de Arte devocional católica. A declaração oficial das 7 Maravilhas da Cultura Popular será feita na RTP1 no dia 3 de setembro.

Doutor Adrião Pereira da Cunha

Em entrevista ao Diário de Notícias de 25 de junho passado, o Doutor Adrião Pereira da Cunha, autor de Humberto Delgado no Portugal de Salazar. Porto: Afrontamento, 2018, explicou aos leitores porque, após uma carreira de décadas a trabalhar em empresas nacionais e internacionais, decidiu aos 65 anos retomar os seus estudos universitários na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde concluiu uma licenciatura, depois o mestrado e o doutoramento em História Contemporânea, o qual esteve na origem da publicação da obra acima referida, continuando hoje ligado aos seus centros de investigação. Mas entretanto também por esta Universidade, entre avós, netos e outros membros da Família Pereira da Cunha, passaram em tempos recentes dez dos seus membros, que obtiveram vários graus académicos nas faculdades de Belas Artes, Engenharia, Letras e Medicina. Nas palavras do entrevistado, a sua experiência e o seu sucesso deram-lhe a sensação de «como ser jovem outra vez», pois não se sente com vocação para ser um daqueles «que morreram ontem e não deram fé».

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 144, terça-feira, 25 de agosto de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 6285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras. blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

 

 

sábado, 25 de julho de 2020

Eça & Outras, sábado, 25 de julho de 2020

Espírito de seita

       Ouvimos recentemente ler e comentar a acusação do Ministério Público contra os banqueiros e respetivos familiares e amigos íntimos implicados no caso BES. E o país não ficou surpreso nem se indignou: «à justiça o que é da justiça» disseram alguns salomonicamente, esquecendo que esse tal Salomão não tem nada a ver com a nossa realidade atual, nem vai valer ao rombo patrimonial que aqueles pronunciados provocaram na economia geral do país, para além dos estragos na daqueles que neles confiaram. Aqueles políticos que alto e bom som proclamaram nas vésperas do desastre, ou já com ele a decorrer, que o grupo era sério, sólido e confiável, deveriam ser, pelo menos, pronunciados por publicidade enganosa, pois tinham acesso a elementos que os outros cidadãos não tinham: informação privilegiada e contato pessoal, íntimo, quando não familiar, com os arguidos. Participaram assim também indiretamente na burla monumental, pelo menos moralmente. E para lições de moral aos seus concidadãos, alguns deles sempre se mostraram muito expeditos. Mas não para consumo próprio. Uns verdadeiros Frei Tomás, até porque coincide que muitos deles (os implicados e os amigalhaços) se apresentam habitualmente como pessoas muito religiosas. Mas o país não se indignou, como não o fez com casos anteriores, porque em Portugal há a estúpida tradição da novela açucarada, do “bandido” charmoso e filho de “gente de bem” ou “vindo do nada”, que “o que teve foi azar”: os Alves dos Reis, as Dona Branca, são apenas alguns exemplos caricaturais, que outros houve antes destes, quer no tempo da 1.ª República, quer ainda na Monarquia. Então o que é que explicará a eternização da tendência nacional para a corrupção desenfreada, da pequena habilidade paroquial à grande fraude fiscal ou bancária? A resposta só pode ser o que poderemos chamar de “espírito de seita”, endócrino na sociedade portuguesa. A sociedade organiza-se em grupos segundo a Lei, desde a família, passando pelas religiões, pelos departamentos do Estado (economia e finanças, militares, polícias, justiça, educação, cultura, saúde e ambiente…) e pelas associações civis (partidos políticos, ordens profissionais, associações empresariais, sindicatos, clubes desportivos e outros, associações cívicas…) e pelas corporações empresariais (associações de banqueiros ou de empresários, de produtores de bens e de serviços e da sua comercialização, de proprietários…). Todas estas organizações visam, cada uma à sua maneira e na parte que lhe cabe, o bem público, com atividades previstas e regulamentadas na Lei e com a possibilidade de um controle efetivo sobre elas por parte dos diretamente interessados e, de um modo geral, de toda a sociedade através de mecanismos administrativos claros. Mas se assim é, o que é que falha na sociedade portuguesa ou, pelo contrário, como é que que alguns indivíduos e grupos alcançam tanto sucesso momentâneo e tão reiteradamente obtêm proventos indevidos através de muitas destas instituições? A razão só pode estar no “espírito de seita” que está para além e que é transversal a muitas delas. Ao contrário da clareza, publicidade e autocontrole das instituições, as seitas têm objetivos particulares e obscuros que nada têm a ver com o bem comum mas apenas com o particular ou o de pequenos grupos que se protegem e promovem entre si na clandestinidade, ou publicamente através de encenações que, quantas vezes, escondem atividades oportunistas ou mesmo caídas na esfera da justiça, realizadas à margem da cidadania e do escrutínio público. Outras vezes estão ao serviço de organizações internacionais que se acham acima dos interesses dos estados. As seitas, obviamente sem nome nem estatutos, servem-se das religiões, dos partidos políticos, controlam as agremiações profissionais e influenciam em proveito próprio as instituições democráticas, das quais aliás desdenham, colocando estrategicamente em lugar de destaque os seus subservientes e os seus “peões de brega”. A “cunha”, o “empenho”, a chantagem, quando não a ameaça, fazem depois o resto. É essa a prática das seitas que têm levado o nosso país, de escândalo em escândalo, a caminho da ignomínia total: «esta decadência tornou-se um hábito, quase um bem-estar, para muitos uma indústria. Parlamentos, ministérios, eclesiásticos, políticos, exploradores, estão de pedra e cal na corrupção… Contra este mundo é necessário ressuscitar as gargalhadas históricas… E mais uma vez se põe a galhofa ao serviço da justiça!» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre).

J. A. Gonçalves Guimarães

Mesário-mor da Confraria Queirosiana

 

Autores, Livros e Revistas


   Editado em 2019 pela Imprensa da Universidade de Coimbra, encontra-se disponível, também em acesso digital, o livro Eça Naturalista: O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio na imprensa coeva, da autoria do Prof. Doutor António Apolinário Lourenço, do departamento de Línguas, Literaturas e Culturas daquela universidade. Uma exaustiva abordagem do impacto jornalístico daquelas obras excecionais no Portugal tacanho e beato da segunda metade do século XIX.

 

No passado dia 3 de junho, no salão nobre do Quartel de Santo Ovídio na Praça da República no Porto, e no âmbito das Comemorações do Bicentenário da Revolução de 1820, foi lançado o livro de bolso Porto Liberal. Guia de Arquiteturas, Sítios e Memórias, coordenado pelo historiador Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva, o qual apresenta quatro roteiros ligados à implantação do Liberalismo naquela cidade, tendo como referências, entre outros, a Igreja e cemitério da Lapa, o Museu e a igreja da Misericórdia, o Museu Soares dos Reis e, no município de Vila Nova de Gaia, o Mosteiro da Serra do Pilar, para onde, já em 1840 se preconizava que o mesmo passasse a denominar-se «…o Baluarte da lealdade, valor e patriotismo… aonde será levantado um monumento eterno em memoria do Grande Homem: ali irão os corações generosos, pagar o grato tributo de admiração e saudade pelo seu Libertador, e as gerações futuras aprenderão desse tumulo a detestar os tiranos e a amar a Liberdade» (O Cerco do Porto de 1832 para 1833. Por um Portuense [1. ª edição, 1840]. Porto: Universidade do Porto editorial, 2010, p. 178). 

 

Se este ano for veranear para as praias da região entre Leiria e Peniche, tem à sua disposição o interessantíssimo guia Da foz do Lis a Peniche, parte da obra monumental Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, composta por 11 volumes editados entre 1904 e 1910, da autoria de Adolfo Loureiro (1836-1911), que foi militar, engenheiro, escritor, poeta e político. A presente edição foi coordenada por Ricardo Charters d’ Azevedo, guia, profundo conhecedor da região e das suas gentes, sobre as quais já publicou copiosa bibliografia e desta feita é o autor da introdução, transcrição e notas que lhe dão conta das similitudes que perduram e das diferenças que aqui ocorreram na geomorfologia e na paisagem em pouco mais de um século.

 

        Referente a maio de 2020 encontra-se disponível para consulta o n.º 2004 da revista Colóquio/Letras editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, dedicada à “Geração de 70” e organizada pelo Professor Doutor Carlos Reis. Entre os muitos artigos sobre o tema, encontra-se na secção Documentos o trabalho intitulado «O projecto da “Revista Ocidente”: Três cartas inéditas de Oliveira Martins a Batalha Reis», da autoria de Guilherme de Oliveira Martins.


Aguçar o Paladar

     O boletim Aguçar o Paladar, da Real Confraria da Cabra Velha, coordenado por Artur Fernandes, no seu número 15 de 18 de julho passado republicou, com a devida autorização do autor, o texto «Nos 90 anos de J. Rentes de Carvalho» publicado nesta página a 25 de maio e no jornal As Artes Entre As Letras de 24 de junho passados.

 

Mário Cláudio no Solar Condes de Resende, 2007.

         Pela terceira vez o escritor Mário Cláudio venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2019, com o romance Tríptico de Salvação editado pela Editorial D. Quixote e coincidente com os seus 50 anos de vida literária. Já tinha vencido o mesmo prémio em 1984 com Amadeo e em 2014 com Retrato de Rapaz. À presente edição deste prémio, que tem também o patrocínio da Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), e os apoios da Câmara Municipal de Grândola, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Instituto Camões, concorreram sessenta obras.

         Mário Cláudio é Confrade de Honra queirosiano desde 24 de novembro de 2007, em homenagem à sua autoria do romance As Batalhas do Caia, criado a partir do conto inacabado de Eça de Queirós «A Catástrofe» e dos acontecimentos biográficos dos últimos anos de vida do escritor.

 

Confederação Portuguesa das Coletividades

A Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto, que há mais de 40 anos representa o Movimento Associativo Popular e de que a ASCR-CQ faz parte através da sua filiação na Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, no passado dia 16 de julho foi agraciada pelo Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, como Membro Honorário da Ordem do Infante D. Henrique, numa cerimónia que decorreu na Sala dos Embaixadores do Palácio de Belém. A delegação da CPCCRD presente ao ato era chefiada pelo seu presidente da mesa do congresso, Dr. Francisco Barbosa da Costa, que recebeu do chefe de Estado a placa honorífica desta distinção.


ASCR - Confraria Queirosiana

         No passado dia 30 de junho pelas 18 horas decorreu no Solar Condes de Resende a assembleia geral eleitoral dos sócios da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana para eleição dos corpos gerentes para o mandato de 2020 a 2024, a que concorreu uma lista proposta pela anterior direção, e que reúne aqueles sócios que manifestaram a vontade de trabalharem em prol da associação. Pelas 21 horas no mesmo dia e local decorreu a assembleia geral ordinária para a apresentação do Relatório e Contas referente ao ano de 2019. Os novos corpos gerentes passaram a ter a seguinte composição: assembleia geral: presidente da mesa, César Fernando Couto Oliveira; secretários: Henrique Manuel Moreira Guedes e Nuno Miguel de Resende Jorge e Mendes; secretários suplentes: Marcus Vinícius Cocentino Fernandes e Paulo Jorge Cardoso Sousa Costa; direção: presidente, José Manuel Alves Tedim; vice-presidente: Luís Manuel de Araújo; secretário: Joaquim António Gonçalves Guimarães; tesoureira: Amélia Maria Gomes Sousa Cabral; vogais: Manuel Maria Moreira, Susana Maria Simões Moncóvio, António Pinto Bernardo; vogais suplentes: Carlos Alberto Dias de Sousa, Manuel Guimarães da Fonseca Nogueira; conselho fiscal: presidente, Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa; secretário, Fernando Rui Morais Soares; relator, António Manuel Santos Pinto da Silva; relator suplente, Licínio Manuel Moreira Santos.

Na primeira reunião realizada a 9 de julho a direção nomeou os responsáveis pelas comissões de trabalho permanentes: Confraria Queirosiana; Academia Eça de Queirós; Gabinete de História, Arqueologia e Património; Logística; Itinerários Queirosianos; Arte e Editorial.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 143, sábado, 25 de julho de 2020; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras. blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-164 A); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos.