domingo, 25 de outubro de 2015

Eça & Outras


Dicionário de Eça de Queiroz
de A. Campos Matos

Acaba de ser lançada no mercado a 3.ª edição revista e ampliada do Dicionário de Eça de Queiroz, organizado e coordenado por A. Campos Matos e editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, com a colaboração da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Letras. Trata-se de um “livro-monumento” com 1470 páginas o qual, como escreve o seu criador na «nota preambular da presente edição», este «foi o primeiro dicionário literário de autor em Portugal», aparecido em 1988, com 2.ª edição revista e aumentada em 1993, mais um suplemento em 2000 e agora esta terceira edição com um total de 1113 verbetes e 103 colaboradores, entre eles, para além de A. Campos Matos, que assegura a autoria do maior número de entradas temáticas, também de Américo Guerreiro de Sousa, Dagoberto Carvalho J.or, Guilherme de Oliveira Martins, J. A. Gonçalves Guimarães, Isabel Pires de Lima, Luís Manuel de Araújo, Mário Vieira de Carvalho, Susana Gonçalves Guimarães, e muitos outros, sendo citados em vários verbetes, Norberto Barroca, Paulo Sá Machado, Jaime Milheiro, Ana Teresa Peixinho, Carlos Reis, Ana Margarida Dinis Vieira e outros autores queirosianos portugueses e brasileiros.
            Perante a evidência desta obra não haverá muito a dizer, porque o melhor é lê-la, usá-la e desfrutá-la, quer como instrumento de trabalho na busca de uma maior e aprofundada procura da compreensão do universo queirosiano, mas também por puro deleite intelectual. Para além de capítulos imprescindíveis, como a (ainda mais) atualizada “Cronologia” sobre a vida e época do escritor, o “Esquema cronológico das obras”, e o “Esquema cronológico dos póstumos”, ou mesmo os “Índices” onomástico e temático, bibliografia essencial, notícias críticas sobre a 1.ª edição, índice remissivo, e a “ Bibliografia atualizada, desde 2000, seletiva”, este Dicionário abrange não só todos os grandes temas queirosianos, mesmo os “problemáticos”, como a questão do nascimento do escritor, as suas doenças ou fontes de inspiração, mas também as novas abordagens como “Atualidade de Eça de Queiroz. Sete reflexões”, de A. Campos Matos; Erotismo queirosiano”, por Ana Luísa Vilela; “Homossexuais”, pelo coordenador; “ Palestina”, idem; “Pamplona Carneiro Rangel, Manuel”, pelo autor destas linhas e sua filha Susana Gonçalves Guimarães; “ Relações da família de Eça de Queiroz com os críticos” ainda pelo coordenador; “(A) República e Eça”, idem; “Semitismo e Antissemitismo, idem; “Sexo e sensualidade em Eça de Queiroz”, idem; “Sonhos”, idem; “Verdemilho”, por Jorge Henriques, para só falar em alguns daqueles verbetes que vieram atualizar a problemática da vida e obra do escritor.
            Obra gigantesca, séria, prática e útil, resultado do labor de toda uma vida devotada ao escritor por quem continua a surpreender-nos com novas edições, como o Diário Íntimo de Carlos da Maia, dirão que, como seu ínfimo colaborador sou parte pouco isenta nesta apreciação. É possível mas, perante a evidência da sua qualidade global, tal critica não terá qualquer interesse. Como escreveu Eça de Queirós ainda jovem moço, «Hoje, que tudo é imenso e exagerado, nesta vida moderna, cujo verdadeiro nome é paroxismo, pouco se pode ler: os livros sucedem-se: poemas, histórias, romances, poesias, críticas, ciências, dicionários, tudo nasce, passa, voa, é lido, estudado, esquecido e lançado ao monturo. Para colher uma ideia, para saber um facto, para escolher uma opinião, é necessário ir duns a outros, sem cessar, correndo, ler uma página, relancear a vista por um índice, colher na passagem o título de um capítulo. Hoje há mais coisas a saber: o mais pequeno sábio não pode ter a sua pequena consciência satisfeita sem ter lido mil livros, aberto crédito a mil sistemas. Quem sabe onde nos levará este abuso do espírito?» (Eça de Queirós, Distrito de Évora, 1867). A resposta deixo-a ao leitor.
Mas este Dicionário virá ajudá-lo, e muito, no que diz respeito ao universo queirosiano. As possíveis falhas ou omissões da obra são aqui como os coruchéus que faltam nas Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha. Se lá não estão, percebe-se onde deviam estar, mas não fazem grande falta à sua incontornável monumentalidade. E, além do mais, este livro não é uma mostra de paleontologia literária ou ensaística, mas sim uma maternidade de estudos a haver. O coordenador continuará embebecido a acolher cada novo contributo insuspeitado sobre a vida, a época e a obra de Eça de Queirós, que esta sua opera maxima, na próxima edição, continuará a admitir.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Faleceu Beatriz Berrini

           
Beatriz Berrini e Dagoberto Carvalho J.or
www.diariodepernambuco.com.br


    No passado dia 24 de setembro faleceu em São Paulo, Brasil, a Professora Doutora Beatriz Berrini, uma das maiores autoridades sobre a obra de Eça de Queirós. Doutorada em Letras pela Universidade de São Paulo em 1982 com a tese “Portugal de Eça de Queiroz”, foi professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, em Portugal, membro do conselho cultural da Fundação Eça de Queiroz em Baião. Responsável pela publicação da Obra Completa do escritor no Brasil no ano 2000, são de sua autoria muitos outros títulos, como Comer e Beber com Eça de Queiroz, Rio de Janeiro, 1995, onde teve a colaboração de Maria de Lurdes Modesto, o qual permanece como uma referência obrigatória no que diz respeito à gastronomia dita queirosiana. Na foto acima, com o seu grande admirador e discípulo Dagoberto Carvalho J.or

Guilherme d´ Oliveira Martins

            No passado dia 30 de setembro, festejando os 70 anos do Centro Nacional de Cultura em Lisboa, decorreu o primeiro de um conjunto de quatro encontros sobre ciência, política e cultura científica, em homenagem a José Mariano Gago, ex-ministro da Ciência falecido em abril, na abertura do qual o presidente da direção do CNC, Guilherme d’Oliveira Martins, defendeu que «Não há cultura sem haver cultura científica». Além de presidente do Tribunal de Contas, conferencista, autor de diversos livros e de uma crónica quinzenal no Jornal As Artes Entre as Letras, foi recentemente indigitado para administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

João Nicolau de Almeida

            Em 1990 João Nicolau de Almeida criou o Duas Quintas a partir das uvas da Quinta da Ervamoira e da Quinta dos Bons Ares, vinho esse que acabaria por mudar o paradigma dos vinhos de mesa durienses. Em 1998 o seu criador foi eleito pela revista Wine and Spirits “homem do ano e um dos 50 enólogos mais influentes do mundo”. Em tempos recentes foi doutorado “honoris causa” pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Consta que vai deixar o seu lugar na Casa Ramos Pinto para se dedicar a um novo projeto vinícola com os seus filhos através do vinho Monte Xisto. Não cremos que na realidade se vá reformar, pelo que continuaremos a ter excelentes produções vinícolas com a sua assinatura. E entretanto vamos celebrando, nos momentos felizes da vida ou mesmo nos outros, com os seus Duas Quintas e os seus Porto.

Deputado arqueólogo

            Foi recentemente eleito para o Parlamento pelo Bloco de Esquerda o estudante de arqueologia Luís Monteiro, que em 2013 participou nas escavações do Castelo de Crestuma, sendo aliás o mais jovem deputado eleito para esta legislatura. Sabendo-se que também foram eleitos alguns inimigos declarados da atividade arqueológica talvez o jovem deputado consiga convencê-los da importância cultural e social da profissão que escolheu. Ou pelo menos denunciar as situações em que as leis de proteção ao Património Arqueológico são sistematicamente violadas em nome do “progresso” e da “economia”, com os resultados que se conhecem, normalmente desastrosos.

Livros

      A. Campos Matos
           
             
Acaba de sair a 2ª edição, revista e aumentada, da obra ficcional Diário Íntimo de Carlos da Maia (1839 - 1930) de A. Campos Matos, pelas Edições Colibri, apenas um ano depois da sua primeira edição.
            Notável efabulação sobre a personagem queirosiana, muito bem alicerçada em factos históricos cronologicamente aferidos, o seu maior encanto é o saber-se onde termina a personagem reinventada e começa o autor, ou vice-versa. Num mundo, que já então parecia girar mais apressado, Carlos da Maia anota a 24 de dezembro de 1930 que «nós aqui não sentimos a crise porque somos tão pobres que não chegou a atingir-nos». Afinal, para quê, nos dias de hoje, «tanta necessidade aborrecida», como se interroga no final do diário a personagem de Eça que recriada neste seu diário pessoalíssimo que convida o leitor a várias cumplicidades. E não é só no budismo que existem reincarnações…

Mário Cláudio

           
Entre 15 e 18 de outubro decorreu em Penafiel o programa Escritaria 2015 que este ano homenageou a vida e obra do escritor Mário Cláudio.
            De seu nome completo Rui Manuel Pinto Barbot Costa, descendente da família Mavinhé de negociantes do Porto de origem francesa, adotou aquele nome literário com que se identifica como autor de uma vasta obra que abordou, entre muitos outros, o tema queirosiano da Batalha do Caia. No dia 16 e outubro no Museu de Penafiel apresentou a sua mais recente obra, o romance autobiográfico Astronomia, no qual, com uma despudorada elegância conta ao leitor a sua vida ficcionada por ele próprio. Em determinada parte do seu trajeto profissional, tendo estado ao serviço da Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, no período de transferência das acanhadas instalações na Casa-Museu Teixeira Lopes para o novo edifício, o qual coincidiu com o 25 de Abril, teve então de suportar os vira-casaca que, tendo antes apoiado o anterior regime, lhe apareceram então na sua nova postura de democratas de fresca data dispostos a fazer auto-de-fé dos livros de autores supostamente afetos ao regime deposto. Por isso este seu livro vale também como registo e testemunho da mediocridade oportunista daquela época em que tudo se equacionou, mas raramente o essencial.
            Desta sua breve passagem pela instituição ficaram dois interessantes textos: “O Arquivo da Confraria do Santíssimo Sacramento da Freguesia de Santa Marinha de Vila Nova de Gaia: Inventário Preliminar seguido de Inventário Analítico de sua Legislação e Contencioso, trabalho apresentado na Cadeira de Arquivologia e Arquivoeconomia do Curso de Bibliotecário-Arquivista, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra”, de 1975, precioso repositório de um arquivo fundamental para a História das duas cidades do Baixo Douro, ainda não publicado e que continua inacessível aos investigadores; e o livro Cale - antologia de textos sobre Gaia, organização e prefácio, editado pela Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia em 1976, que veio despertar uma gaialidade adormecida desde o final do século XIX.

Congressos, colóquios, visitas e cursos

I Congresso Internacional As Aves na História Natural, na Pré-História e na História

Decorreu entre os dias 23 a 27 de setembro passado na Biblioteca Nacional de Portugal em Lisboa este congresso organizado pelo Centro Português de Geo-História e Pré-História. Da comissão científica fizeram parte Fernando Coimbra, membro da entidade organizadora, e Luís Manuel de Araújo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que fez a comunicação de encerramento sobre “O falcão aped-apedu, a ave das aves do Antigo Egipto”.


Curso do Solar Condes de Resende

           
O presidente da Câmara Eduardo Vítor Rodrigues
entrega os certificados aos alunos inscritos no curso anterior

No passado dia 10 de outubro teve lugar a abertura do curso “13 monumentos e sítios carismáticos da região do Douro-Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos)”, organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente, com a presença de Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; Virgínia Barroso, diretora daquele Centro de Formação; J. A. Gonçalves Guimarães, diretor do Solar, e Carlos Sousa dirigente dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana. No início da sessão foram entregues os certificados do curso anterior sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos); 5ª edição” aos alunos que o frequentaram, tenho os elementos da mesa salientado a importância destes cursos que aqui se realizam desde 1991. De seguida, e já na qualidade de sociólogo, de professor universitário e de académico da Academia Eça de Queirós, Eduardo Vitor Rodrigues proferiu uma lição sobre “O desenvolvimento da Região Norte” que prendeu a assistência muito para além do horário. O curso prosseguiu no dia 17 com uma aula sobre “O Centro Histórico de Gaia” pelo historiador e arqueólogo J. A. Gonçalves Guimarães; no dia 24 com o tema “O Centro da Cidade Palco da História do Porto” pelo historiador Francisco Ribeiro da Silva e prosseguirá no dia 7 de novembro com “ A Casa do Infante” pelo arqueólogo António Manuel S. P. Silva e no dia 14 com “O Mosteiro da Serra do Pilar” pelo historiador da Arte, Carlos Ruão, continuando em dezembro, dia 5, com “ A capela do Senhor da Pedra” por Henrique Guedes e dia 12 “O Mosteiro de Leça do Balio” por Joel Cleto.
            Entretanto no passado dia 1 de outubro reabriu também no Solar Condes de Resende o curso livre de “Pintura e outras expressões plásticas” orientado pela Professora pintora Paula Alves, que leva alguns dos seus alunos a participar no Salon d’Automne Queirosiano 2015 que abrirá também no Solar no próximo dia 7 de novembro pelas 17,30 horas.

Mosteiro de Grijó

 Ainda no passado dia 10 de outubro o professor, historiador da Arte e membro da Academia Eça de Queirós, José Mauel Tedim, conduziu uma visita guiada da Associação Cultural Amigos de Gaia ao Mosteiro de Grijó, onde falou sobre e evolução artística do monumento onde finalmente se encontra em lugar de destaque o sarcófago de D. Rodrigo Sanches, situação requerida já em 1986 pelo Gabinete de História e Arqueologia. Entretanto continuam por publicar os resultados das escavações ali em tempos efetuadas.

Centro Republicano Latino Coelho

             Também ainda no passado dia 10 de outubro o Centro Republicano Latino Coelho realizou uma sessão no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia para lançamento da 2ª edição de um livro sobre os patronos das ruas de Coimbrões e as memórias sobre esta centenária associação. Foram palestrantes, Manuel Moreira, sobre a evolução da legislação autárquica; Júlio Gago sobre o Latino Coelho e o Teatro e J. A. Gonçalves Guimarães sobre Toponímia gaiense. Também presentes outros confrades queirosianos parentes de patronos de ruas em Coimbrões, como os Calheiros Lobo.

Arouca Geopark

            No passado dia 16 de outubro o Arouca Geopark preparou um programa de atividades com a colaboração do arqueólogo António Manuel S. P. Silva, do Centro de Arqueologia de Arouca, que falou sobre «Arqueologia como contributo para o desenvolvimento» no Mosteiro de Arouca.

Fado em Gaia

            Ontem, dia 24 de outubro, a bordo do navio de cruzeiros Tomaz do Douro, decorreu a 2ª edição do Gaia é Fado promovido pelo jornal O Gaiense, a qual teve como vencedora Joana Lopes. Na ocasião foi homenageada a memória de Adriano Correia de Oliveira, estando presentes, além de familiares, o seu camarada de Coimbra, Manuel Freire, o criador da canção Pedra Filosofal, com poema de António Gedeão, e os fadistas António Pinto Basto e Cidália Moreira. Na terra de Jorge Fontes, Nuno Guimarães, António Lousada e tantos outros nomes ligados ao fado, esta realização teve o apoio da Câmara Municipal e de muitas outras entidades. Foi presidente do júri o Dr. Manuel Filipe, diretor dos Auditórios de Gaia e presidente do conselho fiscal da Confraria queirosiana.

Gaia e Ceuta 1415

            No próximo dia 29 de outubro, pelas 21.30 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende uma palestra sobre Gaia e Ceuta proferida por J. A. Gonçalves Guimarães, na qual o historiador vai referir-se aos heróis locais que participaram no feito em 1415, de um dos quais, Álvaro Anes de Cernache, ainda hoje moram descendentes nesta cidade, há seiscentos anos!

Feira de São Martinho

            No dia 8 de novembro, domingo, no Solar Condes de Resende, organizada pela Confraria Queirosiana com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, da Junta de Freguesia de Canelas e da Associação de Amigos de Pereiros (S. João da Pesqueira), vai decorrer a tradicional Feira de S. Martinho com a venda de produtos do Vale do Douro, petiscos e artesanato, a qual terá como animação um grupo de fados de Coimbra.


170º Aniversário de Eça de Queirós

No próximo dia 16 de novembro na série de encontros denominada Foz Literária, que decorrem no Castelo de S. João da Foz no Porto animados por José Vale de Figueiredo, haverá uma sessão dedicada a Eça de Queirós em que serão palestrantes, além do organizador, José Maia Marques e J. A. Gonçalves Guimarães, em que este último falará sobre os biógrafos e as biografias do escritor.

Capítulo da Confraria Queirosiana

            Como todos os anos desde 2003, decorrerá no próximo dia 21 de novembro o Capítulo anual da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende, este ano assinalando a efeméride dos 170 anos do nascimento do escritor, à qual é dedicada o número 12 da nova série da Revista de Portugal. Na ocasião serão insigniados o reitor da Universidade do Porto, Professor Doutor Sebastião Feyo de Azevedo, o presidente da Câmara Municipal de Baião, Dr. José Luís Carneiro, o presidente da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, Dr. Albino Almeida e outros novos confrades de número e de honra.
            Haverá também um jantar queirosiano com canções da Belle Époque, um desfile de moda inspirado na mesma época e o Baile das Camélias no final.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 84 – domingo, 25 de outubro de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: António Manuel Silva; Licínio Santos

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Eça & Outras


 No Vale do Côa com Eça e outras


Sim, já sei que já ouviu falar, mas já lá foi? Ao Vale do Côa? Sabe que, tal como Mértola no Guadiana, este é o segundo projeto cultural português realmente implementado no terreno que veio tentar alterar a ronceirice do interior do país em todos os aspetos? Outros houve, outros estão a teimar, outros haverá, mas estes dois foram pioneiros e, pesem embora todos os avanços e recuos, ainda estão a funcionar. Por isso nos passados dias 12 e 13 de setembro fomos até ao Côa. Até arranjamos dois pretextos, um mais particular, outro mais universal: o primeiro, que diz respeito ao Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, é o de que este ano de 2015 se comemoram os 30 anos do início das escavações que puseram a descoberto as ruínas da granja romana na Quinta da Ervamoira, origem do Museu de Sítio aí existente inaugurado a 2 de novembro de 1997. As escavações, realizadas no verão e tendo terminado em 2004, duraram 20 anos e por elas passaram 174 pessoas diferentes, algumas delas vários anos. O segundo motivo, é que este ano também se comemoram os 25 anos do vinho Duas Quintas, criado por João Nicolau de Almeida, administrador da Casa Ramos Pinto, a partir das uvas desta propriedade e da Quinta dos Bons Ares
            Assim o autocarro partiu, e depois do pequeno-almoço em Vila Franca das Naves (as estações de serviço estavam fechadas), paramos em Marialva para vermos um sítio medieval quase belo, dos muitos e variados que há por aqui, que o Côa não é só gravuras paleolíticas, pese embora a sua mundial importância.
            Seguindo viagem até Chãs, aí foi o mudar de viaturas, que o grande autocarro não chega à Quinta. Catrapuz, catrapam, lá se chegou a Ervamoira, onde ainda a seletiva vindima demorava, mesmo tendo começado nos primeiros de agosto. Almoço delicioso na esplanada, vinhos belos, seguiu-se-lhe a visita às salas do Museu onde se explicou por duas vezes tintim por tintim a leitura dos painéis sobre as caraterísticas da região, o porquê do nome, a excecionalidade do sítio e das vinhas, a descoberta da estação a partir do sarcófago de pedra tempos antes de Nelson Rebanda revelar as gravuras, mas também aqui e agora a história da Casa Ramos Pinto e da sua Arte Publicitária e outras muitas artes que por aqui passam. Depois o percurso até ao rio, a matar saudades de banhocas famosas e ver o mato que agora cobre as ruínas que ainda não tiveram noivo rico nos projetos para a região.
            Depois o jantar, novo banquete de convívio, novos brindes, a surpresa do bolo, uma pasteleira recriação da quinta e da sua estação arqueológica com o arqueólogo sentado a olhar para o horizonte e a quem a azáfama do serviço esmurrou um pouco o nariz, mas não partiu os óculos. Parece que ninguém o comeu, pois escultura, ainda que em bolo feita, sempre é arte, ainda que efémera.
            Já bem noite, lá se subiu para os autocarros pequenos para o retorno a Chãs e partida para Foz Côa, a desabar na cama do hotel para ressonar aquele tinto divinal.
            Logo pela manhã do dia seguinte a visita ao Museu do Côa, tão gigante quanto o de Ervamoira é tamanhinho. Ali, bem recebidos e guiados para ver a Arte Paleolítica e o seu enquadramento arqueológico, a sua interpretação. Lembramo-nos aí do conto de Eça de Queirós “Adão e Eva no Paraíso”, onde em 1896 escreveu: «E Adão (oh, estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sobre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas de um veado a correr!...». Desde então que se devia perceber a Arte Paleolítica, quer na sua vertente histórica, quer artística. Mais difíceis de aceitar seriamente são alguns aspetos da Arte atual que nos querem impingir. Por mim podem encher os museus e as galerias de arte com caixotes da fruta pintados que eu não bato palmas. Se forem privados, estimo-lhes as melhoras; mas se forem estatais ou autárquicos tal significa que o Estado e os poderes públicos estão a comprar hipotético lixo aos amigalhaços com o nosso dinheiro. As gravuras do Côa são Arte, memória e testemunho. O nosso tempo merece pelo menos o mesmo, e não a profusão de rabiscos esquizofrénicos, manchas coloridas dos borra-telas ou instantâneos de lixo que por aí proliferam, divulgados e hipervalorizados por quem nunca estudou, refletiu ou produziu teoria e análise sobre a Arte e a sua História. Por isso dispensava-se ali a presença das habilidades de vidraceiro nos corredores e cantos de aranha, e a do molho de lenha a ocupar toda uma sala, mas ele há lobbies para tudo a tentarem chamar-nos burros se não batermos palmas à songuice pseudo-intelectual que por aí grassa. Arte é outra coisa, mas isso fica para outra vez.
            Depois do Museu do Côa magnífico (belas, com e sem senão, sempre haverá) a partida para um almoço de bacalhau num restaurante local e depois partida para Trancoso, a vila bem simpática do casamento de D. Dinis e de D. Isabel e da batalha pela independência do Portugal de Avis. Interessante aqui, até como valor simbólico de quem quer permanecer no interior em zona tão pouco povoada, aquela estorieta do padre que produziu à sua custa mais de duzentos filhos através de incestos, bigamias, multigamias, estupros, violações, certamente exageradas (os vaidosos são assim) e toda uma atividade sexual de fazer corar de inveja os delírios do Marquês de Sade que viria muito tempo depois, o que lhe valeu o perdão de D. João II, que também não era nenhum santo. Provavelmente muitos dos filhos do religioso de Trancoso seriam portugueses (e castelhanos) judeus, que isto do instinto de procriação só depois do ato se lembra das religiões com que os invejosos se ornamentam. E, claro, o Bandarra, no túmulo e em estátua de bronze. Em período eleitoral bem que o município podia pô-lo a render com mais garbo pois estamos em plena saison das profecias. Dispensava-se aquela monumental gaiola em frente da torre do castelo.
            Mesmo com chuva nesta última fase da viagem, o proveito foi grande e não nos referimos apenas à degustação das célebres sardinhas doces ou aos encantos vinícolas da loja fronteira.
            Enfim, o regresso impôs-se até ao Solar Condes de Resende. Aos participantes, por isto e por aquilo, talvez recomendasse a releitura do conto “Adão e Eva no Paraíso” ou de “A Relíquia”, de Eça de Queirós, acompanhada de um bom copo daqueles tintos que festejamos nestes dois dias

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor

D. Maria da Graça Salema de Castro
           
No passado dia 6 de setembro faleceu D. Maia da Graça Salema de Castro, presidente da Fundação Eça de Queiroz, que fundou e dirigiu durante um quarto de século, confrade de honra da Confraria Queirosiana e comendadeira da Ordem do Infante D. Henrique. Viúva de Manuel Benedito de Castro, neto de Eça de Queirós, a ilustre finada ficou sepultada no cemitério de Santa Cruz do Douro, no mesmo jazigo onde repousam os restos mortais do escritor e de seus descendentes. Ao funeral compareceram muitos familiares e amigos da ilustre finada, a ex-ministra da Cultura e atual deputada Gabriela Canavilhas, o presidente da Câmara de Baião, José Luís Carneiro, membros dos corpos gerentes da Fundação, da Confraria Queirosiana de várias instituições culturais e locais e povo anónimo, que assim lhe quiseram prestar a sua homenagem

Livros & Publicações

Colheita Literária de Outono


Um novo livro de Dagoberto Carvalho J.or nos chegou do Recife, com uma bela capa, cheio da palavra “Post Scripta” após os últimos livros, crónicas várias, que tive a honra de prefaciar lembrando pontes várias entre o meu município e o país gigante do lado de lá do Atlântico e que li na receção ao autor feita no Solar Condes de Resende a 25 de outubro de 2014. Ele retribui aqui galhardamente com texto e fotografias em “De volta a Canelas” e “No grande Porto” e muitas outras páginas onde perpassam A. Campos Matos, Isabel Pires de Lima, e quantos outros portugueses e brasileiros, falecidos e vivos, todos posando para a fotografia da cultura luso-brasileira que tem uma monumental dimensão no enorme coração de Dagoberto, inesgotável fonte de afeto por todos eles e pelos nadas, ou pelas gigantescas obras, que produziram ou produzem, caminhando em direção ao infinito da boa memória perante o sorriso de curiosidade de Eça de Queirós.
            Creio bem que a felicidade suprema de Dagoberto, que bem a merece, seria um dia reunir todos os seus amigos e familiares, vivos ou já partidos, estes representados pelos seus descendentes, na sua Oeiras do Piauí, num belo arraial luso-brasileiro capaz de poder dizer a todo o mundo: eis aqui o Quinto Império da fraternidade universal. Foi Vieira quem inventou. Não sabe, nunca ouviu falar? Azar o seu. Mas pode ficar desfrutando, que aqui tem uma boa parte do melhor que há na espécie humana, na família comum. Nem mais, que também não faz falta.

História de Baião

            No passado dia 18 de agosto foi apresentado ao público o primeiro volume da História de Baião, coordenada pelo arqueólogo Lino Tavares Dias e editada pela Câmara Municipal de Baião de que é presidente José Luís Carneiro. Intitulado “Em torno do ano 500” e da autoria de Arlindo Cunha, a obra está prevista para um total de 10 volumes, desde a Pré-história até à atualidade, a publicar até ao final de 2015, tendo como colaboradores, entre outros, para além do coordenador, o historiador Jorge Alves e o arqueólogo António Lima.


Investigação sobre Crestuma



No passado dia 15 de setembro foi lançado em Lisboa na Associação dos Arqueólogos Portugueses o livro “Contextos Estratigráficos na Lusitania (Do Alto Império à Antiguidade Tardia), coordenado por José Carlos Quaresma e João António Marques, o qual publica o texto intitulado “O Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia): um contexto estratigráfico tardo-antigo no extremo noroeste da Lusitania”, da autoria de António Manuel S. P. Silva, Teresa P. de Carvalho, Laura Sousa e outros, da equipa do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana que estuda o Castelo de Crestuma.  


Douro Património


No passado dia 18 de setembro foi lançado no Mosteiro de Corpus Christi em Gaia um álbum de 6 desenhos a carvão com motivos do Vale do Douro da autoria do escultor Hélder de Carvalho, com textos poéticos de Jorge Velhote e design de Angélica Carvalho.
            Sendo natural de Carrazeda de Ansiães, muita da sua obra escultórica encontra-se espalhada por várias cidades e vilas do norte do país, sendo ainda autor de uma notável coleção de bustos-retratos de personalidades do nosso tempo. Na presente coletânea o traço vigoroso, mas muito exato, lembra afinal como nas paisagens que ora retrata o preto e o branco são as suas cores todas.

Misteriosidade

Com apresentação de Júlio Machado Vaz e de Sobrinho Simões, foi ontem, dia 24, lançado na Ordem dos Médicos do Porto o mais recente livro de Jaime Milheiro intitulado “Analista de Interiores… Misteriosidade”, com uma bela capa conseguida por Sofia Tavares a partir de um carvão de Armanda Passos de 1983. O interior apresenta uma série de ensaios em que «a sua leitura dos acontecimentos é sempre a do psicanalista» conforme avisa no prefácio Maria José Gonçalves, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
            Seguem-se então várias conferências e textos de reflexão em torno do conceito de “misteriosidade” que vem sendo trabalhada pelo autor neste e noutros livros já publicados, como «a essência e a qualidade dos sentimentos de mistério que existem em todos os seres humanos».
            Deste conjunto de reflexões altamente humanistas e psicologicamente claras como água destacamos “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades” apresentada no Solar Condes de Resende a 29/04/2014 e depois publicada na Revista de Portugal n.º 11 (2014), bem assim como “Sonhando com Eça (em Gaia)” também ali apresentado em 2002 e publicado na mesma revista n.º 9 de 2012.
            Ali se escreve: «dos acorrentados na fé brotam os fundamentalismo». Creio que jamais alguém convidará Jaime Milheiro para qualquer reunião de pastores de almas, o que é pena, pois tal poderia ajudar a apagar «imensas artilharias» religiosas, sociais, mentais, culturais, civilizacionais, senão no mundo, pelo menos no corpo pensante de cada um. Mas o negócio das armas, sejam elas reais ou metafóricas, continua próspero. Um livro a ler e reler.

Outras atividades Culturais

Escavações de Crestuma: resultados e perspetivas



   Entre os dias 17 e 29 de agosto passado decorreram no complexo arqueológico do Castelo de Crestuma, Vila Nova de Gaia, escavações dirigidas pelos arqueólogos J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, coordenando uma equipa de profissionais que desde 2010 têm vindo a pôr a descoberto os vestígios deste sítio debruçado sobre o Rio Douro, com ocupação entre a Idade do Ferro e a Reconquista, com especial evidência para os séculos IV-VI (Antiguidade Tardia e período suévico-visigótico).
            A presente intervenção teve como objetivos apurar a importância de construções detetadas nos anos anteriores junto à área portuária da praia de Favais e preparar um novo programa de intervenção que privilegie a frente ribeirinha nos próximos anos.
            A intervenção deste ano pôs a descoberto uma grande área aplanada na rocha onde são evidentes os testemunhos de derrube e abandono de construções, provavelmente devido a cheias a uma cota alta, por entre as quais se evidenciou o espólio cerâmico, nomeadamente de vasos de transporte e armazenamento de produtos (ânfora; dolia).
            Esta intervenção teve o alto patrocínio do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, e o apoio do diretor do Departamento de Ambiente e Parques Urbanos, Doutor Nuno Oliveira, bem assim como o patrocínio da empresa SUMA e o apoio técnico do Solar Condes de Resende e da União de Freguesias de Sandim, Olival, Lever e Crestuma.

Jornadas Europeias do Património

            Conforme noticiamos na página de 25 de agosto, a Confraria Queirosiana, em colaboração com o Solar Condes de Resende e os seus investigadores aderiram, mais uma vez, às Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema Património Industrial e Técnico.
Assim, no dia 24, J. A. Gonçalves Guimarães participou como palestrante num colóquio destinado a alunos de Turismo no ISLA de Vila Nova de Gaia e no mesmo dia, às 21,30, decorreu no Solar Condes de Resende uma palestra pelo arqueólogo António Sérgio sobre o levantamento fotográfico do Património Industrial; hoje, dia 25, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no seu Colóquio apresentaram trabalhos Jorge Fernandes Alves, Laura Cristina de Sousa, Maria de Fátima Teixeira e Silvestre Lacerda, entre outros. Amanhã, sábado, no Solar Condes de Resende, a partir das 15 horas, apresentarão os seus trabalhos de investigação sobre o tema, J. A. Gonçalves Guimarães; Maria de Fátima Teixeira; Susana Guimarães; Sílvia Santos; Joana Almeida Ribeiro; Susana Moncóvio; Licínio Santos e Mariana Silva.

Roteiro queirosiano de Aveiro

            O Correio do Vouga de 29 de julho passado, pela mão de Cardoso Ferreira, publicou um artigo sobre o Roteiro Queirosiano de Aveiro, onde, entre outros edifícios e locais, sobressaem a Casa de Verdemilho, do desembargador Joaquim José de Queiroz, avô de Eça, «chefe do movimento liberal de Aveiro 2m 1818» e o seu jazigo no cemitério de Aradas, para onde a viúva do escritor chegou a pensar trasladar os seus restos mortais. A Confraria Queirosiana e o Arquiteto A. Campos Matos têm vindo, de há anos a esta parte, a tentar sensibilizar a autarquia local para a premente preservação, dignificação e rentabilização cultural daquela casa e do restante circuito. Até hoje sem resultado.

Jornadas de Balsamão

            Nos próximos dias 1 a 4 de outubro decorrem no Convento de Balsamão, Macedo de Cavaleiros, as XVIII Jornadas Culturais organizadas pelo respetivo Centro Cultural, este ano sob o tema “Do global ao local: a Cultura Mirandesa”. Será orador, entre outros, o nosso confrade Andrade Lemos do Centro Cultural Eça de Queiroz de Lisboa, que em colaboração apresentará o tema “A origem dos mitos portugueses com especial referência aos de Trás-os-Montes”.

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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 83 – sexta-feira, 25 de setembro de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho J.or; Andrade Lemos; António Manuel Silva.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ressuscitar os mortos em Ceuta

Bem sei caro leitor que esta não é crónica que se apresente com o verão a pino. Saísse ela lá para o dia 1 de novembro quando a folha cai, ou para a pascoal primavera, nesses desacertos civilizacionais do calendário que continuamos a viver sem neles pensar, e outro galo cantaria, tão ressuscitado como o da lenda de Barcelos.
            Mas este assunto vem a propósito dos 630 anos de Aljubarrota e dos 600 anos da conquista de Ceuta que se evocaram respetivamente nos passados dias 14 e 21 de agosto. Em ambos os casos muita gente perdeu então a vida, no primeiro homens portugueses, ingleses, castelhanos e outros, e no segundo homens portugueses, marroquinos e outros e provavelmente também mulheres e crianças ceutis (e já agora cavalos, mulas, camelos e outros animais, certamente).
Quando recentemente tive de recolher elementos para falar dos gaienses que foram a Ceuta fiquei consternado com o facto de só saber o nome de três heróis, homens que se bateram denodadamente pelas suas convicções: Aires Gonçalves de Figueiredo, que aí foi com cerca de noventa anos; João Rodrigues de Sá “o das galés”, com menos; Álvaro Anes de Cernache, o mais jovem dos três. A lista será muito maior, mas como reconstituí-la? Certamente que existiram uma espécie de cadernos de recrutamento, mas desconhece-se o seu paradeiro. E se em Gaia ficou a memória tumular do último dos referidos e a memória viva da família que dele descende; se do penúltimo não sabemos ao certo a sepultura, mas que também tem ainda descendentes vivos, do primeiro não conhecemos nem a sepultura nem descendentes. Talvez os haja, mas nem saberão de quem descendem. E nestas análises mais uma vez me dei conta do poder enorme que os historiadores têm de serem os únicos a poderem ressuscitar – o mais materialmente possível – os mortos; às vezes com a ajuda dos arqueólogos, antropólogos, geneticistas e de alguns poucos especialistas. Poder esse que não valorizamos nem temos vindo a pôr a render, deixando as mais valias a outros que não as merecem mas delas tão bem se aproveitam.
É certo que os líderes de todas as religiões e crenças sempre andaram preocupados com esta velha aspiração humana, a de permanecermos vivos para além da morte biológica, descrevendo e prometendo ressurreições em espírito, em carne e osso, assim-assim, em paraísos terrestres com cobras e maçãs, e celestiais com virgens, nuvens suaves e prados onde os leões comem esparregado, tudo isso após gloriosas ressurreições individuais e coletivas, vidas eternas em glória ou em danação tostada, intermezzos de purga e de espera em vários cais onde não se sabe quando o barco chega, ou sequer se virá, etc., etc. Milhões de eteceteras, que produziram quilómetros de prateleiras com pesados tratados teológicos e outros livros fascinantes, além de palácios de mármore e ouro para albergar os gestores da alma, que o meu amigo Jaime Milheiro entende ser uma das maiores patranhas da Humanidade; a sorte dele é a Inquisição andar agora por aqui disfarçada e mais preocupada com a “gestão” do património, porque lá para os orientes a barbárie fundamentalista já quer voltar a queimar a biblioteca de Alexandria. Por aqui essas angústias de sempre do povinho sem grandes referências culturais são agora transformadas em showbiz religioso pelos manipuladores da orfandade alheia, cujas catedrais, graças ao velho dízimo, em tamanho e orçamento, já pedem meças às bizantinas. Adiante.
Tudo isto para vos dizer que realmente só os arqueólogos que estudam necrópoles e os historiadores que as enquadram na época, nos ritos e na memória, descendo ao pormenor da biografia individual possível e preocupada com o rigor dos factos, sem conclusões apriorísticas tanto quanto possível, têm realmente algum poder para ressuscitar os mortos para além da lápide sepulcral, ou mesmo sem ela. Temos, é certo, também os mitómanos, mas esses, para a sempre difícil e incompleta verdade, não contam. Deixá-los pois com as suas intermináveis fantasias e deduções.
Mas, dir-me-ão, e então os literatos, com tanto romance, tanta saga, tanta novela, tanta oração fúnebre, tanto desembaraço e voyeurismo, quer se trate de discutir se D. Afonso Henriques usava peúgas, quer o comportamento conjugal de D. João V? Independentemente de uma bela prosa e de uma boa caraterização de época e respetivos tipos sociais, ou de um bom testemunho pessoal e respetivas memórias, não têm, não podem, nem precisam ter a oficina árdua, fugidiça, e persistente do rigor do labor histórico. Mas, e então o romance histórico? Humberto Eco é um brincalhão que sabe – e os seus editores também – de que é que o leitor comum gosta: da História como uma Disneylândia. Herculano e Garrett, no seu tempo, ainda mal se tinham libertado das crónicas conventuais e dos milagres de Ourique, e por isso ainda recolhiam lendas, que são a literatura dos analfabetos para ler à lareira, a não ser que salvas para a cultura pelos linguistas e pelos antropólogos, mas isso é outra conversa. Eles ainda viveram num tempo em que as damas preferiam um poema choramingas à crítica da “Crónica de Ceuta” de Zurara, que viemos encontrar recentemente muito bem escalpelizada no notável livro “Ceuta, 1415, seiscentos anos depois” do Professor Luís Miguel Duarte, com a qual milhares de senhoras podem hoje comprazer-se em discuti-la, à procura da possibilidade de ressuscitarmos a memória de todos os que viveram aquele acontecimento, os portugueses, os marroquinos e todos os outros apanhados naquela leva. E podemos assim também apear da viatura da História todos aqueles que nela querem viajar à boleia ou sem pagarem o respetivo bilhete, tentando nela introduzir anacronismos, personalidades, objetos, mercadorias ou situações, que além de erradas, são perfeitamente escusadas, a não ser, como é evidente, para proveito próprio ou de alguma instituição dada a tradições empíricas e à custa dos pouco exigentes sobre lavoura alheia, ou aqueles que em tudo acreditam. Por mais estranho que isso hoje nos possa parecer, depois de tanta luta pelo positivismo mínimo na cultura, teremos ainda por muito tempo de reafirmar que a História não é uma questão de fé, nem nasce pronta e definitiva. Evolui como todas as ciências, em busca da clara certidão da verdade, como escreveu vai para 600 anos um tal Fernão Lopes, um profissional da Memória.
Sobre as descrições do passado, Eça de Queirós que era literato e sabia a diferença entre Literatura e História, atentemos no que ele escreveu a Oliveira Martins: «Um herói que se ressuscita vale um filho que se gera. Nós outros, os romancistas, é que edificamos sobre a areia – ou sobre a moda, que é a mais movediça das areias» (Correspondência, carta de 14.09.1892). Grande Eça, que nunca quiseste vestir fardas alheias.
Tudo isto para dizer que aquele livro sobre Ceuta é uma nova, atual e notável “tapeçaria de Prastana” onde se realinham os que foram a Ceuta e os que já lá estavam. Agora mais ressuscitados pelo mérito de um historiador.
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Curso do Solar
A partir de 10 de outubro próximo ao ritmo de duas sessões por mês aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, vai decorrer no Solar Condes de Resende o seu 22º Curso livre, certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente, desta vez sobre “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/ Porto/ Matosinhos)”, o qual será ministrado por diversos investigadores e professores universitários que apresentarão as mais recentes novidades sobre este tema. Logo na primeira sessão o presidente da Câmara de Gaia e confrade queirosiano, para além de naquela qualidade entregar os certificados aos frequentadores do curso anterior, como sociólogo e professor universitário falará sobre “O desenvolvimento da Região Norte” e o papel cada vez mais importante que nele desempenham o Património e o Turismo. Seguem-se os seguintes temas e professores: outubro 17 – “O Centro Histórico de Gaia”, por J. A. Gonçalves Guimarães; 24 - “O centro da cidade palco da História do Porto” por Francisco Ribeiro da Silva; novembro 7 – “ A Casa do Infante”, por António Manuel Silva; 14 – “O Mosteiro da Serra do Pilar”, por Carlos Ruão; 28 – “A Sé do Porto” por Manuel Luís Real; dezembro 5 – “O Senhor da Pedra, por Henrique Guedes; 12– “O Mosteiro de Leça do Balio, por Joel Cleto; janeiro de 2016, 9 – “O Senhor de Matosinhos”, por José Manuel Tedim; 17– “O Parque Biológico de Gaia e outros parques”, por Nuno Oliveira; 31– “A Torre e complexo dos Clérigos” por José Manuel Tedim; fevereiro 14 – “O Estádio do Dragão e o desenvolvimento urbano do Porto”, por Hélder Pacheco; 28 – “Ponte Maria Pia” por José Manuel Lopes Cordeiro; março 6 – “A Avenida dos Aliados no Porto”, por José Alberto V. Rio Fernandes.
A todos os frequentadores será passado um certificado, e aos professores registados um outro passado por aquele Centro de Formação com interesse curricular.

Conferências e palestras
            No passado dia 14 de agosto, no dia em que se comemoravam 630 anos da Batalha de Aljubarrota, integrado no programa Navegarte, resultante de uma parceria da associação Portugal à Mão com a cooperativa 3+Arte e da Quadrante – Rotas de Património, J. A. Gonçalves Guimarães fez uma palestra sobre “Gaia e Ceuta, 1415” na galeria daquela segunda associação situada no Centro Histórico de Gaia. Tendo falado sobre os gaienses que participaram naquela batalha e depois na conquista de Ceuta, dos quais ainda hoje existem descendentes a residir no município, este historiador prometeu desenvolver o tema no Solar Condes de Resende, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês, no dia 29 de outubro às 21.30 horas.
No próximo dia 27, pelas 21,30 horas, no Solar Condes de Resende, Eva Baptista, professora e investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana falará sobre “ Reflexos da 1.ª Guerra Mundial na «Educação Republicana»: o caso gaiense”, no âmbito da evocação que o Solar e a Confraria Queirosiana têm vindo a promover no centenário daquele conflito.  

Jornadas Europeias de Património
           
Nos próximos dias 25, 26 e 27 de setembro vão decorrer as Jornadas Europeias de Património, este ano sob o tema do Património Industrial e Técnico. Como habitualmente o Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana e o Solar Condes de Resende vão associar-se ao evento através dos trabalhos dos seus investigadores e produtores de conhecimento histórico patrimonial, quer em realizações próprias, quer participando nas de outras instituições. Assim, logo no dia 24, quinta-feira, em ante - colóquio de introdução ao tema, no Solar Condes de Resende, pelas 21.30 horas, o arqueólogo António Sérgio dos Santos Pereira falará sobre o projeto “In-Va_São Fotográfica e o seu contributo no processo de recolha de imagens sobre o Património Industrial”. No dia 25, sexta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, coordenado pelos professores Teresa Soeiro e Jorge Fernandes Alves, decorrerá o Colóquio “Indústria e Técnica no Norte de Portugal”, onde falarão, entre outros, Jorge Fernandes Alves sobre “A industrialização no Grande Porto: perspetivas históricas”; Laura Cristina Sousa sobre “Arqueologia da indústria cerâmica: o caso da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade”; Maria de Fátima Teixeira sobre “A Fábrica de Fiação de Crestuma”, terminando o colóquio com “Os Arquivos e o Património indústria” por Silvestre Lacerda.
No dia 26, sábado, a partir das 15 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende a apresentação da investigação dos membros daquele Gabinete sobre o tema das Jornadas. Assim falarão J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Exportação de produtos pré-industriais para o Brasil a partir da Barra do Douro no período constitucional”; Maria de Fátima Teixeira sobre “A Fábrica de Arcos de Ferro e Ferro Verguinha da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”; Susana Guimarães sobre “Objetos industriais na Coleção Marciano Azuaga e incorporações posteriores”; Sílvia Santos sobre “A indústria vidreira em Vila Nova de Gaia. Novos dados”; Joana Almeida Ribeiro sobre “Uma geocronologia queirosiana: Eça de Queirós e o desenvolvimento ferroviário no século XIX”; Susana Moncóvio sobre “A Fábrica de Louça das Devesas de José Pereira Valente (fundada em 1884): desenho de investigação”; Licínio Santos sobre “A fábrica de Conservas Manuel Pereira Júnior e a indústria conserveira em Vila Nova de Gaia” e Mariana Silva sobre a “Salvaguarda e valorização do património Industrial em Portugal: contributo para a intervenção na Fábrica Cerâmica das Devesas”.

LivroS
           
Da autoria de Francisco Javier de Olazabal, com design de João Machado, prefácio de J. A. Gonçalves Guimarães e colaboração do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-Confraria Queirosiana) através de vários dos seus membros, acaba de ser publicado o livro “Quinta do Vale Meão”, que em breve será lançado no mercado.
            Com grande qualidade gráfica, conta a história desta propriedade edificada por D. Antónia Adelaide Ferreira, desde a compra inicial dos terrenos até à sua posse e transformação por este seu trineto que descreve esta última parte na primeira pessoa do singular para no fim nos apresentar a sua empresa familiar e os produtos que lança no mercado com singular prestígio e qualidade, demonstrando assim que o Douro é realmente Património Cultural da Humanidade em todas as suas vertentes.
           
Da autoria e coordenação de Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, historiador das civilizações do Próximo Oriente e comissário científico da exposição com o mesmo título patente no Museu Nacional de Arqueologia, o presente livro é mais do que um catálogo da mesma, pois para além da descrição e enquadramento histórico-cronológico das peças em exibição, apresenta textos fundamentais para a compreensão da realidade cultural do cristianismo copta, etíope, arménio e moçárabe, e as suas manifestações artísticas, pouco conhecidas entre nós. Esta exposição tem a colaboração, entre outras entidades, da Associação Cultural Portugal-Egipto, da Associação Portuguesa de Orientalismo, do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia de cujos corpos gerentes o autor faz parte, e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é professor, além de diretor da Revista de Portugal.

Feira de Gastronomia de Vila do Conde
        Como habitualmente, no passado dia 21 de agosto, uma delegação da Confraria Queirosiana esteve presente na abertura da 14.ª Feira de Gastronomia de Vila do Conde, organizada pela autarquia desta terra queirosiana por excelência, pois aqui o escritor foi batizado e criado durante um certo tempo. Este ano subordinada ao tema “Cozinha à Portuguesa”, evocativo da Conquista de Ceuta que neste mesmo dia fez 600 anos, a organização convidou o mesário-mor da Confraria a lembrar o seu significado histórico no início do jantar medieval que em seguida decorreu no restaurante da feira decorado com imagens e textos alusivos ao feito.
            Foram ainda abertos canais de colaboração entre a Confraria com a Casa Antero de Quental em torno dos estudos sobre a geração de 70, já desenvolvidos por vários dos seus confrades.


Vinho do Porto da Confraria


A Confraria Queirosiana tem disponibilizado aos seus amigos e confrades um Vinho do Porto reserva tawny, devidamente certificado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e engarrafado pela firma Quinta and Vineyard Bottlers Vinhos, SA, o qual esgotou. Temos agora à disposição de todos os interessados dois novos lotes com novas embalagens, o Confraria Queirosiana Porto 10 Anos, e o Confraria Queirosiana Porto 20 Anos, engarrafados por Quinta da Boeira, Vila Nova de Gaia, os quais podem ser adquiridos por via postal.
 «Era pena que aquele belo dia findasse assim, sem que se abrisse uma garrafa de vinho do Porto…», escreveu Eça de Queirós em Alves & C.ª.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 82 – terça-feira, 25 de agosto de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.