sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Eça & Outras

Pelo mito é que vamos

Suponho que uma das mais estranhas idiossincrasias dos portugueses é a de se recusarem a conhecer a sua verdadeira natureza, a sua real maneira de ser, a sua imagem sem retoques, nua e crua, diríamos.

Donos de uma história invejável por mérito próprio, desde tempos remotos que atribuem os seus feitos à intervenção divina, para assim também se escudarem quando a coisa corre mal: a culpa é então de Deus e dos santos, do destino, do azar, os quais, como se sabe, são imprevisíveis e inatacáveis. É inútil tentar assacar-lhes culpas, logo, quanto a percebermos os fracassos, estamos falados.

Mas, ao longo dos tempos, também se foram criando mitos de estimação que mascararam a realidade histórica: um dos mais hilariantes foi o da nossa marinha de guerra. Portugal sempre foi um país de pescadores, marinheiros, navegadores de cabotagem, marinheiros-mercadores, capitães de navios mercantes de pau-brasil, de pimenta e outras mercearias, vinho e presuntos para lá, açucares e couros para cá, gente que embarca e vai à vida e gente que chega nela metida à força pela água benta das circunstâncias.

Os barcos mercantes de longo curso tinham canhões para se defenderem dos piratas e para obrigarem os locais a negociar com os recém-chegados (nós). Volta e meia eram escoltadas por uma remendada fragata de guerra; duas, quando a frota mercantil era grande.

Pois bem; quem ler a historiografia nacional disponível só encontra «marinha de guerra». A mercante, a que trouxe a este país comida, dinheiro e a bazófia possíveis, pura e simplesmente desapareceu; para os «historiadores da nau de pedra», leia-se almirantes reformados metidos a historiadores, pura e simplesmente não existe.

Outro mito é o do Douro vinhateiro pombalino, com as encostas do vale cheias de vinhedos e «exportadores de Vinho do Porto» a encherem a Bolsa e a Feitoria, passando-se por cima das realidades geográficas, estatísticas, económicas, sociais e as outras que se quiserem conhecer. Todos sabemos que ninguém come vinho, pois ele só dá para beber e vender. Mas é assim que a historiografia nacional fala do Douro, como se lá não tivesse havido mais qualquer outra agricultura, mesmo ao lado ou destruída pela monocultura da vinha (quando, em que tempo, em que circunstancias?). E assim o Douro cerealeiro, madeireiro, sumagreiro, corticeiro, fruteiro e produtor de azeite, desapareceu ou aparece timidamente, como se fosse o parente bastardo saído das fragas com as tamancas a sujar as alcatifas dos turismos, que inventaram caves onde há armazéns e especializações vinícolas anacrónicas para quem vendia de tudo o que o Douro dava, mas não esquecendo que só algum vinho é “fino”. O Douro dos grandes vinhos mundiais (pois então!), para sua desgraça, mas também esperança, não foi, não é, e não será nunca, só vinho.

Por fim, as biografias. Estamos numa fase de afã biográfico e, finalmente, elaboram-se relatos credíveis de várias figuras históricas. Mas o motivo nem sempre é o melhor: as mais das vezes é apenas o pôr o Rei D. Carlos ou algum dos seus ministros num espectáculo televisivo para lhes assacarem “os podres”, os banalizarem, quando não, achincalharem, tornando-os “iguais” à populaça que vive de mitos e de subsídios. Dizem que andam à procura do “ser comum” que também foram. Ora o ser comum não passa disso mesmo, comum, vulgar, igual e, o que é pior, normalmente baixo, mesquinho e pronto a cometer qualquer crime só porque o seu clube de futebol não marcou golo. Ora o que fez a grandeza dos grandes homens e das grandes mulheres não foi o facto de serem comuns, mas melhores, diferentes para melhor. Os seus erros e defeitos não serão para esquecer, omitir ou ignorar; mas não são certamente para emoldurar. O igualitarismo pode ser bom para as paramécias; na espécie humana é um mito. E bastante mau, como se viu no século que passou e já neste, se quisermos olhar à volta.

Por fim, o “nosso” Eça, também tem sido mistificado quanto baste. Ainda recentemente uma professora de português me afirmava com o ar mais convicto deste mundo que ele morou onde foi poucas vezes, que escreveu romances onde só tirou apontamentos (na melhor das hipóteses) e que num deles tinha contado a vida da senhora fulana de tal que nem sequer é do seu tempo. Que Eça é que ela andará a ensinar aos seus alunos é que não faço ideia, mas o escritor, o Eça de Queirós, não será com certeza. Mitos, mitos é do que esta gente gosta. E quando já não funcionam, inventa-os!

J. A. Gonçalves Guimarães

Carta inédita de Eça

No passado dia 6 de Fevereiro o mensário Notícias de Colmeias publicou um artigo de Ana Teresa Peixinho e Joaquim Santos intitulado “Um inédito de Eça de Queirós: contributo para o seu epistolário” no qual apresentam uma carta que o escritor enviou de Paris a Luís de Magalhães, a 15 de Novembro de 1894, a propósito do artigo que Eça andava a escrever para o livro de homenagem a Antero, enquadrável no que chama «literatura de devoção» contrapondo-a à «literatura de obrigação», aquela que produzia como profissional das letras, e que lhe era paga.

Como é sabido, saiu depois o texto «Um génio que era um santo».

Pintura de Sílvia Patrício

Procurando que esta página condense “tudo” o que se vai descobrindo, estudando, publicando e divulgando sobre Eça de Queirós, a sua vida e a sua época, bem assim como sobre a actividade dos sócios e confrades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, na realidade tal tarefa será sempre incompleta se não tiver a colaboração de muitos amigos. E precisamente pela mão amiga do Dr. Joaquim Santos, director do Noticias de Colmeias, chegou-nos agora o catálogo intitulado “Essa Paixão Proibida” da exposição com o mesmo título que esteve presente em Leiria em 2007 na qual aquela pintora apresentou quadros, a acrílico e óleo, e estatuetas sobre “O Crime do Padre Amaro”, num figurativismo bem conseguido e muito próximo do realismo fantástico e do ilustracionismo.

Jantares queirosianos

Prosseguem em Lisboa os jantares queirosianos organizados pela Fundação e pelo Círculo Eça de Queirós, Grémio Literário e Centro Nacional de Cultura.

No passado dia 21 de Fevereiro decorreu no Grémio e teve por oradores Guilherme d’Oliveira Martins e Campos Matos para o tema em presença «Os costumes e a vida social», tendo como moderador José Augusto França.

Curso sobre Eça de Queirós

A partir do próximo mês de Outubro terá lugar no Solar Condes de Resende a segunda edição do curso sobre «Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época» organizado pela Academia Eça de Queirós, o qual decorrerá ao longo de 12 sessões até Março de 2012. O curso conta com a colaboração dos investigadores que mais recentemente se debruçaram sobre esta temática e a concretizaram nas suas teses de doutoramento.

Exposição Rocha Peixoto


Como anunciamos no número anterior, abriu ao público no passado dia 5 de Fevereiro no Solar Condes de Resende a exposição sobre o centenário de Rocha Peixoto organizada pela Biblioteca Pública Municipal da Póvoa de Varzim, aí representada pelo seu director Dr. Manuel Costa que dissertou sobre a mostra e elencou depois as actividades que o município poveiro desenvolveu durante o centenário. Na ocasião foram também apresentados pela sua directora, Dr.ª Maria da Conceição Nogueira, os n.os 43 e 44 do Boletim Cultural dedicados a Rocha Peixoto.

Do Município gaiense estiveram presentes César Oliveira, presidente da Assembleia Municipal, e Maria Amélia Traça, vereadora da Acção Social. E também Hélder de Carvalho, autor da estátua de Eça no Solar Condes de Resende e de Rocha Peixoto na Póvoa, que ali inaugurou uma exposição dos seus trabalhos no dia 23 passado.

Rocha Peixoto foi o último secretário e colaborador da Revista de Portugal fundada por Eça de Queirós, conforme se pode reler em artigo publicado no Boletim n.º 43 acima referido.

6.º Fórum Internacional de Sinologia

Decorre nos dias 24, 25 e 26 de Fevereiro no auditório do Museu do Oriente dedicado ao centenário da República da China. O mesário-mor da Confraria Queirosiana estará presente com uma comunicação intitulada «O caso das chinesas curandeiras de Lisboa que queriam pôr os cegos a ver no primeiro ano da República Portuguesa».

Será igualmente lançado o n.º 6 da Revista de Estudos Chineses – Zhongguo Yanjiu, a qual apresenta um artigo sobre «O Núcleo chinês da Colecção Azuaga: o coleccionismo como lazer», da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães.

Curso de Joalharia

No Solar Condes de Resende, nos próximos meses de Maio e Junho aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, decorrerá um curso livre sobre História da Joalharia em Portugal, ministrado pelo Prof. Doutor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, professor da Universidade Católica e reconhecido especialista em arte sumptuária.

O curso é organizado pela Academia Eça de Queirós e conta com o patrocínio da Gaianima, EEM.

Longo é o tempo

É o título do novo livro de poemas de Maria Virgínia Monteiro editado pela Singular/Plural com o apoio da Gaianima, EEM.

Coroando uma já extensa produção poética desta autora, este novo livro apresenta alguns «pequenos poemas da gaveta», e outros «não pequenos», em que o tempo é apresentado como a divindade que condiciona o percurso pelos «caminhos toscos da vida» num «recordar», neste caso em verso, palavras ritmadas em que a musicalidade as faz arte.



Ir tomar café, ou não, com:

Não me apetece ir tomar café com:

Colin Powell, porque a ingenuidade tem os seus limites; Hosni Mubarak, o presidente que julgava ser faraó; Karl Theodor Guttemberg, mais um “doutorado” da era pós-Bolonha; Muammar Khadafi, porque quem não percebe a história acaba mal; Rui Pereira, o ministro que deixou os direitos dos cidadãos nas mãos dos informáticos;

Sim, gostaria de tomar café com:

Elias Chacour, o patriarca da tolerância entre religiões; Seabra Santos, ex-reitor da Universidade de Coimbra que a soube gerir;

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 29 – Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email:queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com;
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coordenação da página:J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; Colaboração Nuno Resende.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Eça & Outras


Novidades? Novidades… não há!

A 28 de Junho de 1849 (já lá vão mais de 161 anos!) o jovem deputado Fontes Pereira de Melo fazia o seguinte discurso na Câmara dos Deputados (antepassada da actual Assembleia da República):
«Se o Governo entende que não é possível organizar a fazenda pública senão cortando aos empregados e aumentando os tributos, então Sr. Presidente, parece-me que nunca se há-de resolver a questão da fazenda. Estou convencido que Sua Ex.ª o Sr. Ministro da Fazenda, sabe que há fontes de riqueza nacional muitíssimo importantes e de onde se podem retirar muitos recursos. E logo, a que vem dizer-se que estamos à borda de um abismo?
Não estamos à borda de um abismo e não diz que estava à borda de um abismo senão quem não sabe dirigir as coisas; só o diz quem não sabe do País metade; há muitas riquezas nacionais que se podem desenvolver e fazer prosperar e eu não posso admitir que qualquer ministro da Fazenda diga que estamos à borda do abismo.
Não estamos, Sr. Presidente, há salvação para tudo!».
Era então Costa Cabral presidente do governo, um dos muitos «salvadores da pátria» que Portugal já teve, tem e pelos vistos há-de continuar a ter até que uma nova geração de gente limpa de mente se agarre ao trabalho, à inteligência e ao saber fazer. O resto é retórica para entreter a nossa cíclica desgraça.
Alguém por acaso sabe de cor como se chama o presidente da república da Suíça? E o primeiro-ministro da Noruega? Suponho que os suíços e os noruegueses o saibam e também supomos que lhes estão agradecidos por governarem bem aqueles países onde não se cortam os salários a uma parte da função pública, enquanto o Estado gasta dinheiro a encobrir ou a amenizar a péssima ou mesmo miserável gestão da coisa pública. E, como vemos, já assim foi em 1849. Hoje, ainda sabemos quem foi Fontes Pereira de Melo, curiosamente então alcunhado de “cavaquinho”, e o que fez pelo país. Escapou-lhe, não soube, ou não pôde melhorar “a raça”, como então se dizia, falando de burros ou de pessoas, com Vossa licença!
Algumas décadas depois, quando já também o fontismo tinha passado, escrevia Eça de Queirós nas Notas Contemporâneas: «No nosso canto, com a azulada doçura do nosso céu carinhoso, a contente simplicidade da nossa natureza meio árabe (duas máximas condições para a felicidade na ordem social), nós temos, ao que parece, todas as enfermidades da Europa, em proporções várias – desde o deficit até esse novo partido anarquista que cabe todo num banco da Avenida. E desgraçadamente, além destes males, uns nascidos do nosso temperamento, outros traduzidos do francês, morremos a mais de outro mal, todo nosso, e que a Grécia, menos intensamente, partilha connosco: - é que, enquanto contra as tormentas sociais nas outras naus se trabalha, na nossa rota e rasa caravela tagarela-se! Tagarela-se num desabalado fluxo labial, cuja qualidade, desde 1820, não tem deixado de decair, da eloquência degenerando na loquacidade – da verbosidade descambando na verborreia!».
Alguém sabe como se chama o primeiro ministro do Luxemburgo? E o chefe de estado da Nova Zelândia? Mas sabemos que ainda há países felizes no planeta. Não têm é «salvadores da pátria» ao virar de cada esquina, mas apenas gente que trabalha e que não se apropria do trabalho alheio em proveito de si ou do seu grupo de interesses.
Algum dia teremos redenção?

J. A. Gonçalves Guimarães

Nelson Cardoso

No passado dia 19 de Janeiro quando se encontrava em Salamanca à hora do jantar faleceu de doença súbita o nosso Confrade e Amigo Nelson Joaquim Sousa Silva Cardoso, sócio fundador dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, sócio de Honra com o grau de Mecenas, presidente do Conselho Fiscal e ex-presidente da Mesa da Assembleia Geral.
Na última década foi administrador e presidente da Gaianima EEM, a empresa municipal que faz a gestão do Solar Condes de Resende, da Casa-Museu Teixeira Lopes, da Biblioteca Municipal de Gaia, do Auditório Municipal, do Mosteiro de Corpus Christi, e ainda de diversos equipamentos desportivos. Era também vereador da Câmara de Matosinhos desde 2002.
Desde sempre ligado à gestão de projectos na área da Cultura e do Desporto, muitos o recordarão como delegado do FAOJ no Porto e o apoio que então deu, entre muitas outras acções, às escavações arqueológicas na Serra da Aboboreira em Baião através do Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto (GEAP) que editou a revista Arqueologia.
Grande Amigo e animador da Confraria Queirosiana, sempre presente nas suas realizações, acarinhava e perspectivava todos os projectos que valerão em termos de futuro.
A Confraria perdeu assim um Amigo e um activista de realizações culturais vivas, sólidas, consistentes e sustentáveis. A melhor homenagem que a associação lhe pode prestar é continuar a desenvolver todos os projectos que mereceram a sua empenhada atenção e concretizá-los com sucesso, como acontecia com tudo aquilo em que era o capitão da barca que navegava, ainda que por entre procelas e baixios, mas que sempre levava a bom porto.
O seu funeral, que decorreu no passado dia 22 de Janeiro da igreja da Sr.ª da Hora para o cemitério de Custóias, constituiu uma enorme manifestação de pesar na qual se incorporaram autarcas de Gaia, Matosinhos, Porto e Marco de Canaveses, deputados europeus, nacionais e locais de vários quadrantes políticos, muitos funcionários autárquicos e dirigentes associativos, e também muitos amigos e confrades da Confraria Queirosiana que acompanharam o féretro até à sepultura.
Há homens e mulheres que não querem morrer sentados ao canto da lareira: Nelson Cardoso era com certeza um desses. Partiu no seu posto de homem activo e interveniente, no trabalho, na cidadania, nos afectos que cumpria com firmeza, e com a elegância de uma ironia algo queirosiana. Deixou-nos um vazio muito grande onde agora a sua memória e o seu exemplo se expandem como a luz do luar pelas praias de Matosinhos e Gaia, nos dias em que sempre assim as veremos.


Carlos Reis entrevistado

No n.º 130 de 3 de Outubro passado o jornal Notícias de Colmeias (Leiria) publicou uma extensa entrevista com o Professor Doutor Carlos Reis, ilustre queirosiano, Reitor da Universidade Aberta e homem da cultura lusófona no Mundo, do qual dá também uma breve biografia. Entre muitos outros pensamentos com pertinente actualidade, afirmou este professor de Coimbra: «Eça foi um dos maiores portugueses de sempre: um homem que amou o seu país sem ter de escrever odes sobre ele; que conheceu Portugal e os portugueses como poucos; que reinventou a língua portuguesa; que teve a coragem de cultivar a ironia e o humor num país cinzento. Tudo isto e ainda um precursor: a nossa modernidade literária (incluindo alguns aspectos do super-modernista Fernando Pessoa) está prenunciada em Eça… Portugal não seria o que é sem Eça. Ou seja: nunca conheceremos suficientemente o país, se não lermos quem tão bem descreveu e caracterizou a gente, a terra e a sociedade portuguesas». E, mais abaixo, pergunta: «Que é feito dos valores da honradez, da seriedade, da lealdade, da justiça e do bom gosto? Talvez por isso algumas grandes empresas (infelizmente não ainda em Portugal) começam a incorporar nos seus quadros pessoas com formação humanista… Mas não há como ignorar: o eterno provincianismo português está rendido à ideologia da tecnologia…».

Confluência queirosiana

Já em 2009 a Confraria Queirosiana tinha proposto a criação de um secretariado permanente das instituições queirosianas portuguesas e brasileiras, o qual englobasse, para além da proponente, o Grémio Literário (Lisboa) a Biblioteca Pública da Póvoa de Varzim, o Círculo Eça de Queirós (Lisboa) a Sociedade Eça de Queirós do Recife (Brasil) a Fundação Eça de Queirós (Baião) e, eventualmente, alguma outra existente e cuja actividade se ignora, pois não faz sentido que as instituições com o mesmo patrono trabalhem cada uma para seu lado.
Recentemente, em Dezembro do ano passado, o Círculo Eça de Queirós, o Grémio Literário, o Centro Nacional de Cultura e a Fundação Eça de Queirós, «decidiram associar-se para promover a divulgação e reflexão sobre a vida e obra de Eça de Queirós, que pelo seu sentido crítico, ironia e poder de análise social continua a ser um escritor da actualidade». Para tal organizaram um debate seguido de jantar a 10 de Janeiro passado com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, tendo como moderador António Barreto. Neste ciclo haverá ainda mais quatro jantares queirosianos com alguns outros palestrantes.
É, sem divida, um primeiro e importante passo de convergência queirosiana que, para além do seu interesse imediato, pode vir a ter importantes reflexos futuros na difusão da Cultura Portuguesa entre nós e também um pouco por todo o mundo.

Eça e a Imprensa inglesa

No próximo dia 31 de Janeiro, pelas 18.30 horas, Teresa Pinto Coelho, professora da Universidade Nova de Lisboa, fará na biblioteca do Grémio Literário a apresentação do seu livro “Londres em Paris: Eça de Queirós e a Imprensa Inglesa” das Edições Colibri. A obra será apresentada por Teresa Buescu da Universidade de Lisboa e por Tom Earl da Universidade de Oxford, a que se seguirá uma mesa redonda.

Camilo e Eça

No Jornal de Letras de 12 de Janeiro passado a Professora Doutora Beatriz Berrini, a maior especialista brasileira em Eça de Queirós dá conta da sua descoberta em 1986 em S. Paulo (Brasil) de 111 cartas inéditas de Camilo ao visconde de Ouguela, para as quais ainda não encontrou editor! De entre elas publica neste número do JL duas cartas em que Camilo se refere a Eça de Queirós. Na primeira afirma: «Já te disse que gostei do Primo Basílio…. O autor… mediu bem a extensão do espírito português. Dá-lhe o cenário competente, e os personagens indígenas. Pouco importa que Flaubert os tenha análogos».
Na segunda: «Este livro [O Crime do Padre Amaro] seria quase perfeito, se o Eça conhecesse a língua um pouco estofada e gordurosa de Frei Luís de Sousa».
Enfim, sobre os dois grandes escritores estamos ainda muito longe de estar tudo dito.

Eça de Queirós em S. Paulo, Brasil

Está a ser preparada uma exposição internacional sobre Eça de Queirós em S. Paulo, Brasil, comissariada pelo arquitecto A. Campos Matos e com o apoio de diversas instituições portuguesas que para a mesma disponibilizaram documentos, iconografia e objectos que pertenceram ao escritor.
Esta exposição no grande país lusófono que tanto aprecia Eça de Queirós marcará com certeza o ano cultural.

Unidades Termais

No próximo dia 31 de Janeiro decorrerá no Complexo Termal do Luso a sessão de encerramento do projecto-piloto e de lançamento da obra “Uma abordagem Sistémica à Prevenção e Segurança no Trabalho em Unidades Termais” da autoria do confrade queirosiano Prof. Doutor Eng.º Fernando Manuel P. J. Silva. A participação é gratuita mas obriga a inscrição prévia obrigatória em ceties.poat@gmail.com.

Rocha Peixoto no Solar

No próximo dia 5 de Fevereiro, pelas 17.30 horas é inaugurada no Solar Condes de Resende a exposição itinerante organizada pela Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim sobre o centenário de Rocha Peixoto, o etnógrafo poveiro que foi também o último secretário da Revista de Portugal editada por Eça de Queirós.

Na ocasião será ainda apresentado o mais recente número do Boletim Cultural da Póvoa de Varzim pela sua directora Dr.ª Maria da Conceição Nogueira.

Exposição de Pintura

No próximo dia 10 de Fevereiro no Espaço PT Tenente Valadim, na cidade do Porto, pelas 18 horas, abre ao público uma exposição de Paisagens e Retratos do confrade queirosiano Major Simões Duarte, a qual estará aí patente até 28 de Fevereiro entre as 10 e as 18 horas.
Café queirosiano

Sim, gostaria de ir tomar café com:

Domingos A. Moreira, o pároco de Pigeiros especialista em Toponímia, tão humilde quanto sábio, tão ignorado quanto imprescindível e que nos deixou recentemente; Uderzo, co-autor com Gosciny do Asterix e que o fisco francês resolveu, agora, incomodar; Zahi Hawas, o arqueólogo que interrompeu o saque do Egipto pelas universidades estrangeiras.

Não, não gostaria de tomar café com:

Ben Ali, o ex-presidente da Tunísia corrido pelos tunisinos; José Lello, porque a água da torneira é boa para os eleitores que o elegeram.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 26 – Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com;
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; colaboração: Nuno Resende; inserção: Amélia Cabral.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Eça & Outras

Sábado, 25 de Dezembro de 2010


J. Rentes de Carvalho
Tempo Contado

O mais recente livro de J. Rentes de Carvalho lançado entre nós (Tempo Contado) contém em si as mesmas singularidades que já outros analistas mais capazes tinham encontrado na sua obra anterior: uma ousadia pouco habitual na perseguição da verdade, seja lá isso o que for e sobre o qual não atinamos senão pela negativa. Sabemos o que é a mentira, o fingimento, o faz-de-conta, a aldrabice, a fantasia (essa sua meia-irmã mais meiga), a corrupção, a manipulação, as campanhas de intoxicação da opinião privada ou pública, o marketing, a publicidade, as crenças, as fezadas, as ideologias, as artes, os sistemas filosóficos e outros humanos devaneios, nossos ou que nos são propostos ou impostos. Mas não sabemos o que é a verdade. Podemos procurá-la bem perto, às vezes bem escondida dentro de nós, outras vezes circundando-nos, mas quase sempre não a queremos encontrar porque ela nos traz aborrecimentos, o WikiLeaks que o diga. Não, não, três vezes não! O tal sítio, o tal sujeito, não difunde verdade, e muito menos a verdade; difunde, isso sim, a sua descarada manipulação por governantes, embaixadores, militares, políticos, tudo gente que era suposto trabalhar para o bem da Humanidade, do povo a que pertencem e de cada um de nós. Mas não, eles passam a vida a difundir mentiras que gostariam que os outros acreditassem que fossem verdades, e, tal como qualquer comum mortal, têm birras terríveis quando alguém o descobre, o que revela o seu lado psicótico perigoso para, se mais não for, a liberdade. E isso sabemos o que é.
Mas, descendo à terra, a nossa vida quotidiana também é assim. Nos grandes assuntos, nas pequenas coisas comezinhas, todas elas com o tempo cada vez mais contado.
Este livro de J. Rentes de Carvalho lê-se como os anteriores: primeiro o todo e depois rebobinando a leitura, que desta vez, tratando-se de um diário dos anos 1994 e 1995, nem sequer tem a distracção de um enredo, de uma estória para acabar. O personagem é o autor, e toda a humanidade com ele, desde as gravuras do Côa, passando pela aldeia de Estevais até à cosmopolita Amsterdam, também hoje cidade de “muitas e desvairadas gentes”. Um imenso painel literário de muitas e desencontradas vidas em que o autor tropeça mas não fica indiferente, ou porque não pode ou porque não o deixam, e põe isso em livro, com a sua prosa enxuta de lirismos tolos e, muito ao contrário do que possa parecer, com muita oficina, muito lavor, muita arte. Supomos que deve ser assim a Literatura. Neste seu novo livro J. Rentes de Carvalho não deixa de, a seu modo, homenagear quem lhe propôs que assim fosse o ofício de escritor, e «…que exerceu uma influência determinante na minha formação», escreve a 22 de Maio de 1994 quando em Lisboa procura a cidade queirosiana, (pág. 19/20). E logo a 18 de Agosto continua: «Eça de Queirós não é só um dos meus escritores favoritos, mas aquele a quem eu como escritor sinto que mais devo. Ainda hoje me maravilho com a elegância da sua prosa e foi nos seus livros que descobri a maleabilidade da língua portuguesa, o poder da ironia, a arte magistral de numa frase retratar um carácter. A sua crítica impiedosa de Portugal, das instituições e da sociedade, ajudou-me, se não a aceitar, pelo menos a compreender as forças profundas que continuam a determinar o modo de ser do país em que nasci.
Por isso e mais, o respeito e a admiração que tenho por Eça de Queirós continuam intactos, não sofreram com os anos. Bem ao contrário. Mantenho até para com ele a pontinha de idolatria que me ficou da adolescência. E por vezes falo ao seu retrato. Li-lhe hoje as boas críticas com que tem sido recebida a tradução holandesa d’ O Primo Basílio e tive a impressão de que ele apreciou» (pág. 110).
Este Tempo Contado, sucessão de acontecimentos tão verdadeiros que até parecem inventados, teve com certeza em conta o que escreveu Eça em 1895 aos seus amigos Arnoso e Sabugosa: «Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorar o homem, só essa de contar historias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida!». Neste seu livro J. Rentes de Carvalho apresenta-nos a nudez crua da verdade, deixando aos seus leitores a escolha dos mantos, diáfanos ou não, com que a queiram cobrir de fantasia. Mas depois não se lamentem. É que o nosso tempo está mesmo cada vez mais contado e cada vez nos damos mais conta «… de como o tempo de uma vida é um instante irrisório…» (p. 294). Por isso façam o favor de viver hoje e preparar o saco para amanhã. E pouco mais valerá a pena. A eternidade é este suceder de dias em que, em todos eles, nos descobrimos com Tempo Contado.

J. A. Gonçalves Guimarães


Novo livro de Dagoberto

O livro chegou e as vagas notícias e referências antes havidas materializaram-se agora nesta nova edição de crónicas ecianas intitulada D’Eça (Nabuco, Gilberto) e d’outros, de Dagoberto Carvalho J.or, com gentileza de dedicatória a este vosso amigo e ainda a Manuel Costa e Maria da Conceição Nogueira da Póvoa de Varzim; a Carolina e António Alberto Calheiros Lobo, de Espinho; a Isabel Macedo, de Oeiras de Portugal; a Laura e Armando Areias, do Recife; a Marco Santana de Oeiras do Piauí, um grupo de amigos dispersos que o autor irmanou na abertura deste livro prefaciado por Celso Barros Coelho, ex-presidente da Academia Piauiense de Letras, e por Fonseca Neto membro da mesma. Os capítulos sucedem-se trazendo à lembrança Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Beatriz Berrini, Isabel Pires de Lima, Campos Matos, Dário Castro Alves e muitos outros unidos pela prosa, pensamento e culto de Eça de Queirós, com temas tão interessantes como o Natal, as Academias, a Confraria Eciana de Oeiras, os festejos de S. João e, coroando com Arte esta peregrinação literária e afectiva, o Canto da Lembrança e da Província, um caderno de poesia sobre a terra natal de Dagoberto e as imperecíveis memórias da infância posta em verso, essa forma de escrever em bronze literário o que se quer que perdure e partilhe.
Como já nos foi habituando noutras edições anteriores, é este também um livro de erudição e de coração, de afectos em volta da memória de Eça, que um dia escreveu que o Brasil tem «… um povo superiormente inteligente, provadamente activo, e escandalosamente rico…» (Cartas de Paris).

 
A minha família

No passado dia 21 de Dezembro, Francisco Barbosa da Costa lançou no Salão Paroquial de Canelas um livro sobre a sua família, as referências genealógicas a várias gerações de Barbosas, “Brasileiros”, Cavadas, Costas (Ferreiras) e Vigários, perpetuados nos seus filhos e netos.
Muito para além do interesse particular ou circunscrito ao grupo familiar actual, estes registos genealógicos, quando feitos com critério histórico, como é o caso, apresentam-nos as teias sociais que várias gerações foram urdindo desde o século XVII, a sua dispersão a partir das terras de origem, o seu lugar económico e social, a sua não menos importante relação de um núcleo familiar com os restantes com quem contactou, com quem se fundiu, com quem se cruzou.
Muito mais do que um exercício de curiosidade é assim uma obra de Historia Social que, de aparentemente pessoal, se transforma em referência para muitas outras pessoas e famílias. É só ir lá e puxar os fios da História.

Trindade Coelho
Jornadas Culturais de Mogadouro

Assinalando os 150 anos do nascimento de Trindade Coelho, advogado, político e escritor, a Câmara Municipal de Mogadouro e a Confraria Queirosiana vão realizar nos dias 18 e 19 de Junho de 2011 umas jornadas culturais que recordem aquela figura contemporânea de Eça de Queirós, mas que igualmente divulguem a cultura do nosso tempo que liga o espaço transmontano ao mundo através da obra do escritor José Rentes de Carvalho, nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, filho e neto de naturais de Estevais de Mogadouro e que ainda hoje divide as suas origens portuguesas com as circunstâncias que o levaram a Amsterdam na Holanda e aí ter escrito sobre este nosso mundo actual das grandes cidades e dos pequenos recantos da Humanidade, das grandes questões internacionais e do dia-a-dia comum a milhões de viventes.
O programa, para além de pretender levar a Mogadouro os seus naturais na diáspora, em dois dias de convívio com os residentes, pretende igualmente ouvir e divulgar aqueles que através das memórias, da literatura ou da história têm novos contributos a dar sobre a vida e obra de Trindade Coelho ou de José Rentes de Carvalho e da moldura geográfica que une estes dois pensadores, um do século XIX e o outro do nosso século XXI.
Nesta primeira fase de divulgação destas jornadas ambas as instituições aceitam inscrições provisórias para participação, com ou sem comunicação, bastando para tal os interessados contactarem a Câmara Municipal de Mogadouro ou a Confraria Queirosiana.
À medida que o programa for enriquecido com as diversas participações, serão os inscritos contactados para a concretização da sua inscrição.
A organização destas jornadas prevê a sua conveniente divulgação, bem assim como a publicação atempada das respectivas Actas.
Ir tomar café, ou não, com

Dia de Natal, o apelo implícito à boa vontade, à tolerância, à pancadinha nas costas, ao deixa lá, que só encontra eco no cidadão comum bem formado, faz com que desejemos ir tomar café com muita gente, entre eles:
Julien Paul Assange, por ter feito por via pacífica o que outros tentaram pela força: mostrar-nos como o mundo é governado por crápulas, ridículos nos seus “segredos”, perversos ao executá-los, hipócritas ao defendê-los; Virgílio Teixeira, um cowboy português de Hollywood que partiu para a pradaria celeste; D. Duarte de Bragança, por querer ser timorense no melhor sentido da portugalidade fraterna e universal; Tozé Brito, por 40 anos de canções felizes com gente dentro; Isabel Fernandes, a museóloga dos museus vivos; Ana Gomes, porque alguém tem de gritar “o rei vai nu”; Blake Edwards, o pai da Pantera Cor de Rosa; Carlos Pinto Coelho, porque ainda Acontece.
Mas também nem com todo o espírito natalício possível e disponível me apetece ir tomar café com: Carlos César o político das excepções paroquiais; Gilberto Madaíl, porque além de bancos falidos também temos estádios falidos que ninguém quer custear.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 28 – Sábado, 25 de Dezembro de 2010
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eça & Outras

Monárquicos, republicanos e outros

Recordemos o já sabido: após a vitória liberal em 1834 formaram-se em Portugal vários partidos monárquicos, que se revezaram no poder, com mais ou menos sucesso. Alguns fundiram-se, outros cindiram-se, outros andaram à deriva. Nunca houve no Portugal oitocentista um só “partido monárquico”, mas vários.
Em 1875 é fundado um primeiro Partido Socialista e em 1876 o Partido Republicano, no mesmo ano em que os partidos monárquicos Histórico e Reformista se fundem pelo Pacto da Granja (Vila Nova de Gaia). Em 1878 é eleito pelo círculo do Porto, Rodrigues de Freitas, o primeiro deputado republicano. Em 1887 surge, também no Porto, o jornal anarquista A Revolução Social.
São, basicamente, estes os grupos que irão condicionar a vida política portuguesa até pouco depois do 28 de Maio de 1926, organizados em diversos partidos, também com as suas facções, fusões, dissensões e estratégias.
No que diz respeito ao evoluir da sociedade portuguesa não estavam todos de acordo, mas, também basicamente, os monárquicos defendiam várias ideias de Monarquia e os republicanos várias concepções de República. Por sua vez, aos socialistas era-lhes indiferente o regime, pois a sua acção visava a melhoria da consciência individual e social, o que ia muito para além das querelas partidárias, enquanto os anarquistas estavam contra um e outro regime, pois em ambos viam os mesmos defeitos que oprimiam as classes trabalhadoras e os livres-pensadores.
Com a implantação do regime republicano em 1910, todas estas correntes de pensamento político continuaram a existir e não foi pela questão formal do regime que o Estado Novo as perseguiu, mas sim pelo seu maior ou menor empenhamento na transformação da sociedade. Por isso, durante a ditadura continuaram a existir monárquicos saudosos, republicanos teimosos, socialistas adiados e anarquistas silenciosos. O Partido Comunista aparece em 1921. A União Nacional, o partido único da ditadura, com pseudónimo, durou até 25 de Abril de 1974.
Com a implantação do regime democrático em 1974 estas correntes organizaram-se livremente em partidos, mais ou menos efémeros, mais ou menos duradouros, mas todos se dizendo democráticos, ou seja, procurando defender os interesses do «povo», agora considerado como a totalidade dos cidadãos independentemente da classe social, fortuna ou opção ideológica, o que antes não era entendido assim pelos diversos partidos, pois alguns deles reclamavam-se «de classe». Ora o que nestes cem anos os partidos mostraram foi a crescente proletarização das antigas classes e a assunção pelos proletários dos valores e modo de vida da burguesia, ou, pelo menos, da pequena burguesia.
Fará assim hoje sentido alguém dizer-se monárquico ou republicano? A verdadeira questão do regime não será a maior ou menor democracia representativa? O alguém dizer-se social-democrata lembrará as convicções de Lenine ou de Rosa Luxemburgo? E quantos equívocos comporta hoje a denominação de socialista: Mário Soares “descende” de Bernardino Machado ou de Antero de Quental? E não é verdade que a maior parte daqueles a quem os media chamam anarquistas nada saberão sobre Proudhon?
Em Portugal os reis sempre foram aclamados pelo povo, eleitos para reinarem em seu nome. Pode ser que entre nós volte a haver Monarquia: mesmo países comunistas como a Coreia do Norte, e do mundo árabe, como a Síria, já estão em regime de republicomonarquia. Nestes países o líder é aclamado por um Congresso, mas já não é eleito pelo povo e normalmente sucede ao pai. Por outro lado, como viver com o confuso sistema eleitoral estadunidense que permite em alguns estados a chegada ao poder de cidadãos com baixíssimo índice cultural? E as repúblicas africanas em golpe de estado permanente com massacres humanos nos intervalos?
Tenha Portugal um rei ou uma rainha, uma ou um presidente, que os tenha bons, sensatos, justos, prestigiados, patriotas e capazes de entenderem o mundo de hoje e o que virá para os nossos filhos e netos. O passado, que irremediavelmente já passou, só vale como cautela de lotaria da vida a haver. É útil se for entendido como um filme em marcha reversível que podemos fazer parar para com ele aprendermos e depois escolhermos a sequência final.
Sobre os adeptos daquelas denominações políticas antigas, que as mais das vezes são apenas a arca que apenas tem dentro um jornal velho e esquecido que se herdou e se tem de respeitar, com todo o respeito democrático direi como Eça de Queirós, com as pessoais adaptações: «constitucionalistas, socialistas, miguelistas, jacobinos, de resto, para mim, como romancista [ como historiador], são todos produtos sociais, bons para a Arte [a História], quando são típicos, todos igualmente explicáveis, todos igualmente interessantes. O dever do artista [do historiador] é estudá-los, como o botânico estuda as plantas, sem se importar que seja a beladona ou a batata, que envenena ou nutra» (Notas Contemporâneas, entre [ ] nosso).
Às minhas simpatias políticas ou pessoais, que obviamente também as tenho, procuro sempre sobrepor o que entendo como interesse colectivo. Interessa-me mais ser português pleno, seja lá isso o que for, do que um dos Sanchos Panças dos D. Quixotes da ocidental praia lusitana. Sejam eles presidentes ou reis.
Mas, democraticamente falando, não tenho para mim que o regime republicano seja um bezerro de ouro ou vaca sagrada. Tem sido o que existe desde 1910 com os falhanços que lhe conhecemos. Até quando, não sei. Sei o que quero que lhe suceda e, muito para além dos aspectos formais do regime, com certeza um Portugal melhor.

J. A. Gonçalves Guimarães

 8.º Capítulo da Confraria Queirosiana

No passado dia 20 de Novembro decorreu no Solar Condes de Resende mais um capítulo em que foram insigniados : Maria Alda Barata Salgueiro, Maria Angelina dos Santos Rodrigues, Maria Augusta Osório de Castro P. D. dos Santos Lemos, Maria Luísa Pinto Costa Lima Tavares, todas professoras; António Manuel Lacerda Vieira, arquitecto; Nuno Miguel de Resende Jorge e Mendes, historiador e José Manuel Alves Tedim, vice-reitor da Universidade Portucalense.
Como confrades de honra, Hélio Loureiro, chefe de cozinha; Carlos Alberto Santarém Nunes Andrade, bibliotecário; Ana Margarida de Sousa Dinis Vieira, professora e Ana Teresa Peixinho, professora da Universidade de Coimbra.
Foi igualmente lançado o n.º7 da Revista de Portugal, nova série, apresentado pelo seu director Luís Manuel de Araújo, e o livro Republicanos, monárquicos e outros… de J. A. Gonçalves Guimarães, apresentado por César Oliveira, presidente da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia.
Após a deposição de uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós, seguiu-se o jantar queirosiano com ementa adequada, a que se seguiu o Baile das Camélias até cerca da uma da madrugada.
Uma reportagem sobre este capítulo pode ser vista em www.cm-gaia.pt.

Revista de Portugal

Este número sete da nova série da revista fundada em 1889 por Eça de Queirós apresenta artigos de Dagoberto Carvalho J.or, sobre Joaquim Nabuco; de Gonçalves Guimarães, sobre Xangai antiga; de Anabela Mimoso, sobre As Farpas; de Manuel Ivo Cruz, sobre o maestro Cruges de Os Maias; de Marco Valente, sobre Arte Rupestre, e ainda recensões de José António Afonso, Luís Manuel de Araújo e Gonçalves Guimarães. Este número abre com um editorial sobre Eça de Queirós e a República e uma entrevista, inédita em Portugal, que J. Rentes de Carvalho fez a José Saramago em 1989, fechando com a bibliografia dos sócios e as actividades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana referentes a 2009.
Esta edição, com a capa e editorial alusivos ao centenário da República, teve o apoio da Gaianima.

Obras de J. Rentes de Carvalho


Acaba de sair para o mercado a 3.ª edição portuguesa do romance Ernestina sob a chancela da Quetzal, que igualmente editou um novo livro deste autor com o mesmo título do seu blogue Tempo Contado, mas que apresenta um seu diário escrito entre 1994 – 1995.
O público português descobre assim este seu escritor queirosiano do século XX/XXI cuja obra surpreende e encanta cada vez que é lida e relida.

Eça de Queirós no Brasil

No passado dia 15 de Novembro, no mercado da Ribeira em Olinda, Brasil, Dagoberto Carvalho J.or, presidente da Sociedade Eça de Queirós do Recife, fundada em 1948, lançou o seu sétimo livro de estudos queirosianos, intitulado Paixão por Eça, ao qual nos voltaremos a referir em próxima edição.
Vai igualmente lançar um livro de poesias esquecido na gaveta.

Eça na América do Sul

A Fundação Eça de Queirós sediada em Santa Cruz do Douro, Baião, promoveu no passado dia 1 de Novembro em Buenos Aires na Universidade Três de Fevereiro uma conferência por Isabel Pires de Lima intitulada “Eça de Queirós – Mestre do romance oitocentista”, a qual foi depois repetida a 5 deste mês na Universidade do Congresso na cidade de Mendoza também na Argentina.
Com Irene Fialho da Universidade de Coimbra e Manuel Loff da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, aquela professora catedrática desta última instituição apresentou a conferência “Da Geração de 70 à Republica” no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro a 8 de Novembro e no Recife a 11 deste mês.

Poesia de Maria Virgínia Monteiro

No passado dia 4 de Novembro na Cooperativa Árvore, no Porto, foi lançada nova obra de poesia de Maria Virginia Monteiro, intitulada Longo é o tempo, editada pela Singular/Plural com o apoio da Gaianima, EEM.
A autora prossegue assim a sua activa oficina da palavra e da ideia em busca dos humanos sinais que permanecem para além do tempo.

Valença Cabral em Aveiro

Depois de Chaves, a Galeria Morgados da Pedricosa em Aveiro apresenta ao público até 28 de Novembro a exposição “Lugares sentidos” de Valença Cabral, com o apoio da AveiroArte e da Câmara Municipal.

Bronzes de Beatriz

A 20 de Novembro no Espaço Arte - Museu Municipal Carmen Miranda, Beatriz Pacheco Pereira apresentou as suas mais recentes esculturas em bronze. A exposição estará patente até 10 de Dezembro.

Ir tomar café (ou não) com:

Gostaríamos de tomar café com: Alfredo Margarido, o investigador de temas sociais que a Universidade desprezou; Miguel Soares e Miguel Prudêncio, pelos seus projectos para combater a malária; Raul Ruiz, o novo cineasta de Camilo.

Não queremos ir tomar café com: Carlos Costa, o gerente do Banco de Portugal que acha normal Portugal ser esfolado vivo pelos agiotas internacionais; Mohamed VI de Marrocos por eternizar o sofrimento do povo do Sara Ocidental.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 27 – Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Eça & Outras

Documento secreto sobre a guerra no Afeganistão

Enquanto se aproxima do fim a guerra política em Portugal para aprovação do Orçamento de Estado para 2011, esta página, à falta de melhor, e tal com os grandes jornais americanos, entendeu também divulgar um documento secreto sobre a guerra no Afeganistão, a qual é muito mais antiga do que aquela outra entre o PSD e o PS. Efectivamente, foi-nos enviado em tempos pelo nosso agente secreto em Leiria, Eng.º Charters d’Azevedo, com pedido de divulgação cautelosa para não ferirmos susceptibilidades diplomáticas na próxima cimeira da OTAN em Lisboa, o seguinte texto de Eça de Queirós:
«Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar comum do séc. XVIII: “A História é uma velhota que se repete sem cessar”.
O Fado e a Providência, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta.
Em 1847 os ingleses, "por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia..." e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880.
No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, Messias indígenas, vão percorrendo o território, e com os grandes nomes de "Pátria" e de "Religião", pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o "homem vermelho", e em pouco tempo é tudo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia... E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o.
Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se nalguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Kandahar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o viso-rei da Índia, reclamando com furor "reforços, chá e açúcar"! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da Índia, gastando milhões de libras, como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880.
Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras colunas de tropa índia, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Kandahar ou Ghasnat;- e num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Kandahar está livre! Hurrah! Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.
No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundices, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.
E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica...
Consoladora filosofia das guerras!
No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a "grande vitória do Afeganistão" - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A "política" portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades dum grande império.
Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de verão...»
Este lúcido relatório escrito pelo nosso cônsul em Londres, publicado depois nas suas Cartas de Inglaterra e onde V. Ex.as farão o favor de actualizar camelos para jeeps e ingleses para “eixo da imperial saudade”, o qual engloba os ditos, mai-los estadunidenses e alguns outros países incluindo o falido Portugal. E para terminar apenas diremos como o cônsul: foi assim em 1880, ainda é assim em 2010. Raios partam «a velhota»!
J. A. Gonçalves Guimarães

8.º Grande Capítulo

No próximo dia 20 de Novembro terá lugar no Solar Condes de Resende o 8.º Grande Capítulo da Confraria Queirosiana que este ano vai insigniar como confrades de honra e número, José Manuel Alves Tedim, Ana Teresa Peixinho, Ana Margarida de Sousa Dinis Vieira, Nuno Resende, Carlos Santarém Andrade, Alda Barata Salgueiro, Maria Augusta Osório e Hélio Loureiro.
Nesta cerimónia será ainda apresentado o n.º 7 da Revista de Portugal, este ano dedicada ao tema “Eça de Queirós era monárquico, republicano ou anarquista?” e o livro Republicanos monárquicos e outros….
Como habitualmente o convívio dos queirosianos terminará com um jantar e o Baile das camélias.

Património Religioso e Arte Sacra









Está a decorrer no Solar Condes de Resende o curso livre sobre Património Religioso e Arte Sacra, organizado pela Academia Eça de Queirós e que tem como conferencistas José Manuel Tedim, Luís Manuel de Araújo, Carlos A. Brochado de Almeida, J. A. Gonçalves Guimarães, Nuno Resende, António Manuel Silva e Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha.
As sessões decorrem aos sábados à tarde no Solar Condes de Resende ao ritmo de duas por mês. A frequência do curso implica o pagamento de inscrição.


Livro sobre Manuel de Arriaga


Com texto de José Vaz e ilustrações da Helena Magalhães, o Governo dos Açores acaba de editar “O Homem que falava com as flores”, uma biografia do 1º Presidente da República Manuel de Arriaga, destinada aos mais jovens, a qual será apresentada ao público no início de 2011.



Roteiros queirosianos



Acabam de ser publicadas as Actas das II Jornadas Internacionais de Turismo, organizadas por Eduardo Cordeiro Gonçalves e realizadas pelo ISMAI em 2009. Os seus dois volumes apresentam numerosos estudos sobre a problemático actual do Turismo, entre os quais “Roteiros queirosianos: da Literatura ao Turismo”, da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães.



Prémio para queirosiano

O júri do Prémio Jacinto do Prado Coelho 2009, promovido pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, atribuiu este galardão ao nosso confrade A. Campos Matos pelo seu livro “Eça de Queiroz. Uma biografia” editado pela Afrontamento.
Em comunicado o júri salientou não apenas esta obra, mas também «a consagração de uma vida intelectual em torno de Eça de Queirós invariavelmente marcada pelo rigor e pela qualidade», referindo-se ao percurso de vida do próprio autor.
Em recente visita ao norte, A. Campos Matos e sua esposa passaram pelo Solar Condes de Resende, onde almoçaram com Nassalete Miranda, directora do jornal “As Artes entre a Letras” que a este prémio deu o devido destaque.

Pintura de Valença Cabral

No Santa Maria Bar no Centro Histórico de Chaves estará patente até ao dia 30 de Outubro uma exposição de pintura de Valença Cabral, que também expôs quadros seus na presente edição do Salon d’Automne queirosiano no Solar Condes de Resende.
Este pintor vem depurando a sua expressão plástica até um impressionante lirismo quase abstracto ou, dito de outro modo, até um abstraccionismo lírico onde as paisagens se transformam em movimentos e cores com uma enorme dinâmica.

Ir tomar café (ou não) com:

Vamos – desta vez somos mais alguns – tomar café com; Jorge Luís Borges, por nunca ter ganho o Prémio Nobel da Literatura; José Manuel Fernandes, pelo seu artigo sobre as tristes semelhanças entre a 1.º República e a situação política actual; Liu Xiaoboo, prémio Nobel da Paz preso por discordar; Mariana Rey Monteiro, Lady do Teatro; Paula Rego, Lady da Arte; Paulo Barradas, o deputado que já descobriu o que é conviver com analfabetos políticos; Ray Moyniham, o investigador da paranóia farmacêutica que inventou os “pré-doentes”; Joanatan Hapira, ex-piloto israelita, Reuven Moskovtiz, sobrevivente do Holocausto, e Rami Elhanan, que quiseram ir a Gaza levar brinquedos às crianças palestinianas sitíadas na sua terra.

Não queremos ir tomar café com:

Cristina Kirchner, a presidente da Argentina que não gosta da liberdade de imprensa; Fernando Rosas, porque a História não se deve emendar retroactivamente com as convicções políticas do historiador; Robert Edwards, Prémio Nobel da Medicina porque a fertilização in vitro é imoral enquanto houver crianças para adoptar; e todos aqueles que, desde 25 de Abril de 1974, tendo sido elevados ao poder pelo voto do povo, devido à sua ganância, oportunismo, nepotismo, irresponsabilidade, corrupção, ignorância, omissão, compadrio, complacência, calculismo, arrogância, chico-espertice, etc, etc, transformaram este país no desastre actual. Na impossibilidade de publicar aqui essa enorme lista, faça você mesmo a sua. Vai ver em quantos nomes coincidimos.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 26 – Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

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J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral
colaboração: Nuno Resende; Ricardo Charters d’Azevedo.


sábado, 25 de setembro de 2010

Eça & Outras

O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

Decorrem no presente ano de 2010, por imperativo do calendário e decisão política, as evocações do centenário da República, ocasião excelente para Portugal inteiro reflectir sobre o que se passou há cem anos, o regime que vigorou entre 1910 e 1926, o que se impôs até 1974, e finalmente o que temos tido desde aquela data até pouco depois de amanhã.

Não é possível inverter a marcha da História e muito menos julgar o passado ou aqueles que o fizeram ou viveram; mas é possível sobre tal fazer uma reflexão sem muitos preconceitos ideológicos, tentando saber mais sobre os acontecimentos, tanto quanto o exercício histórico o permite, sabendo-se de antemão que qualquer juízo sobre qualquer pessoa, sociedade ou regime político é sempre parcial, oscilando entre a glorificação e o denegrir, quando a vida não é a preto e branco.

Não sendo de todo possível a isenção ideológica completamente asséptica, mesmo assim, como historiador, entendi dar o meu pequeno contributo para esta reflexão no livro “Republicanos, monárquicos e outros: as vereações gaienses durante a 1.ª República (1910 – 1926)”, que a Confraria Queirosiana decidiu editar e por à disposição do publico ledor. Não me competindo a análise das suas eventuais qualidades e possíveis defeitos, direi que comecei por reanalisar o que Eça de Queirós pensava sobre a República, depois recordar o que têm sido as repúblicas, monarquias e outros regimes políticos ao longo dos tempos nas diversas latitudes, regressando em seguida a Vila Nova de Gaia, como caso em análise, e recordar o que foi a sua administração antes e depois de 5 de Outubro de 1910, geralmente muito pouco conhecida neste município monárquico, republicano, socialista e anarquista (estas últimas correntes como a terceira via que não vingou), descrevendo as vereações entre 1910 e 1926, formadas por homens concretos, entre os quais encontramos sábios como Maximiano Lemos, além de médicos, industriais, comerciantes e escritores hoje pouco lembrados, e outros nomes que se esfumaram no olvido da História, que também o pratica, e nem sempre justo.

Tudo isto enquadrado nos factos mais relevantes da época, a nível mundial, europeu e nacional, como a I Grande Guerra e a 1.ª Travessia Aérea Lisboa–Rio de Janeiro. O livro termina com uma síntese sobre o que ficou daqueles desgraçados tempos, pois a 1.ª República foi um monumental falhanço da classe média, absolutamente incapaz para dirigir com sucesso os destinos do país e não há como negá-lo ou escondê-lo. O facto de ter tido a servi-la homens e mulheres inteligentes, generosos e com visão de futuro, não invalida que muitos deles tivessem sido ingénuos, ou se tivessem deixado engolir pelos interesses em presença, ou se bandeassem com as correntes políticas dominantes, o que, só por si, não transformou a quimera política em bem estar social. Eça de Queirós escreveu em 1898 que «a única obra urgente do mundo – a casa para todos, o pão para todos» não tinha até então sido realizada quer pelas monarquias quer pelas repúblicas e tal continua a ser desgraçadamente verdade. O bem, ou o mal, não estará pois nos regimes políticos.

Nos últimos tempos temos assistido à publicação de muitos livros e textos sobre a 1.ª Republica, alguns ainda, estranhamente, sob a forma de Vivas! e Morras! o que é, no mínimo, absurdo. A maior parte deles volta a reescrever a história oficial já conhecida. Poucos são os que falam com desenvoltura e isenção sobre os assaltos às mercearias pelos que morriam de fome, os que açambarcavam bens alimentares e faziam candongas, negociatas e cambalachos em nome do “povo e dos interesses da Pátria”, os que fugiram ou se esconderam para não serem mobilizados para uma guerra entre ingleses, franceses e alemães em luta pela supremacia na Europa e no mundo, os que tiveram morte lenta e inglória nas colónias portuguesas de África, os perseguidos e agredidos por questões ideológicas ou confessionais, os que minaram as instituições públicas em detrimento dos interesses de seita ou corporação, os espoliados pelo “interesse público”, os que enriqueceram com a República enquanto o país se miseriabilizava a todos os níveis. Ainda não será neste centenário que se fará a História da 1.ª República, até porque são os netos e os bisnetos dos que a fizeram que estão hoje no poder. E família… é família. Mas podemos ir tentando aclarar as questões que estão por esclarecer.

Este livro é apenas uma pequena abordagem, que pretende ser concreta e factual, sobre os homens que no município de Vila Nova de Gaia estiveram à frente dos destinos colectivos num dado momento histórico. Conhecê-los, saber quem realmente eles eram, ajudará a compreender o que ficou e o que não ficou para o futuro que é hoje o nosso quotidiano.

É literariamente interessante o dito de que a República se espalhou pelo país através do telégrafo; mas convém que procuremos saber quem eram os telegrafistas em cada estação. Para não se repetir sempre a mesma coisa até ao próximo centenário.

Desculpem esta auto-apresentação de um livro que eu próprio escrevi. Podia ter pedido a um amigo para o fazer, mas prefiro antes que o comentem e critiquem depois de o lerem.

Eça de Queirós tinha sérias reservas sobre a República. Infelizmente, e como quase sempre, a História confirmou as suas preocupações.
J. A. Gonçalves Guimarães
historiador
SALON D’AUTOMNE 2010

Hoje, pelas 17,30 horas decorrerá no Solar Condes de Resende a abertura da 5.ª edição do Salon d’Automne queirosiano 2010 o qual reúne obras de artistas profissionais e amadores que são sócios dos ASCR – Confraria Queirosiana, nomeadamente Alexandre Rufo, Amélia Traça, António Pinto, António Rua, Ariosto Madureira, Carolina Calheiros Lobo, Fernando Coimbra, Glória Nunes, Ilda Gomes, Rosalina Pinto, Rosário Sousa, Rui Soares, Simões Duarte e Valença Cabral, alguns dos quais expõem pela primeira vez e outros são já consagrados, mostrando estes assim um gesto de camaradagem para com os
praticantes iniciados e amadores, alguns dos quais alunos do curso livre de Pintura do Solar.

Depois da inauguração decorrerá no Solar um jantar de confraternização entre os artistas participantes. Como habitualmente, foi editado um artístico catálogo organizado por Fátima Teixeira, com o patrocínio da Gaianima e prefácio de Mário Dorminsky, vereador da Cultura da Câmara de Gaia.

SOCIEDADE EÇA DE QUEIRÓS DO RIO DE JANEIRO

Pela mão amiga e sempre presente de Dagoberto Carvalho J.or chegou-nos do “lado di lá” a brochura de Luiz de Castro Souza intitulada “Evolução da Sociedade Eça de Queiroz: 1997-2009” recentemente editada e que descreve a vida e actividade desta sociedade irmã, que realiza encontros mensais na Sala Miami do Hotel Flórida no Rio de Janeiro, e que sucedeu a um efémero Clube do Eça fundado em 1955.

Nestes encontros, após o almoço de confraternização, é sempre proferida uma palestra sobre um tema eciano, nomeadamente a evocação do escritor no país irmão e os estudos aí realizados sobre a biografia de amigos de Eça e o apreço pelas suas obras. A própria Sociedade edita estas palestras e possui uma notável galeria de retratos e caricaturas do nosso patrono comum.

A Confraria Queirosiana, que tem como propósito estatutário manter ligação com todas as sociedades queirosianas existentes no mundo, já iniciou os seus contactos com a Sociedade Eça de Queiroz do Rio de Janeiro.

MÚMIAS EGÍPCIAS

As três múmias egípcias da colecção do Museu Nacional de Arqueologia estão a estudadas ser pela primeira vez por uma equipa pluridisciplinar que reúne vários especialistas, entre eles Luís Raposo, Carlos Prates, Álvaro Figueiredo e Luís Manuel de Araújo, este último egiptólogo e vice-presidente da direcção da Confraria Queirosiana.

O Lisbon Mummy Project tem o apoio de Imagens Médicas Associadas (IMI), da Siemens e do Universsity College de Londres, sendo coordenado por Luís Raposo director do Museu Nacional de Arqueologia, o tal museu que querem pôr nos barracões da Cordoaria na margem do Tejo…

Os exames realizados permitirão o estudo integral das três múmias por processos não destrutivos. Entretanto, no passado mês de Agosto, aquele egiptólogo guiou mais uma vez uma admirável visita ao Egipto, desta feita para aos alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. No próximo ano, a convite da Comissão do Centenário da Universidade do Porto, irá publicar o estudo da colecção egípcia desta universidade.
VINHAS E VINHOS EM CONGRESSO
Entre 13 e 16 de Outubro próximo decorrerá em Peso da Régua, Viseu, Mangualde, Porto, Ponte de Lima e Viana do Castelo um 1º Congresso Internacional sobre este tema organizado pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho/GEHVID, o qual contará com a presença de especialistas estrangeiros e nacionais de renome.

A Confraria Queirosiana estará presente através do seu mesário-mor na Comissão Organizadora e com uma comunicação que apresentará em colaboração com Susana Guimarães intitulada “Vinho do Douro na Casa dos Condes de Resende”. Para além das sessões científicas o Congresso visitará alguns dos mais emblemáticos sítios vitivinícolas das regiões dos Vinhos Verdes, Dão e Douro.

EXPO 1940 REVISITADA
Acaba de ser reeditado o romance breve de Mário Claudio “Tocata para dois Clarins” pela D. Quixote, um misto de recriação literária sobre um acontecimento real narrado por quem o viu e viveu, no caso os pais do escritor, decorrendo a acção entre 1936 e 1941, o ano do nascimento do escritor.

A “Exposição do Mundo Português” foi uma gigantesca operação de propaganda do regime de Salazar que marcou durante as décadas de quarenta e cinquenta a Cultura, a Arte, o Cinema, a História, a Literatura e outros aspectos da vida portuguesa assentes sobre os arquétipos de “Deus-Pátria-Família” e do Império Português.

Nesta exposição participaram “todos” os artistas portugueses que António Ferro queria anjos estetas para além da teoria e da ideologia. Mas nem mesmo todas as obras da exposição resistiram ao desmontar da feira: quem se lembrará hoje do gigantesco mural em relevo de Raul Xavier a evocar Aljubarrota? Para que servirão os trajos e adereços de opereta do “cortejo histórico” que jaziam meios podres ainda nos finais dos anos oitenta num barracão da Câmara Municipal de Lisboa e que hoje não sei se lá continuam, mais podres e mais inúteis, por certo.

Sem as peias do historiador e com o muito da sua escrita pessoal, Mário Cláudio leva-nos assim de visita ao maior acontecimento efémero português do século XX.

A MORTE DO BARÃO

Prosseguindo na sua azáfama de trazer do olvido à luz actual algumas figuras, factos e locais de Leiria e da região estremenha, no passado dia 18 de Setembro foi apresentada a obra de Ricardo Charters d’Azevedo, “A Morte do Barão de Porto de Mós” na terra que lhe deu título.

Conselheiro do Tribunal de Contas e político de relevo na época de D. Maria II, viria a ser assassinado em Setembro de 1867 perto da Nazaré.

A apresentação da obra esteve a cargo do Prof. Guilherme de Oliveira Martins, actual presidente do Tribunal de Contas e ele próprio biógrafo de figuras oitocentistas.
PRÉMIO MARIA ALBERTA MENÉRES
Maria Alberta Menéres nasceu em 1930 em Vila Nova de Gaia, tendo-se licenciado em Ciências Histórico Filosóficas. Além de professora, chefiou o departamento de programas infantis e juvenis da RTP e tem inúmeras obras publicadas no âmbito da poesia, da antologia e da literatura infanto-juvenil. É mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

O Município de Gaia, através do pelouro da Cultura da Biblioteca Municipal e da Gaianima, EEM criou um prémio com o seu nome para a modalidade de Conto Ilustrado. O regulamento pode ser visto em www.bmgaia.gaianima.pt.

TOMAR CAFÉ OU NÃO COM…

Sim, gostaria de tomar café com: Manuel Maria Carrilho, se possível em Ervamoira; Nuno Cardoso Santos, pelo seu prémio em Astrofísica; Kurt Westergaard porque o humor é divino e a cólera é satânica; Luís de Matos por ser um verdadeiro mágico; Cesária Évora, a maior fadista crioula.

Não, não quero ir tomar café com Carla Bruni, que não foi eleita por ninguém.
Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 25 – Sábado, 25 de Setembro de 2010
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração: Dagoberto Carvalho J.or.