quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Eça & Outras

CASTELO DE CRESTUMA:
2.ª CAMPANHA DE ESCAVAÇÕES

Luís Filipe Menezes no Castelo de Crestuma
O morro denominado Castelo de Crestuma teve ocupação defensiva e de vigilância do Rio Douro e da sua travessia nos séculos IV-VIII e X-XI, segundo evidenciam os materiais já exumados quer no alto da colina, quer na praia de Favaios que lhe fica a poente.
Naquele primeiro sector evidenciaram-se numerosos entalhes, cavidades e degraus que correspondem à fixação e encaixe de estruturas de madeira, as quais terão sido abandonadas, destruídas e refeitas várias vezes no mesmo local, apoiadas ou complementadas com estruturas pétreas de granito (que não existe no local) e cobertas por tegulae, pelo menos em alguma das suas fases construtivas, da qual se recolheram 7000 fragmentos em 2010.
Para além de cerâmica de construção, doméstica e de armazenamento este sector revelou ainda a existência de fragmentos de vidro romano e alguma cerâmica de importação.
Na praia de Favaios as sondagens afectadas revelaram a existência de vários níveis sobrepostos de areias correspondentes às variações do zero hidrográfico do Rio Douro e também às variações anuais de cheia com transporte de lamas. Os elementos recolhidos, topográficos, pétreos, arqueológico, todos em maior número, variedade e concentração tipológica do que os obtidos no alto da colina, são sensivelmente dos mesmos períodos cronológicos indicados, sendo mais evidentes alguns materiais cerâmicos provenientes do Norte de África e da Fócia (atual Turquia). Tudo isto nos faz crer que estamos perante uma estrutura portuária onde chegavam materiais longínquos para troca comercial com produtos de extração local.
Tem igualmente vindo a ser registada e interpretada como uma estrutura metalúrgica destinada à lavagem de areias ou de nódulos de minerais, uma grande levada cavada na pedra com orifícios e entalhes semelhantes aos existentes por toda a colina do castelo, o que explicaria a ocupação do sítio e o seu relacionamento com um comércio expressivo vindo de tão longe.
A presente campanha, que está a decorrer durante o mês de Agosto patrocinada pelas Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM, foi organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) e é dirigida pelos arqueólogos J. A. Gonçalves Guimarães, António Manuel Silva e Laura Sousa e tem a colaboração dos arqueólogos Pedro Pereira, Paulo Lima, Paulo Lemos, Fátima Costa e Sílvia Santos e a coordenação logística da patrimonióloga Fátima Teixeira, contando ainda com a participação de mais de uma dezena de estudantes de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Este ano os trabalhos incidem no alargamento da área de implantação de estruturas na área do castelo e a continuação de sondagens na praia de Favaios e têm apresentado abundante espólio das épocas referidas.
Paralelamente foram também feitos ensaios geomagnéticos para deteção de estruturas enterradas na praia, ensaios de georeferência por estação total para obtenção de imagens das estruturas estudadas em 3 D, e recolha de amostras de sedimentos e outros para análises complementares.
O Castelo de Crestuma, um complexo pré-feudal ou pré-senhorial, tem paralelos em toda a Europa tardo-romana das pré-nacionalidades, muitos dos quais têm sido objecto de estudo precisamente na última década. A intervenção nesta estação, nesta primeira fase, deverá continuar até 2013.
Os trabalhos foram visitados no dia 18 de Agosto por Luís Filipe Menezes, o diretor do Parque Biológico de Gaia, Nuno Oliveira, o presidente da Junta de Freguesia de Crestuma, José Fernando Ferreira, e outros convidados, que percorreram demoradamente as áreas de escavação tendo-se inteirado dos pormenores das descobertas. O presidente da autarquia gaiense e confrade queirosiano declarou aos jornalistas presentes a importância destes estudos num contexto europeu de valorização dos sítios numa perspetiva do Turismo Cultural que se pretende para toda a região do Porto e Vale do Douro.
Os trabalhos têm igualmente sido visitados por arqueólogos e professores universitários portugueses e franceses.

QUEIROSIANO NO CONSELHO DE ESTADO

Luís Filipe Menezes, confrade de honra da Confraria Queirosiana, foi recentemente eleito para o Conselho de Estado. Como referiu no discurso que proferiu no capítulo da sua insigniação na Confraria em 2003 no Solar Condes de Resende, durante os tempos em que estudou medicina em Paris, tinha por itinerário quotidiano as avenidas e ruas por onde igualmente Eça de Queiros circulou, passando à porta da casa onde o escritor viveu, e essa lembrança ajudou-o a mitigar as saudades da pátria e a refletir sobre o seu devir, como Eça também fez e deixou escrito. Podemos pois concluir que o Conselho de Estado passou a ter alguém para quem o escritor é uma referência.

J. RENTES DE CARVALHO EM MACAU

Nos últimos tempos J. Rentes de Carvalho continua nos media, quer a propósito do seu último livro “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”, presente em tudo quanto é livraria, quer a propósito do conjunto da sua obra editada em português. Agora foi a vez do jornal de Macau “Ponto Final” lhe consagrar o seu suplemento Parágrafo com uma notável entrevista de Isabel Castro, publicado no passado dia 29 de Julho, onde o escritor, mais uma vez lembra: «Li “A Relíquia” aos 14 anos e foi um assombro, o senhor Eça de Queiroz continua número 1 na minha lista».



A. CAMPOS MATOS NO BRASIL

A Editora Movimento, de Porto Alegre, Brasil, com a colaboração do Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro, acaba de editar o livro “Silêncios, sombras e ocultações em Eça de Queiroz” de A. Campos Matos, uma coletânea de ensaios e crónicas sobre os mais variados aspetos da exegese queirosiana, alguns revisitados com profunda acuidade e outros perfeita novidade de um mundo que não para de nos surpreender, assim tenhamos oportunidade para nele entrar. É o que encontramos na parte I – Temas Queirosianos. Na parte II – Outros Temas, o autor deambula entre Camilo Pessanha, António Sérgio, Cruzio Malaparte, Camilo Castelo Branco e outros escritores, não necessariamente por esta ordem. Uma das suas crónicas merece-me um particular comentário: efectivamente também “Estes dias tumultuosos” de Pierre Van Paassen foi um dos livros que me marcaram, um livro que jamais esqueci e de que guardo na minha biblioteca um exemplar que escapou numa bacia de roupa lavada que ía para o estendal aquando uma rusga da PIDE a casa da mãe de um amigo de infância. Um livro que jamais esqueci e que deveria hoje ser relido e meditado antes da próxima guerra mundial.
Entre muitas outras coisas boas neste outro livro de A. Campos Matos (para além do nosso Eça e de todos os outros) esta é, com certeza, uma lembrança maior deste escritor em que o tempo e o espaço fazem todo o sentido, ou não fosse ele um arquitecto de memórias lusófonas, e este livro um grande abraço entre Portugal e o Brasil.

ATIVIDADES NO SOLAR

Para além da sua Feira de Troca de livros e objetos culturais no primeiro domingo de cada mês, a partir do próximo Outubro o Solar retomará as suas actividades regulares para variados públicos. Assim, para além do programa “Venha cultivar a sua horta” serão retomados o curso livre sobre Pintura e Expressão Plástica, entretanto reformulado, bem assim como o curso de Danças de Salão, numa parceria entre a Confraria Queirosiana e a Gaianima, EEM.
Para além destas realizações e do curso livre sobre Eça de Queirós, a que damos destaque noutro local, o Solar continua com visitas guiadas à sua área musealizada e ao Jardim das Camélias, onde se encontra a estátua de Eça de Queirós de Hélder de Carvalho, e também a acolher as mais diversas iniciativas culturais, para além da sua produção cultural no âmbito da Historia, Historia da Arte e da Literatura, Arqueologia, Antropologia Cultural e Património. Na sua loja podem ainda ser adquiridas obras recentes que em breve estarão disponíveis para venda on line!
Os visitantes e os frequentadores habituais da sua biblioteca podem também tomar refeições ligeiras no seu bar e entrar em contato com queirosianos em todo o mundo.

CURSO LIVRE SOBRE EÇA DE QUEIRÓS

A partir do próximo mês de Outubro, duas tardes de sábado por mês entre as 15 e as 17 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende o curso livre sobre “Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época”, numa segunda edição completamente diferente da primeira, que decorreu em 2008/2009, com novos temas e novas abordagens, com especial interesse para estudantes de História e de Literatura, professores, investigadores e todo o público em geral que queira ouvir falar sobre um dos maiores escritores portugueses da segunda metade do século XIX e a sua época, afinal tão parecida com a que Portugal, a Europa e o Mundo atualmente vivem. Serão professores Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Gonçalves Guimarães, Anabela Mimoso, Maia Marques, Nuno Resende, Ana Margarida Dinis e outros especialistas da Academia Queirosiana.

A NAMORADA DE EÇA

A revista “Islenha”, que se publica na Madeira sob a direção de Marcelino de Castro, no seu último número (48; Janeiro-Junho de 2011), para além de artigos de A. Campos Matos e de outros autores sobre a pintora Martha Telles, apresenta um interessantíssimo estudo de Doroteia Pita sobre «Anna Conover (1849-1923): singularidades de uma mulher apaixonada», nada mais nada menos do que novas revelações biográficas sobre uma das namoradas americanas de Eça de Queirós que este conheceu em Havana em 1873 e que afinal veio a ser diretora do Olimpia Theatre, em Londres, onde investiu toda a sua fortuna.
A autora promete para breve novas revelações sobre Anna e Eça….

CARICATURA DE EÇA

A Confraria Queirosiana foi brindada pelo Eng.º José Miguel Leal da Silva com uma caricatura de Eça de Queirós em barro da autoria do artesão Jorge Mateus, da sua “Colecção Escritores Portugueses”. A peça tem efetivamente uma notável expressão caricatural do autor de Os Maias e veio assim enriquecer o nosso acervo de imagética queirosiana.
O ofertante publicou recentemente a sua obra “Volfro! Esboço de uma teoria geral do “rush” mineiro. O caso de Arouca”, editado pela Associação de Defesa do Património Arouquense, 2011, a sua tese de Mestrado em Antropologia Cultural, a qual foi lançada em Lisboa e também no passado dia 13 de Agosto em Arouca. É ainda autor de várias obras sobre a CUF – cujo arquivo salvou de estúpida destruição – e sobre a Industria Portuguesa em geral, preparando para breve a edição de novos títulos.

EÇA PARA A INFÂNCIA

Sob o título “Eça de Queirós”, na coleção Nomes com História da editora Zero a Oito, com texto de Ana Oom e ilustrações de Raquel Santos e com a revisão técnica da Associação de Professores de História, e já editado em 2008, apanhamos no mercado este albunzinho para crianças, onde Eça aparece numa galeria onde constam as breves biografias de, entre outros, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. Nuno Alvares Pereira, Infante D. Henrique, Fernão de Magalhães, Luís de Camões, o escusado D. Sebastião, Marquês de Pombal e D. Carlos. O texto é agradável e as ilustrações excelentes. Mas eram desnecessárias algumas “imprecisões” que os biógrafos e o bom senso já não abonam: assim, dificilmente o criado Joaquim teria caçado tigres em África e a avó paterna de Eça era analfabeta (p. 9); Na realidade não sabemos se o escritor foi aluno interno, semi-interno ou externo do Colégio da Lapa; a tia morava perto e os colegas condes de Resende também; chegar do Rio Douro àquele colégio em 20 minutos, suponho que nem o maratonista Carlos Lopes (p.10); com que então as Conferências do Casino foram aproveitadas «para atacar o Estado e a religião católica»?! Isso foi o que disseram os tacanhos da época, não é o que a História nos ensina! (p. 25); Emília não foi a irmã mais nova dos condes; o casamento de Eça com Emília foi discreto, não teve «muitos amigos»; Emília escondeu dos filhos que o marido era um grande escritor, por isso viveu à parte da sua produção literária mais incisiva (p. 32); não conhecemos os leitores que «achavam que ele devia abandonar a sua carreira diplomática e regressar a Lisboa» (p. 35); é completamente falsa a ideia de Eça convidar António Nobre para ficar em sua casa (p. 37). Estas e outras questões se poderiam pôr a esta «revisão técnica da Associação de Professores de História»: técnica, seja lá isso o que for, pode ter sido; de professores de História é que não foi. Suponho que às crianças não se deve mentir, nem ensiná-las a fazê-lo e, já agora, talvez dizer-lhes que a procura da realidade em História é mais fantástica do que as fantasias mais bem encadernadas. Eça e as crianças bem o merecem.

PINTURA DE VALENÇA CABRAL

A partir de 13 de Agosto, Valença Cabral expõe os seus mais recentes trabalhos no Museu Municipal de Paços de Ferreira, «imagens encontradas sobre ambientes que a natureza nos apresenta».

BRINDAR COM:

Desta vez vamos brindar com Carlos Reis, porque realmente é preciso perguntar a todos os professores: «sabe ele o seu português?»; Anna Hazare, o indiano que luta contra a corrupção na terceira maior economia da Ásia.

Não, não quero brindar com:
Obama, porque afinal os Estados Unidos da América são como Portugal ou a Grécia no que diz respeito à divida e a sua é incomparavelmente maior; Cameron, por estar de férias e Londres a arder.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 35 – Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blogspot.com; 
eca-e-outras.blogspot.com; 
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; 
inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eça & Outras

O povo na obra de Eça de Queirós


Como todos os pensadores do século XIX, também Eça de Queirós se viu na necessidade de definir o povo, essa entidade social abstrata que emergiu da Revolução Francesa para tomar o poder e que não tem sido fácil de caracterizar: «Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o povo», assim escreveu Eça de Queirós aos 22 anos no Distrito de Évora, mas trata-se obviamente da generosidade de um jovem erudito a inventar um povo ideal, muito distante da realidade, em suma, um povo que não existia, e que nunca existiu.
Os intelectuais oitocentistas, face ao colapso humano, mental e social das classes que tinham detido o poder – os eclesiásticos, a aristocracia e a burguesia – sentiram-se tentados a inventar uma outra classe social que incarnasse os grandes valores éticos e cumprisse o bem estar social, para além de definir as nacionalidades: «o povo é o coração da pátria: a indiferença do povo é a morte da pátria», escreve ainda Eça de Queirós naquele jornal, mas, noutro passo avisa que «o povo, e isto que vagamente se chama o público, leva-se mais pelo entusiasmo do que pelos meios sérios e práticos» (idem). Ou seja, havia o povo e havia o público, duas entidades nem sempre coincidentes, pelo menos na sua abordagem.
O mais fácil era individualizar o povo pelas suas profissões: o camponês, o operário, o caixeiro, o serralheiro, o estivador, o alfaiate, o aguadeiro, o carpinteiro, a criada, etc, etc, eram seguramente povo. Já como entidade colectiva, como “classe” era mais fácil defini-lo pela negativa: o povo não era a aristocracia (os fidalgos e os nobilitados); dele não faziam parte os eclesiásticos, desde o padre cura até ao papa na Igreja Católica, que nas confissões protestantes a questão é outra; do povo não faziam parte os burgueses, os proprietários não nobres nem eclesiásticos, os detentores do capital ou de bens para o realizar, quer fossem fundiários, industriais, do comércio, da banca, dos transportes ou doutros serviços que começavam a nascer.
Entre o povo e os seguramente “não povo” havia então umas franjas de sobreposição, a que se virá comodamente a chamar pequena burguesia, pequenos grupos indefinidos à procura de um melhor lugar na escala social: os bacharéis por Coimbra e pelas Politécnicas (médicos, advogados, engenheiros), magistrados, militares, professores, funcionários públicos, leigos de instituições religiosas, feitores de propriedades, empreiteiros, etc, etc..É nestes grupos sociais que Eça de Queirós colherá o maior número de caracteres para as suas personagens, que transforma em verdadeiros tipos sociais que os memorialistas quererão, à viva força, fazer corresponder a personalidades que existiram mesmo, o que é uma tontice. São modelos, senhores, não são biografados!
No século XIX, povo, eram os que ganhavam à jorna, os assalariados, os soldados, os marinheiros da decadente marinha mercante e de cabotagem e também os da bazófia da marinha de guerra, os pescadores, os trabalhadores sazonais, tendo em conta que grande parte do país era rural de sobrevivência, afora duas ou três culturas intensivas (vinho, cereais, gado); pouquíssimas indústrias (madeiras, cerâmicas, têxteis) e larguíssima percentagem de analfabetos. Grande parte deste proletariado (outra expressão oitocentista) vivia nas vilas e nas poucas cidades. É aí que Eça os vai encontrar no Porto, em Coimbra, em Leiria, em Lisboa, em Évora, em Bristol, em Newcastle, em Paris, por outro lado.
Efectivamente os tipos rurais do povo são poucos na sua obra: uma pastora, alguns caseiros, alguns lavradores; já os rurais deslocados para a cidade são em maior número, nomeadamente as criadas e criados, as governantas, os empregados de hotel, as tendeiras e taberneiros, e pouco mais. Eça não é Camilo. Eça é um escritor urbano que escreveu metáforas sobre o desaparecimento do mundo rural, que o são A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.
Porém, no século XIX, tudo se fazia em nome do povo, ainda que pelos príncipes (o povo constitucionalizado); pelas igrejas (o povo de Deus) pela burguesia (o povo português); pelos intelectuais (o nosso povo). E foi a esse povo, desarmado após a implantação da monarquia constitucional e após a burguesia ter conquistado o poder, que lhe foi oferecida, titubeante e condicionada, uma nova arma: o voto. E, através dele, ainda que com a ajuda das armas, já no século XX, o povo chegou ao poder, em revoluções eufóricas que logo depois redundaram em grandes tragédias humanas, duas Guerras Mundiais e outras avulsas; bombas atómicas; genocídios e fomes. Os grandes dirigentes que a história do século XX, «o século do povo», regista, são todos de extração popular: Estaline, Mussulini, Hitler, Pol Pot, e tantos outros, não eram nem aristocratas, nem religiosos, nem burgueses e em muitos casos alcançaram o poder pelo voto democrático ou com o geral aplauso das multidões. É certo que Eça também escreveu «As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, são maiores ainda. (…).
As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias» (Distrito de Évora, 1867).
Não se encontra pois muito o povo na obra de Eça de Queirós, essa entidade abstracta e mítica que Engels, Marx e outros pensadores oitocentistas criaram com o seu tardo-enciclopedismo para a arrumarem nas gavetas dos fenómenos sociais. O que ali encontramos é sobretudo o homem, talvez ainda que muito darwiniano, oscilando entre a banalidade das existências quotidianas e uma inevitável crença no futuro.
Quanto ao mais, ainda estamos como no tempo de Eça: «Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar… e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam “a parceria”, que recebem e que governam». (A Ilustre Casa de Ramires). Acertem, faz favor, os seis milhões para sete e os trinta para três mil. É que entretanto, desde que Eça morreu, o número de governantes aumentou. Quanto ao povo, hoje tem televisão e internet, as grandes invenções que estão a levar a democracia a todos os cantos do mundo, a primeira curiosamente inventada por um gaiense de adopção, o físico Adriano de Paiva, contemporâneo de Eça de Queirós, que também profetizou generosamente: «Então, por toda a parte à superfície da terra, se cruzarão fios condutores, encarregados de importantíssima missão… testemunharão por sem dúvida o grau de civilização do grande organismo que se chama – a humanidade» (La Télescopie élèctrique… 1878, p. 23).
Não é isso que temos visto nos noticiários. O povo hoje tem outras preocupações e não sei que “classe” o possa substituir neste seu falhanço.

(Texto apresentado no colóquio com o mesmo título que decorreu no Solar Condes de Resende)

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Festival de Folclore

Decorrerá nos próximos dias 30 e 31 de Julho no Solar Condes de Resende o “Festival de Tradições de Terras Queirosianas”, organizado pelo Rancho Folclórico de Canelas, com o apoio da Confraria Queirosiana, o qual foi antecedido por um colóquio no dia 22 de Julho sob o tema “O povo na obra de Eça de Queirós”, em que foram palestrantes J. A. Gonçalves Guimarães, que falou sobre o conceito de povo na obra do escritor, e Nuno Resende que apresentou aspectos de Fraião, a aldeia da “naturalidade” do Padre Amaro.
No festival actuarão grupos etnográficos da Póvoa de Varzim, Évora, Sintra, Coimbra, Aveiro, Baião, Gaia, Leiria, Porto e o Grupo Mahtab de danças egípcias tradicionais.


Livros para o seu Verão

Nos últimos tempos os confrades queirosianos têm publicado vários livros, alguns dos quais só agora nos chegam à mão e que passamos a apresentar. Em todo o caso óptimas leituras de Verão com várias incidências, todos eles a reter e a debater:

Da autoria de Alda Barata Salgueiro chega-nos esta monografia de “Vilar dos Condes. A terra e a sua gente”, situada na Zona do Pinhal da Beira Interior, do concelho de Oleiros. Nesta obra, com prefácio de Luís Manuel de Araújo, a autora, para além dos aspectos geográficos, etnográficos e históricos da sua terra, dá particular relevo ao património humano, às gentes que habitam o lugar e seus antepassados, com memórias de famílias locais que se perpetuam em filhos e netos que, tal como a autora, voltaram ao rincão natal para lhe perpetuar a existência nos século que hão-de vir.




Nuno Gomes Oliveira, o diretor do Parque Biológico de Gaia, que tem dado à estampa uma já numerosa bibliografia sobre a protecção do ambiente, apresenta-nos agora “José Bonifácio de Andrada e Silva o primeiro ecologista de Portugal e do Brasil, com uma recensão da “Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal (1815)”, com prefácio de Marco António Costa, ex-vice presidente da Câmara Municipal de Gaia.
Começando por nos dizer que «este não é um livro de história, mas um livro que conta uma história, a história de vida de um homem invulgar com uma obra notável», e não podendo deixar de se referir à biografia deste professor da Universidade de Coimbra, fundador do seu Batalhão Académico contra os franceses em 1809, Intendente da Polícia do Porto e superintendente da sua Alfandega e Marinha, a seguir à retirada dos invasores, nesta obra é sobretudo o cientista prestigiado na Europa do seu tempo, o naturalista que estudou novas espécies geológicas e as potencialidades mineiras de Portugal e que elaborou e dirigiu projectos para a reflorestação das dunas e das serras portuguesas, antes de regressar ao seu Brasil a transformar-se no esteio da nova nação que se afirmava.
Muitas das preocupações com a conservação da natureza que já então revelava, só nos dias de hoje estão a ser implementadas, o que mostra a sua inteligência e o seu caráter precursor da moderna Ecologia, sendo por isso verdadeiramente fascinante a revisitação desta biografia do “Patriarca da Independência do Brasil”.


Então lá para o dia 5 de Agosto as montras e escaparates das livrarias deste país exibirão com capa cor de framboesa “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, o mais recente inédito de José Rentes de Carvalho, sobre o desconcertante mundo feminino, aqui abordado de uma forma com que o autor de Ernestina e de A Amante Holandesa faz questão de nos voltar a surpreender, nesta sociedade em que a mulher ocupa um lugar cada vez mais proeminente e os homens morrem sempre mais cedo do que elas. Não é um livro cor-de-rosa, mas entre o vermelho e o negro.



Com particular incidência no Turismo, na Cultura e na Regionalização será lançado no final do mês de Julho o livro de Mário Dorminsky intitulado “País em Brasa”, com prefácio de Luís Filipe Menezes, um retrato pessoal sobre o nosso país com particular incidência naquelas áreas. A obra recolhe as crónicas que o director do Fantasporto e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Gaia foi publicando no jornal Grande Porto nos dois últimos anos, afirmando na introdução que poderemos «começar a ver a tal “luz ao fundo do túnel”» em breve. Que Deus o oiça, perdão, o leia, e que faça por isso.

Mário Cláudio

No passado dia 22 de Julho em Paredes de Coura, foi apresentada a biografia de Tiago Veiga, bisneto de Camilo e poeta modernista, da autoria de Mário Cláudio, um volume com 800 páginas.

Notícias recentes de confrades

Após cinco anos como reitor da Universidade Aberta, por sua decisão, Carlos Reis regressou à Universidade de Coimbra; no passado dia 22 de Julho, Mário Vieira de Carvalho, musicólogo da Universidade Nova de Lisboa veio a Gaia falar de Wagner em Portugal no Auditório Municipal; Charters de Azevedo prepara a edição do seu livro “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791” que será lançado em meados de Setembro.

Tomar um Porto com:

Desta vez permitam-me que brinde à memória de Salvador Caetano, o grande industrial gaiense, e também com Rui Tavares, pelo seu texto “O Milagre do Lixo” e outras clarividências; com Pedro Dias, o novo director da Biblioteca Nacional; Ana Raquel Guerra, porque vale mais tarde do que nunca; Carlos Reis, porque não há ensino sem exigência; Elvio Passos, pelo que teve de aturar no exercício da sua profissão; Helmut Kohl por dizer à chanceler alemã que ela está a destruir a Europa.

Não, não quero brindar com:

Rupert Murdoch, que desejo que fique sem telemóvel; os clubes de futebol portugueses que «gastaram pelo menos 40 milhões de euros em contratações» e não foi de historiadores, nem de cientistas nem de agricultores; apenas de habilidosos pontapeadores de bola; já nos chegavam os inúteis estádios de futebol do Euro 2004.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 34 – Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

sábado, 25 de junho de 2011

Eça & Outras

Literatura transmontana:
de Trindade Coelho a J. Rentes de Carvalho

J. Rentes de Carvalho assina protocolo
com a Confraria
Numa carta escrita por Trindade Coelho a um colega jornalista, a propósito do passamento de Eça de Queirós, o escritor mogadourense escreveu:
«Pobre homenagem será sempre a que prestemos ao Eça de Queirós. Não seria demais, - seria até bem pouco irmos esperá-lo à fronteira e trazê-lo em comboio onde só ele viesse, ele e os seus devotos… À volta de ti nos reuniremos. Foi ele o nosso Pai espiritual; ele quem educou o nosso coração e os nossos sentidos para não amarem senão a Verdade. Reúne a Associação dos Jornalistas e a Associação da Imprensa. Faz um apelo às outras todas, - a todo o público. É preciso obrigá-lo a pensar, cinco minutos que seja, nesse que a pensar o ensinou. Não desistas…
De mais a mais, trata-se também de um Santo – como Antero, como João de Deus. Depois pensaremos no mais. Agora só nele; no que dele nos resta, - e que é sagrado!»
A Confraria Queirosiana, nos passados dias 18 e 19 de Junho, no centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento do escritor transmontano, foi a Mogadouro festejar a admiração de Trindade Coelho por Eça de Queirós e também a admiração que este tinha por Trindade Coelho ao indicá-lo para colaborador da sua Revista de Portugal.
A Confraria e os participantes nas 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro foram recebidos no Salão Nobre do Município pelo seu presidente, António G. S. Moraes Machado e pelo presidente da Assembleia Municipal, Ilídio Granjo Vaz, tendo apresentado os cumprimentos em nome dos visitantes o presidente da direcção José Manuel Tedim.
Seguiu-se a deposição de uma coroa de louros na estátua de Trindade Coelho, seguida da aposição do carimbo do dia no selo dos CTT com a efígie deste escritor, tendo na ocasião proferido algumas palavras alusivas ao ato Virgínia Gomes, chefe da estação postal.
Aos que aí estiveram juntaram-se também as palavras escritas e expressamente enviadas por José Évora, de Cabo Verde, e de Dagoberto Carvalho Júnior, do Brasil. E também de Anabela Mimoso, António Manuel Silva, José António Afonso, Carlos d’ Abreu, João Bartolomeu Rodrigues, J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira.
Não nos iludamos, como Eça e Trindade Coelho se iludiram: nunca seremos muitos a recordá-los e o tanto que eles nos deixaram. A actual classe dominante e o povo em que eles depositaram tantas esperanças estão ocupados com outros exemplos e outros valores. Mas alguém tem de seguir pela estrada larga da vida, aquela onde todos cabem, se quiserem.
Em tempos de pessimismos encartados, como os de hoje, poderíamos ter ido ali dizer como nós compreendemos o suicídio de Trindade Coelho, quando lhe faltou a paciência para aturar um mundo que queria melhor e mais fraterno e que de todo não o era nem tem sido. Mas não, o que fomos ali recordar foram as suas crenças nos valores da cidadania a na procura da verdade, e também a memória de todos aqueles meninos que em qualquer remota vila ou aldeia, de horizontes tolhidos até pela geografia, não se deixam abater pelas fatalidades da existência, e pelas suas próprias pernas se vão ao mundo, o tomam pelas suas mãos e o devolvem aos seus conterrâneos e a toda a humanidade transformado em ciência, em arte, ou em literatura, como aconteceu com José Rentes de Carvalho, o escritor que se ergueu na Holanda, mas que escolheu Estevais de Mogadouro, a terra dos seus maiores, para repensar Portugal, a Europa e o Mundo em textos que aqui ouvimos ler no Sarau Cultural pelos jovens do grupo de teatro Aceitta, que interpretaram também textos de Trindade e Eça. Pela noite outros dançaram, tocaram e cantaram com uma frescura e vivacidade inusitadas, com especial destaque para as gaitas-de-foles, o instrumento mediterrânico que os pastores, da Palestina à Escócia, tocam para reunir os povos em volta da sua ancestralidade.
Já no dia 19, após a visita aos monumentos de Mogadouro, e antes da partida para Estevais, realizou-se no auditório das Quintas das Quebradas, por especial gentileza do seu proprietário, o escultor Manuel Barroco, a assinatura do protocolo entre a Confraria e José Rentes de Carvalho sobre a gestão do espólio que o escritor depositou no Solar Condes de Resende e a sua disponibilização aos investigadores, ficando numa das paredes uma lápide a assinalar o ato, ao qual esteve presente Teresa Sanches, vereadora do Pelouro da Cultura, seguindo-se uma sessão de autógrafos pelo autor de Ernestina.
Depressa a Confraria e os presentes perceberam que o tempo ia ser curto, ficando o colóquio “Que literatura para o século XXI?” como uma promessa adiada para tempos próximos.
 J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

J. Rentes de Carvalho autografa livro
a Luís Filipe Menezes
Feira do Livro

Entre 26 de Maio e 12 de Junho decorreu no Porto a 81.ª edição da Feira do Livro, onde o romance La Coca de J. Rentes de Carvalho foi um dos livros mais vendidos.
Para além de outras feiras do livro um pouco por todo o lado, recordamos que o Solar Condes de Resende tem, todos os primeiros domingos de cada mês, uma feira de trocas de livros grátis, para além da loja onde se vendem as edições Gaianima e Confraria Queirosiana.

Olhares Queirosianos em Leiria

Decorreu nos dias 3 e 4 de Junho em Leiria a 3.ª edição do evento Olhares Queirosianos, durante o qual, a nossa confrade, Ana Dinis Vieira apresentou o seu livro “A Leiria de Eça de Queiroz – Guia da Cidade”, editado pela Junta de Freguesia de Leiria.
Na cerimónia de abertura participou também o nosso confrade Orlando Cardoso, autor do anterior roteiro da Leiria Queirosiana.

Na Quinta do Vale Meão
Quinta do Vale Meão

No passado dia 14 de Junho, Luísa e Francisco de Olazabal receberam na Quinta do Vale Meão em Vila Nova de Foz Côa, o escritor J. Rentes de Carvalho, que desejavam conhecer pessoalmente, depois de se tornam seus leitores fiéis e conhecedores da sua obra, acompanhado de J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira da redacção da Revista de Portugal.
O escritor visitou a “catedral” onde são produzidos os afamados vinhos e azeites desta quinta fundada por D. Antónia Adelaide Ferreira no final da sua vida e que hoje é propriedade desta família de seus descendentes.
O Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ está também a colaborar na celebração do duplo centenário desta mítica figura duriense.

Notícias do Brasil

Mãos amigas de confrades (Carolina e Alberto Calheiros Lobo) trouxeram do Brasil notícias escritas, pessoais e publicadas de Dagoberto Carvalho J.or: “Revivendo o Cometa”, ano II, n.º2, Dezembro de 2010, dos alunos do 7.º ano do Instituto Barros de Ensino (IBENS), quase todo dedicado ao «grande eciano oeirense» e ao projecto «Chá com Eça»; depois a Revista Presença dedicada a Joaquim Nabuco com a publicação da sua palestra proferida em Teresina, em 10 de Abril de 2010 e também publicada na Revista de Portugal. E, last but not least, o Almanaque Biográfico que lhe é dedicado, organizado por Maria do Socorro Barbosa Barros, uma bela publicação com recordações desde a infância até à actualidade, espelho de uma brilhante carreira de médico, historiador, queirosiano e Homem de Cultura luso-brasileira ou brasileira-lusa, conforme a praia que escolhermos para observar as estrelas luminosas do nosso universo que é a Língua Portuguesa.


Roteiro de Lisboa…

A. Campos Matos, através da Parceria A. M. Pereira, acaba de dar à estampa um livro que muita falta fazia no universo queirosiano que foi construindo ao longo da sua notável biografia: um “Roteiro da Lisboa de Eça de Queiróz e seus arredores”. De formato prático, ao longo das suas 176 páginas, apresenta ilustrações identificadoras dos locais a que o texto se refere, distribuídas por «A geografia urbana de Lisboa» e a de Sintra, Colares e Cascais, complementada ainda com plantas de alguns itinerários, como o «Passeio de Luísa com o Conselheiro Acácio…»; «Do Largo do Calhariz, pelo Chiado e Baixa aos Restauradores» e «Do Cais do Sodré pelo Terreiro do Paço ao Rossio», uma outra com a localização dos locais, edifícios e instituições queirosianas lisboetas e ainda uma «Referência geográfica dos locais da Sintra de Eça de Queiroz» e, por fim, uma utilíssima «Lista dos principais meios de transporte para os locais indicados neste livro».
O autor não precisa de mais encómios sobre a qualidade das suas obras e por isso salientamos apenas aqui a enorme utilidade cultural desta obra, coisa rara em muitos dos livros que se publicam.

Colóquio sobre Crestuma

No próximo dia 2 de Julho terá lugar no Centro Náutico de Crestuma, pelas 15 horas, um colóquio sobre o Castelo de Crestuma promovido pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ, com a colaboração da Águas e Parque Biológico de Gaia e a Junta de Freguesia local. Para além dos directores do estudo arqueológico desta estação, farão intervenções Álvaro Brito Moreira, sobre os vidros romanos ali encontrados, Teresa Pires de Carvalho sobre as cerâmicas importadas e Luís Carlos Amaral sobre o seu enquadramento na História Geral e Regional da Alta Idade Média.
Seguir-se-á uma visita ao Parque Botânico e Sitio Arqueológico de Crestuma e um beberete para os participantes.

Curso de Verão

A Fundação Eça de Queiroz vai realizar a 13.ª edição do seu Curso Internacional de Verão – Seminário Queirosiano, entre 25 e 29 de Julho, subordinado ao tema “Formas de Realismo”, dirigido a professores, estudantes universitários portugueses e estrangeiros e outros interessados na obra queirosiana. As inscrições terminam no dia 15 de Julho.

Tomar um Porto com:

Sim, gostaria de ir tomar um Porto com Leonard Cohen, porque a vida pode caber numa canção; Marisa Matias, a deputada europeia que nos quer livrar dos falsos medicamentos; Stanley Kubrick, porque a robótica produz brinquedos úteis.
Não, não brindo com: Luis Eloy, porque a Justiça já está demasiado má para que possa ser exercida por trapaceiros; Ratko Mladic, porque a inconsciência é uma ofensa à Humanidade.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 33 – Sábado, 25 de Junho de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página:
J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Eça & Outras

Eleições!

A Confraria Queirosiana, esta página, a Serra da Estrela, as ondas do mar, o próprio vento que agita ou não as bandeiras, as ervas daninhas e os pimentos da horta, o sistema solar, enfim, muitas outras realidades universais são rigorosamente apartidárias, porque sim, por imperativo legal ou do bom senso, mas também devido àquele irritante desdém com que as coisas realmente grandes do universo observam estas nossas organizações humanas. Assim, por tudo isso, e pelo facto de os nossos confrades estarem inscritos nos mais diversos partidos, ou em partido nenhum, recusamo-nos terminantemente a comentar as recentes eleições portuguesas. São o que são, darão o que darão, esteja o seu pecado original no espelho de José Sócrates, na agenda de Passos Coelho, na escada de Paulo Portas, no microfone de Jerónimo de Sousa, no compêndio de Francisco Louçã, nos verdes tintos, nos verdes brancos ou nos vários clubes de pensadores com bandeirinha, do Norte, do Atlântico, da Terra, da Lua, do Comunismo, do Proletariado, dos Animais, não me consigo lembrar de todos e por isso as minhas democráticas e respeitosas desculpas também endereçadas aos ilustres performers madeirenses: aquela nossa ex-colónia está a revelar-se um alfobre de talentos capazes de salvarem o falidíssimo teatro nacional, o La Féria que se cuide!
Mas nós, que nunca deixamos ou deixaremos de lá ir pôr o boletim de voto, até porque da única vez que tal aconteceu, antes da Democracia, o Estado gastou um dinheirão com um seu zeloso funcionário agente da PIDE que andou a ganhar horas extras a perguntar à vizinhança coisas insignificantes sobre a nossa vulgaríssima vida privada, ora não queremos deixar de dar o nosso modesto contributo para uma séria reflexão sobre o momento que passa (ouço isto desde criança!). E para manter o tal aspecto rigorosamente apartidário que a Lei (oh gentes! A Lei!) e o bom senso aconselham nestas circunstâncias, pedimos a Eça de Queirós uns breves pensamentos sobre a transcendência do acto para o futuro da raça lusa, agora nas mãos daqueles seres superiores vindos do estrangeiro por ordem na nossa economia, os quais cansados de tão ciclópica tarefa vão depois descontrair, jogando golfe na Alemanha, pescando taínhas nos esgotos de Chicago ou perseguindo criadas de hotel em Nova York, coisas triviais que, afinal, já os velhos deuses da Grécia (cujos filhos eles agora tanto criticam!) já o faziam no Egeu muitos séculos atrás sem tantos polícias, jornalistas e advogados à perna.
Então Eça escreveu assim:
«Portugal realizou o cerimonial exterior das suas eleições - porque as eleições, elas próprias, já estavam feitas havia muito, segundo o costume consagrado e venerável, por meio de uma lista de círculos e um lápis, no remanso das secretarias. Restava só a solenidade de ir o povo às urnas. Todos sabemos, porém, que em muitos círculos se evita o barulho e a poeira desta cerimónia – reduzindo a eleição a uma simples acta que as autoridades lavram depois da missa, a um canto da sacristia. O povo, esse, fica nas suas moradas, quieto e certo de que o senhor administrador está “fazendo” o senhor deputado. Há nisto uma louvável e notável simplificação do sistema. Mas uma simplificação maior seria que o Governo nomeasse os deputados por meio de portarias; e que eles, desde logo, como empregados públicos, pagassem direitos de mercê.
O Sr. D. Pedro IV, como ele mesmo dizia, constitucionalizou Portugal à força, como uma vara de aço que se verga, impelindo-o “à iniciativa dentro do regime representativo”. Na sua índole porém e nos seus costumes, Portugal ficou em pleno século XVIII – e, como a vara que se levanta logo que a mão forte a abandone, o país vai regressando à sua atitude natural, que é “a obediência dentro do regime pessoal”. Uma maioria nomeada pelo Governo e que passivamente obedece às instruções do Governo: um Governo organizado por um chefe, e que fielmente segue as indicações desse chefe – eis o nosso estado político actual que não difere muito, na sua essência, do que caracterizou os reinados dos avós do nosso rei. Um chefe de partido entre nós, tendo a confiança da coroa, é um verdadeiro ditador – e o nosso regime uma ditadura real, exercendo-se dentro de um constitucionalismo fictício. Isto poderia ser um mal se nos surgisse um dia um ditador do tipo Guzman Blanco – mas pode ser um bem, se um dia esse chefe de partido for um magnífico Bismark. Não é todavia provável que este país, onde gradualmente calmou e se sumiu toda a violência nativa, produza Guzman Blancos. O presente regime portanto afigura-se-nos excelente – e só nos cumpre, dentro dele e abrigados por ele, esperar com paciência e bonomia que nos apareça numa manhã de nevoeiro esse Bismark genial e providencial» (Distrito de Évora, 1867).
Claro que este texto não se pode levar a sério: foi escrito por um jovem de 22 anos, recém-formado, cujo pai lhe arranjou um emprego precário «a recibo verde», a fazer sozinho um jornal (imaginem!) em Évora, e que nós ainda lemos por desfastio para com a aborrecidíssima e quase impossível leitura dos textos, relatórios ou prosas dos actuais jovens recém-formados, os gestores ou alguns escritores muito premiados. Um tédio que Eça nunca nos dá. Infelizmente, como a Historia o tem demonstrado, ainda estamos à espera do nosso Bismark e parece-me que ele estará demorado.
E, além do mais, cumprimos o direito de votar convencidos de que só a qualidade da areia fará uma boa praia. Ouviu, Dona Merkel?

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

J. Rentes de Carvalho nos top

O nosso prezado confrade tem andado numa roda viva de entrevistas, sessões de autógrafos, colóquios literários, até porque está nos top: na semana de 18 a 24 de Abril o seu livro La Coca foi o mais vendido na livraria Bulhosa; na Feira do Livro de Lisboa no top dos 10 livros ficou em terceiro lugar e no quinto dos dez autores mais vendidos, à frente de muitos representantes da “literatura de supermercado” ou da produzida pela “máquina editorial”. Ainda há bom senso e bom gosto.
Nos dias 27, 28 e 29 estará na Feira do Livro do Porto para coloquiar e dar autógrafos. Vamos lá abraçá-lo!

Fernão de Magalhães “aquece”

Como noticiámos na página anterior, decorreu no passado dia 27 de Abril na Sociedade de Geografia de Lisboa uma homenagem nacional ao navegador a qual serviu de abertura às comemorações internacionais dos 500 anos que decorrerão em 2021.
Entretanto a direcção da Confraria Queirosiana constituiu-se como comissão ad hoc para o apoio àquele evento que deverá unir Portugal, Espanha, Brasil, Argentina e Chile, pelo menos.
Entretanto no passado dia 4 de Maio houve na Casa do Infante no Porto, uma palestra pelo Eng.º António Taveira em que este mostrou a casa onde, segundo deduziu, terá vivido o pai de Fernão de Magalhães, logo que o filho poderá ali também ter nascido. Num pequeno opúsculo que publicou sobre o assunto, intitulado Fernão de Magalhães “o do estreito” de Santa Maria da Sé do Porto e em que afinal alude a muitas das ligações do navegador e sua família a Vila Nova de Gaia, como não é historiador e não estudou convenientemente a história da região, confundiu Gaia com Vila Nova e levou o assunto até à Casa de Campo Bello, que é em Gaia, por não saber que os Cernaches também tinham propriedades em Vila Nova, perto do «lugar de Rui de Magalhães». Outro aspecto curioso que se tem verificado na literatura ultimamente produzida pelos memorialistas portuenses é o seguinte: tendo eles passado anos a escrever que não era possível morarem fidalgos no Porto, opinião de há muito insustentável e devidamente explicada na sua verdadeira dimensão, volta e meia querem metê-los lá todos e até descrevem a janela da casa de onde viam as suas propriedades… em Vila Nova de Gaia. Enfim, curiosidades.

Porto Romântico

Nos dias 29 e 30 de Abril decorreu no Campus Foz da Universidade Católica Portuguesa o congresso sobre o Porto Romântico, organizado pelo Professor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa. Durante os dois dias foram apresentadas variadas comunicações sobre o Porto oitocentista e mesmo sobre algumas manifestações tardo-românticas já entradas pelo século XX adentro. A Academia Eça de Queirós esteve representada com uma comunicação sobre «Aspectos românticos na vida do Visconde de Beire», da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães. As Actas serão publicadas em Dezembro próximo.

O Artes entre as Letras de parabéns



Com uma notável exposição intitulada Arte pintada a Letras, que abriu ao público no passado dia 14 de Maio no Museu de Espinho, festejou assim o jornal As Artes entre as Letras o seu segundo aniversário. Entre os artistas representados os queirosianos Helder de Carvalho, Beatriz Pacheco Pereira e Luísa Prior.
A exposição estará aberta ao público até 3 de Junho e é realmente uma das mais belas mostras das Artes portuguesas dos últimos anos.



Novo livro de Maria Virgínia Monteiro

No passado dia 19 de Maio, Maria Virginia Monteiro apresentou na Sociedade de Língua Portuguesa em Lisboa o seu mais recente livro de poesia intitulado Longo é o Tempo,

…e de Anabela Mimoso

No passado dia 21 de Maio teve lugar na Biblioteca Municipal de Gaia o lançamento do livro Buzios, a mais recente obra da escritora Anabela Mimoso, editada pela Calendário da Letras.

Confraria dos Sabores de Sintra

No passado dia 2 de Abril decorreu em Sintra o capítulo fundacional da Confraria dos Sabores de Sintra, o qual decorreu no Mosteiro Jerónimo da Penha Longa.
A Confraria Queirosiana, que paraninfou o acto, esteve representada pelo mesário-mor, J. A. Gonçalves Guimarães, pelo vice-presidente da direcção Luís Manuel de Araújo e por Fátima Teixeira.
Presidiu ao acto Madalena Carrito, presidente da direcção da Federação das Confrarias da Gastronomia Portuguesa, tendo também feito uma intervenção o presidente da Câmara Fernando Seara.
Na ocasião o mesário-mor proferiu as seguintes palavras: «Provavelmente a “Confraria dos Sabores de Sintra” terá começado como se refere em O Primo Basílio: “Aquilo começara em Sintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Colares…” perdão, do Arq.to António Manuel Jorge Alves, ou então quando a Confraria Queirosiana veio a Sintra em 2008 e tivemos um gentilíssimo cicerone não oficial do roteiro queirosiano, que estava fechado por ser sábado.
Mas voltando a O Primo Basílio, aí se pode ler: “(…) os passeios por Seteais ao luar, devagar, sobre a relva pálida, com grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o vale, as areias ao longe, cheias de uma luz saudosa, idealizadora e branca; as sestas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante das águas que vão de pedra em pedra; as tardes na várzea de Colares, remando num velho bote, sobre a água escura da sombra dos freixos”.
Claro que a Sintra de hoje não é a de A Tragédia da Rua das Flores quando então “O que havia de pior em Sintra era o burguês, o banqueiro, o janota do Vítor, as caleches cheias de espanholas, as inglesas de lunetas azuis, e as toilettes por entre a folhagem. A serra tornava-se um suplemento do Chiado!”
Hoje, já muito pouco se cita Lord Byron, mas sim o Dr. Fernando Seara, e há turistas de muitas outras nacionalidades.
Mas a Sintra que hoje nos trouxe aqui, é certamente a Sintra eterna que o grande Eça de Queirós assim descreveu n’Os Maias: “No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…”.
Que mais dizer sobre uma terra que assim foi descrita por Eça de Queirós e que, em boa parte assim continua?».

Colóquio na Feira

Nos próximos dias 17 e 18 de Junho vai decorrer em Santa Maria da Feira um colóquio sobre a Terra de Santa Maria, comemorativo do 10.º aniversário da Revista Villa da Feira, durante o qual será apresentada uma comunicação sobre o «Castelo de Crestuma: o seu complexo arqueológico e resultados da primeira campanha de escavações» pela equipa de arqueólogos que tem dirigido esta intervenção, a qual irá prosseguir os seus trabalhos no próximo mês de Agosto patrocinada pela empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM.


Jornadas de Mogadouro

Nos próximos dias 18 e 19 de Junho vão decorrer as 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro, organizadas pela Confraria Queirosiana com a colaboração da autarquia local, as quais vão homenagear Trindade Coelho nos 150 anos do seu nascimento e conviver com José Rentes de Carvalho em Estevais de Mogadouro, fazendo assim um contraponto entre a literatura do século XIX e a do século XXI, pois este último escritor, além da obra em livro e colaboração dispersa em muitos jornais e revistas em Portugal e na Holanda, muito regularmente nos aparece com textos curtos e incisivos no seu blogue Tempo Contado.
As inscrições para participar podem ser feitas para a Confraria Queirosiana ou para o Município local.

Gostaria de ir tomar um Porto com

Vitorino Magalhães Godinho, o grande historiador dos fastos nacionais na história global (continuo sem perceber porque é que não há Prémio Nobel para historiadores se tal existe para os que escrevem desabafos íntimos); Dom José Policarpo, pela coragem de afirmar que a civilização tem como pilar fundamental a justiça e que, por isso, todo o criminoso tem direito a julgamento e não só quando apetece aos «cow boys»
Não, não desejo brindar com

Angela Merkel, porque da falta de elegância à arrogância vai um pequeno passo.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 32 – Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email:queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eça e Outras

Portugal e a Europa (visão de futuro), Charibari, 1889.
O Hino em surdina
 «Herois do mar…» - Quais? Os dos negócios dos submarinos? Os galegos que nos vendem o nosso peixe? Os que estão de papo para o ar nas praias de S. Tomé?
«… nobre povo» - Nobre? O Fernando? Um povo que gasta mais do que produz é nobre? Não será antes “pobre povo”? O poeta enganou-se? A “nobreza” do povo foi o maior equívoco do século XIX, que fez as desgraças do séc. XX e, em Portugal, do pós 25 de Abril. Entendamo-nos: “promovido” a “pequena burguesia” ou “classe média”, o povo rapidamente aprendeu o que não era nobre nas classes que destituiu: o laxismo, o oportunismo, a ignorância encartada, o delegar nos “seus representantes”, da mesma massa feitos, pois então, tal como outrora faziam alguma nobreza, algum clero, alguma burguesia, que o povo se apressou a copiar. Não estou a falar do povo que sempre trabalhou no duro, que tudo produziu e pouco conseguiu de seu. Mas, agora, “o povo somos todos nós”. A nobreza, as qualidades superiores da natureza humana que todos sabemos quais são, não são apanágio ou exclusivo de nenhuma classe, estatuto, formação ou condição social. Estão inscritas no ADN, modelam-se através da vontade pessoal e sobressaem ou apagam-se na moldura social em que cada um vive. Mas continuemos…
«Nação valente, imortal» - Valente, neste estado? Neste Estado? Não será antes e… mortal? Outro engano?
«Levantai hoje de novo» - Quem dá aqui uma mão? Vamos a isto, gente? Não, você não; já sabemos onde nos levam as suas ajudas… Não há mais ninguém para ajudar a levantar isto?
«O esplendor de Portugal» - Segundo o dicionário, esplendor quer dizer brilho intenso, mas devemos estar a consumir demasiada energia a produzi-lo nos futebóis e festivais e em mais nada do que interessa. É assim que actualmente o “nobre povo” entende o “esplendor”.
«Entre as brumas da memória» - Não era melhor dissipar as brumas, os nevoeiros do passado, e colher da História a lição dos dias claros?
«Oh Pátria sente-se a voz» - Voz que se sente não deve ser de boa gente, que essa ouve-se e percebe-se.
«Dos teus egrégios avós» - Quais? O Marquês de Pombal? João Franco? Ribeiro Sanches? Fontes Pereira de Melo? D. Afonso VI? O meu bisavô? A sua trisavó? Santo António? Salazar? Fontes Pereira de Melo? O Marquês de Sá da Bandeira? A Maria da Fonte? D. Sebastião?
«Que há-de guiar-te à vitória» - Mas não estão já todos eles na universidade sénior do passado? E alguns deles não foram rotundos falhados que os historiadores benevolentes equalizaram com os demais avós, como fazem as assistentes sociais aos velhinhos dos lares, que os convencem que são todos boas pessoas?
«Às armas! Às armas!» - Quais? As da NATO? As das Forças Armadas Europeias? As das nossas forças armadas no Afeganistão? As americanas da Base das Lages? As compradas na candonga? O voto? Um duelozinho de florete com o FMI?
«Sobre a terra e sobre o mar» - Ainda temos zona aérea exclusiva?
«Às armas! Às armas!» - Já ouvi, Senhor Henrique Lopes de Mendonça! Diga ao Senhor Alfredo Keil que não sou surdo!
«Pela Pátria lutar!» - É o que alguns portugueses têm feito vai para mais de 850 anos, os que trabalham no duro, e que não estão mais dispostos a deixar que os outros esbanjem o que produzem. Os que não tencionam deixar que, além dos juros, nos levem ainda o corpo, a mente e a vontade de sermos portugueses.
«Contra os canhões, marchar, marchar!» Lá terá de ser, mais uma vez!
É um belo hino romântico, este nosso Hino Nacional, habitualmente berrado (cantar é outra coisa!) nos estádios de futebol, mas duvido que entendido, reflectido, sentido. E quanto ao marchar, hoje toda a gente marcha: os novos, os velhos, as crianças, os políticos, as mulheres, os peregrinos, as marchas de Lisboa e as de Gaia, as do Mozart. Contra os canhões? Não, já não se usa. Hoje marcha-se a favor da paz, da saúde, do Santo António, do S. João, do dia disto e daquilo, dos animais domésticos e selvagens, e de muitas outras questões adoptadas pelo “nobre povo”. E para fazer a marcha “maior do mundo” para o Guinness, o repositório mundial da idiotice das massas.
Quanto aos empréstimos, mais ameaça menos “bruma da memória”, eles aí estão. Já Eça de Queirós escreveu em Os Maias: «Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – “cobrar o imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim se havia de continuar….».
E continuou… Até quando? Até este país decidir “pela Pátria lutar” em termos de presente e de futuro.
J. A. Gonçalves Guimarães

Os Maias em Londres
 No passado dia 10 de Março foi apresentada ao público em estreia no Galleon Theatre em Greenwich a peça de teatro Os Maias, adaptação do romance de Eça de Queirós por Alice de Sousa e com direcção de Bruce Jamieson.
Alice de Sousa, que interpreta também o principal papel feminino, recebeu em 2005 dois prémios do American Biographical Institute e em 2009 um prémio do governo português pelos seus 25 anos de carreira.


Literatura em viagem

 J. Rentes de Carvalho foi um dos escritores convidados para estar no Lev-Literatura em Viagem 2011, que decorreu em Matosinhos nos passados dias 16 a 19 de Abril, tendo participado no painel “Viajar é descobrir que todo o mundo se equívoca”, ao lado de Mário Delgado Aparain (Uruguai), Reif Larsen (EUA) e Valter Hugo Mãe, tendo como moderador Alexandre Quintanilha.
O escritor deu recentemente uma extensa entrevista ao programa televisivo “Câmara Clara” (RTP 2), bem assim como a vários outros canais de televisão, jornais e revistas, sobre as suas últimas edições em Portugal e na Holanda.

Fernão de Magalhães

 A Sociedade de Geografia de Lisboa leva a cabo no próximo dia 27 de Abril uma sessão de homenagem a Fernão de Magalhães, pelas 18 horas, a qual será presidida pela Ministra da Educação Dr.ª Isabel Alçada. Serão oradores, para além do presidente daquela centenária instituição, José Mattos e Silva, António Mattos e Silva, Gonçalves Guimarães, Manuel Magalhães Villas Boas e Proença Mendes, Comandante do Navio-Escola Sagres que em 2010 navegou parte da rota seguida por aquele navegador.
A Academia Eça de Queirós associa-se assim a esta evocação de Fernão de Magalhães, cujos dados biográficos mais recentes indicam que poderá ter nascido em Vila Nova de Gaia.

Academia de Marinha

O Eng.º José Luís Pereira Gonçalves, membro da direcção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, foi recentemente nomeado membro efectivo da Academia de Marinha.
Formado em Engenharia Electrotécnica desenvolveu actividade profissional em Timor, Moçambique e Portugal em algumas das mais importantes empresas nacionais, tendo sido chefe de gabinete do Secretário de Estado da Industria Ligeira e Industria Pesada em 1977/1978. É comendador da Ordem de Mérito da República Federal Alemã.
Além de velejador, foi membro fundador e vice-presidente da Aporvela (Associação Portuguesa de Treino de Vela) e tem-se dedicado ao estudo de aspectos técnicos das navegações históricas portuguesas.
É membro fundador da Academia Eça de Queirós.


Curso sobre Joalharia em Portugal

Decorrerá no próximo mês de Maio, aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, no Solar Condes de Resende, um curso intensivo sobre História da Joalharia em Portugal, ministrado por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, professor da Universidade Católica do Porto.
As matérias a ensinar abrangerão desde os conceitos introdutórios ao tema, passando pela joalharia de todas as épocas, até às grandes casas da joalharia em Portugal e a joalharia contemporânea.
O curso é organizado pela Academia Eça de Queirós e da sua frequência será passado certificado a todos os participantes.

Folhetim no Notícias de Colmeias

Como no tempo de Eça de Queirós, o jornal Notícias de Colmeias, Leiria, é o único jornal português que publica um folhetim, ou seja, uma novela em que cada capítulo, ou parte dele, aparece em cada número do jornal, neste caso intitulada “Isabel” e da autoria de Cunca de Almeida, cujo Episódio 1 apareceu na edição n.º 127 de 4 de Julho de 2010, logo na 1.ª página.

Gostaria de ir tomar um Porto com:

Ai Weiwei, o artista chinês que perturba a serenidade dos dirigentes da China; Julian Mer-Khamis, o actor árabe-israelita assassinado pelos crocodilos de ambos os lados; Joaquim Letria, porque os aldrabões existem mesmo; Ribeiro Cardoso, o jornalista que escreveu um livro sobre a nudez de um intocável.

Não, não vou brindar com:

Bashar al-Assad, presidente temporário da Síria,
 
 
Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 31 – Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
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colaboração de Joaquim Santos