segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eça & Outras

O povo na obra de Eça de Queirós


Como todos os pensadores do século XIX, também Eça de Queirós se viu na necessidade de definir o povo, essa entidade social abstrata que emergiu da Revolução Francesa para tomar o poder e que não tem sido fácil de caracterizar: «Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o povo», assim escreveu Eça de Queirós aos 22 anos no Distrito de Évora, mas trata-se obviamente da generosidade de um jovem erudito a inventar um povo ideal, muito distante da realidade, em suma, um povo que não existia, e que nunca existiu.
Os intelectuais oitocentistas, face ao colapso humano, mental e social das classes que tinham detido o poder – os eclesiásticos, a aristocracia e a burguesia – sentiram-se tentados a inventar uma outra classe social que incarnasse os grandes valores éticos e cumprisse o bem estar social, para além de definir as nacionalidades: «o povo é o coração da pátria: a indiferença do povo é a morte da pátria», escreve ainda Eça de Queirós naquele jornal, mas, noutro passo avisa que «o povo, e isto que vagamente se chama o público, leva-se mais pelo entusiasmo do que pelos meios sérios e práticos» (idem). Ou seja, havia o povo e havia o público, duas entidades nem sempre coincidentes, pelo menos na sua abordagem.
O mais fácil era individualizar o povo pelas suas profissões: o camponês, o operário, o caixeiro, o serralheiro, o estivador, o alfaiate, o aguadeiro, o carpinteiro, a criada, etc, etc, eram seguramente povo. Já como entidade colectiva, como “classe” era mais fácil defini-lo pela negativa: o povo não era a aristocracia (os fidalgos e os nobilitados); dele não faziam parte os eclesiásticos, desde o padre cura até ao papa na Igreja Católica, que nas confissões protestantes a questão é outra; do povo não faziam parte os burgueses, os proprietários não nobres nem eclesiásticos, os detentores do capital ou de bens para o realizar, quer fossem fundiários, industriais, do comércio, da banca, dos transportes ou doutros serviços que começavam a nascer.
Entre o povo e os seguramente “não povo” havia então umas franjas de sobreposição, a que se virá comodamente a chamar pequena burguesia, pequenos grupos indefinidos à procura de um melhor lugar na escala social: os bacharéis por Coimbra e pelas Politécnicas (médicos, advogados, engenheiros), magistrados, militares, professores, funcionários públicos, leigos de instituições religiosas, feitores de propriedades, empreiteiros, etc, etc..É nestes grupos sociais que Eça de Queirós colherá o maior número de caracteres para as suas personagens, que transforma em verdadeiros tipos sociais que os memorialistas quererão, à viva força, fazer corresponder a personalidades que existiram mesmo, o que é uma tontice. São modelos, senhores, não são biografados!
No século XIX, povo, eram os que ganhavam à jorna, os assalariados, os soldados, os marinheiros da decadente marinha mercante e de cabotagem e também os da bazófia da marinha de guerra, os pescadores, os trabalhadores sazonais, tendo em conta que grande parte do país era rural de sobrevivência, afora duas ou três culturas intensivas (vinho, cereais, gado); pouquíssimas indústrias (madeiras, cerâmicas, têxteis) e larguíssima percentagem de analfabetos. Grande parte deste proletariado (outra expressão oitocentista) vivia nas vilas e nas poucas cidades. É aí que Eça os vai encontrar no Porto, em Coimbra, em Leiria, em Lisboa, em Évora, em Bristol, em Newcastle, em Paris, por outro lado.
Efectivamente os tipos rurais do povo são poucos na sua obra: uma pastora, alguns caseiros, alguns lavradores; já os rurais deslocados para a cidade são em maior número, nomeadamente as criadas e criados, as governantas, os empregados de hotel, as tendeiras e taberneiros, e pouco mais. Eça não é Camilo. Eça é um escritor urbano que escreveu metáforas sobre o desaparecimento do mundo rural, que o são A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.
Porém, no século XIX, tudo se fazia em nome do povo, ainda que pelos príncipes (o povo constitucionalizado); pelas igrejas (o povo de Deus) pela burguesia (o povo português); pelos intelectuais (o nosso povo). E foi a esse povo, desarmado após a implantação da monarquia constitucional e após a burguesia ter conquistado o poder, que lhe foi oferecida, titubeante e condicionada, uma nova arma: o voto. E, através dele, ainda que com a ajuda das armas, já no século XX, o povo chegou ao poder, em revoluções eufóricas que logo depois redundaram em grandes tragédias humanas, duas Guerras Mundiais e outras avulsas; bombas atómicas; genocídios e fomes. Os grandes dirigentes que a história do século XX, «o século do povo», regista, são todos de extração popular: Estaline, Mussulini, Hitler, Pol Pot, e tantos outros, não eram nem aristocratas, nem religiosos, nem burgueses e em muitos casos alcançaram o poder pelo voto democrático ou com o geral aplauso das multidões. É certo que Eça também escreveu «As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, são maiores ainda. (…).
As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias» (Distrito de Évora, 1867).
Não se encontra pois muito o povo na obra de Eça de Queirós, essa entidade abstracta e mítica que Engels, Marx e outros pensadores oitocentistas criaram com o seu tardo-enciclopedismo para a arrumarem nas gavetas dos fenómenos sociais. O que ali encontramos é sobretudo o homem, talvez ainda que muito darwiniano, oscilando entre a banalidade das existências quotidianas e uma inevitável crença no futuro.
Quanto ao mais, ainda estamos como no tempo de Eça: «Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar… e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam “a parceria”, que recebem e que governam». (A Ilustre Casa de Ramires). Acertem, faz favor, os seis milhões para sete e os trinta para três mil. É que entretanto, desde que Eça morreu, o número de governantes aumentou. Quanto ao povo, hoje tem televisão e internet, as grandes invenções que estão a levar a democracia a todos os cantos do mundo, a primeira curiosamente inventada por um gaiense de adopção, o físico Adriano de Paiva, contemporâneo de Eça de Queirós, que também profetizou generosamente: «Então, por toda a parte à superfície da terra, se cruzarão fios condutores, encarregados de importantíssima missão… testemunharão por sem dúvida o grau de civilização do grande organismo que se chama – a humanidade» (La Télescopie élèctrique… 1878, p. 23).
Não é isso que temos visto nos noticiários. O povo hoje tem outras preocupações e não sei que “classe” o possa substituir neste seu falhanço.

(Texto apresentado no colóquio com o mesmo título que decorreu no Solar Condes de Resende)

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Festival de Folclore

Decorrerá nos próximos dias 30 e 31 de Julho no Solar Condes de Resende o “Festival de Tradições de Terras Queirosianas”, organizado pelo Rancho Folclórico de Canelas, com o apoio da Confraria Queirosiana, o qual foi antecedido por um colóquio no dia 22 de Julho sob o tema “O povo na obra de Eça de Queirós”, em que foram palestrantes J. A. Gonçalves Guimarães, que falou sobre o conceito de povo na obra do escritor, e Nuno Resende que apresentou aspectos de Fraião, a aldeia da “naturalidade” do Padre Amaro.
No festival actuarão grupos etnográficos da Póvoa de Varzim, Évora, Sintra, Coimbra, Aveiro, Baião, Gaia, Leiria, Porto e o Grupo Mahtab de danças egípcias tradicionais.


Livros para o seu Verão

Nos últimos tempos os confrades queirosianos têm publicado vários livros, alguns dos quais só agora nos chegam à mão e que passamos a apresentar. Em todo o caso óptimas leituras de Verão com várias incidências, todos eles a reter e a debater:

Da autoria de Alda Barata Salgueiro chega-nos esta monografia de “Vilar dos Condes. A terra e a sua gente”, situada na Zona do Pinhal da Beira Interior, do concelho de Oleiros. Nesta obra, com prefácio de Luís Manuel de Araújo, a autora, para além dos aspectos geográficos, etnográficos e históricos da sua terra, dá particular relevo ao património humano, às gentes que habitam o lugar e seus antepassados, com memórias de famílias locais que se perpetuam em filhos e netos que, tal como a autora, voltaram ao rincão natal para lhe perpetuar a existência nos século que hão-de vir.




Nuno Gomes Oliveira, o diretor do Parque Biológico de Gaia, que tem dado à estampa uma já numerosa bibliografia sobre a protecção do ambiente, apresenta-nos agora “José Bonifácio de Andrada e Silva o primeiro ecologista de Portugal e do Brasil, com uma recensão da “Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal (1815)”, com prefácio de Marco António Costa, ex-vice presidente da Câmara Municipal de Gaia.
Começando por nos dizer que «este não é um livro de história, mas um livro que conta uma história, a história de vida de um homem invulgar com uma obra notável», e não podendo deixar de se referir à biografia deste professor da Universidade de Coimbra, fundador do seu Batalhão Académico contra os franceses em 1809, Intendente da Polícia do Porto e superintendente da sua Alfandega e Marinha, a seguir à retirada dos invasores, nesta obra é sobretudo o cientista prestigiado na Europa do seu tempo, o naturalista que estudou novas espécies geológicas e as potencialidades mineiras de Portugal e que elaborou e dirigiu projectos para a reflorestação das dunas e das serras portuguesas, antes de regressar ao seu Brasil a transformar-se no esteio da nova nação que se afirmava.
Muitas das preocupações com a conservação da natureza que já então revelava, só nos dias de hoje estão a ser implementadas, o que mostra a sua inteligência e o seu caráter precursor da moderna Ecologia, sendo por isso verdadeiramente fascinante a revisitação desta biografia do “Patriarca da Independência do Brasil”.


Então lá para o dia 5 de Agosto as montras e escaparates das livrarias deste país exibirão com capa cor de framboesa “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, o mais recente inédito de José Rentes de Carvalho, sobre o desconcertante mundo feminino, aqui abordado de uma forma com que o autor de Ernestina e de A Amante Holandesa faz questão de nos voltar a surpreender, nesta sociedade em que a mulher ocupa um lugar cada vez mais proeminente e os homens morrem sempre mais cedo do que elas. Não é um livro cor-de-rosa, mas entre o vermelho e o negro.



Com particular incidência no Turismo, na Cultura e na Regionalização será lançado no final do mês de Julho o livro de Mário Dorminsky intitulado “País em Brasa”, com prefácio de Luís Filipe Menezes, um retrato pessoal sobre o nosso país com particular incidência naquelas áreas. A obra recolhe as crónicas que o director do Fantasporto e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Gaia foi publicando no jornal Grande Porto nos dois últimos anos, afirmando na introdução que poderemos «começar a ver a tal “luz ao fundo do túnel”» em breve. Que Deus o oiça, perdão, o leia, e que faça por isso.

Mário Cláudio

No passado dia 22 de Julho em Paredes de Coura, foi apresentada a biografia de Tiago Veiga, bisneto de Camilo e poeta modernista, da autoria de Mário Cláudio, um volume com 800 páginas.

Notícias recentes de confrades

Após cinco anos como reitor da Universidade Aberta, por sua decisão, Carlos Reis regressou à Universidade de Coimbra; no passado dia 22 de Julho, Mário Vieira de Carvalho, musicólogo da Universidade Nova de Lisboa veio a Gaia falar de Wagner em Portugal no Auditório Municipal; Charters de Azevedo prepara a edição do seu livro “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791” que será lançado em meados de Setembro.

Tomar um Porto com:

Desta vez permitam-me que brinde à memória de Salvador Caetano, o grande industrial gaiense, e também com Rui Tavares, pelo seu texto “O Milagre do Lixo” e outras clarividências; com Pedro Dias, o novo director da Biblioteca Nacional; Ana Raquel Guerra, porque vale mais tarde do que nunca; Carlos Reis, porque não há ensino sem exigência; Elvio Passos, pelo que teve de aturar no exercício da sua profissão; Helmut Kohl por dizer à chanceler alemã que ela está a destruir a Europa.

Não, não quero brindar com:

Rupert Murdoch, que desejo que fique sem telemóvel; os clubes de futebol portugueses que «gastaram pelo menos 40 milhões de euros em contratações» e não foi de historiadores, nem de cientistas nem de agricultores; apenas de habilidosos pontapeadores de bola; já nos chegavam os inúteis estádios de futebol do Euro 2004.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 34 – Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

sábado, 25 de junho de 2011

Eça & Outras

Literatura transmontana:
de Trindade Coelho a J. Rentes de Carvalho

J. Rentes de Carvalho assina protocolo
com a Confraria
Numa carta escrita por Trindade Coelho a um colega jornalista, a propósito do passamento de Eça de Queirós, o escritor mogadourense escreveu:
«Pobre homenagem será sempre a que prestemos ao Eça de Queirós. Não seria demais, - seria até bem pouco irmos esperá-lo à fronteira e trazê-lo em comboio onde só ele viesse, ele e os seus devotos… À volta de ti nos reuniremos. Foi ele o nosso Pai espiritual; ele quem educou o nosso coração e os nossos sentidos para não amarem senão a Verdade. Reúne a Associação dos Jornalistas e a Associação da Imprensa. Faz um apelo às outras todas, - a todo o público. É preciso obrigá-lo a pensar, cinco minutos que seja, nesse que a pensar o ensinou. Não desistas…
De mais a mais, trata-se também de um Santo – como Antero, como João de Deus. Depois pensaremos no mais. Agora só nele; no que dele nos resta, - e que é sagrado!»
A Confraria Queirosiana, nos passados dias 18 e 19 de Junho, no centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento do escritor transmontano, foi a Mogadouro festejar a admiração de Trindade Coelho por Eça de Queirós e também a admiração que este tinha por Trindade Coelho ao indicá-lo para colaborador da sua Revista de Portugal.
A Confraria e os participantes nas 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro foram recebidos no Salão Nobre do Município pelo seu presidente, António G. S. Moraes Machado e pelo presidente da Assembleia Municipal, Ilídio Granjo Vaz, tendo apresentado os cumprimentos em nome dos visitantes o presidente da direcção José Manuel Tedim.
Seguiu-se a deposição de uma coroa de louros na estátua de Trindade Coelho, seguida da aposição do carimbo do dia no selo dos CTT com a efígie deste escritor, tendo na ocasião proferido algumas palavras alusivas ao ato Virgínia Gomes, chefe da estação postal.
Aos que aí estiveram juntaram-se também as palavras escritas e expressamente enviadas por José Évora, de Cabo Verde, e de Dagoberto Carvalho Júnior, do Brasil. E também de Anabela Mimoso, António Manuel Silva, José António Afonso, Carlos d’ Abreu, João Bartolomeu Rodrigues, J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira.
Não nos iludamos, como Eça e Trindade Coelho se iludiram: nunca seremos muitos a recordá-los e o tanto que eles nos deixaram. A actual classe dominante e o povo em que eles depositaram tantas esperanças estão ocupados com outros exemplos e outros valores. Mas alguém tem de seguir pela estrada larga da vida, aquela onde todos cabem, se quiserem.
Em tempos de pessimismos encartados, como os de hoje, poderíamos ter ido ali dizer como nós compreendemos o suicídio de Trindade Coelho, quando lhe faltou a paciência para aturar um mundo que queria melhor e mais fraterno e que de todo não o era nem tem sido. Mas não, o que fomos ali recordar foram as suas crenças nos valores da cidadania a na procura da verdade, e também a memória de todos aqueles meninos que em qualquer remota vila ou aldeia, de horizontes tolhidos até pela geografia, não se deixam abater pelas fatalidades da existência, e pelas suas próprias pernas se vão ao mundo, o tomam pelas suas mãos e o devolvem aos seus conterrâneos e a toda a humanidade transformado em ciência, em arte, ou em literatura, como aconteceu com José Rentes de Carvalho, o escritor que se ergueu na Holanda, mas que escolheu Estevais de Mogadouro, a terra dos seus maiores, para repensar Portugal, a Europa e o Mundo em textos que aqui ouvimos ler no Sarau Cultural pelos jovens do grupo de teatro Aceitta, que interpretaram também textos de Trindade e Eça. Pela noite outros dançaram, tocaram e cantaram com uma frescura e vivacidade inusitadas, com especial destaque para as gaitas-de-foles, o instrumento mediterrânico que os pastores, da Palestina à Escócia, tocam para reunir os povos em volta da sua ancestralidade.
Já no dia 19, após a visita aos monumentos de Mogadouro, e antes da partida para Estevais, realizou-se no auditório das Quintas das Quebradas, por especial gentileza do seu proprietário, o escultor Manuel Barroco, a assinatura do protocolo entre a Confraria e José Rentes de Carvalho sobre a gestão do espólio que o escritor depositou no Solar Condes de Resende e a sua disponibilização aos investigadores, ficando numa das paredes uma lápide a assinalar o ato, ao qual esteve presente Teresa Sanches, vereadora do Pelouro da Cultura, seguindo-se uma sessão de autógrafos pelo autor de Ernestina.
Depressa a Confraria e os presentes perceberam que o tempo ia ser curto, ficando o colóquio “Que literatura para o século XXI?” como uma promessa adiada para tempos próximos.
 J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

J. Rentes de Carvalho autografa livro
a Luís Filipe Menezes
Feira do Livro

Entre 26 de Maio e 12 de Junho decorreu no Porto a 81.ª edição da Feira do Livro, onde o romance La Coca de J. Rentes de Carvalho foi um dos livros mais vendidos.
Para além de outras feiras do livro um pouco por todo o lado, recordamos que o Solar Condes de Resende tem, todos os primeiros domingos de cada mês, uma feira de trocas de livros grátis, para além da loja onde se vendem as edições Gaianima e Confraria Queirosiana.

Olhares Queirosianos em Leiria

Decorreu nos dias 3 e 4 de Junho em Leiria a 3.ª edição do evento Olhares Queirosianos, durante o qual, a nossa confrade, Ana Dinis Vieira apresentou o seu livro “A Leiria de Eça de Queiroz – Guia da Cidade”, editado pela Junta de Freguesia de Leiria.
Na cerimónia de abertura participou também o nosso confrade Orlando Cardoso, autor do anterior roteiro da Leiria Queirosiana.

Na Quinta do Vale Meão
Quinta do Vale Meão

No passado dia 14 de Junho, Luísa e Francisco de Olazabal receberam na Quinta do Vale Meão em Vila Nova de Foz Côa, o escritor J. Rentes de Carvalho, que desejavam conhecer pessoalmente, depois de se tornam seus leitores fiéis e conhecedores da sua obra, acompanhado de J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira da redacção da Revista de Portugal.
O escritor visitou a “catedral” onde são produzidos os afamados vinhos e azeites desta quinta fundada por D. Antónia Adelaide Ferreira no final da sua vida e que hoje é propriedade desta família de seus descendentes.
O Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ está também a colaborar na celebração do duplo centenário desta mítica figura duriense.

Notícias do Brasil

Mãos amigas de confrades (Carolina e Alberto Calheiros Lobo) trouxeram do Brasil notícias escritas, pessoais e publicadas de Dagoberto Carvalho J.or: “Revivendo o Cometa”, ano II, n.º2, Dezembro de 2010, dos alunos do 7.º ano do Instituto Barros de Ensino (IBENS), quase todo dedicado ao «grande eciano oeirense» e ao projecto «Chá com Eça»; depois a Revista Presença dedicada a Joaquim Nabuco com a publicação da sua palestra proferida em Teresina, em 10 de Abril de 2010 e também publicada na Revista de Portugal. E, last but not least, o Almanaque Biográfico que lhe é dedicado, organizado por Maria do Socorro Barbosa Barros, uma bela publicação com recordações desde a infância até à actualidade, espelho de uma brilhante carreira de médico, historiador, queirosiano e Homem de Cultura luso-brasileira ou brasileira-lusa, conforme a praia que escolhermos para observar as estrelas luminosas do nosso universo que é a Língua Portuguesa.


Roteiro de Lisboa…

A. Campos Matos, através da Parceria A. M. Pereira, acaba de dar à estampa um livro que muita falta fazia no universo queirosiano que foi construindo ao longo da sua notável biografia: um “Roteiro da Lisboa de Eça de Queiróz e seus arredores”. De formato prático, ao longo das suas 176 páginas, apresenta ilustrações identificadoras dos locais a que o texto se refere, distribuídas por «A geografia urbana de Lisboa» e a de Sintra, Colares e Cascais, complementada ainda com plantas de alguns itinerários, como o «Passeio de Luísa com o Conselheiro Acácio…»; «Do Largo do Calhariz, pelo Chiado e Baixa aos Restauradores» e «Do Cais do Sodré pelo Terreiro do Paço ao Rossio», uma outra com a localização dos locais, edifícios e instituições queirosianas lisboetas e ainda uma «Referência geográfica dos locais da Sintra de Eça de Queiroz» e, por fim, uma utilíssima «Lista dos principais meios de transporte para os locais indicados neste livro».
O autor não precisa de mais encómios sobre a qualidade das suas obras e por isso salientamos apenas aqui a enorme utilidade cultural desta obra, coisa rara em muitos dos livros que se publicam.

Colóquio sobre Crestuma

No próximo dia 2 de Julho terá lugar no Centro Náutico de Crestuma, pelas 15 horas, um colóquio sobre o Castelo de Crestuma promovido pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ, com a colaboração da Águas e Parque Biológico de Gaia e a Junta de Freguesia local. Para além dos directores do estudo arqueológico desta estação, farão intervenções Álvaro Brito Moreira, sobre os vidros romanos ali encontrados, Teresa Pires de Carvalho sobre as cerâmicas importadas e Luís Carlos Amaral sobre o seu enquadramento na História Geral e Regional da Alta Idade Média.
Seguir-se-á uma visita ao Parque Botânico e Sitio Arqueológico de Crestuma e um beberete para os participantes.

Curso de Verão

A Fundação Eça de Queiroz vai realizar a 13.ª edição do seu Curso Internacional de Verão – Seminário Queirosiano, entre 25 e 29 de Julho, subordinado ao tema “Formas de Realismo”, dirigido a professores, estudantes universitários portugueses e estrangeiros e outros interessados na obra queirosiana. As inscrições terminam no dia 15 de Julho.

Tomar um Porto com:

Sim, gostaria de ir tomar um Porto com Leonard Cohen, porque a vida pode caber numa canção; Marisa Matias, a deputada europeia que nos quer livrar dos falsos medicamentos; Stanley Kubrick, porque a robótica produz brinquedos úteis.
Não, não brindo com: Luis Eloy, porque a Justiça já está demasiado má para que possa ser exercida por trapaceiros; Ratko Mladic, porque a inconsciência é uma ofensa à Humanidade.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 33 – Sábado, 25 de Junho de 2011
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J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Eça & Outras

Eleições!

A Confraria Queirosiana, esta página, a Serra da Estrela, as ondas do mar, o próprio vento que agita ou não as bandeiras, as ervas daninhas e os pimentos da horta, o sistema solar, enfim, muitas outras realidades universais são rigorosamente apartidárias, porque sim, por imperativo legal ou do bom senso, mas também devido àquele irritante desdém com que as coisas realmente grandes do universo observam estas nossas organizações humanas. Assim, por tudo isso, e pelo facto de os nossos confrades estarem inscritos nos mais diversos partidos, ou em partido nenhum, recusamo-nos terminantemente a comentar as recentes eleições portuguesas. São o que são, darão o que darão, esteja o seu pecado original no espelho de José Sócrates, na agenda de Passos Coelho, na escada de Paulo Portas, no microfone de Jerónimo de Sousa, no compêndio de Francisco Louçã, nos verdes tintos, nos verdes brancos ou nos vários clubes de pensadores com bandeirinha, do Norte, do Atlântico, da Terra, da Lua, do Comunismo, do Proletariado, dos Animais, não me consigo lembrar de todos e por isso as minhas democráticas e respeitosas desculpas também endereçadas aos ilustres performers madeirenses: aquela nossa ex-colónia está a revelar-se um alfobre de talentos capazes de salvarem o falidíssimo teatro nacional, o La Féria que se cuide!
Mas nós, que nunca deixamos ou deixaremos de lá ir pôr o boletim de voto, até porque da única vez que tal aconteceu, antes da Democracia, o Estado gastou um dinheirão com um seu zeloso funcionário agente da PIDE que andou a ganhar horas extras a perguntar à vizinhança coisas insignificantes sobre a nossa vulgaríssima vida privada, ora não queremos deixar de dar o nosso modesto contributo para uma séria reflexão sobre o momento que passa (ouço isto desde criança!). E para manter o tal aspecto rigorosamente apartidário que a Lei (oh gentes! A Lei!) e o bom senso aconselham nestas circunstâncias, pedimos a Eça de Queirós uns breves pensamentos sobre a transcendência do acto para o futuro da raça lusa, agora nas mãos daqueles seres superiores vindos do estrangeiro por ordem na nossa economia, os quais cansados de tão ciclópica tarefa vão depois descontrair, jogando golfe na Alemanha, pescando taínhas nos esgotos de Chicago ou perseguindo criadas de hotel em Nova York, coisas triviais que, afinal, já os velhos deuses da Grécia (cujos filhos eles agora tanto criticam!) já o faziam no Egeu muitos séculos atrás sem tantos polícias, jornalistas e advogados à perna.
Então Eça escreveu assim:
«Portugal realizou o cerimonial exterior das suas eleições - porque as eleições, elas próprias, já estavam feitas havia muito, segundo o costume consagrado e venerável, por meio de uma lista de círculos e um lápis, no remanso das secretarias. Restava só a solenidade de ir o povo às urnas. Todos sabemos, porém, que em muitos círculos se evita o barulho e a poeira desta cerimónia – reduzindo a eleição a uma simples acta que as autoridades lavram depois da missa, a um canto da sacristia. O povo, esse, fica nas suas moradas, quieto e certo de que o senhor administrador está “fazendo” o senhor deputado. Há nisto uma louvável e notável simplificação do sistema. Mas uma simplificação maior seria que o Governo nomeasse os deputados por meio de portarias; e que eles, desde logo, como empregados públicos, pagassem direitos de mercê.
O Sr. D. Pedro IV, como ele mesmo dizia, constitucionalizou Portugal à força, como uma vara de aço que se verga, impelindo-o “à iniciativa dentro do regime representativo”. Na sua índole porém e nos seus costumes, Portugal ficou em pleno século XVIII – e, como a vara que se levanta logo que a mão forte a abandone, o país vai regressando à sua atitude natural, que é “a obediência dentro do regime pessoal”. Uma maioria nomeada pelo Governo e que passivamente obedece às instruções do Governo: um Governo organizado por um chefe, e que fielmente segue as indicações desse chefe – eis o nosso estado político actual que não difere muito, na sua essência, do que caracterizou os reinados dos avós do nosso rei. Um chefe de partido entre nós, tendo a confiança da coroa, é um verdadeiro ditador – e o nosso regime uma ditadura real, exercendo-se dentro de um constitucionalismo fictício. Isto poderia ser um mal se nos surgisse um dia um ditador do tipo Guzman Blanco – mas pode ser um bem, se um dia esse chefe de partido for um magnífico Bismark. Não é todavia provável que este país, onde gradualmente calmou e se sumiu toda a violência nativa, produza Guzman Blancos. O presente regime portanto afigura-se-nos excelente – e só nos cumpre, dentro dele e abrigados por ele, esperar com paciência e bonomia que nos apareça numa manhã de nevoeiro esse Bismark genial e providencial» (Distrito de Évora, 1867).
Claro que este texto não se pode levar a sério: foi escrito por um jovem de 22 anos, recém-formado, cujo pai lhe arranjou um emprego precário «a recibo verde», a fazer sozinho um jornal (imaginem!) em Évora, e que nós ainda lemos por desfastio para com a aborrecidíssima e quase impossível leitura dos textos, relatórios ou prosas dos actuais jovens recém-formados, os gestores ou alguns escritores muito premiados. Um tédio que Eça nunca nos dá. Infelizmente, como a Historia o tem demonstrado, ainda estamos à espera do nosso Bismark e parece-me que ele estará demorado.
E, além do mais, cumprimos o direito de votar convencidos de que só a qualidade da areia fará uma boa praia. Ouviu, Dona Merkel?

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

J. Rentes de Carvalho nos top

O nosso prezado confrade tem andado numa roda viva de entrevistas, sessões de autógrafos, colóquios literários, até porque está nos top: na semana de 18 a 24 de Abril o seu livro La Coca foi o mais vendido na livraria Bulhosa; na Feira do Livro de Lisboa no top dos 10 livros ficou em terceiro lugar e no quinto dos dez autores mais vendidos, à frente de muitos representantes da “literatura de supermercado” ou da produzida pela “máquina editorial”. Ainda há bom senso e bom gosto.
Nos dias 27, 28 e 29 estará na Feira do Livro do Porto para coloquiar e dar autógrafos. Vamos lá abraçá-lo!

Fernão de Magalhães “aquece”

Como noticiámos na página anterior, decorreu no passado dia 27 de Abril na Sociedade de Geografia de Lisboa uma homenagem nacional ao navegador a qual serviu de abertura às comemorações internacionais dos 500 anos que decorrerão em 2021.
Entretanto a direcção da Confraria Queirosiana constituiu-se como comissão ad hoc para o apoio àquele evento que deverá unir Portugal, Espanha, Brasil, Argentina e Chile, pelo menos.
Entretanto no passado dia 4 de Maio houve na Casa do Infante no Porto, uma palestra pelo Eng.º António Taveira em que este mostrou a casa onde, segundo deduziu, terá vivido o pai de Fernão de Magalhães, logo que o filho poderá ali também ter nascido. Num pequeno opúsculo que publicou sobre o assunto, intitulado Fernão de Magalhães “o do estreito” de Santa Maria da Sé do Porto e em que afinal alude a muitas das ligações do navegador e sua família a Vila Nova de Gaia, como não é historiador e não estudou convenientemente a história da região, confundiu Gaia com Vila Nova e levou o assunto até à Casa de Campo Bello, que é em Gaia, por não saber que os Cernaches também tinham propriedades em Vila Nova, perto do «lugar de Rui de Magalhães». Outro aspecto curioso que se tem verificado na literatura ultimamente produzida pelos memorialistas portuenses é o seguinte: tendo eles passado anos a escrever que não era possível morarem fidalgos no Porto, opinião de há muito insustentável e devidamente explicada na sua verdadeira dimensão, volta e meia querem metê-los lá todos e até descrevem a janela da casa de onde viam as suas propriedades… em Vila Nova de Gaia. Enfim, curiosidades.

Porto Romântico

Nos dias 29 e 30 de Abril decorreu no Campus Foz da Universidade Católica Portuguesa o congresso sobre o Porto Romântico, organizado pelo Professor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa. Durante os dois dias foram apresentadas variadas comunicações sobre o Porto oitocentista e mesmo sobre algumas manifestações tardo-românticas já entradas pelo século XX adentro. A Academia Eça de Queirós esteve representada com uma comunicação sobre «Aspectos românticos na vida do Visconde de Beire», da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães. As Actas serão publicadas em Dezembro próximo.

O Artes entre as Letras de parabéns



Com uma notável exposição intitulada Arte pintada a Letras, que abriu ao público no passado dia 14 de Maio no Museu de Espinho, festejou assim o jornal As Artes entre as Letras o seu segundo aniversário. Entre os artistas representados os queirosianos Helder de Carvalho, Beatriz Pacheco Pereira e Luísa Prior.
A exposição estará aberta ao público até 3 de Junho e é realmente uma das mais belas mostras das Artes portuguesas dos últimos anos.



Novo livro de Maria Virgínia Monteiro

No passado dia 19 de Maio, Maria Virginia Monteiro apresentou na Sociedade de Língua Portuguesa em Lisboa o seu mais recente livro de poesia intitulado Longo é o Tempo,

…e de Anabela Mimoso

No passado dia 21 de Maio teve lugar na Biblioteca Municipal de Gaia o lançamento do livro Buzios, a mais recente obra da escritora Anabela Mimoso, editada pela Calendário da Letras.

Confraria dos Sabores de Sintra

No passado dia 2 de Abril decorreu em Sintra o capítulo fundacional da Confraria dos Sabores de Sintra, o qual decorreu no Mosteiro Jerónimo da Penha Longa.
A Confraria Queirosiana, que paraninfou o acto, esteve representada pelo mesário-mor, J. A. Gonçalves Guimarães, pelo vice-presidente da direcção Luís Manuel de Araújo e por Fátima Teixeira.
Presidiu ao acto Madalena Carrito, presidente da direcção da Federação das Confrarias da Gastronomia Portuguesa, tendo também feito uma intervenção o presidente da Câmara Fernando Seara.
Na ocasião o mesário-mor proferiu as seguintes palavras: «Provavelmente a “Confraria dos Sabores de Sintra” terá começado como se refere em O Primo Basílio: “Aquilo começara em Sintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Colares…” perdão, do Arq.to António Manuel Jorge Alves, ou então quando a Confraria Queirosiana veio a Sintra em 2008 e tivemos um gentilíssimo cicerone não oficial do roteiro queirosiano, que estava fechado por ser sábado.
Mas voltando a O Primo Basílio, aí se pode ler: “(…) os passeios por Seteais ao luar, devagar, sobre a relva pálida, com grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o vale, as areias ao longe, cheias de uma luz saudosa, idealizadora e branca; as sestas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante das águas que vão de pedra em pedra; as tardes na várzea de Colares, remando num velho bote, sobre a água escura da sombra dos freixos”.
Claro que a Sintra de hoje não é a de A Tragédia da Rua das Flores quando então “O que havia de pior em Sintra era o burguês, o banqueiro, o janota do Vítor, as caleches cheias de espanholas, as inglesas de lunetas azuis, e as toilettes por entre a folhagem. A serra tornava-se um suplemento do Chiado!”
Hoje, já muito pouco se cita Lord Byron, mas sim o Dr. Fernando Seara, e há turistas de muitas outras nacionalidades.
Mas a Sintra que hoje nos trouxe aqui, é certamente a Sintra eterna que o grande Eça de Queirós assim descreveu n’Os Maias: “No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…”.
Que mais dizer sobre uma terra que assim foi descrita por Eça de Queirós e que, em boa parte assim continua?».

Colóquio na Feira

Nos próximos dias 17 e 18 de Junho vai decorrer em Santa Maria da Feira um colóquio sobre a Terra de Santa Maria, comemorativo do 10.º aniversário da Revista Villa da Feira, durante o qual será apresentada uma comunicação sobre o «Castelo de Crestuma: o seu complexo arqueológico e resultados da primeira campanha de escavações» pela equipa de arqueólogos que tem dirigido esta intervenção, a qual irá prosseguir os seus trabalhos no próximo mês de Agosto patrocinada pela empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM.


Jornadas de Mogadouro

Nos próximos dias 18 e 19 de Junho vão decorrer as 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro, organizadas pela Confraria Queirosiana com a colaboração da autarquia local, as quais vão homenagear Trindade Coelho nos 150 anos do seu nascimento e conviver com José Rentes de Carvalho em Estevais de Mogadouro, fazendo assim um contraponto entre a literatura do século XIX e a do século XXI, pois este último escritor, além da obra em livro e colaboração dispersa em muitos jornais e revistas em Portugal e na Holanda, muito regularmente nos aparece com textos curtos e incisivos no seu blogue Tempo Contado.
As inscrições para participar podem ser feitas para a Confraria Queirosiana ou para o Município local.

Gostaria de ir tomar um Porto com

Vitorino Magalhães Godinho, o grande historiador dos fastos nacionais na história global (continuo sem perceber porque é que não há Prémio Nobel para historiadores se tal existe para os que escrevem desabafos íntimos); Dom José Policarpo, pela coragem de afirmar que a civilização tem como pilar fundamental a justiça e que, por isso, todo o criminoso tem direito a julgamento e não só quando apetece aos «cow boys»
Não, não desejo brindar com

Angela Merkel, porque da falta de elegância à arrogância vai um pequeno passo.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 32 – Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email:queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eça e Outras

Portugal e a Europa (visão de futuro), Charibari, 1889.
O Hino em surdina
 «Herois do mar…» - Quais? Os dos negócios dos submarinos? Os galegos que nos vendem o nosso peixe? Os que estão de papo para o ar nas praias de S. Tomé?
«… nobre povo» - Nobre? O Fernando? Um povo que gasta mais do que produz é nobre? Não será antes “pobre povo”? O poeta enganou-se? A “nobreza” do povo foi o maior equívoco do século XIX, que fez as desgraças do séc. XX e, em Portugal, do pós 25 de Abril. Entendamo-nos: “promovido” a “pequena burguesia” ou “classe média”, o povo rapidamente aprendeu o que não era nobre nas classes que destituiu: o laxismo, o oportunismo, a ignorância encartada, o delegar nos “seus representantes”, da mesma massa feitos, pois então, tal como outrora faziam alguma nobreza, algum clero, alguma burguesia, que o povo se apressou a copiar. Não estou a falar do povo que sempre trabalhou no duro, que tudo produziu e pouco conseguiu de seu. Mas, agora, “o povo somos todos nós”. A nobreza, as qualidades superiores da natureza humana que todos sabemos quais são, não são apanágio ou exclusivo de nenhuma classe, estatuto, formação ou condição social. Estão inscritas no ADN, modelam-se através da vontade pessoal e sobressaem ou apagam-se na moldura social em que cada um vive. Mas continuemos…
«Nação valente, imortal» - Valente, neste estado? Neste Estado? Não será antes e… mortal? Outro engano?
«Levantai hoje de novo» - Quem dá aqui uma mão? Vamos a isto, gente? Não, você não; já sabemos onde nos levam as suas ajudas… Não há mais ninguém para ajudar a levantar isto?
«O esplendor de Portugal» - Segundo o dicionário, esplendor quer dizer brilho intenso, mas devemos estar a consumir demasiada energia a produzi-lo nos futebóis e festivais e em mais nada do que interessa. É assim que actualmente o “nobre povo” entende o “esplendor”.
«Entre as brumas da memória» - Não era melhor dissipar as brumas, os nevoeiros do passado, e colher da História a lição dos dias claros?
«Oh Pátria sente-se a voz» - Voz que se sente não deve ser de boa gente, que essa ouve-se e percebe-se.
«Dos teus egrégios avós» - Quais? O Marquês de Pombal? João Franco? Ribeiro Sanches? Fontes Pereira de Melo? D. Afonso VI? O meu bisavô? A sua trisavó? Santo António? Salazar? Fontes Pereira de Melo? O Marquês de Sá da Bandeira? A Maria da Fonte? D. Sebastião?
«Que há-de guiar-te à vitória» - Mas não estão já todos eles na universidade sénior do passado? E alguns deles não foram rotundos falhados que os historiadores benevolentes equalizaram com os demais avós, como fazem as assistentes sociais aos velhinhos dos lares, que os convencem que são todos boas pessoas?
«Às armas! Às armas!» - Quais? As da NATO? As das Forças Armadas Europeias? As das nossas forças armadas no Afeganistão? As americanas da Base das Lages? As compradas na candonga? O voto? Um duelozinho de florete com o FMI?
«Sobre a terra e sobre o mar» - Ainda temos zona aérea exclusiva?
«Às armas! Às armas!» - Já ouvi, Senhor Henrique Lopes de Mendonça! Diga ao Senhor Alfredo Keil que não sou surdo!
«Pela Pátria lutar!» - É o que alguns portugueses têm feito vai para mais de 850 anos, os que trabalham no duro, e que não estão mais dispostos a deixar que os outros esbanjem o que produzem. Os que não tencionam deixar que, além dos juros, nos levem ainda o corpo, a mente e a vontade de sermos portugueses.
«Contra os canhões, marchar, marchar!» Lá terá de ser, mais uma vez!
É um belo hino romântico, este nosso Hino Nacional, habitualmente berrado (cantar é outra coisa!) nos estádios de futebol, mas duvido que entendido, reflectido, sentido. E quanto ao marchar, hoje toda a gente marcha: os novos, os velhos, as crianças, os políticos, as mulheres, os peregrinos, as marchas de Lisboa e as de Gaia, as do Mozart. Contra os canhões? Não, já não se usa. Hoje marcha-se a favor da paz, da saúde, do Santo António, do S. João, do dia disto e daquilo, dos animais domésticos e selvagens, e de muitas outras questões adoptadas pelo “nobre povo”. E para fazer a marcha “maior do mundo” para o Guinness, o repositório mundial da idiotice das massas.
Quanto aos empréstimos, mais ameaça menos “bruma da memória”, eles aí estão. Já Eça de Queirós escreveu em Os Maias: «Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – “cobrar o imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim se havia de continuar….».
E continuou… Até quando? Até este país decidir “pela Pátria lutar” em termos de presente e de futuro.
J. A. Gonçalves Guimarães

Os Maias em Londres
 No passado dia 10 de Março foi apresentada ao público em estreia no Galleon Theatre em Greenwich a peça de teatro Os Maias, adaptação do romance de Eça de Queirós por Alice de Sousa e com direcção de Bruce Jamieson.
Alice de Sousa, que interpreta também o principal papel feminino, recebeu em 2005 dois prémios do American Biographical Institute e em 2009 um prémio do governo português pelos seus 25 anos de carreira.


Literatura em viagem

 J. Rentes de Carvalho foi um dos escritores convidados para estar no Lev-Literatura em Viagem 2011, que decorreu em Matosinhos nos passados dias 16 a 19 de Abril, tendo participado no painel “Viajar é descobrir que todo o mundo se equívoca”, ao lado de Mário Delgado Aparain (Uruguai), Reif Larsen (EUA) e Valter Hugo Mãe, tendo como moderador Alexandre Quintanilha.
O escritor deu recentemente uma extensa entrevista ao programa televisivo “Câmara Clara” (RTP 2), bem assim como a vários outros canais de televisão, jornais e revistas, sobre as suas últimas edições em Portugal e na Holanda.

Fernão de Magalhães

 A Sociedade de Geografia de Lisboa leva a cabo no próximo dia 27 de Abril uma sessão de homenagem a Fernão de Magalhães, pelas 18 horas, a qual será presidida pela Ministra da Educação Dr.ª Isabel Alçada. Serão oradores, para além do presidente daquela centenária instituição, José Mattos e Silva, António Mattos e Silva, Gonçalves Guimarães, Manuel Magalhães Villas Boas e Proença Mendes, Comandante do Navio-Escola Sagres que em 2010 navegou parte da rota seguida por aquele navegador.
A Academia Eça de Queirós associa-se assim a esta evocação de Fernão de Magalhães, cujos dados biográficos mais recentes indicam que poderá ter nascido em Vila Nova de Gaia.

Academia de Marinha

O Eng.º José Luís Pereira Gonçalves, membro da direcção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, foi recentemente nomeado membro efectivo da Academia de Marinha.
Formado em Engenharia Electrotécnica desenvolveu actividade profissional em Timor, Moçambique e Portugal em algumas das mais importantes empresas nacionais, tendo sido chefe de gabinete do Secretário de Estado da Industria Ligeira e Industria Pesada em 1977/1978. É comendador da Ordem de Mérito da República Federal Alemã.
Além de velejador, foi membro fundador e vice-presidente da Aporvela (Associação Portuguesa de Treino de Vela) e tem-se dedicado ao estudo de aspectos técnicos das navegações históricas portuguesas.
É membro fundador da Academia Eça de Queirós.


Curso sobre Joalharia em Portugal

Decorrerá no próximo mês de Maio, aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, no Solar Condes de Resende, um curso intensivo sobre História da Joalharia em Portugal, ministrado por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, professor da Universidade Católica do Porto.
As matérias a ensinar abrangerão desde os conceitos introdutórios ao tema, passando pela joalharia de todas as épocas, até às grandes casas da joalharia em Portugal e a joalharia contemporânea.
O curso é organizado pela Academia Eça de Queirós e da sua frequência será passado certificado a todos os participantes.

Folhetim no Notícias de Colmeias

Como no tempo de Eça de Queirós, o jornal Notícias de Colmeias, Leiria, é o único jornal português que publica um folhetim, ou seja, uma novela em que cada capítulo, ou parte dele, aparece em cada número do jornal, neste caso intitulada “Isabel” e da autoria de Cunca de Almeida, cujo Episódio 1 apareceu na edição n.º 127 de 4 de Julho de 2010, logo na 1.ª página.

Gostaria de ir tomar um Porto com:

Ai Weiwei, o artista chinês que perturba a serenidade dos dirigentes da China; Julian Mer-Khamis, o actor árabe-israelita assassinado pelos crocodilos de ambos os lados; Joaquim Letria, porque os aldrabões existem mesmo; Ribeiro Cardoso, o jornalista que escreveu um livro sobre a nudez de um intocável.

Não, não vou brindar com:

Bashar al-Assad, presidente temporário da Síria,
 
 
Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 31 – Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração de Joaquim Santos

sexta-feira, 25 de março de 2011

Eça & Outras

O bei de Tripoli

No século XIX, quando as potências ocidentais queriam dar no Mediterrâneo um ar da sua arrogância disfarçado de «defesa da civilização», bombardeavam, a qualquer pretexto, o bei de Tunes e humilhavam-no, a ele, ao país e ao povo que ele representava. Claro que pretextos não faltavam e era fácil arranjá-los: os principais eram o ele não aceitar a utilização abusiva dos seus portos por franceses, italianos, americanos (já então!), ou ingleses, e a consequente roubalheira dos seus direitos, ou então o facto de uns tantos piratas marroquinos, argelinos, tunisinos, líbios, egípcios, etc. assaltarem os barcos mercantes e depois acoitarem-se nos portos do norte de África. Mas o culpado era sempre o bei (rei) de Tunes.
Para terem uma ideia da luta que já então se travava pelo domínio do Mediterrâneo, recordemos alguns factos históricos: a 14 de Junho de 1813, o Príncipe Regente D. João VI de Portugal, representado pelo capitão-de-mar-e-guerra Rosa Coelho, assinou um tratado de paz com a Regência de Argel, através de um documento que começava assim: «Sendo a Paz hum dos mayores Bens com que a Providência Divina abençoa as Monarchias, e os Estados…». Assim se concertou a paz, a qual incluía o resgate de cativos e o respeito pelos barcos portugueses que navegam no Mediterrâneo.
A mesma sorte não tiveram os argelinos com os ingleses, cuja frota, comandada por Lord Exmouth, a 29 de Agosto de 1816 bombardeia o porto de Argel, tendo então morrido 800 ingleses e 4000 argelinos, pois estes últimos defenderam cara a invasão da cidade.
Esta política mediterrânica das potências europeias teve como resultados, para não irmos mais atrás, que o Egipto só se tornou independente dos ingleses em 1922; a Líbia em 1943 dos italianos, mas dos franceses e ingleses só em 1951; a Palestina, ocupada pelos ingleses até 1948, está como se sabe; Marrocos livrou-se dos franceses em 1956, a Tunísia em 1967 e a Argélia venceu-os em 1962. Marrocos ainda tem “enclaves” espanhóis e os ingleses ocupam Gibraltar desde 1713, tendo-se mantido em Malta até 1964. Tudo problemas não resolvidos no século XIX.
A 14 de Dezembro de 1880, numa longa carta a Pinheiro Chagas, Eça de Queirós resume assim ironicamente a utilidade do bei de Tunes: «Sabe você o que eu fiz numa destas agonias, sentindo o moço da tipografia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da pena e dei, meio louco, uma tunda desesperada no bei de Tunes…
No bei de Tunes? Sim, meu caro Chagas, nesse venerável chefe de Estado, que eu nunca vira, que nunca me fizera mal algum, e que creio mesmo a esse tempo tinha morrido.
Não me importei. Em Tunes há sempre um bei; arrasei-o».
(Eça de Queirós Correspondência, 2008, I, p. 282).
Khadafi não é o bei de Tunes de Eça. É o bei de Tripoli dos dias de hoje. Como vimos, a Líbia, tal como Marrocos, Argélia, Tunísia, Egipto e Palestina, foi um dos países tristemente colonizados pelas potências ocidentais até tempos recentes. Em nome da civilização do petróleo e da geoestratégia ditada pelo canhão e não por quaisquer outros valores, e muito menos os cristãos.
O coronel Khadafi é um tiranete e, entre o povo líbio, há quem o endeuse e quem o deteste, como creio que acontece com outros líderes em quase todos os povos que foram colonizados e que têm desde então de se afirmar. Mas dará isso direito aos coronéis Sarkozy, Obama, Cameron e Barroso de bombardearem Tripoli como os ingleses de outrora? Estes coronéis, perdidas que foram as guerras do Vietnam e da Coreia do Norte, estando por resolver o impasse do Afeganistão, dos Balcãs, do Caucaso, do Iraque e da Palestina, querem agora criar uma nova frente de guerra?
Deviam lembrar-se que «não há semente mais fecunda do que uma gota de sangue de mártir, sobretudo quando cai num solo tão preparado para que ela furtifique» (Eça de Queirós, Ecos de Paris).
Pouco aprenderam com os desastres de outrora, estes novos coronéis. E quando não lhes ocorre melhor ideia, atiram-se ao bei de Tripoli, de Tunes, de Argel, do Cairo ou outro qualquer mais à mão, escondendo assim a sua falta de ideias para resolverem os graves problemas que grassam na Europa ou nos EUA. Na prática estão a aplicar os dividendos dos juros da dívida soberana que umas misteriosas entidades internacionais vão sacando aos governos dos países periféricos com a conivência das «grandes potências» e do «mercado», os bezerros de ouro que agora dizem que temos de adorar.
Mas não querem, para já, o bei de Tripoli: as guerras não se fazem para serem rápidas, pois de outro modo não são lucrativas. Sabemos, sempre soubemos, quais são realmente os “valores” dos que atacam o bei de Tunes ou o de Tripoli. Não esperem pelo meus aplausos.

J. A. Gonçalves Guimarães

O Progresso da decadência

Nota da redacção:
O texto que a seguir se transcreve foi-nos enviado por um confrade amigo. Tem uma linguagem que alguns podem considerar, num ou noutro passo, licenciosa. Esses fazem o favor de passar o texto à frente e não o ler. Consideramo-lo um testemunho pessoal interessantíssimo sobre a influência que Eça pode ter na vida e na inteligência das pessoas. Por isso o reproduzimos aqui com a devida vénia ao autor e ao jornal O Estado de S. Paulo.

«O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda a parte: "O País está perdido!" (...) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de "o progresso da decadência”».
Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria de Eça de Queirós, em 1871. Esta era a introdução de As Farpas que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século 19, que nos legou essa herança lamentável. Nada mais parecido conosco.
Esses textos de Eça, reunidos sob o título de Uma Campanha Alegre, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia - eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. E revendo sua vida na internet, lembrei que Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 - daqui a uma semana. Assim, resolvi escrever de novo sobre ele.
Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo, e muito sobre a nossa ridícula loucura ibérica. Depois, descobri um livro roído de traças na casa de meu avô: O Primo Basílio, que minha avó tentou proibir ("Isso não é para criança!..."). Li-o, claro, e minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, vultos, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O mundo ficou claro, através das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Rio. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o Conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da Relíquia e, claro, as coxas de Adélia, sem falar no supremo frisson do famoso "minette" do primo Basílio na "Bovary" Luiza (razão básica da proibição alarmada de minha avó). E não só o desfile dos medíocres, mas as fileiras dos heróis ecianos: Carlos da Maia, João da Ega, Jacintho de Tormes, Fradique Mendes - cultos, elegantes, ricos, irônicos e corrosivos. Eça me dava a alma viva do século 19, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os melancólicos de charutaria, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do Conde de Abranhos - que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados.
Eu o amava tanto que – acreditem-me postava na porta do colégio na hora da saída, para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça) que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?
Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: "Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queirós?" Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida ratonice.
Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz sempre preferi o português ao nosso grande mulato. "Ah... porque o Machado é bem mais sutil!..." - diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luiza do Primo Basílio (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da Eugenie Grandet). "Ahhh!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica, etc. e tal..." É verdade. Também acho. O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês; Eça é saído das costelas de Flaubert, Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital "falta de sutileza" que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais "nauseado". Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. É verdade que as personagens de Eça não são tão "livres" quanto em Machado. O "tipo" eciano não tem grande "complexidade"; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo "tipos". Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade "profunda", muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político. Ele nos exibe o ridículo das figuras que se consideram nossos "timoneiros" do alto de sua gravidade falsa, com seus interesses mesquinhos no bolso dos jaquetões.

Arnaldo Jabor

Publicado em O Estado de S. Paulo, a 16 de Novembro de 2010

Antero de Quental por Helder de Carvalho, 2008.

Rostos e Pessoas

No Museu da Póvoa de Varzim o escultor Helder de Carvalho apresenta ao público até 3 de Abril uma exposição de retratos, rostos, bustos e figuras de conhecidas personalidades do mundo do Pensamento, da História, da Arte, da Música, da Literatura e da Medicina, desde o Padre António Vieira até Corino de Andrade, de Flávio Gonçalves a Paula Rego, de Carlos Paredes a Albano Martins e muitos outros rostos e figuras das nossas maiores referências.

Na procura da sua vera efígie o autor utilizou as técnicas de desenho, pintura e modelagem para lhes fixar os caracteres físicos e a expressão íntima.

Bronzes de Beatriz

No palácio Balsemão, à praça Carlos Alberto no Porto, entre 4 e 29 de Abril, estará aberta ao público uma exposição de bronzes de Beatriz Pacheco Pereira, com quatro dezenas de peças representando figuras masculinas e femininas vistas pela fundadora do Fantasporto.

Tese de Mestrado

Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Brasil) foi apresentada em 2007 por Flávia Regina Oliveira Leão a dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Literatura, “A diferenciada construção da personagem em Eça de Queiroz & Trindade Coelho: Singulariedades de uma rapariga loura e Manuel Maçores”, a qual foi orientada pela Prof.ª Doutora Maria José Goido Palo. A autora fez «uma aproximação estilístico-literária entre [os] dois contos… através da descrição comparativa da construção das suas personagens. Sabendo-as transitórias e transitivas entre duas realidades, a romântica e a realista…».
Cita no seu trabalho, a propósito de Eça, estudos de Ernesto Guerra da Cal, Wayne Booth, Mikhail Bakhtin e Jean Starobinski, e de Trindade Coelho, os de Segolin e ainda os de Lukács e Barthes.

Eça de Queirós por Augusto dos Santos, 1929.

Um busto de Eça

Fomos descobrir um desconhecido busto de Eça datado de 31 de Outubro de 1929 na Livraria Manuel Santos, Old & Rare Books, na Rua Professor Urbano de Moura, Centro Comercial VilaGaia, Loja 18, em Vila Nova de Gaia, perto da estação ferroviária das Devesas, que aqui reproduzimos com autorização do seu proprietário, que não o vende, por ele ser uma recordação pessoal de seu avô Augusto Lino dos Santos, notável barrista natural de Coimbrões (1888-1968) que foi também comandante dos Bombeiros Voluntários locais.


Jornadas culturais em Mogadouro

Como já noticiamos, a Câmara Municipal de Mogadouro e a Confraria Queirosiana vão levar a efeito as 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro para recordarem os 150 anos do nascimento de Trindade de Coelho e homenagearem o escritor J. Rentes de Carvalho em Estevais de Mogadouro. O programa conta já com a participação de vários historiadores e literatos que aceitaram associar-se à iniciativa.
As inscrições para participação podem fazer-se junto da autarquia ou da Confraria Queirosiana.

Vinho espumoso Eça
Vinhos de Eça

Para além das comidas, desde o «pão quotidiano» até à mais requintada iguaria, também na obra de Eça existem alusões aos vinhos, tema esse já tratado, nem sempre com propriedade, por vários autores.
Por outro lado existem no mercado vinhos com alusões queirosianas ou de homenagem ao escritor. A própria Confraria criou o Porto reserva tawny “Confraria Queirosisana”, o Douro tinto reserva 2000 “Fraga Douro homenagem ao Marquês de Soveral” e o vinho espumoso “Eça”; a Fundação Eça de Queirós, produz o vinho verde “Tormes” e outros existiram ou existem capazes de satisfazerem as alusões à vida e obra do autor de Os Maias.
Como o assunto vinho é de primordial importância nacional, a Confraria Queirosiana decidiu criar o vinhosdeeca.blogspot.com, à vossa saúde!
E, já agora, passamos das companhias do cafezito para o brinde com Porto. É que o vinho é produzido em Portugal e o café ainda não.

Beber um Porto, ou não, com:

Sim, gostaria de beber um Porto com:

Howard Davies, director da London School of Economics, por ter aceitado dinheiro da Líbia e se ter demitido por isso, coisa rara num político; Artur Agostinho, um homem divertido; Elizabeth Taylor, pela recordação da sua beleza.

Não, não me apetece brindar com:

Saif al-Islam, filho de Khadafi, suspeito de pelágio na sua tese de doutoramento obtida na London School of Economics; Mira Amaral, o engenheiro que já nos quis vender centrais nucleares.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 30 – Sexta-feira, 25 de Março de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com;
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração de J. Rentes de Carvalho; Teresa Sanches; Manuel Santos