Eça & Outras, III.ª série, n.º 213,
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Protocolos
No
passado dia 28 de abril na Biblioteca Almeida Garrett no Porto, Manuel de
Novaes Cabral, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, cônsul
honorário da França no Porto e confrade de honra da Confraria Queirosiana,
entre muitos outras honrarias e distinções nacionais e internacionais que lhe
foram concedidas, tendo exercido profissionalmente funções de responsável pelo
protocolo na Comissão de Coordenação da Região Norte, no Ministério das Obras
Públicas, Transportes e Habitação, na Câmara Municipal do Porto e como
presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, lançou o seu livro Salamaleques, um conjunto de 29
saborosas narrativas sobre diversíssimas situações protocolares com chefes de
estado, papas, reis, príncipes, ministros e outros protagonistas sociais,
incluindo discretíssimos monges gregos e outras singularidades. O mundo do
protocolo, sobretudo para quem tem um curriculum e uma experiência magnificente
na área, como é o caso, presta-se a narrativas desta natureza que para nós têm o
encanto de nos colocar discretamente, como leitores, no olho do furacão ou
noutro qualquer que se ajuste à circunstância protocolar, sempre hesitante
entre a impecabilidade e o desastre irremediável. Para além do prazer que me
deu a leitura deste livro, não pude deixar de recordar que conheci outros bons,
e outros muito menos bons, responsáveis protocolares em outras diversíssimas
situações e recordar que também eles tinham histórias saborosíssimas para
contar, que pena foi que as não escrevessem. E, deixemo-nos de coisas: se é
certo que Manuel de Novaes Cabral é um grande mestre do protocolo, asserção
indesmentível e corroborada pelos participantes no painel de lançamento do
livro – Luís Braga da Cruz, Luís Valente de Oliveira, Rui Rio e Maria Cabral – também
sabemos que em Portugal a firma mais ativa nessas andanças poderia chamar-se
“meia bola e força”, ou seja, os portugueses são pouco dados a levar a sério as
regras protocolares e normalmente andam concertados a darem com elas em
pantanas sempre que tal se proporciona, afirmando mesmo alguns, alarvemente,
que o “povo não gosta destas coisas”. São os bisnetos do Zé Povinho, um grunho
inventado como caricatura por Rafael Bordalo Pinheiro que a falta de leitura ou
de estudo arvorou em pseudo-simbolo nacional. Estão bem uns para os outros.
Não
me apetece muito falar de maus exemplos ou mesmo de situações ridículas que
presenciei em situações protocolares, quer em autarquias quer em outras
instituições ou situações. Eu próprio tive de me desunhar com situações
protocolares que tinham de correr bem nos 1.º e 2.º congressos Internacionais
sobre o Rio Douro (1986 e 1996), no IVº Encontro Luso-Soviético de
Historiadores (1988), nos capítulos da Confraria Queirosiana desde 2003. Na
Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos recordo um encontro luso-espanhol
em Badajoz em que era obrigatório ir de smoking ao jantar de gala com os
marqueses e marquesas espanholas e um colega nosso não tinha, mas que vestimos
como se fora um filho ridículo de Woody Allen e que convencemos o protocolo da
associação espanhola que aquela era a moda mais in de jantares de gala
recentes na Universidade de Cambridge. E nem ficou muito mal no meio das saias
verde-alface ou escarlates com largos folhos das velhíssimas marquesas
“sevilhanas”, mai-las suas peinetas e mantilhas. E jamais esquecerei os
amargos de boca que passamos, eu e o Salgueiro Maia como dirigentes dessa
associação num outro encontro luso-espanhol na fronteira minhota, durante o
qual um arquiteto diretor dos monumentos nacionais e a sua entourage de papa-almoços institucionais sistematicamente nos
deixavam ficar mal perante as entidades e a congénere associação espanhola, até
que, apanhados em flagrante já na Galiza, e enquanto a sua amantíssima esposa
fazia uma peixeirada inqualificável perante o olhar incrédulo dos espanhóis,
foram postos fora da sala onde ia decorrer o almoço de encerramento.
Mas
recordo antes os bons exemplos de Fernando Nicolau de Almeida, Albino Jorge e
Francisco Olazabal na Confraria do Vinho do Porto, que, recorde-se, no início
arrostaram com a ousadia de porem trajados na ribeira do Porto, numa época que
o povo só estava habituado a ver na rua os trajos dos ciclistas ou, de quando
em vez, dos jogadores de futebol na Avenida dos Aliados, enquanto aquela
entidade tinha de receber no Palácio da Bolsa secretários gerais da ONU,
presidentes de repúblicas várias, reis e príncipes e outros dignitários. E
claro, as saborosíssimas estórias que ocorreram durante a visita da rainha de
Inglaterra ao Porto, ou durante a visita da Confraria ao Japão, em que o
protocolo quedou perplexo, oscilou, escorregou, mas não caiu!
Lembro
também das peripécias protocolares ainda de Francisco Olazabal na Casa
Ferreira, na receção a um embaixador estrangeiro que vinha com a secreta missão
de o convidar para cônsul honorário do seu país e este seu hospedeiro, com a
sua proverbial bonomia, resolveu animar a conversa na mesa de honra contando a
sua opinião sobre as utilidades de o seu sogro ser cônsul honorário de um país
do Caribe, esquecendo que o embaixador asiático tinha ao lado um tradutor, que
foi sendo informado das utilidades da folha oficial daquele país para acender a
lareira no inverno, da desgraça no transito que a placa CC, colocada nas
traseiras do carro do sogro, originava onde quer que este fosse, e do gaudio
deste em viajar para aquele longínquo país onde nunca pensara por os sapatos. E
assim terminou para o Vito uma promissora carreira consular. Ainda na mesma
empresa recordo algumas peripécias que o senhor Fernando Xavier, então chefe de
protocolo, tinha de resolver nos jantares do Prémio D. Antónia, desde o ter-me
pedido para, in extremis, ocupar um lugar na mesa de honra atras de um
letreiro que dizia “Câmara Municipal do Porto”, onde deveria estar um vereador
da dita que, tendo confirmado a presença, depois não apareceu, ou naquela outra
ocasião em que, procurando um vereador presente da Câmara de Gaia para ocupar o
seu lugar na mesa de honra da sessão, me pediu para eu o ajudar a identifica-lo
e fomos dar com o dito escondido atrás duma coluna da sala “por não conhecer
ninguém”, tendo de o “arrastar” até ao lugar que lhe estava destinado mas que
ele não queria ocupar. E algumas das peripécias bem humoradas da visita de um
malogrado presidente da República de Moçambique à dita empresa, desde o seu
efusivo reencontro com o Ferreirinha Vinho para Missas, até aos discretos beliscões
na região nadegueira de uma certa discreta dama no túnel entre armazéns.
Mas como escreveu o autor deste livro, «… tendo o agente do protocolo acesso a informação reservada ou mesmo confidencial, a ética da profissão impõe-lhe um pesado dever de segredo» (Apresentação, p. 8). E também, como escreveu Eça de Queirós sobre estas coisas, «…é necessário que estejamos todos muito sérios: se nos rimos o país desmorona-se» (Distrito de Évora, 1867). Fazem o favor de ler o livro que vão aprender muito sobre o protocolo que os portugueses, por alarvidade, geralmente menosprezam.
J. A. Gonçalves Guimarães
historiador
A
ASCR-CQ organiza e promove…
Curso sobre Camilo Castelo
Branco
No
sábado, dia 23 de maio, com uma visita pelas 15 horas, decorreu na Casa de
Camilo em São Miguel de Seide, Famalicão, e depois no auditório do Centro de
Estudos Camilianos (CEC), pelas 16 horas, a sessão de encerramento do Curso
livre evocativo 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-2025) com
um concerto pelos Eça-Bem-Dito com a pianista Maria João Ventura, intitulado
«Camilo e a voz do povo: cançonetas populares do seu tempo», algumas das quais com versos do escritor.
O grupo de trinta inscritos e acompanhantes foi
recebido na Casa de Camilo pelo Prof. Doutor Sérgio Sousa, docente na
Universidade do Minho e diretor do CEC, que também lecionou neste curso, o qual
deu as boas -vindas aos visitantes. que depois percorreram as diversas divisões
onde o escritor viveu com Ana Plácido e os filhos, guiados pelo conhecimento e
sensibilidade do guia desta Casa-Museu. Seguidamente os Eça-Bem-Dito com a
pianista Maria João Ventura foram recebidos no auditório pela Dr.ª Elzira Queiroga
do CEC, decorrendo o anunciado concerto.
No
próximo dia 30 de maio na Biblioteca Municipal de Gaia, pelas 15 horas, este
mesmo concerto será repetido integrado numa conferência sobre o tema por J. A.
Gonçalves Guimarães.
Palestra das primeiras
quintas-feiras do mês
No passado dia 7 de maio na habitual palestra no
Solar Condes de Resende, presencial e por vídeo-conferência, a Mestre Lindsey
Corrêa, licenciada em história pela UF Rural do RJ, mestre em História Social
pela UF Fluminense, e em História e Património pela UALG e do Gabinete de
História, Arqueologia e Património, apresentou o tema «Trilhos de progresso,
vagões de Memória: caminhos de ferro e património cultural em Vila Nova de
Gaia.
A ASCR-CQ esteve em…
01
de maio – o presidente da direção e vários outros associados e confrades,
deslocaram-se a Alvite, Cabeceiras de Basto para participarem no funeral de D.
Maria Emília Teixeira, mãe da Dr.ª Fátima Teixeira, que foi a sepultar no
cemitério local
07
de maio - o presidente da direção e o presidente do conselho fiscal, Dr. Manuel
Filipe, reuniram com o Arq. Pedro Cavadas, assessor para a cultura da Câmara
Municipal de Vila Nova de Gaia para análise do programa proposto pela ASCR-CQ
para o corrente ano.
09 de maio – a convite da presidente do PSD
Gulpilhares e Valadares, Dr.ª Henriqueta Antunes, o presidente da direção da
ASCR-CQ participou num jantar-conferência sobre «Cultura, Tradição e Identidade
Local» que decorreu na Casa dos Meus Avós naquela primeira freguesia, onde
apresentou uma síntese sobre o seu recente estudo «A Cultura no Município de
Vila Nova de Gaia, antes, após o 25 de Abril e hoje: conceitos, instituições e
agentes», publicado na revista Gaya. Estudos de História, Arqueologia e
Património, n.º 03, 2025. O jantar contou ainda com a intervenção de mestre
Diogo Freitas, formado pelo Politécnico do Porto, sobre as manifestações
católicas populares nestas freguesias, e ainda representantes do Rancho
Regional de Gulpilhares, Rancho Folclórico de Valadares, Confraria dos Velhotes
e comissões de festas locais.
13 de maio – neste dia, no amplo salão ogival
da alcáçova do Castelo de Santa Maria da Feira repleto de ouvintes, muitos dos
quais vindos diretamente de Gaia, Porto e outras localidades para o escutarem,
o Prof. Doutor Luís Carlos Amaral, professor e investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), a convite do Município, falou sobre D. Teresa e o Condado Portucalense,
tema central da Viagem
Medieval que decorre proximamente. O Município retomou assim a
prática que já teve noutras circunstâncias de chamar profissionais da História
para divulgarem os seus mis recentes estudos sobre a Idade Média da região e o
Portugal nascente. Estiveram presentes os dois coordenadores do Gabinete de
História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana e vários outros
investigadores que na oportunidade felicitaram o conferencista que já tem sido
colaborador do projeto do Castelo de Crestuma, cuja investigação ora se
pretende retomar.
General Ângelo Arena
16
de maio – o presidente da direção, J. A. Gonçalves Guimarães, o presidente da
assembleia geral, José Manuel Tedim, e alguns outros associados e confrades da
ASCR-CQ estiveram presentes no Auditório do Museu Nacional Soares dos Reis num
concerto in memoriam do General
Angelo Arena, que foi cônsul de Itália no Porto e presidente da Società Dante
Alighieri, recentemente falecido. O próximo número da Revista de Portugal igualmente prestará uma homenagem nas suas
páginas a este amigo do nosso país e grande dinamizador das relações
interculturais luso-italianas.
22
de maio – pelas 21 horas no Solar Condes de Resende no Jardim das Camélias,
numa magnífica noite decorreu um concerto por um grupo de Guitarra Clássica do
Conservatório Regional de Gaia que executou com maestria diversos temas dos
séculos XVIII a XX. Estiveram presentes diversos dirigentes e associados da
ASC-CQ.
A
ASCR-CQ na comunicação social…
No passado dia 07 de maio o jornal Audiência
publicou duas páginas muito bem ilustradas com uma reportagem intitulada «Três
obras, uma identidade: Gaia reuniu cultura, história e tradição vínica», sobescrita
por Tânia Durães e alusiva ao lançamento das publicações que, como noticiamos
na página anterior, decorreu no passado dia 21 de abril pelas 18 horas na
empresa de Vinho do Porto Quinta da Boeira - Arte e Cultura em Vila
Nova de Gaia. Aí foram apresentados o livro Património Cultural de
Gaia. Gaia, Século XX, o terceiro volume do projeto Património Cultural
de Gaia (PACUG), em concretização pelo Gabinete de História, Arqueologia e
Património da ASCR-CQ; a revista Vinho Verde. História e Património.
History and Heritage, n.º 04, editada pela APHVIN/ GHEVID - Associação
Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, com protocolo de colaboração com a
ASCR-CQ; e Gaya. Estudos de História, Arqueologia e Património,
n.º 03.
Associados…
Distinções
No
dia 25 de Abril passado, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia homenageou
diversos cidadãos por relevantes serviços relevantes à comunidade, nomeadamente
os seguintes confrades queirosianos; Professor Doutor Levi Guerra, antigo
Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade, com a Medalha
de Mérito de Serviço Público; Jornalista de Televisão Mário Augusto, com a
Medalha de Mérito Cultural; e o Prof. Doutor Mário Mateus, Maestro e Diretor do
Conservatório de Gaia (e que em breve será insigniado como confrade
queirosiana), com a Medalha de Mérito Educativo.
A Língua Portuguesa em Timor
O secretário de estado da Cultura Dr.
Alberto Santos, escritor e confrade queirosiano de honra, esteve no passado dia
5 de maio em Dili onde foi assinalado o Dia Mundial da
Língua Portuguesa e o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP, numa terra
onde a língua que nos une se ligou à resistência, à construção do Estado e à
afirmação da identidade própria do povo timorense. O lema do encontro foi «Salvaguarda da Herança Cultural, como Promoção da Identidade
e da Cidadania da CPLP»
96
Anos de Rentes de Carvalho
Acompanhado
de suas filhas e genro, regressou recentemente à sua aldeia de Estevais do
Mogadouro o escritor e antigo professor da Universidade de Amsterdam, José
Rentes de Carvalho, que no passado dia 15 de maio aí completou os seus 96 anos,
os quais foram assinalados pela Quetzal, a sua editora, pela Confraria
Queirosiana e por outras personalidades e entidades.
Publicações…
Está em
distribuição entre os associados «Patrimónios. Boletim da Associação Cultural
Amigos de Gaia», n.º 101, dezembro de
2025, o qual, entre outros artigos apresenta uma evocação dos «50 anos da
Associação Cultural Amigos de Gaia» pelo Juiz Concelheiro Jubilado Dr. José
Pereira da Graça.
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Eça
& Outras, III.ª série, n.º 213, segunda-feira, 25 maio de 2026; propriedade
da associação cultural Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria
Queirosiana (Instituição de Utilidade Pública), Solar Condes de Resende,
Travessa Condes de Resende, 110, 4410-264, Canelas, Vila Nova de Gaia; C.te n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154; IBAN:
PT50001800005536505900154; email:
queirosiana@gmail.com;
www. queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.
com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação do blogue e publicação no jornal As Artes Entre As Letras: J. A.
Gonçalves Guimarães; redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração: Carlos Sousa; Centro de Estudos Camilianos.




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