sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Eça & Outras

FREGUESES OU CIDADÃOS?

Desde tempos remotos que as pequenas comunidades tribais com a mesma consanguinidade, a mesma fala e o mesmo deus se agrupam para melhor se administrarem e defenderem do que é extranho. Para tal definiam um território que lhes assegurasse os recursos de sobrevivência, escolhiam um chefe capaz e cultuavam um elemento simbólico central, menhir, templo, igreja, pelourinho ou edifício, conforme as épocas e as crenças.
As pequenas comunidades, indefesas contra os inimigos sérios – o clima, as pragas, as fomes, os invasores, a inanição social – procuraram agregar-se em comunidades maiores, cruzando-se com os vizinhos através de pactos familiares, desde que tivessem a mesma fala e o mesmo deus. Assim se constituíram as formas organizadas do poder, desde as aldeias e comunidades regionais, até às nacionalidades e imperialidades. Nestas últimas impunha-se pela força a fala, o deus e a administração, desde o poder central ao seu ínfimo representante. O território português, mal assimilado na imperialidade romana, continuou castrejo e aldeão na maior parte do território até aos dias de hoje, mais pela geografia passiva do que pelo planeamento dos recursos, despejado para o litoral e mais motivado para a fuga marítima do que para pôr a terra a render a sério. Por isso não admira que tenhamos chegado ao século XXI com uma malha administrativa, de um modo geral, decalcada das paroquias medievais em torno da sua ecclesia, sendo os moradores os filhos da igreja, os filigreses, logo fregueses, os da mesma freguesia. Acontece que os tempos foram mudando e hoje, em muitos casos, a realidade geográfica e económica já não tem na comunidade religiosa de base o seu epicentro. Logo a mesma já não pode servir como referência. A própria Igreja Católica, tantas vezes tida como entidade imóvel, desde sempre resolveu o problema das suas paroquias que não podiam sustentar-se unindo-as à paróquia vizinha passando um só pároco a administrar duas ou três.
Ao longo dos tempos houve poucas tentativas para racionalizar a administração local. Foram quase sempre alterações políticas que deram origem às grandes reformas, aproveitando momentos de reorganização social. É na crise dinástica dos finais do século XIV que se cria o Termo do Porto (o “Grande Porto”); é na guerra civil de 1832-1834 que se proclamam as reformas de Mouzinho da Silveira, que se prolongam pelo século XIX fora, logo desvirtuadas pelos influentes locais.
Após o 25 de Abril, com o regresso de muitos emigrantes de França e de retornados das ex-colónias reformados o país foi percorrido por uma estranha mania que pretendia transformar todas as freguesias em “mairies” à imagem gaulesa, com poderes sobre o território e os seus recursos como se fossem colonatos, e tudo isto justificado pela “democracia de proximidade”, quando na realidade os militantes destas estranhas propostas eram cada vez menos e, em muitos casos, recém chegados ao território que passaram a definir segundo a sua ideia e em desfavor do município a que pertenciam como um todo. Depois veio o seu alçamento em importância reivindicativa: bouças, matas, pedreiras e pinhais, com uma aldeia central ou várias dispersas, passaram oficialmente a “vilas”; dormitórios das velhas urbes passaram elas próprias a “cidades”; há “vilas” dentro de “vilas” e “vilas” dentro de “cidades” e tudo isto coexistindo com as juntas das freguesias medievais, que nuns casos administram cinquenta cidadãos numa velha aldeia despovoada e noutros casos territórios do tamanho de pequenos países com milhares de habitantes encavalitados em bairros sociais. Ressuscitaram-se incongruentes concelhos medievais que já não têm pastores nem cabras! Veja-se a heráldica entretanto criada, que está lá tudo!
Os valores como território, recursos, economia e planeamento foram sendo postos de lado em função dos pequenos jogos de poder local. De modo que a promulgação de uma nova reforma administrativa que atualize o mapa humano económico e social do país não vai ser fácil de implementar face à sua “balcanização”. Mas não se invoque a tradição para defender o imobilismo, ou pior, as incapacidades de reorganização que o tempo parece ter sancionado. Se há lição que a História nos pode dar é a de que as mudanças são inevitáveis e é melhor que sejam sensatas e consensuais para proveito dos que nelas vão ter de viver. E sobretudo não esqueçamos que «… o que a cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância… na cidade, nesta criação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o Céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou imprudente como um histrião…» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras). Cidadãos são pois os que praticam o valor da cidadania, seja na aldeia, na vila ou na cidade, sem nunca perderem de vista o que caracteriza a sua comunidade da fala e da cultura alargada ao conceito grande de nação como conjunto de regiões naturais administradas por municípios sustentáveis, e não apenas os pequenos interesses instalados que não conseguem ver mais além do que as pequenas colinas que delimitam a sua freguesia.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor
GRANDE CAPÍTULO

No passado dia 19 de Novembro a Confraria Queirosiana realizou o seu 9.º Grande Capítulo anual no Solar Condes de Resende, em Vila Nova de Gaia.
A mesa que presídio aos trabalhos foi composta pelos confrades César de Oliveira, presidente da mesa da assembleia-geral; Mário Dorminsky vereador da Cultura em representação do Dr. Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Gaia; José Manuel Tedim, presidente da direção; Gonçalves Guimarães, mesário-mor e Olga Cavaleiro em representação da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, os quais saudaram os presentes. Além de numeroso grupo de confrades queirosianos estiveram presentes representantes da Casa Adriano Ramos Pinto, Associação de Amizade Portugal-Egito, Associação dos Amigos de Pereiros, Centro Cultural Eça de Queirós, Confrarias da Doçaria Conventual de Tentúgal, do Bodo (Pombal), dos Sabores de Sintra, da Chanfana (Vila Nova de Poiares) e do Leitão da Bairrada, e Junta de Freguesia e Rancho Folclórico de Canelas (Gaia) e vários órgãos da comunicação social, entre os quais o jornal As Artes entre as Letras.
A sessão foi abrilhantada pelo trio de saxofones da Fundação Conservatório Regional de Gaia.
Foram insigniados como novos confrades Mónica Ferreira Rodrigues, professora e pedagoga, Marcus Vinicius Cocentino Fernandes, médico radiologista, Fernando Rui Morais Soares, economista e gestor, Fernando Afonso Andrade Lemos, professor e diretor do Centro Cultural Eça de Queirós, José Maria da Fonseca Carvalho juiz desembargador, Francisco Ribeiro da Silva, historiador e ex-vice-reitor da Universidade do Porto e Guilherme de Oliveira Martins, jurista, diretor do Centro Nacional de Cultura e presidente do Tribunal de Contas, tendo estes dois últimos usado da palavra em nome dos novos insigniados e salientado a perenidade da obra queirosiana nos dias que correm.
Em seguida foi assinado um protocolo de doação à Confraria por parte do Dr. Marcus Fernandes de um Núcleo Documental sobre Teófilo Braga e o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo apresentou o n.º 8 da presente série da Revista de Portugal de que é diretor, dedicado aos 150 anos de Trindade Coelho. Na ocasião ofereceu à Biblioteca do Solar o catálogo da sua autoria da Colecção Egípcia da Universidade do Porto.
Após o discurso da Dr.ª Olga Cavaleiro representante da Federação, encerrou a sessão o Prof. Doutor José Manuel Tedim, que fez um breve balanço das atividades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana no ano que em breve findará.
Seguidamente os confrades dirigiram-se à estátua de Eça de Queirós no Jardim das Camélias onde colocaram uma coroa de louros.
Após breves momentos de convívio nas salas onde estão expostos as obras do Salon d’Automne do presente ano, decorreu no pavilhão do Solar o jantar queirosiano animado por um grupo de bailarinos que puseram os Confrade e convidados a dançar enquanto nas mesas se iam dando sugestões para as próximas realizações culturais da Confraria.

REVISTA DE PORTUGAL

Conforme acima se escreveu, acaba de ser lançado o n.º 8 da nova série da Revista de Portugal, desta vez com as Atas das 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro realizadas pela Confraria Queirosiana nos passados dias 18 e 19 de Junho, dedicadas aos 150 anos do nascimento de Trindade Coelho, com artigos sobre este jurista e escritor da autoria de Anabela Mimoso, José Silva Évora, António Manuel Silva e José António Afonso; sobre temas relacionados com a geração de 70 por João Bartolomeu Rodrigues, Maria de Fátima Teixeira e Dagoberto Carvalho J.or; sobre Santos Júnior por Carlos d’Abreu; o protocolo celebrado entre a Confraria Queirosiana e o escritor José Rentes de Carvalho; sobre a coleção egípcia da Universidade do Porto por Luís Manuel de Araújo; sobre cerâmica oitocentista por J. A. Gonçalves Guimarães; uma recensão sobre a obra “Valdozende” de Rosa Maria Lopes; a bibliografia de muitos confrades produzida em 2010 e, a encerrar, uma resenha das atividades da associação durante o ano passado. Este número teve o patrocínio da Vox Organização Industrial Gráfica, S. A., sediada em Canelas, Vila Nova de Gaia.

CONGRESSOS E COLÓQUIOS

CENTRO CULTURAL EÇA DE QUEIRÓS

Entre 16 e 19 de Novembro passado e, organizado pelo Centro Cultural Eça de Queirós, realizou-se o XVII Colóquio dos Olivais na Escola Secundária Eça de Queirós em Lisboa, subordinado ao tema “Vida e morte das cidades/1300 anos da Invasão da Península pelos árabes” para o qual o nosso confrade Fernando Andrade Lemos, diretor daquele Centro preparou uma comunicação sobre a “ Crónica moçárabe de 754”. Entre muitas outras comunicações, César Veloso apresentou “Alguns comentários sobre a lingerie das burguesinhas queirosianas”. Além de concertos de música e representações teatrais foi ainda lançado o n.º 3 dos Cadernos Culturais de Telheiras.

GASTRONOMIAS & ENOFILIAS

FEIRA DE S. MARTINHO

Nos dias 11, 12 e 13 decorreu no Solar Condes de Resende a Feira de S. Martinho de produtos do Douro, organizada pela Confraria Queirosiana e a Associação dos Amigos de Pereiros, S. João da Pesqueira, com a colaboração da Gaianima, EEM e da Junta de Freguesia de Canelas.
No primeiro dia o serão foi abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Canelas e no segundo atuou o Coral da Justiça do Porto, com o seu coro, orquestra e grupo de danças e cantares tradicionais que encantaram os presentes.

VELEIRO CARREGA VINHO DO PORTO

Entrou recentemente no Douro a escuna holandesa Tres Hombres inteiramente movida à vela e que procura incentivar a utilização deste tipo de barcos não poluentes nos transportes marítimos de pessoas e mercadorias. Como noutros tempos atracou ao Cais da Estiva, do lado da cidade do Porto, tendo aí recebido carga de vinhos destinada ao Funchal da Casa Ramos Pinto sediada do lado da cidade de Gaia.
Tratando-se de uma cena atual ela evoca a antiga azáfama de ambas as margens do Douro quando recebiam as mercadorias de longes terras e embarcavam os produtos do Douro, a partir dos seus armazéns, em navios à vela das frotas mercantis do Atlântico e do Mediterrâneo.


Epitáfio de Jano











Aqui repousa em terra nunca arada
Jano cavalo lusitano
Filho de Vitória a de sangue árabe
E de Trovador em Alter nascido.
No estábulo de Leirez viu a madrugada
Em Janeiro de mil novecentos e noventa
No seu sangue talvez corresse
O dos cavalos que Xeique Rua
Tratou lá longe em Marrocos
Aliviando o seu cativeiro.
Com teu belo porte galopaste
Canelas fora até Vilar d’Andorinho
De Serzedo à Serra de Negrelos
Como se foras estátua andante.
De ti se recordarão teus donos
E todos aqueles que aprenderam
A cavalgar teu dorso inquieto.
Já não existe o campo onde corrias
Onde esperaste em vão pelas éguas
Que te perpetuassem a descendência
Os cavalos estão a desaparecer
Sem que a humanidade lhes agradeça
O terem-nos levado a todo o lado
Onde os navios não navegavam.
Morreste quando caíam as castanhas
Abanadas pelo vento sul
Com a chegada das primeiras chuvas.
A palha do teu estábulo já fenece
Enquanto a tua memória persistirá
Naqueles com quem foste generoso
Repousas entre o castanheiro e a figueira
Que te davam os frutos que comias
Mesmo sabendo certo o penso diário
Se em vez das rações da industria
Te tivéssemos dado só agricultura
Teus dias por certo se teriam dilatado.
Morreste ferrado para a última cavalgada
Que te leva à fonte da memória
Onde correrá sempre a água da saudade.

Fradique Rua Mendes
(bisneto de Fradique Mendes)
29 de Outubro de 2011

Brindar com Porto

Apetece-me beber um Porto com:

Assunção Esteves, a discrição esclarecida; George Wright por se ter tornado José Luís Jorge dos Santos; Mahmoud Abbas, pela entrada da Palestina na UNESCO; Norman Finkelstein, o Uriel Costa estadunidense que tem vindo a denunciar a venda da desgraça como mercadoria política.

Não, não quero brindar com:

Duarte Lima, porque quem vem do “nada” normalmente trás consigo pouca coisa que se aproveite; Presidente Obama, por permitir o corte da quota dos EUA à UNESCO.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 39 – Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Eça & Outras

A TRETA E A CARETA
Sempre me surpreenderam aquelas pessoas que, possuindo formação académica e, às vezes, exercendo funções de relevância social com sucesso, em matéria de crenças, mitos, superstições, nas suas convicções pessoais e na sua prática cultural fora da sua profissão, evidenciam uma desconcertante ignorância, e acreditam (ou dizem que acreditam) em mitos que a História já explicou, ou remeteu para o caixote do lixo das convicções humanas. E o mais estranho ainda é que, algumas dessas pessoas, não escrevendo ou publicando nada sobre a sua formação de base, dão-se ao desplante de escreverem sobre temas da História, da Antropologia ou de outras ciências sociais, sem conhecerem, já não digo os seus métodos, pois de tal não têm obrigação, mas pelo menos a bibliografia mais atualizada sobre o assunto. Vai daí, descrevem e divulgam monumentais patranhas como certas e históricas sem qualquer sentido crítico, contribuindo assim para a perpetuação da ignorância, muitas vezes ao serviço de interesses instalados pouco claros, ou até demasiado óbvios, sendo um deles o turismo de multidões a qualquer preço: “A Praga”, como lhes chamou José Rentes de Carvalho num texto antológico. Tal é o caso de Santiago de Compostela. Entendamo-nos: ao ir visitar esta catedral e admirar a sua beleza resultantes da capacidade humana, não posso nem devo esquecer que estou perante um mito inventado no século IX para apoio político-militar à cruzada contra os mouros, cujas premissas são historicamente falsas, a partir das quais se criou toda uma metáfora em volta do gosto humano pelo passeio fora da terra. E mesmo se os que as inventaram estiveram convencidos da veracidade da sua crença, isso nada nos obriga hoje a partilhar dos erros das suas convicções, por mais humanamente tolerantes que sejamos, tal como ao visitar um templo inca, não temos de acreditar nos “mistérios” (alguns bem cruéis e desumanos) da sua religião. E muito menos divulgá-los como “verdadeiros”.
Ora acontece que, nos últimos tempos, se têm inventado “estradas de Santiago” que são “apenas” as velhas estradas romanas e os caminhos medievais, pois não havia outros até ao século XX; têm-se inventado multidões de peregrinos como se sempre assim tivesse sido, sendo certo e sabido que antigamente só os ricos viajavam, já que o povo vivia agarrado à sua gleba e na melhor das hipóteses peregrinava até ao santuário mais perto da sua terra. A lenda do galo de Barcelos não é a lenda do aviário de Barcelos e um galo, bem partidinho, só dá para quatro pessoas e não para multidões. Tem-se passado a mensagem de que o que está em Santiago é mesmo o que resta do corpo do apóstolo, o que até autores católicos, como Monsenhor Miguel de Oliveira, desmentiram há muito nos seus trabalhos. O que existe lá é arquitectura religiosa, imponente, sem dúvida, e turismo em volta da recordação de crendices de outras épocas.
Não se deve confundir o turismo cultural com o turismo religioso, nem promover monumentais patranhas como se de história se tratasse graças a uma bem engendrada campanha de marketing para público acrítico ou pouco letrado.
Faz-me lembrar aquela situação dos anos sessenta em que os portugueses iam em excursão a Tui e a Vigo comprar o bacalhau da seca de Lavadores em Gaia e que era levado para a Galiza em camiões durante a noite. Mas que diabo, nessas excursões não iam, normalmente, indivíduos de cuja formação académica e cultural se esperaria mais alguns conhecimentos e algum sentido crítico. Religião e Teologia também são outra coisa. Já Eça de Queirós tinha avisado que «… entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o país é todo ele uma consciência falsa. Vem tudo da educação.» (Uma Campanha Alegre). Quem quiser que continue a tirar o chapéu às fantasias. Eu, por mim, caminho por caminho, prefiro o de S. Vicente, mas não sei se V.as Ex.as saberão de que é que estou a falar. E estou convicto que, em matéria de mitos e de cultura, em muitos cidadãos com responsabilidades, a treta não diz com a careta. Mas eles continuarão a difundir os seus mitos e este será mais um texto inútil dos muitos que tenho escrito. Mas a História não mente; às vezes é apenas pouco conhecida.
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor

GASTRONOMIAS & ENOFILIAS

IV Congresso da FPCG

Nos passados dias 7 e 8 de Outubro decorreu na Figueira da Foz o IV Congresso da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, tendo a Confraria Queirosiana estado presente através de uma delegação composta por César Oliveira, José Manuel Tedim e Gonçalves Guimarães.
As sessões decorreram sob os temas “A necessidade aguça o engenho”; “As Artes Culinárias de expressão popular de raiz rural e raiz urbana. Afastamento e Aproximação” e “Confrarias Gastronómicas: que realidade?; que propostas?; que futuro?”.
Para além das confrarias filiadas e outras com o estatuto de observador, estiveram ainda presentes delegações de confrarias do Brasil e de Angola.
No dia 7 decorreu o Jantar da Partilha, no qual as confrarias puseram à disposição dos participantes os produtos que promovem ou divulgam. Estiveram presentes os nossos vinhos, o espumante “Eça” que acompanha muito bem os leitões da Bairrada e outras iguarias presentes, e o Porto “Confraria Queirosiana” que brilhou no acompanhamento de diversas sobremesas.
No dia 7, após o jantar, decorreu a I Gala da FPCG com a atribuição de 8 troféus e respetivos diplomas em várias modalidades do mundo da gastronomia, tendo a Confraria Queirosiana sido uma das nomeadas para o troféu “Boas Práticas Confrádicas” que o júri atribuiu à confraria dos Nabos e Companhia, de Carapelhos – Mira, que tem promovido a degustação dos mais tenros grelos existentes no país, os quais já envia para a Europa, para felicidade daqueles que os degustam.
Este Congresso, para além de ter sido um encontro das Confrarias Gastronómicas mais ativas, contou com a presença de vários autarcas e presidentes de quatro regiões de turismo, tendo servido além do mais, para a consolidação do movimento confrádico nacional.

CONGRESSOS E COLÓQUIOS

Escritores e artistas médicos

A Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos realizou o seu Encontro de Outono em Vila Nova de Gaia nos dias 16, 17 e 18 passados, organizado por Miguel Miranda, médico e ficcionista autor, entre outras obras, de Dai-lhes, Senhor, o Eterno Repouso.
Os participantes visitaram o Mosteiro de Grijó, onde foi evocado Júlio Dinis, o Solar Condes de Resende, onde Gonçalves Guimarães lhes falou das ligações da casa a Eça de Queirós e já pela tarde na capela do Mosteiro de Corpus Christi lhes falou de médicos escritores de Gaia, como Osório Gondim, Maximiano Lemos, Manuel Ferreira de Castro ou, mais recentes, Jaime Milheiro e António Ramalho e ainda do médico artista Rufino Ribeiro. A delegação visitou ainda outros locais e o Centro Histórico de Gaia.

No tempo dos mouros

António Manuel Silva e Natércia Barbosa
No passado dia 22 de Outubro decorreu em Arouca por iniciativa do Centro de Arqueologia local com a colaboração da autarquia, o colóquio “No tempo dos Mouros”, o qual juntou numerosos arqueólogos que têm trabalhado no estudo dos castelos e outras estruturas dos séculos VIII – X na área do Entre Douro e Mondego.
O Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ esteve presente com uma comunicação sobre O Castelo de Crestuma, da autoria de António Manuel Silva, Filipe Pinto, J, A. Gonçalves Guimarães e Laura Peixoto. As atas serão publicadas no inicio do próximo ano.

Livros
A estrada de Leiria

No passado dia 17 de Setembro, foi lançado no Arquivo Distrital de Leiria o livro A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791, da autoria do nosso Confrade Ricardo Charters d’Azevedo e editado pela Textiverso. A partir de um mapa existente no Instituto Geográfico Português com 2,38 m, o autor faz uma análise da região centro do país naquela época, bem assim como dos protagonistas da sua realização. Este trabalho contém ainda pormenorizadas descrições de como se viajava e dos serviços de apoio ao viajante existentes no tempo de D. Maria I, no tempo em que havia preocupação com o “bem público”. A obra foi apresentada por António Santa Rita, especialista em estradas e Eduardo Zuquete, antigo vice-presidente da Junta Autónoma de Estradas.

Faraós



No próximo dia 8 de Novembro, terça-feira, pelas 18 horas, na FNAC de Santa Catarina no Porto, a Esfera dos Livros procederá ao lançamento de “Os Grandes Faraós do Antigo Egipto. 30 Faraós, 30 Dinastias”, da autoria do egiptólogo Luís Manuel de Araújo, vice-presidente da direcção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, diretor da Revista de Portugal e professor na Universidade de Lisboa. A obra será apresentada pelo egiptólogo Rogério Sousa.




Exposições

Salon d’automne 2011

No Solar Condes de Resende continuam patentes ao público para venda as obras dos artistas queirosianos, nesta exposição que se deverá prolongar por todo o mês de Novembro.

Beatriz Pacheco Pereira

No dia 4 de Novembro, 6.ª feira, pelas 18 horas, Beatriz Pacheco Pereira apresenta na Galeria Por Amor à Arte, no Porto as suas mais recentes obras num conjunto intitulado “O Ponto Crítico”.
A mostra abre ao público no dia seguinte pelas 16 horas.

Homenagens

Pavilhão Nelson Cardoso

A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia decidiu homenagear Nelson Cardoso ex-presidente do Conselho de Administração da Gaianima, EEM, presidente do conselho fiscal dos Amigos do Solar Condes de Resende e Confrade honorário da Confraria Queirosiana, que faleceu subitamente a 19 de Janeiro deste ano, dando o seu nome a um pavilhão gimnodesportivo da Escola das Pedras, situado na antiga quinta do mesmo nome, ali junto do Castro de Mafamude.
A primeira pedra foi lançada no dia 20 de Outubro, sendo o ato presidido pelo Dr. Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara, acompanhado da vereação e outras autoridades, estando presentes os familiares do homenageado, muitos amigos e confrades.
O número oito da Revista de Portugal, a publicar em Novembro próximo, será igualmente dedicado à memória de Nelson Cardoso.

Grande prémio

Amanhã, dia 26 de Outubro, pelas 17 horas, no Foyer Principal do Cineteatro Avenida de Castelo Branco, a Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal farão a entrega do Grande Prémio da Literatura Biográfica ao nosso confrade A. Campos Matos, galardoado pelo seu livro “Eça de Queiroz – Uma Biografia”.

Brindar com Porto

Não, não quero brindar com:

Vitor Constâncio, que não fiscalizou o BPN como devia, e já lá vai; Merkel e Sarkozy, porque a Europa não é deles.

Gostaria de beber um Porto com:

Rui Vilar, porque para que a cultura fique é necessário que se renove; Nelson Mandela, pela lucidez de uma vida; Bardem, pelo seu empenho pela causa dos saarauís.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 38 – Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

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domingo, 25 de setembro de 2011

Eça & Outras

Foi você que pediu regiões autónomas?

Na Europa das pátrias (e em outras latitudes) percebe-se que existam regiões autónomas. A Suíça pode servir de exemplo: formada por povos de origens étnicas diferentes, com línguas diferentes, distribuídos pelas várias encostas das mesmas montanhas, para defenderem o seu território (a montanha que os protegia contra os invasores) puseram de parte a ideia paroquial de soberania e uniram-se numa confederação de povos/culturas/línguas, que tem resistido ao tempo, é soberana, não se mete com os outros povos, não quer conquistar ninguém, tem um bom nível de vida e até acolhe migrantes, embora lhes ensine logo à entrada que quem manda na Suíça não é o internacional porreirismo.
Já mais dificuldades teremos em entender a sobrevivência doutras “regiões autónomas”, às vezes até com o estatuto de estados, como é o caso do Mónaco (Grand Casino), da República de S. Marino, do Vaticano (que tem guarda suíça!), do Principado de Andorra, do Liechtenstein e de alguns reinos-ilhas das Caraíbas e do Pacífico. “Toda a gente” sabe o que aconteceu à base americana de Pearl Harbour no Havai durante a 2.ª Grande Guerra, mas muito poucos saberão onde realmente fica o Havai e como é que os americanos lá foram parar, ou seja, como é que aniquilaram os havaianos e os seus representantes para lá instalarem a sua base. Procurem saber os antecedentes desta história (sem ser pela “história oficial”, evidentemente) e vão ver que a justificação não será edificante. Mas o Havai desde 1900 que é governado pelos estadunidenses e não pelos havaianos (a não ser os que decidiram tornar-se “americanos”) contra o parecer dos japoneses que, aliás, existiam em grande quantidade no arquipélago. E, já agora, também muitos portugueses!
Aqui ao lado, em Espanha, as regiões autónomas estão em guerra permanente (por enquanto apenas política, económica e cultural e, oxalá, se mantenha sempre nestes limites) com o governo central que, além do mais, tem ainda uns antigos territórios coloniais encravados no reino de Marrocos (alguns deles já foram de Portugal, como é o caso de Ceuta, conquistada aos marroquinos em 1415), e as Canárias, onde se dizimaram os guanches. Isto para dizer que nem tudo no mundo é igual, existem razões diferentes para aqui e para acolá, as de há dois mil anos são diferentes das da semana passada e, como escreveu Camões «todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades». Ou seja, por isto e por aquilo, mas sempre por variadas razões históricas antigas e atuais, existem países gigantes, como a China e o Brasil, e países minúsculos, como o Nepal, existem confederações de países e existem estados federados e também comunidades de países por línguas faladas (a CPLP, a Commonwealth) e outros interesses geoestratégicos, nem sempre confessados. E a CE e a ONU.
E existem as regiões autónomas, aqui, ali, ou acolá, por isto, por aquilo ou por aquela outra razão que a História nem sempre conhece ou reconhece, ou simplesmente regista. Na maior parte dos casos trata-se de regiões, ilhas ou arquipélagos onde existe em maioria um povo com uma origem étnica bem demarcada, às vezes com língua ou dialeto próprio, com alguns aspetos culturais bem determinados e que quer ter nas suas mãos o seu próprio destino, independentemente de estar agrupado, filiado, confederado ou outra situação qualquer, numa comunidade maior, ou seja, numa nação.
Ora essa autonomia tem de começar por ser económica, pois de outro modo, ou a tal “região autónoma” parasita a comunidade nacional, com o repúdio e rejeição mais ou menos declarada dos restantes cidadãos, ou se transforma num protetorado estrangeiro, e toda a sua “autonomia”, além de parasitária torna-se ridícula. Creio não haver muito mais pontos de vista sobre este assunto. É a mesma coisa que ter em casa um filho gastador ou esbanjador e que ainda se permite dizer ao pai e à mãe como devem gerir a família. Pelo contrário, todos os pais terão orgulho em filhos sensatos, trabalhadores, com bom nome na praça, apontados como exemplos, e a quem nunca regatearão qualquer “autonomia” pois, desejando que a tenham, sabem que ela será sempre afetuosa e solidária.
No primeiro caso, quem é que quererá ter um filho trapaceiro no Conselho de Família? E para quê? Para lhe dar mau nome e a sua irresponsabilidade ter de ser aturada? No segundo caso os filhos são sempre bem vindos porque sabem ser desejados e não aborrecidos.
Tudo isto a propósito de regiões autónomas, que nunca ninguém perguntou aos portugueses se as queriam ter em Portugal e se queriam pagar as fantasias da sua existência. Partindo do princípio que os madeirenses e os açorianos querem ser “autónomos”, alguém se esqueceu de perguntar aos minhotos, aos transmontanos, aos alentejanos, etc, etc, se querem pagar aquelas autonomias que, a estes últimos, não lhes servem para nada, a não ser para aumentar o deficit. Um dos princípios das nacionalidades é a solidariedade entre as regiões a qual tem de ser equitativa e recíproca.
Ora não é o caso. Sem irmos mais longe, as regiões autónomas têm atualmente leis feitas por si contrárias ao espírito da nação, como é o caso da eleição dos seus presidentes, que podem sê-lo até morrerem centenários e xexés , enquanto que o presidente da Republica só pode fazer dois mandatos seguidos ,ainda que no auge das suas capacidades. Há aqui qualquer coisa de perverso que não dignifica nem a Democracia nem Portugal.
Como escreveu um dia Eça de Queirós, «a intriga política alastra-se sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padres nossos maquinais. Não é uma existência, é uma expiação. E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências: Diz-se por toda a parte: «o País está perdido!». Ninguém se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Atesta-se conversando e jogando o voltarete, que de Norte a Sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado e pede-se conhaque! Assim todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!» (Uma Campanha Alegre). Teremos de ser mesmo assim? Foi você que pediu regiões autónomas? E sabe para que servem a Portugal?

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor

Colecção egípcia em Portugal

Luís Manuel de Araújo
No passado dia 22 de Setembro, aquando da abertura ao público da coleção egípcia do Museu de História Natural Universidade do Porto no edifício da Reitoria na Praça Gomes Teixeira, o nosso Confrade, vice-presidente da direção e diretor da Revista de Portugal, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, proferiu uma conferência sobre “Colecções Egípcias em Portugal”, entre as quais a do Solar Condes de Resende, que no ranking das 35 existentes se encontra em sétimo lugar e que está em exposição permanente na loja do Solar.




Homenagem a Manuel Lopes

A Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, acaba de publicar em fac-simile o “Notícias da Lancha” 1991-1992, o modesto «órgão informativo da construção da lancha poveira do alto» que este grande poveiro editou para coligir as notícias, as gravuras, as fotografias, os documentos sobre essa notável decisão de construir de raiz o tradicional barco de mar, que ia a caminho de desaparecer, e pô-lo a navegar.
Comemorando os 20 anos da lancha “Fé em Deus”, e pela mão do Dr. Manuel Costa diretor da Biblioteca Rocha Peixoto que organizou esta publicação, ela fica assim salvaguardada da precariedade da sua 1.ª edição, e cremos bem que não poderia haver melhor homenagem aos poveiros e àquele nosso Confrade falecido a 14 de Agosto de 2006 e que deixou obra que os seus amigos e admiradores fazem assim varar com sucesso no areal da nossa memória coletiva. Ala Arriba!

Curso livre
“Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época”


Em 2008/2009 a Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ) em colaboração com a Gaianima EEM organizou no Solar Condes de Resende a 1.ª edição deste curso que teve como professores Isabel Pires de Lima, J. A. Gonçalves Guimarães, Arie Pos, Luís Manuel de Araújo, Mário Vieira de Carvalho, Maria Teresa Lopes da Silva, Norberto Barroca, José Manuel Tedim, Nuno Resende e Carlos Fiolhais.
Nesta segunda edição, diferente da primeira pelos temas, perspetivas e abordagens baseadas nos mais recentes estudos e teses académicas, teremos como professores, entre outros, José Manuel Tedim, Luís Manuel de Araújo, J. A. Gonçalves Guimarães, Anabela Mimoso, José Maia Marques, Nuno Resende, Jaime Milheiro e Fernando Coimbra.
O curso terá início no sábado dia 29 de Outubro, e decorrerá ao ritmo de duas sessões por mês, entre as 15 e as 17 horas.
Orientado para todo o tipo de público, interessa sobretudo a estudantes de Língua e Cultura Portuguesa, de História da Cultura e das Mentalidades e, de um modo geral, a todos os interessados na vida e obra de Eça de Queirós e na História de Portugal e do Mundo na 2.ª metade do século XIX e das suas consequências até aos dias de hoje.
E, além do mais, é uma excelente oportunidade de convívio num espaço excepcional com queirosianos de todas as idades. Gente simpática é outra coisa.
A todos os inscritos, para além de bibliografia adequada da autoria dos professores, será entregue um certificado de frequência.

Confraria O Rabelo

Silva Fernandes e Fátima Teixeira
No passado dia 3 de Setembro no Capítulo da Confraria O Rabelo em S. João da Pesqueira, foi insigniada como confrade daquela Confraria duriense Maria de Fátima Teixeira da Confraria Queirosiana, num conjunto de 20 senhoras que ao Douro têm dado uma boa parte do seu trabalho e afeto.
No ocasião foi também lançado uma publicação com um estudo sobre a Gastronomia histórica do Douro. O ato foi conduzido por Silva Fernandes como Mestre Capitular. Estiveram presentes, para além de numerosas confrarias entre as quais uma delegação da Queirosiana, Madalena Carrito da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas.

ÓRFÃO INFINITO

Tendo, como é habitual, nascido de uns pais
Como os de outros milhões de seres, normais
Deu-se-me no entanto esta orfandade
Que suspeito se mantenha por toda a eternidade
Seja lá isso o que seja, seja lá isso o que for
Pelo relógio de Cronos ou de outro clássico estupor
E é este mal estar permanente, este sentimento infeliz
Que eu não criei, não desejo e não quis
Que me impede que simplesmente vegete
E em vez de defecar no monte vá à retrete
E que em vez de refocilar na vida sem pecado
Se insistir no prazer vou precisar de advogado
Neste mundo, neste eterno infantário
Cada um cumpre um distinto fadário
E aquilo que para mim é bom e natural
É visto pela minha vizinha como fonte do mal
A minha orfandade não é pois igual à dela
Eu p’ra vida preciso de porta, ela de janela
E o que lhe importa a minha solidão
Se ela prefere na lotaria um milhão!?
Não sei se estou a ser correto e justo
Mas a esta filosofia tola preferia-lhe o busto
Para o contemplar de lado e de frente
Sabendo que a tal ato o cosmos fica indiferente
E mesmo que o sistema solar acabe
Creio bem que não acabará esta orfandade.

Fradique Rua Mendes, 2011
(bisneto de Fradique Mendes)

Workshop de Tango Argentino

Nos próximos dias 15 e 16 de Novembro decorrerá no Solar Condes de Resende um workshop de Tanto Argentino para iniciados dirigido pelos professores Inês Tabajara e Carlos Cabral.

Brindar com Porto

Apetecia-me beber um Porto com o meu confrade (da confraria do Vinho do Porto) Rei Alberto II da Bélgica, por estar a governar um país sem governo há mais de um ano e não se estar a dar nada mal com essa ausência; Cesária Évora, a Senhora da canção crioula; José Niza, o melodista do depois do adeus.

Não, não quero brindar com:

Alberto João Jardim, porque basta!; José Eduardo dos Santos, por «ter escolhido o sucessor».

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 37 – Domingo, 25 de Setembro de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blogspot.com; eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página:
J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Eça & Outras

CASTELO DE CRESTUMA:
2.ª CAMPANHA DE ESCAVAÇÕES

Luís Filipe Menezes no Castelo de Crestuma
O morro denominado Castelo de Crestuma teve ocupação defensiva e de vigilância do Rio Douro e da sua travessia nos séculos IV-VIII e X-XI, segundo evidenciam os materiais já exumados quer no alto da colina, quer na praia de Favaios que lhe fica a poente.
Naquele primeiro sector evidenciaram-se numerosos entalhes, cavidades e degraus que correspondem à fixação e encaixe de estruturas de madeira, as quais terão sido abandonadas, destruídas e refeitas várias vezes no mesmo local, apoiadas ou complementadas com estruturas pétreas de granito (que não existe no local) e cobertas por tegulae, pelo menos em alguma das suas fases construtivas, da qual se recolheram 7000 fragmentos em 2010.
Para além de cerâmica de construção, doméstica e de armazenamento este sector revelou ainda a existência de fragmentos de vidro romano e alguma cerâmica de importação.
Na praia de Favaios as sondagens afectadas revelaram a existência de vários níveis sobrepostos de areias correspondentes às variações do zero hidrográfico do Rio Douro e também às variações anuais de cheia com transporte de lamas. Os elementos recolhidos, topográficos, pétreos, arqueológico, todos em maior número, variedade e concentração tipológica do que os obtidos no alto da colina, são sensivelmente dos mesmos períodos cronológicos indicados, sendo mais evidentes alguns materiais cerâmicos provenientes do Norte de África e da Fócia (atual Turquia). Tudo isto nos faz crer que estamos perante uma estrutura portuária onde chegavam materiais longínquos para troca comercial com produtos de extração local.
Tem igualmente vindo a ser registada e interpretada como uma estrutura metalúrgica destinada à lavagem de areias ou de nódulos de minerais, uma grande levada cavada na pedra com orifícios e entalhes semelhantes aos existentes por toda a colina do castelo, o que explicaria a ocupação do sítio e o seu relacionamento com um comércio expressivo vindo de tão longe.
A presente campanha, que está a decorrer durante o mês de Agosto patrocinada pelas Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM, foi organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) e é dirigida pelos arqueólogos J. A. Gonçalves Guimarães, António Manuel Silva e Laura Sousa e tem a colaboração dos arqueólogos Pedro Pereira, Paulo Lima, Paulo Lemos, Fátima Costa e Sílvia Santos e a coordenação logística da patrimonióloga Fátima Teixeira, contando ainda com a participação de mais de uma dezena de estudantes de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Este ano os trabalhos incidem no alargamento da área de implantação de estruturas na área do castelo e a continuação de sondagens na praia de Favaios e têm apresentado abundante espólio das épocas referidas.
Paralelamente foram também feitos ensaios geomagnéticos para deteção de estruturas enterradas na praia, ensaios de georeferência por estação total para obtenção de imagens das estruturas estudadas em 3 D, e recolha de amostras de sedimentos e outros para análises complementares.
O Castelo de Crestuma, um complexo pré-feudal ou pré-senhorial, tem paralelos em toda a Europa tardo-romana das pré-nacionalidades, muitos dos quais têm sido objecto de estudo precisamente na última década. A intervenção nesta estação, nesta primeira fase, deverá continuar até 2013.
Os trabalhos foram visitados no dia 18 de Agosto por Luís Filipe Menezes, o diretor do Parque Biológico de Gaia, Nuno Oliveira, o presidente da Junta de Freguesia de Crestuma, José Fernando Ferreira, e outros convidados, que percorreram demoradamente as áreas de escavação tendo-se inteirado dos pormenores das descobertas. O presidente da autarquia gaiense e confrade queirosiano declarou aos jornalistas presentes a importância destes estudos num contexto europeu de valorização dos sítios numa perspetiva do Turismo Cultural que se pretende para toda a região do Porto e Vale do Douro.
Os trabalhos têm igualmente sido visitados por arqueólogos e professores universitários portugueses e franceses.

QUEIROSIANO NO CONSELHO DE ESTADO

Luís Filipe Menezes, confrade de honra da Confraria Queirosiana, foi recentemente eleito para o Conselho de Estado. Como referiu no discurso que proferiu no capítulo da sua insigniação na Confraria em 2003 no Solar Condes de Resende, durante os tempos em que estudou medicina em Paris, tinha por itinerário quotidiano as avenidas e ruas por onde igualmente Eça de Queiros circulou, passando à porta da casa onde o escritor viveu, e essa lembrança ajudou-o a mitigar as saudades da pátria e a refletir sobre o seu devir, como Eça também fez e deixou escrito. Podemos pois concluir que o Conselho de Estado passou a ter alguém para quem o escritor é uma referência.

J. RENTES DE CARVALHO EM MACAU

Nos últimos tempos J. Rentes de Carvalho continua nos media, quer a propósito do seu último livro “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”, presente em tudo quanto é livraria, quer a propósito do conjunto da sua obra editada em português. Agora foi a vez do jornal de Macau “Ponto Final” lhe consagrar o seu suplemento Parágrafo com uma notável entrevista de Isabel Castro, publicado no passado dia 29 de Julho, onde o escritor, mais uma vez lembra: «Li “A Relíquia” aos 14 anos e foi um assombro, o senhor Eça de Queiroz continua número 1 na minha lista».



A. CAMPOS MATOS NO BRASIL

A Editora Movimento, de Porto Alegre, Brasil, com a colaboração do Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro, acaba de editar o livro “Silêncios, sombras e ocultações em Eça de Queiroz” de A. Campos Matos, uma coletânea de ensaios e crónicas sobre os mais variados aspetos da exegese queirosiana, alguns revisitados com profunda acuidade e outros perfeita novidade de um mundo que não para de nos surpreender, assim tenhamos oportunidade para nele entrar. É o que encontramos na parte I – Temas Queirosianos. Na parte II – Outros Temas, o autor deambula entre Camilo Pessanha, António Sérgio, Cruzio Malaparte, Camilo Castelo Branco e outros escritores, não necessariamente por esta ordem. Uma das suas crónicas merece-me um particular comentário: efectivamente também “Estes dias tumultuosos” de Pierre Van Paassen foi um dos livros que me marcaram, um livro que jamais esqueci e de que guardo na minha biblioteca um exemplar que escapou numa bacia de roupa lavada que ía para o estendal aquando uma rusga da PIDE a casa da mãe de um amigo de infância. Um livro que jamais esqueci e que deveria hoje ser relido e meditado antes da próxima guerra mundial.
Entre muitas outras coisas boas neste outro livro de A. Campos Matos (para além do nosso Eça e de todos os outros) esta é, com certeza, uma lembrança maior deste escritor em que o tempo e o espaço fazem todo o sentido, ou não fosse ele um arquitecto de memórias lusófonas, e este livro um grande abraço entre Portugal e o Brasil.

ATIVIDADES NO SOLAR

Para além da sua Feira de Troca de livros e objetos culturais no primeiro domingo de cada mês, a partir do próximo Outubro o Solar retomará as suas actividades regulares para variados públicos. Assim, para além do programa “Venha cultivar a sua horta” serão retomados o curso livre sobre Pintura e Expressão Plástica, entretanto reformulado, bem assim como o curso de Danças de Salão, numa parceria entre a Confraria Queirosiana e a Gaianima, EEM.
Para além destas realizações e do curso livre sobre Eça de Queirós, a que damos destaque noutro local, o Solar continua com visitas guiadas à sua área musealizada e ao Jardim das Camélias, onde se encontra a estátua de Eça de Queirós de Hélder de Carvalho, e também a acolher as mais diversas iniciativas culturais, para além da sua produção cultural no âmbito da Historia, Historia da Arte e da Literatura, Arqueologia, Antropologia Cultural e Património. Na sua loja podem ainda ser adquiridas obras recentes que em breve estarão disponíveis para venda on line!
Os visitantes e os frequentadores habituais da sua biblioteca podem também tomar refeições ligeiras no seu bar e entrar em contato com queirosianos em todo o mundo.

CURSO LIVRE SOBRE EÇA DE QUEIRÓS

A partir do próximo mês de Outubro, duas tardes de sábado por mês entre as 15 e as 17 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende o curso livre sobre “Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época”, numa segunda edição completamente diferente da primeira, que decorreu em 2008/2009, com novos temas e novas abordagens, com especial interesse para estudantes de História e de Literatura, professores, investigadores e todo o público em geral que queira ouvir falar sobre um dos maiores escritores portugueses da segunda metade do século XIX e a sua época, afinal tão parecida com a que Portugal, a Europa e o Mundo atualmente vivem. Serão professores Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Gonçalves Guimarães, Anabela Mimoso, Maia Marques, Nuno Resende, Ana Margarida Dinis e outros especialistas da Academia Queirosiana.

A NAMORADA DE EÇA

A revista “Islenha”, que se publica na Madeira sob a direção de Marcelino de Castro, no seu último número (48; Janeiro-Junho de 2011), para além de artigos de A. Campos Matos e de outros autores sobre a pintora Martha Telles, apresenta um interessantíssimo estudo de Doroteia Pita sobre «Anna Conover (1849-1923): singularidades de uma mulher apaixonada», nada mais nada menos do que novas revelações biográficas sobre uma das namoradas americanas de Eça de Queirós que este conheceu em Havana em 1873 e que afinal veio a ser diretora do Olimpia Theatre, em Londres, onde investiu toda a sua fortuna.
A autora promete para breve novas revelações sobre Anna e Eça….

CARICATURA DE EÇA

A Confraria Queirosiana foi brindada pelo Eng.º José Miguel Leal da Silva com uma caricatura de Eça de Queirós em barro da autoria do artesão Jorge Mateus, da sua “Colecção Escritores Portugueses”. A peça tem efetivamente uma notável expressão caricatural do autor de Os Maias e veio assim enriquecer o nosso acervo de imagética queirosiana.
O ofertante publicou recentemente a sua obra “Volfro! Esboço de uma teoria geral do “rush” mineiro. O caso de Arouca”, editado pela Associação de Defesa do Património Arouquense, 2011, a sua tese de Mestrado em Antropologia Cultural, a qual foi lançada em Lisboa e também no passado dia 13 de Agosto em Arouca. É ainda autor de várias obras sobre a CUF – cujo arquivo salvou de estúpida destruição – e sobre a Industria Portuguesa em geral, preparando para breve a edição de novos títulos.

EÇA PARA A INFÂNCIA

Sob o título “Eça de Queirós”, na coleção Nomes com História da editora Zero a Oito, com texto de Ana Oom e ilustrações de Raquel Santos e com a revisão técnica da Associação de Professores de História, e já editado em 2008, apanhamos no mercado este albunzinho para crianças, onde Eça aparece numa galeria onde constam as breves biografias de, entre outros, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. Nuno Alvares Pereira, Infante D. Henrique, Fernão de Magalhães, Luís de Camões, o escusado D. Sebastião, Marquês de Pombal e D. Carlos. O texto é agradável e as ilustrações excelentes. Mas eram desnecessárias algumas “imprecisões” que os biógrafos e o bom senso já não abonam: assim, dificilmente o criado Joaquim teria caçado tigres em África e a avó paterna de Eça era analfabeta (p. 9); Na realidade não sabemos se o escritor foi aluno interno, semi-interno ou externo do Colégio da Lapa; a tia morava perto e os colegas condes de Resende também; chegar do Rio Douro àquele colégio em 20 minutos, suponho que nem o maratonista Carlos Lopes (p.10); com que então as Conferências do Casino foram aproveitadas «para atacar o Estado e a religião católica»?! Isso foi o que disseram os tacanhos da época, não é o que a História nos ensina! (p. 25); Emília não foi a irmã mais nova dos condes; o casamento de Eça com Emília foi discreto, não teve «muitos amigos»; Emília escondeu dos filhos que o marido era um grande escritor, por isso viveu à parte da sua produção literária mais incisiva (p. 32); não conhecemos os leitores que «achavam que ele devia abandonar a sua carreira diplomática e regressar a Lisboa» (p. 35); é completamente falsa a ideia de Eça convidar António Nobre para ficar em sua casa (p. 37). Estas e outras questões se poderiam pôr a esta «revisão técnica da Associação de Professores de História»: técnica, seja lá isso o que for, pode ter sido; de professores de História é que não foi. Suponho que às crianças não se deve mentir, nem ensiná-las a fazê-lo e, já agora, talvez dizer-lhes que a procura da realidade em História é mais fantástica do que as fantasias mais bem encadernadas. Eça e as crianças bem o merecem.

PINTURA DE VALENÇA CABRAL

A partir de 13 de Agosto, Valença Cabral expõe os seus mais recentes trabalhos no Museu Municipal de Paços de Ferreira, «imagens encontradas sobre ambientes que a natureza nos apresenta».

BRINDAR COM:

Desta vez vamos brindar com Carlos Reis, porque realmente é preciso perguntar a todos os professores: «sabe ele o seu português?»; Anna Hazare, o indiano que luta contra a corrupção na terceira maior economia da Ásia.

Não, não quero brindar com:
Obama, porque afinal os Estados Unidos da América são como Portugal ou a Grécia no que diz respeito à divida e a sua é incomparavelmente maior; Cameron, por estar de férias e Londres a arder.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 35 – Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blogspot.com; 
eca-e-outras.blogspot.com; 
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; 
inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eça & Outras

O povo na obra de Eça de Queirós


Como todos os pensadores do século XIX, também Eça de Queirós se viu na necessidade de definir o povo, essa entidade social abstrata que emergiu da Revolução Francesa para tomar o poder e que não tem sido fácil de caracterizar: «Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o povo», assim escreveu Eça de Queirós aos 22 anos no Distrito de Évora, mas trata-se obviamente da generosidade de um jovem erudito a inventar um povo ideal, muito distante da realidade, em suma, um povo que não existia, e que nunca existiu.
Os intelectuais oitocentistas, face ao colapso humano, mental e social das classes que tinham detido o poder – os eclesiásticos, a aristocracia e a burguesia – sentiram-se tentados a inventar uma outra classe social que incarnasse os grandes valores éticos e cumprisse o bem estar social, para além de definir as nacionalidades: «o povo é o coração da pátria: a indiferença do povo é a morte da pátria», escreve ainda Eça de Queirós naquele jornal, mas, noutro passo avisa que «o povo, e isto que vagamente se chama o público, leva-se mais pelo entusiasmo do que pelos meios sérios e práticos» (idem). Ou seja, havia o povo e havia o público, duas entidades nem sempre coincidentes, pelo menos na sua abordagem.
O mais fácil era individualizar o povo pelas suas profissões: o camponês, o operário, o caixeiro, o serralheiro, o estivador, o alfaiate, o aguadeiro, o carpinteiro, a criada, etc, etc, eram seguramente povo. Já como entidade colectiva, como “classe” era mais fácil defini-lo pela negativa: o povo não era a aristocracia (os fidalgos e os nobilitados); dele não faziam parte os eclesiásticos, desde o padre cura até ao papa na Igreja Católica, que nas confissões protestantes a questão é outra; do povo não faziam parte os burgueses, os proprietários não nobres nem eclesiásticos, os detentores do capital ou de bens para o realizar, quer fossem fundiários, industriais, do comércio, da banca, dos transportes ou doutros serviços que começavam a nascer.
Entre o povo e os seguramente “não povo” havia então umas franjas de sobreposição, a que se virá comodamente a chamar pequena burguesia, pequenos grupos indefinidos à procura de um melhor lugar na escala social: os bacharéis por Coimbra e pelas Politécnicas (médicos, advogados, engenheiros), magistrados, militares, professores, funcionários públicos, leigos de instituições religiosas, feitores de propriedades, empreiteiros, etc, etc..É nestes grupos sociais que Eça de Queirós colherá o maior número de caracteres para as suas personagens, que transforma em verdadeiros tipos sociais que os memorialistas quererão, à viva força, fazer corresponder a personalidades que existiram mesmo, o que é uma tontice. São modelos, senhores, não são biografados!
No século XIX, povo, eram os que ganhavam à jorna, os assalariados, os soldados, os marinheiros da decadente marinha mercante e de cabotagem e também os da bazófia da marinha de guerra, os pescadores, os trabalhadores sazonais, tendo em conta que grande parte do país era rural de sobrevivência, afora duas ou três culturas intensivas (vinho, cereais, gado); pouquíssimas indústrias (madeiras, cerâmicas, têxteis) e larguíssima percentagem de analfabetos. Grande parte deste proletariado (outra expressão oitocentista) vivia nas vilas e nas poucas cidades. É aí que Eça os vai encontrar no Porto, em Coimbra, em Leiria, em Lisboa, em Évora, em Bristol, em Newcastle, em Paris, por outro lado.
Efectivamente os tipos rurais do povo são poucos na sua obra: uma pastora, alguns caseiros, alguns lavradores; já os rurais deslocados para a cidade são em maior número, nomeadamente as criadas e criados, as governantas, os empregados de hotel, as tendeiras e taberneiros, e pouco mais. Eça não é Camilo. Eça é um escritor urbano que escreveu metáforas sobre o desaparecimento do mundo rural, que o são A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.
Porém, no século XIX, tudo se fazia em nome do povo, ainda que pelos príncipes (o povo constitucionalizado); pelas igrejas (o povo de Deus) pela burguesia (o povo português); pelos intelectuais (o nosso povo). E foi a esse povo, desarmado após a implantação da monarquia constitucional e após a burguesia ter conquistado o poder, que lhe foi oferecida, titubeante e condicionada, uma nova arma: o voto. E, através dele, ainda que com a ajuda das armas, já no século XX, o povo chegou ao poder, em revoluções eufóricas que logo depois redundaram em grandes tragédias humanas, duas Guerras Mundiais e outras avulsas; bombas atómicas; genocídios e fomes. Os grandes dirigentes que a história do século XX, «o século do povo», regista, são todos de extração popular: Estaline, Mussulini, Hitler, Pol Pot, e tantos outros, não eram nem aristocratas, nem religiosos, nem burgueses e em muitos casos alcançaram o poder pelo voto democrático ou com o geral aplauso das multidões. É certo que Eça também escreveu «As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, são maiores ainda. (…).
As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias» (Distrito de Évora, 1867).
Não se encontra pois muito o povo na obra de Eça de Queirós, essa entidade abstracta e mítica que Engels, Marx e outros pensadores oitocentistas criaram com o seu tardo-enciclopedismo para a arrumarem nas gavetas dos fenómenos sociais. O que ali encontramos é sobretudo o homem, talvez ainda que muito darwiniano, oscilando entre a banalidade das existências quotidianas e uma inevitável crença no futuro.
Quanto ao mais, ainda estamos como no tempo de Eça: «Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar… e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam “a parceria”, que recebem e que governam». (A Ilustre Casa de Ramires). Acertem, faz favor, os seis milhões para sete e os trinta para três mil. É que entretanto, desde que Eça morreu, o número de governantes aumentou. Quanto ao povo, hoje tem televisão e internet, as grandes invenções que estão a levar a democracia a todos os cantos do mundo, a primeira curiosamente inventada por um gaiense de adopção, o físico Adriano de Paiva, contemporâneo de Eça de Queirós, que também profetizou generosamente: «Então, por toda a parte à superfície da terra, se cruzarão fios condutores, encarregados de importantíssima missão… testemunharão por sem dúvida o grau de civilização do grande organismo que se chama – a humanidade» (La Télescopie élèctrique… 1878, p. 23).
Não é isso que temos visto nos noticiários. O povo hoje tem outras preocupações e não sei que “classe” o possa substituir neste seu falhanço.

(Texto apresentado no colóquio com o mesmo título que decorreu no Solar Condes de Resende)

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Festival de Folclore

Decorrerá nos próximos dias 30 e 31 de Julho no Solar Condes de Resende o “Festival de Tradições de Terras Queirosianas”, organizado pelo Rancho Folclórico de Canelas, com o apoio da Confraria Queirosiana, o qual foi antecedido por um colóquio no dia 22 de Julho sob o tema “O povo na obra de Eça de Queirós”, em que foram palestrantes J. A. Gonçalves Guimarães, que falou sobre o conceito de povo na obra do escritor, e Nuno Resende que apresentou aspectos de Fraião, a aldeia da “naturalidade” do Padre Amaro.
No festival actuarão grupos etnográficos da Póvoa de Varzim, Évora, Sintra, Coimbra, Aveiro, Baião, Gaia, Leiria, Porto e o Grupo Mahtab de danças egípcias tradicionais.


Livros para o seu Verão

Nos últimos tempos os confrades queirosianos têm publicado vários livros, alguns dos quais só agora nos chegam à mão e que passamos a apresentar. Em todo o caso óptimas leituras de Verão com várias incidências, todos eles a reter e a debater:

Da autoria de Alda Barata Salgueiro chega-nos esta monografia de “Vilar dos Condes. A terra e a sua gente”, situada na Zona do Pinhal da Beira Interior, do concelho de Oleiros. Nesta obra, com prefácio de Luís Manuel de Araújo, a autora, para além dos aspectos geográficos, etnográficos e históricos da sua terra, dá particular relevo ao património humano, às gentes que habitam o lugar e seus antepassados, com memórias de famílias locais que se perpetuam em filhos e netos que, tal como a autora, voltaram ao rincão natal para lhe perpetuar a existência nos século que hão-de vir.




Nuno Gomes Oliveira, o diretor do Parque Biológico de Gaia, que tem dado à estampa uma já numerosa bibliografia sobre a protecção do ambiente, apresenta-nos agora “José Bonifácio de Andrada e Silva o primeiro ecologista de Portugal e do Brasil, com uma recensão da “Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal (1815)”, com prefácio de Marco António Costa, ex-vice presidente da Câmara Municipal de Gaia.
Começando por nos dizer que «este não é um livro de história, mas um livro que conta uma história, a história de vida de um homem invulgar com uma obra notável», e não podendo deixar de se referir à biografia deste professor da Universidade de Coimbra, fundador do seu Batalhão Académico contra os franceses em 1809, Intendente da Polícia do Porto e superintendente da sua Alfandega e Marinha, a seguir à retirada dos invasores, nesta obra é sobretudo o cientista prestigiado na Europa do seu tempo, o naturalista que estudou novas espécies geológicas e as potencialidades mineiras de Portugal e que elaborou e dirigiu projectos para a reflorestação das dunas e das serras portuguesas, antes de regressar ao seu Brasil a transformar-se no esteio da nova nação que se afirmava.
Muitas das preocupações com a conservação da natureza que já então revelava, só nos dias de hoje estão a ser implementadas, o que mostra a sua inteligência e o seu caráter precursor da moderna Ecologia, sendo por isso verdadeiramente fascinante a revisitação desta biografia do “Patriarca da Independência do Brasil”.


Então lá para o dia 5 de Agosto as montras e escaparates das livrarias deste país exibirão com capa cor de framboesa “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, o mais recente inédito de José Rentes de Carvalho, sobre o desconcertante mundo feminino, aqui abordado de uma forma com que o autor de Ernestina e de A Amante Holandesa faz questão de nos voltar a surpreender, nesta sociedade em que a mulher ocupa um lugar cada vez mais proeminente e os homens morrem sempre mais cedo do que elas. Não é um livro cor-de-rosa, mas entre o vermelho e o negro.



Com particular incidência no Turismo, na Cultura e na Regionalização será lançado no final do mês de Julho o livro de Mário Dorminsky intitulado “País em Brasa”, com prefácio de Luís Filipe Menezes, um retrato pessoal sobre o nosso país com particular incidência naquelas áreas. A obra recolhe as crónicas que o director do Fantasporto e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Gaia foi publicando no jornal Grande Porto nos dois últimos anos, afirmando na introdução que poderemos «começar a ver a tal “luz ao fundo do túnel”» em breve. Que Deus o oiça, perdão, o leia, e que faça por isso.

Mário Cláudio

No passado dia 22 de Julho em Paredes de Coura, foi apresentada a biografia de Tiago Veiga, bisneto de Camilo e poeta modernista, da autoria de Mário Cláudio, um volume com 800 páginas.

Notícias recentes de confrades

Após cinco anos como reitor da Universidade Aberta, por sua decisão, Carlos Reis regressou à Universidade de Coimbra; no passado dia 22 de Julho, Mário Vieira de Carvalho, musicólogo da Universidade Nova de Lisboa veio a Gaia falar de Wagner em Portugal no Auditório Municipal; Charters de Azevedo prepara a edição do seu livro “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791” que será lançado em meados de Setembro.

Tomar um Porto com:

Desta vez permitam-me que brinde à memória de Salvador Caetano, o grande industrial gaiense, e também com Rui Tavares, pelo seu texto “O Milagre do Lixo” e outras clarividências; com Pedro Dias, o novo director da Biblioteca Nacional; Ana Raquel Guerra, porque vale mais tarde do que nunca; Carlos Reis, porque não há ensino sem exigência; Elvio Passos, pelo que teve de aturar no exercício da sua profissão; Helmut Kohl por dizer à chanceler alemã que ela está a destruir a Europa.

Não, não quero brindar com:

Rupert Murdoch, que desejo que fique sem telemóvel; os clubes de futebol portugueses que «gastaram pelo menos 40 milhões de euros em contratações» e não foi de historiadores, nem de cientistas nem de agricultores; apenas de habilidosos pontapeadores de bola; já nos chegavam os inúteis estádios de futebol do Euro 2004.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 34 – Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
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