sábado, 25 de setembro de 2010

Eça & Outras

O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

Decorrem no presente ano de 2010, por imperativo do calendário e decisão política, as evocações do centenário da República, ocasião excelente para Portugal inteiro reflectir sobre o que se passou há cem anos, o regime que vigorou entre 1910 e 1926, o que se impôs até 1974, e finalmente o que temos tido desde aquela data até pouco depois de amanhã.

Não é possível inverter a marcha da História e muito menos julgar o passado ou aqueles que o fizeram ou viveram; mas é possível sobre tal fazer uma reflexão sem muitos preconceitos ideológicos, tentando saber mais sobre os acontecimentos, tanto quanto o exercício histórico o permite, sabendo-se de antemão que qualquer juízo sobre qualquer pessoa, sociedade ou regime político é sempre parcial, oscilando entre a glorificação e o denegrir, quando a vida não é a preto e branco.

Não sendo de todo possível a isenção ideológica completamente asséptica, mesmo assim, como historiador, entendi dar o meu pequeno contributo para esta reflexão no livro “Republicanos, monárquicos e outros: as vereações gaienses durante a 1.ª República (1910 – 1926)”, que a Confraria Queirosiana decidiu editar e por à disposição do publico ledor. Não me competindo a análise das suas eventuais qualidades e possíveis defeitos, direi que comecei por reanalisar o que Eça de Queirós pensava sobre a República, depois recordar o que têm sido as repúblicas, monarquias e outros regimes políticos ao longo dos tempos nas diversas latitudes, regressando em seguida a Vila Nova de Gaia, como caso em análise, e recordar o que foi a sua administração antes e depois de 5 de Outubro de 1910, geralmente muito pouco conhecida neste município monárquico, republicano, socialista e anarquista (estas últimas correntes como a terceira via que não vingou), descrevendo as vereações entre 1910 e 1926, formadas por homens concretos, entre os quais encontramos sábios como Maximiano Lemos, além de médicos, industriais, comerciantes e escritores hoje pouco lembrados, e outros nomes que se esfumaram no olvido da História, que também o pratica, e nem sempre justo.

Tudo isto enquadrado nos factos mais relevantes da época, a nível mundial, europeu e nacional, como a I Grande Guerra e a 1.ª Travessia Aérea Lisboa–Rio de Janeiro. O livro termina com uma síntese sobre o que ficou daqueles desgraçados tempos, pois a 1.ª República foi um monumental falhanço da classe média, absolutamente incapaz para dirigir com sucesso os destinos do país e não há como negá-lo ou escondê-lo. O facto de ter tido a servi-la homens e mulheres inteligentes, generosos e com visão de futuro, não invalida que muitos deles tivessem sido ingénuos, ou se tivessem deixado engolir pelos interesses em presença, ou se bandeassem com as correntes políticas dominantes, o que, só por si, não transformou a quimera política em bem estar social. Eça de Queirós escreveu em 1898 que «a única obra urgente do mundo – a casa para todos, o pão para todos» não tinha até então sido realizada quer pelas monarquias quer pelas repúblicas e tal continua a ser desgraçadamente verdade. O bem, ou o mal, não estará pois nos regimes políticos.

Nos últimos tempos temos assistido à publicação de muitos livros e textos sobre a 1.ª Republica, alguns ainda, estranhamente, sob a forma de Vivas! e Morras! o que é, no mínimo, absurdo. A maior parte deles volta a reescrever a história oficial já conhecida. Poucos são os que falam com desenvoltura e isenção sobre os assaltos às mercearias pelos que morriam de fome, os que açambarcavam bens alimentares e faziam candongas, negociatas e cambalachos em nome do “povo e dos interesses da Pátria”, os que fugiram ou se esconderam para não serem mobilizados para uma guerra entre ingleses, franceses e alemães em luta pela supremacia na Europa e no mundo, os que tiveram morte lenta e inglória nas colónias portuguesas de África, os perseguidos e agredidos por questões ideológicas ou confessionais, os que minaram as instituições públicas em detrimento dos interesses de seita ou corporação, os espoliados pelo “interesse público”, os que enriqueceram com a República enquanto o país se miseriabilizava a todos os níveis. Ainda não será neste centenário que se fará a História da 1.ª República, até porque são os netos e os bisnetos dos que a fizeram que estão hoje no poder. E família… é família. Mas podemos ir tentando aclarar as questões que estão por esclarecer.

Este livro é apenas uma pequena abordagem, que pretende ser concreta e factual, sobre os homens que no município de Vila Nova de Gaia estiveram à frente dos destinos colectivos num dado momento histórico. Conhecê-los, saber quem realmente eles eram, ajudará a compreender o que ficou e o que não ficou para o futuro que é hoje o nosso quotidiano.

É literariamente interessante o dito de que a República se espalhou pelo país através do telégrafo; mas convém que procuremos saber quem eram os telegrafistas em cada estação. Para não se repetir sempre a mesma coisa até ao próximo centenário.

Desculpem esta auto-apresentação de um livro que eu próprio escrevi. Podia ter pedido a um amigo para o fazer, mas prefiro antes que o comentem e critiquem depois de o lerem.

Eça de Queirós tinha sérias reservas sobre a República. Infelizmente, e como quase sempre, a História confirmou as suas preocupações.
J. A. Gonçalves Guimarães
historiador
SALON D’AUTOMNE 2010

Hoje, pelas 17,30 horas decorrerá no Solar Condes de Resende a abertura da 5.ª edição do Salon d’Automne queirosiano 2010 o qual reúne obras de artistas profissionais e amadores que são sócios dos ASCR – Confraria Queirosiana, nomeadamente Alexandre Rufo, Amélia Traça, António Pinto, António Rua, Ariosto Madureira, Carolina Calheiros Lobo, Fernando Coimbra, Glória Nunes, Ilda Gomes, Rosalina Pinto, Rosário Sousa, Rui Soares, Simões Duarte e Valença Cabral, alguns dos quais expõem pela primeira vez e outros são já consagrados, mostrando estes assim um gesto de camaradagem para com os
praticantes iniciados e amadores, alguns dos quais alunos do curso livre de Pintura do Solar.

Depois da inauguração decorrerá no Solar um jantar de confraternização entre os artistas participantes. Como habitualmente, foi editado um artístico catálogo organizado por Fátima Teixeira, com o patrocínio da Gaianima e prefácio de Mário Dorminsky, vereador da Cultura da Câmara de Gaia.

SOCIEDADE EÇA DE QUEIRÓS DO RIO DE JANEIRO

Pela mão amiga e sempre presente de Dagoberto Carvalho J.or chegou-nos do “lado di lá” a brochura de Luiz de Castro Souza intitulada “Evolução da Sociedade Eça de Queiroz: 1997-2009” recentemente editada e que descreve a vida e actividade desta sociedade irmã, que realiza encontros mensais na Sala Miami do Hotel Flórida no Rio de Janeiro, e que sucedeu a um efémero Clube do Eça fundado em 1955.

Nestes encontros, após o almoço de confraternização, é sempre proferida uma palestra sobre um tema eciano, nomeadamente a evocação do escritor no país irmão e os estudos aí realizados sobre a biografia de amigos de Eça e o apreço pelas suas obras. A própria Sociedade edita estas palestras e possui uma notável galeria de retratos e caricaturas do nosso patrono comum.

A Confraria Queirosiana, que tem como propósito estatutário manter ligação com todas as sociedades queirosianas existentes no mundo, já iniciou os seus contactos com a Sociedade Eça de Queiroz do Rio de Janeiro.

MÚMIAS EGÍPCIAS

As três múmias egípcias da colecção do Museu Nacional de Arqueologia estão a estudadas ser pela primeira vez por uma equipa pluridisciplinar que reúne vários especialistas, entre eles Luís Raposo, Carlos Prates, Álvaro Figueiredo e Luís Manuel de Araújo, este último egiptólogo e vice-presidente da direcção da Confraria Queirosiana.

O Lisbon Mummy Project tem o apoio de Imagens Médicas Associadas (IMI), da Siemens e do Universsity College de Londres, sendo coordenado por Luís Raposo director do Museu Nacional de Arqueologia, o tal museu que querem pôr nos barracões da Cordoaria na margem do Tejo…

Os exames realizados permitirão o estudo integral das três múmias por processos não destrutivos. Entretanto, no passado mês de Agosto, aquele egiptólogo guiou mais uma vez uma admirável visita ao Egipto, desta feita para aos alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. No próximo ano, a convite da Comissão do Centenário da Universidade do Porto, irá publicar o estudo da colecção egípcia desta universidade.
VINHAS E VINHOS EM CONGRESSO
Entre 13 e 16 de Outubro próximo decorrerá em Peso da Régua, Viseu, Mangualde, Porto, Ponte de Lima e Viana do Castelo um 1º Congresso Internacional sobre este tema organizado pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho/GEHVID, o qual contará com a presença de especialistas estrangeiros e nacionais de renome.

A Confraria Queirosiana estará presente através do seu mesário-mor na Comissão Organizadora e com uma comunicação que apresentará em colaboração com Susana Guimarães intitulada “Vinho do Douro na Casa dos Condes de Resende”. Para além das sessões científicas o Congresso visitará alguns dos mais emblemáticos sítios vitivinícolas das regiões dos Vinhos Verdes, Dão e Douro.

EXPO 1940 REVISITADA
Acaba de ser reeditado o romance breve de Mário Claudio “Tocata para dois Clarins” pela D. Quixote, um misto de recriação literária sobre um acontecimento real narrado por quem o viu e viveu, no caso os pais do escritor, decorrendo a acção entre 1936 e 1941, o ano do nascimento do escritor.

A “Exposição do Mundo Português” foi uma gigantesca operação de propaganda do regime de Salazar que marcou durante as décadas de quarenta e cinquenta a Cultura, a Arte, o Cinema, a História, a Literatura e outros aspectos da vida portuguesa assentes sobre os arquétipos de “Deus-Pátria-Família” e do Império Português.

Nesta exposição participaram “todos” os artistas portugueses que António Ferro queria anjos estetas para além da teoria e da ideologia. Mas nem mesmo todas as obras da exposição resistiram ao desmontar da feira: quem se lembrará hoje do gigantesco mural em relevo de Raul Xavier a evocar Aljubarrota? Para que servirão os trajos e adereços de opereta do “cortejo histórico” que jaziam meios podres ainda nos finais dos anos oitenta num barracão da Câmara Municipal de Lisboa e que hoje não sei se lá continuam, mais podres e mais inúteis, por certo.

Sem as peias do historiador e com o muito da sua escrita pessoal, Mário Cláudio leva-nos assim de visita ao maior acontecimento efémero português do século XX.

A MORTE DO BARÃO

Prosseguindo na sua azáfama de trazer do olvido à luz actual algumas figuras, factos e locais de Leiria e da região estremenha, no passado dia 18 de Setembro foi apresentada a obra de Ricardo Charters d’Azevedo, “A Morte do Barão de Porto de Mós” na terra que lhe deu título.

Conselheiro do Tribunal de Contas e político de relevo na época de D. Maria II, viria a ser assassinado em Setembro de 1867 perto da Nazaré.

A apresentação da obra esteve a cargo do Prof. Guilherme de Oliveira Martins, actual presidente do Tribunal de Contas e ele próprio biógrafo de figuras oitocentistas.
PRÉMIO MARIA ALBERTA MENÉRES
Maria Alberta Menéres nasceu em 1930 em Vila Nova de Gaia, tendo-se licenciado em Ciências Histórico Filosóficas. Além de professora, chefiou o departamento de programas infantis e juvenis da RTP e tem inúmeras obras publicadas no âmbito da poesia, da antologia e da literatura infanto-juvenil. É mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

O Município de Gaia, através do pelouro da Cultura da Biblioteca Municipal e da Gaianima, EEM criou um prémio com o seu nome para a modalidade de Conto Ilustrado. O regulamento pode ser visto em www.bmgaia.gaianima.pt.

TOMAR CAFÉ OU NÃO COM…

Sim, gostaria de tomar café com: Manuel Maria Carrilho, se possível em Ervamoira; Nuno Cardoso Santos, pelo seu prémio em Astrofísica; Kurt Westergaard porque o humor é divino e a cólera é satânica; Luís de Matos por ser um verdadeiro mágico; Cesária Évora, a maior fadista crioula.

Não, não quero ir tomar café com Carla Bruni, que não foi eleita por ninguém.
Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 25 – Sábado, 25 de Setembro de 2010
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração: Dagoberto Carvalho J.or.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eça & Outras

Museu do Côa

ao Nelson, com um abraço

«Uma verdadeira história da humanidade seria a história da arte; não se conheceriam os dédalos políticos, as ambições terríveis, as pequenas intrigas de reis e de papas – mas ficar-se-ia sabendo uma coisa superior: a alma das raças, os génios do povo, o espírito passado com as suas crenças, religiões e sentimentos».

Eça de Queirós – Distrito de Évora, 1867


No passado dia 30 de Julho foi inaugurado o Museu do Côa pelo primeiro ministro, ministra da Cultura, ex-ministros, seguranças, directores gerais, ex-directores gerais, autarcas e ex-autarcas, arqueólogos e ex-arqueólogos, funcionários e ex-funcionários, jornalistas, convidados e não convidados, activistas disto e daquilo, pacifistas que se pelam por uma boa inauguração, curiosos, filarmónicos, GNR e povo quanto bastou para encher o auditório e adjacências.

Independentemente do espectáculo, que mereceu nos jornais e televisões muito menor destaque do que as habituais banalidades, tratou-se realmente de um acto de Cultura, seja lá qual for a bancada em que o meu caro leitor esteja sentado a assistir ou a participar na polémica entre os que querem betonar o país e os que se deleitam com outras práticas e saberes. Foz Côa, por agora, libertou-se da banheira de água choca que lhe queriam por à ilharga, mas o país não se livrou ainda dos que a querem construir. À cautela, à cautela, o Museu foi construído a uma cota conveniente para um dia destes eles voltarem a atacar. Trata-se realmente de um edifício feliz e belo, humanamente grandioso, humildemente inserido na paisagem ainda mais grandiosa, forte para guardar a fragilidade da humana memória do passado, mas fraco por albergar um único segmento do património do Vale do Côa – as gravuras do paleolítico – importante sem dúvida, mas não o único que o Vale e a região apresentam. E essa tem sido a maior fragilidade do projecto, a aposta num único produto cultural que o cidadão turista comum, visto uma primeira vez, não volta para ver segunda, para além de poder ficar com erradíssima ideia de que Foz Côa parou no paleolítico e não teve ocupação humana igualmente bela e pujante nos tempos posteriores. Ao promoverem apenas os tempos pré-históricos, sem dúvida aqui importantes e com marcas notáveis, os responsáveis pela intervenção no território não têm valorizado a presença romana, a rota dos castelos medievais, as vilas novas, para já não falarmos dos patrimónios geológicos e biológico e, com todos estes, o património humano que aqui resiste à desertificação desde o século XVI.

Ao criarem uma paisagem-ficção que esqueceu ou mesmo tentou anular as memórias civilizacionais posteriores, os pré-historiadores puseram-se por certo em bicos de pés, mas como é sabido, ninguém se aguenta muito tempo nesta posição. E esta é a maior fragilidade que o projecto tem tido. O turismo vive da diversidade e não do produto único, por mais interessante que ele seja.

O Museu do Côa e a sua actual exposição valem bem uma demorada visita. Mas a humanidade, mesmo em Foz Côa, tem produzido mais Arte desde então até aos dias de hoje, muita da qual muito mais interessante do que aquele molho de lenha que também lá vimos na “secção dos contemporâneos”. Belo, sem dúvida, mas ainda um prenúncio de futuro.

J. A. Gonçalves Guimarães
Arqueólogo que trabalhou vinte anos no Côa (1985 – 2004) em arqueologia tardo-romana e medieval; autor do projecto museológico do Museu de Sítio de Ervamoira.

Escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia) – breve nota informativa

Entre os dias 2 e 27 de Agosto decorreu a primeira intervenção arqueológica no Castelo de Crestuma patrocinada pelo Parque Biológico de Gaia, E.E.M., e levada a cabo por uma equipa profissional organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, e com a colaboração da Gaianima, E.E.M./Solar Condes de Resende, na sequência de um protocolo assinado por estas instituições a 21 de Novembro de 2009.

Os trabalhos foram planeados e coordenados pelos arqueólogos Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva e codirigidos pelos arqueólogos Filipe Pinto e Laura Sousa, com a administração e logística coordenada pela patrimonióloga Fátima Teixeira. A equipa de campo envolveu mais de duas dezenas de arqueólogos, assistentes de arqueólogo e estudantes.

Esta intervenção incidiu em duas frentes, com uma equipa no alto do Castelo, na cota mais alta do cabeço, e uma outra na praia de Favaios. No primeiro caso tratava-se de detectar possíveis vestígios de construções que justificassem o antigo topónimo castelo e no segundo detectar estruturas romanas relacionadas com os vestígios de superfície anteriormente detectados.

Desta primeira intervenção resultou uma grande quantidade e variedade de espólio arqueológico que virá a ser tratado nos próximos meses por diversos técnicos, nomeadamente pelos arqueólogos tarefeiros que prestam serviço no Solar Condes de Resende sob a orientação dos responsáveis pelo projecto, a que se seguirá o seu estudo científico pelos mais diversos especialistas nas áreas de arqueologia, geomorfologia, arqueobotânica e outras ciências.

Mesmo enquanto se aguardam os resultados destes estudos, fundamentais para a compreensão do sítio e para a orientação da prossecução dos trabalhos, a direcção do projecto pode já concluir o seguinte como resultado desta campanha:
- Confirma-se a grande extensão e valor do Castelo de Crestuma como uma estação arqueológica de grande importância no contexto local e regional cujo estudo, para além do seu interesse específico, poderá contribuir para aclarar alguns aspectos lacunares da História do Vale do Douro nos períodos tardo-romano, altimediévico e Idade Média plena (séculos V-XII).
- Confirma-se a existência de vestígios de construção no alto do Castelo de Crestuma que poderão ter a ver com as suas funções de controle do Rio Douro e da sua travessia naquelas épocas.
- Confirma-se a existência de vestígios arquitectónicos romanos de grande porte os quais poderão ter a ver com a uma estrutura portuária.
- Confirma-se a grande quantidade, variedade e qualidade do espólio arqueológico romano e medieval, incluindo nomeadamente cerâmica de construção, transporte, armazenagem e doméstica, abundantes fragmentos de recipientes em vidro, objectos metálicos e outras peças das referidas épocas nas sondagens e escavações efectuadas.
- Confirma-se a ocupação com construções em toda a área do monte do castelo e na sua imediata periferia.

Estes são os dados imediatos confirmados que a intervenção proporcionou, devendo os mesmos ser potenciados nos próximos meses pelos estudos agora iniciados.

Por outro lado, a grande importância científica e patrimonial dos achados efectuados nesta campanha justificam plenamente a continuidade dos trabalhos de campo no próximo ano, de acordo com a programação prevista.

J. A. Gonçalves Guimarães
António Manuel S. P. Silva

Eça & Dagoberto em Oeiras (Brasil)

O Instituto Barros de Ensino (IBENS) vai apresentar ao público em 25 de Setembro próximo o projecto “Chá com livros”, destinado a alunos e professores que queiram desenvolver o gosto pela leitura, literatura e produção textual. O tema para 2010 será “No Chá com Eça de Queirós, o Encontro com Dagoberto Carvalho J.or”.
Entre 1 e 4 de Dezembro um outro projecto promovido pela mesma instituição, denominado “De Poeta, Músico e Louco, em Oeiras, todos temos um pouco”, incidirá sobre aquele grande divulgador de Eça no Brasil, sendo depois os textos produzidos reunidos num Almanaque sobre a sua vida e obra.


Coimbra queirosiana

Recebemos para a biblioteca da Confraria três publicações sobre a Coimbra queirosiana graças à gentileza do seu autor, Dr. Carlos Santarém Andrade, ex-chefe de divisão de Biblioteca e Arquivo da Câmara Municipal de Coimbra, que em Novembro próximo será insigniado como confrade;

- Passear na Literatura, roteiro queirosiano de Coimbra;

- A Coimbra de Eça de Queirós. Coimbra. Minerva Editora, 1995;

- Eça Coimbra. Coimbra: Câmara Municipal, 2000

… os quais ficam à disposição dos que queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre as relações do nosso patrono com a cidade do Mondego.

Tomar café ou não

Não queremos ir tomar café com: Michael Mullen general americano que quer ir matar iranianos; Fátima Felgueiras, por misturar a sua vida privada com a nossa vida pública; Naomi Campbell, porque não chega ser bela por fora; Isabel Alçada por mandar fechar uma escola classificada como de excelência mundial em Várzea de Abrunhais.

Vamos tomar café com: Thomas Nash pela convenção contra as bombas de fragmentação, obviamente não aprovada pelos EUA, China, Rússia e satélites; Muhsin Hassan Ali, vice-presidente do Museu de Bagdad que protegeu o que pôde da destruição provocadas pela invasão americana.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 24 – Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010
Cte. n.º 506285685; NIB: 001800005536505900154;
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Email:queirosiana@gmail.com;confrariaqueirosiana.blospot.com;eca-e-outras.blogspot.com;
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638);
redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração: António Manuel Silva

domingo, 25 de julho de 2010

Eça & Outras

Eça e a velha Europa


Nesta crise mundial em que vivemos, e em que teremos de viver até que ela se dilua em qualquer outra crise que nem os bruxos nem os economistas conseguem futurar, a Europa, ou a ideia de uma nova Europa feliz da segunda metade do século XX, está a sair-se pouco airosa, entalada entre a economia asiática mais galopante do que os exércitos de Gengis-Kan e o contraponto estaduniense, que desde o plano Marshall realmente manda nas finanças europeias, através da Alemanha e da Inglaterra. Com estes pressupostos a velha Europa das pátrias tem procurado ter uma unidade difícil e intelectual que o cidadão comum ignora, despreza ou passa indiferente, pois continua a consumir coca-cola e filmes made in Wollywood que o levam a dificilmente acreditar que os americanos perderam a guerra do Vietname e, por outro lado, a pensar que os conflitos no Irão e no Afeganistão não são com ele mas com os marines dos USA.

Ao contrário também de que às vezes se tenta fazer crer, a ideia de uma Europa unida e federativa não nos foi imposta por Mário Soares, mas desde longo tempo ela existiu em algumas mentes portuguesas, por sinal de grande categoria intelectual, como foi o caso do Pe. Himalaia (1868-1933) e do Professor de Economia Francisco António Correia (1877-1981), que têm justamente por isso o direito de serem considerados “avós” da actual Comunidade Europeia.

Mas também sobre o velho continente escreveu Eça de Queirós no seu tempo o seguinte: «A situação na Europa, na realidade, nunca deixou de ser medonha…. A crise é a condição quase regular da Europa. E raro se tem apresentado momento em que um homem, derramando os olhos em redor, não julgue ver a máquina a desconjuntar-se, e tudo perecendo, mesmo o que é imperecível – a virtude e o espírito», nas Notas Contemporâneas.

Noutras suas crónicas, nas Cartas de Inglaterra, alerta que «A Europa, como nos campos de corrida em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: “Cautela com os salteadores!”. Em 1884 anunciava na sua Correspondência que :«Dentro em pouco, há-de haver um só tipo de homem, em toda a Europa, com o mesmo feitio moral, as mesmas frases, e o mesmo corte de barba». Mas não houve, pois ainda não ouvimos o «porreiro, pá!» de Sarkozy, e temos a impressão de que, se alguns políticos portugueses se confundem com deputados da Macedónia, outros há no mais puro estilo berlusconniano, calabrês ou napolitano, porque o genuíno espírito político nacional passa às vezes por ser o daquele dirigente partidário de Vila Real, com certeza candidato a deputado nas próximas eleições, que declarou às televisões que, se os transmontanos e altodurienses passarem a pagar impostos, a culpa é do governo, suponho que o actual e não o do tempo do Senhor Passos Manuel.

Mas, no fundo no fundo, temos todos a ideia de uma Europa de fantasia, que não existe, que é como o Pai Natal ou a sorte no Euromilhões, hipotética, mas que nos faz falta. Já o próprio Eça escreveu nas Notas Contemporâneas: «De todas as cinco partes do Mundo, a Europa, apesar de tão gasta, permanece incontestavelmente a mais interessante; e só ela, entre todos os continentes, constitui na realidade um continente geral de instrução e recreio». É bonito. Agora só temos é de convencer de tal os africanos, os americanos, os asiáticos e os australianos. E então soltarmo-nos num grande clamor: porreiro, pá!, traduzido em todas as línguas e dialectos europeus, que são, como é sabido, muito menos do que os da Nova Zelândia.

J. A. Gonçalves Guimarães

José Saramago em 1966, quando era poeta
Ainda Eça e Saramago

No Eça & Outras anterior abordamos a questão da possível influência de Eça de Queirós na obra de José Saramago. Pois ela existe, conforme o afirma a voz autorizada de A. Campos Matos num e-mail que nos enviou recentemente: «…entre Saramago e Eça há inúmeras afinidades. Saramago leu-o muito mais do que confessou e tem até um texto bastante bom sobre o Suave Milagre! Desde logo os une a sua posição perante os humilhados e oprimidos e a crença numa sociedade futura com uma organização radicalmente diferente da de hoje, organização semelhante àquela em que Saramago acreditava (ou acreditou) e que Eça claramente exprimiu, como sabe, num texto-crónica. Também um certo humor e uma certa ironia Saramago deve a Eça e outras coisas mais que se virão a estudar daqui por diante». Fica o assunto esclarecido.


Nova edição de A Relíquia

A Nova Delphi, uma editora sediada na Madeira, apresentou na Feira do Livro do Funchal, que decorreu no passado mês de Maio, uma nova edição de A Relíquia, apresentada por Anselmo Borges, padre, filósofo e professor na Universidade de Coimbra que foi o prefaciador desta nova edição, na qual evoca o humor corrosivo da obra e o inesperado cómico das situações descritas por Eça sobre a decadência moral, a religiosidade ridícula e hipócrita, o culto das aparências e a sexualidade mórbida com ares de pureza, considerando-a por isso perfeitamente actual nesta época de crise da Igreja e da sociedade, angustiadas pelos «tormentos do dinheiro» e outros pecados.

Um óptimo livro para as chamadas férias de Verão.

Património Religioso e Arte Sacra

A partir de Outubro próximo a Academia Eça de Queirós vai leccionar no Solar Condes de Resende, aos sábados à tarde, duas vezes por mês, entre as 15 e as 17 horas, um curso livre sobre Património Religioso e Arte Sacra, organizado por José Manuel Tedim e Gonçalves Guimarães e que conta com a colaboração de outros especialistas na matéria. Ao longo de seis meses e distribuídos por doze sessões serão abordados temas como: Arte religiosa no Antigo Egipto; Arte e Arqueologia Paleocristãs; Igrejas e outros edifícios religiosos; Pintura, ourivesaria, imaginaria religiosa e talha; Instituições religiosas de várias confissões; Arte religiosa popular; Arquivos e Património bibliográfico religioso; Santuários, festas e romarias e Arte religiosa contemporânea.

A frequência do curso implica inscrição previa e o pagamento de uma pequena propina, sendo passado certificado final das aulas frequentadas.

Exposição no Solar Condes de Resende
Exposições de Arte

No Auditório Municipal de Gondomar até 27 de Julho estará aberta ao público a exposição “Formas de continuidade no Espaço” do escultor Helder de Carvalho, que para além de usar o espaço como elemento escultórico figurativo, na boa antiga tradição greco-latina também usa a policromia nas suas obras, que oscilam entre o figurativo clássico e a mais ousada renovação estética.

No Solar Condes de Resende, até 5 de Setembro, está aberta a exposição “Famosos & Anónimos” do pintor major Simões Duarte, uma selecção dos seus retratos de gente famosa portuguesa e estrangeira e de anónimas figuras populares desde o nosso país até ao Afeganistão, obra de um rigoroso exercício oficinal.

Entretanto a 25 de Setembro, também nesta casa queirosiana, abrirá ao publico o Salon d’Automne, a exposição anual dos sócios e confrades na sua quinta edição, com obras de Alexandre Rufo, Amélia Traça, António Pinto, António Rua, Ariosto Madureira, Carolina Calheiros Lobo, Fernando Coimbra, Glória Nunes, Ilda Gomes, Rosalina Pinto, Rosário Sousa, Rui Soares e Simões Duarte.

Castelo de Crestuma

Entre 2 e 27 de Agosto o Gabinete de História, Arqueologia e Património dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana vai realizar escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma, Vila Nova de Gaia, dirigidas pelos arqueólogos Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva.

Esta acção decorre do protocolo assinado entre aquela entidade e o Parque Biológico de Gaia, EMM no capítulo da Confraria realizado em 21 de Novembro de 2009, tendo sido o local inaugurado a 13 de Setembro desse ano pelo presidente da Câmara Municipal, Dr. Luís Filipe Menezes, como Parque Botânico do Castelo/Sítio Arqueológico.

O local, reconhecido como tal desde os anos quarenta do século passado por Arlindo de Sousa e depois por Carlos Alberto Ferreira de Almeida, apresenta vestígios romanos e altimediévicos, havendo ainda vestígios de arqueologia industrial de fabricas de fundição que laboraram até ao século passado, mas cuja historia está igualmente por fazer. Nas suas imediações existem ainda vestígios de necrópoles antigas, estando por determinar a localização do mosteiro de Crestuma do século X-XI.

Nesta primeira intervenção científica no local procurar-se-á também entender a sua funcionalidade defensiva do que lhe determinou o topónimo, bem assim como aferir a quantidade de cerâmicas do Mediterrâneo oriental e outros vestígios longínquos já detectados, indicadores de um insuspeitado comércio fluvio-marítimo no período bizantino com a barra do Douro e as povoações ribeirinhas que a bordejam.

Nomeados & Distinguidos

Foram recentemente nomeados ou distinguidos os seguintes confrades queirosianos: Nelson Cardoso insigniado como Confrade de Honra da Confraria do Velhote, Valadares, Vila Nova de Gaia; Cancela Moura empossado como presidente do Rotary Club Gaia Sul e José Pereira Gonçalves como presidente do Rotary Club de Lisboa.

Tomar café ou não

Bem tentei colectivizar esta vontade de ir tomar café com gente simpática e recusar a hipótese de o fazer com gente que se porta mal, ou simplesmente não parece ser boa companhia, sem que isso queira significar qualquer outro juízo de valor legal, moral ou institucional, mas não fui longe na ideia. Ao princípio ainda chegavam uns e-mail, uns sms, uns telefonemas. Depois nem tanto, de modo que o critério passou a ser só o do responsável por este blogue. E é pois esse mesmo o que aí vai: não há nenhuma lei do mundo, que obrigue um cidadão a ir tomar café com quem não quer; pelo contrário quantas pessoas com quem o desejaríamos fazer, mas ficamo-nos pela vontade por motivos vários. E essa também é indeclinável.

Desta vez gostaria de ir tomar café com Júlio Cardoso, por continuar a representar-nos tão bem no palco; Guilherme Fariñas, pela sua luta pela liberdade; Joana Carneiro, a maestrina que recebeu o Prémio D. Antónia; Cavaco Silva, por ter vetado a lei das uniões de facto, um dos exemplos mais tristes de oportunismo social dos últimos anos; Sakined Ashtami, por, para já, ter escapado à lapidação.

Mas não gostaria de tomar café com Ana Merelo, porque os bons exemplos devem vir de cima; nem com Edgar Chale, médico especialista em braços engessados que não podem assinar; nem com Mahmoud Ahmadinejad, por governar um país onde, por sentença legal, ainda se matam homens e mulheres à pedrada.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 23 – Domingo, 25 de Julho de 2010
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colaboração: A. Campos Matos

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Eça & Outras

DÁRIO CASTRO ALVES … JOSÉ SARAMAGO…

No passado dia 6 de Junho partiu em Fortaleza, Ceará, a juntar-se àqueles que tanto amaram a língua e a cultura portuguesa, o embaixador Dário Castro Alves, um dos maiores admiradores, degustadores e divulgadores da obra e beleza queirosianas.

Descendente de colonizadores portugueses, a matriz lusógina afirmou-se nele ao longo de toda uma vida repartida entre a carreira diplomática e o cultivo da brasileira portugalidade, ou da portuguesa brasileirania, numa perspectiva universalista. Quando se reformou em 1983 e tinha o cargo de cônsul-geral no Porto, optou por ficar em Portugal e pela dupla nacionalidade, aqui permanecendo até 2003.

Foi membro do Centro Nacional de Cultura, da Academia das Ciências de Lisboa, do Círculo Eça de Queirós, da Sociedade de Geografia de Lisboa, do Grémio Literário, da Confraria do Vinho do Porto e de outras instituições culturais portuguesas, tendo tido uma empenhadíssima acção na consolidação da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP) e foi um dos criadores em 1993 da Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento no Mundo da Língua Portuguesa, cujo principal objectivo é a sua divulgação como um dos idiomas universais.

Nascido em Dezembro de 1927, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1949, ingressando depois, no serviço diplomático, tendo passado por Buenos Aires, Nações Unidas em Nova Iorque, Moscovo, Roma, Organização dos Estados Americanos em Washington e Lisboa.

Além de tradutor de Pushkin, publicou vários livros dedicados à temática queirosiana, entre eles Era Lisboa e Chovia (1984); Era Tormes e Amanhecia (1992); Era Porto e Entardecia (1994) e O Vinho do Porto na obra de Eça de Queirós (2001). Foi casado com a escritora Dinah Silveira de Queiroz e, após ter enviuvado, casou com Rina Bonadier, sua antiga secretária. Após a morte desta em 2002, regressou a Fortaleza, tendo mantido o contacto epistolar com os muitos amigos portugueses. Em 2008 foi homenageado em Brasília.

A sua imagem que ilustra este necrológio, foi trabalhada a partir da fotografia que dele fez Emanuel Pimenta, que partilhou com os amigos a opinião de que o embaixador Dário Castro Alves «era uma daquelas pessoas que nunca deveriam morrer».

O mesmo disseram outros também de José Saramago, que partiu em Lanzarote no passado dia 18 de Junho. Em vão buscamos alguma ponte de ligação entre os romances do prémio Nobel e os de Eça de Queirós. E não tinham que ter: em Saramago não há ironia, mas apenas a tragédia da condição humana e da nossa orfandade perante a indiferença da matéria cósmica.

Não sei mesmo se Saramago apreciava os escritos de Eça ou se alguma vez se lhe referiu e em que tom. Mas há um fio condutor que entretanto me ocorreu e que talvez valesse a pena explorar: o Caím de Saramago poderá ter nascido também no conto de Eça “Adão e Eva no Paraíso” naquela frase interrogativa «Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis!» (por terem dado origem à humanidade através de Abel e Caím e outros). Mas ali não há lugar a felicitações, não tanto a Adão e a Eva, presentes nesta estória porque, sem eles, ela não existia, mas a Deus, perdão, a deus. Há ainda outras semelhanças entre alguns pontos dos dois textos: Saramago refere, logo no princípio do capítulo 1 que «não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse» enquanto Eça, mais generoso, anota que «Adão solta(va) roucas exclamações, gritos… vozes gaguejadas, em que por instinto reproduz(ia) outras vozes, e brados, e toadas…» (penúltimo parágrafo do capitulo 1.º). Mas entre os humanos progenitores de Eça e o seu filho Caim de Saramago falta um elo importantíssimo que muitos literatos terão lido, mas que não o admitirão facilmente em público: referimo-nos à História Universal da Pulhice Humana, 1º volume: Pré-historia, por José Vilhena, publicado em 1960, onde as estórias de Caim, e das primeiras sociedades e desilusões humanas, são contadas com incrível humor, não queirosianos por certo, talvez mais junqueiriano, por este humorista nascido em Figueira de Castelo Rodrigo em 1927, e que Rui Zink dignificou em 1989 com a sua tese de mestrado “O humor de bolso de José Vilhena 1960-1974”. Os puristas de tudo, os defensores de virgindades alheias, talvez achem pouco literária esta “árvore genealógica” da novela de Saramago, mas tenham paciência, se há qualquer coisa que o escritor nos ensinou foi que somos danados para inventar bezerros d’oiro para nosso proveito e para os outros adorarem. Enfim, este Junho vai negro…

Ainda que nunca os tenha encontrado pessoalmente, quer Dário Castro Alves quer José Saramago, creio que a memória de ambos permanecerá viva entre todos aqueles que partilham, ou não, a sua visão do mundo através dos livros que nos deixaram para folhearmos com gosto, ou com desgosto, mas não indiferentes, até quando todos nos encontrarmos suavemente numa boa nuvem desse incomensurável nada que é o Universo. Aí não haverá livros para ler. Aproveitem pois enquanto podem, mesmo que os não apreciem. É que lá, na nuvem, também já não se poderá dizer mal do que alguém um dia escreveu.

J. A. Gonçalves Guimarães

A AMANTE HOLANDESA

Continuam a chegar ao público ledor as obras completas de J. Rentes de Carvalho pela mão da Quetzal, ao ritmo de dois volumes por ano. Depois de Com os Holandeses e de Ernestina, é agora a vez da reedição de um dos seus mais desconcertantes romances publicado em 2003 e com várias edições na Holanda. Imaginem um homem simples de Trás-os-Montes a imaginar um romance com uma bela holandesa, cosmopolita, culta, que ali foi parar àquele mundo em trabalho e que, ao tratá-los com natural humanidade, mais acentuou o contraste com a sua solidão. O resto está no livro.





FLAUBERT E QUEIROZ



A Livros Horizonte, com o patrocínio da Fundação Eça de Queiróz, acaba de publicar Madame Bovary de Gustave Flaubert e o Primo Basílio de Eça de Queiroz, de Dominique Sire, investigadora francesa bolseira da Fundação Calouste Gulbenkien, e que A. Campos Matos traduziu, um ensaio que estabelece «a espantosa afinidade de Eça com Flaubert… mas também as posições tão divergentes que ambos sustentaram quanto ao propósito social desse realismo», ressaltando ainda «a inimitável originalidade do nosso autor», conforme ressalta o tradutor na nota introdutória.



SANTO ANTÓNIO



Tal como também fez seu bisavô, António Eça de Queiroz deu-lhe agora para escrever vidas de santos, começando pelo seu homónimo, o Santo António de Lisboa e de Pádua, o primeiro da tríade celeste do mês de Junho que abençoa os folguedos e os etc… Para além de um gosto familiar, legítimo como qualquer outro, supomos que o motivo será o mesmo para ambos os escritores: cansados da biografia de tantos medíocres nos altares da fama desta nossa sociedade, foram ambos à procura de seres excepcionais pela sua capacidade de doação e abnegação. E Santo António é um desses seres maiores, agora pela escrita de António Eça de Queiroz e editado pela Guerra & Paz.



EÇA E O VINHO VERDE

A Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) e a Confraria do Vinho Verde acabam de publicar as Actas do 1.º Congresso Internacional de Vinho Verde, realizado em 2007, que apresentam trabalhos de vários investigadores sobre este vinho, entre os quais um estudo de J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães intitulado «O Vinho Verde na Obra de Eça de Queirós» a partir da exaustiva análise da obra do escritor, da crítica às obras dos seus comentadores e biógrafos, e do recurso às fontes documentais existentes no Solar Condes de Resende, limpando assim a exegese queirosiana de alguns aspectos que lhe não pertencem de todo, e não só no que diz respeito ao Vinho Verde, o terceiro mais referido pelo autor de A Cidade e as Serra, mas não nesta obra.

CONTOS TRADICIONAIS

No passado dia 29 de Maio, Anabela Mimoso apresentou na Biblioteca Municipal de Gaia os seus mais recentes livros: Contos Tradicionais Açorianos de Teófilo Braga e, para os mais novos, Aquela Palavra Mar, os quais foram comentados por Rosário Girão, professora da Universidade do Minho.

CONFRADES QUEIROSIANOS DISTINGUIDOS

Carlos Reis, professor catedrático da Universidade de Coimbra e Reitor da Universidade Aberta foi convidado para presidir à Fundação José Saramago.

A 1 de Junho a escritora Beatriz Pacheco Pereira, directora do Fantasporto, foi distinguida com o Premio Mérito Carreira da Gala dos Eventos que decorreu no Hotel Sheraton no Porto.

No passado dia 10 de Junho o Presidente da República agraciou com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a ex-ministra da Cultura, deputada e professora catedrática de Literatura, Isabel Pires de Lima.

CONFERÊNCIA QUEIROSIANA

No passado dia 17 de Junho, na abertura do 17º Festival Internacional de Música de Gaia, que decorreu no Auditório Municipal, organizado pelo Conservatório Regional de Musica de Gaia com o apoio do município e de outras entidades, Mário Vieira de Carvalho, professor da Universidade Nova de Lisboa e ex- secretário de estado da Cultura fez uma conferência sobre “ A República e as mudanças na cultura musical”. No final do concerto o Maestro Mário Mateus dirigiu a “ Invocação dos Lusíadas” de Viana da Mota.

EÇA REVISITADO NO SOLAR


No passado dia 19 de Junho, os alunos do Curso Profissional de Técnicos de Turismo da Escola Básica e Secundaria de Canelas, Vila Nova de Gaia, interpretaram no Solar Condes de Resende alguns exercícios escolares sobre a vida, época e obra de Eça de Queirós e de outros autores da mesma geração.

TOMAR CAFÉ OU NÃO

Os tempos não estão para cortesias tolas. Não quero ir tomar café com Benjamin Netanyahu e Ehud Barak por estarem a piorar as condições de vida dos prisioneiros do campo de concentração de Gaza perante a passividade da comunidade internacional; nem com Sarah Ferguson, por a senhora duquesa das banalidades não saber que o vinho em excesso não é desculpa para actos indignos; nem com Tony Hayward director da BP a empresa que está a matar o Golfo do México.
Tomaria café com Carlos Alexandre, o magistrado que não tem tido medo do papão político; com Carlos Alberto de Sousa Monteiro o magistrado atento aos exemplos dos “Frei Tomás” da nossa política; com Rui Tavares para conversarmos sobre os seus textos e a sua proposta de bolsa de investigação.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 22 – Sexta, 25 de Junho de 2010
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terça-feira, 25 de maio de 2010

Eça & Outras

Eça, Portugal e a Grécia

Vários emails chegados de vários amigos e confrades trouxeram-nos o seguinte texto: «Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade politica, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá… vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal».
Isto não foi escrito ontem, mas em 1872 por Eça de Queirós n’As Farpas. Já passaram 138 anos e estamos na mesma situação. Se por um lado esta “doença crónica” já nos deu alguma imunidade, até porque, tanto nós como os gregos, temos sobrevivido, não há dúvida que esta quase permanente corda na garganta, cujo nó se apertou, recordemos, no final do século XIX, durante a 1.ª República, a seguir ao 25 de Abril e agora em plena democracia, tem impedido este país de andar de cabeça erguida por entre as demais nações, enquanto as nossas classes dirigentes comemoram mistérios, campeonatos de futebol, feiras diversas e outras fantasias clientelares que os netos e bisnetos dos actuais distraídos, excluídos do sistema ou incapazes de o modificarem, ou seja, os descendentes de quase todos nós, pagarão com empréstimos a juro escandaloso.
Lembram-se daquele senhor que dizia que a Expo 98 se pagava a si mesma e que por isso ainda lhe haviam de erguer uma estátua? Aposto que é descendente do conselheiro Acácio ou do conde de Abranhos ou de quaisquer outras personalidades queirosianas idênticas. Não, meus amigos, isto não é para rir. Eça teria dispensado esta sua capacidade profética em nome de seu grande e lúcido amor pela pátria, que não se alimentava das balelas do seu tempo e que ainda hoje perduram. Passados estes anos todos é uma condenação o estarmos na «mesma decadência de espírito». Mas não tem que ser eterna: o próprio Eça também nos deu a solução: «… as nações têm a vida dura, e … o nosso Portugal tem a vida duríssima. E se os que estão no poder porfiarem sempre em cometer a menor soma humanamente possível de acerto, muitos perigos podem ser conjurados e a hora má adiada», escreveu ele em «Novos factores da política portuguesa». Mas será que os políticos actuais leram Eça? Não creio; terão lido, quando muito a Arte de Falar em Público, em fotocópias piratas de qualquer inútil MBA.
Não estamos em tempos de revolução, é o que dizem os sensatos, como se se pudessem programar as tempestades. Mas que isto tudo precisa de uma vassourada suponho que ninguém tem dúvidas.

J. A. Gonçalves Guimarães

Obras queirosianas

No ano de 2009 foram publicadas mais duas obras com temática queirosiana: de Fernando de Castro Brandão, Eça de Queirós. Uma cronologia, edição da Europress e de António Cirurgião, De Eça a Jorge de Sena, pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
Continua assim o escritor a ser fonte de inspiração e ponto de partida para novas, renovadas, repetidas, remendadas e requentadas abordagens da sua vida, obra e época. Se este aspecto é altamente positivo, pois nada nem ninguém é dono do escritor e do seu enorme legado cultural, verifica-se, no entanto, uma gritante falta de análise crítica das obras que se vão publicando, talvez porque neste país de moles opiniões sempre se confundiu crítica com maledicência. Falta-nos pois a primeira, que a segunda dispensa-se.


Nova Confraria Queirosiana no Brasil

No passado dia 27 de Fevereiro foi fundada em Oeiras do Piaui a Confraria Eça–Dagobertiana de estudos da obra literária de Eça de Queirós e do ensaísta e historiador oeirense Dagoberto Carvalho J.or. O jantar comemorativo recriou a ementa do Abade de Cortegaça de O Crime do Padre Amaro. Entretanto aquele nosso confrade brasileiro foi alvo de uma justíssima homenagem na sua terra natal, tendo aí sido descerrada uma placa de bronze dizendo a quem passa o seguinte: NESTA CASA/ NASCEU, EM 9 DE MAIO DE 1948,/ O MÉDICO E ESCRITOR/ DAGOBERTO FERREIRA DE CARVALHO JÚNIOR,/ AUTOR – ENTRE OUTROS LIVROS – DE/ “PASSEIO A OEIRAS”./ MEMÓRIA DA/ ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS/ INSTITUTO HISTÓRICO DE OEIRAS/ FUNDAÇÃO NOGUEIRA TAPETY/ CONFRARIA ECIANA DE OEIRAS/ POUSADA DO CÔNEGO/ EMPRESA LIDER/ 25. IV. 2010.
O homenageado recebeu entretanto também as felicitações e os abraços de afecto, estima e admiração dos seus confrades portugueses na recente digressão que Maria Carolina Calheiros Lobo e António Alberto Calheiros Lobo fizeram pelo Brasil.

Estátua de Rocha Peixoto

No passado dia 2 de Maio foi inaugurada em frente da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim uma estátua de Rocha Peixoto, etnógrafo, bibliotecário e também último secretário da Revista de Portugal de Eça de Queirós. Da autoria de Helder Carvalho, ela assinala o centenário da sua morte que a edilidade poveira está a comemorar, tendo para o caso nomeado uma comissão da qual fazem parte o presidente da câmara, Dr. José Macedo Vieira, o vereador da cultura Dr. Luís Diamantino, o director da biblioteca, Dr. Manuel Costa, a directora do boletim cultural, Dr.ª Maria da Conceição Nogueira, com a direcção científica do Prof. Doutor João Marques.
Na ocasião foram também lançados os boletins n.os 43 e 44, com artigos sobre a vida e obra de Rocha Peixoto e ainda as Actas do Colóquio que lhe foi dedicado em Maio de 2009.
A terra poveira continua assim a promover os seus filhos mais dilectos e a partilhar a sua obra com todo o mundo. Por todos estes motivos a Confraria Queirosiana esteve presente no evento representada pelo presidente da direcção e mais quatro confrades.

Aniversário de As Artes Entre As Letras

Foi um auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto completamente cheio que no passado dia 20 de Maio aplaudiu o 1.º aniversário desta revista na pessoa da sua directora Nassalete Miranda, tendo na circunstância falado sobre o projecto Miguel Veiga e Salvato Trigo. A directora agradeceu emocionada esta manifestação de cumplicidade neste projecto cultural que extravasa em muito os horizontes da muralha fernandina, pois o Porto, quando quis ser grande, sempre se foi ao mundo.
A direcção da Confraria Queirosiana fez-se representar nesta simpática comemoração da revista literária que divulga a sua página Eça & Outras.

Jantar queirosiano em Santo Tirso

Na última sexta-feira, 21 deste mês, decorreu no Instituto Nun’Alvres, Santo Tirso, também conhecido por Colégio das Caldinhas, um Jantar Queirosiano no qual participaram a direcção do Colégio, os seus professores e alunos e a Confraria Queirosiana.
Organizado pelo Curso Profissional de Técnicos de Restauração e pelo Departamento de Português, muitos professores e alunos apresentaram-se vestidos à época e as mesas estavam decoradas com um requinte a lembrar as ceias de Os Vencidos da Vida ou de Os Maias, de que foram recriadas algumas passagens. A música de fundo e algumas danças por um par profissional e depois, pelos presentes, ajudaram ao ambiente queirosiano que teve o seu ponto alto na ementa, primorosamente impressa, magnificamente cozinhada e impecavelmente servida.
A Direcção do Instituto presidiu ao repasto, tendo estado presente o próprio Eça, pois a organização não se esqueceu de lhe reservar uma cadeira de honra neste serão em sua homenagem.

O Couseiro de Leiria

No próximo dia 5 de Junho pelas 15 horas na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, será apresentado pelo Professor Doutor Saul António Gomes o novo livro de memórias leirienses de Ricardo Charters d’Azevedo, Quem escreveu o Couseiro, editado pela Textiverso, abrindo ao público, na ocasião, uma exposição sobre as várias edições desta obra também conhecida por Memórias do Bispado de Leiria, cujo autor, ou autores, se desconhecem, tendo sido escrito há cerca de 400 anos, mas só contado com edições impressas desde 1868. Na presente edição, o autor não só tentou conseguir uma versão mais próxima do original como apresenta novas hipóteses para a identificação do autor.

Curso Internacional de Verão

A Fundação Eça de Queirós vai realizar a 12.ª edição do seu Curso Internacional de Verão – Seminário Queirosiano entre os dias 19 a 23 de Julho de 2010, subordinado ao tema “Da Geração de 70 à República: práticas estéticas e debate ideológico”, especialmente dirigido a professores e estudantes universitários mas também a todos os demais interessados na obra queirosiana. As inscrições decorrem até 12 de Julho. Para a frequência do mesmo existem vinte bolsas para dez estudantes portugueses e dez estrangeiros, cujo prazo de candidatura termina a 15 de Junho.
O curso é coordenado por Isabel Pires de Lima, do Conselho Cultural da FEQ.
Mais informações podem ser pedidas para feq@feq.pt

Café Eça de Queirós

Abertas as suas portas ao mundo em que vivemos neste blogue, este café acolhe-nos a todos, cada um na sua condição e cada um com os seus defeitos e virtudes. Não tem reservado o direito de admissão, mas cada um só toma café com quem quer, um direito que nos assiste e que não alienamos. Assim, não queremos tomar café com:
Ana Raquel da Silva Guerra, por não devolver os livros que não são seus; Armando Vara, porque não nos apetece; Inês de Medeiros porque ser deputada não é um favor que se faz ao eleitorado; Jardim Gonçalves o cabeça de um dos octopus mei que existem neste país; Ricardo Rodrigues, porque empalmar gravadores a jornalistas é pouco ético; Tadeu Soares, porque a representação diplomática de Portugal não pode continuar como no tempo de Eça de Queirós, do que ele então já amargamente se queixava….
Mas gostaríamos de tomar café e dar dois dedos de conversa com: Baltazar Garzon, o “caça-fantasmas” espanhol; Bruna Real, porque a beleza é um dom divino; Lino Maia, o padre bom que sabe que não se podem pôr as crianças numa prateleira; Raquel Henriques da Silva, por saber que a Arte não é alheia ao seu significado social; Saldanha Sanches por ter dado à Fiscalidade muita da dignidade que lhe andava arredada; Vitor Bento por acreditar que a Economia não é a Matemática das contas erradas sempre para os assalariados.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 21 – Terça, 25 de Maio de 2010
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redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral;
colaboração: Dagoberto Carvalho J.or; António Eça de Queiroz; Ricardo Charters d’Azevedo.

domingo, 25 de abril de 2010

Eça & Outras

“As Artes entre as Letras” de parabéns

 No próximo mês de Maio a revista quinzenal dirigida por Nassalete Miranda faz um ano. Aí se tem publicado a página Eça & Outras em papel, através de um protocolo celebrado entre a Confraria Queirosiana e a empresa, o qual deu consistência a uma parceria que já vinha de outra publicação. O dizer o quanto esta revista – teimo em chamar-lhe assim – veio preencher uma lacuna é bla-bla fácil de escrever e excessivamente óbvio: que mais tínhamos nós além do Jornal de Lisboa, perdão, de Letras, o JL de José Carlos de Vasconcelos?
Desde que Marilyn Monroe cantou o Happy birthday to you ao presidente Kennedy que já não é suposto ouvir cantar o “Parabéns a você” naquele estilo meloso de cantilena de lar da terceira idade. Por isso, pelos parabéns devidos, eis o que até hoje retive da leitura que dele faço.
Em primeiro lugar as duas crónicas sempre presentes, a de Guilherme de Oliveira Martins e a de Carlos Fiolhais, a primeira sobre esse tema abrangente que é a Cultura, mas que este autor não deixa que seja tomada como uma barraca da feira dos Carvalhos onde se pode vender de tudo, e a segunda com as suas revelações da Ciência e do Pensamento: num país que separou por “canudos” as Ciências Exactas, as da Natureza e a Técnica das Ciências Históricas, é uma página que faz bem.
Depois os artigos e reportagens sobre Património, esse novo menino do conhecimento que entre nós ainda mal saiu da incubadora: a linha do Tua, a calçada à portuguesa, a lusofonia, e pouco mais, não vá o papão acordar. Nesta “Procissão”, para me lembrar de um texto antológico de J. Rentes de Carvalho com este título, vão os grandes autores do passado como Carolina Michaëlis, Joaquim de Vasconcelos, Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, António Nobre, Albert Camus, Machado de Assis, Adolfo Simões Müller, Guerra Junqueiro, Alberto Sampaio, Luiz Pacheco. Mas também os vivos da costa e do interior, José Saramago, Albano Martins, Mia Couto, Beatriz Pacheco Pereira, Helder Pacheco.
As gentes do teatro também nele aparecem, pontuando-se a António Pedro e passando por Júlio Gago, Júlio Cardoso, Nuno Casinhas, Castro Guedes, Eunice Muñoz, Margarida Carpinteiro. Os do cinema, falando de João Bérnard da Costa, Lauro António, o Cinenima, o Fantasporto. Muitos artistas plásticos, José Rodrigues, Armando Alves, Paulo Vilas Boas, Francisco Simões Vieira da Silva, Nadir Afonso, Júlio Resende, o Portocartoon, Serralves e a Casa do Desenho. Com as músicas de Manuel Ivo Cruz, Günther Arglebe Giovanni D’Amore, Jorge Peixinho e a Orquestra Nacional do Porto.
Personalidades como D. Manuel Clemente, bispo, historiador e professor, ou a memória de José Augusto Seabra ou ainda da República, nos cem anos que dela se fazem, são outras tantas rúbricas bronzinas nesta revista. E também, no décimo aniversário da lei que considerou a gastronomia como Património Cultural, a presença do chefe Hélio Loureiro e a Confraria das Tripas e do chefe Hermínio Costa.
Esta é a minha memória imediata do muito mais que As Artes entre as Letras publicaram durante um ano, além da página queirosiana Eça & Outras sobre a qual, obviamente, não me pronuncio. É esta a minha leitura parcelar, pouco isenta, pois é como se tivesse ido a uma garrafeira muito variada e apenas escolhesse as marcas e as colheitas de minha particular estima.
Dei também por algumas ausências nesta rápida memória: a História evocada a propósito de Herculano, teve apenas Francisco Ribeiro da Silva a cultivá-la a propósito do 31 de Janeiro; a Arqueologia, um breve comentário de Joel Cleto. Talvez me tenham escapado outros profissionais destas áreas.
Eis pois o que retive neste seu primeiro ano de vida. Convenhamos que há lá muito mais.
Mas eu bem fui avisando que, depois da Marilyn Monroe o ter feito como vocês sabem, sempre me achei ridículo a cantar os parabéns a você. E não me lembro que Plácido Domingo o fizesse. Prefiro portanto comemorar o seu primeiro aniversário com uma saudação e com um verdadeiro vinho do Porto, Gaia blend, à directora e a todos os colaboradores do As Artes entre as Letras: à vossa saúde, por muitos e bons números.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor

Salvemos a dignidade da Arqueologia Nacional

Têm corrido na Internet, e por outras formas de divulgação, várias declarações, petições e outras tomadas de posição que visam alterar o plano para destruir ou inviabilizar o Museu Nacional de Arqueologia, um dos que mais “tesouros nacionais” tem, dos mais visitados do país e daqueles que maior produção científica apresenta.
Uma das formas de o destruir é transferi-lo para os barracões da Cordoaria Nacional situados no leito de cheia do Tejo, onde ficariam, obviamente, muito melhor os barcos do Museu da Marinha.
Muitos dos maiores nomes da arqueologia portuguesa e das outras áreas do conhecimento advogam a necessidade da construção de um edificio de raiz, ou a sua instalação noutro edifício condigno situado em local conveniente e com condições para tal.
O seu actual director, Professor Luís Raposo, tem-se desdobrado em acções de esclarecimento em defesa do nosso (dos portugueses!) Museu Nacional de Arqueologia, que o actual governo pretende ofender de forma irremediável. Desde, pelo menos, o consulado de Santana Lopes como Secretário de Estado da Cultura, que a Arqueologia Nacional é vista pela classe dirigente como um empecilho a abater. Mas não vai ser fácil. Assim Endovélico nos ajude.

Jacinto em Lamego

No passado mês de Dezembro, no salão nobre da câmara de Lamego, Cristina Bernardes apresentou em conferência a sua tese de mestrado intitulada “Da decadência à regeneração: Jacinto e o percurso da auto-descoberta em A Cidade e as Serras”, apresentada em 2007 à Universidade Aberta para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares.

J. Rentes de Carvalho em Matosinhos

Coincidindo com a sua estadia em Portugal, J. Rentes de Carvalho foi um dos escritores convidados pela organização do colóquio “Literatura em Viagem” que recentemente decorreu na terra do poeta do Só.
Aproveitando a oportunidade, com mais alguns outros escritores, deu um pulo a Gaia em peregrinação ao Monte dos Judeus, tendo constatado que a casa onde nasceu está à venda. O mamarracho que lhe construíram em frente ainda lá continua, dizem que embargado.

Eça o mais lido em Coimbra

Num recente concurso organizado na Universidade de Coimbra em que participaram cerca de 400 docentes, funcionários e alunos, que deveriam indicar “os três romances escritos em língua portuguesa que mais gostou [gostaram] de ler ao longo da sua vida”, o primeiro lugar, com 198 votos, foi para Os Maias de Eça de Queirós, e o segundo lugar, com uns 75 votos, para Memorial do Convento de Saramago.
Acrescente-se que a cidade do Mondego tem completamente esquecido o Roteiro Queirosiano de Coimbra escrito há anos por Carlos Santarém Andrade.
Lá do alto, Eça deve ter dito: os estudantes da minha universidade nunca se esquecerão de mim. Et voilá!

 Um hotel na Natureza

O Parque Biológico de Gaia, entre os muitos e variados serviços que apresenta, tem também a Hospedaria do Parque destinada a todo o tipo de grupos ou pessoas individuais que queiram desfrutar de um contacto mais próximo com a natureza. As suas características não esqueceram as crianças e aqueles que se movimentam em cadeira de rodas. Os preços são óptimos e há quartos com duas, três, quatro e seis camas, até um total de quarenta e seis camas distribuídas por doze quartos. Um hotel realmente na natureza e perto do centro das cidades de Gaia e Porto.

Eça de Queirós no corta e cola

Saiu mais um livro sobre Citações e Pensamentos de Eça de Queirós editado pela Casa das Letras, e desta vez da autoria de Paulo Neves da Silva, licenciado em Matemáticas Aplicadas que, depois de o ter feito a Fernando Pessoa, Nietzsche e Agostinho da Silva se deu ao trabalho de fatiar a obra de Eça de Queirós e servi-la em nova edição. Face à bibliografia já existente sobre o autor preferíamos que talvez nos desse qualquer coisa como “A Matemática na vida e obra de Eça de Queirós”. Isso é que sim, é que era obra. Suponho que não vamos ter um Clube dos Citadores.

Capital de Cabo Verde em Livro

Acaba de ser editado pelo Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde a tese de mestrado de José Silva Évora intitulada “A Praia de 1850 a 1860: o porto, o comércio e a cidade “defendida na Faculdade de Letras em 2007.
Nesta obra o autor analisa exaustivamente a vida desta cidade portuária no tempo dos grandes veleiros, quando ela era o ponto de passagem obrigatório nas viagens atlânticas entre a Europa, as Américas, a África subsariana e até o longínquo Oriente.

Tomar café ou não

Não quero tomar café com:

John Paulson, um dos “génios” financeiros americanos, mais um chico esperto que a única coisa que deixou no bolso dos que investiram nos seus negócios foi cotão; Luís Figo, o herói do vale tudo desde que lhe paguem; Mário Nogueira, o “senhor da guerra” da mediocridade docente; Pinto Ribeiro, outro génio que só tem lucro quando trabalha no sector privado mas não quando o faz no sector público; e ainda há-de receber uma medalha… pública; Marechad António de Spínola, mentor do MDLP responsável pelo roubo e destruição do tesouro da Colegiada de N.ª Sr.ª da Oliveira em Guimarães.

Gostava de ir tomar café com:

Luís Raposo, pela firmeza e autoridade intelectual com que tem defendido o Museu Nacional de Arqueologia; António Sala, o senhor da Rádio; João Canijo que nos pôs ao espelho a ver o retrato deste país cinzentão no cinema..

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 20 – Domingo, 25 de Abril de 2010
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coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638);
redacção: Fátima Teixeira;
inserção: Amélia Cabral;