sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Eça & Outras


 No Vale do Côa com Eça e outras


Sim, já sei que já ouviu falar, mas já lá foi? Ao Vale do Côa? Sabe que, tal como Mértola no Guadiana, este é o segundo projeto cultural português realmente implementado no terreno que veio tentar alterar a ronceirice do interior do país em todos os aspetos? Outros houve, outros estão a teimar, outros haverá, mas estes dois foram pioneiros e, pesem embora todos os avanços e recuos, ainda estão a funcionar. Por isso nos passados dias 12 e 13 de setembro fomos até ao Côa. Até arranjamos dois pretextos, um mais particular, outro mais universal: o primeiro, que diz respeito ao Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, é o de que este ano de 2015 se comemoram os 30 anos do início das escavações que puseram a descoberto as ruínas da granja romana na Quinta da Ervamoira, origem do Museu de Sítio aí existente inaugurado a 2 de novembro de 1997. As escavações, realizadas no verão e tendo terminado em 2004, duraram 20 anos e por elas passaram 174 pessoas diferentes, algumas delas vários anos. O segundo motivo, é que este ano também se comemoram os 25 anos do vinho Duas Quintas, criado por João Nicolau de Almeida, administrador da Casa Ramos Pinto, a partir das uvas desta propriedade e da Quinta dos Bons Ares
            Assim o autocarro partiu, e depois do pequeno-almoço em Vila Franca das Naves (as estações de serviço estavam fechadas), paramos em Marialva para vermos um sítio medieval quase belo, dos muitos e variados que há por aqui, que o Côa não é só gravuras paleolíticas, pese embora a sua mundial importância.
            Seguindo viagem até Chãs, aí foi o mudar de viaturas, que o grande autocarro não chega à Quinta. Catrapuz, catrapam, lá se chegou a Ervamoira, onde ainda a seletiva vindima demorava, mesmo tendo começado nos primeiros de agosto. Almoço delicioso na esplanada, vinhos belos, seguiu-se-lhe a visita às salas do Museu onde se explicou por duas vezes tintim por tintim a leitura dos painéis sobre as caraterísticas da região, o porquê do nome, a excecionalidade do sítio e das vinhas, a descoberta da estação a partir do sarcófago de pedra tempos antes de Nelson Rebanda revelar as gravuras, mas também aqui e agora a história da Casa Ramos Pinto e da sua Arte Publicitária e outras muitas artes que por aqui passam. Depois o percurso até ao rio, a matar saudades de banhocas famosas e ver o mato que agora cobre as ruínas que ainda não tiveram noivo rico nos projetos para a região.
            Depois o jantar, novo banquete de convívio, novos brindes, a surpresa do bolo, uma pasteleira recriação da quinta e da sua estação arqueológica com o arqueólogo sentado a olhar para o horizonte e a quem a azáfama do serviço esmurrou um pouco o nariz, mas não partiu os óculos. Parece que ninguém o comeu, pois escultura, ainda que em bolo feita, sempre é arte, ainda que efémera.
            Já bem noite, lá se subiu para os autocarros pequenos para o retorno a Chãs e partida para Foz Côa, a desabar na cama do hotel para ressonar aquele tinto divinal.
            Logo pela manhã do dia seguinte a visita ao Museu do Côa, tão gigante quanto o de Ervamoira é tamanhinho. Ali, bem recebidos e guiados para ver a Arte Paleolítica e o seu enquadramento arqueológico, a sua interpretação. Lembramo-nos aí do conto de Eça de Queirós “Adão e Eva no Paraíso”, onde em 1896 escreveu: «E Adão (oh, estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sobre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas de um veado a correr!...». Desde então que se devia perceber a Arte Paleolítica, quer na sua vertente histórica, quer artística. Mais difíceis de aceitar seriamente são alguns aspetos da Arte atual que nos querem impingir. Por mim podem encher os museus e as galerias de arte com caixotes da fruta pintados que eu não bato palmas. Se forem privados, estimo-lhes as melhoras; mas se forem estatais ou autárquicos tal significa que o Estado e os poderes públicos estão a comprar hipotético lixo aos amigalhaços com o nosso dinheiro. As gravuras do Côa são Arte, memória e testemunho. O nosso tempo merece pelo menos o mesmo, e não a profusão de rabiscos esquizofrénicos, manchas coloridas dos borra-telas ou instantâneos de lixo que por aí proliferam, divulgados e hipervalorizados por quem nunca estudou, refletiu ou produziu teoria e análise sobre a Arte e a sua História. Por isso dispensava-se ali a presença das habilidades de vidraceiro nos corredores e cantos de aranha, e a do molho de lenha a ocupar toda uma sala, mas ele há lobbies para tudo a tentarem chamar-nos burros se não batermos palmas à songuice pseudo-intelectual que por aí grassa. Arte é outra coisa, mas isso fica para outra vez.
            Depois do Museu do Côa magnífico (belas, com e sem senão, sempre haverá) a partida para um almoço de bacalhau num restaurante local e depois partida para Trancoso, a vila bem simpática do casamento de D. Dinis e de D. Isabel e da batalha pela independência do Portugal de Avis. Interessante aqui, até como valor simbólico de quem quer permanecer no interior em zona tão pouco povoada, aquela estorieta do padre que produziu à sua custa mais de duzentos filhos através de incestos, bigamias, multigamias, estupros, violações, certamente exageradas (os vaidosos são assim) e toda uma atividade sexual de fazer corar de inveja os delírios do Marquês de Sade que viria muito tempo depois, o que lhe valeu o perdão de D. João II, que também não era nenhum santo. Provavelmente muitos dos filhos do religioso de Trancoso seriam portugueses (e castelhanos) judeus, que isto do instinto de procriação só depois do ato se lembra das religiões com que os invejosos se ornamentam. E, claro, o Bandarra, no túmulo e em estátua de bronze. Em período eleitoral bem que o município podia pô-lo a render com mais garbo pois estamos em plena saison das profecias. Dispensava-se aquela monumental gaiola em frente da torre do castelo.
            Mesmo com chuva nesta última fase da viagem, o proveito foi grande e não nos referimos apenas à degustação das célebres sardinhas doces ou aos encantos vinícolas da loja fronteira.
            Enfim, o regresso impôs-se até ao Solar Condes de Resende. Aos participantes, por isto e por aquilo, talvez recomendasse a releitura do conto “Adão e Eva no Paraíso” ou de “A Relíquia”, de Eça de Queirós, acompanhada de um bom copo daqueles tintos que festejamos nestes dois dias

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor

D. Maria da Graça Salema de Castro
           
No passado dia 6 de setembro faleceu D. Maia da Graça Salema de Castro, presidente da Fundação Eça de Queiroz, que fundou e dirigiu durante um quarto de século, confrade de honra da Confraria Queirosiana e comendadeira da Ordem do Infante D. Henrique. Viúva de Manuel Benedito de Castro, neto de Eça de Queirós, a ilustre finada ficou sepultada no cemitério de Santa Cruz do Douro, no mesmo jazigo onde repousam os restos mortais do escritor e de seus descendentes. Ao funeral compareceram muitos familiares e amigos da ilustre finada, a ex-ministra da Cultura e atual deputada Gabriela Canavilhas, o presidente da Câmara de Baião, José Luís Carneiro, membros dos corpos gerentes da Fundação, da Confraria Queirosiana de várias instituições culturais e locais e povo anónimo, que assim lhe quiseram prestar a sua homenagem

Livros & Publicações

Colheita Literária de Outono


Um novo livro de Dagoberto Carvalho J.or nos chegou do Recife, com uma bela capa, cheio da palavra “Post Scripta” após os últimos livros, crónicas várias, que tive a honra de prefaciar lembrando pontes várias entre o meu município e o país gigante do lado de lá do Atlântico e que li na receção ao autor feita no Solar Condes de Resende a 25 de outubro de 2014. Ele retribui aqui galhardamente com texto e fotografias em “De volta a Canelas” e “No grande Porto” e muitas outras páginas onde perpassam A. Campos Matos, Isabel Pires de Lima, e quantos outros portugueses e brasileiros, falecidos e vivos, todos posando para a fotografia da cultura luso-brasileira que tem uma monumental dimensão no enorme coração de Dagoberto, inesgotável fonte de afeto por todos eles e pelos nadas, ou pelas gigantescas obras, que produziram ou produzem, caminhando em direção ao infinito da boa memória perante o sorriso de curiosidade de Eça de Queirós.
            Creio bem que a felicidade suprema de Dagoberto, que bem a merece, seria um dia reunir todos os seus amigos e familiares, vivos ou já partidos, estes representados pelos seus descendentes, na sua Oeiras do Piauí, num belo arraial luso-brasileiro capaz de poder dizer a todo o mundo: eis aqui o Quinto Império da fraternidade universal. Foi Vieira quem inventou. Não sabe, nunca ouviu falar? Azar o seu. Mas pode ficar desfrutando, que aqui tem uma boa parte do melhor que há na espécie humana, na família comum. Nem mais, que também não faz falta.

História de Baião

            No passado dia 18 de agosto foi apresentado ao público o primeiro volume da História de Baião, coordenada pelo arqueólogo Lino Tavares Dias e editada pela Câmara Municipal de Baião de que é presidente José Luís Carneiro. Intitulado “Em torno do ano 500” e da autoria de Arlindo Cunha, a obra está prevista para um total de 10 volumes, desde a Pré-história até à atualidade, a publicar até ao final de 2015, tendo como colaboradores, entre outros, para além do coordenador, o historiador Jorge Alves e o arqueólogo António Lima.


Investigação sobre Crestuma



No passado dia 15 de setembro foi lançado em Lisboa na Associação dos Arqueólogos Portugueses o livro “Contextos Estratigráficos na Lusitania (Do Alto Império à Antiguidade Tardia), coordenado por José Carlos Quaresma e João António Marques, o qual publica o texto intitulado “O Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia): um contexto estratigráfico tardo-antigo no extremo noroeste da Lusitania”, da autoria de António Manuel S. P. Silva, Teresa P. de Carvalho, Laura Sousa e outros, da equipa do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana que estuda o Castelo de Crestuma.  


Douro Património


No passado dia 18 de setembro foi lançado no Mosteiro de Corpus Christi em Gaia um álbum de 6 desenhos a carvão com motivos do Vale do Douro da autoria do escultor Hélder de Carvalho, com textos poéticos de Jorge Velhote e design de Angélica Carvalho.
            Sendo natural de Carrazeda de Ansiães, muita da sua obra escultórica encontra-se espalhada por várias cidades e vilas do norte do país, sendo ainda autor de uma notável coleção de bustos-retratos de personalidades do nosso tempo. Na presente coletânea o traço vigoroso, mas muito exato, lembra afinal como nas paisagens que ora retrata o preto e o branco são as suas cores todas.

Misteriosidade

Com apresentação de Júlio Machado Vaz e de Sobrinho Simões, foi ontem, dia 24, lançado na Ordem dos Médicos do Porto o mais recente livro de Jaime Milheiro intitulado “Analista de Interiores… Misteriosidade”, com uma bela capa conseguida por Sofia Tavares a partir de um carvão de Armanda Passos de 1983. O interior apresenta uma série de ensaios em que «a sua leitura dos acontecimentos é sempre a do psicanalista» conforme avisa no prefácio Maria José Gonçalves, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
            Seguem-se então várias conferências e textos de reflexão em torno do conceito de “misteriosidade” que vem sendo trabalhada pelo autor neste e noutros livros já publicados, como «a essência e a qualidade dos sentimentos de mistério que existem em todos os seres humanos».
            Deste conjunto de reflexões altamente humanistas e psicologicamente claras como água destacamos “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades” apresentada no Solar Condes de Resende a 29/04/2014 e depois publicada na Revista de Portugal n.º 11 (2014), bem assim como “Sonhando com Eça (em Gaia)” também ali apresentado em 2002 e publicado na mesma revista n.º 9 de 2012.
            Ali se escreve: «dos acorrentados na fé brotam os fundamentalismo». Creio que jamais alguém convidará Jaime Milheiro para qualquer reunião de pastores de almas, o que é pena, pois tal poderia ajudar a apagar «imensas artilharias» religiosas, sociais, mentais, culturais, civilizacionais, senão no mundo, pelo menos no corpo pensante de cada um. Mas o negócio das armas, sejam elas reais ou metafóricas, continua próspero. Um livro a ler e reler.

Outras atividades Culturais

Escavações de Crestuma: resultados e perspetivas



   Entre os dias 17 e 29 de agosto passado decorreram no complexo arqueológico do Castelo de Crestuma, Vila Nova de Gaia, escavações dirigidas pelos arqueólogos J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, coordenando uma equipa de profissionais que desde 2010 têm vindo a pôr a descoberto os vestígios deste sítio debruçado sobre o Rio Douro, com ocupação entre a Idade do Ferro e a Reconquista, com especial evidência para os séculos IV-VI (Antiguidade Tardia e período suévico-visigótico).
            A presente intervenção teve como objetivos apurar a importância de construções detetadas nos anos anteriores junto à área portuária da praia de Favais e preparar um novo programa de intervenção que privilegie a frente ribeirinha nos próximos anos.
            A intervenção deste ano pôs a descoberto uma grande área aplanada na rocha onde são evidentes os testemunhos de derrube e abandono de construções, provavelmente devido a cheias a uma cota alta, por entre as quais se evidenciou o espólio cerâmico, nomeadamente de vasos de transporte e armazenamento de produtos (ânfora; dolia).
            Esta intervenção teve o alto patrocínio do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Prof. Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, e o apoio do diretor do Departamento de Ambiente e Parques Urbanos, Doutor Nuno Oliveira, bem assim como o patrocínio da empresa SUMA e o apoio técnico do Solar Condes de Resende e da União de Freguesias de Sandim, Olival, Lever e Crestuma.

Jornadas Europeias do Património

            Conforme noticiamos na página de 25 de agosto, a Confraria Queirosiana, em colaboração com o Solar Condes de Resende e os seus investigadores aderiram, mais uma vez, às Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema Património Industrial e Técnico.
Assim, no dia 24, J. A. Gonçalves Guimarães participou como palestrante num colóquio destinado a alunos de Turismo no ISLA de Vila Nova de Gaia e no mesmo dia, às 21,30, decorreu no Solar Condes de Resende uma palestra pelo arqueólogo António Sérgio sobre o levantamento fotográfico do Património Industrial; hoje, dia 25, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no seu Colóquio apresentaram trabalhos Jorge Fernandes Alves, Laura Cristina de Sousa, Maria de Fátima Teixeira e Silvestre Lacerda, entre outros. Amanhã, sábado, no Solar Condes de Resende, a partir das 15 horas, apresentarão os seus trabalhos de investigação sobre o tema, J. A. Gonçalves Guimarães; Maria de Fátima Teixeira; Susana Guimarães; Sílvia Santos; Joana Almeida Ribeiro; Susana Moncóvio; Licínio Santos e Mariana Silva.

Roteiro queirosiano de Aveiro

            O Correio do Vouga de 29 de julho passado, pela mão de Cardoso Ferreira, publicou um artigo sobre o Roteiro Queirosiano de Aveiro, onde, entre outros edifícios e locais, sobressaem a Casa de Verdemilho, do desembargador Joaquim José de Queiroz, avô de Eça, «chefe do movimento liberal de Aveiro 2m 1818» e o seu jazigo no cemitério de Aradas, para onde a viúva do escritor chegou a pensar trasladar os seus restos mortais. A Confraria Queirosiana e o Arquiteto A. Campos Matos têm vindo, de há anos a esta parte, a tentar sensibilizar a autarquia local para a premente preservação, dignificação e rentabilização cultural daquela casa e do restante circuito. Até hoje sem resultado.

Jornadas de Balsamão

            Nos próximos dias 1 a 4 de outubro decorrem no Convento de Balsamão, Macedo de Cavaleiros, as XVIII Jornadas Culturais organizadas pelo respetivo Centro Cultural, este ano sob o tema “Do global ao local: a Cultura Mirandesa”. Será orador, entre outros, o nosso confrade Andrade Lemos do Centro Cultural Eça de Queiroz de Lisboa, que em colaboração apresentará o tema “A origem dos mitos portugueses com especial referência aos de Trás-os-Montes”.

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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 83 – sexta-feira, 25 de setembro de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho J.or; Andrade Lemos; António Manuel Silva.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ressuscitar os mortos em Ceuta

Bem sei caro leitor que esta não é crónica que se apresente com o verão a pino. Saísse ela lá para o dia 1 de novembro quando a folha cai, ou para a pascoal primavera, nesses desacertos civilizacionais do calendário que continuamos a viver sem neles pensar, e outro galo cantaria, tão ressuscitado como o da lenda de Barcelos.
            Mas este assunto vem a propósito dos 630 anos de Aljubarrota e dos 600 anos da conquista de Ceuta que se evocaram respetivamente nos passados dias 14 e 21 de agosto. Em ambos os casos muita gente perdeu então a vida, no primeiro homens portugueses, ingleses, castelhanos e outros, e no segundo homens portugueses, marroquinos e outros e provavelmente também mulheres e crianças ceutis (e já agora cavalos, mulas, camelos e outros animais, certamente).
Quando recentemente tive de recolher elementos para falar dos gaienses que foram a Ceuta fiquei consternado com o facto de só saber o nome de três heróis, homens que se bateram denodadamente pelas suas convicções: Aires Gonçalves de Figueiredo, que aí foi com cerca de noventa anos; João Rodrigues de Sá “o das galés”, com menos; Álvaro Anes de Cernache, o mais jovem dos três. A lista será muito maior, mas como reconstituí-la? Certamente que existiram uma espécie de cadernos de recrutamento, mas desconhece-se o seu paradeiro. E se em Gaia ficou a memória tumular do último dos referidos e a memória viva da família que dele descende; se do penúltimo não sabemos ao certo a sepultura, mas que também tem ainda descendentes vivos, do primeiro não conhecemos nem a sepultura nem descendentes. Talvez os haja, mas nem saberão de quem descendem. E nestas análises mais uma vez me dei conta do poder enorme que os historiadores têm de serem os únicos a poderem ressuscitar – o mais materialmente possível – os mortos; às vezes com a ajuda dos arqueólogos, antropólogos, geneticistas e de alguns poucos especialistas. Poder esse que não valorizamos nem temos vindo a pôr a render, deixando as mais valias a outros que não as merecem mas delas tão bem se aproveitam.
É certo que os líderes de todas as religiões e crenças sempre andaram preocupados com esta velha aspiração humana, a de permanecermos vivos para além da morte biológica, descrevendo e prometendo ressurreições em espírito, em carne e osso, assim-assim, em paraísos terrestres com cobras e maçãs, e celestiais com virgens, nuvens suaves e prados onde os leões comem esparregado, tudo isso após gloriosas ressurreições individuais e coletivas, vidas eternas em glória ou em danação tostada, intermezzos de purga e de espera em vários cais onde não se sabe quando o barco chega, ou sequer se virá, etc., etc. Milhões de eteceteras, que produziram quilómetros de prateleiras com pesados tratados teológicos e outros livros fascinantes, além de palácios de mármore e ouro para albergar os gestores da alma, que o meu amigo Jaime Milheiro entende ser uma das maiores patranhas da Humanidade; a sorte dele é a Inquisição andar agora por aqui disfarçada e mais preocupada com a “gestão” do património, porque lá para os orientes a barbárie fundamentalista já quer voltar a queimar a biblioteca de Alexandria. Por aqui essas angústias de sempre do povinho sem grandes referências culturais são agora transformadas em showbiz religioso pelos manipuladores da orfandade alheia, cujas catedrais, graças ao velho dízimo, em tamanho e orçamento, já pedem meças às bizantinas. Adiante.
Tudo isto para vos dizer que realmente só os arqueólogos que estudam necrópoles e os historiadores que as enquadram na época, nos ritos e na memória, descendo ao pormenor da biografia individual possível e preocupada com o rigor dos factos, sem conclusões apriorísticas tanto quanto possível, têm realmente algum poder para ressuscitar os mortos para além da lápide sepulcral, ou mesmo sem ela. Temos, é certo, também os mitómanos, mas esses, para a sempre difícil e incompleta verdade, não contam. Deixá-los pois com as suas intermináveis fantasias e deduções.
Mas, dir-me-ão, e então os literatos, com tanto romance, tanta saga, tanta novela, tanta oração fúnebre, tanto desembaraço e voyeurismo, quer se trate de discutir se D. Afonso Henriques usava peúgas, quer o comportamento conjugal de D. João V? Independentemente de uma bela prosa e de uma boa caraterização de época e respetivos tipos sociais, ou de um bom testemunho pessoal e respetivas memórias, não têm, não podem, nem precisam ter a oficina árdua, fugidiça, e persistente do rigor do labor histórico. Mas, e então o romance histórico? Humberto Eco é um brincalhão que sabe – e os seus editores também – de que é que o leitor comum gosta: da História como uma Disneylândia. Herculano e Garrett, no seu tempo, ainda mal se tinham libertado das crónicas conventuais e dos milagres de Ourique, e por isso ainda recolhiam lendas, que são a literatura dos analfabetos para ler à lareira, a não ser que salvas para a cultura pelos linguistas e pelos antropólogos, mas isso é outra conversa. Eles ainda viveram num tempo em que as damas preferiam um poema choramingas à crítica da “Crónica de Ceuta” de Zurara, que viemos encontrar recentemente muito bem escalpelizada no notável livro “Ceuta, 1415, seiscentos anos depois” do Professor Luís Miguel Duarte, com a qual milhares de senhoras podem hoje comprazer-se em discuti-la, à procura da possibilidade de ressuscitarmos a memória de todos os que viveram aquele acontecimento, os portugueses, os marroquinos e todos os outros apanhados naquela leva. E podemos assim também apear da viatura da História todos aqueles que nela querem viajar à boleia ou sem pagarem o respetivo bilhete, tentando nela introduzir anacronismos, personalidades, objetos, mercadorias ou situações, que além de erradas, são perfeitamente escusadas, a não ser, como é evidente, para proveito próprio ou de alguma instituição dada a tradições empíricas e à custa dos pouco exigentes sobre lavoura alheia, ou aqueles que em tudo acreditam. Por mais estranho que isso hoje nos possa parecer, depois de tanta luta pelo positivismo mínimo na cultura, teremos ainda por muito tempo de reafirmar que a História não é uma questão de fé, nem nasce pronta e definitiva. Evolui como todas as ciências, em busca da clara certidão da verdade, como escreveu vai para 600 anos um tal Fernão Lopes, um profissional da Memória.
Sobre as descrições do passado, Eça de Queirós que era literato e sabia a diferença entre Literatura e História, atentemos no que ele escreveu a Oliveira Martins: «Um herói que se ressuscita vale um filho que se gera. Nós outros, os romancistas, é que edificamos sobre a areia – ou sobre a moda, que é a mais movediça das areias» (Correspondência, carta de 14.09.1892). Grande Eça, que nunca quiseste vestir fardas alheias.
Tudo isto para dizer que aquele livro sobre Ceuta é uma nova, atual e notável “tapeçaria de Prastana” onde se realinham os que foram a Ceuta e os que já lá estavam. Agora mais ressuscitados pelo mérito de um historiador.
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Curso do Solar
A partir de 10 de outubro próximo ao ritmo de duas sessões por mês aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, vai decorrer no Solar Condes de Resende o seu 22º Curso livre, certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente, desta vez sobre “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/ Porto/ Matosinhos)”, o qual será ministrado por diversos investigadores e professores universitários que apresentarão as mais recentes novidades sobre este tema. Logo na primeira sessão o presidente da Câmara de Gaia e confrade queirosiano, para além de naquela qualidade entregar os certificados aos frequentadores do curso anterior, como sociólogo e professor universitário falará sobre “O desenvolvimento da Região Norte” e o papel cada vez mais importante que nele desempenham o Património e o Turismo. Seguem-se os seguintes temas e professores: outubro 17 – “O Centro Histórico de Gaia”, por J. A. Gonçalves Guimarães; 24 - “O centro da cidade palco da História do Porto” por Francisco Ribeiro da Silva; novembro 7 – “ A Casa do Infante”, por António Manuel Silva; 14 – “O Mosteiro da Serra do Pilar”, por Carlos Ruão; 28 – “A Sé do Porto” por Manuel Luís Real; dezembro 5 – “O Senhor da Pedra, por Henrique Guedes; 12– “O Mosteiro de Leça do Balio, por Joel Cleto; janeiro de 2016, 9 – “O Senhor de Matosinhos”, por José Manuel Tedim; 17– “O Parque Biológico de Gaia e outros parques”, por Nuno Oliveira; 31– “A Torre e complexo dos Clérigos” por José Manuel Tedim; fevereiro 14 – “O Estádio do Dragão e o desenvolvimento urbano do Porto”, por Hélder Pacheco; 28 – “Ponte Maria Pia” por José Manuel Lopes Cordeiro; março 6 – “A Avenida dos Aliados no Porto”, por José Alberto V. Rio Fernandes.
A todos os frequentadores será passado um certificado, e aos professores registados um outro passado por aquele Centro de Formação com interesse curricular.

Conferências e palestras
            No passado dia 14 de agosto, no dia em que se comemoravam 630 anos da Batalha de Aljubarrota, integrado no programa Navegarte, resultante de uma parceria da associação Portugal à Mão com a cooperativa 3+Arte e da Quadrante – Rotas de Património, J. A. Gonçalves Guimarães fez uma palestra sobre “Gaia e Ceuta, 1415” na galeria daquela segunda associação situada no Centro Histórico de Gaia. Tendo falado sobre os gaienses que participaram naquela batalha e depois na conquista de Ceuta, dos quais ainda hoje existem descendentes a residir no município, este historiador prometeu desenvolver o tema no Solar Condes de Resende, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês, no dia 29 de outubro às 21.30 horas.
No próximo dia 27, pelas 21,30 horas, no Solar Condes de Resende, Eva Baptista, professora e investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana falará sobre “ Reflexos da 1.ª Guerra Mundial na «Educação Republicana»: o caso gaiense”, no âmbito da evocação que o Solar e a Confraria Queirosiana têm vindo a promover no centenário daquele conflito.  

Jornadas Europeias de Património
           
Nos próximos dias 25, 26 e 27 de setembro vão decorrer as Jornadas Europeias de Património, este ano sob o tema do Património Industrial e Técnico. Como habitualmente o Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana e o Solar Condes de Resende vão associar-se ao evento através dos trabalhos dos seus investigadores e produtores de conhecimento histórico patrimonial, quer em realizações próprias, quer participando nas de outras instituições. Assim, logo no dia 24, quinta-feira, em ante - colóquio de introdução ao tema, no Solar Condes de Resende, pelas 21.30 horas, o arqueólogo António Sérgio dos Santos Pereira falará sobre o projeto “In-Va_São Fotográfica e o seu contributo no processo de recolha de imagens sobre o Património Industrial”. No dia 25, sexta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, coordenado pelos professores Teresa Soeiro e Jorge Fernandes Alves, decorrerá o Colóquio “Indústria e Técnica no Norte de Portugal”, onde falarão, entre outros, Jorge Fernandes Alves sobre “A industrialização no Grande Porto: perspetivas históricas”; Laura Cristina Sousa sobre “Arqueologia da indústria cerâmica: o caso da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade”; Maria de Fátima Teixeira sobre “A Fábrica de Fiação de Crestuma”, terminando o colóquio com “Os Arquivos e o Património indústria” por Silvestre Lacerda.
No dia 26, sábado, a partir das 15 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende a apresentação da investigação dos membros daquele Gabinete sobre o tema das Jornadas. Assim falarão J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Exportação de produtos pré-industriais para o Brasil a partir da Barra do Douro no período constitucional”; Maria de Fátima Teixeira sobre “A Fábrica de Arcos de Ferro e Ferro Verguinha da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”; Susana Guimarães sobre “Objetos industriais na Coleção Marciano Azuaga e incorporações posteriores”; Sílvia Santos sobre “A indústria vidreira em Vila Nova de Gaia. Novos dados”; Joana Almeida Ribeiro sobre “Uma geocronologia queirosiana: Eça de Queirós e o desenvolvimento ferroviário no século XIX”; Susana Moncóvio sobre “A Fábrica de Louça das Devesas de José Pereira Valente (fundada em 1884): desenho de investigação”; Licínio Santos sobre “A fábrica de Conservas Manuel Pereira Júnior e a indústria conserveira em Vila Nova de Gaia” e Mariana Silva sobre a “Salvaguarda e valorização do património Industrial em Portugal: contributo para a intervenção na Fábrica Cerâmica das Devesas”.

LivroS
           
Da autoria de Francisco Javier de Olazabal, com design de João Machado, prefácio de J. A. Gonçalves Guimarães e colaboração do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-Confraria Queirosiana) através de vários dos seus membros, acaba de ser publicado o livro “Quinta do Vale Meão”, que em breve será lançado no mercado.
            Com grande qualidade gráfica, conta a história desta propriedade edificada por D. Antónia Adelaide Ferreira, desde a compra inicial dos terrenos até à sua posse e transformação por este seu trineto que descreve esta última parte na primeira pessoa do singular para no fim nos apresentar a sua empresa familiar e os produtos que lança no mercado com singular prestígio e qualidade, demonstrando assim que o Douro é realmente Património Cultural da Humanidade em todas as suas vertentes.
           
Da autoria e coordenação de Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, historiador das civilizações do Próximo Oriente e comissário científico da exposição com o mesmo título patente no Museu Nacional de Arqueologia, o presente livro é mais do que um catálogo da mesma, pois para além da descrição e enquadramento histórico-cronológico das peças em exibição, apresenta textos fundamentais para a compreensão da realidade cultural do cristianismo copta, etíope, arménio e moçárabe, e as suas manifestações artísticas, pouco conhecidas entre nós. Esta exposição tem a colaboração, entre outras entidades, da Associação Cultural Portugal-Egipto, da Associação Portuguesa de Orientalismo, do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia de cujos corpos gerentes o autor faz parte, e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é professor, além de diretor da Revista de Portugal.

Feira de Gastronomia de Vila do Conde
        Como habitualmente, no passado dia 21 de agosto, uma delegação da Confraria Queirosiana esteve presente na abertura da 14.ª Feira de Gastronomia de Vila do Conde, organizada pela autarquia desta terra queirosiana por excelência, pois aqui o escritor foi batizado e criado durante um certo tempo. Este ano subordinada ao tema “Cozinha à Portuguesa”, evocativo da Conquista de Ceuta que neste mesmo dia fez 600 anos, a organização convidou o mesário-mor da Confraria a lembrar o seu significado histórico no início do jantar medieval que em seguida decorreu no restaurante da feira decorado com imagens e textos alusivos ao feito.
            Foram ainda abertos canais de colaboração entre a Confraria com a Casa Antero de Quental em torno dos estudos sobre a geração de 70, já desenvolvidos por vários dos seus confrades.


Vinho do Porto da Confraria


A Confraria Queirosiana tem disponibilizado aos seus amigos e confrades um Vinho do Porto reserva tawny, devidamente certificado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e engarrafado pela firma Quinta and Vineyard Bottlers Vinhos, SA, o qual esgotou. Temos agora à disposição de todos os interessados dois novos lotes com novas embalagens, o Confraria Queirosiana Porto 10 Anos, e o Confraria Queirosiana Porto 20 Anos, engarrafados por Quinta da Boeira, Vila Nova de Gaia, os quais podem ser adquiridos por via postal.
 «Era pena que aquele belo dia findasse assim, sem que se abrisse uma garrafa de vinho do Porto…», escreveu Eça de Queirós em Alves & C.ª.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 82 – terça-feira, 25 de agosto de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


sexta-feira, 24 de julho de 2015


Eça & Outras 25 Julho 2015

Centenário de Paulo Cavalcanti

          É sabido e conhecido como Eça de Queirós tem sido admirado, estudado e divulgado no Brasil, muito mais do que em qualquer outro país fora de Portugal. Numa escala empírica diríamos que estariam a seguir Espanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Cuba e China. Escala empírica, repito, pois como temos vindo a noticiar nesta página, o escritor tem vindo a ser traduzido em muitas outras línguas e estudado noutras paragens.
          Mas o Brasil ama Eça de Queirós, onde ele nunca esteve fisicamente, mas aí se divulgou em vida através das suas crónicas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, das edições – algumas piratas – dos seus romances, da sua polémica com Machado de Assis, dos seus amigos brasileiros em Paris. Do mesmo modo poderemos dizer que, muito para além de aspetos circunstanciais analisados com finíssima ironia, Eça também o amava, descrevendo-o como «uma nação tão amorável, tão generosa, tão hospitaleira, tão europeia e de tão vasta fraternidade, como é o Brasil, para sua grande honra entre as nações» (Uma Campanha Alegre).
            Não nos admiremos pois quando nos anos 90 do século passado o Brasil emitiu uma coleção de selos de correio homenageando os grandes escritores brasileiros de língua portuguesa e, entre eles, lá estava Eça de Queirós, circunstância que levou muitos cidadãos daquele país a pensarem que ele era seu compatriota, o que não tem mal nenhum. Leiam-no, que logo terão tempo para descobrir a sua biografia, aliás precisamente pela primeira vez tentada pelo escritor brasileiro Miguel de Mello em 1911. E ao universal não fazem mossa os pormenores da paroquialidade.
            Entre os seus grandes cultores brasileiros, conta-se, sem dúvida, Paulo Cavalcanti, que a mão amiga desse outro seu atual representante no Brasil, que é Dagoberto Carvalho Júnior, me fez chegar numa publicação editada pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE) justamente intitulada “Paulo Cavalcanti 100 anos”, tendo no interior um seu artigo intitulado “Paulo Cavalcanti, escritor eciano”.
            O homenageado, que nasceu em 1915 em Olinda, Recife, formou-se em Direito, tendo sido promotor público, deputado, autarca e defensor de presos políticos. Filiado no Partido Comunista Brasileiro, onde teve como correligionário o grande arquiteto Óscar Niemeyer, foi ele próprio várias vezes preso e impedido de exercer os seus direitos de cidadania durante a ditadura. Foi também escritor e crítico literário, tendo sido em 1984 eleito presidente da secção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores e, em 1988, seu presidente de honra e do 1.º Congresso de Escritores do Nordeste.
            Em 1945, nas comemorações do centenário do nascimento de Eça e do concurso literário comemorativo promovido pela Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura do Recife, escreve o ensaio “Eça de Queiroz, o revolucionário” que foi classificado em quarto lugar pelo júri, mas mesmo assim publicado pela sua novidade e ousadia, em “Eça de Queiroz. Documentário de uma comemoração”, onde então nos atirou à cara: «Vê-se, por aí, quanto tem sido incompreendida a arte de Eça de Queiroz, principalmente em Portugal. Tido, embora, como desnacionalizador, foi, entretanto, um dos maiores cultores do lusitanismo. Em verdade, seu patriotismo não se deixou empolgar pelo sentimento das palhaçadas cívicas» (Cavalcanti, 1947:142). Só em 1989 visitaria Portugal.
Entretanto em 1948, com o escritor e jornalista Silvino Lopes, funda o Clube dos Amigos de Eça de Queiroz, que depois evoluirá para a atual Sociedade Eça de Queirós, a que presidiu enquanto viveu, bem assim como à Associação de Imprensa de Pernambuco. Fascinado pelo texto “O Povo”, publicado por Eça aos 22 anos no Distrito de Évora, tomava este como expoente doutrinário da sua ação pública em defesa do bem-estar dos seus concidadãos nos diversos cargos públicos que foi assumindo. Em 1959 publica “Eça de Queiroz, agitador no Brasil”, recentemente reeditado em português e inglês por aquela editora. Repositório de uma intensa recolha da repercussão dos escritos queirosianos na sociedade brasileira de Goiana, tornou-se «obra da maior importância para a fortuna crítica do mestre poveiro», como sobre ela agora escreveu Dagoberto Carvalho J.or, ex- secretário e ex- presidente daquela Sociedade sediada no Recife e de que fazem parte como sócios de honra A. Campos Matos, Carlos Reis, Isabel Pires de Lima, J. Rentes de Carvalho e o signatário desta mal alinhavada prosa comemorativa, na honrosa companhia de tantos outros portugueses do Brasil, ou no Brasil, e de brasileiros de Portugal, ou em Portugal. Como vocemecês quiserem, que aqui não importa muito a filosofia da prosa.
Ainda no programa deste centenário, a referida editora publicou também, em formato digital, a tetralogia de Cavalcanti “O caso eu conto como o caso foi”, subtítulo Memórias Políticas, e os títulos: “Fatos do meu tempo”; “Nos tempos do Prestes”; “Da coluna Prestes à queda de Arraes”; “A luta clandestina”. Tudo isto são grandes coisas do país irmão, onde um dos seus mais prestigiados intelectuais do século XX atribui a Eça a lição de muita da sua cultura humanística.
Mas há também os pequenos gestos que nos aconchegam o quotidiano. Com a publicação veio o postal comemorativo dos 50 anos da Sociedade Eça de Queiroz, do Recife, concebido por Moema Cavalcanti, a filha do homenageado, com aquelas sempre amigas palavras de Dagoberto. Colecionamos emoções. E Eça é um mar Atlântico delas, nestes cem anos do queirosiano Cavalcanti que um dia escreveu “Não há neutralidade em face da vida”.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor

Cursus honorum
  
Confrade do Vinho do Porto
           
Eduardo Vitor Rodrigues; Foto CMG 

No passado dia 20 de junho Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, foi insigniado no grau de infanção na Confraria do Vinho do Porto. O capítulo teve lugar no Pátio das Nações do Palácio da Bolsa. Na ocasião foram também distinguidos, entre outros, Assunção Cristas, ministra da Agricultura e do Mar, e Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto. O agraciado é também confrade honorário da Confraria Queirosiana.




Doutoramento em História da Arte
           
Doutora Susana Moncóvio.
Foto Miguel Pena
No passado dia 1 de julho, Susana Moncóvio, mestre em História da Arte, membro dos corpos gerentes dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património, e investigadora no Solar, apresentou provas de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em História da Arte com a tese sobre “O Centro Artístico Portuense (1880-1893). Socialização do Ensino, da História e da Arte Moderna no Portugal de oitocentos”, a qual teve como orientadora a Prof. Doutora Maria Leonor Botelho, tendo sido aprovada pelo júri com distinção por unanimidade.




Prémio da APE
Mário Cláudio.
Foto Fernando Liberdade
O escritor Mário Cláudio voltou a vencer o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído ao seu livro “Retrato de Rapaz” que fantasia as relações de Leonardo Da Vinci com um jovem aprendiz, fazendo parte de uma trilogia sobre amores entre pessoas de idades e condições diferentes. A decisão foi divulgada no passado dia 17 de julho, trinta anos depois do escritor ter recebido o mesmo prémio pelo romance “Amadeo” em que a personalidade principal é o pintor futurista português morto pela pneumónica em 1918, pouco tempo depois de andar a fazer de picador numa tourada na Granja.
Natural do Porto, onde nasceu em 1941, em setembro próximo publicará uma autobiografia intitulada “Astronomia” sobre as três fases da sua vida. Mário Cláudio é confrade de honra da Confraria Queirosiana.


Cursos, Conferências & Palestras
A 4 de julho, integrado no programa Open House Porto, J. A. Gonçalves Guimarães proferiu uma palestra no Mosteiro de Corpus Christi sobre a história deste monumento do Centro Histórico de Gaia.
             Integrada no 22º Festival Internacional de Música de Gaia, decorreu no passado dia 18 de julho no Auditório Municipal uma conferência-concerto sobre “A Ópera na obra de Eça de Queirós” proferida pelo confrade queirosiano Professor Doutor Mário Vieira de Carvalho, acompanhada da execução de trechos de óperas de Augusto Machado, Gounod e Offenbach pelo Estúdio de Ópera do Conservatório Superior de Música de Gaia, sob a direção musical da Professora Fernanda Correia. No final uma sala cheia aplaudiu de pé o conferencista, os intérpretes, a direção e o Professor Doutor Mário Mateus diretor do Conservatório e do Festival, estando presentes os corpos gerentes da Confraria Queirosiana que assim se associaram ao ato.
            Na Fundação Eça de Queiroz, sediada em Baião, está a decorrer, entre 19 e 25 de julho, o habitual Curso Internacional de Verão, este ano subordinado ao tema “Eça e o romance oitocentista: transformações cinematográficas e televisivas”.
A 22 de julho no Espaço Porto Cruz, ainda em Vila Nova de Gaia, J. A. Gonçalves Guimarães apresentou o n.º 3 da revista “Douro. Vinho, História e Património. Wine, History and Heritage”, propriedade da APHVIN/GEHVID, de cujos corpos gerentes faz parte.
            No próximo dia 30 de julho, às 21,30 horas, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês do Solar Condes de Resende, a historiadora da Arte Doutora Susana Moncóvio falará sobre “O escultor Joaquim Gonçalves da Silva (1863 – 1912). Contributos para a sua biografia”.
           
Escavações arqueológicas
             Entre os próximos dias 19 e 27 de agosto decorrerá no Castelo de Crestuma a última intervenção do atual projeto nesta estação arqueológica iniciado em 2010 e que determinou que o sítio tem ocupação desde a Idade do Ferro até ao período da Reconquista, mas com particular evidência entre os séculos IV e VII, no período suévico-visigótico. Os trabalhos serão dirigidos por J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva, coordenadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ, e a intervenção continuará agora num único espaço onde começaram a aparecer construções em pedra nos anos transatos. A presente campanha conta com o apoio técnico do Parque Biológico de Gaia e do Solar Condes de Resende e o apoio institucional do Município de Vila Nova de Gaia, da União de Freguesias de Sandim, Olival, Lever e Crestuma e da empresa SUMA.

Livros, Revistas, Jornais & Blogues

As Artes entre as Letras, ano VI
           

No passado dia 8 de julho na delegação do norte da Ordem dos Médicos decorreu a sessão comemorativa do 6º aniversário e da 150ª edição do Jornal As Artes entre as Letras, dirigido por Nassalete Miranda e que mensalmente publica a página Eça & Outras da Confraria Queirosiana. Durante a sessão foi lançado o livro “Somos Mochos” de Aureliano da Fonseca, que apresenta uma boa parte da sua coleção de mais de 600 exemplares. O presente número do jornal, com capa de Emerenciano, contém artigos e depoimentos da sua diretora, Guilherme d’ Oliveira Martins, Francisco Ribeiro da Silva e outros habituais colaboradores.


Crónicas do Porto
Mário Dorminsky, diretor do Fantasporto, lançou no passado dia 12 na FNAC do Gaiashoping um novo livro intitulado “Portugal à espera. Crónicas do Porto” editado por Seda Publicações. A apresentação esteve a cargo de Artur Jorge Basto.

Nova edição de O Egipto. Notas de viagem
           
Com a chancela da Feitoria dos Livros, acaba de ser lançada uma nova edição de “O Egipto. Notas de viagem” de Eça de Queiroz, com prefácio e anotações de A. Campos Matos que «procurou nesta edição, a 1ª ilustrada… proporcionar um texto mais depurado do que o da 1.ª edição e edições correntes, eivadas de incorrecções, baseando-se na informação de dois especialistas que referenciaram tais anomalias: Jean Girodon e Luís Manuel de Araújo. Entendeu, além disso, que as ilustrações do texto se afiguravam indispensáveis, sobretudo para evidenciar o carácter arquitectural de excepção das mesquitas muçulmanas do Cairo, a que Eça foi extremamente sensível…
Oferece-se deste modo ao público leitor de Eça a sugestiva edição de uma obra juvenil, de grande importância como marco essencial da sua evolução literária.» (da apresentação da presente edição). A 1ª edição foi preparada pelos filhos José Maria e Alberto na Granja, Vila Nova de Gaia, em 1926.

Nova edição (primeira bilingue) de A Cidade e as Serras
             
O Município de Baião, através da Alêtheia Editores, acaba de publicar uma nova edição, bilingue, de “A Cidade e as Serras/The City and the Mountains” de Eça de Queirós com tradução de Margareth Jull Costa, capa de Ricardo Alves e no interior, a separar as duas versões, 16 cromatografias de outros tantos autores. Com prefácio do Dr. José Luís Carneiro, presidente do município, esta nova edição vem com certeza permitir uma especial divulgação da obra de um dos maiores escritores portugueses de sempre junto do público estrangeiro que nos visita, mas também, mais uma vez, que os portugueses «se deliciem com a leitura de um dos textos literários que ainda hoje continua a confrontar-nos com o que é essencial nas nossas vidas».

Museus, Coleções & Exposições

Abriu o MMIPO
            No passado dia 15 de julho foi inaugurado o Museu da Misericórdia do Porto (MMIPO), localizado na Rua das Flores, o qual apresenta nos seus espaços documentos, objetos arqueológicos e obras de arte relacionadas com os mais de 500 anos desta instituição fundada em 1499 por D. Manuel I. Para além de muitos retratos de benfeitores, estatuária religiosa, ourivesaria e paramentaria, sobressai na coleção exposta o grande quadro Fons Vitae, atribuído ao pintor holandês Colijn de Corter e onde estão retratados aquele rei, a rainha e os príncipes, terminando o roteiro do museu na igreja cuja fachada é de Nasoni. Ideia com mais de cem anos, o projeto foi agora concretizado sob a orientação do mesário do Culto e Cultura, Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva, tendo sido inaugurado pelo primeiro-ministro, tendo também estado presentes o presidente da direção dos ASCR-CQ, Prof. Doutor José Manuel Tedim, que tinha anteriormente participado no ciclo de conferências que antecederam esta inauguração, e outros confrades.

“Cister no Douro”
            Hoje, dia 25 de julho, pelas 17 horas, na biblioteca do Museu dos Transportes e Comunicações na Alfândega do Porto é apresentado o catálogo da exposição itinerante “Cister no Douro”, organizada pelo Museu de Lamego e coordenado pelo nosso confrade Prof. Doutor Nuno Resende, investigador e docente da FLUP, com a colaboração de mais treze investigadores, que assinam os estudos agora publicados sobre este notável património do Vale do Douro e seus afluentes.

Confrarias  & Associações
Associação de Coletividades de Vila Nova de Gaia
No passado dia 10 de julho, na Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, César Oliveira, presidente da Mesa da Assembleia Geral dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, tomou posse como presidente da direção da Associação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, tendo como presidente da Mesa da Assembleia Geral o confrade queirosiano e presidente da câmara Eduardo Vitor Rodrigues e ainda o associado queirosiano Edmundo Coutinho nos corpos gerentes. A direção dos ASCR-CQ fez-se representar na ocasião por vários dos seus membros.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 81 – sábado, 25 de julho de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 ; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração neste número: Dagoberto Carvalho J.or; A. Campos Matos.



quinta-feira, 25 de junho de 2015


J. Rentes de Carvalho: Pó, Cinza e Recordações

J. Rentes de Carvalho,
fotografia de Fátima Teixeira, 2015
Não sei se ainda se lembram, ou se já esqueceram na arrecadação das inutilidades da vida, daquilo que foi a bacoca euforia da "passagem do milénio", para uns, 1999, para outros, 2000, talvez para outros 2001, na realidade uma efeméride perfeitamente convencional, inventada pelos fogueteiros da opinião pública, nem sequer universal, pois só teve algum significado (se é que teve...) para quem usa o calendário cristão, o qual, como é sabido, nem sequer é muito exato, e só em 1582 substituiu o velho calendário juliano, que por sua vez tinha procurado atualizar calendários anteriores. Adiante. Por isso a tal "passagem", não fora a trombeta do mundo tecnológico e dos media ocidentais, só seria vivida por alguns europeus, americanos de origem europeia, asiáticos russos e filipinos, australianos e outros mais ou menos ocidentalizados. Os chineses, coreanos, vietnamitas, muçulmanos em geral, e outros povos que teimam nas origens, têm outros calendários, ou usam o que encontram nos aeroportos porque dá jeito. Mas os europeus e americanos, na sua mania de se julgarem o centro do universo, divulgaram o tal evento urbi et orbi. Por isso, mesmo que fizesse algum sentido o mediévico «de mil passarás mas a dois mil não chegarás», na realidade uma boa parte da humanidade nem sequer saberia do que estaríamos a falar, ou seja, não perceberia a charada. Uns cidadãos mais exóticos, leitores de revistas de fim-de-semana ou diplomados pelas "novas oportunidades" juntar-lhe-iam as contas terríveis dos calendários Maia, Azteca, Druida ou Tupiniquim, ou as "profecias" de S. Cipriano, de Nostradamus ou do Bandarra, que assustam adultos desocupados, pois que as criancinhas preferem o Homem Aranha ou o Harry Potter. Por isso, daquele foguetório milenar, pouco ficou e nem valerá a pena revisitar os "testemunhos da época".
Ou antes pelo contrário, se estivermos a falar do mais recente livro de J. Rentes de Carvalho, intitulado Pó, Cinza e Recordações, com o subtítulo Diário - Maio 1999; Maio 2000, editado pela Quetzal, que me justifica no arrazoado acima. Este escritor gaiense universal, também transmontano e neerlandês, mas que também já foi brasileiro, dá-nos nesta sua obra uma nova conversa de café, de esplanada, de cadeira de avião, de escano de aldeia, de sofá de lareira, de biblioteca de universidade, de banco de parque, de rochedo de praia, um conjunto de novas short stories, a que já nos tinha habituado no seu blogue Tempo Contado e na obra homónima publicada em 2010, um Diário de 1994 - 1995. Mas devemos advertir o leitor mais distraído de que não se trata aqui de um diário íntimo como muitos que há para aí, uma espécie de livro-razão da vida do autor, onde este vai apontando o deve e o haver da sua existência. Tal como Eça escreveu, e Rentes não cessa de o repetir por outras palavras, «infelizmente, para mim o trabalho não é um doce deslizar pela corrente serena do ideal - mas uma subida arquejante por uma dura montanha acima» (Últimas páginas dispersas, 1887). Por estas estórias caçadas no quotidiano aldeão ou cosmopolita, laboriosamente lapidadas na sua oficina, ficamos a saber que o mundo, para muitos, efetivamente acabou no ano 2000, como continuou e continuará a começar e a acabar para outros, e de tal teríamos a mesma notícia que temos sobre a morte de uma formiga na floresta amazónica, não fora o escritor elevá-los àquela incrível condição humana, que é a da memória escrita, que transforma o mais insignificante cidadão de Estevais, de Lisboa ou de Amsterdam num nosso semelhante a quem podemos assim passar a cumprimentar, ralhar ou até desprezar. Por obra e graça deste divino autor, que sobre todos os seres em que a sua arte tropeça derrama, ainda que com ironia, bênçãos de humanidade, e a maravilhosa certeza de que cada um de nós, por mais banal que seja, tal como cada uma dos biliões de estrelas do firmamento - e tão poucas ainda sequer com nome – todos e todas fazemos parte do Universo, que é a certeza maior que há, e a que outros darão outros nomes. Seja. Estes anónimos, às vezes anedóticos como aquele emigrante que se julga artista e quer pôr os seus mostrengos no museu da terra, têm a sorte que lhes é dada por um escritor que, em meia dúzia de linhas, os tira do Nada e os põe na montra das Recordações, suas e nossas, graças à sua arte narrativa. Mas em vez de os mitificar, como faziam os literatos do passado e alguns do presente, mostra-os na sua mais crua e dura condição, quer as pessoas, quer os próprios cenários, mesmo quando lhe são muito queridos: «a terra onde nasci tornou-se-me estranha como um teatro, quando estou nela tenho a ideia que represento um papel...». Mas se com os anónimos, gente ou bichos, se irmana, com os arrogantes, os poderosos, os mitificados por uma sociedade acéfala e acrítica, é de uma ironia demolidora, mesmo com os do "olimpo das Letras": «Fernando Pessoa não é poeta por quem eu delire...» denunciando que não é original dele a frase sobre a pátria e a língua que os seus devotos lhe atribuem. E outros famosos, vá-se lá saber porquê, que ele suspeita - e eu leio pelo mesmo breviário - que se calhar quem os louva e recomenda, ou não os leu, ou achou mais prudente seguir atrás da fanfarra instituída.
Depois há nesta prosa, como que ali nascidas como as flores silvestres, sem serem plantadas, mas acarinhadas por este jardineiro da vida, algumas verdades realmente eternas, que às vezes esquecemos: «a beleza da juventude muitas vezes me comove», quando nos recorda «... uma das poucas vantagens da velhice: poder viajar no tempo... ironicamente em marcha atrás... rindo de ter tomado a sério a palavra eternidade». Vou ler outra vez este livro, porque creio que aí encontrarei muito boas e humanas justificações para o mundo - seja lá o que isso for - não ter acabado, como este diário, no ano 2000, ficando à espera, como muitos outros, das surpresas da próxima obra de J. Rentes de Carvalho. E assim o mundo prossegue muito melhor do que seria de supor.
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário - mor da Confraria

Eça  de  Queirós  e  a  Ópera
           


No próximo dia 18 de julho, integrado no 22º Festival Internacional de Música, decorrerá no Auditório Municipal de Gaia uma Conferência/Concerto intitulada «A Ópera na obra de Eça de Queirós» por Mário Vieira de Carvalho, durante a qual serão executados pelo Estúdio de Ópera do Conservatório de Música de Gaia trechos de Augusto Machado, Gounod e Jacques Offenbach, sob a direção musical de Fernanda Correia.
            Mário Vieira de Carvalho, professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa e ex-Secretário de Estado da Cultura, é autor de, entre muitas outras obras, Eça de Queirós e Offenbach. A ácida gargalhada de Mefistófeles, Lisboa: Edições Colibri, 1999.


A Cidade  e  as  Serras  em  Baião
            Nos passados dias 20 e 21 de junho a Câmara Municipal de Baião patrocinou a recriação do romance A Cidade e as Serras de Eça de Queirós, o qual resultou do desenvolvimento do conto Civilização, publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em Outubro de 1893, mais de um ano depois da primeira visita do escritor à Quinta de Vila Nova em Santa Cruz do Douro, onde hoje está sediada a Fundação Eça de Queirós, para tratar das partilhas da Casa dos Condes de Resende e da parte que caberia a sua mulher pela morte de sua sogra. E mais de seis meses depois de em Paris ter recebido a visita do baionense António Cabral, um dos seus primeiros biógrafos em 1916.
Classificado pelo próprio autor como uma «nouvelle phantaisiste», começou a ser redigido na capital francesa talvez ainda no final de 1893, a partir daquele primeiro conto matricial onde a propriedade fantasiada se chama Torges, vindo a assumir a forma Tormes na primeira edição póstuma de 1901. Foi aquele seu biógrafo de Baião quem literariamente assimilou esta última denominação à Quinta de Vila Nova.
Amaro  vence  nas  Curtas
No passado dia 12 de junho e organizado pelo Curso Profissional de Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade da Escola Básica e Secundária de Canelas, decorreu no Solar Condes de Resende a 7.ª edição do Festival de Curtas Metragens. Tendo sido selecionados 20 trabalhos de várias escolas da região, ficou em 1.º lugar "Amaro" realizado por Gonçalo Trigo, inspirado na obra de Eça de Queirós.

Livros e Revistas

Roteiro  queirosiano  de  Lisboa
           



Acaba de ser posta à venda a 2ª edição “revista e aumentada” do Roteiro da Lisboa de Eça de Queiroz e seus arredores de A. Campos Matos, publicado pela Parceria A. M. Pereira, cuja 1ª edição data de 2011. Com um prólogo sobre as relações do escritor com a capital, e ainda Sintra, Colares e Cascais, esta edição desenvolveu o capítulo sobre esta última praia, lembrando o que sobre ela o escritor escreveu e os testemunhos dos amigos sobre o que nela viveu, nomeadamente na companhia de Ramalho Ortigão, de quem este ano se comemora o centenário da morte com diversas realizações.



Boletim  dos  Amigos  de  Gaia
           

Encontra-se em distribuição o n.º 80 do Boletim Cultural da Associação Cultural Amigos de Gaia, referente a junho de 2015, inteiramente preenchido por artigos de membros do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana, nomeadamente de Susana Moncóvio sobre «O programa iconográfico da Igreja de Santa Marinha (1758 – 2015) …», Virgília Braga da Costa sobre «A Feira de Santo Ovídio (séculos XIX – XX)», Francisco Barbosa da Costa sobre os «Militares gaienses na Primeira Guerra Mundial», Abel Barros sobre «Vila Nova de Gaia e os Modernistas Portugueses» e J. A. Gonçalves Guimarães com uma pequena ficha sobre Fernão de Magalhães como figura gaiense.

Conferências  e  Palestras
            Nos passados dias 11 a 14 de junho, organizado pela Federação Mexicana de Associações de Amigos dos Museus, decorreu na cidade do México o Congresso Anual e Assembleia Geral da Federação Mundial. Portugal esteve representado pela FAMP, Federação dos Amigos dos Museus de Portugal, na qual está filiada a associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana.
            No dia 18 de junho, na igreja da Santa Casa da Misericórdia do Porto, pelas 18,30, José Manuel Tedim fez uma conferência sobre A Pintura Maneirista, integrada num ciclo preparatório da abertura ao público do Museu daquela instituição.
            Nos dias 18, 19 e 20 de junho decorreram no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa as Jornadas de Estudos Coptas e do Oriente Cristão, promovidas pela Associação Francófona de Coptologia e pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Da Comissão de Honra fez parte Guilherme de Oliveira Martins, como presidente do Centro Nacional de Cultura, tendo nas mesmas falado Luís Manuel de Araújo sobre «Reflexos da arte egípcia na iconografia copta», que foi também o comissário da Exposição de Arte Copta e do Oriente Cristão, que abriu no dia 19 ao público naquele museu.
            No próximo dia 25 de junho, nas habituais palestras da última quinta-feira do mês no Solar Condes de Resende, pelas 21,30 horas, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre «O exercício profissional da(s) escrita(s) e Direito(s) de Autor(es)». Antes da palestra serão restituídas à liberdade duas corujas das torres pelo Centro de Recuperação de Fauna do Parque Biológico de Gaia.
            No próximo dia 27 de junho decorrerá no Museu do Teatro no Lumiar em Lisboa um colóquio sobre A Igreja de S. João Baptista do Lumiar. História e Arte, organizado pelo Centro Cultural Eça de Queiroz e outras entidades, no qual falará sobre «As pratas da Igreja de São João Baptista do Lumiar» o nosso confrade Fernando A. Lemos, em colaboração com outros investigadores.

Cursos do Solar
            Com início no próximo mês de outubro, em data ainda a divulgar, terá início o novo Curso Livre do Solar organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente, intitulado “13 monumentos e sítios carismáticos do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos)”, em que serão professores António Manuel Silva, Carlos Ruão, Francisco Ribeiro da Silva, Hélder Pacheco, Henrique Guedes, J. A. Gonçalves Guimarães, Joel Cleto, José Alberto Rio Fernandes, José Manuel Lopes Cordeiro, José Manuel Tedim, Manuel Luís Real e Nuno Oliveira. O curso terá treze sessões de duas horas, à média de duas tardes de sábado por mês. A frequência implica inscrição prévia.
            Para o ano letivo de 2016/2017 está em preparação um outro curso sobre a História Naval da região, dedicado ao arranque das comemorações dos 500 anos do Foral manuelino de Vila Nova de Gaia (1518) e da primeira circum-navegação do mundo por Fernão de Magalhães (1519).


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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 80 – quinta-feira, 25 de junho de 2015; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; Cte. n.º 506285685 ;
NIB: 001800005536505900154 ; IBAN:PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração neste numero: Centro Cultural Eça de Queirós, Lumiar; A. Campos Matos.