sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eça & Outras, sábado, 25 de abril de 2015

Entregues à bicharada

            Meus amigos, eu não tenho qualquer pretensão de ter a ciência certa das coisas ou de ser uma autoridade no que quer que seja. Muito pelo contrário vivo em permanente dúvida metódica à procura da realidade possível quer no meu tempo, como cidadão participativo, quer no que diz respeito ao passado, condição base do exercício da minha profissão de arqueólogo e historiador. Ao longo da vida tenho-me deparado com monumentais patranhas que passam por verdadeiras, quase nunca inocentes, ou apenas fruto da burrice de quem as propala. Normalmente são divulgadas para vender uma ideia, um local, uma instituição, cujos promotores confiam na falta de capacidade ou de tempo por parte do público para quem as dirigem, para este as interrogar, as comparar, as confirmar. E assim se vão propalando mitos e lendas sem o menor sentido crítico, nomeadamente pelos setores ligados ao Turismo, que acham que o turista é uma espécie de pateta alegre em trânsito que come o que se lhe põe à frente, tira muitas fotografias, não leu nada sobre o sítio antes da prosa que lhe disponibilizam nos flyers e quando chegar a casa, entre os postais e as t-shirts que comprou, não vai interrogar a veracidade das informações que lhe deram. Já em determinada circunstância me encomendaram um texto sobre determinado aspeto histórico, acrescentando que, para além de rapidez na sua elaboração, não valeria a pena estar “com muitas investigações pois era para turistas”. Ao encomendante escapava que a seriedade na minha profissão é um valor a ter em conta e que um texto pode, ao mesmo tempo, ser agradável e correto. Mas adiante.
            Nos últimos tempos, por azar meu, tenho tropeçado em imenso lixo cultural servido em bandejas de prata ou quase. Ele são os imaginários Caminhos de Santiago (que tão bem aproveitam ao turismo galego); as gastronomias henriquinas que espantariam o próprio Infante, pois de algumas delas nunca poderia ter ouvido falar; Egas Moniz, o Aio, que, além de não ter ido a Leão com qualquer corda ao pescoço (tal foi inventado no século XIII, muito depois da sua morte), terá frequentado a Escola Médica de Lisboa e foi prémio Nobel (a sério! Isto estava no site de uma junta de freguesia!); a carqueja que vinha do Brasil e era levada para uns armazéns de Vinho do Porto que nunca existiram (isto foi publicado recentemente num jornal de grande tiragem!); a “história” de um certo concelho em redondilha maior publicada pele câmara local, a qual seria hilariante se não tivesse custado dinheiro aos contribuintes; Eça a escrever “A Cidade e as Serras” em Baião, certamente num bloco de apontamentos; um jornal que relata os divertimentos de uma escola secundária em volta da memória de D. Pedro I, o do século XIV, e o designer ilustra os dados biográficos do dito com a imagem do D. Pedro I do Brasil, quarto de Portugal, com a sua farda do século XIX; uma outra câmara que promove o erro histórico, há muito plenamente rebatido, da falsa naturalidade de Fernão de Magalhães, só porque um jornalista estrangeiro que investigou mal o caso tal escreveu; o «não digas que D. Afonso Henriques terá nascido em Viseu que os de Guimarães levam a mal»; monumentos geridos pelo Estado onde dificilmente encontraremos alguma literatura sobre o mesmo, mas lá estão as habituais “preciosidades literárias” ao lado dos galos de Barcelos, etc, etc. Chega. Não, não se trata apenas de erros, de mitos e lendas para as criancinhas serem treinadas na escola da falta de rigor e do “vale tudo” para subir na vida. Ele trata-se de um fenómeno mais grave que é o da chegada ao poder local, regional e nacional da geração da fotocópia, do jogo do “sabichão” e das suas mais recentes adaptações à internet e mesmo ao telemóvel. O alardear de umas coisinhas culturais, sem qualquer enquadramento ou espírito crítico, promovidas depois a “património” por qualquer vendedor da banha da cobra bem estabelecido.
            Convém notar que já não estamos no século XIX, quando Garrett ou Consiglieri Pedroso recolhiam as lendas populares para não se perderem as estorietas que a insuficiência de instrução então ainda repetia, vindas diretamente da oralidade ou, talvez o mais certo, vindas das poucas leituras acríticas de algum clero e letrados do passado. Valiam como Literatura e base de trabalho antropológico ou mesmo arqueológico. Depois daqueles eruditos mais alguns outros, até ao presente, continuaram a fazer criteriosas recolhas, de relatos onde a insuficiência de escola, o preconceito, ou pura e simplesmente a ignorância, são por demais evidentes, mas não os embandeirando em arco numa inexistente “história (com h) oral”, que, a existir, colocaria a cultura europeia ao nível da dos povos caçadores-recoletores. Depois da democratização do ensino e da difusão do positivismo, que vieram trazer o exercício da interrogação e as chaves das interpretações, persistir na utilização acrítica da História, nacional ou local, é emoldurar a ignorância e querer oferecê-la como prenda às gerações vindouras. Já Eça de Queirós nos anos sessenta do século XIX tinha constatado que « ( …entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o país é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da educação.» (Uma Campanha Alegre). E esse desgraçado hábito tem sido por demais evidente na História e nas outras Ciências Sociais, onde muitos dos seus profissionais muitas vezes agem mais como clérigos do ritual do que como cientistas da análise e da conclusão.
Antigamente havia um grande problema com a conservação dos livros de papel que eram roídos pelos bichos, vários invertebrados que assim destruíam os textos e as gravuras privando-nos da sua totalidade ou, pelo menos, de boas partes do seu conteúdo; agora há outras formas de conservar os textos, de os analisar e divulgar, mas continuamos “entregues à bicharada” do nosso tempo, muito mais difícil de expurgar e já profundamente entranhada no papel de parede do nosso tecido cultural.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria


In memoriam
Humberto Baquero Moreno


           Faleceu no passado dia 5 de abril o Professor Doutor Humberto Baquero Moreno, um dos fundadores do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia, desde 2004 Gabinete de História, Arqueologia e Património (GHAP) integrado na Confraria Queirosiana. O ilustre finado nasceu em Lisboa em 1934 e era licenciado em História e Filosofia, diplomado em Ciências Pedagógicas e doutor em História da Idade Média pela Universidade de Lourenço Marques. Foi professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e vice-reitor da Universidade Portucalense, tendo sido também diretor do Arquivo Distrital do Porto e da Torre do Tombo. Membro da Academia Portuguesa da História e de outras instituições nacionais e internacionais deixa grande obra sobre a Idade Média portuguesa.
            Irmanados na recordação do seu professor, diretor, orientador e amigo, os atuais corpos gerentes dos ASCR-CQ e os coordenadores e colaboradores do Gabinete de História, Arqueologia e Património apresentaram a sua esposa e filho as suas sentidas condolências tendo estado representados no seu funeral pelo presidente da direção, José Manuel Tedim, e pelo coordenador do GHAP, J. A. Gonçalves Guimarães, para além de outros consócios e confrades.

Eça no Brasil

            Desta vez pela mão de Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra, Eça de Queirós esteve no Brasil em grande destaque no programa “Minha língua, minha pátria. Dois países, uma semana, dez autores”, portugueses e brasileiros, promovido pelo jornal Público na Livraria Cultura em São Paulo entre 10 e 15 de abril passados. Inaugurado com a conferência “Eça de Queirós ou a língua como pátria ausente”, aquele investigador aí aludiu às «incompreensões e mesmo atitudes de rejeição crítica com que foi brindado pelos compatriotas, no país fechado e mentalmente limitado que Portugal era, no século XIX», e ainda ao seu «… horror pelo purismo e pela vernaculidade conservadora» do tratamento da língua, situação que, em muitos casos, hoje se repete escusadamente, dizemos nós.
            A ouvi-lo na plateia, entre muitos outros, estiveram Elza Miné, especialista brasileira na obra do escritor, e Maria Adelaide Amaral, adaptadora de Os Maias para a Rede Globo em 2001.
            Foram ainda lembradas as edições em folhetim das obras de Eça no Brasil e a crítica que Machado de Assis lhes fez e que o escritor considerou nas edições seguintes.
            O programa prosseguiu com os restantes escritores a apresentarem as suas obras (Informação retirada do jornal Público).

Atividades culturais

            No passado dia 1 de abril na Universidade Portucalense o sociólogo Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, proferiu uma conferência sobre “Um desafio à criatividade na Política”, seguida de debate.
            No dia 11 de abril uma delegação de sócios e confrades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, a convite da Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal, deslocou-se a esta linda terra do Mondego a qual, se é certo que é conhecida pelos seus doces, não o deveria ser menos pelo seu património histórico e artístico. Nesta terra de D. Sesnando, os visitantes foram recebidos pela Dr.ª Olga Cavaleiro, presidente da direção daquela Confraria, tendo em seguida visitado a igreja da Misericórdia, o convento do Carmo e a igreja do Mourão, onde o Prof. José Manuel Tedim falou sobre a arte coimbrã da Renascença, seguindo-se a visita a uma unidade de fabrico dos célebres pastéis, onde os viram confecionar e os degustaram. O jantar decorreu na Quinta das Lágrimas, promovido pelo Rotary Club de Coimbra-Sul, após o qual J. A. Gonçalves Guimarães falou aos presentes sobre “O Porto e os seus mitos”.
            No dia 18 de abril Eduardo Vítor Rodrigues foi moderador num colóquio sobre “O problema das crianças hiperativas” que teve lugar no Mosteiro de Corpus Christi em Gaia e no qual participou também o médico psiquiatra e psicanalista Jaime Milheiro, que falou sobre “Uma criança a crescer”, além de outros intervenientes.
            O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (18 de abril) foi comemorado pelo Solar Condes de Resende através da sua participação no Encontro do Castelo. Histórias e Memórias de Crestuma, organizado pela associação CRASTUMIA e pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-Confraria Queirosiana (GHAP) o qual se realizou na sede da Junta de Freguesia de Crestuma, tendo reunido para cima de sessenta participantes. Foram palestrantes, entre outros, António Manuel Silva, que falou “Para além do Castelo: revisitando o património arqueológico de Crestuma” e, em colaboração com J. A. Gonçalves Guimarães, sobre “Arqueologia do Castelo de Crestuma: desafios e novidades”. A sessão terminou com Fátima Teixeira sobre “A Companhia de Fiação de Crestuma. Cem anos de história: novos contributos”. No átrio da junta de freguesia estará exposta durante um mês a exposição itinerante “Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História”, organizada pelo GHAP com o patrocínio das Águas e Parque Biológico de Gaia.
            No próximo dia 30 de abril, J. A. Gonçalves Guimarães, nas habituais palestras da última quinta-feira do mês do Solar às 21,30 horas, falará sobre “As Guerras Coloniais: uma visão pessoal de historiador”.
            Para o mês que se segue, entre outras atividades, está prevista a participação dos funcionários e investigadores tarefeiros membros do GHAP da Confraria Queirosiana no 1º Encontro de História e Património de Mafamude, organizado pelos Amigos de Gaia e pela respetiva junta de freguesia, que decorrerá a 16 de maio, sábado, e onde serão palestrantes, entre outros, J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Bibliografias de mafamudenses ilustres”; Maria de Fátima Teixeira sobre “A indústria têxtil em Mafamude”; Licínio Santos sobre “Cultura e lazer operário em Mafamude no final da Monarquia ao início da República (1893-1914); Susana Moncóvio sobre “O escultor Joaquim Gonçalves da Silva (1863-1912): a propósito da estátua funerária “A Dor”, no cemitério de Mafamude”; Teresa Campos Santos sobre “Paulino Gonçalves: um pintor de Mafamude”; Nuno Gomes Oliveira sobre “Viveiros da Quinta da Telheira, Santo Ovídio – a biodiversidade perdida”; Eva Baptista sobre “O legado Mourão: vicissitudes da criação de uma escola em Mafamude, concelho de Vila Nova de Gaia”; Sílvia Santos, sobre “A indústria do vidro em Mafamude no século XIX; e J. A. Gonçalves Guimarães; Fátima Teixeira e Eva Baptista sobre “Educação Cívica e Património Local (Atividade de Enriquecimento Curricular). Potencialidades da sua implementação em Mafamude”.

Livros e autores

A. Campos Matos           

Deverá aparecer em breve no mercado livreiro o novo “Dicionário de Eça de Queiroz”, organizado e coordenado por A. Campos Matos e editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, o maior e mais completo repositório de análises sobre o universo queirosiano jamais publicado, fruto do trabalho de toda uma vida a tal dedicada, que irá continuar a oferecer-nos nos próximos tempos novidades sobre esta temática em outras obras de sua autoria.




J. Rentes de Carvalho

   “Pó, Cinza e Recordações” é o novo livro de J. Rentes de Carvalho que será lançado no próximo mês de maio em edição da Quetzal. Escrito entre 1999 e 2000, no dealbar do novo milénio, o autor, no seu estilo tão peculiar, brinca seriamente com a sua eternidade possível e com a dos outros.
     Sobre este escritor passou no dia 7 de abril um documentário na RTP2 intitulado “Memórias do Século XX: J. Rentes de carvalho – Tempo Contado” de António Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira, parcialmente filmado no Solar Condes de Resende.
    Entretanto a casa onde nasceu em 1930 em Vila Nova de Gaia, situada no Monte dos Judeus, encontra-se à venda, procurando a Confraria Queirosiana que a mesma seja transformada num polo cultural de uma área do Centro Histórico de Gaia que carece de beneficiação urbana e social, e onde a memória do local, do escritor e das relações entre Portugal e a Holanda, sejam preservadas e dinamizadas. A proposta pretende que tal programa seja apadrinhado pela autarquia local e pelas empresas de Vinho do Porto. Entretanto numa recente visita ao local o mesário-mor da Confraria Queirosiana propôs que a câmara retire o pouco sensato nome de Monte Coimbra com que no final dos anos vinte do século passado procurou fazer esquecer a designação do antigo nome de Monte dos Judeus pelo qual sempre foi e é conhecido.

Joaquim Santos

Jornalista profissional em Leiria e colaborador desta nossa página virtual, é também autor de vários livros dos quais agora nos apresenta “Dispersos sentimentos” (textos poéticos em prosa e verso) com ilustrações de Rui Martins; “Quilate de Sentimentos” (poemas), com ilustrações de Sandrine Vieira, e “Portugal precisa de um Salvador”, uma parábola política, também com ilustrações de Sandrine Vieira, todos editados pela Inforletra no final de 2014.


Outras

Assembleia Geral da FAMP

            Decorreu no passado dia 18 de abril no Museu Soares dos Reis no Porto a Assembleia Geral da Federação Amigos dos Museus de Portugal, na qual está filiada a associação Amigos do Solar Condes de Resende-Confraria Queirosiana, que teve a representá-la o membro diretivo Carlos Sousa.
            O próximo encontro mundial, onde estará presente a Federação portuguesa, decorrerá na cidade do México de 11 a 14 de junho próximo.

Em frente das pirâmides

Viagem ao Egito queirosiano

            Como previsto e divulgado nesta página, decorreu entre os dias 26 de março e 6 de abril passado mais uma viagem ao Egito queirosiano guiada pelo professor da Universidade de Lisboa e diretor da Revista de Portugal, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, a qual se realizou com plena satisfação dos que nela participaram.
            Segue-se a visita aos grandes museus na Europa com coleções egípcias, entre 13 e 23 de agosto e, no final do ano, a visita à Terra Santa queirosiana, entre 26 de dezembro e 3 de janeiro.

Exposição de retratos

            Na próxima terça-feira, dia 28 de abril, pelas 18 horas, abre ao público na galeria da Biblioteca Municipal de Cinfães, uma exposição de retratos do pintor Major Simões Duarte, uma mostra selecionada das suas obras em que predominam a figura feminina e a maternidade em vários continentes.

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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 78 – sábado, 25 de abril de 2015
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Arquivo Solar Condes de Resende; José Manuel Tedim; A. Campos Matos; J. Rentes de Carvalho; Joaquim Santos; Luís Manuel de Araújo; Faraó & Companhia blogue.



quarta-feira, 25 de março de 2015

Camélias  queirosianas

Ele há coisas na vida que não nos servem para nada, mas que nos alegram silenciosamente a existência, e das quais não prescindimos, ainda que nos custem algum tempo e dinheiro. E entre elas, para muitos de nós, estão certamente as camélias que florescem no inverno, alegrando os seus arbustos ou árvores de sólidas folhas verdes com essas flores carnais e delicadas, com a alegria do seu branco, a feminilidade dos seus rosas, as pétalas de vermelho intenso de lábios de gueixa, as outras variedades que os seus devotos coletam e descrevem com paciência de monges. Conheço desde criança rosas, perpétuas e outras flores, mas as camélias sempre foram um assunto à parte, até porque vivi perto de uma Quinta das Camélias e quem era rico ali à volta também as tinha no seu jardim como motivo de curiosidade e devoção botânicas. Depois havia aquela história que foi ficando triste, a Dama das Camélias, e a pintura portuguesa do século XIX a elevá-las à categoria de símbolo nos quadros do Visconde de Menezes e nos de António José da Costa, que as pintava tão perfeitas como se acabadas de apanhar. Mas afinal, já desde o século XVII que os nossos pintores as enramalharam nos seus quadros, como se pode ver em obras de Josefa de Óbidos e nos painéis do coro alto do Mosteiro de Corpos Christi em Vila Nova de Gaia.
Algumas cidades e vilas querem entre nós ser as suas guardiãs, se possível em exclusivo, mas creio tal não ser possível, porque elas, românticas que são, não se comprazem com fidelidades turísticas e assim se distribuem por todo o país, creio que desde que D. João de Castro as trouxe no século XVI do oriente para a sua quinta de Sintra. Mas logo dali a beleza do seu exotismo as disseminou, vindo o romantismo oitocentista encontrá-las em Vila Nova de Gaia no jardim nasoniano da Quinta de Campo Bello e no antigo Convento de Santo António de Vale da Piedade e no de Oliveira do Douro, e no Porto, onde os jardins à inglesa as acolheram e os hortos as cultivaram para arrecadarem prémios internacionais, ou também em Santo Tirso, onde o seu cultivo tem vindo a acontecer com reminiscências das sombras monásticas. E em muitos outros locais em Portugal onde o culto da camélia pede meças aos japoneses.
O Solar Condes de Resende tem vindo a valorizar os exemplares centenários das suas Camellia japonica L., que Eça de Queiroz conheceu e, com certeza, apreciou nas muitas visitas que, pelo menos desde 1889, fez à Casa. E também porque estando os antigos proprietários ligados por laços familiares ao Vice-Rei da Índia acima referido, através dos Camelos de Miranda de Vilar do Paraíso, é possível que estas camélias descendam das sementes ou dos ramos plantados primordialmente em Sintra. E com certeza os Camelos terão gostado de camélias e haverá aqui ainda algumas histórias por acertar. Junto da estátua do escritor, ali colocada no ano 2000 e da autoria de Hélder de Carvalho, que no dia 22 passado trouxe um grupo de amigos a visitá-las, podemos apreciar exemplares bem antigos, tipos Saluenensis, de origem chinesa, Pomponia, Anemoniflora, Beni Assaku, Pamplona, criada pelo bisavô dos filhos de Eça, 1º Visconde de Beire e proprietário do Solar Condes de Resende, e a bastante rara Aka-Koshimino, a que os ingleses chamam Red Skurt, composta por cinco pétalas em estrela, com um desenvolvido pom-pom central, de cor vermelha.
Não desfazendo dos bicos de pés em que os outros querem por as suas camélias, e até dedicando, admitamos que por alguma inveja, uma certa fleuma aos festivais que organizam, não se me leve a mal que goste particularmente das camélias gaienses e em especial das do Solar, visitadas regularmente por grupos nipónicos da Sociedade da Camélia do Japão, em 1997 por uma equipa da NHK BS2 (televisão estatal) e muito recentemente pelos Senhores Hiroshi Azuma e Yukitaka Hihara, respetivamente embaixador do Japão em Lisboa e presidente & C.E.O. da Trubaki Co. Ltd., todos com reverências de estima pela sua existência no jardim desta Casa.
Um outro local emblemático das camélias gaienses é o Parque Conde das Devesas, situado junto da estação ferroviária do mesmo nome, no Centro Histórico, administrado pelo Parque Biológico de Gaia, onde, para além das ali existentes, entre elas a dedicada ao antigo proprietário, foram plantadas muitas outras variedades com nomes famosos desde o século XIX, como as Tedínia, Garrett, Pamplona, D. Pedro V e muitas outras.
No passado dia 21 de março, Dia Mundial da Árvore e do início da Primavera, foi aí lançado um livro da autoria do biólogo Doutor Nuno Oliveira, diretor dos Parques de Gaia e confrade queirosiano, com fotos de António Assunção, no qual apresenta uma seleção das mais notáveis variedades ali existentes, nomeadamente uma com o seu nome, tendo a obra sido apresentada pelo sociólogo Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da câmara local.
Símbolos da beleza temporária, a que só a Ciência e a Arte dão perenidade, Eça de Queirós usou-as como termo de comparação literário, descrevendo certas mulheres com «o pescoço de uma brancura de camélia húmida», ou «uma carnação de camélia muito fresca».
Nestes tempos de angústias, elas são também o símbolo da renovação que se opera cada ano, pois voltarão a florir lá para os dias de outubro próximo, quando de novo as voltaremos a ver pontificando nos nossos jardins mais estimáveis. O seu colorido, sem perfumes embriagadores, voltará a alegrar-nos a vida. E este não é certamente um símbolo menor no esteio da perseverança da procura dos caminhos da humana felicidade, tão variados como as camélias, tão belos e discretos quanto elas.
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Professor João  Francisco  Marques

No passado dia 6 de março faleceu em sua casa na Póvoa de Varzim o Professor Doutor Padre João Francisco Marques, antigo professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e confrade queirosiano. Autor de uma basta e erudita obra, marcou gerações com a sua proficiência, mas também com o seu trato amável e sempre acompanhado de uma fina ironia. Dos vários projetos que tinha em mãos, apresentou recentemente as Obras Completas do Padre António Vieira, com cuja equipa colaborou. O seu funeral teve lugar no domingo dia 8 e nele participaram muitos dos seus colegas, alunos e admiradores, entre os quais vários confrades queirosianos que assim quiseram prestar-lhe sentida homenagem.

 Assembleia Geral

No passado dia 20 de março decorreu no Solar Condes de Resende a Assembleia Geral ordinária dos ASCR-CQ para apresentação do Relatório e Contas de 2014 e do programa e orçamento para 2015, os quais foram aprovados pelos sócios presentes, tendo ainda sido exarados em ata votos de pesar pelo falecimento dos consócios Eng.º D. Diogo de Cernache, Eng.º José Pereira Gonçalves dos corpos gerentes, falecidos em 2014 e Professor Doutor Padre João Francisco Marques recentemente falecido. A Confraria queirosiana guarda e venera no Solar Condes de Resende a memória da vida e obra dos seus confrades.
O Relatório será publicado no n.º 12 da Revista de Portugal que sairá no próximo mês de novembro e será lançada no capítulo anual que ira decorrer no dia 21 desse mês.

Conferências

Colóquio sobre os Centros Históricos

Nos próximos dias 26 e 27 de março decorre na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, no auditório da Cálem, a 1.ª Conferência Cidades de Rio e Vinho. Memória, Património e Reabilitação organizado pela empresa municipal Gaiurb – Urbanismo e Habitação, EM, na qual estarão presentes alguns reconhecidos especialistas das áreas da História, Urbanismo, Arquitetura, Geografia e outras, vindos de diversas universidades europeias e portuguesas que se vão debruçar sobre a problemática dos Centros Históricos em geral e do de Gaia em particular.
Da comissão organizadora fazem parte J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva, coordenadores do Gabinete de História e Arqueologia dos ASCR – CQ que falarão sobre “O Centro Histórico de Gaia, a Barra do Douro e o Mundo” e “As construções do lugar. História (s) e Arqueologia (s) do Centro Histórico de Gaia”, respetivamente.
Paralelamente ao colóquio desenvolve-se outras atividades, nomeadamente a abertura de uma exposição sobre o antigo Entreposto do Vinho do Porto. As Atas com os textos apresentados serão publicadas brevemente.

… e visita guiada

No dia seguinte ao colóquio atrás referido, sábado dia 28, os Amigos de Gaia, associação com a qual os ASCR-CQ têm protocolo de colaboração, vai organizar uma visita guiada ao Centro Histórico de Gaia, a partir das 10 horas da manhã, conduzida pelo geógrafo Doutor Salvador Almeida, presidente da direção daquela associação, que apresentará os aspetos geomorfológicos e hidrológicos, e por J. A. Gonçalves Guimarães, historiador e diretor do Solar Condes de Resende, que apresentará a evolução histórica desta área classificada.
No final da jornada será inaugurada uma exposição de cerâmica na Casa Ferreira, organizada pela Confraria do Caco, intitulada “No Reinado do Vinho” com peças da autoria de Delfim Manuel.

Outras

Entretanto ao longo do mês de março diversos sócios e confrades queirosianos realizaram várias palestras e conferências. Assim, no dia 7, J. A. Gonçalves Guimarães, no solar Condes de Resende, falou sobre “A Arte do Vinho do Porto como emblema da região”, reedição da aula de abertura do Curso “História e carisma da região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos), 5ª edição”; no dia 19 de março, na Escola Secundária de Canelas, para os alunos do Curso de Turismo, falou sobre “Os Roteiros Queirosianos na perspetiva do Turismo Cultural”. A última aula do Curso do Solar acima referido decorreu no passado dia 21 e foi proferida por José Manuel Tedim sobre o tema “Pensamento, Literatura e Arte Contemporânea na região portuense”, tendo este mesmo professor e investigador participado num programa da RTP2 sobre a Igreja de São Francisco do Porto, que passou no passado dia 23 cerda das 23 horas.
Amanhã, dia 26, pelas 21,30 horas e ainda no Solar Condes de Resende, a historiadora da Arte Susana Moncóvio falará sobre “Amadeu Souza-Cardozo: o Modernismo, uma proposta extemporânea no contexto nacional”.

Livros

Nuno Resende

    O historiador Nuno Resende, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem vindo a publicar diversos livros sobre a região da Beira Douro, o último os quais intitulado Memórias dos Homens, Cartas do Tempo. Os Forais do atual Concelho de Resende, este em colaboração com as historiadoras Maria Alegria Marques da Silva e Paula Pinto da Costa, editado pela autarquia na comemoração dos 500 anos o seu foral manuelino, em versão livro e CD, lançado em dezembro passado e agora em distribuição. Mas já em agosto passado tinha lançado O Concelho de Magueija, editado pela União de Freguesias de Bigorne, Magueija e Pretarouca, e em maio do ano passado colaborou com um capítulo no utilíssimo Guia de Boas Práticas de Interpretação do Património Religioso, editado pelo Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja/Turismo de Portugal.

Mário Cláudio
No passado dia 5 de março na delegação do Porto da Ordem dos Médicos o escritor Mário Cláudio lançou um novo livro, edição das Publicações D. Quixote, intitulado O Fotógrafo e a Rapariga, que recria as relações entre uma imaginária Alice e o fotógrafo Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas, Charles Dodgson, contemporâneo de Eça de Queirós. Esta obra faz parte e uma trilogia sobre a relação entre pessoas com idades bastante diferentes em volta da escrita – Bernardo Soares e um jovem empregado de escritório; das Artes plásticas – Leonardo da Vinci e um seu aprendiz; e agora a jovem que pousa para a fotografia que a imobiliza antes de desaparecer por detrás do espelho.
  
Feira das Novidades

Convívio com os feirantes
No passado dia 1 de março fez um ano a Feira das Novidades promovida pela Confraria Queirosiana no primeiro domingo de cada mês. Trata-se de uma iniciativa que visa apoiar os vendedores dos mais diversos produtos que precisam de ganhar a vida e, ao mesmo tempo, proporcionar aos frequentadores do Solar Condes de Resende uma tarde de domingo animada.
Em virtude de a próxima Páscoa decorrer no primeiro domingo de abril, a próxima feira, a título excecional, foi antecipada para o dia 29 de março.

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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 77 – Quarta-feira, 25 de março  de 2015
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015


Jornalismos ontem e hoje

Todos os estudiosos de Eça e, de um modo geral, muitos dos seus leitores, sabem que além de grande ficcionista, autor de obras imorredouras, que além das circunstâncias da época têm a perenidade da condição humana, o escritor foi também um grande jornalista, de cuja atividade nos deixou a sua prosa no jornal Distrito de Évora e n’ As Farpas, depois “filtradas” em Uma Campanha Alegre, e muitas outras crónicas publicadas ao longo da sua vida em jornais e revistas portuguesas e brasileiras, postumamente reunidas em vários volumes: Notas Contemporâneas; Cartas de Paris; Cartas de Inglaterra, e outros textos. Eça foi também um informadíssimo e não menos notável ensaísta profissional sobre Relações Internacionais, como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo esta a sua prosa mais desconhecida a qual, jazendo talvez no arquivo daquele ministério ou noutros, estará por divulgar, à exceção do esgotadíssimo relatório Emigração como força civilizadora, publicado em 1979 pelo jornalista Raúl Rego e, mais recentemente, por Isabel Pires de Lima e José Lello.
Hoje falemos de Eça jornalista e do enorme interesse dos seus textos produzidos enquanto tal. O assunto já foi abordado por vários queirosianistas, nomeadamente Elza Miné, Eça de Queirós Jornalista, Livros Horizonte, 1986; Maria Filomena Mónica, livro com o mesmo título, Principia, 2003; e A. Teresa Peixinho, Textos jornalísticos de Eça de Queirós: o jornalismo oitocentista olhado pelo escritor/jornalista, «Estudos do século XX», n.º 7, 2007, p. 15-38.Temos pois já excelentes análises e antologias sobre tal. Na sua época, aquilo a que chamaríamos hoje o código deontológico do “comunicador social” (denominação que vai substituindo a de jornalista), era um pouco vago, se é que verdadeiramente existia ou sequer se achava que deveria existir. Não se distinguiria então muito o jornalista do literato. Aos “rapazes dos jornais” pedia-se que tivessem uma bela prosa e, para triunfarem na vida, que acertassem os seus textos e conclusões pelos interesses do proprietário da publicação, o qual, por sua vez, os aferia pelo partido político que estava no poder ou pelo peso social das instituições a quem servia, situações que embora hoje nos pareçam desatualizadas, afinal ainda não mudaram, a não ser através do grande empenhamento e, quantas vezes, do sacrifício pessoal dos intervenientes. Também no tempo de Eça havia os “canastrões” da comunicação social e não foi com eles e a sua prosa que o mundo mudou: o escritor caricatura-os em algumas das suas obras e hoje deliciamo-nos com esse quadro social e cultural que magistralmente nos deixou em herança, satisfeitos que estamos com o facto de apenas lidarmos com o quadro da época e os seus atores nos livros e no cinema, não valendo a pena tirar dores pelas suas ações, não lhes sentindo os perfumes ou o mau hálito. Tudo vantagens. Mas se aqui trago à colação estas lembranças faço-o a propósito das reflexões que me sugeriu o livro do jornalista Aurélio Cunha, Um repórter inconveniente. Bastidores do jornalismo de intervenção. Lisboa, Chiado Editora, recentemente lançado no Porto no auditório da Biblioteca Almeida Garrett repleto de público. O livro alude à sua atividade de profissional assumido e com um alto sentido da sua missão social, apresentando as grandes reportagens que publicou no “seu” Jornal de Notícias durante anos, as quais agitaram o país ao relatarem aspetos escabrosos, ou simplesmente parolos, nas áreas da Saúde, da Justiça, da Economia, do Municipalismo, do Desporto, da Solidariedade social, da vida quotidiana dos cidadãos, sistematicamente ludibriados por incompetentes ou chicos-espertos quase sempre “acima de qualquer suspeita”. Muitas chegaram ao parlamento e abalaram ministérios e governos. Graças a algumas delas a vida de muitas pessoas mudou para melhor e por isso também o autor reconhece, regista e agradece a ação de muitos outros profissionais que não pactuaram com estas situações, quantas vezes com risco da sua situação laboral ou mesmo da própria vida. Eles e o jornalista, que a coisa em alguns casos não era para menos. E também ali se relata a existência da censura interna que não permitiu a publicação de reportagens que envolvessem instituições religiosas ou a denúncia do terrorismo psicológico da indústria dos media sobre os jornalistas.
Um certo retrato da sociedade portuense e portuguesa, desde os anos setenta até ao início do seculo XXI, aí está nesse livro. Com uma grande diferença em relação aos retratos jornalísticos de Eça que tanto nos deliciam: é que estes, os que ali se descrevem, são histórias reais do nosso tempo, nós conhecemos os protagonistas, alguns deles ainda andam por aí a tentar retocar o retrato. Não, não estou a comparar o estilo literário de Eça com o de Aurélio ou outras inutilidades com que alguns quererão fugir à verdadeira questão que aqui importa. O livro está escrito numa boa e agradável prosa, mas agora estou apenas a comparar o sentido altamente cultural dos textos destes dois jornalistas separados por mais de um século. Quem quiser que os leia e tire as suas conclusões, talvez fazendo a seguinte pergunta a si próprio ou aos seus amigos: a sociedade portuguesa mudou para melhor? Tem mudado? Tem hipóteses de mudar? Eu cá por mim sou otimista e o livro de Aurélio Cunha, também com o seu humor, faz-me acreditar que sim, que tal é possível. Apesar de tudo estamos no ocidente, numa sociedade livre para se interrogar a si própria sem medos tolos, ainda que tarde, e de tal jamais abdicaremos.
«O jornalismo na sua justa e verdadeira atitude, seria a intervenção permanente do país na sua própria vida política, moral, religiosa, literária e industrial (…). É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os atos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença das outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes». Isto escreveu Eça de Queirós, então um jovem jornalista com vinte e dois anos, no Distrito de Évora em 1867. São estes bons e profissionais princípios que vejo agora no livro de Aurélio Cunha, cento e cinquenta anos depois ainda fazem falta.
Obrigado Aurélio: Eça com certeza terá gostado do seu livro. Deliciado mas, certamente, preocupado, pois afinal não mudamos ainda assim tanto para melhor.


J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria
Carteira Profissional de jornalista TE-638


Livros e publicações

 Douro 03

Acaba de ser publicado o número 3 da revista Douro-Vinho, História & Património/ Wine, History and Heritage, propriedade da Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho/ GEHVID, dirigida por António Barros Cardoso, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O presente número tem a colaboração de J. A. Gonçalves Guimarães, membro do Conselho Consultivo da revista, que assina um estudo sobre “Vale Meão. Antecedentes de uma quinta vinícola e olivícola no Douro Superior”, feito no âmbito dos trabalhos do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-Confraria Queirosiana, e um outro estudo de Nuno Resende, também membro do mesmo gabinete, sobre “Pontes e vias medievais a sul do Douro na região de Montemuro: as primeiras questões”, entre os diversos artigos subscritos por investigadores nacionais e estrangeiros nesta edição referente ao ano de 2014.

 A. Campos Matos


É verdadeiramente notável a atividade editorial de A. Campos Matos que se anuncia para este ano de 2015: para além de ainda circularem no Brasil alguns já raros exemplares do seu livro Eça de Queiroz. Uma biografia, editado pela Universidade de Campinas (Unicamp), acaba de sair uma segunda edição revista e aumentada de Sexo e Sensualidade em Eça de Queiroz, pela editora Esfera Poética, com notáveis ilustrações de Rui Campos Matos. Em Maio sairá o segundo volume de Diário Íntimo de Carlos da Maia, e entretanto, o Dicionário de Eça de Queiroz, nova edição, tem a revisão terminada, devendo ser lançado ainda este ano. Este incansável investigador e autor de temática queirosiana trabalha ainda na preservação do seu espólio, provavelmente a maior biblioteca queirosiana do mundo, a qual deverá permanecer intacta e em Portugal, continuadamente enriquecida pelo seu proprietário e organizador.


Os Maias ilustrados

          No passado dia 13 de fevereiro na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura, ao Chiado, em Lisboa, a obra “Os Maias – antologia ilustrada”, de Rui Campos Matos, publicada pela Editora Exclamação, foi apresentada pelo presidente da instituição e nosso confrade, Prof. Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

Exposições
        

           No passado dia 7 de fevereiro foi inaugurada no Solar Condes de Resende a exposição “ A Grande Guerra e a Literatura”, organizada por José Valle de Figueiredo, a qual apresenta um apreciável número de obras de escritores portugueses sobre a participação lusa naquele conflito de que se evoca o centenário. Para além da mostra bibliográfica, exibe-se um trecho do filme João Ratão, de Brum do Canto, a única produção cinematográfica portuguesa que evoca a participação portuguesa nos combates da Flandres. Em vitrinas, algum material bélico e bibliografia da época ou sobre a 1ª Grande Guerra das coleções do Solar Condes de Resende e da Confraria Queirosiana completam a exposição.

Cursos, palestras e conferências

       Integrada no curso “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos)”, 5ª edição, a decorrer no Solar Condes de Resende, no passado dia 7 de fevereiro teve lugar a aula do Professor Doutor Jorge Fernandes Alves sobre “A industrialização da região do Porto”.
         Hoje, 25 de fevereiro, às 18 horas, na Galeria Nave dos Paços do Concelho de Matosinhos, o Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva falará sobre “A participação das populações na elaboração dos Forais Manuelinos”, integrada no ciclo Conferências do Foral comemorativo dos seus quinhentos anos.
No próximo dia 26 deste mês, nas palestras das últimas quintas-feiras, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “Há bruxas (e bruxos) em Gaia? Uma visão antropológica e histórica do tema”.
Nos dias 27 e 28, no 25º Fórum Avintense estarão presentes com comunicação, diversos membros da Confraria Queirosiana, nomeadamente Eva Baptista, J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira, que falarão sobre o projeto Cidadania e Património criado pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património para as AECS aplicado à freguesia de Avintes, e aquela última investigadora falará ainda sobre o busto do industrial Pimenta da Fonseca, proprietário da Companhia de Fiação de Crestuma, da autoria do escultor avintense Henrique Moreira.
         No dia 28 pelas 15 horas e integrado no curso acima referido que decorre no Solar Condes de Resende, o historiador Joel Cleto falará sobre “ Matosinhos, do julgado de Bouças ao grande porto atlântico de Leixões”
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 7 – quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Eça & Outras, 25 de janeiro de 2015

Je suis Hebdo!

         Entendamo-nos: um ser humano dos dias de hoje que só tenha lido um livro, sagrado ou político, nunca compreenderá o mundo e a humanidade na sua plenitude. Pode mesmo acontecer que acredite que “o seu livro” é a única verdade e que, quem sobre tal esboçar um leve sorriso, escrever um poema, desenhar um cartoon, fizer um filme, ou mesmo formular algumas elementares perguntas sobre as suas origens, autor(res) e condições de escrita, estará a ofendê-lo e a ofendê-la (à “única verdade”) e, nesse caso, o defensor do “livro único” poderá achar que o questionador merecerá morte violenta, sem direito a encolher de ombros. Os crentes nas verdades únicas, que são sempre étnicas, totémicas e teológicas, e nunca universais, humanistas e racionais, seguem à letra o que ali está escrito, quer “o resto” da humanidade (os das outras religiões, os indiferentes, os não crentes, os racionalistas militantes…) queira ou não queira. Cheio de humana compreensão, estenda a um desses dogmáticos a fraterna mão do diálogo e vai ver o desdém com que é mimoseado e, em alguns casos e locais, anda com sorte se sobre si não ocorrer a prisão arbitrária, a facada, o tiro ou a bomba com que o presenteiam. São assim os “iluminados”, quase sempre pessoas pouco cultas, com capacidades intelectuais pouco desenvolvidas, insuportáveis ao convívio humano. Às vezes com alma de criminosos, as mais das vezes simples patetas a soldo de outros mais espertos. Não são exclusivos de qualquer religião ou crença, ainda que laica.
         Mais valia pois que não soubessem ler livro algum. O saber parcial, transformado em militância religiosa ou política é mais perigoso do que a ignorância, pois falta-lhe a humildade que só a consciência da pequenez individual nos dá. Foi o que recentemente aconteceu em França quando um grupo destes devotos do Parcial atacou o jornal Charlie Hebdomadaire e assassinou 12 pessoas pelo facto desta publicação os incomodar com algumas pilhérias sobre a sua intocável “meia” sabedoria (e meia é favor, pois nem sequer abrange metade da humanidade e, mesmo que tal acontecesse, tal não quereria, só por si, dizer que essa meia verdade estivesse certa e fosse “intocável”, exceto, claro, para os que nela acreditam).
         Nós, europeus e portugueses, sabemos do que estamos a falar, pois já fomos assim: já tivemos cruzadas contra os albigenses e outros povos com outros credos, tivemos inquisições, analfabetismos, censuras, perseguições políticas, totalitarismos, a “verdade oficial” contra as evidências das descobertas. Fomos, mas já quase o não somos: desde o século XVI fomos introduzindo a dúvida metódica no nosso quotidiano e a Terra passou a girar à volta do Sol, contra o parecer das igrejas e dos estados. Tenho para mim como historiador que o fundamentalismo se agudiza sempre que os povos se movimentam em levas pelo orbe, como acontece nos dias de hoje. Os caciques locais na origem querem transformar cada emigrante num missionário e cada um deles num guerreiro. Na realidade temem que “o” ou “a” “dos nossos”, até aí servos locais, se transformem em cidadãos de um mundo livre e passem a ser “dos outros”. Têm medo que eles lhes escapem, e às suas “verdades”. Depois, para abrigo da sua intolerância, escudam-se na obrigatoriedade do respeito dos outros pelas suas opções, respeito esse que normalmente os “ocidentais” atualmente praticam sem grande esforço e, às vezes, com demasiada benevolência. Na sua arrogância, os fundamentalistas nem se dão conta de que, se levadas à letra, grande parte das suas crenças ofendem todos os dias os princípios da Biologia, da Física, da Matemática, da História, da Medicina e de muita da sabedoria humana acumulada ao longo dos séculos pelos livres pensadores (ainda que crentes) que ousaram descrer das “verdades únicas” e cujas ousadias de liberdade de pensamento hoje fazem parte do nosso quotidiano. Por aqueles outros ainda andaríamos a pastorear camelos ou ovelhas e não saberíamos nada de micróbios. Ou seja, ofendem uma boa parte da humanidade que com eles convive e que nestes outros princípios da Cultura, da Ciência e da Técnica acredita, praticando-os, até sem de tal se aperceber, todos os dias. Só que, ao contrário da prática dos “iluminados”, respondem-lhes com a Tolerância. Acabem-me pois com essa conversa hipócrita dos melindres dos respeitos, que têm pelo menos de ter como regra básica o deverem ser recíprocos. De outro modo serão subserviência intelectual ou mesmo medo, ainda que em nome do pacífico convívio humano entre indivíduos com crenças diferentes. Tal como o papa Francisco, também era capaz de dar um murro a quem ofendesse a minha mãe. Mas não é dessa humaníssima reação que estamos a falar, mas sim do que pensam, e atuam em conformidade, a mãe, o pai, a família, a comunidade, o país e a região das pessoas que querem impor aos outros as suas crenças e convicções pela violência através de religiões, serviços secretos, exércitos, bandos, máfias, clubes, seitas, comandos, comentadores, etc.
         O mundo, sob risco de perecer, fatalmente caminhará em direção à fraternidade universal, ainda que de tempos a tempos os fanáticos mostrem a sua impotência matando os companheiros que seguem pela Estrada Larga da Vida (Walt Whitman), aquela que se palmilha lado a lado, ombro a ombro, para além da etnia, da língua, da religião, da nacionalidade, das ideias que cada um carrega, espera-se que sempre em liberdade e pela liberdade. Avisou-nos Eça de Queirós: «Quiseste criar os Direitos do Homem, trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vai sempre fugindo de Ti, e só às vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue!» (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras).
         E se há coisa que os “iluminados” não suportem, entre muitas outras, é uma inocente criança a gritar “Os profetas vão nus”. Voltemos a Eça: «O riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta duma instituição, e a instituição alui-se… O riso é a mais útil forma de crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e não ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo. É por isso que hoje é tão útil como irreverente rir das ideias do passado…» (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas).
         Meu Caro Eça: tu, que com a tua ironia salvaste este país de se tornar no Portugalistão, por certo que já aí, no Paraíso da Boa Memória Humana, acolheste os nossos amigos do Charlie Hebdo, mas, felizes por finalmente te conhecerem – um deles (exagerado) até te chamou profeta! - ainda não lhes disseste que foste tu quem um dia escreveu: «Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre).
         Na nossa crença é assim. E também exigimos respeito. Mas podem caricaturar à vontade as nossas convicções, sem medos de quaisquer represálias. A Liberdade de expressão é com certeza um direito divino. Por isso alguns dele têm tanto medo.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Publicações


Encontra-se em distribuição o n.º 79 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, com quem os ASCR-CQ têm protocolo de colaboração e de que é diretor o nosso sócio Dr. Francisco Barbosa da Costa. No seu interior, J. A. Gonçalves Guimarães escreveu sobre «Mafamude: de freguesia rural a sede do município de Vila Nova de Gaia», Abel Ernesto Barros sobre «Jugos e cangas em Vila Nova de Gaia» e Salvador Almeida sobre o «Plano municipal de prevenção e atuação de cheias no Douro de Vila Nova de Gaia», para além de artigos de outros colaboradores sobre caminho-de-ferro e estudos de Biologia marítima.

        
Por sua vez, editado pela Associação dos Amigos de Pereiros, com quem a Confraria Queirosiana tem igualmente um protocolo de colaboração, acaba de ser lançado o livro “Pereiros na Região Demarcada do Douro ou Fora Dela”, compilado pelo nosso confrade A. Silva Fernandes, presidente daquela associação, o qual reuniu a documentação enviada ao longo de anos a todas as autoridades nacionais a protestar contra a Portaria 1080/82 que excluiu aquela freguesia de S. João da Pesqueira da Região Demarcada do Douro onde desde sempre esteve integrada.

Conferências, aulas e palestras

Prossegue no Solar Condes de Resende o curso sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos), tendo falado no passado dia 10 o biólogo Doutor Nuno Oliveira sobre o “Contributo para o conhecimento da fauna e flora da região do Porto por alguns naturalistas dos séculos XVIII e XIX”, e no dia 17 o historiador da Arte, Prof. Doutor José Manuel Tedim sobre “Arte barroca e neo-clássica na região portuense: Nasoni e seus émulos”. O curso prossegue no dia 7 de fevereiro com uma aula sobre “ A industrialização da região do Porto”, pelo historiador Professor Doutor Jorge Alves.
No dia 8 de janeiro o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo proferiu na Casa do Infante, no Porto, uma conferência sobre os 3000 anos de História do Antigo Egito como introdução às viagens abaixo indicadas.
Prosseguem igualmente as palestras das últimas quintas-feiras do mês no Solar: no próximo dia 29 o Dr. Licínio Santos falará sobre “ Cultura e lazer operários nos finais da Monarquia e princípios da República”, tema da sua tese de Mestrado recentemente apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Viagens ao Egito e à Terra Santa

Em colaboração com a empresa Pinto Lopes Viagens, no presente ano de 2015, o egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, docente da Universidade de Lisboa, vice-presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e diretor da sua Revista de Portugal, vai dirigir três viagens sobre temática egiptológica e queirosiana: a primeira terá lugar de 26 de março a 6 de abril, designada como “ Visita de Estudo ao Egito”, percorrendo os locais mais emblemáticos desta antiga civilização; a segunda terá lugar de 13 a 23 de agosto e chamar-se-á “ Egito na Europa”, visitando os grandes museus europeus com coleções egípcias. A terceira viagem decorrerá de 26 de dezembro a 3 de janeiro de 2016 e decalcará a visita de Eça de Queirós e o Conde de Resende à Terra Santa realizada em 1869, com passagem de ano em Jerusalém.
         Os interessados deverão contatar a Confraria Queirosiana que os encaminhará para as entidades organizadoras.

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Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 77 – domingo, 25 de janeiro de 2015
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eça & Outras, 25 de dezembro de 2014

A propósito de biografias

          Como historiador profissional que também se tem dedicado à biografia continuo a interrogar-me sobre a sua metodologia e valia cultural e social, para além do seu valor literário ou histórico. Desculpem-me este lembrar da minha própria oficina, mas com tal pretendo apenas dizer que terei alguma aptidão pessoal para avaliar as dificuldades da sua produção e do seu interesse para os leitores. Efetivamente, para além de aspetos das biografias de gente do povo e de alguns mais notáveis, nomeadamente os gaienses que deixaram bens desde o século XVI à Misericórdia do Porto, também já trabalhei a vida, a obra e a época de Mahamud (séc. IX); de J. M. Virginiano, escritor da Régua da 1.ª metade do século XIX; do Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo, expoente da diplomacia portuguesa; de William Wharthon Cassels, 1.º bispo anglicano da China Ocidental; de Adriano Ramos Pinto, mestre da Arte Publicitária e comerciante de vinhos de sucesso, de Artur Napoleão e seus irmãos Aníbal e Alfredo, músicos portugueses de nomeada, todos estes últimos da 2.ª metade do século XIX, encontrando-me agora empenhado na elaboração, em colaboração com a historiadora Susana Guimarães, da biografia do Visconde de Beire, herói da Guerra Peninsular, nascido no Solar Condes de Resende e bisavô dos filhos de Eça de Queirós. Creio pois ter algumas capacidades para refletir sobre o assunto.
         Antes de mais deixem-me lembrar-lhes que o exercício biográfico rigoroso é relativamente recente. Datará apenas do século XIX, com o Positivismo, a elaboração de uma metodologia própria para a sua escrita, primeiro das grandes personalidades da história pátria, como o fizeram, entre nós, Alexandre Herculano ou Oliveira Martins, e depois alguns outros, questionando os relatos antigos e a sua fundamentação, recuperando crónicas e textos postos de lado pelas mitologias romanceadas escritas ao longo dos tempos, se bem que continuemos a assistir nos dias de hoje à proliferação de “romances históricos”, que de históricos têm muito pouco, pois são meros exercícios de fantasia, ou de mais do mesmo, em volta de assuntos e personagens de sucesso garantido, trocando os seus autores, que as mais das vezes não têm formação para tal, o labor árduo e demorado da análise das fontes e do seu enquadramento épocal, pela ligeireza da mitomania apostada no sucesso imediato. Não é disso pois que aqui tratamos: uma biografia tem de procurar alicerçar-se em fontes sólidas, confrontar os relatos mais ou menos parciais que já existam e procurar dar-nos uma descrição credível, mas nem por isso menos atraente na leitura ou na descrição da pessoa, dos factos, do painel humano em que o biografado se moveu, quer na vida íntima, quer na sociedade.
         Vejamos o que um pensador do século XX disse sobre o exercício da escrita biográfica: para André Maurois, em Aspects de la Biographie. Paris: Au Sans Pareil, 1928, o biógrafo deve ter em mente três princípios fundamentais: 1 – a procura corajosa da verdade; 2 – preocupação com a complexidade da pessoa humana; 3 – reconhecimento de que a personalidade é qualquer coisa que tem a intangibilidade do arco-íris (citado por Matos, A. Campos, Dicionário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930)), Lisboa: Edições Colibri, 2014, p. 334, tradução). O biógrafo não é pois, nem deve ser, um ficcionista, como muito bem advertiu recentemente este autor, aliás numa notável obra de ficção (idem, idem, p. 382), «… é necessário ter cuidado com a veracidade do que escrevem os escritores sobretudo os ficcionistas. Estão sempre prontos a sacrificar a verdade dos factos se entenderem que esse sacrifício lhes traz vantagens de forma e efeitos de estilo, ou satisfações à sua vaidade».
         Logo, um biógrafo, repito, não é, nem pode ser, um ficcionista e a biografia das pessoas concretas que elabora, uma ficção. Deve antes, por entre a floresta dos factos disponíveis que vai encontrando, escolher os ramos mais significativos e com eles compor a paisagem de uma vida e a sua moldura que, com verdade, dê a conhecer aos leitores, tendo em conta que por mais completa e factual que ela seja, muitas coisas ficarão por contar, porque o ser humano é naturalmente complexo. E deixemos agora de lado as falsas biografias, as falsas autobiografias, as biografias laudatórias de pessoas vivas e até a ausência de biografia de quem não as quer.
         Tomando aqui um exemplo, ocorre-me o de Eça de Queirós que recusou com veemência que lhe escrevessem a biografia em vida mas que, ao longo do século XX, já teve oito ou nove biógrafos principais, alguns deles criando ou repetindo mitos sobre a sua vida, que desde então persistem em andar por aí, outros desmontando-os, acrescentando novos e desconhecidos factos, alguns descobertos muito recentemente, e que têm vindo a enriquecer a sua biografia e a permitir um maior e melhor conhecimento da sua obra, da sua época e das suas relações com o mundo.
         «Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra» (carta de Eça a Ramalho Ortigão de 10.11.1878). Se é certo que esta frase reflete a visão que o escritor queria que dele tivessem os seus contemporâneos, sabemos hoje que se trata de mais uma das suas muitas dissimulações: aquela república, bem assim como a de São Marino e até a de Portugal, país onde tanto se prezam os mitos e as fantasias, também têm história. Experimentem perguntar aos historiadores.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Aniversário de Eça de Queirós

O 169.º aniversário de Eça de Queirós foi comemorado no país com diversas manifestações culturais. Para além do capítulo da Confraria Queirosiana realizado no dia 22 de novembro no Solar Condes de Resende em Vila Nova de Gaia, e do jantar no Grémio Literário em Lisboa no dia 25 de novembro, precedido pela exibição de cenas do filme de João Botelho sobre Os Maias ali filmadas, comentadas pelo realizador e com a presença de alguns os atores e técnicos desta produção, nesse mesmo dia decorreu uma sessão comemorativa na loja Porto de Baião, na cidade do Porto, com a presença de José Luís Carneiro, presidente da Câmara Municipal de Baião, do mesário-mor da Confraria Queirosiana e outros confrades, de membros da direção da Fundação Eça de Queiroz e da Câmara de Amarante. Na ocasião foi apresentado o “Prémio Fundação Eça de Queiroz”, aberta ao público a mostra documental sobre “Eça de Queiroz – Teixeira de Pascoaes” e lançado o livro “Eça de Queiroz e a Casa de Tormes” de Secundino Cunha, o qual, no dia 28 de novembro seria também lançado na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto da Póvoa de Varzim, onde foi apresentado pela Dr.ª Maria da Conceição Nogueira.
         Nesse mesmo dia foi também lançado no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha no Porto a 2ª edição do livro “Os Maias – Antologia Ilustrada”, da autoria de Rui Campos Matos, um álbum sobre o romance com grande qualidade gráfica e interpretativa, lançado pela Editora Exclamação de Leça da Palmeira.
 Entre os dias 24 a 29 de novembro, com a presença de vários confrades, decorreu na Escola Secundária Eça de Queirós em Lisboa o XX Colóquio dos Olivais, organizado pelo Centro Cultural Eça de Queirós.

Livros, revistas e traduções

Correspondência queirosiana

        
Pela Colares Editora acaba de aparecer no mercado um novo contributo de A. Campos Matos para a publicação integral da epistolografia queirosiana, intitulado “Eça de Queiroz Correspondência (Adenda II)”, a complementar a edição publicada pela Caminho em 2008 e a “Adenda” [I], publicada pela Parceria A. M. Pereira em 2013. Desta vez trata-se da carta de Eça a Junqueiro a agradecer a sua recensão a O Primo Basílio escrita em 1878 e da versão integral de uma carta de Eça a Eduardo Prado da década de noventa, comentadas e enquadradas pelo autor.
         Estamos certos que A. Campos Matos continuará a surpreender-nos com outras importantes achegas para a compreensão da vida e obra do escritor, e que o seu labor terá o reconhecimento público que há muito merece.

Documentos queirosianos

         Pelo presidente da Associação Cultural Amigos de Gaia, Doutor Salvador Almeida, foi oferecida à Confraria Queirosiana uma cópia da Carta Patente da Nomeação de Eça de Queirós como cônsul de 1ª classe no Havre e Paris, a qual foi oferecida àquela associação aquando da sua última visita ao roteiro queirosiano francês. Esta cópia vem assim enriquecer o espólio documental da Confraria que conta já com cópias dos manuscritos de Eça existentes no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, para além de outros.

Ernestina, nova edição

        
Foi recentemente publicada pela Quetzal uma nova edição do romance autobiográfico “Ernestina”, de J. Rentes de Carvalho, que se apresenta com uma belíssima capa. Para além do seu valor literário – uma obra de referência da Literatura Portuguesa do século XX – é ao mesmo tempo o mais belo texto sobre o Centro Histórico de Gaia, relatando a sua vivência entre os anos trinta e a Segunda Grande Guerra, quando aqui chegava em veleiros portugueses o bacalhau da Terra Nova e daqui partia para todo o mundo o Vinho do Porto.


Telheiras

Acaba de ser publicado o n.º 7 da 2.ª série da revista “Telheiras – cadernos culturais. Lumiar – Olivais – Telheiras”, referente a novembro de 2014, dirigida por Fernando Andrade Lemos e José António Silva, com artigos dos diretores e dos confrades César Veloso e Alda Barata Salgueiro, entre muitos outros, sendo alguns de temática queirosiana, até porque esta revista é propriedade do Centro Cultural Eça de Queiroz/ Escola Secundária Eça de Queirós/ Centro Cultural de Telheiras, em Lisboa.

Eça em hebraico

         Através do realizador Amílcar Rodrigues foi-nos enviado o conto de Eça de Queirós “O Suave Milagre” traduzido para hebraico por Francisco da Costa Reis que, por sua vez, já tinha traduzido para a mesma língua o texto “Carta a Mr. Bertrand – Engenheiro na Palestina” do livro “Correspondência de Fradique Mendes”, publicado na revista “Moznaim” da Associação dos Escritores Hebraicos de Israel, em dezembro de 1999.

Salon d´Automne queirosano 2014
        
Durante os meses de novembro e dezembro esteve aberto ao público no Solar Condes de Resende o Salon d’ Automne queirosiano 2014 com obras de pintura, fotografia, escultura e cerâmica de Abel Barros, Angelina Rodrigues, António Pinto, António Rua, Beatriz Correia, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Ilda Gomes, Susana Moncóvio e Valença Cabral. Alguns dos expositores são alunos do Curso de Pintura do Solar dirigido pela Prof.ª Paula Alves.
        

Cursos e Palestras

         Continua a decorrer no Solar Condes de Resende o curso sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos), tendo sido conferencistas os professores Francisco Ribeiro da Silva, sobre o tema “O Porto e o seu Termo no período filipino” a 6 de dezembro, e António Barros Cardoso sobre “O Douro, o Porto e o Vinho – das origens à criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro” a 13 de dezembro.
          Continuou também nesta Casa, que celebra 30 anos de propriedade municipal, o ciclo de palestras mensais das últimas quintas-feiras do mês, no passado dia 27 de novembro com J. A. Gonçalves Guimarães a dissertar sobre “As tradições do Natal aos Reis”, tendo a 29 do mesmo mês este investigador apresentado no Salão Nobre da Misericórdia de Gaia o livro “António Almeida da Costa. Industrial. Humanista. Filantropo” da autoria de Fernando António da Silva Correia editado por aquela entidade.
         No dia 6 de dezembro, no Auditório Orlando Ribeiro em Telheiras, Lisboa, decorreram as XI Jornadas Históricas do Lumiar, organizadas pelo nosso confrade Fernando Andrade Lemos e seus colaboradores.
         No passado dia 20 de dezembro, Francisco Barbosa da Costa proferiu uma palestra sobre a Primeira Grande Guerra na abertura de uma exposição alusiva ao tema no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia.
        
Património e cidadania

         Nos dias 12 e 13 de dezembro decorreu no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o Encontro Internacional sobre os Municípios na Modernização Educacional e Cultural, patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura, a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Fundação Calouste Gulbenkian, onde estiveram presentes vários confrades queirosianos desta área. Na ocasião, Eva Baptista e Fátima Teixeira apresentaram a comunicação intitulada “Educação Cívica e Património Local (Atividade de Enriquecimento Curricular)” , baseada no projeto elaborado pelas autoras, em colaboração com J. A. Gonçalves Guimarães, no âmbito das ações educativas do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana, o qual se encontra em aplicação no âmbito das atividades extra-curriculares (AEC.s) em vários agrupamentos do Município de Vila Nova de Gaia , pretendendo os autores levá-lo agora a outros municípios do país.

Em Sintra

         No passado dia 13 de dezembro decorreu o IV capítulo da Confraria dos Sabores de Sintra no Palácio Nacional de Queluz, no qual a Confraria Queirosiana se fez representar pelo seu vice-presidente Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, estando igualmente presentes outros confrades. O jantar decorreu na cozinha velha daquele monumento nacional, no qual esteve presente o presidente da edilidade.
        
Deputada

         Assumiu recentemente as funções de deputada à Assembleia da República a nossa confrade Adelaide Canastro, integrando o grupo parlamentar do Partido Social Democrata. Solicitadora de profissão, no anterior mandato autárquico foi presidente da Junta de Freguesia de Canelas.
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Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 76 – quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
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