terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dia natalício de Eça de Queirós

O Diário Íntimo de A. Campos Matos

A. Campos Matos é sem sombra de dúvida o maior interlocutor de sempre entre a vida e a obra de Eça de Queirós e a sua realidade. Para defender tal afirmação bastaria lembrarmos a sua direção e participação no Dicionário de Eça de Queirós, de que se aguarda renovada edição, a que juntaríamos Eça de Queiroz. Uma biografia (2010), escrita após a publicação de 7 biografias de Eça de Queiroz (2004) e muitos outros ensaios. A. Campos Matos possuirá a maior biblioteca estritamente queirosiana do mundo, pois começou aos catorze anos a reuni-la a partir da biografia de Eça escrita por João Gaspar Simões e, desde então, coletou “tudo” sobre a matéria, a que juntou num arquivo pessoal tudo quanto é recorte de jornal, pagela, folheto, menu, etc. sobre temas queirosianos e ainda autógrafos do escritor e outra memorabilia.
Para escrever aquela sóbria e repensada biografia refletiu sobre a problemática do tema debatida por Holroyd, Virgínia Woolf, Maurois, Sartre, Kendall, Edel, Barthes e alguns autores portugueses na sua esteira, o que deu como resultado «não… um inventário de factos (da vida e obra) mas da tentativa de os conectar e de extrair deles escondidos significados, insuspeitados para o leitor desprevenido, de modo a criar uma personalidade viva. A arte do biógrafo deverá almejar a esse difícil desígnio» (Eça de Queiroz. Uma biografia, p. 26/27). E aí temos o biógrafo creditado. Mas também aí refere que o leitor, a quem afinal tudo isto se destina, «deverá avaliar [-se] que grau e espécie de intimidade tem o biógrafo com o seu autor, que tempo de convívio, que profundidade de leitura» (idem, p. 17), a que acrescentaríamos que “conversas” têm tido Eça e Campos Matos ao longo destes anos de “convívio”, algumas das quais estão publicadas em, por exemplo, Sobre Eça de Queiroz (2002).
E vai daí, fruto com certeza de muitas outras confidencias que não conhecemos, o biógrafo veríssimo publicou agora o Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930), sim senhor, esse mesmo, o de Os Maias, que não se matou nem se morreu quando descobriu a tragédia em que os fados o envolveram e na qual nenhuma culpa lhe cabe. Não tendo Eça tido tempo para publicar um terceiro volume onde nos contasse o que lhe sucedeu depois, A. Campos Matos veio a saber da existência deste seu diário encontrado na Livraria Lello do Porto (pois em que outro lugar do universo queirosiano haveria ele de aparecer?) e, o que é mais, prefaciado pelo seu filho, médico como o pai, e poeta.
Neste repositório de memórias, a personagem Carlos da Maia fala do seu criador, das vezes que esteve perto dele sem se atrever a falar-lhe, talvez para não “o corrigir”, pois nem sempre concorda com as opiniões que o criador tem sobre a sua criação. E o que é mais, com a morte prematura de Eça, Carlos da Maia descreve-nos queirosianamente muitos acontecimentos que lhe são posteriores, uns mundiais, como a 1.ª Grande Guerra, outros nacionais como a 1.ª República, outros regionais, ocorridos no Vale do Douro, outros locais, como os da sua quinta em Resende, outros familiares, como o seu casamento ou a carreira de seu filho, outros pessoais, como o seu exercício da Medicina, outros íntimos em muitas páginas de um diário que haveria de ser lido quando desaparecesse. E A. Campos Matos já o “matou”, pelo menos por agora.
Nestas páginas encontramos reflexões sobre as religiões, a literatura e a arte, mas também sobre o espírito crítico de António Sérgio nos seus ensaios, além de acontecimentos e personalidades da época, de Maximiano Lemos, a Raul Brandão e Sidónio Pais, ou o fenómeno de Fátima e de novo e sempre o duelo entre a ficção e a realidade: «… é necessário ter cuidado com a veracidade do que escrevem os escritores, sobretudo os ficcionistas. Estão sempre prontos a sacrificar a verdade dos factos se entenderem que esse sacrifício lhes traz vantagens de forma e efeitos de estilo, ou satisfações à sua vaidade» (op. cit. p. 382).
No posfácio, o autor constata que «o problema da efabulação literária sobre uma obra levanta, para muitos, esta interrogação: é ou não legítimo fazê-la?». Creio que mais do que uma questão de legitimidade, da lege, deveríamos antes interrogamo-nos se a obra ficou bem conseguida, se nos agrada. E aqui não tenho dúvidas: este Diário Íntimo de Carlos da Maia é uma notável (re)criação de A. Campos Matos, o resultado do seu quotidiano diálogo  de muitos anos com o escritor e que pode ser lido como um contributo à sua perenidade intemporal através destas memórias carregada de realidades sobre as quais certamente Eça de Queirós teria escrito se a vida se lhe tivesse alongado e viesse a morrer aos noventa e cinco anos. Como tal não aconteceu, A. Campos Matos transfigurou-se nesta efabulação e criou este livro onde pôs tudo quanto obteve da intimidade que tem com ele desde os catorze anos. Competirá ao leitor decidir onde termina um e continua o outro, se é que tal questão se pode pôr, pois para a pessoalidade da obra ela tem pouco interesse: este Diário é de Carlos da Maia, prefaciado por seu filho, ambos representados por A. Campos Matos, porque a fantasia não existe sem tutor, e será lido por muitos dos seus netos e bisnetos, que somos nós, conscientes de que vivemos apenas «…o que vive um foguete, o espaço dum estalo e dum clarão» (Eça de Queirós, O Conde de Abranhos).

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Capítulo da Confraria Queirosiana

           
   No passado dia 22 de novembro decorreu no Solar Condes de Resende o 12º Capítulo da Confraria Queirosiana. A partir das 17,30 foram chegando os confrades e sócios vindos dos diversos pontos do país, e alguns outros chegados na véspera do Brasil e naquele próprio dia de Luanda.
     Reunidos nas antigas dependências da Casa, o cortejo de confrades desceu ao pátio e subiu ao salão nobre por entre as salas com as obras de arte do Salon d’ Automne queirosiano 2014. Esperava-os a orquestra de câmara da Escola de Música de Perosinho dirigida pelo maestro Prof. João Costa, a executar a Pastoral do Concerto Grosso em sol menor op. 6 n.º 8 de Corelli. A mesa foi formada por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que viria a ser insigniado neste mesmo capítulo; José Manuel Tedim, presidente da direção; César Oliveira, presidente da mesa da assembleia geral; J. A. Gonçalves Guimarães, mesário mor da Confraria e Olga Cavaleiro, presidente da Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas, que usaram da palavra para referir as atividades da Confraria, dar as boas vindas às instituições presentes, aludir ao papel das confrarias na cultura portuguesa e, o presidente no encerramento da sessão, às atribuições do Solar enquanto equipamento municipal no programa da câmara para a Cultura e a Educação. Estiveram presentes, além das instituições já referidas, a Associação Cultural Amigos de Gaia, Associação de Amizade Portugal- Egito; Associação dos Amigos de Pereiros; Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal; Confraria do Medronho, Tábua; Confraria do Vinho de Carcavelos; Confraria dos Enófilos da Estremadura; Confraria dos Sabores de Sintra; Confraria dos Ovos Moles de Aveiro; Confraria Gastronómica do Concelho de Ovar; Gertal; jornal As Artes entre as Letras; Junta de Freguesia de Canelas e Urbiface.
            Os sócios falecidos em 2013, D. Diogo de Cernache, 5º Conde de Campo Bello e o Eng.º José Pereira Gonçalves, foram recordados pelo mesário-mor e evocados nas páginas do n.º 11 da Revista de Portugal.
            Seguiu-se a assinatura de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e os ASCR - Confraria Queirosiana, de especial incidência no âmbito cultural e no projeto dos investigadores-tarefeiros.
            Foi ainda divulgado o bastão queirosiano, réplica do que Eça ostenta na “fotografia de noivado”, o qual complementa o trajo dos confrades.
Foram depois chamados os confrades que, ao abrigo dos Estatutos da Confraria, mudaram de grau devido à apresentação e divulgação de trabalhos sobre a vida, obra e época de Eça de Queirós, nomeadamente Eva Baptista, Licínio Santos, Maia de Fátima Teixeira e Sílvia Santos, a que se seguiu a insigniação dos novos confrades, Ricardo Haddad, industrial têxtil; Susana Moncóvio, historiadora da Arte e Eduardo Vítor Rodrigues, sociólogo e presidente da Câmara de Gaia. Não foi insigniado o realizador João Botelho pois, por motivos incontornáveis, não pode estar presente na cerimónia.
            A orquestra de Câmara tocou depois uma área de J. S. Bach e, após o discurso de encerramento, os três andamentos da obra de abertura do capítulo, após o que os presentes se dirigiram ao Jardim das Camélias, com exuberante floração nesta época do ano, colocar uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós.
        O convívio entre os confrades passou então ao pavilhão do Solar, onde foi servido o jantar queirosiano, abrilhantado pelos “Eça Bem Dito” que interpretaram canções da Belle Époque, tendo ao piano Maria João Ventura. Seguiu-se a exibição de danças de salão pela Academia Gente Gira e o Baile das Camélias.

Livros e revistas

Revista de Portugal

No capítulo de Confraria Queirosiana foi então lançado o n.º 11 da nova série da Revista de Portugal, de que é diretor Luís Manuel de Araújo. Dedicada aos 30 anos do Solar Condes de Resende como Casa Municipal de Cultura, apresenta na capa um recanto desta antiga residência senhorial pintado a óleo por Susana Guimarães e, no seu interior, o editorial, da autoria do diretor-adjunto da revista J. A. Gonçalves Guimarães e diretor da instituição, dedicado à efeméride, lembrando os aspetos mais relevantes destas três décadas e os acontecimentos internacionais que aqui tiveram lugar. Segue-se a memória dos confrades falecidos, D. Diogo de Cernache Conde de Campo Bello, e o Eng.º José Luís Pereira Gonçalves e depois diversos estudos sobre documentos em latim, entre eles um fragmento de partitura musical possivelmente do século X, da autoria de Manuel António Ribeiro; um estudo sobre a vida e obra de Leal da Câmara, de José Manuel Gonçalves; uma abordagem da História Empresarial a nível mundial por J. A. Gonçalves Guimarães; um depoimento circunstancial e pessoal sobre o 25 de Abril por Jaime Milheiro, a que se seguem recensões de Luís Manuel de Araújo e de José António Afonso sobre “A oratória política do Padre António Vieira” de José Nunes Carreira; as “Memórias Paroquiais de 1758”, vol. V; e sobre a Editora &etc., e uma notícia sobre o livro “Leiria no século XIX” de Charters d´Azevedo. O presente número inclui ainda a Bibliografia dos sócios e confrades referente a 2013 e as Atividades da associação editora no mesmo ano.

Na senda de Fernão Mendes
   



Editado pela Gradiva, foi lançado no passado dia 19 de novembro no Grémio Literário em Lisboa, o livro “Na senda de Fernão Mendes – Percursos Portugueses no Mundo” da autoria de Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. O livro reflete as visitas feitas por esta entidade sob o lema “Os Portugueses ao encontro da sua História”, peregrinações realizadas aos diversos pontos do globo por onde os portugueses deixaram a marca da sua passagem e da sua humanidade.




Escutar a Literatura
      

Da autoria de Mário Vieira de Carvalho, será apresentado a 18 de dezembro na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o livro “Escutar a Literatura. Universos sonoros da escrita”, que aborda as relações com a música e o canto de autores como Garrett, Teolinda Garção e Lídia Jorge, entre outros. Sobre Eça de Queirós apresenta este livro o interessantíssimo capítulo IV -  “ O som e a escuta na emergência do estilo queirosiano: O Crime do Padre Amaro”, aqui com quatro “andamentos” sobre a música nesta obra deste escritor.



Arquivos de Família

            Editado pelo Instituto de Estudos Medievais, com prefácio de Silvestre Lacerda e o patrocínio, entre outras entidades, do nosso confrade Ricardo Charters d’ Azevedo, vai ser lançado no dia 10 de dezembro no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, o utilíssimo livro “Arquivo de Família: Memórias Habitadas. Guia para salvaguarda e estudo de um património em risco”, o qual interessa a todos aqueles que têm arquivos privados e públicos, ou que têm de os rentabilizar culturalmente.
            Está também disponível em versão digital (e-book) no site daquele Instituto.

Eça no Teatro

            Entre 7 e 23 de novembro passados esteve em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada, a peça O Mandarim, adaptada do livro de Eça de Queirós e encenada por Teresa Gafeira, com sessões especiais para grupos escolares. Temos assim mais uma adaptação da obra do escritor ao palco.

Leiria queirosiana

            No Centro Histórico de Leiria na rua Barão de Viamonte, antiga rua Direita, abriu ao público o Espaço Eça, um bar onde se podem degustar algumas especialidades gastronómicas e enófilas e ler um livro, no cenário onde o escritor viveu um ano que lhe havia de inspirar O Crime do Padre Amaro.
            Com uma oferta bastante diversificada, bastava porém que fossem servidos os vinhos, outras bebidas, e as comidas constantes na obra de Eça, sem ser preciso inventar nada, pois não vemos o que é que o escritor terá a ver com os petiscos de Castelo de Vide e da parafernália de cervejas estrangeiras anunciadas para o local. Eça de Queirós deve ser texto e não pretexto para qualquer coisa que nada tenha a ver com o seu universo. Mesmo assim, a Confraria convida todos os seus confrades a frequentarem este bar e deseja o maior sucesso aos seus gerentes, independentemente de acatarem ou não as nossas sugestões.


Pereiros, aldeia dos sonhos

            A aldeia de Pereiros, S. João da Pesqueira, num concurso realizado pela Fundação INATEL intitulado “Aldeia dos Sonhos”, entre 65 selecionadas para a final, obteve um honroso segundo lugar. A candidatura foi apresentada pela Associação dos Amigos de Pereiros, com quem a Confraria Queirosiana tem um protocolo de colaboração já materializado em diversos projetos. A entrega do galardão teve lugar no dia 3 de novembro em Campo Maior, tendo aquela associação sido representada pelo nosso confrade Alberto Silva Fernandes.


Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 75 – terça feira, 25 de novembro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www .queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.pt; eca-e-outras .blogspot .pt; vinhosdeeca.blogspot.pt; academiaecadequeiros.blogspot.pt; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Charters d’ Azevedo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eça & Outras, 25 outubro 2014.

O Brasil entre nós

Não sei qual a primeira recordação que tenho da palavra Brasil, mas estou certo que a ouvi quando era muito novo. E não tenho a certeza se foi associada a Pedro Alvares Cabral ou à farinha de pau, ementa frequente na minha infância. E a tapioca, uma sobremesa deliciosa. Depois as canções na rádio, uma tal Carmen Miranda, uma Mara Abrantes e depois Vinícius de Morais e Chico Buarque da Holanda. E Gabriela, a telenovela de Jorge Amado. E muitas outras referências, sempre saudáveis, sempre simpáticas. Depois a Historia da construção dos dois países, separados por uma imensidão de águas, o que fez sonhar Bartolomeu de Gusmão e levar Gago Coutinho e Sacadura Cabral a concretizarem a aproximação em 1922. Depois a família: quase toda a gente que conheço tem família brasileira, tios, sobrinhos, primos que percorrem todos os dias as avenidas de Niterói, do Rio, de S. Paulo, da Baía, de Pernambuco, de tantas vilas perdidas e encontradas no sertão. Não os conhecemos pessoalmente. Há um Gonçalves Guimarães que publicou um “Canto da Amazónia” que não sou eu e não conheço. Primo brasileiro, descendente de meu tio Artur Peixoto Guimarães que só conheço de fotografia? Jamais saberei, mas guardo uma enorme dose de afeto para esses meus desconhecidos parentes brasileiros.
No Solar Condes de Resende, Casa tão ligada à História de ambos os países, que teve construtores comuns na Casa - torre Garcia d´ Ávila na Baía, entre outros aspetos, promovemos em 1995 o núcleo museológico da Amazónia, sob a denominação de “Mundurukus, Carajás e outros Índios do Brasil”, estudado pelo arqueólogo luso – brasileiro António Sérgio, e vamos fazendo a ponte permanente entre os brasileiros – gaienses, como o professor e poeta maior Domingos Carvalho da Silva, nascido em 1915 nos Carvalhos, e os gaienses – brasileiros que frequentam as nossas realizações.
O Brasil aí está, com os seus 200 milhões de lusodescendentes, de africanos, de índios, de italianos, de alemães, de japoneses e de tantos outros que o português carente de terra, de paciência e de postura foi procurar em cada canto do mundo.
Já do Brasil dizia Eça de Queirós, não ontem nem hoje mas no século dezanove, que «está, como nação, em pleno vivo êxito (apesar destes anos de atrapalhação política, que vem, não da falta das ideias, mas da falta de pessoal, junto a um individualismo exagerado que produz indisciplina). E nem pode deixar de estar em êxito, sendo como é, um povo superiormente inteligente, provadamente activo, e escandalosamente rico. Com tais qualidades que inveja pode ele ter do estrangeiro, e que medo da sua concorrência? E não tem, como soberbamente o prova, cada dia, com a sua magnífica franqueza hospitaleira, porque a hospitalidade não é somente um sinal de doçura: é sobretudo um sinal de força». (Eça de Queirós, Cartas de Paris «Cartas familiares»). Estas palavras ainda hoje valem em pleno.
Temos entre nós Dagoberto Carvalho Júnior, o quotidiano discípulo de Eça de Queirós do Piauí, presidente da Sociedade Eça de Queirós do Recife e mentor da Confraria Eça-Dagobertiana que os amigos lhe instituíram. Um brasileiro que se embala na língua comum, tão comum até nas diferenças, que nelas apenas vemos as joias que engrandecem esta coroa imperial da identificação atlântica. Não veio fazer conferências, mas apenas reabastecer-se de écite aguda (como diria A. Campos Matos) de que há muito sofre com prazer. Suponho que não terá cura. Nem quer.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário – mor da Confraria Queirosiana

Visita de Dagoberto Carvalho Júnior

O Cônsul do Brasil no Porto saudando os presentes
A Confraria Queirosiana recebeu a visita de seu confrade honorário, Dr. Dagoberto Carvalho Júnior, presidente da Sociedade Eça de Queiroz do Recife, médico, historiador da Arte, escritor, colunista e grande divulgador da vida e obra queirosianas que, mais uma vez, se encontra a percorrer os itinerários queirosianos de Portugal, acompanhado por sua esposa Cristina e sua irmã Fátima. Tendo passado por Lisboa e pelo Grémio Literário, esteve em Sintra com A. Campos Matos, alojando-se no Porto no Grande Hotel, por onde passaram Eça de Queirós e D. Pedro II, Imperador do Brasil. A 25 de Outubro a Confraria Queirosiana recebeu-o no Solar Condes de Resende, tendo presidido à sessão de boas-vindas o mesário-mor J. A. Gonçalves Guimarães, acompanhado por César Oliveira, presidente da assembleia geral, e o cônsul do Brasil no Porto, Embaixador Gelson Fonseca Júnior, que evocaram a obra e ação cultural do visitante e as ligações do Solar e de Vila Nova de Gaia ao Brasil. O homenageado agradeceu a receção (ver anexo), tendo-se em seguida os presentes dirigido ao Jardim das Camélias, onde foi colocada uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós. Seguiu-se um jantar queirosiano confecionado e servido pela direção da Confraria, acompanhado por vinhos da Quinta do Vale Meão, após o que os comensais se dirigiram de novo ao Salão Nobre do Solar onde o agrupamento Eça Bem Dito organizou um serão musical com canções do final da Belle Époque. No final os visitantes trocaram prendas com os anfitriões tendo Dagoberto Carvalho Júnior recebido o primeiro exemplar da réplica do bastão que Eça usou com o fato de casamento, mandada fazer pela Confraria que a partir de agora a disponibiliza aos seus confrades como complemento do traje.


Homenagem a Eça de Queirós

«De volta a Canelas

Não é sem a emoção da primeira visita – a maturidade longe de arrefecer, aviva minha admiração literária por Eça de Queiroz – que volto ao convívio desta Casa ilustre e amiga que me quis seu e da Confraria Queirosiana em Vila Nova de Gaia; aqui sabiamente abrigada, para lusa preservação de rico patrimônio arquitectônico do país, e internacionais repercussão e ressonância da Quinta da Costa, eterno solar de verão dos Condes de Resende.

Vejo-os senhoras e senhores, meus nobres pares, à frente esse intrépido cavaleiro do Quinto Império – de Fernando Pessoa e de Eça de Queiroz - , J. A. Gonçalves Guimarães (escritor, historiador, arqueólogo, patrimoniólogo, qualidades intelectuais que o personificam como mestre-doutor em todos esses saberes), quais sucessores de Luís e Manuel Castro, 5.º e 6.º condes do referido e reverenciado título; a testemunharem e presidirem-me a fidelização à vossa santa causa. Testemunhas de minha volta à Confraria seis longos e saudosos anos depois que dela me fiz arauto nas terras brasílicas por onde – em vida – começou Eça a ter leitores e devotos. Verdadeiro missionário do referido Quinto Império. Também, como teórico, porquanto precursor da verdade – depois, “pessoana” – de ser “na língua onde verdadeiramente reside a nacionalidade”. Disse-o em sua “Correspondência” (carta à Madame S), o segundo e inexcedível Fradique Mendes.

E já que falei na antecipação, em prosa, do verso perfeito de Fernando Pessoa – assertiva que, decerto, já vos havíeis ocorrido – eu a ofereço aos meus confrades como contribuição, se o contrário, verdade for; de estudioso e aprendiz d’ “A Correspondência”, em sua mais autêntica heteronimia literária. Porque, longe de emular, os dois gigantes da saga, portuguesa, do Quinto Império tenho-os e reverencio – os dois – justamente pelo idioma em que escreveram e se eternizaram; fazendo minha a interpelação do autor de “Mensagem”, quanto à conquista de futuros novos “falantes” do que o poeta brasileiro Olavo Bilac definiria como “última flor do Lácio inculta e bela”.

“Quem foi que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?
E, o homem do leme disse tremendo,
“El-Rei D. João Segundo!”

Ele, seus sucessores e, sobretudo, nossos povos desvendaram cavernas e venceram os mares salgados que – como também escreveu Fernando Pessoa – mais nos unem que separam. Principalmente, no caso presente, portugueses e brasileiros que falam e vivem o idioma e as antecipações linguísticas, filosóficas e políticas do patrono de nossos grémios. Ele, também, habitante, senão físico, sentimental, desta casa; desde que aqui se enamorou de Emília de Castro Pamplona, com que dividiria a vida e o sonho; como confessou – carta de 28 de Julho de 1885, ao futuro cunhado, Manuel – “A minha afeição por tua irmã não foi improvisada o ano passado, na Granja e na Costa Nova. Data de uma ocasião mais antiga, de quando eu te fui ver a Canelas”. À sombra de vossas cameleiras heráldicas.
Outra bandeira que alegre me traz a esta Quinta – redimensionada pela vossa hospitalidade de atuais e, queira Deus, definitivos proprietários e anfitriões - , até como seu imprescindível guião, não só turístico, como, sobretudo, literário e cultural; é o livro tese de Susana Guimarães, “A “Quinta da Costa em Canelas”, verdadeiro ex-libris (também o livro), como à nobre Casa se referiu no prefácio daquele, o então presidente Luís Filipe Meneses, da Câmara de Gaia.

E, como há Eça – da família materna de nosso patrono – em sobrenomes que passaram pelo meu Piauí do nascimento (inclusive pela governança da antiga Capitania de São José, que homenageava vosso e, então, nosso Rei D. José I); não foi, também sem emoção que descobri no livro de Susana, referência ao Pernambuco que adotei como segunda “terra”, porque de Cristina e de meus filhos António e Ana Elvira; de minha própria vida literária, por uma residência que já chega aos trinta e cinco anos.
Anota Susana Guimarães que “A esta Quinta chamada da Costa lhe derão este nome os possuidores dela por serem da família dos Costas, usando este apelido athe o Reynado dos Felipes de Castella a quem servio Thomé da Costa e seos filhos nas guerras de Pernambuco…”. Portuguesidade lavrada na gratidão e no mármore do obelisco lisboeta da Praça dos Restauradores. Haja familiaridade.

É a minha profissão de fé à Confraria e a Vila Nova de Gaia.

Dagoberto Carvalho Jr.
25 de Outubro de 2014»

LEGIÃO DE HONRA

Manuel de Novaes Cabral

No passado dia 13 de outubro, com a sala de conferências do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, na cidade do Porto, completamente cheia, o nosso confrade Manuel de Novaes Cabral, seu presidente, foi agraciado com o grau de Chevalier de la Légion d’ Honneur pelo embaixador da França em Portugal, Monsieur Jean-François Blarel e Madame Sabine Blarel.







MESTRADO

Licínio Santos

No passado dia 22 de outubro o nosso confrade e membro dos corpos gerentes dos ASCR – CQ, Licínio Manuel Moreira Santos, apresentou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a sua dissertação de mestrado com o título “Cultura e lazer operários em Gaia, entre o final da Monarquia e o início da República (1893 – 1914)”, a qual mereceu do júri a nota de dezassete valores. O autor vai apresentar o tema numa palestra no Solar Condes de Resende no início do próximo ano, enquanto prepara a sua edição em livro.






HOMENAGEM

No passado dia 4 de outubro, no Museu Nacional Soares dos Reis, na cidade do Porto, foi realizada uma conferência seguida da abertura de uma exposição sobre a atividade do nosso confrade o livreiro Fernando Fernandes promovida pela SPA.

CURSOS, CONFERÊNCIAS, COLÓQUIOS, VISITAS

Estudantes belgas no Castelo de Crestuma
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos)”, na sua 5ª edição, organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente (Ministério da Educação), o qual teve a sua abertura no passado dia 27 de setembro com a presença do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vitor Rodrigues, que na ocasião se referiu à atividade cultural do Município e do Solar e aos projetos para 2015, e ainda Virgínia da Costa Barroso, diretora daquele Centro, José Manuel Tedim, presidente da Academia, e J. A. Gonçalves Guimarães, diretor do Solar, que em seguida apresentou o tema “A Arte do Vinho do Porto como emblema da Região”. No dia 4 de outubro, Fantina Tedim apresentou “ Caracterização geográfica do Douro Atlântico”; no dia 11, António Manuel Silva, “A região antes da nacionalidade” e no dia 25, Amândio Barros “ A aventura das navegações atlânticas (séc. XIV – XVII)”. A 8 de novembro Manuel Luís Real falará sobre “A Arte da Alta Idade Média na Região” e a 15, Francisco Ribeiro da Silva sobre “Os Forais Manuelinos e os alvores da Época Moderna”.
Ainda no Solar Condes de Resende prosseguem as palestras das últimas quintas-feiras do mês: a 25 de setembro J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre “O Jardim do Morro, um emplastro urbanístico? A propósito de logradouros, praças, largos, jardins e outros espaços públicos”, e a 23 de outubro, Susana Moncóvio apresentou o “Centro Artístico Portuense (1880 - 1893)”, fundado por Soares dos Reis.
A 15 de outubro teve início na Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto um curso sobre “Histórias de Família, atelier de escrita”, ministrado pelo nosso confrade o escritor Mário Cláudio.
A 20 de outubro o arqueólogo António Manuel Silva conduziu uma visita guiada às escavações arqueológicas do Castelo de Crestuma para um grupo de 19 estudantes belgas acompanhados por dois professores. A ação foi organizada pelo Agrupamento de Escolas Diogo de Macedo, Olival, Vila Nova de Gaia.
            Ainda nos passados dias 24 e 25 de outubro decorreu no Museu de Lamego mais uma edição das suas Conferências/CITCEM – 2014, nas quais participaram os confrades Nuno Resende, com «Santos da casa: capelas, devoção e poder na região de Lamego. O património religioso ao serviço das elites», e J. A. Gonçalves Guimarães com «Da intervenção arqueológica ao museu de sítio: a experiência da Quinta da Ervamoira».
Entre 13 e 15 de novembro decorrerá na Casa da Prelada da Santa Casa da Misericórdia do Porto o seu III Congresso de História, no qual participarão, entre outros os confrades, J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães, com o tema “Os provedores da Misericórdia do Poto, José Pamplona Carneiro Rangel (1805 – 1811) e seu filho Manuel Pamplona Carneiro Rangel (1824): documentação inédita existente no Arquivo Condes de Resende”, e Francisco Ribeiro da Silva, com “ A proclamação da República e as imediatas tentativas estatais de interferência na administração da Santa Casa da Misericórdia do Porto”.
Entre 24 e 29 de novembro decorrerá no Centro Cultural Eça de Queirós, Lisboa, o XX Colóquio dos Olivais, organizado por esta entidade que tem um protocolo de colaboração com a Confraria Queirosiana. No seu programa participarão, entre outros, os confrades Fernando Andrade Lemos, diretor daquele Centro, que terá uma comunicação sobre «Maria Parda e Lisboa» (em colaboração); Luís Manuel de Araújo sobre «25 de Abril – a minha experiência» e Alda Barata Salgueiro sobre «Os Barata Salgueiro e os Olivais»

LIVROS

Diário Íntimo de Carlos da Maia, por A. Campos Matos

           
No dia 23 de outubro foi lançada no Grémio Literário, em Lisboa, a mais recente criação queirosiana de A. Campos Matos, um “Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890 – 1930)”, publicado por Edições Colibri. Segundo o autor trata-se do diário daquela personagem de “Os Maias”, prefaciado por seu filho Carlos Afonso em 1930 e encontrado num saco cheio de manuscritos por um antigo empregado da Livraria Lello no Porto, o que é, obviamente pura e deliciosa ficção, que o autor denuncia e discute, até na sua validade cultural, no posfácio. Hoje, talvez mais hoje do que nunca, o universo queirosiano é mais a sua mitologia do que a sua realidade biográfica. Este livro, interessante em todos os aspetos, poderá ser o guião de um filme que ainda não foi feito.


A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas), coord. de Carlos Reis

           
Encontra-se no mercado livreiro mais um volume da edição crítica da obra de Eça de Queirós dirigida pelo nosso confrade Carlos Reis, o semipóstumo “A correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas)”, desse «poeta e viajante, suposto autor de obra desconhecida e observador arguto dos homens e das coisas do seu tempo», que assim fica disponível sem as «reescritas, as emendas e até as oscilações de critério editorial» que foram aparecendo nas diversas edições, mas a que foram agora acrescentadas «várias cartas fradiquistas» só publicadas depois da morte de Eça ( da Nota prefacial).

800 anos de Literaturas em Português
 O jornal “Público” lançou mais uma coleção de edições fac-similadas, desta vez para comemorar os oitocentos anos da data do mais antigo documento régio conhecido em língua portuguesa, o testamento de D. Afonso II, em parceria com a editora A Bela e o Monstro. Composta por 15 obras de autores lusófonos de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor, o primeiro livro lançado foi o primeiro volume de “Os Maias” de Eça de Queirós, publicado pela primeira vez em 1888, e cujo segundo volume sairá a 2 de dezembro próximo. Pena é que a coleção não tenha incluído escritores lusófonos das antigas parcelas da Índia, de Macau e de outras comunidades da diáspora ou do contato cultural onde a sobrevivência do português ou dos seus crioulos é um milagre de um indescritível afeto ou teimosia na valorização da diferença.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 74 – sábado, 25 de outubro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Funcionários públicos

Meu caro concidadão, companheiro de percurso neste mundo e no Portugal que amamos e onde somos desgraçados. Provavelmente quando nasceste foste aparado por um médico e uma enfermeira ambos funcionários públicos. A auxiliar que depois limpou a sala de partos, o administrativo que te anotou na maternidade e depois o do registo civil, também o eram. Se não foste para um colégio religioso, o professor da pré-primária e depois todos os outros do teu percurso escolar em escolas públicas, o sargento que te apresentou os papeis na tropa que não quiseste frequentar por não estarmos em guerra com quase ninguém, os funcionários e professores da universidade onde te inscreveste para tirar aquele curso de que não gostas, mas que achaste que te dava emprego garantido, a funcionária do centro de emprego onde te habilitaste para ter trabalho remunerado, o do registo civil, outra vez, onde foste casar e, anos depois, divorciar-te, o da Segurança Social onde tratas do subsídio de desemprego e da pensão dos teus pais, os do tribunal onde foste levado por aquele assunto mesquinho que qualquer julgado de paz a funcionar capazmente teria prontamente resolvido com bom senso e justiça imediata, o polícia que te multou e aquele outro que prendeu o ladrão que te roubou o carro, os médicos, enfermeiros e técnicos de saúde que te radiografaram e trataram daquela apendicite que precisou de operação de urgência, os empregados das finanças que conferem e arrecadam os teus impostos que pagam as estradas úteis e as desnecessárias, todos eles, estes e muitos mais, são funcionários públicos e não podes viver sem eles, a não ser que voltemos a um outro feudalismo onde os senhores privados decidam e controlem toda a nossa vida. Já faltou mais para tal e há quem tolamente ache que esse é o caminho do “desenvolvimento”. Tenho para mim que seria boa política manter público o que a todos diz respeito e privado tudo o resto, preferindo, num meio adaptável às circunstâncias da produção e do mercado, um bom setor mutualista e cooperativo com gente capaz e de largos horizontes. Sou também pela iniciativa privada legítima, a favor de quem justamente a promove e distribui os seus resultados pela comunidade.
Na tua terra, desde os que tratam da administração do território e o mantêm habitável, até ao coveiro que ha-de sepultar-te ou levar-te ao crematório, todos eles são funcionários públicos, neste caso da administração local.
São poucos e bons? São muitos e maus? Há entre eles profissionais dedicados, sabedores e prestáveis? Ou, pelo contrário, é tudo uma caterva de ignorantes, corruptos, desleixados, em suma, ratazanada? Penso que qualquer destes extremos estará errado. Em todos os serviços por onde tiveres de passar haverá certamente uns e outros. E inúteis também. Terás de estar atento. E perguntar-te-ás como tal é possível: como é que, estando Portugal em paz desde 1975, hoje tem quase mais coronéis e generais do que soldados funcionários públicos e nós com tanto mar à espera de marinheiros; como foi possível o sistema de ensino ter no quadro professores com horário zero, “professores zero”? E porque é que um juiz ganha muito mais do que um professor no topo da carreira? Os criminosos são mais respeitáveis do que os cidadãos em formação? E as repartições onde os funcionários se acotovelam e se sentam à vez, por não haver cadeias para todos, e outras onde o trabalho se acumula porque são poucos e até lá têm um funcionário incapaz, mas que alguém meteu no quadro por concurso e arte e é promovido regularmente sem que se perceba por quê? E aqueles “técnicos superiores” que fizeram uma licenciatura “à la minuta”, que ganham como tal, mas que não fazem mais do que os antigos empregados administrativos, os “empregados de escritório” do setor privado, faziam?
Para tudo isto há responsabilidades, pois o Estado é um corpo hierárquico entre a base e a cúpula, organizado em todos os patamares da administração. Logo, se a função pública não é o exemplo que devia ser, a culpa é dos sucessivos governantes a nível nacional e local e daqueles em quem delegam funções. Seria interessante, sociologicamente falando e por amostragem, o saber-se como foi o percurso de cada funcionário público e da administração local desde 1974 para cá. Quando publicado, tal relatório criaria certamente mais estupefação do que o Relatório Kinsey. Estupefação fingida, já se vê, pois desde 1974 que é o povo que, com o seu voto, elege os governantes e estes legislam sobre a Função Pública que temos, ou não. Logo, em última instância, foram os eleitores os responsáveis pelo estado a que chegamos na administração central, na Saúde, na Escola, nos Tribunais, nas Forças Armadas, nas Autarquias. Por isso não se queixem sem, antes de mais, tentarem compreender. A questão não é de hoje, pois já no seu tempo Eça de Queirós escreveu: «Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exatamente em condições idênticas.
O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros que o vai buscar alegremente, ao meio dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.
Esse caldo é o Estado. Toda a Nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desocupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira; é uma ociosidade organizada por conta do Estado. (…) O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas. Ora como o Estado é pobre, paga pobremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral» (Uma Campanha Alegre).
«… nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos mórbidos, que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobre exercitam (…)» (A Correspondência de Fradique Mendes); apud A. Campos Matos, Dicionário de Citações de Eça de Queirós, Lisboa. Livros Horizonte, 2006, pp. 124/125.
Isto foi escrito no século XIX por um funcionário público empregado no Ministério dos Negócios Estrangeiros chamado Eça de Queirós. O que é terrível é que ainda está certo.
Meu caro concidadão, como já descobristes nem todos os funcionários são iguais e no setor privado também nem sempre os empregados são exemplares e os empresários mantêm-nos no posto vá-se lá saber porquê. E num e noutro setor descartam-se os mais aptos, mais capazes, mais empenhados ficando os quadros cheios de medíocres ronceiros. Mas, para além da compreensão do fenómeno importa melhorar o sistema. Isso vai demorar pelo menos uma geração, pois a máquina hoje está minada por cínicos e inúteis. Mas por entre eles há os funcionários zelosos, convictos e prestáveis que têm de aturar chefias de circunstância com ideias bizarras quantas vezes a esconderem a sua real incapacidade. Há para aí um Evangelho com a simples e sábia frase: «pelas obras os conhecereis». O mais hilariante é que alguns dos tais são dos que dizem que o leram, o professam, o têm como sagrado. Mas apenas em proveito próprio. Haja esperança nos tempos que virão.

J. A. Gonçalves Guimarães
Funcionário público na administração local;
Mesário-mor

Nota: as opiniões expressas nestes editoriais são da inteira responsabilidade do autor e apenas a ele o obrigam. A Confraria Queirosiana é estatutariamente uma associação plural onde coexistem todas as civilizadas correntes de opinião que lhe merecem o mesmo lugar de destaque e de controvérsia.


30 anos do Solar



No próximo dia 27 de setembro, sábado, pelas 15 horas, com a presença do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, abrirá ao público o curso “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos)”, organizado pela Academia Eça de Queirós, o qual decorrerá ao longo de treze sessões até março de 2015, ministrado por reconhecidos investigadores.
Com esta abertura iniciam-se também as comemorações dos 30 anos do Solar Condes de Resende como Casa Municipal de Cultura, pois para tal foi adquirido pelo município em 1984 à família da esposa de Eça de Queirós. Nesta sessão, aberta ao público em geral, serão entregues os diplomas e documentação do curso anterior sobre História Empresarial, tal como este curso certificado pelo Centro de Formação da Associação de Escolas Gaia Nascente do Ministério da Educação.
Entretanto prosseguem as palestras das quintas-feiras no Solar Condes de Resende, às 21,30 horas, com entrada livre: a 28 de agosto J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre “As Praias de Gaia” e a 25 de setembro sobre “Espaços Públicos de Gaia: o Jardim do Morro, um emplastro urbanístico?”. A 23 de outubro Susana Moncóvio falará sobre “ O Centro Artístico Portuense” fundado por Soares dos Reis.
No próximo dia 2 de outubro tem aqui início o Curso de Pintura da professora Pintora Paula Alves e no próximo dia 5 de outubro aqui decorrerá a habitual Feira das Novidades, com vendedores de artesanato e outras coisas boas de coleção.


Dagoberto em Portugal

Dagoberto Carvalho J.or
A partir de 25 de outubro fará uma visita de saudade a Portugal o nosso confrade Dr. Dagoberto Carvalho J.or, médico, historiador da Arte e eciano maior, presidente da Sociedade Eça de Queiroz do Recife e autor de numerosos ensaios reunidos em livros sobre as relações culturais entre Portugal e o Brasil, mormente as que têm como eixo a vida, época, obra e evocações queirosianas. A partir de Lisboa, passará por Castelo Branco e depois Porto, com deslocação a Bragança, Chaves e Mirandela. Irá à Póvoa de Varzim “beijar a pedra” queirosiana e rever amigos de longa data.
No sábado, dia 25 de outubro, no Solar Condes de Resende a Confraria Queirosiana organizará em sua honra uma sessão de boas-vindas seguida de jantar por inscrição.


Escavações em Crestuma

 Escavações em Crestuma
Entre 25 de agosto e 5 de setembro decorreu mais uma campanha de escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma dirigida pelos arqueólogos J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva, do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana. Este ano, devido a restrições orçamentais, os trabalhos
incidiram apenas numa área junto à praia de Favaios onde foram descobertas estruturas construídas em pedra com abundante espólio do século VI d. C., tendo tido a visita do presidente da Câmara de Gaia, Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues e do diretor do Parque Biológico, Doutor Nuno Oliveira no dia 3 e setembro.
Entretanto diversos arqueólogos da equipa continuam a estudar o espólio e estruturas já exumadas desta impressionante estação arqueológica e a apresentar os resultados em vários colóquios internacionais, continuando em itinerância a exposição “Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História”.


Eventos culturais

Nos últimos tempos, um pouco por todo o país, diversos eventos culturais têm contado com a ação de vários confrades queirosianos, alguns dos quais passamos a divulgar.
Assim, a 13 de setembro passado decorreram em Penafiel as “1ªs Jornadas de Museologia nas Misericórdia”, organizadas pela instituição local e dinamizadas pela nossa consócia a museóloga Mestre Rita Pedras.

A 20 de setembro passado, o nosso presidente da Direção, Prof. Doutor José Manuel Tedim, conduziu uma visita guiada à nasoniana Igreja de Santa Marinha de Vila Nova de Gaia, para os sócios da Associação Cultural Amigos de Gaia.

De 2 a 5 de outubro próximo decorrerão no convento de Balsamão, Macedo de Cavaleiros, as “XVII Jornadas Culturais de Balsamão – Olhares sobre a vida e a morte”, que têm o empenhado apoio do nosso confrade Fernando Andrade Lemos, diretor do Centro Cultural Eça de Queirós de Lisboa e no qual apresentará uma comunicação o nosso confrade José Maia Marques.

A 9 e 10 de outubro decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o colóquio «A Grande Guerra (1914-1918): Problemáticas e representações», organizado pelo CITCEM, no qual será conferencista J. A. Gonçalves Guimarães, que falará sobre «Vila Nova de Gaia e a 1.ª Grande Guerra».

Nos dias 24 e 25 de outubro decorrerão as II Conferências do Museu de Lamego/CITCEM sob o tema “Quintas do Douro: História, Património e Desenvolvimento” no qual participarão os confrades Nuno Resende com uma comunicação sobre «“Santos da casa”: capelas, devoção e poder na região de Lamego. O património religioso ao serviço das elites» e J. A. Gonçalves Guimarães apresentará «Da intervenção arqueológica ao museu de sitio: a experiencia da Quinta da Ervamoira (Vale do Côa)».

Curandeiras chinesas

Um trabalho de investigação histórica de J. A. Gonçalves Guimarães, apresentado no Fórum Cultural da China no Museu do Oriente em 2011, organizado pelo Instituto Português de Sinologia, de que o autor é membro fundador, intitulado «O caso das curandeiras chinesas de Lisboa que queriam pôr os cegos a ver no primeiro ano da República Portuguesa», publicado em Zhongguo Yanjiu – Revista de Estudos Chineses, n.º 7, 2011, p. 225-246, serviu de base à elaboração de um romance histórico recentemente publicado sobre o mesmo tema, embora tal não apareça referido na publicação em causa. É costume os professores universitários citarem as fontes que usam e, no que diz respeito a romances históricos, até Garrett e Arnaldo Gama o faziam. Não é pois verdade que o assunto estava «varrido para debaixo do tapete da História Nacional», como escreveu o autor, pois, já mesmo antes daquele nosso artigo, o historiador Rui Ramos o tinha abordado na História de Portugal dirigida por José Mattoso, indo assim também por água abaixo a «inquirição original e pioneira» que o prefaciador lhe atribui. Já depois da obra publicada o autor informou-nos por email que se tinha inspirado naquele nosso texto para a sua elaboração. Aqui fica o registo a posteriori, para que conste.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 73 – quinta-feira, 25 de setembro de 2014
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