quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015


Jornalismos ontem e hoje

Todos os estudiosos de Eça e, de um modo geral, muitos dos seus leitores, sabem que além de grande ficcionista, autor de obras imorredouras, que além das circunstâncias da época têm a perenidade da condição humana, o escritor foi também um grande jornalista, de cuja atividade nos deixou a sua prosa no jornal Distrito de Évora e n’ As Farpas, depois “filtradas” em Uma Campanha Alegre, e muitas outras crónicas publicadas ao longo da sua vida em jornais e revistas portuguesas e brasileiras, postumamente reunidas em vários volumes: Notas Contemporâneas; Cartas de Paris; Cartas de Inglaterra, e outros textos. Eça foi também um informadíssimo e não menos notável ensaísta profissional sobre Relações Internacionais, como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo esta a sua prosa mais desconhecida a qual, jazendo talvez no arquivo daquele ministério ou noutros, estará por divulgar, à exceção do esgotadíssimo relatório Emigração como força civilizadora, publicado em 1979 pelo jornalista Raúl Rego e, mais recentemente, por Isabel Pires de Lima e José Lello.
Hoje falemos de Eça jornalista e do enorme interesse dos seus textos produzidos enquanto tal. O assunto já foi abordado por vários queirosianistas, nomeadamente Elza Miné, Eça de Queirós Jornalista, Livros Horizonte, 1986; Maria Filomena Mónica, livro com o mesmo título, Principia, 2003; e A. Teresa Peixinho, Textos jornalísticos de Eça de Queirós: o jornalismo oitocentista olhado pelo escritor/jornalista, «Estudos do século XX», n.º 7, 2007, p. 15-38.Temos pois já excelentes análises e antologias sobre tal. Na sua época, aquilo a que chamaríamos hoje o código deontológico do “comunicador social” (denominação que vai substituindo a de jornalista), era um pouco vago, se é que verdadeiramente existia ou sequer se achava que deveria existir. Não se distinguiria então muito o jornalista do literato. Aos “rapazes dos jornais” pedia-se que tivessem uma bela prosa e, para triunfarem na vida, que acertassem os seus textos e conclusões pelos interesses do proprietário da publicação, o qual, por sua vez, os aferia pelo partido político que estava no poder ou pelo peso social das instituições a quem servia, situações que embora hoje nos pareçam desatualizadas, afinal ainda não mudaram, a não ser através do grande empenhamento e, quantas vezes, do sacrifício pessoal dos intervenientes. Também no tempo de Eça havia os “canastrões” da comunicação social e não foi com eles e a sua prosa que o mundo mudou: o escritor caricatura-os em algumas das suas obras e hoje deliciamo-nos com esse quadro social e cultural que magistralmente nos deixou em herança, satisfeitos que estamos com o facto de apenas lidarmos com o quadro da época e os seus atores nos livros e no cinema, não valendo a pena tirar dores pelas suas ações, não lhes sentindo os perfumes ou o mau hálito. Tudo vantagens. Mas se aqui trago à colação estas lembranças faço-o a propósito das reflexões que me sugeriu o livro do jornalista Aurélio Cunha, Um repórter inconveniente. Bastidores do jornalismo de intervenção. Lisboa, Chiado Editora, recentemente lançado no Porto no auditório da Biblioteca Almeida Garrett repleto de público. O livro alude à sua atividade de profissional assumido e com um alto sentido da sua missão social, apresentando as grandes reportagens que publicou no “seu” Jornal de Notícias durante anos, as quais agitaram o país ao relatarem aspetos escabrosos, ou simplesmente parolos, nas áreas da Saúde, da Justiça, da Economia, do Municipalismo, do Desporto, da Solidariedade social, da vida quotidiana dos cidadãos, sistematicamente ludibriados por incompetentes ou chicos-espertos quase sempre “acima de qualquer suspeita”. Muitas chegaram ao parlamento e abalaram ministérios e governos. Graças a algumas delas a vida de muitas pessoas mudou para melhor e por isso também o autor reconhece, regista e agradece a ação de muitos outros profissionais que não pactuaram com estas situações, quantas vezes com risco da sua situação laboral ou mesmo da própria vida. Eles e o jornalista, que a coisa em alguns casos não era para menos. E também ali se relata a existência da censura interna que não permitiu a publicação de reportagens que envolvessem instituições religiosas ou a denúncia do terrorismo psicológico da indústria dos media sobre os jornalistas.
Um certo retrato da sociedade portuense e portuguesa, desde os anos setenta até ao início do seculo XXI, aí está nesse livro. Com uma grande diferença em relação aos retratos jornalísticos de Eça que tanto nos deliciam: é que estes, os que ali se descrevem, são histórias reais do nosso tempo, nós conhecemos os protagonistas, alguns deles ainda andam por aí a tentar retocar o retrato. Não, não estou a comparar o estilo literário de Eça com o de Aurélio ou outras inutilidades com que alguns quererão fugir à verdadeira questão que aqui importa. O livro está escrito numa boa e agradável prosa, mas agora estou apenas a comparar o sentido altamente cultural dos textos destes dois jornalistas separados por mais de um século. Quem quiser que os leia e tire as suas conclusões, talvez fazendo a seguinte pergunta a si próprio ou aos seus amigos: a sociedade portuguesa mudou para melhor? Tem mudado? Tem hipóteses de mudar? Eu cá por mim sou otimista e o livro de Aurélio Cunha, também com o seu humor, faz-me acreditar que sim, que tal é possível. Apesar de tudo estamos no ocidente, numa sociedade livre para se interrogar a si própria sem medos tolos, ainda que tarde, e de tal jamais abdicaremos.
«O jornalismo na sua justa e verdadeira atitude, seria a intervenção permanente do país na sua própria vida política, moral, religiosa, literária e industrial (…). É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os atos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença das outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes». Isto escreveu Eça de Queirós, então um jovem jornalista com vinte e dois anos, no Distrito de Évora em 1867. São estes bons e profissionais princípios que vejo agora no livro de Aurélio Cunha, cento e cinquenta anos depois ainda fazem falta.
Obrigado Aurélio: Eça com certeza terá gostado do seu livro. Deliciado mas, certamente, preocupado, pois afinal não mudamos ainda assim tanto para melhor.


J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria
Carteira Profissional de jornalista TE-638


Livros e publicações

 Douro 03

Acaba de ser publicado o número 3 da revista Douro-Vinho, História & Património/ Wine, History and Heritage, propriedade da Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho/ GEHVID, dirigida por António Barros Cardoso, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O presente número tem a colaboração de J. A. Gonçalves Guimarães, membro do Conselho Consultivo da revista, que assina um estudo sobre “Vale Meão. Antecedentes de uma quinta vinícola e olivícola no Douro Superior”, feito no âmbito dos trabalhos do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-Confraria Queirosiana, e um outro estudo de Nuno Resende, também membro do mesmo gabinete, sobre “Pontes e vias medievais a sul do Douro na região de Montemuro: as primeiras questões”, entre os diversos artigos subscritos por investigadores nacionais e estrangeiros nesta edição referente ao ano de 2014.

 A. Campos Matos


É verdadeiramente notável a atividade editorial de A. Campos Matos que se anuncia para este ano de 2015: para além de ainda circularem no Brasil alguns já raros exemplares do seu livro Eça de Queiroz. Uma biografia, editado pela Universidade de Campinas (Unicamp), acaba de sair uma segunda edição revista e aumentada de Sexo e Sensualidade em Eça de Queiroz, pela editora Esfera Poética, com notáveis ilustrações de Rui Campos Matos. Em Maio sairá o segundo volume de Diário Íntimo de Carlos da Maia, e entretanto, o Dicionário de Eça de Queiroz, nova edição, tem a revisão terminada, devendo ser lançado ainda este ano. Este incansável investigador e autor de temática queirosiana trabalha ainda na preservação do seu espólio, provavelmente a maior biblioteca queirosiana do mundo, a qual deverá permanecer intacta e em Portugal, continuadamente enriquecida pelo seu proprietário e organizador.


Os Maias ilustrados

          No passado dia 13 de fevereiro na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura, ao Chiado, em Lisboa, a obra “Os Maias – antologia ilustrada”, de Rui Campos Matos, publicada pela Editora Exclamação, foi apresentada pelo presidente da instituição e nosso confrade, Prof. Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

Exposições
        

           No passado dia 7 de fevereiro foi inaugurada no Solar Condes de Resende a exposição “ A Grande Guerra e a Literatura”, organizada por José Valle de Figueiredo, a qual apresenta um apreciável número de obras de escritores portugueses sobre a participação lusa naquele conflito de que se evoca o centenário. Para além da mostra bibliográfica, exibe-se um trecho do filme João Ratão, de Brum do Canto, a única produção cinematográfica portuguesa que evoca a participação portuguesa nos combates da Flandres. Em vitrinas, algum material bélico e bibliografia da época ou sobre a 1ª Grande Guerra das coleções do Solar Condes de Resende e da Confraria Queirosiana completam a exposição.

Cursos, palestras e conferências

       Integrada no curso “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos)”, 5ª edição, a decorrer no Solar Condes de Resende, no passado dia 7 de fevereiro teve lugar a aula do Professor Doutor Jorge Fernandes Alves sobre “A industrialização da região do Porto”.
         Hoje, 25 de fevereiro, às 18 horas, na Galeria Nave dos Paços do Concelho de Matosinhos, o Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva falará sobre “A participação das populações na elaboração dos Forais Manuelinos”, integrada no ciclo Conferências do Foral comemorativo dos seus quinhentos anos.
No próximo dia 26 deste mês, nas palestras das últimas quintas-feiras, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “Há bruxas (e bruxos) em Gaia? Uma visão antropológica e histórica do tema”.
Nos dias 27 e 28, no 25º Fórum Avintense estarão presentes com comunicação, diversos membros da Confraria Queirosiana, nomeadamente Eva Baptista, J. A. Gonçalves Guimarães e Maria de Fátima Teixeira, que falarão sobre o projeto Cidadania e Património criado pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património para as AECS aplicado à freguesia de Avintes, e aquela última investigadora falará ainda sobre o busto do industrial Pimenta da Fonseca, proprietário da Companhia de Fiação de Crestuma, da autoria do escultor avintense Henrique Moreira.
         No dia 28 pelas 15 horas e integrado no curso acima referido que decorre no Solar Condes de Resende, o historiador Joel Cleto falará sobre “ Matosinhos, do julgado de Bouças ao grande porto atlântico de Leixões”
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 7 – quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Eça & Outras, 25 de janeiro de 2015

Je suis Hebdo!

         Entendamo-nos: um ser humano dos dias de hoje que só tenha lido um livro, sagrado ou político, nunca compreenderá o mundo e a humanidade na sua plenitude. Pode mesmo acontecer que acredite que “o seu livro” é a única verdade e que, quem sobre tal esboçar um leve sorriso, escrever um poema, desenhar um cartoon, fizer um filme, ou mesmo formular algumas elementares perguntas sobre as suas origens, autor(res) e condições de escrita, estará a ofendê-lo e a ofendê-la (à “única verdade”) e, nesse caso, o defensor do “livro único” poderá achar que o questionador merecerá morte violenta, sem direito a encolher de ombros. Os crentes nas verdades únicas, que são sempre étnicas, totémicas e teológicas, e nunca universais, humanistas e racionais, seguem à letra o que ali está escrito, quer “o resto” da humanidade (os das outras religiões, os indiferentes, os não crentes, os racionalistas militantes…) queira ou não queira. Cheio de humana compreensão, estenda a um desses dogmáticos a fraterna mão do diálogo e vai ver o desdém com que é mimoseado e, em alguns casos e locais, anda com sorte se sobre si não ocorrer a prisão arbitrária, a facada, o tiro ou a bomba com que o presenteiam. São assim os “iluminados”, quase sempre pessoas pouco cultas, com capacidades intelectuais pouco desenvolvidas, insuportáveis ao convívio humano. Às vezes com alma de criminosos, as mais das vezes simples patetas a soldo de outros mais espertos. Não são exclusivos de qualquer religião ou crença, ainda que laica.
         Mais valia pois que não soubessem ler livro algum. O saber parcial, transformado em militância religiosa ou política é mais perigoso do que a ignorância, pois falta-lhe a humildade que só a consciência da pequenez individual nos dá. Foi o que recentemente aconteceu em França quando um grupo destes devotos do Parcial atacou o jornal Charlie Hebdomadaire e assassinou 12 pessoas pelo facto desta publicação os incomodar com algumas pilhérias sobre a sua intocável “meia” sabedoria (e meia é favor, pois nem sequer abrange metade da humanidade e, mesmo que tal acontecesse, tal não quereria, só por si, dizer que essa meia verdade estivesse certa e fosse “intocável”, exceto, claro, para os que nela acreditam).
         Nós, europeus e portugueses, sabemos do que estamos a falar, pois já fomos assim: já tivemos cruzadas contra os albigenses e outros povos com outros credos, tivemos inquisições, analfabetismos, censuras, perseguições políticas, totalitarismos, a “verdade oficial” contra as evidências das descobertas. Fomos, mas já quase o não somos: desde o século XVI fomos introduzindo a dúvida metódica no nosso quotidiano e a Terra passou a girar à volta do Sol, contra o parecer das igrejas e dos estados. Tenho para mim como historiador que o fundamentalismo se agudiza sempre que os povos se movimentam em levas pelo orbe, como acontece nos dias de hoje. Os caciques locais na origem querem transformar cada emigrante num missionário e cada um deles num guerreiro. Na realidade temem que “o” ou “a” “dos nossos”, até aí servos locais, se transformem em cidadãos de um mundo livre e passem a ser “dos outros”. Têm medo que eles lhes escapem, e às suas “verdades”. Depois, para abrigo da sua intolerância, escudam-se na obrigatoriedade do respeito dos outros pelas suas opções, respeito esse que normalmente os “ocidentais” atualmente praticam sem grande esforço e, às vezes, com demasiada benevolência. Na sua arrogância, os fundamentalistas nem se dão conta de que, se levadas à letra, grande parte das suas crenças ofendem todos os dias os princípios da Biologia, da Física, da Matemática, da História, da Medicina e de muita da sabedoria humana acumulada ao longo dos séculos pelos livres pensadores (ainda que crentes) que ousaram descrer das “verdades únicas” e cujas ousadias de liberdade de pensamento hoje fazem parte do nosso quotidiano. Por aqueles outros ainda andaríamos a pastorear camelos ou ovelhas e não saberíamos nada de micróbios. Ou seja, ofendem uma boa parte da humanidade que com eles convive e que nestes outros princípios da Cultura, da Ciência e da Técnica acredita, praticando-os, até sem de tal se aperceber, todos os dias. Só que, ao contrário da prática dos “iluminados”, respondem-lhes com a Tolerância. Acabem-me pois com essa conversa hipócrita dos melindres dos respeitos, que têm pelo menos de ter como regra básica o deverem ser recíprocos. De outro modo serão subserviência intelectual ou mesmo medo, ainda que em nome do pacífico convívio humano entre indivíduos com crenças diferentes. Tal como o papa Francisco, também era capaz de dar um murro a quem ofendesse a minha mãe. Mas não é dessa humaníssima reação que estamos a falar, mas sim do que pensam, e atuam em conformidade, a mãe, o pai, a família, a comunidade, o país e a região das pessoas que querem impor aos outros as suas crenças e convicções pela violência através de religiões, serviços secretos, exércitos, bandos, máfias, clubes, seitas, comandos, comentadores, etc.
         O mundo, sob risco de perecer, fatalmente caminhará em direção à fraternidade universal, ainda que de tempos a tempos os fanáticos mostrem a sua impotência matando os companheiros que seguem pela Estrada Larga da Vida (Walt Whitman), aquela que se palmilha lado a lado, ombro a ombro, para além da etnia, da língua, da religião, da nacionalidade, das ideias que cada um carrega, espera-se que sempre em liberdade e pela liberdade. Avisou-nos Eça de Queirós: «Quiseste criar os Direitos do Homem, trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vai sempre fugindo de Ti, e só às vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue!» (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras).
         E se há coisa que os “iluminados” não suportem, entre muitas outras, é uma inocente criança a gritar “Os profetas vão nus”. Voltemos a Eça: «O riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta duma instituição, e a instituição alui-se… O riso é a mais útil forma de crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e não ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo. É por isso que hoje é tão útil como irreverente rir das ideias do passado…» (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas).
         Meu Caro Eça: tu, que com a tua ironia salvaste este país de se tornar no Portugalistão, por certo que já aí, no Paraíso da Boa Memória Humana, acolheste os nossos amigos do Charlie Hebdo, mas, felizes por finalmente te conhecerem – um deles (exagerado) até te chamou profeta! - ainda não lhes disseste que foste tu quem um dia escreveu: «Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião» (Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre).
         Na nossa crença é assim. E também exigimos respeito. Mas podem caricaturar à vontade as nossas convicções, sem medos de quaisquer represálias. A Liberdade de expressão é com certeza um direito divino. Por isso alguns dele têm tanto medo.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Publicações


Encontra-se em distribuição o n.º 79 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, com quem os ASCR-CQ têm protocolo de colaboração e de que é diretor o nosso sócio Dr. Francisco Barbosa da Costa. No seu interior, J. A. Gonçalves Guimarães escreveu sobre «Mafamude: de freguesia rural a sede do município de Vila Nova de Gaia», Abel Ernesto Barros sobre «Jugos e cangas em Vila Nova de Gaia» e Salvador Almeida sobre o «Plano municipal de prevenção e atuação de cheias no Douro de Vila Nova de Gaia», para além de artigos de outros colaboradores sobre caminho-de-ferro e estudos de Biologia marítima.

        
Por sua vez, editado pela Associação dos Amigos de Pereiros, com quem a Confraria Queirosiana tem igualmente um protocolo de colaboração, acaba de ser lançado o livro “Pereiros na Região Demarcada do Douro ou Fora Dela”, compilado pelo nosso confrade A. Silva Fernandes, presidente daquela associação, o qual reuniu a documentação enviada ao longo de anos a todas as autoridades nacionais a protestar contra a Portaria 1080/82 que excluiu aquela freguesia de S. João da Pesqueira da Região Demarcada do Douro onde desde sempre esteve integrada.

Conferências, aulas e palestras

Prossegue no Solar Condes de Resende o curso sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos), tendo falado no passado dia 10 o biólogo Doutor Nuno Oliveira sobre o “Contributo para o conhecimento da fauna e flora da região do Porto por alguns naturalistas dos séculos XVIII e XIX”, e no dia 17 o historiador da Arte, Prof. Doutor José Manuel Tedim sobre “Arte barroca e neo-clássica na região portuense: Nasoni e seus émulos”. O curso prossegue no dia 7 de fevereiro com uma aula sobre “ A industrialização da região do Porto”, pelo historiador Professor Doutor Jorge Alves.
No dia 8 de janeiro o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo proferiu na Casa do Infante, no Porto, uma conferência sobre os 3000 anos de História do Antigo Egito como introdução às viagens abaixo indicadas.
Prosseguem igualmente as palestras das últimas quintas-feiras do mês no Solar: no próximo dia 29 o Dr. Licínio Santos falará sobre “ Cultura e lazer operários nos finais da Monarquia e princípios da República”, tema da sua tese de Mestrado recentemente apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Viagens ao Egito e à Terra Santa

Em colaboração com a empresa Pinto Lopes Viagens, no presente ano de 2015, o egiptólogo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, docente da Universidade de Lisboa, vice-presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e diretor da sua Revista de Portugal, vai dirigir três viagens sobre temática egiptológica e queirosiana: a primeira terá lugar de 26 de março a 6 de abril, designada como “ Visita de Estudo ao Egito”, percorrendo os locais mais emblemáticos desta antiga civilização; a segunda terá lugar de 13 a 23 de agosto e chamar-se-á “ Egito na Europa”, visitando os grandes museus europeus com coleções egípcias. A terceira viagem decorrerá de 26 de dezembro a 3 de janeiro de 2016 e decalcará a visita de Eça de Queirós e o Conde de Resende à Terra Santa realizada em 1869, com passagem de ano em Jerusalém.
         Os interessados deverão contatar a Confraria Queirosiana que os encaminhará para as entidades organizadoras.

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Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 77 – domingo, 25 de janeiro de 2015
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eça & Outras, 25 de dezembro de 2014

A propósito de biografias

          Como historiador profissional que também se tem dedicado à biografia continuo a interrogar-me sobre a sua metodologia e valia cultural e social, para além do seu valor literário ou histórico. Desculpem-me este lembrar da minha própria oficina, mas com tal pretendo apenas dizer que terei alguma aptidão pessoal para avaliar as dificuldades da sua produção e do seu interesse para os leitores. Efetivamente, para além de aspetos das biografias de gente do povo e de alguns mais notáveis, nomeadamente os gaienses que deixaram bens desde o século XVI à Misericórdia do Porto, também já trabalhei a vida, a obra e a época de Mahamud (séc. IX); de J. M. Virginiano, escritor da Régua da 1.ª metade do século XIX; do Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo, expoente da diplomacia portuguesa; de William Wharthon Cassels, 1.º bispo anglicano da China Ocidental; de Adriano Ramos Pinto, mestre da Arte Publicitária e comerciante de vinhos de sucesso, de Artur Napoleão e seus irmãos Aníbal e Alfredo, músicos portugueses de nomeada, todos estes últimos da 2.ª metade do século XIX, encontrando-me agora empenhado na elaboração, em colaboração com a historiadora Susana Guimarães, da biografia do Visconde de Beire, herói da Guerra Peninsular, nascido no Solar Condes de Resende e bisavô dos filhos de Eça de Queirós. Creio pois ter algumas capacidades para refletir sobre o assunto.
         Antes de mais deixem-me lembrar-lhes que o exercício biográfico rigoroso é relativamente recente. Datará apenas do século XIX, com o Positivismo, a elaboração de uma metodologia própria para a sua escrita, primeiro das grandes personalidades da história pátria, como o fizeram, entre nós, Alexandre Herculano ou Oliveira Martins, e depois alguns outros, questionando os relatos antigos e a sua fundamentação, recuperando crónicas e textos postos de lado pelas mitologias romanceadas escritas ao longo dos tempos, se bem que continuemos a assistir nos dias de hoje à proliferação de “romances históricos”, que de históricos têm muito pouco, pois são meros exercícios de fantasia, ou de mais do mesmo, em volta de assuntos e personagens de sucesso garantido, trocando os seus autores, que as mais das vezes não têm formação para tal, o labor árduo e demorado da análise das fontes e do seu enquadramento épocal, pela ligeireza da mitomania apostada no sucesso imediato. Não é disso pois que aqui tratamos: uma biografia tem de procurar alicerçar-se em fontes sólidas, confrontar os relatos mais ou menos parciais que já existam e procurar dar-nos uma descrição credível, mas nem por isso menos atraente na leitura ou na descrição da pessoa, dos factos, do painel humano em que o biografado se moveu, quer na vida íntima, quer na sociedade.
         Vejamos o que um pensador do século XX disse sobre o exercício da escrita biográfica: para André Maurois, em Aspects de la Biographie. Paris: Au Sans Pareil, 1928, o biógrafo deve ter em mente três princípios fundamentais: 1 – a procura corajosa da verdade; 2 – preocupação com a complexidade da pessoa humana; 3 – reconhecimento de que a personalidade é qualquer coisa que tem a intangibilidade do arco-íris (citado por Matos, A. Campos, Dicionário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930)), Lisboa: Edições Colibri, 2014, p. 334, tradução). O biógrafo não é pois, nem deve ser, um ficcionista, como muito bem advertiu recentemente este autor, aliás numa notável obra de ficção (idem, idem, p. 382), «… é necessário ter cuidado com a veracidade do que escrevem os escritores sobretudo os ficcionistas. Estão sempre prontos a sacrificar a verdade dos factos se entenderem que esse sacrifício lhes traz vantagens de forma e efeitos de estilo, ou satisfações à sua vaidade».
         Logo, um biógrafo, repito, não é, nem pode ser, um ficcionista e a biografia das pessoas concretas que elabora, uma ficção. Deve antes, por entre a floresta dos factos disponíveis que vai encontrando, escolher os ramos mais significativos e com eles compor a paisagem de uma vida e a sua moldura que, com verdade, dê a conhecer aos leitores, tendo em conta que por mais completa e factual que ela seja, muitas coisas ficarão por contar, porque o ser humano é naturalmente complexo. E deixemos agora de lado as falsas biografias, as falsas autobiografias, as biografias laudatórias de pessoas vivas e até a ausência de biografia de quem não as quer.
         Tomando aqui um exemplo, ocorre-me o de Eça de Queirós que recusou com veemência que lhe escrevessem a biografia em vida mas que, ao longo do século XX, já teve oito ou nove biógrafos principais, alguns deles criando ou repetindo mitos sobre a sua vida, que desde então persistem em andar por aí, outros desmontando-os, acrescentando novos e desconhecidos factos, alguns descobertos muito recentemente, e que têm vindo a enriquecer a sua biografia e a permitir um maior e melhor conhecimento da sua obra, da sua época e das suas relações com o mundo.
         «Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra» (carta de Eça a Ramalho Ortigão de 10.11.1878). Se é certo que esta frase reflete a visão que o escritor queria que dele tivessem os seus contemporâneos, sabemos hoje que se trata de mais uma das suas muitas dissimulações: aquela república, bem assim como a de São Marino e até a de Portugal, país onde tanto se prezam os mitos e as fantasias, também têm história. Experimentem perguntar aos historiadores.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Aniversário de Eça de Queirós

O 169.º aniversário de Eça de Queirós foi comemorado no país com diversas manifestações culturais. Para além do capítulo da Confraria Queirosiana realizado no dia 22 de novembro no Solar Condes de Resende em Vila Nova de Gaia, e do jantar no Grémio Literário em Lisboa no dia 25 de novembro, precedido pela exibição de cenas do filme de João Botelho sobre Os Maias ali filmadas, comentadas pelo realizador e com a presença de alguns os atores e técnicos desta produção, nesse mesmo dia decorreu uma sessão comemorativa na loja Porto de Baião, na cidade do Porto, com a presença de José Luís Carneiro, presidente da Câmara Municipal de Baião, do mesário-mor da Confraria Queirosiana e outros confrades, de membros da direção da Fundação Eça de Queiroz e da Câmara de Amarante. Na ocasião foi apresentado o “Prémio Fundação Eça de Queiroz”, aberta ao público a mostra documental sobre “Eça de Queiroz – Teixeira de Pascoaes” e lançado o livro “Eça de Queiroz e a Casa de Tormes” de Secundino Cunha, o qual, no dia 28 de novembro seria também lançado na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto da Póvoa de Varzim, onde foi apresentado pela Dr.ª Maria da Conceição Nogueira.
         Nesse mesmo dia foi também lançado no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha no Porto a 2ª edição do livro “Os Maias – Antologia Ilustrada”, da autoria de Rui Campos Matos, um álbum sobre o romance com grande qualidade gráfica e interpretativa, lançado pela Editora Exclamação de Leça da Palmeira.
 Entre os dias 24 a 29 de novembro, com a presença de vários confrades, decorreu na Escola Secundária Eça de Queirós em Lisboa o XX Colóquio dos Olivais, organizado pelo Centro Cultural Eça de Queirós.

Livros, revistas e traduções

Correspondência queirosiana

        
Pela Colares Editora acaba de aparecer no mercado um novo contributo de A. Campos Matos para a publicação integral da epistolografia queirosiana, intitulado “Eça de Queiroz Correspondência (Adenda II)”, a complementar a edição publicada pela Caminho em 2008 e a “Adenda” [I], publicada pela Parceria A. M. Pereira em 2013. Desta vez trata-se da carta de Eça a Junqueiro a agradecer a sua recensão a O Primo Basílio escrita em 1878 e da versão integral de uma carta de Eça a Eduardo Prado da década de noventa, comentadas e enquadradas pelo autor.
         Estamos certos que A. Campos Matos continuará a surpreender-nos com outras importantes achegas para a compreensão da vida e obra do escritor, e que o seu labor terá o reconhecimento público que há muito merece.

Documentos queirosianos

         Pelo presidente da Associação Cultural Amigos de Gaia, Doutor Salvador Almeida, foi oferecida à Confraria Queirosiana uma cópia da Carta Patente da Nomeação de Eça de Queirós como cônsul de 1ª classe no Havre e Paris, a qual foi oferecida àquela associação aquando da sua última visita ao roteiro queirosiano francês. Esta cópia vem assim enriquecer o espólio documental da Confraria que conta já com cópias dos manuscritos de Eça existentes no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, para além de outros.

Ernestina, nova edição

        
Foi recentemente publicada pela Quetzal uma nova edição do romance autobiográfico “Ernestina”, de J. Rentes de Carvalho, que se apresenta com uma belíssima capa. Para além do seu valor literário – uma obra de referência da Literatura Portuguesa do século XX – é ao mesmo tempo o mais belo texto sobre o Centro Histórico de Gaia, relatando a sua vivência entre os anos trinta e a Segunda Grande Guerra, quando aqui chegava em veleiros portugueses o bacalhau da Terra Nova e daqui partia para todo o mundo o Vinho do Porto.


Telheiras

Acaba de ser publicado o n.º 7 da 2.ª série da revista “Telheiras – cadernos culturais. Lumiar – Olivais – Telheiras”, referente a novembro de 2014, dirigida por Fernando Andrade Lemos e José António Silva, com artigos dos diretores e dos confrades César Veloso e Alda Barata Salgueiro, entre muitos outros, sendo alguns de temática queirosiana, até porque esta revista é propriedade do Centro Cultural Eça de Queiroz/ Escola Secundária Eça de Queirós/ Centro Cultural de Telheiras, em Lisboa.

Eça em hebraico

         Através do realizador Amílcar Rodrigues foi-nos enviado o conto de Eça de Queirós “O Suave Milagre” traduzido para hebraico por Francisco da Costa Reis que, por sua vez, já tinha traduzido para a mesma língua o texto “Carta a Mr. Bertrand – Engenheiro na Palestina” do livro “Correspondência de Fradique Mendes”, publicado na revista “Moznaim” da Associação dos Escritores Hebraicos de Israel, em dezembro de 1999.

Salon d´Automne queirosano 2014
        
Durante os meses de novembro e dezembro esteve aberto ao público no Solar Condes de Resende o Salon d’ Automne queirosiano 2014 com obras de pintura, fotografia, escultura e cerâmica de Abel Barros, Angelina Rodrigues, António Pinto, António Rua, Beatriz Correia, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Ilda Gomes, Susana Moncóvio e Valença Cabral. Alguns dos expositores são alunos do Curso de Pintura do Solar dirigido pela Prof.ª Paula Alves.
        

Cursos e Palestras

         Continua a decorrer no Solar Condes de Resende o curso sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia/Porto/Matosinhos), tendo sido conferencistas os professores Francisco Ribeiro da Silva, sobre o tema “O Porto e o seu Termo no período filipino” a 6 de dezembro, e António Barros Cardoso sobre “O Douro, o Porto e o Vinho – das origens à criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro” a 13 de dezembro.
          Continuou também nesta Casa, que celebra 30 anos de propriedade municipal, o ciclo de palestras mensais das últimas quintas-feiras do mês, no passado dia 27 de novembro com J. A. Gonçalves Guimarães a dissertar sobre “As tradições do Natal aos Reis”, tendo a 29 do mesmo mês este investigador apresentado no Salão Nobre da Misericórdia de Gaia o livro “António Almeida da Costa. Industrial. Humanista. Filantropo” da autoria de Fernando António da Silva Correia editado por aquela entidade.
         No dia 6 de dezembro, no Auditório Orlando Ribeiro em Telheiras, Lisboa, decorreram as XI Jornadas Históricas do Lumiar, organizadas pelo nosso confrade Fernando Andrade Lemos e seus colaboradores.
         No passado dia 20 de dezembro, Francisco Barbosa da Costa proferiu uma palestra sobre a Primeira Grande Guerra na abertura de uma exposição alusiva ao tema no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia.
        
Património e cidadania

         Nos dias 12 e 13 de dezembro decorreu no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o Encontro Internacional sobre os Municípios na Modernização Educacional e Cultural, patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura, a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Fundação Calouste Gulbenkian, onde estiveram presentes vários confrades queirosianos desta área. Na ocasião, Eva Baptista e Fátima Teixeira apresentaram a comunicação intitulada “Educação Cívica e Património Local (Atividade de Enriquecimento Curricular)” , baseada no projeto elaborado pelas autoras, em colaboração com J. A. Gonçalves Guimarães, no âmbito das ações educativas do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR – Confraria Queirosiana, o qual se encontra em aplicação no âmbito das atividades extra-curriculares (AEC.s) em vários agrupamentos do Município de Vila Nova de Gaia , pretendendo os autores levá-lo agora a outros municípios do país.

Em Sintra

         No passado dia 13 de dezembro decorreu o IV capítulo da Confraria dos Sabores de Sintra no Palácio Nacional de Queluz, no qual a Confraria Queirosiana se fez representar pelo seu vice-presidente Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo, estando igualmente presentes outros confrades. O jantar decorreu na cozinha velha daquele monumento nacional, no qual esteve presente o presidente da edilidade.
        
Deputada

         Assumiu recentemente as funções de deputada à Assembleia da República a nossa confrade Adelaide Canastro, integrando o grupo parlamentar do Partido Social Democrata. Solicitadora de profissão, no anterior mandato autárquico foi presidente da Junta de Freguesia de Canelas.
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Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 76 – quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www .queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.pt; eca-e-outras .blogspot .pt; vinhosdeeca.blogspot.pt; academiaecadequeiros.blogspot.pt; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: A. Campos Matos; Salvador Almeida; Fernando Andrade Lemos; Amílcar Rodrigues; Luís Manuel de Araújo.





terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dia natalício de Eça de Queirós

O Diário Íntimo de A. Campos Matos

A. Campos Matos é sem sombra de dúvida o maior interlocutor de sempre entre a vida e a obra de Eça de Queirós e a sua realidade. Para defender tal afirmação bastaria lembrarmos a sua direção e participação no Dicionário de Eça de Queirós, de que se aguarda renovada edição, a que juntaríamos Eça de Queiroz. Uma biografia (2010), escrita após a publicação de 7 biografias de Eça de Queiroz (2004) e muitos outros ensaios. A. Campos Matos possuirá a maior biblioteca estritamente queirosiana do mundo, pois começou aos catorze anos a reuni-la a partir da biografia de Eça escrita por João Gaspar Simões e, desde então, coletou “tudo” sobre a matéria, a que juntou num arquivo pessoal tudo quanto é recorte de jornal, pagela, folheto, menu, etc. sobre temas queirosianos e ainda autógrafos do escritor e outra memorabilia.
Para escrever aquela sóbria e repensada biografia refletiu sobre a problemática do tema debatida por Holroyd, Virgínia Woolf, Maurois, Sartre, Kendall, Edel, Barthes e alguns autores portugueses na sua esteira, o que deu como resultado «não… um inventário de factos (da vida e obra) mas da tentativa de os conectar e de extrair deles escondidos significados, insuspeitados para o leitor desprevenido, de modo a criar uma personalidade viva. A arte do biógrafo deverá almejar a esse difícil desígnio» (Eça de Queiroz. Uma biografia, p. 26/27). E aí temos o biógrafo creditado. Mas também aí refere que o leitor, a quem afinal tudo isto se destina, «deverá avaliar [-se] que grau e espécie de intimidade tem o biógrafo com o seu autor, que tempo de convívio, que profundidade de leitura» (idem, p. 17), a que acrescentaríamos que “conversas” têm tido Eça e Campos Matos ao longo destes anos de “convívio”, algumas das quais estão publicadas em, por exemplo, Sobre Eça de Queiroz (2002).
E vai daí, fruto com certeza de muitas outras confidencias que não conhecemos, o biógrafo veríssimo publicou agora o Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930), sim senhor, esse mesmo, o de Os Maias, que não se matou nem se morreu quando descobriu a tragédia em que os fados o envolveram e na qual nenhuma culpa lhe cabe. Não tendo Eça tido tempo para publicar um terceiro volume onde nos contasse o que lhe sucedeu depois, A. Campos Matos veio a saber da existência deste seu diário encontrado na Livraria Lello do Porto (pois em que outro lugar do universo queirosiano haveria ele de aparecer?) e, o que é mais, prefaciado pelo seu filho, médico como o pai, e poeta.
Neste repositório de memórias, a personagem Carlos da Maia fala do seu criador, das vezes que esteve perto dele sem se atrever a falar-lhe, talvez para não “o corrigir”, pois nem sempre concorda com as opiniões que o criador tem sobre a sua criação. E o que é mais, com a morte prematura de Eça, Carlos da Maia descreve-nos queirosianamente muitos acontecimentos que lhe são posteriores, uns mundiais, como a 1.ª Grande Guerra, outros nacionais como a 1.ª República, outros regionais, ocorridos no Vale do Douro, outros locais, como os da sua quinta em Resende, outros familiares, como o seu casamento ou a carreira de seu filho, outros pessoais, como o seu exercício da Medicina, outros íntimos em muitas páginas de um diário que haveria de ser lido quando desaparecesse. E A. Campos Matos já o “matou”, pelo menos por agora.
Nestas páginas encontramos reflexões sobre as religiões, a literatura e a arte, mas também sobre o espírito crítico de António Sérgio nos seus ensaios, além de acontecimentos e personalidades da época, de Maximiano Lemos, a Raul Brandão e Sidónio Pais, ou o fenómeno de Fátima e de novo e sempre o duelo entre a ficção e a realidade: «… é necessário ter cuidado com a veracidade do que escrevem os escritores, sobretudo os ficcionistas. Estão sempre prontos a sacrificar a verdade dos factos se entenderem que esse sacrifício lhes traz vantagens de forma e efeitos de estilo, ou satisfações à sua vaidade» (op. cit. p. 382).
No posfácio, o autor constata que «o problema da efabulação literária sobre uma obra levanta, para muitos, esta interrogação: é ou não legítimo fazê-la?». Creio que mais do que uma questão de legitimidade, da lege, deveríamos antes interrogamo-nos se a obra ficou bem conseguida, se nos agrada. E aqui não tenho dúvidas: este Diário Íntimo de Carlos da Maia é uma notável (re)criação de A. Campos Matos, o resultado do seu quotidiano diálogo  de muitos anos com o escritor e que pode ser lido como um contributo à sua perenidade intemporal através destas memórias carregada de realidades sobre as quais certamente Eça de Queirós teria escrito se a vida se lhe tivesse alongado e viesse a morrer aos noventa e cinco anos. Como tal não aconteceu, A. Campos Matos transfigurou-se nesta efabulação e criou este livro onde pôs tudo quanto obteve da intimidade que tem com ele desde os catorze anos. Competirá ao leitor decidir onde termina um e continua o outro, se é que tal questão se pode pôr, pois para a pessoalidade da obra ela tem pouco interesse: este Diário é de Carlos da Maia, prefaciado por seu filho, ambos representados por A. Campos Matos, porque a fantasia não existe sem tutor, e será lido por muitos dos seus netos e bisnetos, que somos nós, conscientes de que vivemos apenas «…o que vive um foguete, o espaço dum estalo e dum clarão» (Eça de Queirós, O Conde de Abranhos).

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor


Capítulo da Confraria Queirosiana

           
   No passado dia 22 de novembro decorreu no Solar Condes de Resende o 12º Capítulo da Confraria Queirosiana. A partir das 17,30 foram chegando os confrades e sócios vindos dos diversos pontos do país, e alguns outros chegados na véspera do Brasil e naquele próprio dia de Luanda.
     Reunidos nas antigas dependências da Casa, o cortejo de confrades desceu ao pátio e subiu ao salão nobre por entre as salas com as obras de arte do Salon d’ Automne queirosiano 2014. Esperava-os a orquestra de câmara da Escola de Música de Perosinho dirigida pelo maestro Prof. João Costa, a executar a Pastoral do Concerto Grosso em sol menor op. 6 n.º 8 de Corelli. A mesa foi formada por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que viria a ser insigniado neste mesmo capítulo; José Manuel Tedim, presidente da direção; César Oliveira, presidente da mesa da assembleia geral; J. A. Gonçalves Guimarães, mesário mor da Confraria e Olga Cavaleiro, presidente da Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas, que usaram da palavra para referir as atividades da Confraria, dar as boas vindas às instituições presentes, aludir ao papel das confrarias na cultura portuguesa e, o presidente no encerramento da sessão, às atribuições do Solar enquanto equipamento municipal no programa da câmara para a Cultura e a Educação. Estiveram presentes, além das instituições já referidas, a Associação Cultural Amigos de Gaia, Associação de Amizade Portugal- Egito; Associação dos Amigos de Pereiros; Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal; Confraria do Medronho, Tábua; Confraria do Vinho de Carcavelos; Confraria dos Enófilos da Estremadura; Confraria dos Sabores de Sintra; Confraria dos Ovos Moles de Aveiro; Confraria Gastronómica do Concelho de Ovar; Gertal; jornal As Artes entre as Letras; Junta de Freguesia de Canelas e Urbiface.
            Os sócios falecidos em 2013, D. Diogo de Cernache, 5º Conde de Campo Bello e o Eng.º José Pereira Gonçalves, foram recordados pelo mesário-mor e evocados nas páginas do n.º 11 da Revista de Portugal.
            Seguiu-se a assinatura de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e os ASCR - Confraria Queirosiana, de especial incidência no âmbito cultural e no projeto dos investigadores-tarefeiros.
            Foi ainda divulgado o bastão queirosiano, réplica do que Eça ostenta na “fotografia de noivado”, o qual complementa o trajo dos confrades.
Foram depois chamados os confrades que, ao abrigo dos Estatutos da Confraria, mudaram de grau devido à apresentação e divulgação de trabalhos sobre a vida, obra e época de Eça de Queirós, nomeadamente Eva Baptista, Licínio Santos, Maia de Fátima Teixeira e Sílvia Santos, a que se seguiu a insigniação dos novos confrades, Ricardo Haddad, industrial têxtil; Susana Moncóvio, historiadora da Arte e Eduardo Vítor Rodrigues, sociólogo e presidente da Câmara de Gaia. Não foi insigniado o realizador João Botelho pois, por motivos incontornáveis, não pode estar presente na cerimónia.
            A orquestra de Câmara tocou depois uma área de J. S. Bach e, após o discurso de encerramento, os três andamentos da obra de abertura do capítulo, após o que os presentes se dirigiram ao Jardim das Camélias, com exuberante floração nesta época do ano, colocar uma coroa de louros na estátua de Eça de Queirós.
        O convívio entre os confrades passou então ao pavilhão do Solar, onde foi servido o jantar queirosiano, abrilhantado pelos “Eça Bem Dito” que interpretaram canções da Belle Époque, tendo ao piano Maria João Ventura. Seguiu-se a exibição de danças de salão pela Academia Gente Gira e o Baile das Camélias.

Livros e revistas

Revista de Portugal

No capítulo de Confraria Queirosiana foi então lançado o n.º 11 da nova série da Revista de Portugal, de que é diretor Luís Manuel de Araújo. Dedicada aos 30 anos do Solar Condes de Resende como Casa Municipal de Cultura, apresenta na capa um recanto desta antiga residência senhorial pintado a óleo por Susana Guimarães e, no seu interior, o editorial, da autoria do diretor-adjunto da revista J. A. Gonçalves Guimarães e diretor da instituição, dedicado à efeméride, lembrando os aspetos mais relevantes destas três décadas e os acontecimentos internacionais que aqui tiveram lugar. Segue-se a memória dos confrades falecidos, D. Diogo de Cernache Conde de Campo Bello, e o Eng.º José Luís Pereira Gonçalves e depois diversos estudos sobre documentos em latim, entre eles um fragmento de partitura musical possivelmente do século X, da autoria de Manuel António Ribeiro; um estudo sobre a vida e obra de Leal da Câmara, de José Manuel Gonçalves; uma abordagem da História Empresarial a nível mundial por J. A. Gonçalves Guimarães; um depoimento circunstancial e pessoal sobre o 25 de Abril por Jaime Milheiro, a que se seguem recensões de Luís Manuel de Araújo e de José António Afonso sobre “A oratória política do Padre António Vieira” de José Nunes Carreira; as “Memórias Paroquiais de 1758”, vol. V; e sobre a Editora &etc., e uma notícia sobre o livro “Leiria no século XIX” de Charters d´Azevedo. O presente número inclui ainda a Bibliografia dos sócios e confrades referente a 2013 e as Atividades da associação editora no mesmo ano.

Na senda de Fernão Mendes
   



Editado pela Gradiva, foi lançado no passado dia 19 de novembro no Grémio Literário em Lisboa, o livro “Na senda de Fernão Mendes – Percursos Portugueses no Mundo” da autoria de Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. O livro reflete as visitas feitas por esta entidade sob o lema “Os Portugueses ao encontro da sua História”, peregrinações realizadas aos diversos pontos do globo por onde os portugueses deixaram a marca da sua passagem e da sua humanidade.




Escutar a Literatura
      

Da autoria de Mário Vieira de Carvalho, será apresentado a 18 de dezembro na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o livro “Escutar a Literatura. Universos sonoros da escrita”, que aborda as relações com a música e o canto de autores como Garrett, Teolinda Garção e Lídia Jorge, entre outros. Sobre Eça de Queirós apresenta este livro o interessantíssimo capítulo IV -  “ O som e a escuta na emergência do estilo queirosiano: O Crime do Padre Amaro”, aqui com quatro “andamentos” sobre a música nesta obra deste escritor.



Arquivos de Família

            Editado pelo Instituto de Estudos Medievais, com prefácio de Silvestre Lacerda e o patrocínio, entre outras entidades, do nosso confrade Ricardo Charters d’ Azevedo, vai ser lançado no dia 10 de dezembro no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, o utilíssimo livro “Arquivo de Família: Memórias Habitadas. Guia para salvaguarda e estudo de um património em risco”, o qual interessa a todos aqueles que têm arquivos privados e públicos, ou que têm de os rentabilizar culturalmente.
            Está também disponível em versão digital (e-book) no site daquele Instituto.

Eça no Teatro

            Entre 7 e 23 de novembro passados esteve em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada, a peça O Mandarim, adaptada do livro de Eça de Queirós e encenada por Teresa Gafeira, com sessões especiais para grupos escolares. Temos assim mais uma adaptação da obra do escritor ao palco.

Leiria queirosiana

            No Centro Histórico de Leiria na rua Barão de Viamonte, antiga rua Direita, abriu ao público o Espaço Eça, um bar onde se podem degustar algumas especialidades gastronómicas e enófilas e ler um livro, no cenário onde o escritor viveu um ano que lhe havia de inspirar O Crime do Padre Amaro.
            Com uma oferta bastante diversificada, bastava porém que fossem servidos os vinhos, outras bebidas, e as comidas constantes na obra de Eça, sem ser preciso inventar nada, pois não vemos o que é que o escritor terá a ver com os petiscos de Castelo de Vide e da parafernália de cervejas estrangeiras anunciadas para o local. Eça de Queirós deve ser texto e não pretexto para qualquer coisa que nada tenha a ver com o seu universo. Mesmo assim, a Confraria convida todos os seus confrades a frequentarem este bar e deseja o maior sucesso aos seus gerentes, independentemente de acatarem ou não as nossas sugestões.


Pereiros, aldeia dos sonhos

            A aldeia de Pereiros, S. João da Pesqueira, num concurso realizado pela Fundação INATEL intitulado “Aldeia dos Sonhos”, entre 65 selecionadas para a final, obteve um honroso segundo lugar. A candidatura foi apresentada pela Associação dos Amigos de Pereiros, com quem a Confraria Queirosiana tem um protocolo de colaboração já materializado em diversos projetos. A entrega do galardão teve lugar no dia 3 de novembro em Campo Maior, tendo aquela associação sido representada pelo nosso confrade Alberto Silva Fernandes.


Eça &  Outras,  IIIª. Série, n.º 75 – terça feira, 25 de novembro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www .queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.pt; eca-e-outras .blogspot .pt; vinhosdeeca.blogspot.pt; academiaecadequeiros.blogspot.pt; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Charters d’ Azevedo.