quarta-feira, 25 de junho de 2014

Eça & Outras


Ateu da religião do Futebol

Meus amigos, tenho sempre tanto pudor, tanto arrependimento, tanto desgosto em desiludi-los. Eu bem gostaria de ser um cidadão normalíssimo, sossegado, filiado num bom clube de futebol e num bom partido político, que cumprisse os preceitos cívicos e religiosos regulamentados, que tivesse uma consorte (com sorte?!) que não lesse muito os escritores premiados e que soubesse que há searas mais férteis do pensamento, enfim, apenas mais um entre iguais. E na realidade assim sou: um banalíssimo cidadão assalariado do seu trabalho, cumprindo os preceitos sociais e democráticos quanto baste, procurando ser útil aos seus concidadãos e aos seus semelhantes segundo aquele preceito universal comum a todos os humanos que não passam fome e que na solidão, ou na sua tribo, vivem um aparentemente sossegado quotidiano, como se fossem pastores do rebanho da normalidade. 
Não, não quero ajudar a criar nenhum império, nem militar nem filosófico, nem religioso, nem económico, nem futebolístico, consciente das tiranias e efemeridades dos que nos precederam, próprios ou alheios, e daqueles em que ainda vivemos mergulhados (FMI; BCE; multinacionais conhecidas e secretas; congregações religiosas internacionais de vários credos; FIFA; G7 ou G8 ou G6 ou G9, conforme as cimeiras, OTAN ou Pacto de Varsóvia, ou o que quer que lhes tenha sucedido e tutti quanti). Não votei jamais para que haja nações polícias do mundo e não reconheço qualquer “raça eleita” a não ser a do banalíssimo homo sapiens sapiens, e, mesmo assim, com interrogações.
Não quero destruir nenhuma civilização, por mais perversa que ela me pareça, pois tenho a certeza, dada pelo conhecimento da História, que também aí existem os que querem partilhar o seu copo de água fresca à sombra de uma boa árvore de fraterno convívio humano, se os deixarem.
Mas todo este arrazoado, oh leitores, para quê? E porquê? Para além do desafiar o enfado de vossa paciência? É que eu tenho direito a defender-me, mesmo na minha insignificância e para tal, socorro-me do nosso Eça, a ver se ganho alguma autoridade no que a seguir escrevo. Nestes tempos de Mundial de Futebol, uma das maiores religiões, atualmente quase universal, tenho sido olhado de soslaio e vítima de reprimendas sérias em público e em privado que têm como alvo o meu ateísmo futebolístico, que nem sequer é militante, mas que, pelos vistos, ofende os crentes, os devotos de S. Ronaldo, os bispos da FPF, os cardeais da FIFA, os agentes de viagem, os vendedores de cachecóis com frases idiotas, os fabricantes de imagens de jogadores de futebol, os vendedores de couratos e cervejas à porta dos templos, perdão, dos estádios, os canais de televisão e, obviamente, a tremendíssima máquina económica que está por detrás de tudo isso, sempre mergulhada em trapaças, quando não mesmo em crimes económicos e sociais. Choca-me que os indigentes e assalariados do meu país alimentem esta máquina e sobretudo que achem que assim é que está certo, para seres normais. O pária aqui serei eu.
Antes de mais deixem que lhes diga que não tenho nada contra o Futebol em si mesmo, como divertimento de multidões, espetáculo, e até, talvez, desporto, pelo menos para os meninos que, como eu fiz, jogam a bola na rua, ou de preferência num campo a tal destinado.
Mas eu sou daqueles estúpidos que ainda acreditam que isso poderia ser um bom motivo para festas da humanidade, uma oportunidade para o fair play, aquele abraço ao adversário que lealmente nos superou. Mas não, a coisa é posta pelos governantes e pelos eleitores como se a seleção nacional (?!) fosse o atual exército de Aljubarrota e dele dependesse a independência de Portugal, o que é, no mínimo, ridículo.
Cidadão terráqueo, o mais universal possível, que gostaria de ter um cartão das Nações Unidas, embora seja afetivamente palopiano (dos PALOP,s) e europeu, de matriz greco-latina matizada com valores nórdicos e mediterrânicos, português e duriense, não sou obviamente indiferente à afirmação no palco mundial da casa-mãe que habito com os meus concidadãos mais chegados, mas tudo isso dentro de algum bom gosto, bom senso e fraternidade universais. A festa, a partilha, percebem?!
Aos devotos da religião do futebol, aqueles que creem porque sim, indiferentes a qualquer interrogação sobre os fundamentos da sua “fé”, direi apenas que a minha consideração vai antes para todos os que «amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre e, deixando para trás as glórias que ganhamos nas Molucas, ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigindo-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas novas qualidades elevá-la entre as nações» (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas). Ora, me desculpem, até à data e no meu modestíssimo entender, o mundo do futebol, local, nacional e internacional ainda não se encaixou nestas «formas superiores de pensamento» (Idem, idem) e por isso, repito, lamentando desapontá-los, continuarei quase indiferente ao concílio futebolístico que se desenrola lá para o Brasil e as telenovelas a que dará origem.
E aquele “quase”, podem crer, é uma tremenda tentativa de algum “espírito de tribo” da minha parte para com todos vocês, oh crentes da religião do futebol.
E ademais, como muito bem clarificou um tal treinador de futebol, homem riquíssimo graças aos pontapés na bola, «eu não sou o Eça de Queirós!». Isso já se sabia, mas talvez o dito ainda venha a lê-lo, para proveito seu e de todos nós. No próximo ano de 2015 Eça “jogará” em S. Paulo e, reparem bem nesta minha infinita serenidade de crente noutra “religião”: tenho a certeza absoluta que o escritor, eu próprio, todos vocês, Portugal, a Língua Portuguesa, a fraternidade universal, vamos ganhar esse “campeonato”. Vai um cachecol com o Eça?
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça em S. Paulo

Criado em 2006, o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo é caso único no panorama museológico mundial, ao dedicar-se exclusivamente à universalidade de um dos idiomas mais falados no planeta.
Em recente visita a Portugal o seu diretor, Carlos Augusto Santini, concedeu a Andreia Azevedo Soares uma entrevista, publicada no “Público” a 13 de junho passado em que concretiza mais um pouco a programação da projetada exposição sobre a vida e obra de Eça de Queirós que ali decorrerá em 2015 e que visa tornar o escritor mais familiar ao público ledor brasileiro, tendo em conta que ele é um património comum a brasileiros e portugueses, mas ao mesmo tempo universal.
Sendo um dos museus mais visitados do Brasil e da América Latina, esta exposição será certamente um marco importante na afirmação da lusofonia e servirá ainda para reduzir à sua verdadeira dimensão aspetos teóricos e técnicas como o Acordo Ortográfico, com que se têm entretido os escarafunchadores de banalidades a haver.
A falar, a ler e a escrever é que a gente se entende, com mais ou menos sotaque, mais ou menos ortografia acordada.

Eça de Queirós em Engenharia

No passado dia 30 de maio na Sala de Atos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, o Club de Leitura da sua biblioteca organizou uma sessão sobre Eça de Queirós em que foram palestrantes, Isabel Margarida Duarte, da FLUP e Augusto Santos Silva da FEP, tendo sido moderador Sebastião Feyo de Azevedo, professor de Química, diretor daquela faculdade e Reitor eleito da Universidade do Porto. O mote foi: «Será que a leitura da obra deste autor nos ajuda a perceber melhor a realidade sócio cultural portuguesa?».

A. Campos Matos


Em entrevista concedida em abril passado a José Roberto de Andrade, e publicada no jornal As Artes entre as Letras de 11 de junho passado e que no próximo dia 28 festejará o seu quarto aniversário com uma sessão às 15 horas na Casa das Artes no Porto, A. Campos Matos, para além das suas contínuas reflexões pessoais sobre a vida e obra de Eça de Queirós, que vai revivificando e publicando indiferente à sornice de alguns meios literários, anunciou para breve algumas reedições dos seus trabalhos e uma nova obra sobre o escritor com mais de quatrocentas páginas, para além da saída, talvez ainda este ano, da 3.ª edição do seu Dicionário de Eça de Queirós em dois volumes, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda: «Sou de facto um trabalhador persistente da obra queirosiana», afirmou na referida entrevista.

Livros

A Relíquia ilustrada

Chega-nos a notícia pela pena de Adelto Gonçalves, também no jornal As Artes entre as Letras, de que em 2013 foi editada pela Fundação Waldemar Alcântara, de Fortaleza, Brasil, a obra de Eça de Queirós A Relíquia. Uma Antologia Ilustrada, pelo traço do arquiteto Rui Campos Matos, que ao rigor iconográfico épocal alia uma linguagem plástica atual de grande qualidade.
Filho de A. Campos Matos, ilustrou Clepsidra de Camilo Pessanha em 2006 e uma antologia de Os Maias, em 2009, além de outras colaborações na Fotobiografia de Eça de Queiroz: vida e obra, da autoria de A. Campos Matos, publicada pela Leya em S. Paulo, em 2010. Fica assim esta edição como um marco incontornável de um dos romances portugueses que mais contribuíram para a maturidade da cultura portuguesa, reconhecida internacionalmente como uma obra-prima, mas olhada de soslaio entre nós.

Retrato de Rapaz

No passado dia 5 de junho, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, foi apresentado pelo Professor Alexandre Quintanilha o mais recente livro de Mário Cláudio intitulado Retrato de Rapaz, editado por Publicações D. Quixote, uma novela sobre um endiabrado aprendiz no atelier de Leonardo Da Vinci.

Eventos

A maior garrafa do Mundo

A 31 de maio passado, na Quinta da Boeira, Vila Nova de Gaia, foi inaugurada a maior garrafa do Mundo em fibra de vidro, uma estrutura com 32 metros de comprimento e 9,5 metros de largura, podendo acolher 150 visitantes para provarem os vinhos das diferentes regiões vinícolas portuguesas. Volta assim Vila Nova de Gaia a ser a «taberna que dá vinho para todo o mundo» como um dia escreveu Camilo Castelo Branco, até porque ali decorreu a Portugal Wine Trophy, uma prova mundial de 1000 vinhos integrada neste evento, que teve o seu ponto alto na insigniação de confrades honorárias da Federação Portuguesas das Confrarias Báquicas, entre eles Eduardo Vitor Rodrigues, presidente de Câmara Municipal de Gaia e indigitado confrade queirosiano.
Situada na periferia do Centro Histórico de Gaia, a Quinta da Boeira acolheu uma feira de produtos tradicionais portugueses que passou a ser ponto de passagem obrigatório do circuito habitual dos turistas nacionais e estrangeiros da região do Porto e Norte.
Ao evento, dinamizado pelo nosso confrade Albino Jorge, estiveram presentes, entre outros confrades queirosianos, Manuel de Novais Cabral, presidente do IVDP, J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor; César Oliveira, presidente da MAG; Guilherme Aguiar, vereador do Turismo da câmara de Gaia e Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas.

Feira das Novidades

 Eduardo Vitor Rodrigues
 no Solar Condes de Resende
No passado dia 1 de Junho, Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia visitou a Feira das Novidades no Solar Condes de Resende, iniciativa da Confraria Queirosiana para apoio a pequenos comerciantes e vendedores que fazem pela vida. Acolhido pelo presidente da direção, José Manuel Tedim, pelo mesário-mor J. A. Gonçalves Guimarães e por Ilda Castro, comissária do evento, tendo cumprimentado todos os feirantes comprou produtos em todas as bancas. No próximo dia 6 de julho, domingo, haverá nova edição.



Dia de Itália

Susana Moncóvio, José Manuel Tedim,
Ilda Tedim e J. A. Gonçalves Guimarães
no Palácio do Freixo
«A Itália será o eterno amor da Humanidade sensível», deixou escrito Eça de Queirós em O Mandarim. Por este motivo, e também como reconhecimento pela ação cultural de há anos a esta parte desenvolvida pelo presidente da Associazione Sócio-Cultural Italiana del Portogallo-Dante Alighieri, ten. General Ângelo Arena, a convite do cônsul honorário de Itália no Porto, Dr. Paolo Pozzan, estiveram presentes no Dia de Itália, presidido pelo embaixador Renato Varriale, que se celebrou no passado dia 8 de junho no Palácio do Freixo, José Manuel Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Moncóvio dos corpos gerentes da Confraria Queirosiana. Na exposição então inaugurada «Il Mondo in Italiano» evidenciavam-se os tributos daquele «eterno amor» que lhe têm devotado muitos artistas e intelectuais portugueses, muitos dos quais presentes nesta festa.

Cursos e palestras

Diversos membros dos corpos gerentes da Confraria Queirosiana e das suas comissões de trabalho têm realizado conferências e palestras para os mais diversos públicos e entidades. Assim, no Solar Condes de Resende, a 22 de maio, J. A. Gonçalves Guimarães dissertou sobre “Vila Nova de Gaia e 1.ª Grande Guerra” e a 13 de junho em Ponte de Lima sobre “Iconografia do Vinho Verde na comercialização do Vinho do Porto” no âmbito das 1.ªs Jornadas sobre o Vinho Verde. A 23 de junho participou num programa na Rádio Placard sobre as festividades populares de S. João. A 9 de julho na FLUP, lecionará no I Curso de Verão sobre O Vinho do Porto: Memória, Identidade & Recurso, organizado pelo CITCEM, o tema “ Vinho do Porto, vinho com Arte”.
Por sua vez, José Manuel Tedim, falará a 26 de junho no Solar Condes de Resende sobre “André Soares e Frei José de Santo António Ferreira Vilaça, artistas de Rococó em Portugal”, nas habituais conferências das últimas quintas-feiras do mês.
A 28 de julho, no Parque do Castelo de Crestuma, será a vez de António Manuel Silva, sobre aquela estação arqueológica, e Maria de Fátima Teixeira sobre a Fábrica de Fiação de Crestuma, numa caminhada cultural a realizar naquela localidade gaiense. A 24 de julho Susana Moncóvio falará, de novo no Solar Condes de Resende, sobre Picasso e a sua influência na Arte Contemporânea.
Entretanto, no próximo mês de julho, entre 14 e 18, vai realizar-se na Fundação Eça de Queirós em Baião, a 16ª edição do seu Curso Internacional de Verão – Seminário Queirosiano, desta vez sobre o tema “De Eça de Queiroz a Teixeira de Pascoais”, o qual se destina a professores, estudantes universitários portugueses e estrangeiros e outros interessados na obra queirosiana.
A partir de Setembro próximo decorrerá no Solar Condes de Resende o seu 21º curso livre, organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente do Ministério da Educação, sob o tema “História e Carisma do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos, 5.ª edição), o qual terá como professores Amândio Barros, António Barros Cardoso, António Manuel Silva, Fantina Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães, José Manuel Tedim, Jorge Alves e outros. O curso desenvolver-se-á ao longo de treze sessões, aos sábados à tarde, entre outubro de 2014 e março de 2015 e apresentará as mais recentes investigações sobre a história da região.

In Memoriam


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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 70 – quarta-feira, 25 de junho de 2014
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sábado, 24 de maio de 2014

Eça & Outras, Domingo, 25 de maio de 2014


As atuais classes sociais

Parece-nos óbvio que a sociedade continua dividida em classes e resultou ingénua nos seus propósitos a tentativa de igualdade da Revolução Francesa, impossível de concretizar-se, como o demonstraria Darwin, porque estamos a falar de seres vivos e não de “peças”.
Se nos parece hoje completamente inapropriada a velha classificação classista em clero, nobreza e povo, ela própria já complicada desde o século XIV com a ascensão ao poder da burguesia urbana europeia, também nos parecem completamente fora da realidade as suas denominações derivadas, ainda sustentadas pela terminologia dos pensadores do século XIX, nomeadamente os marxistas, que falam ainda muito, e até aos dias de hoje, em povo e em burguesia. Ora parece-nos que tal já não tem fundamento nem histórico nem sociológico. Talvez seja apenas um comodismo cultural.
Ainda há pouco tempo ouvi, a propósito de terrenos baldios, um presidente de junta de freguesia falar em nome do povo exatamente como o fariam qualquer fidalgo ou frade do século XVIII sobre a sua coutada ou o seu couto, não por poderem ser úteis à comunidade, mas apenas porque lhe pertenceriam por direito, só faltando o “divino”, agora às vezes substituído pelo “constitucional”. Mas sem qualquer alusão à circunstância de tais terrenos servirem ou não para alguma coisa, ou mesmo gerarem despesa pública, como era o caso devido aos incêndios e seu combate. Rendimento? Interesse comunitário? Um rebanho de uma dúzia de cabras e a “satisfação da propriedade”. Ora o tal nobre ou o tal frade, ainda que com fundamentos ideológicos diversos, invocariam noutros tempos os mesmíssimos motivos deste representante do povo de agora. Porquê? Porque hoje já não há separação funcional das classes mas apenas graus ou gradações simbólicas, a sua representação social é transversal porque se democratizou e a única diferenciação efetiva é a económica, gerando ou mantendo a capacidade de sobrevivência e de preponderância do indivíduo, e não já da classe, na sociedade atual.
Nos dias de hoje são pois as seguintes as classes sociais existentes, desde a base da pirâmide para o vértice (para usar ainda uma imagem clássica): em primeiro lugar os Indigentes, aqueles que são completamente dependentes dos outros para sobreviver, não auferindo qualquer remuneração regular nem detendo qualquer meio ou força de produção de bens e serviços.
Seguem-se os Pensionistas, com diversas denominações, aqueles a quem a sociedade organizada, através dos setores público, privado ou misto, assegura uma remuneração regular e pré-determinada, quer ela corresponda à reforma devida pelos descontos que efetuaram durante a sua atividade produtiva, quer corresponda ao subsídio, ainda que temporário, de desemprego ou qualquer outra indeminização social.
Temos depois a grande massa dos Assalariados, aqueles que recebem uma remuneração contratada ou à tarefa, em troca do serviço que prestam ou dos bens que produzem. É também do seu trabalho que sai a maior parte dos descontos para sustentar os Pensionistas e os Indigentes.
Seguem-se os Produtores, aqueles que sob várias formas organizativas “trabalham por conta própria”, na produção de bens e serviços que a sociedade lhes paga diretamente, quer de bens intelectuais (pintores, escritores, músicos), quer de serviços (guias de viagem ou jornalistas free lancers, por exemplo), quer agricultores ou industriais. São os donos dos seus próprios meios de produção e deles, bem assim como da conjuntura económica, são totalmente dependentes.
Temos depois os Especuladores, aqueles que, sem nada produzirem diretamente, vivem dos rendimentos do capital que herdaram ou acumularam e das suas mais valias. Não tanto como os anteriores, o seu número e importância social variam muito, dependendo do capital investido e do saldo conseguido e do volume dos resultados alcançados. Normalmente os indivíduos desta classe seguram-se económica e socialmente como Pensionistas.
Finalmente, em volta do vértice da pirâmide, temos os poucos mas muito poderosos Capitalistas, aqueles que, partindo de ideologias religiosas ou políticas várias, são protegidos por governos, polícias e exércitos, detêm a riqueza das nações, mandam nos governantes – que todos os outros podem eleger ou suportar no poder – e controlam a sociedade de acordo com uma estratégia local, regional ou global de acumulação contínua de riqueza artificialmente valorizada na bolsa e na especulação bancária e não no mundo do trabalho, a qual pouco ou nada tem a ver com a racionalidade humana, as bondades das religiões, os desesperos das fomes e o socorro às desgraças naturais, enganando os cidadãos entretidos com fantasias sociais e culturais. Conseguem (e conseguem-no muitas vezes) transformar a guerra, a doença, a fome, as crenças, a vida das pessoas, a existência enfim, no lucro que continuamente oleia e alimenta a sua máquina.
São estas as classes sociais atuais, ainda que com algumas possibilidades de sobreposições e variantes. É certo que Eça de Queirós já falava de «tempos de semitismo e de capitalismo», quando ainda a «Burguesia Liberal aprecia, recolhe, assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares» (A Relíquia), quando alguns padres sonhavam ainda ter «o privilégio de destronar os reis e dispor de coroas! (O Crime do Padre Amaro), e o povo tinha aquela «morosa paciência de boi manso» (A Correspondência de Fradique Mendes). Mas tudo isso é século XIX e vale hoje tanto como as poesias de Castilho. Saiba-me você, caro leitor, sem se enganar a si próprio, se é essencialmente um Indigente, um Pensionista, um Assalariado, um Produtor, um Especulador ou um Capitalista e vai ver que passa a perceber muito melhor o mundo que o rodeia. E arrume na sua estante, ao lado dos romances de Júlio Dinis, essas velhas e hoje inúteis denominações de clero, nobreza, burguesia e povo, ou semelhantes.
Mas, dir-me-á balbuciando, que farei eu a partir de agora com o estatuto social que supunha ter, a minha árvore de costados sem avós adúlteras, o título concedido a um longínquo antepassado que matou infiéis nas Cruzadas, a caveira de um servo da gleba morto em Aljubarrota de quem descendo segundo os mórmons, a memória de um visconde negreiro liberal, um tio-avô carbonário irmão do bispo do Dongo antepassado de um atual ministro de antiga colónia, um avô morgado membro da Internacional, um agricultor da campanha do trigo, um capitão da marinha mercante, um pai e uma mãe crentes nas aparições de Fátima e nas excelências do Estado Novo? Tudo isso vai para a lixeira da História, seu execrável positivista?! (chamar-me-á você assim à falta de melhor, mas olhe que já não se usa!). Não sei que lhe diga. Se puder, estime e cultive a sua dimensão humana, guarde as suas memórias, e se puder estude-as, ou dê a estudá-las a quem o saiba fazer, para se libertar do sarro da História, e talvez isso lhe seja útil e proveitoso.
Mas, dirá ainda você perante a minha já indisfarçável impaciência, mas então o meu doutoramento em semiótica quântica, a minha grã-cruz, a minha filiação no Ordem do Supremo Bem, a minha taça internacional de golf, o diploma de melhor pai de família do ano, não valem nada, não me separam dos “indiferenciados”?
Guarde-os bem guardados e que lhe façam bom proveito. Não sei se lhe agradará saber que muitos outros Indigentes, Pensionistas, Assalariados, Especuladores e (muito poucos) Capitalistas, têm curriculum idêntico ou mesmo superior ao seu e isso não os tem feito mudar de classe social, nem para “cima”, nem para “baixo”. A não ser na República da Fantasia, onde o ingresso ainda é grátis.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria



Eng.º José Pereira Gonçalves

 Faleceu anteontem em Lisboa, dia 23 de maio, o Eng.º José Luís Pereira Gonçalves, um dos nossos mais ativos e entusiastas confrades. Com um brilhante curriculum na área da Engenharia Electrotécnica, trabalhou em grandes empreendimentos em Timor, em Moçambique e em Portugal nas maiores empresas nacionais e internacionais da sua área profissional. Foi chefe de gabinete do Secretário de Estado da Industria Ligeira e Industria Pesada em 1977. Dedicou-se também ao ensino e ao desenvolvimento de programas relacionados com o mar, tendo sido administrados da Fundação Vasco da Gama, vice-presidente da APORVELA e membro da Academia de Marinha. Homem solidário e de projetos que visavam o engrandecimento do país e dos seus semelhantes, era membro de muitas associações e clubes, nomeadamente do Centro Nacional de Cultura, do Grémio Literário, da Associação 25 de Abril e dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, onde integrava os corpos gerentes, a Academia Eça de Queirós e estava a dinamizar o protocolo entre esta instituição e o Centro Cultural Eça de Queirós de Lisboa.
A Confraria perde assim um dos seus mais dinâmicos membros da região de Lisboa cujo exemplo será continuado por todos os seus Amigos e Confrades que sempre o recordarão com estima e apreço como um homem de ação ao serviço dos outros e da portugalidade.
A cremação do corpo ocorrerá hoje dia 25 de maio no Cemitério dos Olivais em Lisboa.

Livros

Eça de Queirós na China

No próximo mês de agosto, numa edição promovida pela Editora Literatura do Povo, com o apoio do Instituto Cultural de Macau e do seu vice-presidente Yao Jing Ming, vai ser lançada na China a coleção de literatura mundial “Espelho do Mar”, que se iniciará com a publicação de um volume de Eça de Queirós com a tradução de “ O Mandarim” e as crónicas “Chineses e Japoneses”. O escritor é já bastante conhecido do público ledor chinês desde que em 1984 foi traduzido “O Crime do Padre Amaro”, a que se seguiram
os seus outros romances. Cumpre-se assim a admiração que o escritor sempre teve pelo grande país do sol nascente.


J. Rentes de Carvalho

J. Rentes de Carvalho
e Francisco José Viegas
no LeV 2014.
Entre 9 e 11 de maio decorreu na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos mais uma edição de LeV-Literatura em Viagem onde, como é habitual nestes festivais, estiveram presentes escritores a sério, escritores faz de conta, reformados que, não tendo nunca escrito sobre as suas profissões, passaram a dedicar-se afanosamente à Literatura, escritores fabricados pelas editoras, campeões de literatura de supermercado, políticos metidos a escritores, enfim, um curioso painel de espécimes humanos dando encontrões uns aos outros à porta do Olimpo literário.
Salvou-se a noite de sábado em que foi feita uma homenagem ao escritor gaiense José Rentes de Carvalho, numa sessão sobre o tema “Nasci escritor”, durante a qual, Francisco José Viegas anunciou que a Quetzal vai republicar em outubro próximo Montedor, o seu primeiro romance que em 1968 teve um prefácio de António José Saraiva, onde este escreveu «o maior elogio do livro que tenho o gosto de prefaciar, é que não é uma repetição, mas uma invenção», ou seja, que o escritor criara um novo tipo de personagem até aí inédito na Literatura Portuguesa. Em 2015 será a vez de um romance inédito. Na ocasião a Confraria Queirosiana esteve representada, entre outros confrades por Carlos Sousa, membro da direção.

Grande Guerra 1914-1918

Joaquim Santos
apresentando o seu livro no RAL 4
Depois de no passado dia 5 de abril ter sido lançado em Leiria o livro “Jornalismo Leiriense e a Grande Guerra 1914-18” de Joaquim Santos, no RAL 4, sessão essa que contou com a presença de diversas autoridades militares, foi o mesmo livro apresentado em sessão civil no passado dia 10 de maio na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, onde foi apresentado o filme dos anos 20 sobre a ida dos dois Soldados Desconhecidos para o Mosteiro da Batalha.
Entretanto, como acima noticiamos, o Solar Condes de Resende, instituição que este ano celebra 30 anos como propriedade municipal, iniciou também no passado dia 22 de maio o ciclo evocativo deste acontecimento mundial, com a colaboração da Academia Eça de Queirós, desencadeando um conjunto de investigações sobre este tema que irão sendo publicadas até 2018.


História 8.º ano

A Editora Asa acaba de colocar no mercado o conjunto didático Páginas da História para o 8.º ano de escolaridade, o qual teve a colaboração de Eva Baptista licenciada em Ciências-Históricas Ramo Património, professora, membro e colaboradora do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ e investigadora do Solar Condes de Resende.

Congressos, colóquios, palestras e visitas

No passado dia 2 de maio, J. A. Gonçalves Guimarães, para o curso de bibliotecários do Instituto Superior de Economia e Gestão do Instituto Politécnico do Porte proferiu a palestra “As Bibliotecas da Minha Vida”; no dia seguinte, no Solar Conde de Resende deu a aula de encerramento do Curso sobre História Empresarial e Institucional sobre o tema “Empresários e Instituições portuenses”; no dia 10 de Maio, na Escola de Artes & Ofícios de Ovar, num colóquio sobre o projeto “O Cantar dos Reis em Ovar. Uma História de Diferenciação”, falou sobre “O Cantar dos Reis em Ovar”. Tradição Cristã e Singularidade Vareira”; no dia 17, de novo no Solar Condes de Resende, para o Clube Unesco da Maia, “Eça de Queirós e a Geração de 70” e ainda nesse mesmo local, no dia 22, a palestra “A 1.ª Grande Guerra em Vila Nova de Gaia”.
No sábado dia 17, Luís Manuel de Araújo, egiptólogo e diretor da Revista de Portugal realizou uma visita guiada à coleção egípcia da Universidade do Porto seguida de conferência no Salão Nobre da Reitoria. Nesse mesmo dia, no Museu do Vinho do Porto, na cidade do mesmo nome, Manuel de Novaes Cabral, presidente do IVDP e nosso confrade falou sobre o Porto 1815, o primeiro vintage de que há notícia fiável, também conhecido por Porto Waterloo ou Porto do Duque de Wellington, largamente referido nas obras de Eça de Queirós e objeto de curiosas falsificações ao longo dos tempos.
O Centro Cultural Eça de Queirós de Lisboa, com quem a Confraria Queirosiana está em vias de estabelecer um protocolo de colaboração, realizou ontem dia 24 de maio uma visita guiada pelo nosso confrade Fernando Andrade Lemos à Mãe de Água, nas Amoreiras, Lisboa, a que se seguirá uma palestra no Grupo de Amigos de Lisboa sobre a Simbólica dos azulejos da entrada do Hospital de S. José no dia 31 de maio e uma visita ao Aqueduto das Águas Livres no dia 14 de junho.
Entre 22 e 24 se maio decorreu no Porto o II Congresso Internacional sobre Património Industrial organizado pela Universidade Católica, no qual participou Laura Sousa, membro dos corpos gerentes dos ASCR-CQ e do seu Gabinete de História, Arqueologia e Património, que falou sobre a Fábrica de Santo António de Vale da Piedade em Gaia.

Protocolo dos Professores

O protocolo entre os Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e a Associação da Casa dos Professores e Educadores de Gaia foi recentemente alargado de modo a possibilitar aos sócios de ambas uma maior participação nas respetivas atividades, nomeadamente no projeto da Casa – residência cuja construção se iniciará em breve e para a qual decorre um período de inscrição dos interessados.


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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 69 – domingo, 25 de maio de 2014
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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Eça & Outras, sexta-feira, 25 de abril de 2014


1        Carta a J. Rentes de Carvalho

Meu Caro José

Esperei ansiosamente o seu livro Portugal. A Flor e a Foice. Li-o de fio a pavio. Voltei a lê-lo e a anotá-lo. Voltei a relê-lo. Estou certo que voltarei a folheá-lo. E, curiosamente, pareceu-me que já o tinha lido, mesmo sem termos ainda passado por outra encarnação: ou porque já li uma boa parte da sua obra e textos dispersos, ou porque conversamos sobre a edição holandesa, ou porque o conheço quanto baste. Talvez porque também tenha visto no livro uma daquelas reflexões que interessam sobre o 25 de Abril e que ainda não tinha lido de quem o viveu assim de perto, com uma tão grande e desgostosa lucidez. Tomara que nos tivéssemos enganado, que afinal a esperança tivesse sido para valer e chegado a redenção da Pátria e da nossa gente. Mas não, nada disso aconteceu, como todos sabemos. Estamos hoje genericamente melhor porque pior era impossível. Em 1974, atrás de nós, o país do iluminado de Santa Comba, só mesmo a Albânia e até houve quem de nós quisesse fazer os albaneses do ocidente depois daquela data.
Quando se deu o golpe militar estava eu em Moçambique no serviço militar obrigatório, desde 9 de Março. Não acreditei no interesse do golpe das Caldas, nem na ação dos spinolistas, além das movimentações políticas do general Kaúlza, cujo “Nó Górdio” ficou cada vez mais apertado onde eu estava. Tudo isso era problema deles, dos militares do quadro, já que era assim que colocavam as questões. Nós, os milicianos mais politizados, apenas queríamos então pouca coisa: acabar com aquela guerra estúpida, onde éramos a principal “carne para canhão”; conseguir para as colónias um estatuto decente no contexto internacional e nacional aceite pelos naturais (como tinha acontecido no Brasil em 1822!) e retomarmos a nossa vida profissional num país mais sensato e capaz. Não era pedir muito. Tudo o resto era o confronto dos diversos grupos sociais e económicos, nacionais e internacionais, que tinham interesses, ainda que aparentemente antagónicos, nas colónias e na guerra colonial, todos eles vindos do salazarismo, o regime acinzentador, onde se “era muito culto” por ler as Selecções do Reader’s Digest, vindas da América da civilização ocidental, ou, no caso dos meninos universitários «com a China na bota e o papá na algibeira» (Ary dos Santos), o Livro Vermelho de Mao, um sujeito sobre quem tinham uma vaguíssima ideia, mas mais simpático do que o façanhudo Estaline e sucessores e menos incómodo do que Che Guevara. Afinal era quase um mandarim! Logo nas primeiras notícias, nos primeiros contactos com estes redentores, também me dei conta, desconfiado, da caterva de charlatães a haver. E eles cresceram como cogumelos. Em nome da Revolução e da Democracia. Ámen.
Tive o privilégio de ouvir contar as operações militares na primeira pessoa pelo próprio Salgueiro Maia e tal bateu certo com a generosidade completamente desinteressada que no seu livro atribui a alguns militares. O Capitão de Abril viu anos depois ser-lhe negada, quando dela mais precisava, a pensão que o Estado atribuiu a outros; o mesmo Estado que tem distribuído condecorações, benesses e mordomias a quem tem posto os interesses pessoais e de casta acima dos direitos das classes produtivas. E já que cita o nosso patrono, deste seu livro e de si não poderia Eça de Queirós escrever como o fez a Oliveira Martins, a comentar-lhe os excessos descritivos do Nun’Alvares: «Também não me agradam muito certas minudências do detalhe plástico, como a notação dos gestos, etc. Como os sabes tu?... Estavas lá? Viste?...» (Eça de Queirós, Correspondência, 2.º volume, carta de 26.04.1894 a Oliveira Martins). Ora no seu livro não existem, felizmente, «esses traços… [que]… criam uma vaga desconfiança» (idem).
É que o José conheceu de perto os intervenientes, os protagonistas, esteve lá, falou com eles, viu a revolução de perto e com certeza com aquela alma generosa e profundamente crente na redenção humana, malgré tout, que eu lhe conheço, teria gostado imenso que tudo tivesse dado certo e que voltássemos todos a dançar nas ruas.
Mas não me desculpe o povo: sei que isso é uma generosa tradição dos pensadores dos séculos XIX e XX, como o próprio Eça e outros até aos dias de hoje, que viram nele o último reduto da moral após a falência das outras classes sociais depois da Revolução Francesa. Mas em 1974 já estávamos a entrar no último quartel do século XX. Se os D. Sebastiões existiram noutras épocas, havia então a miséria indescritível, o analfabetismo, a Inquisição, as ameaças dos infernos, as vagas promessas das bem-aventuranças celestiais e a obstinação de converter o inimigo à nossa paranoia institucional, na realidade aos nossos interesses. Mas nos nossos dias, depois de cento e cinquenta anos de sincero esforço de tantos homens e mulheres pela causa do ensino e da divulgação do conhecimento, do acesso fácil e grátis ao livro e à leitura, das liberdades de convívio e de debate de ideias entretanto conquistadas, da libertação da mulher no ocidente, do respeito pelas diferenças de etnia, de cor de pele, de religião, de ideologia, de costumes e maneiras de ser e estar, que não têm de ser aceitações caladas e acéfalas mas procuras de reciprocidades fraternas, depois de tudo isto que custou a vida e o bem-estar a tantos santos sociais, seria de esperar que o povo já não acreditasse em charlatães e apoiasse e elegesse os mais capazes, os mais sensatos, os mais honestos. Mas não foi, nem tem sido, isso que aconteceu: o povo continuou, as mais das vezes, a acreditar na sorte, na chico-espertice, nos dribles do futebol e só se queixa de tudo quando não pode ir de férias fazer nada. É triste, José, mas não vale a pena iludirmo-nos. E, no entanto, a esperança permanecerá, pois estamos a falar da família, de gente igual a nós. E também teremos falhado, mesmo quando apenas encolhemos os ombros, as mais das vezes por cansaço.
Como todos os acontecimentos marcantes na nossa História, o 25 de Abril criou desde logo os seus próprios mitos, ou foram-lhos criando. Com este seu livro corre o risco de, ou não acreditarem no que escreveu, ou concluírem mesmo que Portugal foi criado e só existe por milagre. Os que não viveram aqueles dias dificilmente saberão do que está a falar. O enquadrar o 25 de Abril na longa sequência da História pátria de mitos de estimação é de mestre, mas tem os seus riscos, pois cada viragem acredita-se genesíaca. Também aqui auguro que não lhe darão aplausos. Ainda não estamos a fazer história, pois as pessoas ainda estão vivas: os futuros historiadores, a serem sensatos e honestos, não poderão ignorar este seu depoimento, mas ele é-nos mais útil nos dias de hoje, Mas creio que só o futuro o aproveitará, pois continuará a ser difícil contrariar o triste destino matricial, habituados que estamos ao encortiçado cordão umbilical das nossas próprias desgraças.
O 25 de Abril foi uma estação de comboio nas nossas vidas onde pensávamos mudar o destino, mas o novo comboio só teve bilhetes para os do costume. Os que sempre se interrogam não tiveram outro remédio senão voltar à estação habitual, com novo visual, é certo, mas onde ainda não vislumbraram novo trajeto. Alguns continuam a ver passar os comboios. Outros desistiram e foram embora, a pé.
Em Portugal a foice cortou cerce a flor e não a deixou dar fruto. O cravo vermelho, que já foi noutros tempos a flor da causa miguelista, não dá polpa que se coma. Resta-nos voltar a pegar noutras sementes e recomeçar nova lavra da esperança.
Obrigado pelo seu livro, José. Um grande abraço do

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros



No passado dia 5 de Abril no Regimento de Artilharia n.º 4 em Leiria foi feito o lançamento do livro “O Jornalismo Leiriense e a Grande Guerra” da autoria do nosso consócio Joaquim Santos, o qual resultou da sua investigação para tese de Mestrado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
O presente estudo constitui um interessante contributo para a história da Grande Guerra, e da sua relação com a cidade e região de Leiria nas primeiras décadas do século XX e da participação dos seus naturais no grande conflito mundial que enlutou o país.




No passado dia 11 de Abril, Anabela Mimoso lançou em Lisboa na Casa dos Açores o livro “Rebelo de Bethencourt: Raízes de Basalto”, editado por Seixo Publishers e apresentado por Eduíno de Jesus, sobre este jornalista e poeta açoriano nascido em 1894, que fez parte da Geração Coimbrã e que em 1920 também escreveu «A hora é de incerteza mas é também de esperança. E essa hora de esperança, hora prometedora da nossa ressurreição, soará no dia em que, estrangeiros que somos, alcançaremos a nossa autonomia moral, deixando de ser os outros, para voltarmos a ser de novo e definitivamente – portugueses».




No próximo dia 29 de Abril, na Taylorian Institution da Universidade de Oxford, UK, a Professora Teresa Pinto Coelho, da Universidade Nova de Lisboa, especialista em Relações Anglo-portuguesas, lançará o seu livro, Eça de Queirós and the Victorian Pres, editado pela Tamesis, Londres e Nova Iorque.
Estarão presentes o Dr. João de Vallera, embaixador de Portugal no Reino Unido, e o Professor Emérito Tom Earle do King John II of Portuguese Studies.

Congressos, colóquios e palestras

Nos passados dias 11 e 12 de Abril decorreu na Universidade Católica do Porto o II Congresso O Porto Romântico, no qual participaram com comunicações os sócios e confrades Francisco Ribeiro da Silva, Laura Peixoto de Sousa, Teresa Campos dos Santos e Susana Moncóvio, as quais serão publicadas nas respetivas atas.

No dia 15 seguinte, o mesário-mor da Confraria Queirosiana, J. A. Gonçalves Guimarães, esteve presente no “Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Lugares de Memória”, comemorado pela Misericórdia de Gaia em volta do seu património doado por António Almeida da Costa, antigo empresário e proprietário da Fabrica de Cerâmica e da Fundição das Devesas, tendo na ocasião dissertado sobre a bibliografia sobre este notável complexo industrial e artístico desde os anos 70 do século passado até às mais recentes teses de mestrado e doutoramento sobre o mesmo, ao que se seguiu uma visita aos diversos edifícios na posse desta entidade que os pretende preservar, valorizar e divulgar mantendo-se fiel ao espírito do doador e à sua missão social.

No próximo dia 29 de Abril, pelas 21,30 horas, decorrerá no Solar Condes de Resende um colóquio subordinado ao tema «”Mudam-se os Tempos. Mudam-se as Vontades”; a década antes do 25 de Abril», organizado pelos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e integrado nas comemorações oficiais do Município de Vila Nova de Gaia. Serão intervenientes: Eduardo Vítor Rodrigues Sociólogo e presidente da Câmara; Jaime Milheiro, Psiquiatra e Psicanalista; Joaquim Armindo Pinto de Almeida; Diácono da Igreja Católica e Engenheiro; e J. A. Gonçalves Guimarães, Historiador. Este colóquio pretende lembrar os acontecimentos mundiais, nacionais e locais que deram origem ao 25 de Abril e às suas consequências.

Curso sobre Joalharia



Organizado pela Confraria Queirosiana, decorrerá durante o mês de Maio, no Solar Condes de Resende, o curso livre sobre Classificação, Avaliação e Restauro de Jóias, em que será formadora Marília Ferreira, Avaliadora Oficial da Casa da Moeda.
As sessões, num total de 8 de duas horas cada, decorrerão às quartas das 13 às 15. A frequência do curso implica prévia inscrição e aos formandos será passado um certificado.



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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 68 – sexta-feira, 25 de abril de 2014
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terça-feira, 25 de março de 2014

Eça & Outras

As canções não são eternas

Todos nós temos as canções da nossa vida, que normalmente são as da infância e as da juventude, aquelas que nos acompanharam com uma melodia, uns versos, um intérprete.
Já no tempo de Eça era assim, salientando o escritor em várias obras as qualidades do grande compositor popular do seu tempo, que «com quatro compassos e duas rabecas, deixou para sempre desautorizadas velhas instituições… Offenbach é uma filosofia cantada» (Uma Campanha Alegre). Também ouviu as grandes vedetas canoras da sua época, como Herminia Borghi-Mano, no S. Carlos em 1880, enquanto em A Cidade e as Serras se refere à cançonetista francesa Gilberte e o seu grande êxito Les Casquettes.
Ele próprio foi autor de versos que, eventualmente, poderiam vir a ser cantados e, com Jaime Batalha Reis, compôs os da opereta cómica A Morte do Diabo, musicada por Augusto Machado. Dos seus gostos musicais obviamente que só conhecemos o que nos deixou escrito e as respetivas partituras. Talvez tivesse tentado o fado coimbrão e sabemos que trauteava a Rosa Tirana, o “hino” dos Vencidos da Vida. Pouco mais, pois no seu tempo, o fonógrafo, inventado por Edison em 1877, era pouco mais do que uma curiosidade.
Mas já não era assim na década de sessenta do século passado: estávamos então no auge das emissões radiofónicas e a televisão, curiosamente inventada pelo português Adriano de Paiva em 1878, começava a fazer parte do nosso quotidiano, enquanto se generalizava a venda e utilização do disco de vinil e os respetivos gira-discos, os gravadores de bobines, os auto-rádios e os gravadores-reprodutores de cassettes. O próprio cinema passou a realizar grandes documentários sobre os acontecimentos musicais da época e os músicos e intérpretes mais famosos apareceriam regularmente no grande écran. A música yé-yé, depois pop, rock, os blues, o soul, a balada, e outras denominações para os diversos géneros que iam surgindo, passaram pois a fazer parte do mundo artístico daqueles que nasceram em meados do século XX. E também a música comercial e a pimba, cuja banalidade e mau gosto se tornou desde então insuportável, mas que vende milhões de cópias.
Cada um recordará as suas canções preferidas, mas para mim elas foram as seguintes: logo em 1962 a cançonetista francesa Françoise Hardy grava Tous Les Garçons Et Les Filles, uma canção sobre o amor juvenil numa época em que os liceus ainda não eram mistos. Mas para além dos problemas da adolescência, um muro de betão começava então a aparecer na estrada da vida dos rapazes, que mais tarde ou mais cedo o teriam pela frente: a Guerra Colonial, variante portuguesa da Guerra do Vietname que os americanos travavam lá longe contra o povo vietnamita, com a mesma origem ideológica do colonialismo e do imperialismo ocidental sobre os povos do Terceiro Mundo, mas também sobre os povos beligerantes, dentro dos seus próprios países também sujeitos à pobreza, à descriminação, ao subdesenvolvimento, como era então o caso das populações nativas, negra e migrante americanas, a maior parte da população rural e fabril em Portugal, e a então quase inexistente classe média das colónias portuguesas. Para tal eramos alertados por canções como We Shall Overcame, cantada por Pete Seeger, a Trova do Vento Que Passa, de Manuel Alegre cantada por Adriano Correia de Oliveira, ou Os Vampiros de José Afonso, todas elas lançadas em 1963, enquanto no ano seguinte Bob Dylan avisava que The Times They Are A Changin. Todos desejávamos que sim.
A incerteza do futuro ainda nos fazia considerar o encanto de algum tempo já perdido, como em Yesterday dos Beatles (1965), que no psicadélico álbum Sargent Pepper´s Lonely Hearts Club Band já futuravam em 1967 sobre When I’m Sixty-Tour, como estaria aquela geração em 2014. Digamos que, de um modo geral, estamos a rebobinar as cassettes que nos foram impingindo e achamos que ainda vamos a tempo de emendar o mundo.
Nesse mesmo ano de 1997 é lançado o hino de toda a geração hippie, San Francisco (Be Sure To Wear Some Flowers In Your Hair), cantado por Scott Makenzie, mas o ano ficará assinalado pelas três grandes e insuparáveis composições de toda a Música Pop: Good Vibrations, pelos Beach Boys; Whider Shade Of A Pale, pelos Procol Harum e Niths In White Satin, pelos Moody Blues. Não haveria melhor: são realmente as músicas emblemáticas dos anos sessenta, representativas de uma certa solidão tanto mais dolorosa quanto a época era de movimentos em torno de ideias coletivas. Por isso aqui também incluo o Let It Be dos Beatles e a Pedra Filosofal de António Gedeão, cantada por Manuel Freire. Ainda na senda da constatação das dificuldades do caminho, recordemos o primeiro disco de Fausto, com o poema Oh Pastor Que Choras (1970), de José Gomes Ferreira, que concluía que «carneiros é o que mais há». O mundo idílico desta geração tem depois o seu ponto alto em Imagine de John Lennon, um hino anarquista e libertário na melhor tradição oitocentista editado em 1971. Nesse mesmo ano José Mário Branco revisita a lírica camoniana com Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades, cantando a inevitabilidade da derrocada dos velhos do Restelo e de outros ancoradouros.
A nível do som e da dança os jovens de então já não andavam apenas candidamente com «les yeux dans les yeux» como dez anos antes, mas libertavam o corpo e a mente em afeto e prazer ao som de Black Magic Woman divulgado pelos Santana, a música mais sensual da década.
Entretanto ainda em 1971, José Afonso gravava Grândola Vila Morena no álbum Cantigas do Maio e de lá de fora Sérgio Godinho bem nos alertava para O Charlatão, no álbum Os Sobreviventes, também daquele ano. Não haveria um mas muitos.
Estas são as minhas canções de teenager, de antes do 25 de Abril de 1974, que rapidamente foram substituídas por outras melodias. Tenho a certeza que algumas serão também as vossas.
Voltemos a Eça: apreciador e conhecedor da grande Música, contudo também ele se extasiou perante «a impressão profunda daqueles cantos árabes nas ruas do Cairo. São tão belos que entristecem, tão sensuais que são quase lacrimosos, tão doces que desesperam: é a música dos nervos; são os nervos que cantam…» (Prosas Bárbaras). Diria hoje o mesmo quando ouve Vitorino ou Janita Salomé, ou outros melodistas portugueses cuja sonoridade comove os povos muito para além dos acordos fonográficos das canções de festival e da macaquice de imitação americanoide que perpassa insuportável nas rádios e televisões portuguesas. Quanto a isso, temos o povo no seu “melhor”. Eu cá por mim permaneço fiel às minhas canções dos anos sessenta, certo de que os atuais jovens também terão as suas para um dia recordarem. Eça continuará a ouvir, divertido, a chanson Les Casquettes, sobre os dissabores das meninas que vinham para Paris à procura de um marido, então cantada com sucesso por uma hoje desconhecidíssima Gilberte. C’est la vie!

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Camélias

Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia e José Mauel Tedim, presidente de direção dos ASCR-CQ.
No passado dia 8 de março pelas 14,30 horas no Parque da Quinta do Conde das Devesas em Vila Nova de Gaia decorreu a iniciativa “Inverno: Tempo de Camélias em Flor” que chamou a atenção para as 127 variedades aí existentes, das quais 95 portuguesas. Do programa constou o lançamento de um livro sobre Camélias, uma intervenção do presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, José Manuel Tedim, sobre a camélia Tedinia criada por Sequeira Tedim em 1844, e por fim uma alocução do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vitor Rodrigues, sobre o significado das flores na vida das pessoas, a que se seguiu a plantação daquela variedade de camélia no Parque.
Entretanto no Solar Condes de Resende florescem as últimas deste ano, que só voltarão com as suas cores em novembro próximo.


Conferências e debates

Entre 6 de março e 10 de abril decorre na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas o Ciclo Documental António Pedro Vasconcelos, durante o qual serão apresentados quatro documentários sobre quatro personalidades portuguesas do século XX: Cottinelli Telmo, J. Rentes de Carvalho, Eduardo Gageiro e Vasco Santana, realizados por Leandro Ferreira.
O documentário sobre J. Rentes de Carvalho, filmado no Solar Condes de Resende e no Monte dos Judeus em Gaia, contou com a colaboração desta Casa Municipal de Cultura e da Confraria Queirosiana, que ali preserva e divulga o espólio deste escritor seu Confrade de Honra.
Entretanto a revista Atual do Expresso de 22 de março dedicou a capa e o seu interior a Rentes de Carvalho, que nesse mesmo dia pelas 17 horas lançou na FNAC do Chiado, Lisboa, o seu mais recente livro “Portugal, a Flor e a Foice, só agora editado entre nós quando a primeira edição holandesa data de 1975. A apresentação esteve a cargo de Henrique Monteiro. Este será com certeza o texto de reflexão para a passagem do quadragésimo aniversário do 25 de Abril.

Eça em Aveiro

No passado dia 11 de março, no anfiteatro Aldónio Gomes da Universidade de Aveiro decorreu uma conferência pelo escritor luso-americano Carlos Queirós e pelo professor Pedro Calheiros, que falaram «das ligações ancestrais e das vivências do escritor Eça de Queirós com os seus avós, na altura a viver em Aradas e Verdemilho tão perto de Aveiro» (da divulgação da conferência).

Cursos e palestras no Solar

Prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre sobre História Empresarial e Institucional, organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente: a 1 de março, José Manuel Tedim apresentou “O ensino das Belas Artes no Porto: da Academia à Faculdade; a 15, Susana Moncóvio falou sobre “O Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia”, e no próximo sábado, dia 29, Laura Peixoto dissertara sobre “As fábricas de bolachas e chocolates na Região do Porto”.
O curso terminará com as sessões proferidas por J. A: Gonçalves Guimarães a 12 de abril sobre “Empresários e Instituições gaienses” e a 13 de maio por Francisco Ribeiro da Silva sobre “ Empresários e Instituições portuenses”.
O próximo curso, a iniciar em outubro, será sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos): novas abordagens”. A frequência destes cursos, ou das suas sessões, implica inscrição prévia.
Entretanto prosseguem também no Solar as palestras das últimas quintas-feiras do mês, com entrada livre. No próximo dia 27 de março José Manuel Tedim falará sobre “Lorain e os paisagistas da Europa do século XVII”.
A palestra do mês de abril deverá ser integrada na evocação dos 40 anos do 25 de Abril.

Livros


No próximo dia 28 de março na Casa Barbot em Vila Nova de Gaia, a nossa associada Dr.ª Maria Virgínia Monteiro lançará o seu mais recente livro de poesia intitulado Canto Quântico, o qual será apresentado por Salvato Trigo, reitor da Universidade Fernando Pessoa do Porto.




Tertúlia queirosiana

No passado mês fizemos referência às interrogações com que alguns dos nossos investigadores da História do século XIX se têm deparado sobre a identidade da mãe do filho do 5.º Conde de Resende, D. Luís Manuel Benedito da Natividade de Castro Pamplona, a qual não aparece nos registos genealógicos da família.
Sobre o assunto recebemos a seguinte informação de António Eça de Queiroz, bisneto do escritor, ele próprio jornalista e autor de diversas obras de crónica e ficção, a qual, com a sua autorização, passamos a divulgar:
«Tomei a liberdade de lhe mandar esta nota em relação à pergunta que faz sobre a desconhecida mãe de Luiz de Castro - ou “Luiz Grande”, como foi sendo conhecido na família. Naturalmente, só posso contar aquilo que me contaram os meus Pais - pois documentos ou algo de semelhante sobre o assunto desapareceu (admito que por vontade explícita do próprio Luiz Grande). A mãe seria uma cantora lírica francesa de passagem por Lisboa, com quem Luiz de Castro Pamplona teve um caso e um filho que ela não desejava - mas que o pai assumiu por completo. De acordo com os mesmos testemunhos, muitos anos mais tarde, já Luiz Grande era homem feito, recebe um cartão de visita de uma senhora francesa que solicitava a presença dele num hotel de Lisboa. Achando tratar-se de alguma conquista, o que não seria nada de estranho porque ele tinha fama de bem parecido, e movido por natural curiosidade, Luiz Grande apresentou-se à hora marcada no tal hotel. Mas, ao contrário de uma jovem faiscante de beleza, o que lhe surgiu pela frente foi uma senhora, não velha mas já matrona, que, depois de breve inquirição, se lhe apresentou como a sua mãe! Luiz de Castro não era pessoa fácil, e eram conhecidos na família os seus ataques de fúria, mas ali, naquele caso, limitou-se a cumprimentar a dita senhora, e a virar-lhe as costas depois de lhe dizer que se não o quisera conhecer até ali, então não valia a pena conhecê-lo agora. Sei bem que nada disto tem valor histórico, que eu saiba não há qualquer documento junto dos seus descendentes diretos, mas é esta a história que sempre conheci e que imaginei ter algum interesse em conhecer».
Ao nosso Caro Amigo agradecemos esta interessante achega que permitirá seguir a pista das cantoras líricas que passaram por Lisboa em 1869, o ano da ida do Conde (e de Eça) em peregrinação à Terra Santa para lavar a alma no Jordão, e que ali ainda permaneceriam em março de1870, para se tentar saber qual delas poderá ter sido a mãe de seu filho Luís, que virá a nascer a 28 de dezembro esse ano.

Novos corpos gerentes

No passado dia 14 de março, em assembleia eleitoral paralela à assembleia geral ordinária para aprovação do Relatório e Contas referentes a 2013, foram eleitos os Corpos gerentes dos ASCR-CQ – Confraria Queirosiana para o biénio 2014/2015. A única lista votada, proposta pela anterior direção, é assim constituída: Mesa da Assembleia Geral – César Fernando Couto Oliveira, presidente; José António Martin Moreno Afonso e Nuno Miguel Resende Jorge e Mendes, secretários; Henrique Manuel Moreira Guedes e Susana Maria Simões Moncóvio, suplentes; Direção: José Manuel Alves Tedim, presidente; Luís Manuel de Araújo, vice-presidente; Joaquim António Gonçalves Guimarães, secretário; Amélia Maria Gomes Sousa Cabral, tesoureira; Carlos Alberto Dias de Sousa, José Manuel de Carvalho Ribeiro e Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro, vogais; José Luís Pereira Gonçalves e Maria de Fátima Teixeira, suplentes; Conselho Fiscal: Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa, presidente; Pedro Almiro Neves, secretário; Licínio Manuel Moreira Santos, relator, Laura Cristina Peixoto de Sousa, suplente.


Prémio Prof. Reynaldo dos Santos

No passado dia 17 de fevereiro no Grémio Literário foi entregue o prémio Prof. Reynaldo dos Santos criado pela Federação dos Amigos de Museus de Portugal, no qual os ASCR-CQ estão filiados, referente a exposições realizadas em 2012.
O prémio foi ganho pelos Amigos do Museu Nacional do Azulejo, que propuseram a exposição “Um gosto português. O uso do azulejo no século XVII”. Foram ainda atribuídas duas menções honrosas, aos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga pela exposição “O Virtuoso Criador – Joaquim Machado de Castro 1731-1822”, e aos Amigos do Museu do Oriente pela exposição “O Chá. De Oriente para Ocidente”.

Mestrados e Doutoramentos



Concluiu no passado dia 24 de janeiro na Universidade de Coimbra o seu Mestrado em História, Especialização em Museologia, a nossa associada Dr.ª Rita Fernanda do Vale Pinto Pedras, que o apresentou também publicamente na Santa Casa da Misericórdia de Penafiel no passado dia 22 de março, subordinado ao tema “As Misericórdias e a sua ligação com a museologia: o caso particular do Museu de Arte Sacra de Penafiel”.






Também naquela Universidade, no passado dia 28 de fevereiro, apresentou a sua tese de doutoramento em Biologia, Especialização em Ecologia, o nosso sócio e Confrade de Honra Doutor Nuno Fernando da Ascenção Gomes Oliveira diretor do Parque Biológico de Gaia, sobre o tema “A Flore Portugaise e as viagens de Hoffmannsegg e Link a Portugal (1795-1801)”.
A ambos as nossas maiores felicitações.






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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 67 – terça-feira, 25 de março de 2014
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