terça-feira, 25 de março de 2014

Eça & Outras

As canções não são eternas

Todos nós temos as canções da nossa vida, que normalmente são as da infância e as da juventude, aquelas que nos acompanharam com uma melodia, uns versos, um intérprete.
Já no tempo de Eça era assim, salientando o escritor em várias obras as qualidades do grande compositor popular do seu tempo, que «com quatro compassos e duas rabecas, deixou para sempre desautorizadas velhas instituições… Offenbach é uma filosofia cantada» (Uma Campanha Alegre). Também ouviu as grandes vedetas canoras da sua época, como Herminia Borghi-Mano, no S. Carlos em 1880, enquanto em A Cidade e as Serras se refere à cançonetista francesa Gilberte e o seu grande êxito Les Casquettes.
Ele próprio foi autor de versos que, eventualmente, poderiam vir a ser cantados e, com Jaime Batalha Reis, compôs os da opereta cómica A Morte do Diabo, musicada por Augusto Machado. Dos seus gostos musicais obviamente que só conhecemos o que nos deixou escrito e as respetivas partituras. Talvez tivesse tentado o fado coimbrão e sabemos que trauteava a Rosa Tirana, o “hino” dos Vencidos da Vida. Pouco mais, pois no seu tempo, o fonógrafo, inventado por Edison em 1877, era pouco mais do que uma curiosidade.
Mas já não era assim na década de sessenta do século passado: estávamos então no auge das emissões radiofónicas e a televisão, curiosamente inventada pelo português Adriano de Paiva em 1878, começava a fazer parte do nosso quotidiano, enquanto se generalizava a venda e utilização do disco de vinil e os respetivos gira-discos, os gravadores de bobines, os auto-rádios e os gravadores-reprodutores de cassettes. O próprio cinema passou a realizar grandes documentários sobre os acontecimentos musicais da época e os músicos e intérpretes mais famosos apareceriam regularmente no grande écran. A música yé-yé, depois pop, rock, os blues, o soul, a balada, e outras denominações para os diversos géneros que iam surgindo, passaram pois a fazer parte do mundo artístico daqueles que nasceram em meados do século XX. E também a música comercial e a pimba, cuja banalidade e mau gosto se tornou desde então insuportável, mas que vende milhões de cópias.
Cada um recordará as suas canções preferidas, mas para mim elas foram as seguintes: logo em 1962 a cançonetista francesa Françoise Hardy grava Tous Les Garçons Et Les Filles, uma canção sobre o amor juvenil numa época em que os liceus ainda não eram mistos. Mas para além dos problemas da adolescência, um muro de betão começava então a aparecer na estrada da vida dos rapazes, que mais tarde ou mais cedo o teriam pela frente: a Guerra Colonial, variante portuguesa da Guerra do Vietname que os americanos travavam lá longe contra o povo vietnamita, com a mesma origem ideológica do colonialismo e do imperialismo ocidental sobre os povos do Terceiro Mundo, mas também sobre os povos beligerantes, dentro dos seus próprios países também sujeitos à pobreza, à descriminação, ao subdesenvolvimento, como era então o caso das populações nativas, negra e migrante americanas, a maior parte da população rural e fabril em Portugal, e a então quase inexistente classe média das colónias portuguesas. Para tal eramos alertados por canções como We Shall Overcame, cantada por Pete Seeger, a Trova do Vento Que Passa, de Manuel Alegre cantada por Adriano Correia de Oliveira, ou Os Vampiros de José Afonso, todas elas lançadas em 1963, enquanto no ano seguinte Bob Dylan avisava que The Times They Are A Changin. Todos desejávamos que sim.
A incerteza do futuro ainda nos fazia considerar o encanto de algum tempo já perdido, como em Yesterday dos Beatles (1965), que no psicadélico álbum Sargent Pepper´s Lonely Hearts Club Band já futuravam em 1967 sobre When I’m Sixty-Tour, como estaria aquela geração em 2014. Digamos que, de um modo geral, estamos a rebobinar as cassettes que nos foram impingindo e achamos que ainda vamos a tempo de emendar o mundo.
Nesse mesmo ano de 1997 é lançado o hino de toda a geração hippie, San Francisco (Be Sure To Wear Some Flowers In Your Hair), cantado por Scott Makenzie, mas o ano ficará assinalado pelas três grandes e insuparáveis composições de toda a Música Pop: Good Vibrations, pelos Beach Boys; Whider Shade Of A Pale, pelos Procol Harum e Niths In White Satin, pelos Moody Blues. Não haveria melhor: são realmente as músicas emblemáticas dos anos sessenta, representativas de uma certa solidão tanto mais dolorosa quanto a época era de movimentos em torno de ideias coletivas. Por isso aqui também incluo o Let It Be dos Beatles e a Pedra Filosofal de António Gedeão, cantada por Manuel Freire. Ainda na senda da constatação das dificuldades do caminho, recordemos o primeiro disco de Fausto, com o poema Oh Pastor Que Choras (1970), de José Gomes Ferreira, que concluía que «carneiros é o que mais há». O mundo idílico desta geração tem depois o seu ponto alto em Imagine de John Lennon, um hino anarquista e libertário na melhor tradição oitocentista editado em 1971. Nesse mesmo ano José Mário Branco revisita a lírica camoniana com Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades, cantando a inevitabilidade da derrocada dos velhos do Restelo e de outros ancoradouros.
A nível do som e da dança os jovens de então já não andavam apenas candidamente com «les yeux dans les yeux» como dez anos antes, mas libertavam o corpo e a mente em afeto e prazer ao som de Black Magic Woman divulgado pelos Santana, a música mais sensual da década.
Entretanto ainda em 1971, José Afonso gravava Grândola Vila Morena no álbum Cantigas do Maio e de lá de fora Sérgio Godinho bem nos alertava para O Charlatão, no álbum Os Sobreviventes, também daquele ano. Não haveria um mas muitos.
Estas são as minhas canções de teenager, de antes do 25 de Abril de 1974, que rapidamente foram substituídas por outras melodias. Tenho a certeza que algumas serão também as vossas.
Voltemos a Eça: apreciador e conhecedor da grande Música, contudo também ele se extasiou perante «a impressão profunda daqueles cantos árabes nas ruas do Cairo. São tão belos que entristecem, tão sensuais que são quase lacrimosos, tão doces que desesperam: é a música dos nervos; são os nervos que cantam…» (Prosas Bárbaras). Diria hoje o mesmo quando ouve Vitorino ou Janita Salomé, ou outros melodistas portugueses cuja sonoridade comove os povos muito para além dos acordos fonográficos das canções de festival e da macaquice de imitação americanoide que perpassa insuportável nas rádios e televisões portuguesas. Quanto a isso, temos o povo no seu “melhor”. Eu cá por mim permaneço fiel às minhas canções dos anos sessenta, certo de que os atuais jovens também terão as suas para um dia recordarem. Eça continuará a ouvir, divertido, a chanson Les Casquettes, sobre os dissabores das meninas que vinham para Paris à procura de um marido, então cantada com sucesso por uma hoje desconhecidíssima Gilberte. C’est la vie!

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Camélias

Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia e José Mauel Tedim, presidente de direção dos ASCR-CQ.
No passado dia 8 de março pelas 14,30 horas no Parque da Quinta do Conde das Devesas em Vila Nova de Gaia decorreu a iniciativa “Inverno: Tempo de Camélias em Flor” que chamou a atenção para as 127 variedades aí existentes, das quais 95 portuguesas. Do programa constou o lançamento de um livro sobre Camélias, uma intervenção do presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, José Manuel Tedim, sobre a camélia Tedinia criada por Sequeira Tedim em 1844, e por fim uma alocução do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vitor Rodrigues, sobre o significado das flores na vida das pessoas, a que se seguiu a plantação daquela variedade de camélia no Parque.
Entretanto no Solar Condes de Resende florescem as últimas deste ano, que só voltarão com as suas cores em novembro próximo.


Conferências e debates

Entre 6 de março e 10 de abril decorre na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas o Ciclo Documental António Pedro Vasconcelos, durante o qual serão apresentados quatro documentários sobre quatro personalidades portuguesas do século XX: Cottinelli Telmo, J. Rentes de Carvalho, Eduardo Gageiro e Vasco Santana, realizados por Leandro Ferreira.
O documentário sobre J. Rentes de Carvalho, filmado no Solar Condes de Resende e no Monte dos Judeus em Gaia, contou com a colaboração desta Casa Municipal de Cultura e da Confraria Queirosiana, que ali preserva e divulga o espólio deste escritor seu Confrade de Honra.
Entretanto a revista Atual do Expresso de 22 de março dedicou a capa e o seu interior a Rentes de Carvalho, que nesse mesmo dia pelas 17 horas lançou na FNAC do Chiado, Lisboa, o seu mais recente livro “Portugal, a Flor e a Foice, só agora editado entre nós quando a primeira edição holandesa data de 1975. A apresentação esteve a cargo de Henrique Monteiro. Este será com certeza o texto de reflexão para a passagem do quadragésimo aniversário do 25 de Abril.

Eça em Aveiro

No passado dia 11 de março, no anfiteatro Aldónio Gomes da Universidade de Aveiro decorreu uma conferência pelo escritor luso-americano Carlos Queirós e pelo professor Pedro Calheiros, que falaram «das ligações ancestrais e das vivências do escritor Eça de Queirós com os seus avós, na altura a viver em Aradas e Verdemilho tão perto de Aveiro» (da divulgação da conferência).

Cursos e palestras no Solar

Prossegue no Solar Condes de Resende o curso livre sobre História Empresarial e Institucional, organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente: a 1 de março, José Manuel Tedim apresentou “O ensino das Belas Artes no Porto: da Academia à Faculdade; a 15, Susana Moncóvio falou sobre “O Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia”, e no próximo sábado, dia 29, Laura Peixoto dissertara sobre “As fábricas de bolachas e chocolates na Região do Porto”.
O curso terminará com as sessões proferidas por J. A: Gonçalves Guimarães a 12 de abril sobre “Empresários e Instituições gaienses” e a 13 de maio por Francisco Ribeiro da Silva sobre “ Empresários e Instituições portuenses”.
O próximo curso, a iniciar em outubro, será sobre “História e Carisma da Região do Douro Atlântico (Gaia, Porto, Matosinhos): novas abordagens”. A frequência destes cursos, ou das suas sessões, implica inscrição prévia.
Entretanto prosseguem também no Solar as palestras das últimas quintas-feiras do mês, com entrada livre. No próximo dia 27 de março José Manuel Tedim falará sobre “Lorain e os paisagistas da Europa do século XVII”.
A palestra do mês de abril deverá ser integrada na evocação dos 40 anos do 25 de Abril.

Livros


No próximo dia 28 de março na Casa Barbot em Vila Nova de Gaia, a nossa associada Dr.ª Maria Virgínia Monteiro lançará o seu mais recente livro de poesia intitulado Canto Quântico, o qual será apresentado por Salvato Trigo, reitor da Universidade Fernando Pessoa do Porto.




Tertúlia queirosiana

No passado mês fizemos referência às interrogações com que alguns dos nossos investigadores da História do século XIX se têm deparado sobre a identidade da mãe do filho do 5.º Conde de Resende, D. Luís Manuel Benedito da Natividade de Castro Pamplona, a qual não aparece nos registos genealógicos da família.
Sobre o assunto recebemos a seguinte informação de António Eça de Queiroz, bisneto do escritor, ele próprio jornalista e autor de diversas obras de crónica e ficção, a qual, com a sua autorização, passamos a divulgar:
«Tomei a liberdade de lhe mandar esta nota em relação à pergunta que faz sobre a desconhecida mãe de Luiz de Castro - ou “Luiz Grande”, como foi sendo conhecido na família. Naturalmente, só posso contar aquilo que me contaram os meus Pais - pois documentos ou algo de semelhante sobre o assunto desapareceu (admito que por vontade explícita do próprio Luiz Grande). A mãe seria uma cantora lírica francesa de passagem por Lisboa, com quem Luiz de Castro Pamplona teve um caso e um filho que ela não desejava - mas que o pai assumiu por completo. De acordo com os mesmos testemunhos, muitos anos mais tarde, já Luiz Grande era homem feito, recebe um cartão de visita de uma senhora francesa que solicitava a presença dele num hotel de Lisboa. Achando tratar-se de alguma conquista, o que não seria nada de estranho porque ele tinha fama de bem parecido, e movido por natural curiosidade, Luiz Grande apresentou-se à hora marcada no tal hotel. Mas, ao contrário de uma jovem faiscante de beleza, o que lhe surgiu pela frente foi uma senhora, não velha mas já matrona, que, depois de breve inquirição, se lhe apresentou como a sua mãe! Luiz de Castro não era pessoa fácil, e eram conhecidos na família os seus ataques de fúria, mas ali, naquele caso, limitou-se a cumprimentar a dita senhora, e a virar-lhe as costas depois de lhe dizer que se não o quisera conhecer até ali, então não valia a pena conhecê-lo agora. Sei bem que nada disto tem valor histórico, que eu saiba não há qualquer documento junto dos seus descendentes diretos, mas é esta a história que sempre conheci e que imaginei ter algum interesse em conhecer».
Ao nosso Caro Amigo agradecemos esta interessante achega que permitirá seguir a pista das cantoras líricas que passaram por Lisboa em 1869, o ano da ida do Conde (e de Eça) em peregrinação à Terra Santa para lavar a alma no Jordão, e que ali ainda permaneceriam em março de1870, para se tentar saber qual delas poderá ter sido a mãe de seu filho Luís, que virá a nascer a 28 de dezembro esse ano.

Novos corpos gerentes

No passado dia 14 de março, em assembleia eleitoral paralela à assembleia geral ordinária para aprovação do Relatório e Contas referentes a 2013, foram eleitos os Corpos gerentes dos ASCR-CQ – Confraria Queirosiana para o biénio 2014/2015. A única lista votada, proposta pela anterior direção, é assim constituída: Mesa da Assembleia Geral – César Fernando Couto Oliveira, presidente; José António Martin Moreno Afonso e Nuno Miguel Resende Jorge e Mendes, secretários; Henrique Manuel Moreira Guedes e Susana Maria Simões Moncóvio, suplentes; Direção: José Manuel Alves Tedim, presidente; Luís Manuel de Araújo, vice-presidente; Joaquim António Gonçalves Guimarães, secretário; Amélia Maria Gomes Sousa Cabral, tesoureira; Carlos Alberto Dias de Sousa, José Manuel de Carvalho Ribeiro e Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro, vogais; José Luís Pereira Gonçalves e Maria de Fátima Teixeira, suplentes; Conselho Fiscal: Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa, presidente; Pedro Almiro Neves, secretário; Licínio Manuel Moreira Santos, relator, Laura Cristina Peixoto de Sousa, suplente.


Prémio Prof. Reynaldo dos Santos

No passado dia 17 de fevereiro no Grémio Literário foi entregue o prémio Prof. Reynaldo dos Santos criado pela Federação dos Amigos de Museus de Portugal, no qual os ASCR-CQ estão filiados, referente a exposições realizadas em 2012.
O prémio foi ganho pelos Amigos do Museu Nacional do Azulejo, que propuseram a exposição “Um gosto português. O uso do azulejo no século XVII”. Foram ainda atribuídas duas menções honrosas, aos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga pela exposição “O Virtuoso Criador – Joaquim Machado de Castro 1731-1822”, e aos Amigos do Museu do Oriente pela exposição “O Chá. De Oriente para Ocidente”.

Mestrados e Doutoramentos



Concluiu no passado dia 24 de janeiro na Universidade de Coimbra o seu Mestrado em História, Especialização em Museologia, a nossa associada Dr.ª Rita Fernanda do Vale Pinto Pedras, que o apresentou também publicamente na Santa Casa da Misericórdia de Penafiel no passado dia 22 de março, subordinado ao tema “As Misericórdias e a sua ligação com a museologia: o caso particular do Museu de Arte Sacra de Penafiel”.






Também naquela Universidade, no passado dia 28 de fevereiro, apresentou a sua tese de doutoramento em Biologia, Especialização em Ecologia, o nosso sócio e Confrade de Honra Doutor Nuno Fernando da Ascenção Gomes Oliveira diretor do Parque Biológico de Gaia, sobre o tema “A Flore Portugaise e as viagens de Hoffmannsegg e Link a Portugal (1795-1801)”.
A ambos as nossas maiores felicitações.






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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 67 – terça-feira, 25 de março de 2014
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Eça & Outras

Mar bravo

Foi há dias apresentado o mapa “Portugal é Mar” como um dos desígnios territoriais que vão orientar a vida dos portugueses para o futuro. Andamos nisto desde sempre, ou, pelo menos, desde que no século XIV fomos às Canárias e depois por esse mar aí fora. Não, este mapa não é, nem pode ser, o “Portugal não é um país pequeno” do tempo do Estado Novo que tínhamos pendurado na parede da escola primária e em que as colónias portuguesas se sobrepunham a uma Europa inteira quase até aos Urais.
Mas isto de ter mar implica duas pequenas verdades que os soldados de Monsieur de La Palice não desdenhariam: ele há que ter marinheiros; ele há que ter embarcações. Sem isso restam-nos as inúteis gaivotas, a que sempre poderemos chamar nossas, pois ninguém as quer. E o anticiclone dos Açores, que também é de graça. O resto tem-nos custado muito dinheiro.
Sobre a nossa marinha de guerra, face às realidades de hoje, já estaremos longe deste texto de Eça de Queirós, com quase 150 anos: «…uns poucos de navios, velhos, decrépitos, defeituosos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, mastreação carunchosa, e história obscura. É uma marinha inválida…». Sobre as corvetas da frota «Há ideia de as alugar – como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas – disfarçadas! Este grande povo de navegadores acha-se reduzido – a admirar o vapor de Cacilhas.
Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. Quem ousa atacar as cãs de um velho?» (As Farpas [Julho de 1871], I, 2004, 117). Hoje já estamos melhor, senão em quantidade, pelo menos em qualidade.
Um dos maiores equívocos sobre o Portugal marinheiro tem sido alimentado pela classe plumitiva: não há almirante reformado que, após longo tempo na “nau de pedra” (Ministério da Marinha), não se meta a historiar sobre as façanhas da nossa frota guerreira, e nicles sobre a nossa frota mercante e pesqueira (com exceção da do bacalhau), aquela que do mar realmente nos trouxe trabalho, proveito, pão e sardinhas e poucos dissabores. Mas os filhos, netos e bisnetos dos Gamas e Cabrais, arrumado no canto da sala de estar o pote de porcelana da China trazido como recuerdo das façanhas navegadoras, enjoaram de tal modo que não querem mais ouvir falar de barcos. Querem exemplos? Olhem à vossa volta: a cidade do Porto, por exemplo, que tudo, perdão TUDO, deve ao mar e à sua frota mercantil, não tem sequer um museuzito naval, e quando o pôde criar, por insistência do saudoso Lixa Filgueiras, fez um Museu dos Transportes… Terrestres, não fosse alguém querer atracar, mesmo de graça, um velho rebocador no cais da Alfândega. Explicações? Para mim foi enjoo de mar. Chegam-lhes os rabelos de Gaia no dia de S. João a fugirem da barra com as velas enfunadas. Mas valha-nos, para além do Museu da Marinha (de Guerra) em Lisboa, e pouco mais, ao menos Ílhavo e Vila do Conde com os seus museus que nos não envergonham, os quais estão muito bem divulgados numa recente obra sobre todos os museus navais ibéricos publicada… pelos espanhóis, também eles grandes pândegos neste assunto, pois o seu Museu Marítimo Nacional é em Madrid, que é sítio onde também as gaivotas chegam à procura de lixeiras. Não existem em Portugal praticamente estudos sobre a nossa marinha mercante; a arqueologia subaquática, depois de episódios pouco edificantes paridos nos anos noventa no Parlamento com um deputado em conluio com um pirata americano, parou na Ria de Aveiro e pouco avançou para norte. Os nossos naufrágios históricos, tal como o nosso peixe, continuam pois à mercê de quem tiver barcos e licenças para os pescar.
Todos os anos ouvimos que se vão deitar ao mar milhões de euros transformados em camiões de areia e de pedra para “repor a linha de costa”, e isto para proteger construções privadas ou públicas, a maior parte delas, se não tolas, pelo menos de duvidosa ou comprovada ilegalidade à luz da legislação que desde 1863 se produziu para ordenamento da orla marítima e fluvial, teimosia essa a que o mar oferece sonoras gargalhadas no inverno seguinte.
Existem estudos sólidos e credíveis para os decisores nacionais, regionais e locais saberem com segurança onde estará o nível do mar daqui por cinquenta ou cem anos e declararem de vez a zona costeira atual abaixo dessas cotas como zona de calamidade pública com as devidas consequências a assumir pelo Estado e pelos privados.
Mas ninguém de tal quer saber e por isso vamos continuar a brincar aos castelos na areia que a próxima invernia se encarregará de desfazer de novo. E assim se gasta o nosso dinheiro.
Para olhar por este nosso mar são precisos então barcos, aviões e submarinos. Mas não há unidade deles que se construa ou compre sem que tal dê origem a um romance policial caríssimo para o erário público. Será que também aqui estaremos ainda quase como no tempo de Eça: «O Índia, o melhor navio que temos, o navio novo, expressamente feito para uso do país, comprado com madura reflexão, examinado com escrupulosa ciência, glória da nossa marinha, defesa das nossas colónias, garantia da nossa honra, o Índia que sábias comissões aprovaram, que uma reta imprensa exaltou, que professores da Escola Normal celebraram, que é o nosso transporte para a Índia, que custou muitas mil livras, que é novo, perfeito, impecável, o Índia, - mete apenas cinco polegadas de água por dia!» (As Farpas [Janeiro de 1872], II, 2004, 329). Claro que no tempo de Eça os submarinos ainda estavam a nascer e por isso ele não fala neles. O escritor, que diabo, não pode prever tudo
Mas também não vamos longe no mar com aqueles marinheiros sessentões, com imponentes chapéus de pala com estrelas douradas, com iate ancorado em marina com amarras cuja laçada raramente se larga, cuja navegação se resume à leitura balançada do jornal de fim de semana enquanto bebem o seu whisky e um pescador local à espera de melhores dias lhes limpa o convés por meia dúzia de euros. É “isto” que se tem semeado pelos melhores atracadouros da costa.
Muito gostaríamos que o «Tanto mar! Tanto mar!» da canção de Chico Buarque da Holanda não servisse só para surfistas, fotógrafos, praiistas do lume brando do sol de verão, os poetas e os idealistas. É que não se exportam nem ondas, nem fotos amadoras, nem tempos de papo para o ar, nem versos, nem fantasias. Terão de ser outros os desígnios para Portugal “voltar ao mar”, se possível com uma nova geração que ainda não tenha “enjoado”. Então o mapa estará certo e será útil.

J. A. Gonçalves Guimarães
mesário-mor

Livros, textos e programas

O Solar nos Caminhos da História

fotografia Porto Canal

Hoje, dia 25 de fevereiro, o Porto Canal apresenta no programa “Caminhos da História” do historiador Joel Cleto, uma reportagem sobre o Solar Condes de Resende e Eça de Queirós, e entrevistará em estúdio Isabel Pires de Lima e J. A. Gonçalves Guimarães sobre a Vida e Obra do nosso patrono. O programa será depois repetido em outros horários e ficará disponível na Internet.





Portugal. A Flor e a Foice


Aproximando-se a data em que o “25 de Abril” faz 40 anos, e não sendo o facto ainda História por falta do necessário distanciamento cronológico, convém ler um dos textos mais lúcidos, mais claros, mais exemplares do que foi e do que poderia ter sido o “25 de Abril” escrito em 1978 por J. Rentes de Carvalho e agora disponível em português em tempocontado.blogspot.com, intitulado “Tomada de Consciência em Portugal” enquanto se aguarda para daqui a dias o livro Portugal. A Flor e a Foice, a publicar em março pela Quetzal. Este autor esteve no mês de Fevereiro no Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim a convite da organização, onde conviveu com esotéricos e umbiguentos autores. Sobre o assunto ver o mesmo blogue.


Telheiras Cadernos Culturais

Acaba de sair o n.º 6, segunda série, referente a Novembro de 2013, desta revista editada pelo Centro Cultural Eça de Queiroz, Escola Secundária Eça de Queirós e Centro Cultural de Telheiras, dirigida por Fernando Andrade Lemos, com abundante colaboração de temática queirosiana, nomeadamente “Eça de Queirós e o Museu Egípcio do Cairo” de Luís Manuel de Araújo; “Eça de Queirós bem-amado no Brasil” de César Veloso; e “A formação iniciática de Maria Eduarda Maia” de Fernando Andrade Lemos e Rita Rebelo Andrade Lemos.





Revista Montepio

A edição de inverno 2013 da Revista do Montepio, que distribui 400.000 exemplares, é dedicada a Eça de Queirós, apresentando no interior um artigo de Elsa Garcia sobre a opinião de Fernando Pinto do Amaral, diretor do Plano Nacional de Leitura sobre a atualidade de Os Maias e o recente filme inspirado nesta obra realizado por João Botelho. Entretanto nas tertúlias queirosianas desenvolvidas pelos nossos confrades há uma questão à procura de uma boa e documentada resposta: quem foi a senhora que teve um filho do 5.º Conde de Resende, o companheiro de Eça à Terra Santa em 1869, ano em que a criança nasceu? Porque é que a família a apagou dos registos genealógicos? Em que factos reais Eça se inspirou para a questão do incesto em Os Maias? Mais uma vez a realidade pode ser mais fantástica do que a fantasia, neste caso, literária.


Roteiros queirosianos

Leiria: Eça 2014

A Câmara Municipal de Leiria apresentou recentemente o programa Eça 2014 em torno do romance O Crime do Padre Amaro, quase com 140 anos de publicação e talvez a obra que até hoje mais contribuiu para a mudança de mentalidades em Portugal. Em 2013 decorreram visitas ao Centro Histórico pelos cenários que o escritor descreve naquela obra, as quais irão continuar no presente ano. O programa conta com recriações de Leiria no século XIX, concertos musicais, teatro de rua, gastronomia de evocação queirosiana, um desfile com cerca de mil figurantes que irão recordar os tempos de Eça em Leiria nos dias 21 de maio e 1 de junho, e um baile da época no Mercado de Santana naquele primeiro dia. A Confraria Queirosiana irá divulgando a todos os sócios os pormenores deste programa.

500 anos do Foral de Ovar

No passado dia 10 de fevereiro decorreram em Ovar as comemorações dos 500 anos do seu foral manuelino, bem assim como os de Pereira Jusã e de Cortegaça, as quais se iniciaram com uma mostra documental na Biblioteca Municipal, a que se seguiu um encontro evocativo aberto por Salvador Malheiro, presidente da edilidade, e por S.A.R. o Duque de Bragança, Senhor Dom Duarte, comissário da evocação. Foram oradores Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo e Francisco Ribeiro da Silva, professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Para além destes conferencistas estiveram também presentes José Manuel Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Moncóvio dos corpos gentes da Confraria Queirosana e do seu Gabinete de Historia, Arqueologia e Património e da Academia Eça de Queirós.

O Egito na Europa

Todos os anos o Instituto Oriental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organiza, durante as férias da Páscoa, uma visita ao Egito liderada pelo nosso vice-presidente e diretor da Revista de Portugal, Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo.
No presente ano, devido à insegurança que se faz sentir naquele país provocada por grupos extremistas islâmicos que atacam pacíficos turistas, esta 15ª viagem estender-se-á pela Europa em visita a museus com coleções egípcias.
Assim, entre 13 e 23 de Abril, os participantes irão de Lisboa a Berlim, e daí a Osnabruck, Hannover, Haia, Leiden, Gent, Paris, Londres e de novo regresso a Lisboa. Durante o trajeto serão feitas curtas palestras sobre civilização egípcia, os museus e as coleções visitadas. Como habitualmente, e por especial deferência daquele Instituto e daquele professor membro da academia Eça de Queirós, a viagem estará aberta à participação de membros da Confraria Queirosiana até ao limite das inscrições disponíveis.

Mercado solidário

No passado dia 22 de fevereiro a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas organizou no Cais de Vila Nova de Gaia, com a colaboração do Município, um Mercado Solidário cujo apuro se destinou à CerciGaia e à APPACDM.
Participaram numerosas confrarias com os seus produtos tradicionais e também a Confraria Queirosiana, com as suas edições e o seu Vinho do Porto.
No final deste dia de convívio e solidariedade o crítico de cinema Mário Augusto e a vereadora Elisa Cidade entregaram os donativos das confrarias às referidas instituições.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 66 – terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Eça & Outras, sábado, 25 de janeiro de 2014

Da tolerância

Escreveu um dia Eça de Queirós «O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociais é um pobre Adão achatado entre as duas páginas dum código» (A Correspondência de Fradique Mendes). E esta verdade é universal.
Esse código tem vários versões e patamares e é através da observância dos seus princípios, ainda que temporária e aparente, que as multinacionais, as nações, as religiões, os sistemas políticos, os clubes de futebol, os países, as corporações, as instituições, os meus amigos e vizinhos se cumprimentam diariamente e se impedem de se matarem uns aos outros, que motivos para tal não lhes faltam: territórios ocupados onde antes estavam outros a viver a sua vida; destruição da agricultura, da indústria e do comércio locais impondo produtos de duvidosa qualidade e já armadilhados para criarem dependências pagas no consumidor; particularização de um deus para cada nação dito melhor que o da nação ao lado; implantação de sistemas de poder pouco transparentes e contrários aos princípios que apregoam; estratificação social baseada nos privilégios adquiridos e mantidos; imobilismo profissional dos assalariados, desemprego e inação social; problemática distribuição da riqueza e da solidariedade, do alimento quotidiano e do computador; existência de forças militares e policiais sem objetivos claros e definidos; crença infinita e primária na tecnologia e nos media, e tantas coisas mais.
Tudo isto desencadeia angústias e maus humores, zangas, brigas, tumultos, atentados, massacres, invasões, guerras e todo o calvário de desgraças que lhes anda associado desde que o mundo é mundo. E tudo isso escusado.
Sendo Português, por geografia, cultura, circunstância e convicção, trago comigo uma boa dose de mitos de estimação que me confortam o ego, me iluminam a existência e sustentam a minha pequena contribuição para o futuro do mundo e do meu país, dos meus concidadãos, parentes, amigos, mas nunca contra o homo universalis, que seja ele quem for, tem também as suas crenças, por geografias e circunstâncias que em grande parte lhe são alheias, pois quando nasceu já elas existiam, e que não são de modo algum superiores ou inferiores às minhas. São apenas aparentemente diferentes, pois para além da sua casca regional e cultural, são antropologicamente iguais. Por isso a longa história da humanidade tem desenvolvido o mais natural, mas também o mais intelectual sentimento, que é o da tolerância, o grande antídoto internacional contra o sofrimento, que de modo algum se reduz à definição de Locke: «Parar de combater o que não se pode mudar», até porque a mudança é intrínseca ao ser humano.
Mas não é a tolerância uma atitude fácil ou espontânea. Vários outros pensadores tentaram teorizá-la para propor a sua universalidade, mas ela esbarra sempre nos mesmos muros do preconceito: o meu povo é melhor do que o teu; a multinacional X adquiriu direitos que não quer repartir; a minha democracia é mais legítima do que a tua monarquia; a minha religião é mais verdadeira do que a tua crença; a minha guerra é mais justa do que a tua defesa; os da tua tribo são gente de primeira e os da minha (pensarás tu, ainda que em segredo) não passam do rebotalho da humanidade, os bárbaros, os gentios; a minha profissão é mais importante do que a tua; o teu porsche mais aceitável que o meu autocarro; o teu cargo político mais respeitável do que o meu voto. Enfim, achas que só podes viver confortável se puderes determinar o conforto a que os outros têm direito. Tudo isto é intolerância política, económica, cultural, social, em suma, humana.
Na sua aplicação, a tolerância só funciona enquanto a outro está disposto ao diálogo, ou seja, enquanto também está disposto a ser, ainda que temporariamente, tolerante. Mas como a sopa quotidiana e os mais elementares direitos humanos não podem esperar, quantas vezes o contato com o outro é estabelecido à força, tentando forçar o diálogo. Mas tal não é tolerância, e dá um poder extra aos políticos, exércitos e policias que eles irão usar, por muito tempo, em proveito próprio e de quem lhes paga.
Outra armadilha mental pespegada ao cidadão pelos intolerantes é o fazerem-lhe crer que ele carrega direitos ou culpas ancestrais: no primeiro caso isso sanciona situações no mínimo questionáveis; no segundo amolece-lhe o raciocínio para que ache “normal” o permitir que os que falam em nome dos perseguidos de ontem sejam os perseguidores de hoje. Meus senhores e senhoras, ou vice-versa por causa da igualdade do género: eu, e com certeza muitos dos que me leem, nunca atiramos cristãos às feras, nem sequer a seu pedido; nunca perseguimos quaisquer crentes, ateus ou livres-pensadores, judeus, ciganos ou bruxas, ou qualquer indivíduo portador de particularismo biológico, físico, cultural ou social; nunca massacramos ameríndios, africanos, hawaianos ou arménios; não destruímos paisagens naturais ou espécies protegidas; não apoiamos Estaline, Mussolini, Salazar, Franco, Hitler, Pol Pot e outros representantes do povo que fizeram duas guerras mundiais e outras regionais no século passado. Por esses, e outros tenebrosos acontecimentos, não somos nem nunca fomos responsáveis, nem por eles carregamos culpas e muito menos direitos. Mas estamos atentos e intervenientes para que se não repitam no nosso tempo de responsabilidade, ou seja só enquanto formos vivos.
Vamos pois falando de tolerância, cultivando-a sempre que o outro também esteja disposto a praticá-la, pois de outro modo não passará de um diálogo de surdos.
A arrogância dos néscios, daqueles que falam como se fossem imperadores de um império maldito para durar por milénios, mas que na realidade não passam de insuportáveis convictos de uma pretensa superioridade humanamente ofensiva, que fiquem com ela para seu consumo interno e das suas crenças tribais, que nós outros, simples humanos, embora as conheçamos e respeitemos, não queremos partilhar.
E se é certo que no mundo não faltam grandes situações de intolerância, a irmã mais velha da fome e da miséria, também por cá à nossa porta as vamos tendo, na política, na religião, no futebol, na convivência social, quantas vezes perpetradas pelos arrogantes com convicções trazidas da barbárie antiga, que pelo facto de ser antiga não se tornou por isso nem mais respeitável nem mais aceitável. Resta-nos enfrentar este permanente desafio à nossa tolerância continuando a exercê-la todos os dias através do estudo sem preconceitos e do diálogo permanente com todos os outros, mesmo que eles o não queiram, berrando-lhes, se tal for necessário, que o respeito tem de ser mútuo.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor da Confraria

Livros e textos

Através da Parceria A. M. Pereira, A. Campos Matos acaba de publicar um novo livro intitulado “Eça de Queiroz Correspondência (Adenda)” com quinze cartas inéditas do escritor que não constam na sua obra em dois volumes impressa em 2008 com aquele título, atingindo-se agora o número de 913 cartas publicadas, não sendo improvável que ainda algumas outras venham a aparecer. Por outro lado é incompreensível que alguns estudiosos e comentadores de Eça continuem a usar coletâneas epistolares antigas como fonte dos seus trabalhos, quando têm estas edições recentes e completas. Na primeira destas cartas inéditas agora publicadas Eça escreveu «Como V. Ex.ª sabe sempre desejei sair de Portugal…»


Eça de Queirós na Word Press

Encontra-se disponível em queirosiana.wordpress.com o blogue “Eça de Queirós. Investigação, debate e ensino sobre Eça de Queirós”, postado por Carlos Reis, professor catedrático da Universidade de Coimbra e especialista na obra queirosiana e da sua contemporaneidade. Para além de textos e imagens sobre grandes temas relacionados com a vida e obra do escritor, o blogue apresenta texto e fotografia do colóquio "Eça de Queiroz no Contexto da História dos Media” realizado em Roma e Viterbo entre 4 e 6 de Dezembro passado, e que envolveu investigadores das universidades do Minho, de Coimbra e Lisboa, entre eles Carlos Reis, Ana Teresa Peixinho e Mário Vieira de Carvalho. Este blogue dá também destaque à última edição da Revista de Portugal, nova série, editada pela Confraria Queirosiana.

Condecorações

No Solar Condes de Resende estão expostas as insígnias de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, formadas por fita tricolor com a cruz pátea pendente e a placa prateada, acompanhadas do respetivo diploma de concessão, a mesma Ordem recentemente atribuída ao futebolista Ronaldo no grau de Grande Oficial. Aquelas pertencem ao escritor José Rentes de Carvalho e foram-lhe atribuídas a 10 de Junho de 1991 pelo Presidente da República Doutor Mário Soares, pela sua contribuição para a divulgação da Língua e Literatura portuguesas na Holanda e em especial a vida e obra de Eça de Queirós, estando incluídas no seu espólio pessoal à guarda dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria-Queirosiana.
Obviamente que o escritor não ganhou nenhuma bola de ouro, mas o seu pensamento e obra brilham por certo na Cultura Portuguesa Contemporânea da qual, mesmo distante, nunca esteve off side.

Cursos e palestras
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso sobre História Empresarial e Institucional. Assim, no dia 1 de fevereiro J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “ O Grupo Salvador Caetano” e no dia 15 Joel Cleto sobre “A Indústria Conserveira em Matosinhos”.
No dia 20, no ciclo de palestras das quintas-feiras, pelas 21,30, Licínio Santos falará sobre “ As origens do Desporto em Vila Nova de Gaia”, sendo esta última de entrada livre.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 65 – sábado, 25 de Janeiro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www .queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.pt; eca-e-outras .blogspot .pt; vinhosdeeca.blogspot.pt; academiaecadequeiros.blogspot.pt; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013


Quadro queirosiano

Eça de Queirós
por A. Dias Machado, 2013

No mais recente capítulo da Confraria Queirosiana, que decorreu no dia 23 de Novembro passado no Solar Condes de Resende, a Confraria do Abade, de Braga, brindou a primeira com um quadro original da autoria do pintor famalicense A. Dias Machado, com uma figuração de Eça de Queirós inserida no universo da sua própria vida e na das suas personagens, sob o tema ali transcrito «A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação», a frase com que Fradique Mendes resumiu uma discussão filosófica sobre o assunto (A Correspondência de Fradique Mendes).O seu autor, que reside em Riba D’Ave, tem participado e realizado numerosas exposições, encontrando-se presente em várias coleções no país e no estrangeiro, tendo já retratado várias personalidades como Camilo Castelo Branco ou Che Guevara. Nas suas obras distinguem-se um traço e uma cor muito expressivos, pelo que a coleção da Confraria, que se encontra no Solar Condes de Resende, ficou assim muito valorizada com esta representação do seu patrono, a quem o fenómeno artístico não era indiferente, muito antes pelo contrário, motivando-lhe sérias reflexões desde muito novo: «A Arte é a história da alma», escreveu nas Prosas Bárbaras. Ele próprio se dedicou ao desenho, à pintura e à modelação de figuras; se no seu espólio conhecido restam apenas alguns desenhos, os quadros a óleo que seguramente pintou em Paris poderão andar por aí perdidos sem identificação ou terem ido para o fundo do mar, com o seu retrato pintado por Columbano, boa parte dos seus livros, manuscritos e mobiliário, mandados para Portugal após o seu falecimento, num navio fretado pelo governo de então para trazer o espólio do Pavilhão Português na Exposição Universal, mas que naufragou à vista de Lisboa. Felizmente a viúva não pode ou não teve tempo para mandar empacotar todo o recheio de sua casa. Restará na Fazenda do Brejão, Santa Cruz das Palmeiras, São Paulo, Brasil, o pequeno quadro que Eça ofereceu ao seu amigo Eduardo Prado com «três gatos em uma praia, junto a um rochedo, contemplando o por do sol». O próprio Eça tinha em sua casa quadros de D. Carlos, Carlos Reis e Jaime Verde, entre outros, além dos quadros de sua sogra, D. Maria Balbina, Condessa de Resende, por sua vez filha do 1º Visconde de Beire, o primeiro inspetor da Academia Portuense de Belas Artes, que por isso mesmo lhe deve ter propiciado bons professores de desenho e pintura.

Nesta época de intensa democratização dos atos de criação estética, em que, com mais ou menos reconhecimento, todos podemos ser artistas, e em que novas formas de arte se afirmam no nosso quotidiano, grande parte delas, é certo, já nascidas com a doença da efemeridade, ou com uma desesperada falta de substância e de conteúdo louvada por exotéricos vendedores de “banhas da cobra” em grossos volumes de “artes gráficas” ou “design”, benzidos por banqueiros artisticamente ineptos, tão caros quanto inúteis, e cujo destino é forçosamente o caixote do lixo da História, este quadro do pintor A: Dias Machado permanecerá no Solar Condes de Resende como uma bela metáfora sobre o autor de A Relíquia que imediatamente suscitou a admiração dos confrades presentes que junto dele e com ele se fizeram fotografar. Há obras de Arte assim.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor da Confraria

Grande Prémio da Crónica 2013

            A 10 de Dezembro, no auditório da Biblioteca Municipal de Sintra, o escritor José Rentes de Carvalho recebeu em cerimónia pública este prémio pelo seu livro Mazagran, o qual lhe foi outorgado pela Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Sintra, como noticiamos na página anterior. Na ocasião proferiu a seguinte alocação que nos disponibilizou para divulgação neste blogue, endereçada a todos os nossos confrades espalhados por Portugal e Brasil, a qual partilhamos com os leitores do jornal As Artes entre as Letras, protocolado com a Confraria Queirosiana.
«Sintra: agradecimento pelo "Grande Prémio da Crónica – 2013"
Senhor Presidente da Câmara de Sintra, Senhor Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, minhas senhoras, meus senhores:
O dicionário define a timidez como sendo a inibição que se sente em face de situações novas, ou de pessoas que não se conhecem bem, e ainda como uma falta de apreço pelo convívio social. Por certo a timidez é tudo isso, mas, como por vezes acontece com as definições, é também o seu contrário: pode ser fraqueza, e ao mesmo tempo grande força. Evidentemente, como seria de esperar, o que me traz a Sintra é a honra do prémio e o proveito do cheque. Se apenas de mim dependesse, isso seria tratado num gabinete, com apertos de mão e dois dedos de conversa. Mas não depende, de modo que aqui me têm, a grande força da timidez impedindo que deite a fugir, mantendo-me preso ao respeito devido às pessoas e às conveniências. Até certo ponto, a falta de experiência explica a peculiaridade do meu comportamento, pois tendo recebido pela primeira vez um prémio aos nove anos, só aos oitenta e dois me calhou o segundo. Não que me queixe, longe disso, quero apenas tornar claro que, por ignorância da técnica, receber prémios ou ser convidado para dançar, me deixa em aflição igual. Não tive de agradecer o primeiro – um livrinho da Condessa de Ségur, e uma caderneta da Caixa com cinquenta escudos – pois bastou dar um beijo à professora. Para o segundo, o ano passado, na Câmara de Castelo Branco, consegui debitar meia dúzia de palavras de agradecimento e, porque era menos que o mínimo, juntei-lhe uma página de prosa. Agora em Sintra para o terceiro, se bem que ainda não possa aspirar ao estatuto de veterano em prémios, tenho a impressão de que me posso alargar. Fá-lo-ei menos em palavras de gratidão, pois essas estão implícitas no que já disse e no que direi, mas, sobretudo, pelo desejo de lhes poupar o enfado de ouvirem repetir frases feitas e lugares-comuns. Para a verdadeira gratidão as palavras nunca bastam, pois exprimem sempre pouco, ou sempre mal, o que se sente e se pretende dizer. Esperando que compreendam o meu pensar, sofram então que abuse da vossa paciência.
Um amigo quis saber de mim como é que, há mais de meio século a viver no estrangeiro, eu ainda consigo escrever uma prosa razoavelmente escorreita.
Conforme o infeliz hábito que tenho de responder sem pensar, e no tom de quem anuncia um facto irrefutável, declarei-lhe que nunca tinha deixado Portugal.
Por ir contra a evidência, e mostrar algum descaso pela sua curiosidade, gerou isso algum embaraço, e ele, homem cortês, mudou de assunto.
Fosse mais corrente o andamento da vida que tenho levado, seria caso para pôr em dúvida o meu juízo, e legítima a pergunta se em pequeno me deram chá.
Felizmente, era apenas uma questão de retórica. Exagerando, eu intentava dar ênfase ao sentimento que tenho desde que me conheço, o de que a minha língua, a nossa língua, me prende a este chão como uma forte e misteriosa raiz, que se faz sentir onde quer que me encontre.
E todavia, pelo acaso das bizarras circunstâncias do meu viver, o qual me obriga a ser poliglota, nela raro me exprimo ou penso.
Aqui chegados, e tal o amigo de que falei, é provável que comecem a ressentir algum incómodo, talvez mesmo a desconfiar da sanidade mental deste, que ora se diz preso à língua-mãe, e de seguida anuncia que pouco a fala, e só de longe a longe a usa para pensar.
Duvido que o esclarecimento satisfaça, mas acontece que, vivendo rodeado de gente exótica, falando idiomas arrevesados, estabeleci com a língua portuguesa uma relação que, à falta de melhor, chamarei maçónica.
É assim que, quase diariamente, me fecho no meu quarto de trabalho com o único propósito de escrever um texto em português.
Pouco importa o tamanho ou o assunto: pode ser a continuação de um trabalho, um apontamento, uma carta, uma entrada no meu diário.
Não poderei dizer com segurança se, nas horas que aí passo, também é em português que penso. Mas uma certeza tenho: canto. Em surdina, vou cantando o que escrevo.
É evidente que cada frase terá de exprimir algo, fazer sentido, mas só é aprovada quando a melodia se me acomoda ao ouvido.
A família não estranha, mas se alguém por acaso escutasse à porta, talvez se benzesse, supondo-me a fazer encantações.
Assim não é, nem o bruxedo ajudaria. Simplesmente, com medo de perdê-la, de esquecer a sua riqueza vocabular e a sua bela sonoridade, criei com a língua portuguesa esse extravagante ritual.
 Embora menos cordato, tenho ainda outro motivo para, cantando, lhe apurar a afinação: o da impotência de uma raiva que me tomou cedo na adolescência e não consigo esconjurar.
Ortega y Gasset escreveu um dia: "Nunca fui nacionalista; mas sempre fui nacional, e isso significa para mim sentir um entusiasmo sempre renascente para com a vintena de coisas espanholas que estão verdadeiramente bem, e um ódio inextinguível para com o restante que está verdadeiramente mal."
Igual ao filósofo espanhol, se me enterneço com tudo o que Portugal tem de bom, sobe em mim uma fúria desmedida ao confrontar o tanto que na nossa bela e carinhosa pátria está desnecessariamente mal, desleixadamente mal, criminosamente mal.
É por isso que na solidão do meu quarto de trabalho canto em surdina a nossa língua. Para não a perder. Para pacientar. Para resistir à tentação que por vezes me assalta de virar as costas à terra do meu berço, cortar a raiz que a ela me prende, que arrasto e pesa como grilhão de condenado.
Num momento como este é descabido o lamento, de modo que, mais conforme ao uso e às boas maneiras, numa tentativa de exprimir a minha gratidão pelo prémio que me atribuíram, lhes trouxe uma espécie de lembrança.
Nada de estimável, nada que possam levar para casa, apenas um apontamento, no qual, talvez por também ter sido escrito a cantar, se ouve aqui e ali alguma ressonância do fado menor, o outro sangue que nos corre nas veias.
É uma forma de recado à moda antiga. E porque vem de lugares onde o tempo parou e a vida esmorece, pode ser que lhes pareça em língua estranha, falando de coisas, terras e gentes como já não há.
Assim fosse. Assim não é.
Fragas, atalhos e arribas, cotovelos de estrada, searas, desfiladeiros, pomares, solidões. Torvelinhos de água. Dias de festa. Rostos, momentos, becos, janelas de grades, pardieiros, estrume a fumegar, cães de gado.
Tudo esboroa, mingua, some em nevoeiro, não se adivinha com que fim ou distingue para que longe.
Que resta do que pareceu e do que foi? Do que disseram? Do que julguei ouvir?
Juras, gestos, subentendidos, intenções, promessas. Aquele sorriso, aquele abraço, a partida, as voltas, os desencontros e as fugas, o retorno, a perdição.
Menino ainda, actor me criei, a fugir do que para mim avançava, corpos grandes, rostos fechados.
No sangue a intuição de perda, vinda do mais escuro do tempo, sabe Deus que mágoas dos que passaram sem deixar nome ou pegada, iguais aos bichos, como eles apodrecendo em campa rasa, lembrados por um jeito, um remoque, e pronto esquecidos.
Silhuetas apenas, desfilam no contraluz, de espessura e aspecto têm o que lhes empresto na fantasia, e um pouco do que guardei por ter ouvido, desde o começo a querer resgatá-los do esquecimento.
A alguns deles nem sequer conheço, ou sim, provavelmente são os que enterrei fundo no esquecimento, a vala comum dos amores traídos, das amizades findas, das derrotas, das traições e ignomínias a que o viver obriga, mesmo quando tem por norte a decência.
Espectros, pouco importa donde vêm, o que os traz ou significam. Chegam em turbilhão, imagens a desenlear um emaranhado de vivências sem lógica nem cronologia, mistura de retratos e histórias, frases sussurradas por vozes estranhas, de longe a longe uma de tom familiar.
Deitada no chão, pariu-o a mãe em manta de burel, lençol teve só o da mortalha, no esquife dos pobres em que o levaram a enterrar. A vida inteira fez cama na manjedoura, dormindo sobre a palha que depois atirava às burras, e elas, às patadas, ensopariam de bosta e mijo.
Vestimenta de esmola, toda em remendos. Chapéu de feltro, enrijado pelo sebo  de anos. Botas já sem cardas, ganhas faz muito com sete jeiras de monda e dez de vindima, o couro duro a moer pés nus, tormento que findava quando calejavam.
Conchego de amor nunca teve, nem conheceu mulher, de alegrias gozou as mais simples: o remanso da sombra na canícula, um cibo de carne na festa, copinho de aguardente, naco de queijo, talhada de melão.
O seu gólgota começa de madrugada, quando carrega nas burras os sacos de serapilheira, cheios do carvão de choça que a semana inteira andou a fazer.
Cortar lenha para a "sepultura", cova funda de metro e meio, acender o lume, cuidar que arda vagaroso, nem forte nem fraco, de modo que seja muita a brasa, pouca a cinza.
Reza se o céu escurece. Reza para que o vento pare. Reza as graças quando as nuvens passam sem chuva. Olhos no alto. Olhos na fogueira. Frio não sente, nem fome, nem sede, só pensa nas chamas, esperançado de assim as domar.
Ao escurecer, com gestos de semeador, atira-lhes punhados de terra, a que chegue para que não abafem logo e vão morrendo aos poucos.
Padece e teme. Menino ainda, de nada me serviria ouvir-lhe a fala, que por enquanto só tenho olhos, um começo de entendimento, guardo sem saber que o faço, ou para que depois, quase todas as palavras me são novidade.
Imagino. Repito. Volto a imaginar e desfio, alargo, componho, misturo, sem consciência nem saber, colhendo vidas e vozes, cheiros, cores, modos, desesperos.
É estar de fora, ser estranho, e ao mesmo tempo viver em todos eles, misterioso fado que mais tarde me levará a perguntar o sentido da vida, nunca apenas nossa, mas enredada nas que findaram, as que estão, as que se escondem num futuro que talvez nunca chegue.
À noite, agachado no banquinho, corta o centeio. Deita as fatias na água que já ferve, pitada de sal, fio de azeite, quatro batatas. Uma cebola.
Vai-se-lhe o pensamento para a cova da ladeira, onde as brasas devem ter esfriado.
O sono é morte súbita de que irá ressuscitar à cantada do galo, logo em prece para que na fogueira apagada seja muito o carvão.
O dia rompe quando avista a "sepultura", e o palpite é bom. Reza agradecido. Bom é também o carvão de brasas medianas, o que paga melhor, gastam-no as mulheres nos ferros de passar, nas braseiras e nos fogareiros.
Seis sacas encheu, das que guardou do adubo. Carga leve, três em cada besta, que fracas como andam, mal comidas, com mais não aguentariam as doze léguas de ida-e-volta, e o tempo que vai perder nas ruas da vila, pára aqui, pára além, batendo as aldrabas, chamando, rouco de apregoar "Brasas! Quem quer brasas!" Às tantas só pergunta nas casas onde costuma ter freguesia, a meio da tarde vendeu duas sacas, trinta mil réis. Um mal-encarado diz que lhe compra uma se mear o preço. Responde que não pode, e o homem vira-lhe as costas com um "Então guarda-as!"
Apiedada, a viúva deu-lhe uma tigela de caldo e água para as bestas, mas brasas tem de sobra, que no estio pouco gasta. Fora isso, a mercearia agora tem carvão de pedra, que dá bom calor e é mais em conta.
Nunca ouviu falar, nem sabe o que seja, carvão só conhece o que faz com lenha de carrasco, castanho, oliveira e sobreiro. Mas não pergunta. Agradece o caldo, seja pelas almas de quem lá tem, e ela diz, o Senhor te acompanhe.
Quando reparou no que tinha andado, já não se viam as casas nem ladravam os cães, o negrume viera de repente, mas de olhos fechados andaria o caminho que era o do seu único longe.
Quebreira, um ardeúme no peito, a oura a embaraçar-lhe o passo, queixoso de não haver por ali fio de água onde acalmasse a sede, nem porta a que pudesse bater.
Quis sentar-se na borda do caminho, mas a fraqueza pôde mais, e julgando que se endireitava rebolou, caiu de bruços, num derradeiro esforço virou a cara, anojado do pó que se lhe colava à boca. Foi esmorecendo, finou-se em paz, os que de madrugada o encontraram quase tinham passado adiante, julgando que dormia.
Deve ter sido outro, o que trouxeram atravessado na albarda de um jerico que mal aguentava o peso do morto e o do homem que o segurava.
Do que estou certo é tê-lo visto no esquife dos pobres, coberto por um lençol remendado na ourela. Lembro também que as mulheres tinham ido à ladeira em busca de flores, para que ele não fosse a enterrar sem ao menos um raminho.
*   *   *
Senhor Presidente da Câmara de Sintra, Senhor Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, minhas senhoras, meus senhores:
Lendo um texto que, ademais, nada tem a ver com o motivo de estarmos aqui, é possível que fiquem com a ideia de ter eu escolhido o caminho fácil, e me querer escasso em palavras de agradecimento.
Embora, como antes disse, me falte experiência para situações destas, por outro lado pouca dificuldade teria em alinhavar frases de solenidade e sentida gratidão. Pareceu-me, contudo, que se vinha para receber, ficava melhor trazer-lhes algo, mesmo de pouca valia, do que vir com as mãos a abanar.
Bem sei que, ao desviar-me do que suponho ser habitual nestas cerimónias, corri o risco de os aborrecer e, ao exceder-me no roubo de tempo, talvez mesmo de os afligir.
Se assim foi, espero que aceitem as minhas desculpas, e acreditem na sinceridade com que agradeço o prémio que me deram, e a atenção que me dispensaram.

Muito obrigado.
J. Rentes de Carvalho»

Livros

A Década Furiosa

          A 6 de Dezembro, na Galeria Por Amor à Arte no Porto, Beatriz Pacheco Pereira lançou o seu mais recente livro de crónicas, coletânea de cerca de noventa publicadas em diversos jornais entre 2003 e 2013, abordando aspetos sobre aquela cidade e o Norte do país e temas culturais e educacionais, o qual, segundo a autora, poderia chamar-se «Portugal Visto Daqui» e onde escreve sobre «um país absolutamente desequilibrado com a hegemonia total da capital em todas as áreas económicas e culturais, com um Porto cada vez mais pobre e fraco, abandonado pelas empresas, bancos e governo central…».


Capela de Santo António

           
No passado dia 8 de Dezembro comemorou 20 anos de existência a Associação de Amigos dos Pereiros, de que tem sido presidente Alberto Silva Fernandes, com uma sessão na sua sede na aldeia do mesmo nome, no concelho de S. João da Pesqueira, durante a qual foram apresentados os livros “Os Ourives de Pereiros” da autoria do nosso confrade acima referido e já divulgado neste blogue e na Revista de Portugal n.º 10, e um novo livro, intitulado “Capela de Santo António, Pereiros, S. João da Pesqueira”, notável estudo de História da Arte deste pequeno templo seiscentista ali existente, da autoria de Nuno Resende, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que ali o apresentou, em edição daquela associação produzida pelo nosso Gabinete de História, Arqueologia e Património, que ali se fez representar pelo seu coordenador e outros colaboradores.

            Na ocasião foi também lançada numa medalha comemorativa e um postal de Natal, com a reprodução de um presépio barroco existente na referida capela, pretendendo a associação que o livro seja o primeiro de uma série sobre as capelas do concelho elaborada por historiadores profissionais.


Crime de Canelas

           

No dia 21 de Dezembro foi apresentado no Solar Condes de Resende o último livro do nosso associado e membro do Gabinete de História, Arqueologia e Património, Francisco Barbosa da Costa, intitulado “Crime de Canelas – um crime que apaixonou o país”. Sobre o mesmo divulgou o seguinte texto:

«Ocorrido em 1930 e julgado em 1932, este crime, que teve como cenário Canelas (Vila Nova de Gaia), dadas as suas motivações, agentes, contornos e consequências, teve ampla e diversificada repercussão nacional, veiculada por todos os jornais diários do Porto e de Lisboa e de alguns regionais. Creio mesmo que se tivesse acontecido agora abriria os telejornais. A ânsia de obtenção de lucros indevidos, a partir de seguros elevados de uma casa, de carros e de animais, feitos junto de companhias, fez congregar em quadrilha vários indivíduos sem escrúpulos que não tiveram pejo em burlar, assassinar e matar, pelo fogo, um dos membros da quadrilha que, à última hora, ameaçou os seus comparsas de denúncia. Este trabalho foi desenvolvido a partir das notícias dos jornais, tendo o autor sistematizado o texto caracterizando os seus diversos protagonistas, o contexto internacional, nacional e local da época. Os jornalistas “autores” do trabalho fizeram-no com grande qualidade e minúcia que muito facilitaram a sistematização do autor. Desenvolve-se em vários capítulos, designadamente, o prólogo, a inquirição, o julgamento, a sentença e o epílogo, depois do relato de crimes semelhantes praticados pelo principal réu, em Mirandela. Há também a circunstância de ter estado escondido na casa – cenário do crime – o alegado assassino de Sidónio Pais. O trabalho é ilustrado com fotografias dos jornais, dos criminosos, dos juízes, dos investigadores, das testemunhas, da casa e dos carros incendiados» (FBC).
            Na ocasião estiveram presentes, além do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues e outros autarcas, muitos confrades e associados dos ASCR - CQ, tendo na ocasião falado, além do prefaciador, o coordenador do GHAP e diretor do Solar sobre a Imprensa como fonte histórica, terminando o autor do livro, que explanou as razões que o levaram a elaborar esta sua obra.

Cursos, palestras e lições

Lição de Musicologia

           No passado dia 6 de Dezembro proferia a sua Última Lição o Professor Doutor Mário Vieira de Carvalho, Catedrático Jubilado do Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, intitulada «Música, teatro e impasses da esfera pública: um olhar sobre o século XVIII em Portugal». O agora jubilado professor tem também publicada uma notável obra sobre a Música e Eça de Queirós.

História Empresarial e Institucional

            Prossegue no Solar Condes de Resende aos sábados à tarde entre as 15 e as 17 horas, este curso organizado pela Academia Eça de Queirós, tendo já apresentado as suas investigações sobre o tema J. A. Gonçalves Guimarães, Silvestre Lacerda, Ana Cristina Correia de Sousa e Nuno Resende. O primeiro voltará no dia 4 de Janeiro a dissertar sobre “A História da Casa Ramos Pinto: Vinhos e Arte”, a que se segue, no dia 18 de Janeiro, Laura Peixoto sobre “Indústrias de Cerâmica oitocentistas do Porto e Gaia”.

Palestras do Solar

            No próximo dia 23 de Janeiro, quinta-feira, serão retomadas as palestras das quintas-feiras no Solar Condes de Resende às 21,30, com entrada livre, sendo o primeiro palestrante José Manuel Tedim, Professor da Universidade Portucalense, diretor da Academia Eça de Queirós e presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, que dissertará sobre o tema: «O pintor Felix Vallotton e o Movimento Nabis».

Curso de Verão

     No próximo mês de Julho, organizado pelo CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memória» da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em colaboração com o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto e coordenado por Gaspar Martins Pereira, decorrerá o I Curso de Verão sobre «O Vinho do Porto: Memória, Identidade e Recursos», em que serão formadores, entre outros, para além do coordenador, Amândio Barros, António Barros Cardoso, Carlos Brochado de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, que também costumam lecionar nos cursos do Solar, e ainda Pedro Pereira, da equipa de arqueologia do Castelo de Crestuma do GHAP. Para mais informações e inscrições, citcem@letras.up.pt ou gfec@letras.up.pt
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 64 – quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
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