terça-feira, 26 de novembro de 2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013, dia natalício de Eça de Queirós

O braço dado de Eça a Dagoberto

Todos os anos (quase todos os anos) um novo livro de Dagoberto Carvalho J.or vem enriquecer a minha biblioteca onde se alinham já, depois de lidos, doze volumes deste autor eciano que desde, pelo menos, 1980 persegue a História eclesiástica do Piauí (História Episcopal do Piauí, 2.ª edição, revista e aumentada 2011); a História da sua terra amada Oeiras, pelo menos desde 1982 (Passeio a Oeiras, 6.ª edição, 2010); a Arte e Ciência de «andar clinicando», pelo menos desde 1989 (A Obstetrícia no Piauí, que agora dourou com Tempo da Farmácia, 2013); a História da Arte da sua região, pelo menos desde 1990 (A Talha de Retábulos no Piauí, 2.ª edição, 2005, sem esquecer a Arte Sacra Popular e Resistência Cultural, deste mesmo ano), e Eça, muito Eça de leitura, saber e afeto, que lhe chegou logo no berço, pois foi em 1948 que foi fundado no Recife o Club de Amigos de Eça de Queiroz, que daria a atual Sociedade Eça de Queiroz a que preside e que em 2010 deu origem à Confraria Eça-Dagobertiana.
Os seus escritos sobre o escritor poveiro datam, pelo menos, de 1994, quando publica A Cidadela do Espírito. Considerações sobre a Arte Sacra na Obra de Eça de Queiroz, com prefácio de Paulo Cavalcanti e apresentação de Dário de Castro Alves, e cuja segunda edição apareceria revista e ampliada em 2007. Mas já em 2001 reunira uma série de ensaios, conferências, prefácios, artigos e discursos, publicados no glorioso Diário de Pernambuco, onde é cronista há mais de vinte anos, no livro Eça de Queiroz Retratos de Memória, a que se seguem Revolução pela Palavra. Notas sobre Eça de Queiroz e a Geração de 70 (2004); A Boa Mesa de Eça de Queiroz (2008); Eça de Queiroz e Machado de Assis. O Realismo de cada um, com prefácio de A. Campos Matos (2009), D’Eça (Nabuco, Gilberto) e d’outros (com o acrescento dos seus versos Canto da Lembrança e da Província; 2010), a que juntou o presente volume, onde naturalmente o autor de A Relíquia está (sempre) presente.
Não tenho toda a sua obra, mas este conjunto dos seus volumes na minha biblioteca está muito bem enquadrado por prateleiras de outros autores amigos comuns na Confraria Queirosiana, a que Dagoberto Carvalho J.or pertence desde que foi insigniado a 13 de outubro de 2008 no Solar Condes de Resende em Vila Nova de Gaia, como Carlos Reis, analista maior da prosa do autor de Os Maias, Luís Manuel de Araújo, egiptólogo queirosiano; A. Campos Matos, eçófilo, eçógrafo e eçólogo maior, o “Papa eciano”; Mário Vieira de Carvalho, musicólogo e melólogo eciano; J. Rentes de Carvalho que perpetua o mestre na roupagem do século XXI; Ana Margarida Dinis Vieira apaixonada pelo olhar do escritor e das suas personagens, e tantos outros que compõem a minha “queirosiana”, onde encontro os mais variados textos sobre o escritor que a todos nos uniu na tentativa cavalheiresca de tentarmos redimir o mundo através da Arte e do bom gosto, rindo das nossas próprias fraquezas e caricaturando as alheias, as dos reizinhos, reizecos e rainhonas que Eça inexoravelmente despiu nas suas obras enquanto desfilam pela calçada da vida, ainda que atapetada pela passadeira vermelha das conveniências. Depois dos seus magistrais romances, nunca mais o mundo foi o mesmo e se ainda está tão mauzote, tal só se pode justificar pela falta de leitura das suas obras nas Nações Unidas, no FMI, nas cimeiras dos países emergentes.
Tal não acontece no Brasil – está bem de ver pela sua performance – porque aí o escritor é bem lido, bem amado, bem cultivado, lê-se na esplanada, no avião, na universidade, em toda a parte. E para tal muito tem contribuído a ação de homens e mulheres esclarecidos que de há muito se deliciam com uma boa e inteligente gargalhada provocada por essas tiradas de prosa bronzina do autor de Os Maias, tão grande quanto humano, tão cultivador dos valores do espírito, da alma individual e coletiva e deste corpo que Deus nos deu, que as albergam enquanto por cá andamos, enquanto não passamos a outros este nosso breve testemunho de humanidade que cada um transporta com a missão de o enriquecer e passar mais valioso, mais gentil, aos vindouros. Suponho que assim pensava Eça de Queirós. Assim pensa Dagoberto, homem, médico, historiador e escritor desdobrado entre tantos afetos – a Medicina, a Arte, a História, a Literatura, e o Pensamento e, o que é mais, a Família e os Amigos, que nos dá agora um livro novo onde reúne seus escritos sobre as últimas novidades da vida e obra do escritor, que as vai tendo, pois então, mas também sobre as suas personagens e aqueles lugares onde Eça gostaria de ter ido – mormente ao Brasil – mas onde mandou a sua prosa, a sua curiosidade, a sua maneira de ser, o seu humano aceno de afeto, que Dagoberto também materializa nestas crónicas que mantêm este autor presente, vivo e atuante no grande país do Atlântico Sul, que desde António Vieira e, porque não, de D. João VI, faz jus ao sonho de ser o ponto bem central do império da lusa fala e da maneira de ser tão humanamente humana (não tenho mais redundâncias!) que a mesma transmite ao mundo.
Por isso, para mim, estes livros são como que preciosos diários sobre um Eça que anda por aí à conversa em Pernambuco e que Dagoberto vai apresentando, com aquele seu jeito sabedor às gerações que se sucedem. Como tal os tenho e acarinho com grande estima num local de destaque nas minhas estantes.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Capítulo da Confraria Queirosiana

O 168º aniversário de Eça de Queirós foi comemorado no passado sábado, dia 23, no Solar Condes de Resende com a realização do XIº capítulo da Confraria Queirosiana, com o salão nobre da instituição repleto de confrades vindos de vários pontos do país e também com os representantes da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas e das confrarias da Doçaria Conventual de Tentúgal, da Fogaça de Santa Maria da Feira, do Moliceiro da Murtosa, dos Ovos Moles de Aveiro, dos Sabores de Sintra, da Chanfana de Vila Nova de Poiares, do Abade de Braga, Gastronómica e Enófila de Carregal do Sal, e O Rabelo de S. João da Pesqueira. Também presentes representantes da Associação Cultural Amigos de Gaia, Associação de Amizade Portugal – Egito, Centro Cultural Eça de Queiroz de Lisboa, Junta de Freguesia de Canelas, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e jornal O Gaiense.
Presidiu ao ato a mesa composta por César Oliveira, presidente da mesa da assembleia geral; José Manuel Tedim, presidente da direção; J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da Confraria Queirosiana, ladeados pela vereadora Elisa Cidade, em representação de Eduardo Vítor Rodrigues, presidente do município de Vila Nova de Gaia, e Olga Cavaleiro em representação da FPCG.
Foram entronizados confrades de número, como leitores, Sílvia Alexandra Santos, Alcina Santos Silva, Vítor Ferraz e José Ferraz, e louvado César Veloso; como confrades de honra, leitores, Adelaide Canastro, Madalena Carrito e louvados Nuno Oliveira e Manuel de Novaes Cabral.
Neste ato foi lido e assinado o protocolo de cooperação entre a Confraria Queirosiana e o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, enviado pelo seu presidente Dr. António Gomes da Costa. Seguiu-se a apresentação do livro Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte, da autoria de Graça Eça de Queiroz Nicolau de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, produzido pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ, comentado por José Manuel Tedim na sua qualidade de académico de História da Arte, e a Revista de Portugal, n.º 10, pelo seu diretor Luís Manuel de Araújo. A sessão foi abrilhantada por um duo de saxofones do Conservatório de Música de Gaia, tendo a Confraria do Abade brindado a anfitriã com a oferta de um quadro a óleo de temas queirosianos, da autoria do pintor Dias Machado, que divulgaremos na próxima edição, tendo ainda Ricardo Charters d’Azevedo dedicado à biblioteca a sua mais recente obra sobre Leiria no século XIX. De seguida os presentes foram à estátua de Eça no Jardim das Camélias colocar uma coroa de louros.
Seguiu-se o jantar que reuniu uma centena de comensais que tiveram também ocasião de provar vinhos da Sociedade Agrícola Terras do Picoto, S. João da Pesqueira, oferecido pelo confrade Narciso Lopes. Durante o jantar foram entoadas cançonetas de compositores do tempo de Eça de Queirós, e ainda fados de Lisboa e de Coimbra, além do Hino da Confraria, por António Rua, Ilda Castro e Henrique Guedes, acompanhados ao piano por Maria João Ventura, a que se seguiu a atuação do grupo de danças de competição da Associação Recreativa de Canelas, sob a direção da professora Luísa Freitas, tendo sido ainda apresentado um sortido de chocolates queirosianos elaborados e registados por Ilda Castro e que serão em breve comercializados pela Confraria Queirosiana. No final decorreu o habitual Baile das Camélias.

Dia Nacional da Cultura Cientifica

A 24 de Novembro o Parque Biológico de Gaia celebrou este dia, instituído em 1997 para homenagear o nascimento de Rómulo de Carvalho, com um conjunto de palestras no Estuário do Douro, no Parque Botânico do Castelo em Crestuma e no Parque Biológico de Gaia, tendo falado, entre outros, os confrades Gonçalves Guimarães e Nuno Oliveira.

História Empresarial e Institucional

Como anteriormente noticiamos, teve inicio no passado dia 16 de Novembro o curso livre sobre História Empresarial e Institucional que decorrerá até Abril do próximo ano ao ritmo de duas tardes de sábado, entre as 15 e as 17 horas. Nesta primeira sessão foram entregues os certificados de frequência do curso anterior, tendo presidido ao ato o Prof. Doutor José Manuel Tedim, presidente da direção.
A primeira lição sobre “Ambito, objetivos e interesse social, económico e cultural da História Empresarial e Institucional” foi proferida por J. A. Gonçalves Guimarães e a próxima sessão, dia 30 de Novembro, será apresentada por Silvestre Lacerda, diretor do Arquivo Nacional/Torre do Tombo.
Este curso é organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente.

Salon d’Automne queirosiano 2013

Abriu ao público no passado dia 16 de Novembro no Solar Condes de Resende a oitava edição deste certame artístico anual que reúne os artistas profissionais e amadores da Confraria que aí apresentam desenho, pintura, cerâmica e escultura, estando este ano representados Abel Barros, Adélio Martins, Alexandre Rufo, Angelina Rodrigues, António Pinto, António Rua, Beatriz Correia, Carolina Calheiros Lobo, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Ilda Gomes, Luísa Tavares, Migó, Natércia Barbosa, Rosário Sousa, Rui Soares e Susana Moncóvio.
Muitas das peças expostas destinam-se à venda a favor da Confraria.

Arqueologia na FLUP

Laura Sousa
No passado dia 15 de Novembro apresentou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a sua dissertação de Mestrado intitulada “A Fábrica de Louça de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista” a nossa associada Laura Sousa, colaboradora do Gabinete de História, Arqueologia e Património como arqueóloga da equipa do Castelo de Crestuma, tendo sido aprovada com a classificação de 20 valores.
Esta tese passa agora a ser uma referência fundamental para a compreensão da produção de faiança em Vila Nova de Gaia e região do Porto.
Ainda na mesma faculdade, no passado dia 21 de novembro, foi realizada uma sessão de homenagem ao arqueólogo Professor Doutor Armando Coelho Ferreira da Silva, entretanto jubilado, um dos fundadores do Gabinete e iniciador da arqueologia científica em Vila Nova de Gaia em 1979, sendo as suas obras referências europeias sobre a Proto-História, Romanização e Cultura Castreja. Esteve presente entre outros, J. A. Gonçalves Guimarães, que falou sobre a sua ação no desenvolvimento da arqueologia gaiense e a fundação daquele gabinete em 1982.
Ao homenageado foi entregue a medalha de ouro da Universidade do Porto em sessão solene presidida pelo reitor.

Escultor gaiense na Amazónia

Neca Machado no Solar
No passado dia 18 de novembro o diretor do Solar Condes de Resende recebeu nesta Casa Municipal de Cultura a investigadora brasileira Neca Machado, vinda diretamente de Amapá para entregar a esta instituição gaiense a sua investigação sobre a vida e obra de António Pereira da Costa, nascido em Valadares, Vila Nova de Gaia, em 1901, o qual embarcou para o Brasil com treze anos, aí se juntando a seu pai que trabalhava na construção civil, tendo ambos restaurado, entre outros edifícios, o Teatro de Manaus. Tendo frequentado a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, partiu depois para a região da Amazónia onde deixou inúmeras obras de escultura e arquitetura.
Após uma visita à igreja de Valadares, onde o escultor terá sido batizado, a referida investigadora fez uma palestra no Solar Condes de Resende, à qual assistiram diversos confrades ligados à Escultura e à História da Arte.

Festa de S. Martinho

Nos dias 9 e 10 de Novembro, como habitualmente, decorreu no Solar Condes de Resende a Feira de S. Martinho, organizada pela Confraria Queirosiana com a colaboração da Junta de Freguesia de Canelas. Estiveram presentes os produtos do Douro e Beira Alta, doçaria tradicional e artesanato urbano.

60 anos do TEP

O Teatro Experimental do Porto, atualmente sediado em Vila Nova de Gaia, completou este ano 60 anos de existência, tendo tal facto sido assinalado com um colóquio organizado pelo Círculo de Cultura Teatral/TEP e pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, que decorreu nesta instituição nos dias 29 e 30 de Outubro passado, durante o qual, entre outros conferencistas, o nosso associado Júlio Gago dissertou sobre «A solidão do corredor de fundo: o TEP e o Teatro em Portugal».
A Confraria Queirosiana dedicou a capa da sua Revista de Portugal a esta efeméride, apresentando o cartaz do espetáculo da adaptação de Os Maias que o TEP tem em cena, exibindo-o em formato gigante na sala do jantar do seu Capítulo, bem assim como os trajos usados pelos atores nesta peça, que será reposta em cena a partir de fevereiro de 2014.

Amigos do Museu Nacional de Arqueologia

Esta associação, tal como os Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana filiada na Federação Portuguesa dos Amigos de Museus de Portugal, que já visitou o Solar Condes de Resende e participa nas viagens ao Egito organizadas pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, nosso vice-presidente, tem agora este professor universitário como seu presidente recentemente eleito. Recordamos que o dossier da instalação definitiva e condigna do Museu Nacional de Arqueologia continua em aberto.

Livros e revistas

Grande Prémio para J. Rentes de Carvalho

O Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (APE), patrocinado pela Câmara Municipal de Sintra, resultante da apreciação de 34 obras a concurso publicadas entre 2011 e 2012, foi atribuído ao escritor J. Rentes Carvalho pelo seu livro Mazagran, publicado pela Quetzal e apresentado pelo responsável por esta página na Biblioteca Municipal de Matosinhos (ver Eça & Outras, IIIª série n.º 50, 25 de Outubro de 2012 e As Artes entre as Letras de 14 de Novembro de 2012.
O escritor é convidado oficial da próxima 15ª edição de Correntes de Escrita que decorrerá em fevereiro na Póvoa de Varzim e que reunirá autores de expressão ibérica na terra onde nasceu Eça de Queirós.

Revista de Portugal

Acaba de ser publicado o n.º 10 da Revista de Portugal, com direção de Luís Manuel de Araújo, tendo como adjuntos J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim. Este número comemorativo dos 125 anos da edição de Os Maias, apresenta artigos de António Manuel Silva «Arqueologia do Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia)» Susana Moncóvio «Francisco Pinto da Costa (1826-1869); desfiar a memória»; Luís Manuel de Araújo «Eça de Queirós e o Egito do backchich»; J. A. Gonçalves Guimarães «Roteiros queirosianos: da biografia à ficção literária»; Anabela Mimoso «Revisitar a Geração Coimbrã à luz do integralismo de José Rebelo Bettencourt»; José Pereira Gonçalves «A juventude e o mar. O projeto Lusito; Maria Alda Tavares Barata Salgueiro «Rentes de Carvalho: o desafio de um narrador na primeira pessoa» e José António Afonso, uma recensão sobre o livro de Violante F. Magalhães Sobressalto e Espanto, a que se segue a bibliografia dos confrades queirosianos e as atividades dos ASCR-CQ em 2012.

De lembrança em lembrança

Entre os dias 14 e 16 de Novembro decorreu em Oeiras, Piauí, o VIII Festival de Cultura de Oeiras, durante o qual o nosso confrade falou sobre o “Museu de Arte Sacra de Oeiras: memória e identidade”, tendo no mesmo certame sido apresentado no Solar das Doze Janelas o seu mais recente livro intitulado “De lembrança em lembrança – Eça de Queirós e outras memórias” pela professora Cassi Neiva, presidente da Confraria Eciana de Oeiras, cujo prefácio tivemos a honra de escrever e que aqui divulgamos no início desta página. Mas as gentilezas do autor para com os seus confrades portugueses não se ficaram por aí, pois para além da dedicatória, e da capa, com a figura de Eça na margem gaiense em frente do Porto, o livro apresenta, para além da omnipresença do escritor que faz a ponte do afeto e da cultura entre os dois povos irmãos, muitas referências aos seus amigos e admiradores “de cá” e “de lá”, ao Solar Condes de Resende, à Confraria Queirosiana, aos Calheiros Lobo que nos fizeram encontrar, a Campos Matos, a J. Rentes de Carvalho, rematando com três memórias históricas, uma delas sobre S. Gonçalo de Amarante, o mesmo santo que em Gaia os mareantes, matulas e barqueiros também celebrarão no próximo mês de Janeiro.

Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte

Nos dias 8, 9 e 10 de Novembro foi lançado em Lisboa o livro “Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte” de Graça Nicolau de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, primeiro no restaurante 100 Maneiras, depois na FNAC – Chiado e por fim numa prova eno-histórica (assim lhe chamou João Nicolau de Almeida) no Encontro com os Vinhos e Sabores 2013 que decorreu na FIL de Lisboa.
Depois de também ter sido apresentado no Capítulo da Confraria Queirosiana, será lançado no próximo dia 10 na FNAC-Porto (Rua de Santa Catarina) e no dia 11 na própria Casa Ramos Pinto.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 63 – segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154  IBAN: PT50001800005536505900154; Email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeiros.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Eça & Outras


 Sovados, humilhados, arrasados!

Como historiador profissional sempre entendi que a História tem uma importante função social a desempenhar. Se assim não for não passará de uma decoração natalícia, vistosa e piscante, com lugar certo na vida das comunidades, mas que logo depois se guarda nos arrumos à espera de nova ocasião de uso, em que se oscila entre a tradição e a inovação, mas apenas decorativa e efémera. Ora não é esse o conceito da História que tenho trabalhado, ensinado e divulgado, como aliás não é o de muitos outros bons companheiros de jornada, antigos e atuais. Claro que ainda hoje, mesmo pessoas com formação académica, à História preferem a mitologia, por ser mais “cultural”, mais pacífica, mais preenchente do ego, pouco questionável (para quê, se são mitos?), mais decorativa, ou seja mais inútil, porque incapaz de produzir pão, máquinas e riqueza para o dia-a-dia de milhões de seres em todo o mundo. Compreendo que os famintos de pão, de trabalho, de dinheiro, de sossego e de convívio humano, ainda que ricos, se sintam inclinados para os mitos, as grandes ou pequenas fantasias, as grandes ou pequenas burlas, as mais das vezes revestidas com papéis prateados da “técnica”, da “saúde”, da “ciência” e, oh deuses! “da cultura”, e mais recentemente “do social” ou dos “media”. Compreendo, mas não aceito, porque eles não fazem sequer ideia do que é a solidão dos fraternos, dos desalinhados, dos caminheiros infatigáveis em busca da humana felicidade, essa «…pluma que o vento vai levando pelo ar» (Vinícius de Morais, parabéns por seus 100 anos de eterna juventude. Sarabá!) Mas então quais são as diferenças ensinadas pela História? São simples, como quase tudo na vida: os pobres são consumidores e divulgadores de mitologias. Os ricos produzem-nas e institucionalizam-nas para se manterem no poder. Os remediados, quando têm algum incómodo social, trocam de mitologias e, quando alguns deles chegam a ricos depois das revoluções, passam a produzir novas mitologias para os povos passarem a consumi-las. Sempre assim tem sido. Nos últimos tempos tem crescido o número de ricos e de pobres e há cada vez menos remediados, razão pela qual as mitologias se têm vindo a reforçar sem conseguirem mudar nada nem coisa nenhuma. Por isso, nestes dias em que o terrorismo de Estado e dos fundamentalistas, nacional e internacional, nos entra a toda a hora pela casa adentro, lembro-me daquelas palavras de Eça quando um dia imaginou (ingénuo!) meter medo aos políticos portugueses colocando no mercado uma ficção sobre a invasão de Portugal pela Espanha. Imaginava então ele que «sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situação nos achávamos! [Sem governo], sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho [da troika], porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivéssemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outrora… Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia… Oh! Deus de Ourique, manda-nos o [banqueiro internacional]! (Eça de Queiroz, Os Maias, [com atualização de expressões da minha responsabilidade], sossegando-nos porém, através de Ega, que a «… invasão [da troika] não significa perda absoluta da independência. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de [dez] milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um [consórcio de algumas centenas de banqueiros que devem viver algures, dormir em mansões de luxo e ir à sanita de vez em quando como qualquer mortal].
Depois ninguém consentiria em deixar cair nas mãos [deles] esta bela linha de costa de Portugal [e a sua área marítima exclusiva que vale quinquilhões]. Sem contar as alianças que teríamos a troco das [regiões autónomas] – das [regiões autónomas] que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em caso de crise… Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão [dos mercenários da União Monetária Internacional], num momento de guerra europeia, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indeminização, perdermos uma ou duas [regiões autónomas], ver talvez a Galiza estendida até ao Douro…» (idem, idem, idem, peço desculpa pela atualização, meu Eça, mas tem de ser). Ora eu, não querendo ser troikano, também não quero ser galego, nem castelhano, nem alemão. Sou português, gaiense, portucalense, duriense, alentejano, açoriano, madeirense, algarvio, lisboeta, e o mais que for preciso, desde que universal pela mão de Camões, de Vieira ou de Rentes de Carvalho, tal como tu, meu Eça.
Já estamos a ser sovados desde o século passado. Será que estamos a aprender? Estamos efetivamente a regenerarmo-nos? Meu Eça, como eu desesperadamente quero que isso seja verdade. Se tal acontecer, irei a pé à tua imaginada Torges em peregrinação, pensando «… que outros homens [e mulheres], com uma certeza mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam como eu com o pé no lixo da supercivilização, e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findara, inútil e coberta de ferrugem» (Eça de Queirós, Civilização).

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros

O Crime do Padre Amaro

No âmbito das comemorações dos 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra, o jornal O Público está a divulgar uma coleção de primeiras edições fac-similadas do espólio daquela instituição, entre as quais Os Lusíadas, de Luís de Camões; As Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, com a Granja por onde passaria Eça de Queirós; Coração, Cabeça e Estomago, certamente o melhor romance de Camilo Castelo Branco; e O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós, posto à venda em livro em 1876. Quanto às restantes obras, ai encontramos autores como o Padre António Vieira, Vitorino Nemésio, Almeida Garrett, Soeiro Pereira Gomes, Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro, Raul Brandão e Maria Angelina, José Régio, António Nobre, Irene Lisboa, Natália Correia e Fernando Pessoa.


Saúde Mental

No passado dia 10 de Outubro, na Ordem dos Médicos do Porto foi lançado o livro, O Centro de Saúde Mental de Vila Nova de Gaia de Jaime Milheiro, no dia mundial dedicado à saúde mental, tendo o livro sido oferecido a todos os presentes.
Segundo o autor, «particularizado em Gaia, neste livro discutem-se problemas assistenciais e mentalidades, estigmas e comunidades. Fazendo história e solicitando futuro, discute-se a forma como se ganha ou como se perde a Saúde Mental de todos e de cada um, numa narrativa breve… feita na primeira pessoa».



Obra Selecta

No dia 11 de Outubro, no salão nobre da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim foi lançado o Tomo II vol. I das obras completas do Professor Doutor João Francisco Marques, dedicado a temas sobre Religião, Política e Sociedade. O autor é professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Vinhos e Arte

No próximo dia 7 de Novembro, no restaurante 100 Maneiras em Lisboa, será feita a pré-apresentação do livro Adriano Ramos Pinto Vinhos e Arte de Graça Nicolau de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, num jantar organizado pela Casa editora. O livro traça a biografia do fundador e dos seus diretos sucessores à frente da empresa, dando especial destaque ao seu universo de inconfundível Arte Publicitária, divulgando muitos documentos e imagens inéditas do seu Arquivo.




Os Idiotas

No dia 26 de Outubro, na livraria Traga-Mundos de Vila Real, o escritor José Rentes de Carvalho apresentará o primeiro romance do escritor Rui Ângelo Araújo intitulado Os Idiotas, imprescindível para percebermos com que linhas se tem cosido o Portugal democrático e como ele se tem implantado por essa paisagem fora.


Leiria no século XIX



Ricardo Charters de Azevedo continua a divulgar preciosos textos sobre Leiria, desta vez William Charters, um oficial inglês em Leiria no século XIX, obra que terá a sua apresentação no Arquivo Distrital de Leiria no próximo dia 16 de Novembro, e que abarca o período das «invasões francesas, as guerras liberais e as vivências socioculturais, com um estudo sobre a família Charters».



Cinema e visitas

Os Maias no cinema

A filmografia queirosiana conta já com muitas e várias versões de obras do escritor. Nestes dias o realizador João Botelho está a rodar a primeira adaptação cinematográfica de Os Maias, a qual deverá aparecer a público em Setembro do próximo ano e conta com um elenco de grandes atores portugueses e brasileiros. Será apresentada em duas versões, uma para cinema, outra como série televisiva.


O Porto de Eça

No próximo dia 27 de Outubro, o jornalista Germano Silva vai continuar uma série de passeios à descoberta da cidade do Porto, desta vez subordinado ao tema “Eça de Queirós e o Porto”, cidade onde o escritor frequentou o ensino secundário no Colégio da Lapa, onde casou em 1886 e onde teve os seus principais editores, não só em vida, mas mesmo ao longo do século XX.
No próximo número da Revista de Portugal será publicado um novo artigo sobre os roteiros queirosianos que se vão fazendo em todas as latitudes relacionadas com a vida e obra do escritor.

Cursos, colóquios e centros

História Empresarial

A partir de 16 de Novembro próximo, a Academia Eça de Queirós, grupo de trabalho profissional dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, vai realizar no Solar Condes de Resende um curso livre sobre este tema. Se é certo que sobre História Institucional existem muitas obras publicadas, algumas de grande valia, sobre a História Empresarial elas são muito escassas, sendo na realidade esta área historiográfica muito pouco cultivada pelos profissionais portugueses da História Moderna e Contemporânea. Daí a grande oportunidade deste curso, que decorrerá ao longo de 13 sessões, aos sábados à tarde, entre as 15 e as 17 horas, ao ritmo de duas por mês.
Serão conferencistas os investigadores Ana Cristina Correia de Sousa; Francisco Ribeiro da Silva, J. A. Gonçalves Guimarães, Joel Cleto, José Manuel Tedim, Laura Peixoto, Nuno Resende, Silvestre Lacerda e Susana Moncóvio.
O programa definitivo poderá ser visto em confrariaqueirosiana.blogspot.com
A todos os participantes será entregue no final do Curso um certificado de frequência e um CD com os textos dos professores.
A frequência do Curso implica a inscrição prévia.

XIX Colóquio dos Olivais

O Centro Cultural Eça de Queiroz e outras entidades, vão promover nos dias 25 a 30 de Novembro próximo o seu XIX Colóquio nas Escolas Secundárias Eça de Queirós e António Damásio em Lisboa. Coordenado pelo nosso confrade Fernando Andrade Lemos, no programa participarão ainda, entre outros, os confrades Luís Manuel de Araújo e César Veloso, num programa evocativo, entre muitos outros aspetos, dos 125 anos da publicação de Os Maias.

Centro Mário Cláudio

Foi recentemente inaugurado no lugar de Venade, freguesia de Ferreira, Paredes de Coura, um centro com o nome deste escritor, autor de As Batalhas do Caia, obra inspirada em Eça de Queirós. Foi o mesmo instalado na antiga escola primária, há muito desativada devido à desertificação humana do mundo rural. O centro destina-se a ser «um local de pesquisa sobre literatura portuguesa do século XX» onde estarão presentes, entre outros, os escritores Afonso Ribeiro, pioneiro do neorrealismo e José Rentes de Carvalho, um dos mais internacionais dos escritores portugueses do nosso tempo, para além, obviamente, do próprio patrono, que sazonalmente vive na casa fronteira ao centro agora criado com o apoio da autarquia local e ao qual cedeu o seu arquivo documental.

Confrarias

Propostas da Confraria Queirosiana

Mais duas novas propostas estão a ser equacionadas pela Confraria Queirosiana para apresentar às entidades nacionais, regionais e locais.
A primeira é a criação de uma comissão regional para a evocação da I Grande Guerra, até porque em Vila Nova de Gaia, onde a Confraria tem a sua sede, no Regimento de Artilharia foram formados batalhões para a Flandres e também para Angola e Moçambique, onde morreram muitos mais soldados do que no teatro europeu, muitos deles de fome, doença e abandono por parte das autoridades portuguesas da época; depois porque aqui, no Seminário dos Carvalhos, teve origem o culto de Nossa Senhora das Trincheiras, que seria depois obscurecido pelo de Nossa Senhora de Fátima; finalmente porque a gripe pneumónica, que destruiu milhares de vidas em Portugal e no mundo, foi difundida a partir dos expedicionários das colónias regressados àquele regimento em 1918. Já existe uma comissão militar para a evocação mas, parafraseando Clemenceau «A guerra é demasiado importante para ser entregue apenas a militares».
Uma outra proposta que a Confraria vem trabalhando de há anos a esta parte é a criação de um Centro José Rentes de Carvalho, na casa onde o escritor nasceu e viveu os primeiros quinze anos de vida, no Monte dos Judeus à Beira Rio, colaborando na reabilitação do local e da casa e aí guardando o seu espólio num centro de ligação entre os povos europeus e o mundo, levando este escritor tão incidente na cultura portuguesa e europeia atuais, mormente na Holanda, a partilhar a sua intensa humanidade com os seus conterrâneos gaienses e com todos os cidadãos do mundo que com ele queiram partilhar a alegria de estarmos vivos. Com todos os desgostos que a espécie humana nos dá, e dos quais estamos fartos, ainda não desistimos de criar o céu na terra.

Jantar de Confrarias

No passado dia 18 de Outubro decorreu na Quinta da Boeira em Vila Nova de Gaia um jantar de Confrarias Gastronómicas do Norte do pais promovido pela Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas para promover o seu maior conhecimento mútuo e o alinhamento de estratégias como imprescindível parceiro social no âmbito da Cultura, da Saúde, do Turismo, da Gastronomia e da Enofilia. O evento foi muito participado, estando a Confraria Queirosiana representada pelos confrades José Manuel Tedim, presidente da direção, J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor e Fátima Teixeira.

XI Capítulo da Confraria Queirosiana

No próximo dia 23 de Novembro terá lugar o XI Capítulo da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende com a insigniação de novos confrades de honra e de numero, a apresentação de obras realizadas pelos seus investigadores, o lançamento do numero 10 da Revista de Portugal, para além da assinatura de um protocolo de cooperação com o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a que se seguirá um jantar queirosiano com a atuação musical de confrades queirosianos e que terminará com o habitual Baile das Camélias, este ano com a colaboração do Grupo de Danças de Salão da Associação Recreativa de Canelas.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 62 – Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Eça & Outras


Património dos lugares

Decorreu recentemente o concurso 7 Maravilhas de Gaia, promovido pelo jornal O Gaiense, que veio assim proporcionar uma reflexão pública sobre o património existente na área deste município que, como é sabido, é um dos maiores do país em território, em população e em outros valores, alguns ignorados, outros pouco conhecidos, todos suscetíveis de serem mais divulgados.
Tendo sido o autor destas linhas convidado para integrar o júri formado por sete personalidades de diversas áreas relacionadas com a cultura, a arte, a natureza e o turismo, penso que por ser profissional do Património, o que se segue é apenas uma sua reflexão a convidar ao diálogo sobre o tema desta iniciativa.
 Antes de mais, o regulamento do concurso condicionou o património em análise ao apresentado pelas Juntas de Freguesia, e o que cada uma delas considera que é o “seu”, seja ele propriedade privada, institucional, municipal, regional, nacional e até Património Cultural da Humanidade, tendo sido escolhidos os edifícios e sítios mais visíveis e pouco mais. O sentimento de “pertença” reside aqui no facto de serem aquelas entidades as que representam os cidadãos que votam no território onde se encontram os elementos considerados. Tal aspeto condicionou, em muitos casos negativamente, o conceito que esteve por detrás das escolhas, originando lacunas, só aparentemente incompreensíveis. É pois interessante o interrogarmo-nos sobre qual o conceito de património que têm os autarcas locais e o respetivo executivo ou, em última análise, os seus eleitores, que neste concurso também se pronunciaram sobre o que eles indicaram. Será útil, por exemplo, interrogarmo-nos sobre a candidatura de elementos recentes de duvidoso interesse arquitetónico ou outro, ou ainda sem “curriculum” para serem já julgados como elementos identificadores de uma comunidade. É que o património, para além de uma boa dose de qualidade, tem de ter uma razoável quantidade de memória própria, e não idealizada ou desejada por qualquer pessoa ou grupo. Ainda que muito individualizado, é sempre coletivo, pois é a comunidade em geral que o suporta e nele se revê. Ou não. 
            Foram também apresentados elementos que afetam negativamente a população, como praias fluviais onde todos os anos morre gente, ou que a mantêm num estado de menoridade intelectual, analfabetismo cultural, crendices, patologia mental e social, etc. Será isto património? Se é certo que compete aos patrimoniólogos e aos cidadãos em geral respeitarem essas manifestações e procurarem entendê-las, outra coisa muito diferente é promovê-las como “maravilhas”. A compreensão implica respeito, mas não necessariamente aceitação acéfala, pois a cultura e a ciência não tencionam retroceder aos tempos obscuros da barbárie de que, felizmente, já estamos longe. O património é pois um conceito valorativo e não uma mera constatação de existências.
            Outro aspeto pouco positivo foi a apresentação de elementos que sofreram graves atentados patrimoniais ou em que foram feitas obras “à má fila”, à revelia do que está legislado, do concurso de profissionais competentes e sobretudo com falta de bom senso. Ou a apresentação da candidatura de estações arqueológicas vandalizadas ou ainda pouco estudadas e, de todo, sem programa de valorização enquanto tal, o que aliás também acontece com alguns dos edifícios e monumentos apresentados.
            Foram mesmo propostos edifícios degradados, banalidades, coisas só conhecidas lá na rua. E também monumentos a que se atribuíram classificações erradas ou imaginárias, “tradições” absolutamente recentes como “coisa antiga”, frutos da terra hoje sem qualquer produção local significativa, profissões que já não existem ou que existiram um pouco por toda a parte, e muito disto inicialmente descrito em textos com erros históricos grosseiros, com atribuições não sustentadas pela investigação, falsas ou incompletas descrições, invencionices recentes. Aliás não eram assinados, logo eram “coletivos”, alguns deles fruto de leitura de informação há muito desatualizada, muita dela “disponível na internet”, mas errada.
            Para quem gosta de estatísticas, dos elementos apresentados e escolhidos, no que se refere à sua gestão, 37,5% são da responsabilidade de concordata entre o Estado e a Igreja Católica (9 casos); 33,3% da gestão autárquica municipal (8 casos); 20% de acordos de gestão entre o Estado e a Câmara Municipal (5 casos); 8,3% de gestão associativa local (2 casos) e 4,1% de gestão privada (1 caso), ou seja, do património proposto nenhum está dependente das Juntas de Freguesia e só em dois casos a comunidade local terá responsabilidades na sua gestão.
            No que diz respeito às caraterísticas dos elementos propostos, 37,5% são edifícios religiosos; 16,6 % edifícios ou construções cívicas; 12,5% parques e reservas naturais; 8,3% praias; 8,3% associações musicais; 8,3% estradas antigas; 4,2% sítios arqueológicos e 4,2% comunidades locais.
            Ao júri competiu, condicionado pelas propostas e a partir do curto leque de três possibilidades, escolher um único elemento por cada uma das vinte e quatro freguesias, segundo critérios de qualidade, memória, disponibilidade e universalidade. No seu conjunto não será de admirar a presença do património natural, os parques, as reservas, os vales dos rios Douro, Uíma e Febros, pois este tem sido um dos emblemas de Vila Nova de Gaia de há trinta anos a esta parte, desde a criação do Parque Biológico de Gaia, a que outros se seguiram, bem assim como a valorização das praias marítimas.
            Depois os grandes monumentos de caráter internacional e nacional, como os conventos da Serra do Pilar e de Grijó, a Clínica Heliântia, a Ponte D. Maria Pia, além do que resta do românico regional e uma ou outra preciosidade de outras épocas, como o Castelo de Crestuma, a única estação arqueológica apresentada com estudo sistemático e que é também um notável parque natural.
            Também alguns valores humanos, como uma banda, um rancho folclórico, uma comunidade piscatória que convém conhecer para além dos postais ilustrados.
            Surpreendentemente, ou talvez não, ficaram de fora alguns valores de caráter universal ou muito para além dos horizontes locais. Se é certo que o Parque Biológico de Gaia ou o Solar Condes de Resende, com as suas diversas componentes construídas ou institucionais, são já referências com projeção muito para além da freguesia onde se situam e do próprio município, sendo ao mesmo tempo eles próprios produtores de informação patrimonial, foram inadmissíveis as omissões referentes ao Vinho do Porto, ao Castelo de Gaia ou ao Centro Histórico, “que deu nome a Portugal!”, ou às povoações de Arnelas ou da Granja, mas também à “Escola de Escultura de Gaia”, com estátuas em todo o país, no Brasil e em outras latitudes, aos Mareantes do Rio Douro, associação ribeirinha que se reporta ao século XVII, aos Cernaches, que vivem em Gaia desde o século XV, e a muitas personalidades aqui nascidas, como José Rentes de Carvalho, ou que aqui se criaram, como Almeida Garrett, outros escritores como Eça de Queirós ou Afonso Ribeiro, antigos navegadores como Fernão de Magalhães, cientistas como Adriano de Paiva, o pioneiro da televisão, músicos como Artur Napoleão ou António Pinho Vargas, pedagogos como Diogo Cassels, cineastas como António Reis, pintores como Fernando Azevedo, Guilherme Camarinha e tantos outros, comerciantes como Adriano Ramos Pinto, industriais como o Costa das Devesas, Pimenta da Fonseca, Salvador Caetano, e toda uma plêiade de figuras, geralmente ignoradas ou esquecidas, muito mais importantes do que o anedotário local, embora todas elas relacionadas com várias outras terras, pouco nos importando – e ao mundo também – se têm de ser partilhadas com outras comunidades, outras cidades, outros países, outras realidades, pois é isso que faz a sua verdadeira grandeza e deveria também fazer a grandeza local, se para tal houvesse estaleca.
            Depois algumas instituições centenárias, ou quase, como a Liga Vilanovense das Associações de Socorros Mútuos, a Misericórdia de Gaia, a Associação Comercial e Industrial, as Creches de Santa Marinha, algumas empresas de vinhos que têm preservado o seu património, e até ainda alguma imaterialidade, como o próprio município de Gaia e a sua teima em persistir autónomo ao longo dos tempos. Outro aspeto não considerado foi a diáspora, sobretudo no Brasil.
Este outro património não foi proposto, o que poderá querer dizer que ele será desconhecido dos eleitos que os gaienses têm colocado à frente das suas autarquias desde 1974, quando o regime democrático prometeu respeitar e promover a memória local. Mesmo assim, o património queirosiano esteve em evidência, ao serem considerados como elegíveis o Solar Condes de Resende e a Praia da Granja, tão intimamente ligados à vida de Eça, e a Casa-Museu Teixeira Lopes, onde existe o seu busto feito por Rafael Bordalo Pinheiro e o original da estátua que se ergue em Lisboa no Largo do Barão de Quintela. Em 1906 Edgar Prestage publicou em Londres a tradução inglesa do seu conto O Defunto, sob o título Our Lady of The Pilar, invocação do Mosteiro que haveria de ficar em primeiro lugar neste concurso, que Eça com certeza conheceu, pelo menos de vista, o que não deixa de ser uma interessante coincidência.
Mas, enfim, outras oportunidades haverá e o conceito de património é, por natureza, dinâmico, embora às vezes, como se verifica pelo que atrás se expôs, apenas uma ínfima parte da população saiba da sua existência, ou com ele se identifique, para além do óbvio: «Dir-me-ão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em cada paróquia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça artes: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se contentasse com as artes que já estão criadas. A sua esterilidade assusta-me menos que o seu indiferentismo…» (Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra).
            Quanto ao concurso, às votações do público, a escolha de sete entre as vinte e quatro “Maravilhas”, tratou-se de um jogo, de interesses pois claro, o que em si não tem mal nenhum de maior, e que também nada justificaria que se pretendesse virginal nas intenções. Trata-se apenas de uma escolha em que pesam com certeza muitos outros fatores que nada terão a ver com cultura. Mas o jogo é esse mesmo.
            Com esta iniciativa o património local passou certamente a ter muito mais visibilidade, e pode ser que um dia o público descubra que existe muito outro já estudado e disponível para seu conhecimento e possibilidade de usufruto. É apenas uma questão de se passar dos fait divers para uma maior atenção ao exercício dos profissionais desta área ao serviço da comunidade e que de há anos a esta parte o estudam, divulgam e promovem.

J. A. Gonçalves Guimarães

Solar Condes de Resende – 25 anos

Embora aí tenham decorrido desde 1984 trabalhos de História e de Arqueologia, passaram agora 25 anos sobre a data oficial de abertura ao público do Solar Condes de Resende: a ata do seu Livro de Honra diz o seguinte: «Aos vinte de Setembro de mil novecentos e oitenta e oito, com a presença dos representantes dos órgãos autárquicos, representantes da administração central e local, de instituições científicas e culturais, dos trabalhadores do sector de Ação Cultural e de outros departamentos, é solenemente inaugurado o Solar Condes de Resende como Casa Municipal de Cultura do Município de Vila Nova de Gaia». Seguem-se as assinaturas do presidente da Câmara, Coronel Mário Pinto Simões, vereação e muitas outras personalidades presentes.
Logo no dia seguinte aí decorreu a sessão inaugural do Congresso Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época, organizado pela Universidade do Porto com a colaboração do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia e o apoio da Câmara Municipal e de outras entidades, que trouxeram até aqui os maiores especialistas mundiais em História da Expansão Europeia e dos Descobrimentos.
Desde então aqui tiveram lugar grandes eventos de caráter regional, nacional e internacional nos domínios da História, Arqueologia, Antropologia Cultural, Literatura e Artes ao longo deste quarto de século.

Gala das 7 Maravilhas de Gaia

Embora a título pessoal, vários elementos dos corpos gerentes dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, estiveram presentes na Gala das 7 Maravilhas que decorreu no passado dia 14 de Setembro no Pavilhão Municipal. Para além do júri, integrado por Manuel Filipe, do conselho fiscal, J. A. Gonçalves Guimarães, da direção, e ainda o sócio Nuno Oliveira, no evento estiveram presentes: César Fernando Couto Oliveira e Maria Amélia Traça Machado, da mesa da assembleia geral; José Manuel Alves Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães; Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro, da direção; Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa e Virgília Braga da Costa, do conselho fiscal, e a funcionária Maria de Fátima Teixeira,
De referir ainda que o troféu referente à Capela do Senhor da Pedra foi recebido pelo nosso associado maestro Dr. Ramiro Lopes em representação da Junta de Freguesia de Gulpilhares.
Na assistência e no palco também muitos outros associados queirosianos presentes, desde artistas e escritores até candidatos às eleições autárquicas.

Jornadas Europeias de Património

Conforme anteriormente anunciado, decorreram no passado dia 21 de Setembro as Jornadas Europeias de Património no Solar Condes de Resende, durante as quais foram apresentados os projetos de investigação aqui realizados durante o ano de 2013, quer pelos técnicos superiores da Casa, quer pelos investigadores tarefeiros do protocolo da Confraria com a Gaianima. No início da sessão, a presidente da Junta de Freguesia de Canelas, D. Adelaide Canastro, depositou nas mãos do diretor deste equipamento o troféu atribuído ao Solar no concurso das 7 Maravilhas de Gaia.
A sessão foi presidida pelo Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva, professor catedrático jubilado da Universidade do Porto e membro da Academia Eça de Queirós, ladeado por outros membros da mesma.
Todos os projetos apresentados foram já, ou serão em breve, objeto de publicação.

Castelo de Crestuma

Nos passados dias 22 e 23 de Setembro foram realizados trabalhos complementares das escavações arqueológicas que decorreram em Crestuma no passado mês de Agosto. Assim, no primeiro daqueles dias, voltou a ser posta a descoberto a estrutura do cais com grandes pedras aparelhadas de granito encontrado no ano transato, desta vez revelando a existência de madeiramentos antigos aparelhados, que foram estudados enquanto as águas o permitiram, pois encontram-se soterrados na praia na zona de entre-marés.
No dia 23 foi feita uma ação de prospecção de arqueologia subaquática em frente da muralha ribeirinha do Castelo pela arqueóloga Dr.ª Cândida Simplício, acompanhada pelo corpo de mergulhadores da Companhia de Sapadores Bombeiros de Vila Nova de Gaia e apoio terrestre, tendo durante as operações sido descoberto um fragmento de inscrição romana na margem pela Dr.ª Fátima Teixeira e, submersas no Rio Douro, muitas cantarias de granito, de entre as quais um fuste de coluna, que veio assim mais uma vez confirmar que existiram aqui construções monumentais, depois demolidas e substituídas por construções em madeira.
Entretanto na Junta de Freguesia de Crestuma e no Solar Condes de Resende continua patente ao público a exposição “Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História”, a qual seguirá posteriormente a sua itinerância.

Exposição de Pintura

Entre os dias 13 e 20 de Setembro esteve patente ao público na Junta de Freguesia de Matosinhos uma Exposição de Pintura do Major Simões Duarte composta por “Retratos e Paisagens”, cuja venda reverteu também em favor dos Bombeiros Voluntários de Leixões.

125 anos de Os Maias

Assinalando os 125 da publicação da obra prima de Eça de Queirós, no próximo dia 12 de Outubro será realizada no Solar Condes de Resende uma conferência intitulada “Os Maias vistos pelo seu autor” por J. A. Gonçalves Guimarães. Esta efeméride será igualmente comemorada no XI Capitulo da Confraria Queirosiana que terá aí lugar no próximo dia 23 de Novembro, bem assim como na Revista de Portugal n.º 10 (nova série) lançada nesse mesmo evento.

Cursos do Solar

A partir do próximo mês de Novembro terão início no Solar Condes de Resende os habituais cursos de Inverno promovidos pela Confraria Queirosiana, este ano sobre História Empresarial (ao longo de doze sessões, até Abril de 2014), certificado pelo Ministério da Educação através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente. Os seus professores, como habitualmente, são alguns dos melhores investigadores na matéria, membros da Academia Eça de Queirós.
Entretanto, já na primeira quinta-feira do mês de outubro pelas 18 horas, terá início também no Solar Condes de Resende, o curso livre de Pintura e Expressão Plástica orientado pela Professora Pintora Paula Alves.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 61 – Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013
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 redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

domingo, 25 de agosto de 2013

Eça & Outras


«A prestigiosa estagnação»

Neste ano 125 da publicação de Os Maias, o romance cumpre como que uma maldição sobre o povo português, ao manter-se ainda mais tipicamente certo do que quando foi escrito, pese aí o anacronismo da constatação. No meio das dificuldades gerais, quando se pedem mudanças a sério, tal como no tempo de Eça, o que vamos tendo são imposições tecnocráticas avulsas, que já fizeram a desgraça de vários países ditadas, pelos banqueiros internacionais e pelos seus capos lusitanos, normalmente rapazes nascidos de modesta condição provinciana, que depois de obterem o canudo, rapidamente chegaram a lugares de topo na carreira política, passando pelo parlamento. Os atuais deputados, na sua grande maioria, são licenciados em leis, e as que elaboram e aprovam são de uma clareza e equilíbrio social que assombra o cidadão que tem conviver com elas. Os exemplos abundam no Diário da República e em livros normalmente grossos, onde é possível encontrar para a mesma coisa vários sins e os seus contrários. A tal “diarreia legislativa”, como a definiu um ilustre causídico.
Veja-se, por exemplo, a lei sobre a limitação de mandatos e a jurisprudência que sobre ela vai sendo produzida, não já pela Assembleia da República, como lhe devia ter competido em devido tempo, mas agora pelos tribunais, desde o de comarca até ao constitucional. Todos os interessados, por este ou aquele motivo, jogaram ao faz de conta, quer se trate de velhos democratas instalados, quer de novos candidatos, todos eles no fundo desejando que as indignações a clamar por mudanças não mudem coisa nenhuma, a não ser o pensar-se que não estamos a mudar nada do que quer que seja, uma mudança talhada à imobilidade de cada um. Parece confuso mas não é.
Mas para não pensarem que tenho qualquer preconceito contra a classe jurídica, mesmo quando ela dá deputados, gostaria de informar que tal não é verdade, e mais que, se na realidade é possível descortinar nas profissões dos dias de hoje alguns princípios medievais de casta, nos advogados, nos diplomatas, nos médicos, nos militares, nos estivadores e outras, eu sempre distingo as pessoas, os espíritos ilustrados para além dessas outras condições, quantas vezes talhadas logo à nascença, ou no colégio particular.
Para tal provar permitam-me que lhes ofereça este belo trecho de sábia prosa que fui encontrar na Revista da Confraria Eça-Dagobertiana de Oeiras (Brasil), n.º 2, 2013, página 179, da autoria do meritíssimo juiz Dr. Nazareno César Moreira Reis, que além de juiz federal pertence à Academia de Letras da Confederação Valenciana, cujo título, pedido emprestado, encima esta prosa:
«Haverá sempre uma tentação para avaliar a atualidade da crítica de Eça, não apenas em relação a Portugal, mas também ao Brasil e à sua vida intelectual, política e social. Aqui também os ecos de Fradiques e Pachecos parecem ainda reboar, e quando se discutem temas como Ciência, Educação, Política, Justiça, Economia, não são poucas as ocasiões em que são lembradas as nossas promissoras condições naturais, nossos grandes pensadores, nossos colossos teóricos, nosso futuro auspicioso – que, no entanto, não vingam na prática.
E o marasmo daí decorrente não é percebido como trágico, pois jamais se chega a formar um consenso sério sobre a gravidade do problema; ao contrário, ele é assimilado – nos momentos alegres das pequenas vitórias, por comemorações excessivas de bufonaria; nas pequenas derrotas, pelas portas da zombaria e do escárnio; e, nos momentos de funda tristeza, pela autocomiseração e falsa indignação coletiva – e se replica em mil novas manifestações, num estéril jogo catártico entre a algazarra, o deboche e a lamentação.»
            Nada mais verdadeiro, nada mais exato. E é triste a constatação de que transmitimos pelo ADN esta nossa imutável maneira de ser aos brasileiros e nem a esperança da miscigenação afro e ameríndia terá melhorado o fado. O Brasil, já de antes do tempo de Eça que é para nós portugueses uma esperança, as mais das vezes material, mas, que diabo, também física e mental para a regeneração dos viventes do Quinto Império, se possível antes do século XXIII. Mas escrito assim tão lapidarmente por aquele ilustre cidadão e ainda por cima homem de leis habituado a pesar a debilidade humana e a chicoespertice lusa, tropical ou não, varre-se-me de todo a esperança numa ideia de verdadeira mudança que me entretinha o alento.
É que, como já escreveu Eça em Os Maias «… a política em Portugal também se lançou na corrente realista. [Dantes] a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório…. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro! (Os Maias, p. 579).
Por este andar, o século XIX ainda vai continuar por muito tempo em Portugal. E no Brasil. Os Maias continuarão pois a ser admirados à procura do seu próprio esconjuro. José Rentes de Carvalho fez recentemente o funeral ao Carlos da Maia e ao Ega no seu «O Rio Somos Nós» (Expresso), mas agora teremos de aturar os netos dos caseiros do primeiro que entretanto subiram na política.
Esta prosa também não saiu grande coisa, mas foi o que se pôde arranjar nestes dias de trabalho estival, enquanto o povão se diverte. Felizes os néscios.

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros, Revistas e Jornadas


           Vinda de Oeiras – Piauí, Brasil, acaba de nos chegar às mãos o n.º 2 da Revista da Confraria Eça Dagobertiana, referente a 2013, recheado de notícias das suas atividades, comunicações e colaborações dos seus confrades, a qual, pela mão de Dagoberto Carvalho J.or, «confirma a perenidade da audiência de Eça de Queiroz no Brasil e que resiste incólume à passagem demolidora que o tempo, por vezes, tão injustamente provoca», como na contracapa se cita do prefácio que A. Campos Matos escreveu para Eça de Queiroz e Machado de Assis: o Realismo de cada um, daquele seu incansável divulgador no país irmão.
Entre o relato de encontros, seminários, saraus, lançamentos de livros, comemorações, defesa do património, a revista apresenta estudos sobre Os Maias, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, e ainda artigos sobre o escritor português e seu devoto seguidor e estudioso do Piauí, com a sua bibliografia aqui acrescentada com vários artigos sobre a sua amada Oeiras, assim batizada há 250 anos em homenagem ao Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal, por um seu irmão governador do Grão Pará.



Eça na Tailândia

Em 2011 fez 500 anos que os portugueses chegaram à Tailândia (Rio de Sião). Em 1820 Portugal foi o primeiro país ocidental a instalar aí uma missão diplomática. A 30 de Março passado foi ali lançada, na Galeria Nacional de Banguecoque, a tradução tailandesa de O Mandarim, feita pela Dr.ª Pralom Boonrussamee e revista pelo Dr. Wirat Siriwatananawin.
Entre a centena de convidados podiam ver-se entidades governamentais, corpo diplomático, professores e alunos das universidades de Chulalongkorn e de Tammasat (onde se ensina português) e descendentes de portugueses.
A edição foi patrocinada pelo Instituto Português do Oriente, com sede em Macau, presidido pelo Prof. Dr. António Vasconcelos de Saldanha, que esteve presente nesta cerimónia, bem assim como o Embaixador de Portugal Lima Pimentel, que apresentou uma síntese da biografia de Eça de Queirós como homem, escritor e diplomatas.
 (adaptado de José Martins/Maquiavelices. blogspot.com, 12 de julho 2013.

“ Eça Agora”


Com a publicação de Introdução à leitura d’ Os Maias, da autoria do nosso confrade Carlos Reis, completou-se ontem, dia 24 de Agosto, a oferta pelo jornal Expresso da sua edição comemorativa dos 125 anos deste romance, a qual, para além de mais uma reedição dessa obra em três volumes de bolso, contou com a edição de outros de três com contos de seis escritores atuais, que “prolongaram” aquela obra para além do romance original. Com este sétimo volume final ficam os leitores apetrechados para uma nova releitura deste clássico da Literatura Portuguesa Contemporânea.




Jornadas Europeias de Património

No próximo dia 21 de Setembro decorrerão no Solar Condes de Resende as comemorações destas jornadas, a partir das 15 horas, com a apresentação de vários projetos de investigação que decorrem nesta instituição realizados pelos técnicos superiores da Casa e pelos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana conforme o seguinte programa: Joaquim António Gonçalves Guimarães – “Património Gaiense: um ponto da situação (a propósito do concurso das 7 Maravilhas de Gaia)”; António Manuel Silva – “O Castelo de Crestuma: notícia dos trabalhos de 2013”; António Sérgio dos Santos Pereira – “Acompanhamento arqueológico da Rua Rei Ramiro”; Susana Cristina Gomes Gonçalves Guimarães – “Aprestos e representações equestres da Coleção Marciano Azuaga”; Susana Maria Simões Moncóvio – “Francisco Pinto da Costa (1826-1869), desfiar a memória”; Sílvia Alexandra Monteiro dos Santos – “A indústria do vidro em Vila Nova de Gaia”; Maria de Fátima Teixeira – “Os Pimenta da Fonseca e a Companhia de Fiação de Crestuma”; Licínio Manuel Moreira Santos – “As cooperativas em Vila Nova de Gaia, dos finais de oitocentos ao advento da República”; Eva Cristina Ventura Baptista – “Biografia de Bernardo de Almeida Lucas”; Teresa Campos dos Santos - "Quem foi Paulino Gonçalves ?: Estudo sobre o pintor gaiense (1869-1953)".
Este evento assinala também os 25 anos de abertura do Solar Condes de Resende ao público, que ocorreu a 20 de Setembro de 1988 para acolher o Congresso Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época organizado pela Universidade do Porto com a colaboração do Gabinete de História e Arqueologia e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o qual reuniu então aqui um considerável número de especialistas mundiais em História da Expansão.


Outras

Escavações em Crestuma

Desde o dia 12 de Agosto prosseguem as escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma, as quais decorrerão até ao dia 30, dirigidas pelos arqueólogos Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva, com uma equipa formada por jovens arqueólogos do Gabinete de História, Arqueologia e Património tarefeiros no Solar Condes de Resende e estudantes de arqueologia. Os trabalhos este ano incidem na encosta poente e nos níveis elevados da praia de Favaios. No dia 22 de Setembro, aproveitando a maré, haverá uma nova intervenção no cais romano que se encontra soterrado naquela praia fluvial.
No passado dia 10, junto à entrada do Parque Botânico foi ali inaugurada a exposição itinerante: «Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História», na qual estiveram presentes César Oliveira, presidente da Assembleia Municipal, vários vereadores, Nuno Oliveira, diretor do Parque Biológico, José Ferreira, presidente da Junta de Freguesia de Crestuma e vários convidados, tendo na ocasião os arqueólogos coordenadores do projeto referido os objetivos e os apoios recebidos para a concretização e divulgação do mesmo. A exposição está aberta todos os dias e no próximo dia 21 de Setembro, nas Jornadas Europeias de Património, abrirá ao público no Solar Condes de Resende.

Feira de Gastronomia de Vila do Conde

No passado dia 23 de Agosto abriu ao público a 15.ª edição da Feira de Gastronomia de Vila do Conde, este ano dedicada ao Pão.
Terra queirosiana por excelência, como habitualmente, a Confraria fez-se representar por vários confrades na cerimónia e no jantar de abertura que decorreu no restaurante da Feira.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 60 – Domingo, 25 de Agosto de 2013
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