sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Eça & Outras, sábado, 25 de janeiro de 2014

Da tolerância

Escreveu um dia Eça de Queirós «O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociais é um pobre Adão achatado entre as duas páginas dum código» (A Correspondência de Fradique Mendes). E esta verdade é universal.
Esse código tem vários versões e patamares e é através da observância dos seus princípios, ainda que temporária e aparente, que as multinacionais, as nações, as religiões, os sistemas políticos, os clubes de futebol, os países, as corporações, as instituições, os meus amigos e vizinhos se cumprimentam diariamente e se impedem de se matarem uns aos outros, que motivos para tal não lhes faltam: territórios ocupados onde antes estavam outros a viver a sua vida; destruição da agricultura, da indústria e do comércio locais impondo produtos de duvidosa qualidade e já armadilhados para criarem dependências pagas no consumidor; particularização de um deus para cada nação dito melhor que o da nação ao lado; implantação de sistemas de poder pouco transparentes e contrários aos princípios que apregoam; estratificação social baseada nos privilégios adquiridos e mantidos; imobilismo profissional dos assalariados, desemprego e inação social; problemática distribuição da riqueza e da solidariedade, do alimento quotidiano e do computador; existência de forças militares e policiais sem objetivos claros e definidos; crença infinita e primária na tecnologia e nos media, e tantas coisas mais.
Tudo isto desencadeia angústias e maus humores, zangas, brigas, tumultos, atentados, massacres, invasões, guerras e todo o calvário de desgraças que lhes anda associado desde que o mundo é mundo. E tudo isso escusado.
Sendo Português, por geografia, cultura, circunstância e convicção, trago comigo uma boa dose de mitos de estimação que me confortam o ego, me iluminam a existência e sustentam a minha pequena contribuição para o futuro do mundo e do meu país, dos meus concidadãos, parentes, amigos, mas nunca contra o homo universalis, que seja ele quem for, tem também as suas crenças, por geografias e circunstâncias que em grande parte lhe são alheias, pois quando nasceu já elas existiam, e que não são de modo algum superiores ou inferiores às minhas. São apenas aparentemente diferentes, pois para além da sua casca regional e cultural, são antropologicamente iguais. Por isso a longa história da humanidade tem desenvolvido o mais natural, mas também o mais intelectual sentimento, que é o da tolerância, o grande antídoto internacional contra o sofrimento, que de modo algum se reduz à definição de Locke: «Parar de combater o que não se pode mudar», até porque a mudança é intrínseca ao ser humano.
Mas não é a tolerância uma atitude fácil ou espontânea. Vários outros pensadores tentaram teorizá-la para propor a sua universalidade, mas ela esbarra sempre nos mesmos muros do preconceito: o meu povo é melhor do que o teu; a multinacional X adquiriu direitos que não quer repartir; a minha democracia é mais legítima do que a tua monarquia; a minha religião é mais verdadeira do que a tua crença; a minha guerra é mais justa do que a tua defesa; os da tua tribo são gente de primeira e os da minha (pensarás tu, ainda que em segredo) não passam do rebotalho da humanidade, os bárbaros, os gentios; a minha profissão é mais importante do que a tua; o teu porsche mais aceitável que o meu autocarro; o teu cargo político mais respeitável do que o meu voto. Enfim, achas que só podes viver confortável se puderes determinar o conforto a que os outros têm direito. Tudo isto é intolerância política, económica, cultural, social, em suma, humana.
Na sua aplicação, a tolerância só funciona enquanto a outro está disposto ao diálogo, ou seja, enquanto também está disposto a ser, ainda que temporariamente, tolerante. Mas como a sopa quotidiana e os mais elementares direitos humanos não podem esperar, quantas vezes o contato com o outro é estabelecido à força, tentando forçar o diálogo. Mas tal não é tolerância, e dá um poder extra aos políticos, exércitos e policias que eles irão usar, por muito tempo, em proveito próprio e de quem lhes paga.
Outra armadilha mental pespegada ao cidadão pelos intolerantes é o fazerem-lhe crer que ele carrega direitos ou culpas ancestrais: no primeiro caso isso sanciona situações no mínimo questionáveis; no segundo amolece-lhe o raciocínio para que ache “normal” o permitir que os que falam em nome dos perseguidos de ontem sejam os perseguidores de hoje. Meus senhores e senhoras, ou vice-versa por causa da igualdade do género: eu, e com certeza muitos dos que me leem, nunca atiramos cristãos às feras, nem sequer a seu pedido; nunca perseguimos quaisquer crentes, ateus ou livres-pensadores, judeus, ciganos ou bruxas, ou qualquer indivíduo portador de particularismo biológico, físico, cultural ou social; nunca massacramos ameríndios, africanos, hawaianos ou arménios; não destruímos paisagens naturais ou espécies protegidas; não apoiamos Estaline, Mussolini, Salazar, Franco, Hitler, Pol Pot e outros representantes do povo que fizeram duas guerras mundiais e outras regionais no século passado. Por esses, e outros tenebrosos acontecimentos, não somos nem nunca fomos responsáveis, nem por eles carregamos culpas e muito menos direitos. Mas estamos atentos e intervenientes para que se não repitam no nosso tempo de responsabilidade, ou seja só enquanto formos vivos.
Vamos pois falando de tolerância, cultivando-a sempre que o outro também esteja disposto a praticá-la, pois de outro modo não passará de um diálogo de surdos.
A arrogância dos néscios, daqueles que falam como se fossem imperadores de um império maldito para durar por milénios, mas que na realidade não passam de insuportáveis convictos de uma pretensa superioridade humanamente ofensiva, que fiquem com ela para seu consumo interno e das suas crenças tribais, que nós outros, simples humanos, embora as conheçamos e respeitemos, não queremos partilhar.
E se é certo que no mundo não faltam grandes situações de intolerância, a irmã mais velha da fome e da miséria, também por cá à nossa porta as vamos tendo, na política, na religião, no futebol, na convivência social, quantas vezes perpetradas pelos arrogantes com convicções trazidas da barbárie antiga, que pelo facto de ser antiga não se tornou por isso nem mais respeitável nem mais aceitável. Resta-nos enfrentar este permanente desafio à nossa tolerância continuando a exercê-la todos os dias através do estudo sem preconceitos e do diálogo permanente com todos os outros, mesmo que eles o não queiram, berrando-lhes, se tal for necessário, que o respeito tem de ser mútuo.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor da Confraria

Livros e textos

Através da Parceria A. M. Pereira, A. Campos Matos acaba de publicar um novo livro intitulado “Eça de Queiroz Correspondência (Adenda)” com quinze cartas inéditas do escritor que não constam na sua obra em dois volumes impressa em 2008 com aquele título, atingindo-se agora o número de 913 cartas publicadas, não sendo improvável que ainda algumas outras venham a aparecer. Por outro lado é incompreensível que alguns estudiosos e comentadores de Eça continuem a usar coletâneas epistolares antigas como fonte dos seus trabalhos, quando têm estas edições recentes e completas. Na primeira destas cartas inéditas agora publicadas Eça escreveu «Como V. Ex.ª sabe sempre desejei sair de Portugal…»


Eça de Queirós na Word Press

Encontra-se disponível em queirosiana.wordpress.com o blogue “Eça de Queirós. Investigação, debate e ensino sobre Eça de Queirós”, postado por Carlos Reis, professor catedrático da Universidade de Coimbra e especialista na obra queirosiana e da sua contemporaneidade. Para além de textos e imagens sobre grandes temas relacionados com a vida e obra do escritor, o blogue apresenta texto e fotografia do colóquio "Eça de Queiroz no Contexto da História dos Media” realizado em Roma e Viterbo entre 4 e 6 de Dezembro passado, e que envolveu investigadores das universidades do Minho, de Coimbra e Lisboa, entre eles Carlos Reis, Ana Teresa Peixinho e Mário Vieira de Carvalho. Este blogue dá também destaque à última edição da Revista de Portugal, nova série, editada pela Confraria Queirosiana.

Condecorações

No Solar Condes de Resende estão expostas as insígnias de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, formadas por fita tricolor com a cruz pátea pendente e a placa prateada, acompanhadas do respetivo diploma de concessão, a mesma Ordem recentemente atribuída ao futebolista Ronaldo no grau de Grande Oficial. Aquelas pertencem ao escritor José Rentes de Carvalho e foram-lhe atribuídas a 10 de Junho de 1991 pelo Presidente da República Doutor Mário Soares, pela sua contribuição para a divulgação da Língua e Literatura portuguesas na Holanda e em especial a vida e obra de Eça de Queirós, estando incluídas no seu espólio pessoal à guarda dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria-Queirosiana.
Obviamente que o escritor não ganhou nenhuma bola de ouro, mas o seu pensamento e obra brilham por certo na Cultura Portuguesa Contemporânea da qual, mesmo distante, nunca esteve off side.

Cursos e palestras
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso sobre História Empresarial e Institucional. Assim, no dia 1 de fevereiro J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “ O Grupo Salvador Caetano” e no dia 15 Joel Cleto sobre “A Indústria Conserveira em Matosinhos”.
No dia 20, no ciclo de palestras das quintas-feiras, pelas 21,30, Licínio Santos falará sobre “ As origens do Desporto em Vila Nova de Gaia”, sendo esta última de entrada livre.
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 65 – sábado, 25 de Janeiro de 2014
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013


Quadro queirosiano

Eça de Queirós
por A. Dias Machado, 2013

No mais recente capítulo da Confraria Queirosiana, que decorreu no dia 23 de Novembro passado no Solar Condes de Resende, a Confraria do Abade, de Braga, brindou a primeira com um quadro original da autoria do pintor famalicense A. Dias Machado, com uma figuração de Eça de Queirós inserida no universo da sua própria vida e na das suas personagens, sob o tema ali transcrito «A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação», a frase com que Fradique Mendes resumiu uma discussão filosófica sobre o assunto (A Correspondência de Fradique Mendes).O seu autor, que reside em Riba D’Ave, tem participado e realizado numerosas exposições, encontrando-se presente em várias coleções no país e no estrangeiro, tendo já retratado várias personalidades como Camilo Castelo Branco ou Che Guevara. Nas suas obras distinguem-se um traço e uma cor muito expressivos, pelo que a coleção da Confraria, que se encontra no Solar Condes de Resende, ficou assim muito valorizada com esta representação do seu patrono, a quem o fenómeno artístico não era indiferente, muito antes pelo contrário, motivando-lhe sérias reflexões desde muito novo: «A Arte é a história da alma», escreveu nas Prosas Bárbaras. Ele próprio se dedicou ao desenho, à pintura e à modelação de figuras; se no seu espólio conhecido restam apenas alguns desenhos, os quadros a óleo que seguramente pintou em Paris poderão andar por aí perdidos sem identificação ou terem ido para o fundo do mar, com o seu retrato pintado por Columbano, boa parte dos seus livros, manuscritos e mobiliário, mandados para Portugal após o seu falecimento, num navio fretado pelo governo de então para trazer o espólio do Pavilhão Português na Exposição Universal, mas que naufragou à vista de Lisboa. Felizmente a viúva não pode ou não teve tempo para mandar empacotar todo o recheio de sua casa. Restará na Fazenda do Brejão, Santa Cruz das Palmeiras, São Paulo, Brasil, o pequeno quadro que Eça ofereceu ao seu amigo Eduardo Prado com «três gatos em uma praia, junto a um rochedo, contemplando o por do sol». O próprio Eça tinha em sua casa quadros de D. Carlos, Carlos Reis e Jaime Verde, entre outros, além dos quadros de sua sogra, D. Maria Balbina, Condessa de Resende, por sua vez filha do 1º Visconde de Beire, o primeiro inspetor da Academia Portuense de Belas Artes, que por isso mesmo lhe deve ter propiciado bons professores de desenho e pintura.

Nesta época de intensa democratização dos atos de criação estética, em que, com mais ou menos reconhecimento, todos podemos ser artistas, e em que novas formas de arte se afirmam no nosso quotidiano, grande parte delas, é certo, já nascidas com a doença da efemeridade, ou com uma desesperada falta de substância e de conteúdo louvada por exotéricos vendedores de “banhas da cobra” em grossos volumes de “artes gráficas” ou “design”, benzidos por banqueiros artisticamente ineptos, tão caros quanto inúteis, e cujo destino é forçosamente o caixote do lixo da História, este quadro do pintor A: Dias Machado permanecerá no Solar Condes de Resende como uma bela metáfora sobre o autor de A Relíquia que imediatamente suscitou a admiração dos confrades presentes que junto dele e com ele se fizeram fotografar. Há obras de Arte assim.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor da Confraria

Grande Prémio da Crónica 2013

            A 10 de Dezembro, no auditório da Biblioteca Municipal de Sintra, o escritor José Rentes de Carvalho recebeu em cerimónia pública este prémio pelo seu livro Mazagran, o qual lhe foi outorgado pela Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Sintra, como noticiamos na página anterior. Na ocasião proferiu a seguinte alocação que nos disponibilizou para divulgação neste blogue, endereçada a todos os nossos confrades espalhados por Portugal e Brasil, a qual partilhamos com os leitores do jornal As Artes entre as Letras, protocolado com a Confraria Queirosiana.
«Sintra: agradecimento pelo "Grande Prémio da Crónica – 2013"
Senhor Presidente da Câmara de Sintra, Senhor Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, minhas senhoras, meus senhores:
O dicionário define a timidez como sendo a inibição que se sente em face de situações novas, ou de pessoas que não se conhecem bem, e ainda como uma falta de apreço pelo convívio social. Por certo a timidez é tudo isso, mas, como por vezes acontece com as definições, é também o seu contrário: pode ser fraqueza, e ao mesmo tempo grande força. Evidentemente, como seria de esperar, o que me traz a Sintra é a honra do prémio e o proveito do cheque. Se apenas de mim dependesse, isso seria tratado num gabinete, com apertos de mão e dois dedos de conversa. Mas não depende, de modo que aqui me têm, a grande força da timidez impedindo que deite a fugir, mantendo-me preso ao respeito devido às pessoas e às conveniências. Até certo ponto, a falta de experiência explica a peculiaridade do meu comportamento, pois tendo recebido pela primeira vez um prémio aos nove anos, só aos oitenta e dois me calhou o segundo. Não que me queixe, longe disso, quero apenas tornar claro que, por ignorância da técnica, receber prémios ou ser convidado para dançar, me deixa em aflição igual. Não tive de agradecer o primeiro – um livrinho da Condessa de Ségur, e uma caderneta da Caixa com cinquenta escudos – pois bastou dar um beijo à professora. Para o segundo, o ano passado, na Câmara de Castelo Branco, consegui debitar meia dúzia de palavras de agradecimento e, porque era menos que o mínimo, juntei-lhe uma página de prosa. Agora em Sintra para o terceiro, se bem que ainda não possa aspirar ao estatuto de veterano em prémios, tenho a impressão de que me posso alargar. Fá-lo-ei menos em palavras de gratidão, pois essas estão implícitas no que já disse e no que direi, mas, sobretudo, pelo desejo de lhes poupar o enfado de ouvirem repetir frases feitas e lugares-comuns. Para a verdadeira gratidão as palavras nunca bastam, pois exprimem sempre pouco, ou sempre mal, o que se sente e se pretende dizer. Esperando que compreendam o meu pensar, sofram então que abuse da vossa paciência.
Um amigo quis saber de mim como é que, há mais de meio século a viver no estrangeiro, eu ainda consigo escrever uma prosa razoavelmente escorreita.
Conforme o infeliz hábito que tenho de responder sem pensar, e no tom de quem anuncia um facto irrefutável, declarei-lhe que nunca tinha deixado Portugal.
Por ir contra a evidência, e mostrar algum descaso pela sua curiosidade, gerou isso algum embaraço, e ele, homem cortês, mudou de assunto.
Fosse mais corrente o andamento da vida que tenho levado, seria caso para pôr em dúvida o meu juízo, e legítima a pergunta se em pequeno me deram chá.
Felizmente, era apenas uma questão de retórica. Exagerando, eu intentava dar ênfase ao sentimento que tenho desde que me conheço, o de que a minha língua, a nossa língua, me prende a este chão como uma forte e misteriosa raiz, que se faz sentir onde quer que me encontre.
E todavia, pelo acaso das bizarras circunstâncias do meu viver, o qual me obriga a ser poliglota, nela raro me exprimo ou penso.
Aqui chegados, e tal o amigo de que falei, é provável que comecem a ressentir algum incómodo, talvez mesmo a desconfiar da sanidade mental deste, que ora se diz preso à língua-mãe, e de seguida anuncia que pouco a fala, e só de longe a longe a usa para pensar.
Duvido que o esclarecimento satisfaça, mas acontece que, vivendo rodeado de gente exótica, falando idiomas arrevesados, estabeleci com a língua portuguesa uma relação que, à falta de melhor, chamarei maçónica.
É assim que, quase diariamente, me fecho no meu quarto de trabalho com o único propósito de escrever um texto em português.
Pouco importa o tamanho ou o assunto: pode ser a continuação de um trabalho, um apontamento, uma carta, uma entrada no meu diário.
Não poderei dizer com segurança se, nas horas que aí passo, também é em português que penso. Mas uma certeza tenho: canto. Em surdina, vou cantando o que escrevo.
É evidente que cada frase terá de exprimir algo, fazer sentido, mas só é aprovada quando a melodia se me acomoda ao ouvido.
A família não estranha, mas se alguém por acaso escutasse à porta, talvez se benzesse, supondo-me a fazer encantações.
Assim não é, nem o bruxedo ajudaria. Simplesmente, com medo de perdê-la, de esquecer a sua riqueza vocabular e a sua bela sonoridade, criei com a língua portuguesa esse extravagante ritual.
 Embora menos cordato, tenho ainda outro motivo para, cantando, lhe apurar a afinação: o da impotência de uma raiva que me tomou cedo na adolescência e não consigo esconjurar.
Ortega y Gasset escreveu um dia: "Nunca fui nacionalista; mas sempre fui nacional, e isso significa para mim sentir um entusiasmo sempre renascente para com a vintena de coisas espanholas que estão verdadeiramente bem, e um ódio inextinguível para com o restante que está verdadeiramente mal."
Igual ao filósofo espanhol, se me enterneço com tudo o que Portugal tem de bom, sobe em mim uma fúria desmedida ao confrontar o tanto que na nossa bela e carinhosa pátria está desnecessariamente mal, desleixadamente mal, criminosamente mal.
É por isso que na solidão do meu quarto de trabalho canto em surdina a nossa língua. Para não a perder. Para pacientar. Para resistir à tentação que por vezes me assalta de virar as costas à terra do meu berço, cortar a raiz que a ela me prende, que arrasto e pesa como grilhão de condenado.
Num momento como este é descabido o lamento, de modo que, mais conforme ao uso e às boas maneiras, numa tentativa de exprimir a minha gratidão pelo prémio que me atribuíram, lhes trouxe uma espécie de lembrança.
Nada de estimável, nada que possam levar para casa, apenas um apontamento, no qual, talvez por também ter sido escrito a cantar, se ouve aqui e ali alguma ressonância do fado menor, o outro sangue que nos corre nas veias.
É uma forma de recado à moda antiga. E porque vem de lugares onde o tempo parou e a vida esmorece, pode ser que lhes pareça em língua estranha, falando de coisas, terras e gentes como já não há.
Assim fosse. Assim não é.
Fragas, atalhos e arribas, cotovelos de estrada, searas, desfiladeiros, pomares, solidões. Torvelinhos de água. Dias de festa. Rostos, momentos, becos, janelas de grades, pardieiros, estrume a fumegar, cães de gado.
Tudo esboroa, mingua, some em nevoeiro, não se adivinha com que fim ou distingue para que longe.
Que resta do que pareceu e do que foi? Do que disseram? Do que julguei ouvir?
Juras, gestos, subentendidos, intenções, promessas. Aquele sorriso, aquele abraço, a partida, as voltas, os desencontros e as fugas, o retorno, a perdição.
Menino ainda, actor me criei, a fugir do que para mim avançava, corpos grandes, rostos fechados.
No sangue a intuição de perda, vinda do mais escuro do tempo, sabe Deus que mágoas dos que passaram sem deixar nome ou pegada, iguais aos bichos, como eles apodrecendo em campa rasa, lembrados por um jeito, um remoque, e pronto esquecidos.
Silhuetas apenas, desfilam no contraluz, de espessura e aspecto têm o que lhes empresto na fantasia, e um pouco do que guardei por ter ouvido, desde o começo a querer resgatá-los do esquecimento.
A alguns deles nem sequer conheço, ou sim, provavelmente são os que enterrei fundo no esquecimento, a vala comum dos amores traídos, das amizades findas, das derrotas, das traições e ignomínias a que o viver obriga, mesmo quando tem por norte a decência.
Espectros, pouco importa donde vêm, o que os traz ou significam. Chegam em turbilhão, imagens a desenlear um emaranhado de vivências sem lógica nem cronologia, mistura de retratos e histórias, frases sussurradas por vozes estranhas, de longe a longe uma de tom familiar.
Deitada no chão, pariu-o a mãe em manta de burel, lençol teve só o da mortalha, no esquife dos pobres em que o levaram a enterrar. A vida inteira fez cama na manjedoura, dormindo sobre a palha que depois atirava às burras, e elas, às patadas, ensopariam de bosta e mijo.
Vestimenta de esmola, toda em remendos. Chapéu de feltro, enrijado pelo sebo  de anos. Botas já sem cardas, ganhas faz muito com sete jeiras de monda e dez de vindima, o couro duro a moer pés nus, tormento que findava quando calejavam.
Conchego de amor nunca teve, nem conheceu mulher, de alegrias gozou as mais simples: o remanso da sombra na canícula, um cibo de carne na festa, copinho de aguardente, naco de queijo, talhada de melão.
O seu gólgota começa de madrugada, quando carrega nas burras os sacos de serapilheira, cheios do carvão de choça que a semana inteira andou a fazer.
Cortar lenha para a "sepultura", cova funda de metro e meio, acender o lume, cuidar que arda vagaroso, nem forte nem fraco, de modo que seja muita a brasa, pouca a cinza.
Reza se o céu escurece. Reza para que o vento pare. Reza as graças quando as nuvens passam sem chuva. Olhos no alto. Olhos na fogueira. Frio não sente, nem fome, nem sede, só pensa nas chamas, esperançado de assim as domar.
Ao escurecer, com gestos de semeador, atira-lhes punhados de terra, a que chegue para que não abafem logo e vão morrendo aos poucos.
Padece e teme. Menino ainda, de nada me serviria ouvir-lhe a fala, que por enquanto só tenho olhos, um começo de entendimento, guardo sem saber que o faço, ou para que depois, quase todas as palavras me são novidade.
Imagino. Repito. Volto a imaginar e desfio, alargo, componho, misturo, sem consciência nem saber, colhendo vidas e vozes, cheiros, cores, modos, desesperos.
É estar de fora, ser estranho, e ao mesmo tempo viver em todos eles, misterioso fado que mais tarde me levará a perguntar o sentido da vida, nunca apenas nossa, mas enredada nas que findaram, as que estão, as que se escondem num futuro que talvez nunca chegue.
À noite, agachado no banquinho, corta o centeio. Deita as fatias na água que já ferve, pitada de sal, fio de azeite, quatro batatas. Uma cebola.
Vai-se-lhe o pensamento para a cova da ladeira, onde as brasas devem ter esfriado.
O sono é morte súbita de que irá ressuscitar à cantada do galo, logo em prece para que na fogueira apagada seja muito o carvão.
O dia rompe quando avista a "sepultura", e o palpite é bom. Reza agradecido. Bom é também o carvão de brasas medianas, o que paga melhor, gastam-no as mulheres nos ferros de passar, nas braseiras e nos fogareiros.
Seis sacas encheu, das que guardou do adubo. Carga leve, três em cada besta, que fracas como andam, mal comidas, com mais não aguentariam as doze léguas de ida-e-volta, e o tempo que vai perder nas ruas da vila, pára aqui, pára além, batendo as aldrabas, chamando, rouco de apregoar "Brasas! Quem quer brasas!" Às tantas só pergunta nas casas onde costuma ter freguesia, a meio da tarde vendeu duas sacas, trinta mil réis. Um mal-encarado diz que lhe compra uma se mear o preço. Responde que não pode, e o homem vira-lhe as costas com um "Então guarda-as!"
Apiedada, a viúva deu-lhe uma tigela de caldo e água para as bestas, mas brasas tem de sobra, que no estio pouco gasta. Fora isso, a mercearia agora tem carvão de pedra, que dá bom calor e é mais em conta.
Nunca ouviu falar, nem sabe o que seja, carvão só conhece o que faz com lenha de carrasco, castanho, oliveira e sobreiro. Mas não pergunta. Agradece o caldo, seja pelas almas de quem lá tem, e ela diz, o Senhor te acompanhe.
Quando reparou no que tinha andado, já não se viam as casas nem ladravam os cães, o negrume viera de repente, mas de olhos fechados andaria o caminho que era o do seu único longe.
Quebreira, um ardeúme no peito, a oura a embaraçar-lhe o passo, queixoso de não haver por ali fio de água onde acalmasse a sede, nem porta a que pudesse bater.
Quis sentar-se na borda do caminho, mas a fraqueza pôde mais, e julgando que se endireitava rebolou, caiu de bruços, num derradeiro esforço virou a cara, anojado do pó que se lhe colava à boca. Foi esmorecendo, finou-se em paz, os que de madrugada o encontraram quase tinham passado adiante, julgando que dormia.
Deve ter sido outro, o que trouxeram atravessado na albarda de um jerico que mal aguentava o peso do morto e o do homem que o segurava.
Do que estou certo é tê-lo visto no esquife dos pobres, coberto por um lençol remendado na ourela. Lembro também que as mulheres tinham ido à ladeira em busca de flores, para que ele não fosse a enterrar sem ao menos um raminho.
*   *   *
Senhor Presidente da Câmara de Sintra, Senhor Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, minhas senhoras, meus senhores:
Lendo um texto que, ademais, nada tem a ver com o motivo de estarmos aqui, é possível que fiquem com a ideia de ter eu escolhido o caminho fácil, e me querer escasso em palavras de agradecimento.
Embora, como antes disse, me falte experiência para situações destas, por outro lado pouca dificuldade teria em alinhavar frases de solenidade e sentida gratidão. Pareceu-me, contudo, que se vinha para receber, ficava melhor trazer-lhes algo, mesmo de pouca valia, do que vir com as mãos a abanar.
Bem sei que, ao desviar-me do que suponho ser habitual nestas cerimónias, corri o risco de os aborrecer e, ao exceder-me no roubo de tempo, talvez mesmo de os afligir.
Se assim foi, espero que aceitem as minhas desculpas, e acreditem na sinceridade com que agradeço o prémio que me deram, e a atenção que me dispensaram.

Muito obrigado.
J. Rentes de Carvalho»

Livros

A Década Furiosa

          A 6 de Dezembro, na Galeria Por Amor à Arte no Porto, Beatriz Pacheco Pereira lançou o seu mais recente livro de crónicas, coletânea de cerca de noventa publicadas em diversos jornais entre 2003 e 2013, abordando aspetos sobre aquela cidade e o Norte do país e temas culturais e educacionais, o qual, segundo a autora, poderia chamar-se «Portugal Visto Daqui» e onde escreve sobre «um país absolutamente desequilibrado com a hegemonia total da capital em todas as áreas económicas e culturais, com um Porto cada vez mais pobre e fraco, abandonado pelas empresas, bancos e governo central…».


Capela de Santo António

           
No passado dia 8 de Dezembro comemorou 20 anos de existência a Associação de Amigos dos Pereiros, de que tem sido presidente Alberto Silva Fernandes, com uma sessão na sua sede na aldeia do mesmo nome, no concelho de S. João da Pesqueira, durante a qual foram apresentados os livros “Os Ourives de Pereiros” da autoria do nosso confrade acima referido e já divulgado neste blogue e na Revista de Portugal n.º 10, e um novo livro, intitulado “Capela de Santo António, Pereiros, S. João da Pesqueira”, notável estudo de História da Arte deste pequeno templo seiscentista ali existente, da autoria de Nuno Resende, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que ali o apresentou, em edição daquela associação produzida pelo nosso Gabinete de História, Arqueologia e Património, que ali se fez representar pelo seu coordenador e outros colaboradores.

            Na ocasião foi também lançada numa medalha comemorativa e um postal de Natal, com a reprodução de um presépio barroco existente na referida capela, pretendendo a associação que o livro seja o primeiro de uma série sobre as capelas do concelho elaborada por historiadores profissionais.


Crime de Canelas

           

No dia 21 de Dezembro foi apresentado no Solar Condes de Resende o último livro do nosso associado e membro do Gabinete de História, Arqueologia e Património, Francisco Barbosa da Costa, intitulado “Crime de Canelas – um crime que apaixonou o país”. Sobre o mesmo divulgou o seguinte texto:

«Ocorrido em 1930 e julgado em 1932, este crime, que teve como cenário Canelas (Vila Nova de Gaia), dadas as suas motivações, agentes, contornos e consequências, teve ampla e diversificada repercussão nacional, veiculada por todos os jornais diários do Porto e de Lisboa e de alguns regionais. Creio mesmo que se tivesse acontecido agora abriria os telejornais. A ânsia de obtenção de lucros indevidos, a partir de seguros elevados de uma casa, de carros e de animais, feitos junto de companhias, fez congregar em quadrilha vários indivíduos sem escrúpulos que não tiveram pejo em burlar, assassinar e matar, pelo fogo, um dos membros da quadrilha que, à última hora, ameaçou os seus comparsas de denúncia. Este trabalho foi desenvolvido a partir das notícias dos jornais, tendo o autor sistematizado o texto caracterizando os seus diversos protagonistas, o contexto internacional, nacional e local da época. Os jornalistas “autores” do trabalho fizeram-no com grande qualidade e minúcia que muito facilitaram a sistematização do autor. Desenvolve-se em vários capítulos, designadamente, o prólogo, a inquirição, o julgamento, a sentença e o epílogo, depois do relato de crimes semelhantes praticados pelo principal réu, em Mirandela. Há também a circunstância de ter estado escondido na casa – cenário do crime – o alegado assassino de Sidónio Pais. O trabalho é ilustrado com fotografias dos jornais, dos criminosos, dos juízes, dos investigadores, das testemunhas, da casa e dos carros incendiados» (FBC).
            Na ocasião estiveram presentes, além do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues e outros autarcas, muitos confrades e associados dos ASCR - CQ, tendo na ocasião falado, além do prefaciador, o coordenador do GHAP e diretor do Solar sobre a Imprensa como fonte histórica, terminando o autor do livro, que explanou as razões que o levaram a elaborar esta sua obra.

Cursos, palestras e lições

Lição de Musicologia

           No passado dia 6 de Dezembro proferia a sua Última Lição o Professor Doutor Mário Vieira de Carvalho, Catedrático Jubilado do Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, intitulada «Música, teatro e impasses da esfera pública: um olhar sobre o século XVIII em Portugal». O agora jubilado professor tem também publicada uma notável obra sobre a Música e Eça de Queirós.

História Empresarial e Institucional

            Prossegue no Solar Condes de Resende aos sábados à tarde entre as 15 e as 17 horas, este curso organizado pela Academia Eça de Queirós, tendo já apresentado as suas investigações sobre o tema J. A. Gonçalves Guimarães, Silvestre Lacerda, Ana Cristina Correia de Sousa e Nuno Resende. O primeiro voltará no dia 4 de Janeiro a dissertar sobre “A História da Casa Ramos Pinto: Vinhos e Arte”, a que se segue, no dia 18 de Janeiro, Laura Peixoto sobre “Indústrias de Cerâmica oitocentistas do Porto e Gaia”.

Palestras do Solar

            No próximo dia 23 de Janeiro, quinta-feira, serão retomadas as palestras das quintas-feiras no Solar Condes de Resende às 21,30, com entrada livre, sendo o primeiro palestrante José Manuel Tedim, Professor da Universidade Portucalense, diretor da Academia Eça de Queirós e presidente da direção dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, que dissertará sobre o tema: «O pintor Felix Vallotton e o Movimento Nabis».

Curso de Verão

     No próximo mês de Julho, organizado pelo CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memória» da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em colaboração com o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto e coordenado por Gaspar Martins Pereira, decorrerá o I Curso de Verão sobre «O Vinho do Porto: Memória, Identidade e Recursos», em que serão formadores, entre outros, para além do coordenador, Amândio Barros, António Barros Cardoso, Carlos Brochado de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, que também costumam lecionar nos cursos do Solar, e ainda Pedro Pereira, da equipa de arqueologia do Castelo de Crestuma do GHAP. Para mais informações e inscrições, citcem@letras.up.pt ou gfec@letras.up.pt
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Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 64 – quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; email:queirosiana@gmail.com; www .queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras .blogspot .com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeiros.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013, dia natalício de Eça de Queirós

O braço dado de Eça a Dagoberto

Todos os anos (quase todos os anos) um novo livro de Dagoberto Carvalho J.or vem enriquecer a minha biblioteca onde se alinham já, depois de lidos, doze volumes deste autor eciano que desde, pelo menos, 1980 persegue a História eclesiástica do Piauí (História Episcopal do Piauí, 2.ª edição, revista e aumentada 2011); a História da sua terra amada Oeiras, pelo menos desde 1982 (Passeio a Oeiras, 6.ª edição, 2010); a Arte e Ciência de «andar clinicando», pelo menos desde 1989 (A Obstetrícia no Piauí, que agora dourou com Tempo da Farmácia, 2013); a História da Arte da sua região, pelo menos desde 1990 (A Talha de Retábulos no Piauí, 2.ª edição, 2005, sem esquecer a Arte Sacra Popular e Resistência Cultural, deste mesmo ano), e Eça, muito Eça de leitura, saber e afeto, que lhe chegou logo no berço, pois foi em 1948 que foi fundado no Recife o Club de Amigos de Eça de Queiroz, que daria a atual Sociedade Eça de Queiroz a que preside e que em 2010 deu origem à Confraria Eça-Dagobertiana.
Os seus escritos sobre o escritor poveiro datam, pelo menos, de 1994, quando publica A Cidadela do Espírito. Considerações sobre a Arte Sacra na Obra de Eça de Queiroz, com prefácio de Paulo Cavalcanti e apresentação de Dário de Castro Alves, e cuja segunda edição apareceria revista e ampliada em 2007. Mas já em 2001 reunira uma série de ensaios, conferências, prefácios, artigos e discursos, publicados no glorioso Diário de Pernambuco, onde é cronista há mais de vinte anos, no livro Eça de Queiroz Retratos de Memória, a que se seguem Revolução pela Palavra. Notas sobre Eça de Queiroz e a Geração de 70 (2004); A Boa Mesa de Eça de Queiroz (2008); Eça de Queiroz e Machado de Assis. O Realismo de cada um, com prefácio de A. Campos Matos (2009), D’Eça (Nabuco, Gilberto) e d’outros (com o acrescento dos seus versos Canto da Lembrança e da Província; 2010), a que juntou o presente volume, onde naturalmente o autor de A Relíquia está (sempre) presente.
Não tenho toda a sua obra, mas este conjunto dos seus volumes na minha biblioteca está muito bem enquadrado por prateleiras de outros autores amigos comuns na Confraria Queirosiana, a que Dagoberto Carvalho J.or pertence desde que foi insigniado a 13 de outubro de 2008 no Solar Condes de Resende em Vila Nova de Gaia, como Carlos Reis, analista maior da prosa do autor de Os Maias, Luís Manuel de Araújo, egiptólogo queirosiano; A. Campos Matos, eçófilo, eçógrafo e eçólogo maior, o “Papa eciano”; Mário Vieira de Carvalho, musicólogo e melólogo eciano; J. Rentes de Carvalho que perpetua o mestre na roupagem do século XXI; Ana Margarida Dinis Vieira apaixonada pelo olhar do escritor e das suas personagens, e tantos outros que compõem a minha “queirosiana”, onde encontro os mais variados textos sobre o escritor que a todos nos uniu na tentativa cavalheiresca de tentarmos redimir o mundo através da Arte e do bom gosto, rindo das nossas próprias fraquezas e caricaturando as alheias, as dos reizinhos, reizecos e rainhonas que Eça inexoravelmente despiu nas suas obras enquanto desfilam pela calçada da vida, ainda que atapetada pela passadeira vermelha das conveniências. Depois dos seus magistrais romances, nunca mais o mundo foi o mesmo e se ainda está tão mauzote, tal só se pode justificar pela falta de leitura das suas obras nas Nações Unidas, no FMI, nas cimeiras dos países emergentes.
Tal não acontece no Brasil – está bem de ver pela sua performance – porque aí o escritor é bem lido, bem amado, bem cultivado, lê-se na esplanada, no avião, na universidade, em toda a parte. E para tal muito tem contribuído a ação de homens e mulheres esclarecidos que de há muito se deliciam com uma boa e inteligente gargalhada provocada por essas tiradas de prosa bronzina do autor de Os Maias, tão grande quanto humano, tão cultivador dos valores do espírito, da alma individual e coletiva e deste corpo que Deus nos deu, que as albergam enquanto por cá andamos, enquanto não passamos a outros este nosso breve testemunho de humanidade que cada um transporta com a missão de o enriquecer e passar mais valioso, mais gentil, aos vindouros. Suponho que assim pensava Eça de Queirós. Assim pensa Dagoberto, homem, médico, historiador e escritor desdobrado entre tantos afetos – a Medicina, a Arte, a História, a Literatura, e o Pensamento e, o que é mais, a Família e os Amigos, que nos dá agora um livro novo onde reúne seus escritos sobre as últimas novidades da vida e obra do escritor, que as vai tendo, pois então, mas também sobre as suas personagens e aqueles lugares onde Eça gostaria de ter ido – mormente ao Brasil – mas onde mandou a sua prosa, a sua curiosidade, a sua maneira de ser, o seu humano aceno de afeto, que Dagoberto também materializa nestas crónicas que mantêm este autor presente, vivo e atuante no grande país do Atlântico Sul, que desde António Vieira e, porque não, de D. João VI, faz jus ao sonho de ser o ponto bem central do império da lusa fala e da maneira de ser tão humanamente humana (não tenho mais redundâncias!) que a mesma transmite ao mundo.
Por isso, para mim, estes livros são como que preciosos diários sobre um Eça que anda por aí à conversa em Pernambuco e que Dagoberto vai apresentando, com aquele seu jeito sabedor às gerações que se sucedem. Como tal os tenho e acarinho com grande estima num local de destaque nas minhas estantes.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Capítulo da Confraria Queirosiana

O 168º aniversário de Eça de Queirós foi comemorado no passado sábado, dia 23, no Solar Condes de Resende com a realização do XIº capítulo da Confraria Queirosiana, com o salão nobre da instituição repleto de confrades vindos de vários pontos do país e também com os representantes da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas e das confrarias da Doçaria Conventual de Tentúgal, da Fogaça de Santa Maria da Feira, do Moliceiro da Murtosa, dos Ovos Moles de Aveiro, dos Sabores de Sintra, da Chanfana de Vila Nova de Poiares, do Abade de Braga, Gastronómica e Enófila de Carregal do Sal, e O Rabelo de S. João da Pesqueira. Também presentes representantes da Associação Cultural Amigos de Gaia, Associação de Amizade Portugal – Egito, Centro Cultural Eça de Queiroz de Lisboa, Junta de Freguesia de Canelas, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e jornal O Gaiense.
Presidiu ao ato a mesa composta por César Oliveira, presidente da mesa da assembleia geral; José Manuel Tedim, presidente da direção; J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da Confraria Queirosiana, ladeados pela vereadora Elisa Cidade, em representação de Eduardo Vítor Rodrigues, presidente do município de Vila Nova de Gaia, e Olga Cavaleiro em representação da FPCG.
Foram entronizados confrades de número, como leitores, Sílvia Alexandra Santos, Alcina Santos Silva, Vítor Ferraz e José Ferraz, e louvado César Veloso; como confrades de honra, leitores, Adelaide Canastro, Madalena Carrito e louvados Nuno Oliveira e Manuel de Novaes Cabral.
Neste ato foi lido e assinado o protocolo de cooperação entre a Confraria Queirosiana e o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, enviado pelo seu presidente Dr. António Gomes da Costa. Seguiu-se a apresentação do livro Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte, da autoria de Graça Eça de Queiroz Nicolau de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, produzido pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ, comentado por José Manuel Tedim na sua qualidade de académico de História da Arte, e a Revista de Portugal, n.º 10, pelo seu diretor Luís Manuel de Araújo. A sessão foi abrilhantada por um duo de saxofones do Conservatório de Música de Gaia, tendo a Confraria do Abade brindado a anfitriã com a oferta de um quadro a óleo de temas queirosianos, da autoria do pintor Dias Machado, que divulgaremos na próxima edição, tendo ainda Ricardo Charters d’Azevedo dedicado à biblioteca a sua mais recente obra sobre Leiria no século XIX. De seguida os presentes foram à estátua de Eça no Jardim das Camélias colocar uma coroa de louros.
Seguiu-se o jantar que reuniu uma centena de comensais que tiveram também ocasião de provar vinhos da Sociedade Agrícola Terras do Picoto, S. João da Pesqueira, oferecido pelo confrade Narciso Lopes. Durante o jantar foram entoadas cançonetas de compositores do tempo de Eça de Queirós, e ainda fados de Lisboa e de Coimbra, além do Hino da Confraria, por António Rua, Ilda Castro e Henrique Guedes, acompanhados ao piano por Maria João Ventura, a que se seguiu a atuação do grupo de danças de competição da Associação Recreativa de Canelas, sob a direção da professora Luísa Freitas, tendo sido ainda apresentado um sortido de chocolates queirosianos elaborados e registados por Ilda Castro e que serão em breve comercializados pela Confraria Queirosiana. No final decorreu o habitual Baile das Camélias.

Dia Nacional da Cultura Cientifica

A 24 de Novembro o Parque Biológico de Gaia celebrou este dia, instituído em 1997 para homenagear o nascimento de Rómulo de Carvalho, com um conjunto de palestras no Estuário do Douro, no Parque Botânico do Castelo em Crestuma e no Parque Biológico de Gaia, tendo falado, entre outros, os confrades Gonçalves Guimarães e Nuno Oliveira.

História Empresarial e Institucional

Como anteriormente noticiamos, teve inicio no passado dia 16 de Novembro o curso livre sobre História Empresarial e Institucional que decorrerá até Abril do próximo ano ao ritmo de duas tardes de sábado, entre as 15 e as 17 horas. Nesta primeira sessão foram entregues os certificados de frequência do curso anterior, tendo presidido ao ato o Prof. Doutor José Manuel Tedim, presidente da direção.
A primeira lição sobre “Ambito, objetivos e interesse social, económico e cultural da História Empresarial e Institucional” foi proferida por J. A. Gonçalves Guimarães e a próxima sessão, dia 30 de Novembro, será apresentada por Silvestre Lacerda, diretor do Arquivo Nacional/Torre do Tombo.
Este curso é organizado pela Academia Eça de Queirós e certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente.

Salon d’Automne queirosiano 2013

Abriu ao público no passado dia 16 de Novembro no Solar Condes de Resende a oitava edição deste certame artístico anual que reúne os artistas profissionais e amadores da Confraria que aí apresentam desenho, pintura, cerâmica e escultura, estando este ano representados Abel Barros, Adélio Martins, Alexandre Rufo, Angelina Rodrigues, António Pinto, António Rua, Beatriz Correia, Carolina Calheiros Lobo, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Ilda Gomes, Luísa Tavares, Migó, Natércia Barbosa, Rosário Sousa, Rui Soares e Susana Moncóvio.
Muitas das peças expostas destinam-se à venda a favor da Confraria.

Arqueologia na FLUP

Laura Sousa
No passado dia 15 de Novembro apresentou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a sua dissertação de Mestrado intitulada “A Fábrica de Louça de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista” a nossa associada Laura Sousa, colaboradora do Gabinete de História, Arqueologia e Património como arqueóloga da equipa do Castelo de Crestuma, tendo sido aprovada com a classificação de 20 valores.
Esta tese passa agora a ser uma referência fundamental para a compreensão da produção de faiança em Vila Nova de Gaia e região do Porto.
Ainda na mesma faculdade, no passado dia 21 de novembro, foi realizada uma sessão de homenagem ao arqueólogo Professor Doutor Armando Coelho Ferreira da Silva, entretanto jubilado, um dos fundadores do Gabinete e iniciador da arqueologia científica em Vila Nova de Gaia em 1979, sendo as suas obras referências europeias sobre a Proto-História, Romanização e Cultura Castreja. Esteve presente entre outros, J. A. Gonçalves Guimarães, que falou sobre a sua ação no desenvolvimento da arqueologia gaiense e a fundação daquele gabinete em 1982.
Ao homenageado foi entregue a medalha de ouro da Universidade do Porto em sessão solene presidida pelo reitor.

Escultor gaiense na Amazónia

Neca Machado no Solar
No passado dia 18 de novembro o diretor do Solar Condes de Resende recebeu nesta Casa Municipal de Cultura a investigadora brasileira Neca Machado, vinda diretamente de Amapá para entregar a esta instituição gaiense a sua investigação sobre a vida e obra de António Pereira da Costa, nascido em Valadares, Vila Nova de Gaia, em 1901, o qual embarcou para o Brasil com treze anos, aí se juntando a seu pai que trabalhava na construção civil, tendo ambos restaurado, entre outros edifícios, o Teatro de Manaus. Tendo frequentado a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, partiu depois para a região da Amazónia onde deixou inúmeras obras de escultura e arquitetura.
Após uma visita à igreja de Valadares, onde o escultor terá sido batizado, a referida investigadora fez uma palestra no Solar Condes de Resende, à qual assistiram diversos confrades ligados à Escultura e à História da Arte.

Festa de S. Martinho

Nos dias 9 e 10 de Novembro, como habitualmente, decorreu no Solar Condes de Resende a Feira de S. Martinho, organizada pela Confraria Queirosiana com a colaboração da Junta de Freguesia de Canelas. Estiveram presentes os produtos do Douro e Beira Alta, doçaria tradicional e artesanato urbano.

60 anos do TEP

O Teatro Experimental do Porto, atualmente sediado em Vila Nova de Gaia, completou este ano 60 anos de existência, tendo tal facto sido assinalado com um colóquio organizado pelo Círculo de Cultura Teatral/TEP e pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, que decorreu nesta instituição nos dias 29 e 30 de Outubro passado, durante o qual, entre outros conferencistas, o nosso associado Júlio Gago dissertou sobre «A solidão do corredor de fundo: o TEP e o Teatro em Portugal».
A Confraria Queirosiana dedicou a capa da sua Revista de Portugal a esta efeméride, apresentando o cartaz do espetáculo da adaptação de Os Maias que o TEP tem em cena, exibindo-o em formato gigante na sala do jantar do seu Capítulo, bem assim como os trajos usados pelos atores nesta peça, que será reposta em cena a partir de fevereiro de 2014.

Amigos do Museu Nacional de Arqueologia

Esta associação, tal como os Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana filiada na Federação Portuguesa dos Amigos de Museus de Portugal, que já visitou o Solar Condes de Resende e participa nas viagens ao Egito organizadas pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, nosso vice-presidente, tem agora este professor universitário como seu presidente recentemente eleito. Recordamos que o dossier da instalação definitiva e condigna do Museu Nacional de Arqueologia continua em aberto.

Livros e revistas

Grande Prémio para J. Rentes de Carvalho

O Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (APE), patrocinado pela Câmara Municipal de Sintra, resultante da apreciação de 34 obras a concurso publicadas entre 2011 e 2012, foi atribuído ao escritor J. Rentes Carvalho pelo seu livro Mazagran, publicado pela Quetzal e apresentado pelo responsável por esta página na Biblioteca Municipal de Matosinhos (ver Eça & Outras, IIIª série n.º 50, 25 de Outubro de 2012 e As Artes entre as Letras de 14 de Novembro de 2012.
O escritor é convidado oficial da próxima 15ª edição de Correntes de Escrita que decorrerá em fevereiro na Póvoa de Varzim e que reunirá autores de expressão ibérica na terra onde nasceu Eça de Queirós.

Revista de Portugal

Acaba de ser publicado o n.º 10 da Revista de Portugal, com direção de Luís Manuel de Araújo, tendo como adjuntos J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim. Este número comemorativo dos 125 anos da edição de Os Maias, apresenta artigos de António Manuel Silva «Arqueologia do Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia)» Susana Moncóvio «Francisco Pinto da Costa (1826-1869); desfiar a memória»; Luís Manuel de Araújo «Eça de Queirós e o Egito do backchich»; J. A. Gonçalves Guimarães «Roteiros queirosianos: da biografia à ficção literária»; Anabela Mimoso «Revisitar a Geração Coimbrã à luz do integralismo de José Rebelo Bettencourt»; José Pereira Gonçalves «A juventude e o mar. O projeto Lusito; Maria Alda Tavares Barata Salgueiro «Rentes de Carvalho: o desafio de um narrador na primeira pessoa» e José António Afonso, uma recensão sobre o livro de Violante F. Magalhães Sobressalto e Espanto, a que se segue a bibliografia dos confrades queirosianos e as atividades dos ASCR-CQ em 2012.

De lembrança em lembrança

Entre os dias 14 e 16 de Novembro decorreu em Oeiras, Piauí, o VIII Festival de Cultura de Oeiras, durante o qual o nosso confrade falou sobre o “Museu de Arte Sacra de Oeiras: memória e identidade”, tendo no mesmo certame sido apresentado no Solar das Doze Janelas o seu mais recente livro intitulado “De lembrança em lembrança – Eça de Queirós e outras memórias” pela professora Cassi Neiva, presidente da Confraria Eciana de Oeiras, cujo prefácio tivemos a honra de escrever e que aqui divulgamos no início desta página. Mas as gentilezas do autor para com os seus confrades portugueses não se ficaram por aí, pois para além da dedicatória, e da capa, com a figura de Eça na margem gaiense em frente do Porto, o livro apresenta, para além da omnipresença do escritor que faz a ponte do afeto e da cultura entre os dois povos irmãos, muitas referências aos seus amigos e admiradores “de cá” e “de lá”, ao Solar Condes de Resende, à Confraria Queirosiana, aos Calheiros Lobo que nos fizeram encontrar, a Campos Matos, a J. Rentes de Carvalho, rematando com três memórias históricas, uma delas sobre S. Gonçalo de Amarante, o mesmo santo que em Gaia os mareantes, matulas e barqueiros também celebrarão no próximo mês de Janeiro.

Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte

Nos dias 8, 9 e 10 de Novembro foi lançado em Lisboa o livro “Adriano Ramos Pinto Vinhos & Arte” de Graça Nicolau de Almeida e J. A. Gonçalves Guimarães, primeiro no restaurante 100 Maneiras, depois na FNAC – Chiado e por fim numa prova eno-histórica (assim lhe chamou João Nicolau de Almeida) no Encontro com os Vinhos e Sabores 2013 que decorreu na FIL de Lisboa.
Depois de também ter sido apresentado no Capítulo da Confraria Queirosiana, será lançado no próximo dia 10 na FNAC-Porto (Rua de Santa Catarina) e no dia 11 na própria Casa Ramos Pinto.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 63 – segunda-feira, 25 de novembro de 2013
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