quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Eça & Outras


Património dos lugares

Decorreu recentemente o concurso 7 Maravilhas de Gaia, promovido pelo jornal O Gaiense, que veio assim proporcionar uma reflexão pública sobre o património existente na área deste município que, como é sabido, é um dos maiores do país em território, em população e em outros valores, alguns ignorados, outros pouco conhecidos, todos suscetíveis de serem mais divulgados.
Tendo sido o autor destas linhas convidado para integrar o júri formado por sete personalidades de diversas áreas relacionadas com a cultura, a arte, a natureza e o turismo, penso que por ser profissional do Património, o que se segue é apenas uma sua reflexão a convidar ao diálogo sobre o tema desta iniciativa.
 Antes de mais, o regulamento do concurso condicionou o património em análise ao apresentado pelas Juntas de Freguesia, e o que cada uma delas considera que é o “seu”, seja ele propriedade privada, institucional, municipal, regional, nacional e até Património Cultural da Humanidade, tendo sido escolhidos os edifícios e sítios mais visíveis e pouco mais. O sentimento de “pertença” reside aqui no facto de serem aquelas entidades as que representam os cidadãos que votam no território onde se encontram os elementos considerados. Tal aspeto condicionou, em muitos casos negativamente, o conceito que esteve por detrás das escolhas, originando lacunas, só aparentemente incompreensíveis. É pois interessante o interrogarmo-nos sobre qual o conceito de património que têm os autarcas locais e o respetivo executivo ou, em última análise, os seus eleitores, que neste concurso também se pronunciaram sobre o que eles indicaram. Será útil, por exemplo, interrogarmo-nos sobre a candidatura de elementos recentes de duvidoso interesse arquitetónico ou outro, ou ainda sem “curriculum” para serem já julgados como elementos identificadores de uma comunidade. É que o património, para além de uma boa dose de qualidade, tem de ter uma razoável quantidade de memória própria, e não idealizada ou desejada por qualquer pessoa ou grupo. Ainda que muito individualizado, é sempre coletivo, pois é a comunidade em geral que o suporta e nele se revê. Ou não. 
            Foram também apresentados elementos que afetam negativamente a população, como praias fluviais onde todos os anos morre gente, ou que a mantêm num estado de menoridade intelectual, analfabetismo cultural, crendices, patologia mental e social, etc. Será isto património? Se é certo que compete aos patrimoniólogos e aos cidadãos em geral respeitarem essas manifestações e procurarem entendê-las, outra coisa muito diferente é promovê-las como “maravilhas”. A compreensão implica respeito, mas não necessariamente aceitação acéfala, pois a cultura e a ciência não tencionam retroceder aos tempos obscuros da barbárie de que, felizmente, já estamos longe. O património é pois um conceito valorativo e não uma mera constatação de existências.
            Outro aspeto pouco positivo foi a apresentação de elementos que sofreram graves atentados patrimoniais ou em que foram feitas obras “à má fila”, à revelia do que está legislado, do concurso de profissionais competentes e sobretudo com falta de bom senso. Ou a apresentação da candidatura de estações arqueológicas vandalizadas ou ainda pouco estudadas e, de todo, sem programa de valorização enquanto tal, o que aliás também acontece com alguns dos edifícios e monumentos apresentados.
            Foram mesmo propostos edifícios degradados, banalidades, coisas só conhecidas lá na rua. E também monumentos a que se atribuíram classificações erradas ou imaginárias, “tradições” absolutamente recentes como “coisa antiga”, frutos da terra hoje sem qualquer produção local significativa, profissões que já não existem ou que existiram um pouco por toda a parte, e muito disto inicialmente descrito em textos com erros históricos grosseiros, com atribuições não sustentadas pela investigação, falsas ou incompletas descrições, invencionices recentes. Aliás não eram assinados, logo eram “coletivos”, alguns deles fruto de leitura de informação há muito desatualizada, muita dela “disponível na internet”, mas errada.
            Para quem gosta de estatísticas, dos elementos apresentados e escolhidos, no que se refere à sua gestão, 37,5% são da responsabilidade de concordata entre o Estado e a Igreja Católica (9 casos); 33,3% da gestão autárquica municipal (8 casos); 20% de acordos de gestão entre o Estado e a Câmara Municipal (5 casos); 8,3% de gestão associativa local (2 casos) e 4,1% de gestão privada (1 caso), ou seja, do património proposto nenhum está dependente das Juntas de Freguesia e só em dois casos a comunidade local terá responsabilidades na sua gestão.
            No que diz respeito às caraterísticas dos elementos propostos, 37,5% são edifícios religiosos; 16,6 % edifícios ou construções cívicas; 12,5% parques e reservas naturais; 8,3% praias; 8,3% associações musicais; 8,3% estradas antigas; 4,2% sítios arqueológicos e 4,2% comunidades locais.
            Ao júri competiu, condicionado pelas propostas e a partir do curto leque de três possibilidades, escolher um único elemento por cada uma das vinte e quatro freguesias, segundo critérios de qualidade, memória, disponibilidade e universalidade. No seu conjunto não será de admirar a presença do património natural, os parques, as reservas, os vales dos rios Douro, Uíma e Febros, pois este tem sido um dos emblemas de Vila Nova de Gaia de há trinta anos a esta parte, desde a criação do Parque Biológico de Gaia, a que outros se seguiram, bem assim como a valorização das praias marítimas.
            Depois os grandes monumentos de caráter internacional e nacional, como os conventos da Serra do Pilar e de Grijó, a Clínica Heliântia, a Ponte D. Maria Pia, além do que resta do românico regional e uma ou outra preciosidade de outras épocas, como o Castelo de Crestuma, a única estação arqueológica apresentada com estudo sistemático e que é também um notável parque natural.
            Também alguns valores humanos, como uma banda, um rancho folclórico, uma comunidade piscatória que convém conhecer para além dos postais ilustrados.
            Surpreendentemente, ou talvez não, ficaram de fora alguns valores de caráter universal ou muito para além dos horizontes locais. Se é certo que o Parque Biológico de Gaia ou o Solar Condes de Resende, com as suas diversas componentes construídas ou institucionais, são já referências com projeção muito para além da freguesia onde se situam e do próprio município, sendo ao mesmo tempo eles próprios produtores de informação patrimonial, foram inadmissíveis as omissões referentes ao Vinho do Porto, ao Castelo de Gaia ou ao Centro Histórico, “que deu nome a Portugal!”, ou às povoações de Arnelas ou da Granja, mas também à “Escola de Escultura de Gaia”, com estátuas em todo o país, no Brasil e em outras latitudes, aos Mareantes do Rio Douro, associação ribeirinha que se reporta ao século XVII, aos Cernaches, que vivem em Gaia desde o século XV, e a muitas personalidades aqui nascidas, como José Rentes de Carvalho, ou que aqui se criaram, como Almeida Garrett, outros escritores como Eça de Queirós ou Afonso Ribeiro, antigos navegadores como Fernão de Magalhães, cientistas como Adriano de Paiva, o pioneiro da televisão, músicos como Artur Napoleão ou António Pinho Vargas, pedagogos como Diogo Cassels, cineastas como António Reis, pintores como Fernando Azevedo, Guilherme Camarinha e tantos outros, comerciantes como Adriano Ramos Pinto, industriais como o Costa das Devesas, Pimenta da Fonseca, Salvador Caetano, e toda uma plêiade de figuras, geralmente ignoradas ou esquecidas, muito mais importantes do que o anedotário local, embora todas elas relacionadas com várias outras terras, pouco nos importando – e ao mundo também – se têm de ser partilhadas com outras comunidades, outras cidades, outros países, outras realidades, pois é isso que faz a sua verdadeira grandeza e deveria também fazer a grandeza local, se para tal houvesse estaleca.
            Depois algumas instituições centenárias, ou quase, como a Liga Vilanovense das Associações de Socorros Mútuos, a Misericórdia de Gaia, a Associação Comercial e Industrial, as Creches de Santa Marinha, algumas empresas de vinhos que têm preservado o seu património, e até ainda alguma imaterialidade, como o próprio município de Gaia e a sua teima em persistir autónomo ao longo dos tempos. Outro aspeto não considerado foi a diáspora, sobretudo no Brasil.
Este outro património não foi proposto, o que poderá querer dizer que ele será desconhecido dos eleitos que os gaienses têm colocado à frente das suas autarquias desde 1974, quando o regime democrático prometeu respeitar e promover a memória local. Mesmo assim, o património queirosiano esteve em evidência, ao serem considerados como elegíveis o Solar Condes de Resende e a Praia da Granja, tão intimamente ligados à vida de Eça, e a Casa-Museu Teixeira Lopes, onde existe o seu busto feito por Rafael Bordalo Pinheiro e o original da estátua que se ergue em Lisboa no Largo do Barão de Quintela. Em 1906 Edgar Prestage publicou em Londres a tradução inglesa do seu conto O Defunto, sob o título Our Lady of The Pilar, invocação do Mosteiro que haveria de ficar em primeiro lugar neste concurso, que Eça com certeza conheceu, pelo menos de vista, o que não deixa de ser uma interessante coincidência.
Mas, enfim, outras oportunidades haverá e o conceito de património é, por natureza, dinâmico, embora às vezes, como se verifica pelo que atrás se expôs, apenas uma ínfima parte da população saiba da sua existência, ou com ele se identifique, para além do óbvio: «Dir-me-ão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em cada paróquia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça artes: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se contentasse com as artes que já estão criadas. A sua esterilidade assusta-me menos que o seu indiferentismo…» (Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra).
            Quanto ao concurso, às votações do público, a escolha de sete entre as vinte e quatro “Maravilhas”, tratou-se de um jogo, de interesses pois claro, o que em si não tem mal nenhum de maior, e que também nada justificaria que se pretendesse virginal nas intenções. Trata-se apenas de uma escolha em que pesam com certeza muitos outros fatores que nada terão a ver com cultura. Mas o jogo é esse mesmo.
            Com esta iniciativa o património local passou certamente a ter muito mais visibilidade, e pode ser que um dia o público descubra que existe muito outro já estudado e disponível para seu conhecimento e possibilidade de usufruto. É apenas uma questão de se passar dos fait divers para uma maior atenção ao exercício dos profissionais desta área ao serviço da comunidade e que de há anos a esta parte o estudam, divulgam e promovem.

J. A. Gonçalves Guimarães

Solar Condes de Resende – 25 anos

Embora aí tenham decorrido desde 1984 trabalhos de História e de Arqueologia, passaram agora 25 anos sobre a data oficial de abertura ao público do Solar Condes de Resende: a ata do seu Livro de Honra diz o seguinte: «Aos vinte de Setembro de mil novecentos e oitenta e oito, com a presença dos representantes dos órgãos autárquicos, representantes da administração central e local, de instituições científicas e culturais, dos trabalhadores do sector de Ação Cultural e de outros departamentos, é solenemente inaugurado o Solar Condes de Resende como Casa Municipal de Cultura do Município de Vila Nova de Gaia». Seguem-se as assinaturas do presidente da Câmara, Coronel Mário Pinto Simões, vereação e muitas outras personalidades presentes.
Logo no dia seguinte aí decorreu a sessão inaugural do Congresso Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época, organizado pela Universidade do Porto com a colaboração do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia e o apoio da Câmara Municipal e de outras entidades, que trouxeram até aqui os maiores especialistas mundiais em História da Expansão Europeia e dos Descobrimentos.
Desde então aqui tiveram lugar grandes eventos de caráter regional, nacional e internacional nos domínios da História, Arqueologia, Antropologia Cultural, Literatura e Artes ao longo deste quarto de século.

Gala das 7 Maravilhas de Gaia

Embora a título pessoal, vários elementos dos corpos gerentes dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, estiveram presentes na Gala das 7 Maravilhas que decorreu no passado dia 14 de Setembro no Pavilhão Municipal. Para além do júri, integrado por Manuel Filipe, do conselho fiscal, J. A. Gonçalves Guimarães, da direção, e ainda o sócio Nuno Oliveira, no evento estiveram presentes: César Fernando Couto Oliveira e Maria Amélia Traça Machado, da mesa da assembleia geral; José Manuel Alves Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães; Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro, da direção; Manuel Filipe Tavares Dias de Sousa e Virgília Braga da Costa, do conselho fiscal, e a funcionária Maria de Fátima Teixeira,
De referir ainda que o troféu referente à Capela do Senhor da Pedra foi recebido pelo nosso associado maestro Dr. Ramiro Lopes em representação da Junta de Freguesia de Gulpilhares.
Na assistência e no palco também muitos outros associados queirosianos presentes, desde artistas e escritores até candidatos às eleições autárquicas.

Jornadas Europeias de Património

Conforme anteriormente anunciado, decorreram no passado dia 21 de Setembro as Jornadas Europeias de Património no Solar Condes de Resende, durante as quais foram apresentados os projetos de investigação aqui realizados durante o ano de 2013, quer pelos técnicos superiores da Casa, quer pelos investigadores tarefeiros do protocolo da Confraria com a Gaianima. No início da sessão, a presidente da Junta de Freguesia de Canelas, D. Adelaide Canastro, depositou nas mãos do diretor deste equipamento o troféu atribuído ao Solar no concurso das 7 Maravilhas de Gaia.
A sessão foi presidida pelo Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva, professor catedrático jubilado da Universidade do Porto e membro da Academia Eça de Queirós, ladeado por outros membros da mesma.
Todos os projetos apresentados foram já, ou serão em breve, objeto de publicação.

Castelo de Crestuma

Nos passados dias 22 e 23 de Setembro foram realizados trabalhos complementares das escavações arqueológicas que decorreram em Crestuma no passado mês de Agosto. Assim, no primeiro daqueles dias, voltou a ser posta a descoberto a estrutura do cais com grandes pedras aparelhadas de granito encontrado no ano transato, desta vez revelando a existência de madeiramentos antigos aparelhados, que foram estudados enquanto as águas o permitiram, pois encontram-se soterrados na praia na zona de entre-marés.
No dia 23 foi feita uma ação de prospecção de arqueologia subaquática em frente da muralha ribeirinha do Castelo pela arqueóloga Dr.ª Cândida Simplício, acompanhada pelo corpo de mergulhadores da Companhia de Sapadores Bombeiros de Vila Nova de Gaia e apoio terrestre, tendo durante as operações sido descoberto um fragmento de inscrição romana na margem pela Dr.ª Fátima Teixeira e, submersas no Rio Douro, muitas cantarias de granito, de entre as quais um fuste de coluna, que veio assim mais uma vez confirmar que existiram aqui construções monumentais, depois demolidas e substituídas por construções em madeira.
Entretanto na Junta de Freguesia de Crestuma e no Solar Condes de Resende continua patente ao público a exposição “Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História”, a qual seguirá posteriormente a sua itinerância.

Exposição de Pintura

Entre os dias 13 e 20 de Setembro esteve patente ao público na Junta de Freguesia de Matosinhos uma Exposição de Pintura do Major Simões Duarte composta por “Retratos e Paisagens”, cuja venda reverteu também em favor dos Bombeiros Voluntários de Leixões.

125 anos de Os Maias

Assinalando os 125 da publicação da obra prima de Eça de Queirós, no próximo dia 12 de Outubro será realizada no Solar Condes de Resende uma conferência intitulada “Os Maias vistos pelo seu autor” por J. A. Gonçalves Guimarães. Esta efeméride será igualmente comemorada no XI Capitulo da Confraria Queirosiana que terá aí lugar no próximo dia 23 de Novembro, bem assim como na Revista de Portugal n.º 10 (nova série) lançada nesse mesmo evento.

Cursos do Solar

A partir do próximo mês de Novembro terão início no Solar Condes de Resende os habituais cursos de Inverno promovidos pela Confraria Queirosiana, este ano sobre História Empresarial (ao longo de doze sessões, até Abril de 2014), certificado pelo Ministério da Educação através do Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente. Os seus professores, como habitualmente, são alguns dos melhores investigadores na matéria, membros da Academia Eça de Queirós.
Entretanto, já na primeira quinta-feira do mês de outubro pelas 18 horas, terá início também no Solar Condes de Resende, o curso livre de Pintura e Expressão Plástica orientado pela Professora Pintora Paula Alves.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 61 – Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154 IBAN: PT50001800005536505900154; Email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeiros.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638);
 redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

domingo, 25 de agosto de 2013

Eça & Outras


«A prestigiosa estagnação»

Neste ano 125 da publicação de Os Maias, o romance cumpre como que uma maldição sobre o povo português, ao manter-se ainda mais tipicamente certo do que quando foi escrito, pese aí o anacronismo da constatação. No meio das dificuldades gerais, quando se pedem mudanças a sério, tal como no tempo de Eça, o que vamos tendo são imposições tecnocráticas avulsas, que já fizeram a desgraça de vários países ditadas, pelos banqueiros internacionais e pelos seus capos lusitanos, normalmente rapazes nascidos de modesta condição provinciana, que depois de obterem o canudo, rapidamente chegaram a lugares de topo na carreira política, passando pelo parlamento. Os atuais deputados, na sua grande maioria, são licenciados em leis, e as que elaboram e aprovam são de uma clareza e equilíbrio social que assombra o cidadão que tem conviver com elas. Os exemplos abundam no Diário da República e em livros normalmente grossos, onde é possível encontrar para a mesma coisa vários sins e os seus contrários. A tal “diarreia legislativa”, como a definiu um ilustre causídico.
Veja-se, por exemplo, a lei sobre a limitação de mandatos e a jurisprudência que sobre ela vai sendo produzida, não já pela Assembleia da República, como lhe devia ter competido em devido tempo, mas agora pelos tribunais, desde o de comarca até ao constitucional. Todos os interessados, por este ou aquele motivo, jogaram ao faz de conta, quer se trate de velhos democratas instalados, quer de novos candidatos, todos eles no fundo desejando que as indignações a clamar por mudanças não mudem coisa nenhuma, a não ser o pensar-se que não estamos a mudar nada do que quer que seja, uma mudança talhada à imobilidade de cada um. Parece confuso mas não é.
Mas para não pensarem que tenho qualquer preconceito contra a classe jurídica, mesmo quando ela dá deputados, gostaria de informar que tal não é verdade, e mais que, se na realidade é possível descortinar nas profissões dos dias de hoje alguns princípios medievais de casta, nos advogados, nos diplomatas, nos médicos, nos militares, nos estivadores e outras, eu sempre distingo as pessoas, os espíritos ilustrados para além dessas outras condições, quantas vezes talhadas logo à nascença, ou no colégio particular.
Para tal provar permitam-me que lhes ofereça este belo trecho de sábia prosa que fui encontrar na Revista da Confraria Eça-Dagobertiana de Oeiras (Brasil), n.º 2, 2013, página 179, da autoria do meritíssimo juiz Dr. Nazareno César Moreira Reis, que além de juiz federal pertence à Academia de Letras da Confederação Valenciana, cujo título, pedido emprestado, encima esta prosa:
«Haverá sempre uma tentação para avaliar a atualidade da crítica de Eça, não apenas em relação a Portugal, mas também ao Brasil e à sua vida intelectual, política e social. Aqui também os ecos de Fradiques e Pachecos parecem ainda reboar, e quando se discutem temas como Ciência, Educação, Política, Justiça, Economia, não são poucas as ocasiões em que são lembradas as nossas promissoras condições naturais, nossos grandes pensadores, nossos colossos teóricos, nosso futuro auspicioso – que, no entanto, não vingam na prática.
E o marasmo daí decorrente não é percebido como trágico, pois jamais se chega a formar um consenso sério sobre a gravidade do problema; ao contrário, ele é assimilado – nos momentos alegres das pequenas vitórias, por comemorações excessivas de bufonaria; nas pequenas derrotas, pelas portas da zombaria e do escárnio; e, nos momentos de funda tristeza, pela autocomiseração e falsa indignação coletiva – e se replica em mil novas manifestações, num estéril jogo catártico entre a algazarra, o deboche e a lamentação.»
            Nada mais verdadeiro, nada mais exato. E é triste a constatação de que transmitimos pelo ADN esta nossa imutável maneira de ser aos brasileiros e nem a esperança da miscigenação afro e ameríndia terá melhorado o fado. O Brasil, já de antes do tempo de Eça que é para nós portugueses uma esperança, as mais das vezes material, mas, que diabo, também física e mental para a regeneração dos viventes do Quinto Império, se possível antes do século XXIII. Mas escrito assim tão lapidarmente por aquele ilustre cidadão e ainda por cima homem de leis habituado a pesar a debilidade humana e a chicoespertice lusa, tropical ou não, varre-se-me de todo a esperança numa ideia de verdadeira mudança que me entretinha o alento.
É que, como já escreveu Eça em Os Maias «… a política em Portugal também se lançou na corrente realista. [Dantes] a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório…. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro! (Os Maias, p. 579).
Por este andar, o século XIX ainda vai continuar por muito tempo em Portugal. E no Brasil. Os Maias continuarão pois a ser admirados à procura do seu próprio esconjuro. José Rentes de Carvalho fez recentemente o funeral ao Carlos da Maia e ao Ega no seu «O Rio Somos Nós» (Expresso), mas agora teremos de aturar os netos dos caseiros do primeiro que entretanto subiram na política.
Esta prosa também não saiu grande coisa, mas foi o que se pôde arranjar nestes dias de trabalho estival, enquanto o povão se diverte. Felizes os néscios.

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros, Revistas e Jornadas


           Vinda de Oeiras – Piauí, Brasil, acaba de nos chegar às mãos o n.º 2 da Revista da Confraria Eça Dagobertiana, referente a 2013, recheado de notícias das suas atividades, comunicações e colaborações dos seus confrades, a qual, pela mão de Dagoberto Carvalho J.or, «confirma a perenidade da audiência de Eça de Queiroz no Brasil e que resiste incólume à passagem demolidora que o tempo, por vezes, tão injustamente provoca», como na contracapa se cita do prefácio que A. Campos Matos escreveu para Eça de Queiroz e Machado de Assis: o Realismo de cada um, daquele seu incansável divulgador no país irmão.
Entre o relato de encontros, seminários, saraus, lançamentos de livros, comemorações, defesa do património, a revista apresenta estudos sobre Os Maias, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, e ainda artigos sobre o escritor português e seu devoto seguidor e estudioso do Piauí, com a sua bibliografia aqui acrescentada com vários artigos sobre a sua amada Oeiras, assim batizada há 250 anos em homenagem ao Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal, por um seu irmão governador do Grão Pará.



Eça na Tailândia

Em 2011 fez 500 anos que os portugueses chegaram à Tailândia (Rio de Sião). Em 1820 Portugal foi o primeiro país ocidental a instalar aí uma missão diplomática. A 30 de Março passado foi ali lançada, na Galeria Nacional de Banguecoque, a tradução tailandesa de O Mandarim, feita pela Dr.ª Pralom Boonrussamee e revista pelo Dr. Wirat Siriwatananawin.
Entre a centena de convidados podiam ver-se entidades governamentais, corpo diplomático, professores e alunos das universidades de Chulalongkorn e de Tammasat (onde se ensina português) e descendentes de portugueses.
A edição foi patrocinada pelo Instituto Português do Oriente, com sede em Macau, presidido pelo Prof. Dr. António Vasconcelos de Saldanha, que esteve presente nesta cerimónia, bem assim como o Embaixador de Portugal Lima Pimentel, que apresentou uma síntese da biografia de Eça de Queirós como homem, escritor e diplomatas.
 (adaptado de José Martins/Maquiavelices. blogspot.com, 12 de julho 2013.

“ Eça Agora”


Com a publicação de Introdução à leitura d’ Os Maias, da autoria do nosso confrade Carlos Reis, completou-se ontem, dia 24 de Agosto, a oferta pelo jornal Expresso da sua edição comemorativa dos 125 anos deste romance, a qual, para além de mais uma reedição dessa obra em três volumes de bolso, contou com a edição de outros de três com contos de seis escritores atuais, que “prolongaram” aquela obra para além do romance original. Com este sétimo volume final ficam os leitores apetrechados para uma nova releitura deste clássico da Literatura Portuguesa Contemporânea.




Jornadas Europeias de Património

No próximo dia 21 de Setembro decorrerão no Solar Condes de Resende as comemorações destas jornadas, a partir das 15 horas, com a apresentação de vários projetos de investigação que decorrem nesta instituição realizados pelos técnicos superiores da Casa e pelos investigadores do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana conforme o seguinte programa: Joaquim António Gonçalves Guimarães – “Património Gaiense: um ponto da situação (a propósito do concurso das 7 Maravilhas de Gaia)”; António Manuel Silva – “O Castelo de Crestuma: notícia dos trabalhos de 2013”; António Sérgio dos Santos Pereira – “Acompanhamento arqueológico da Rua Rei Ramiro”; Susana Cristina Gomes Gonçalves Guimarães – “Aprestos e representações equestres da Coleção Marciano Azuaga”; Susana Maria Simões Moncóvio – “Francisco Pinto da Costa (1826-1869), desfiar a memória”; Sílvia Alexandra Monteiro dos Santos – “A indústria do vidro em Vila Nova de Gaia”; Maria de Fátima Teixeira – “Os Pimenta da Fonseca e a Companhia de Fiação de Crestuma”; Licínio Manuel Moreira Santos – “As cooperativas em Vila Nova de Gaia, dos finais de oitocentos ao advento da República”; Eva Cristina Ventura Baptista – “Biografia de Bernardo de Almeida Lucas”; Teresa Campos dos Santos - "Quem foi Paulino Gonçalves ?: Estudo sobre o pintor gaiense (1869-1953)".
Este evento assinala também os 25 anos de abertura do Solar Condes de Resende ao público, que ocorreu a 20 de Setembro de 1988 para acolher o Congresso Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época organizado pela Universidade do Porto com a colaboração do Gabinete de História e Arqueologia e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o qual reuniu então aqui um considerável número de especialistas mundiais em História da Expansão.


Outras

Escavações em Crestuma

Desde o dia 12 de Agosto prosseguem as escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma, as quais decorrerão até ao dia 30, dirigidas pelos arqueólogos Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva, com uma equipa formada por jovens arqueólogos do Gabinete de História, Arqueologia e Património tarefeiros no Solar Condes de Resende e estudantes de arqueologia. Os trabalhos este ano incidem na encosta poente e nos níveis elevados da praia de Favaios. No dia 22 de Setembro, aproveitando a maré, haverá uma nova intervenção no cais romano que se encontra soterrado naquela praia fluvial.
No passado dia 10, junto à entrada do Parque Botânico foi ali inaugurada a exposição itinerante: «Castelo de Crestuma: a Arqueologia em busca da História», na qual estiveram presentes César Oliveira, presidente da Assembleia Municipal, vários vereadores, Nuno Oliveira, diretor do Parque Biológico, José Ferreira, presidente da Junta de Freguesia de Crestuma e vários convidados, tendo na ocasião os arqueólogos coordenadores do projeto referido os objetivos e os apoios recebidos para a concretização e divulgação do mesmo. A exposição está aberta todos os dias e no próximo dia 21 de Setembro, nas Jornadas Europeias de Património, abrirá ao público no Solar Condes de Resende.

Feira de Gastronomia de Vila do Conde

No passado dia 23 de Agosto abriu ao público a 15.ª edição da Feira de Gastronomia de Vila do Conde, este ano dedicada ao Pão.
Terra queirosiana por excelência, como habitualmente, a Confraria fez-se representar por vários confrades na cerimónia e no jantar de abertura que decorreu no restaurante da Feira.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 60 – Domingo, 25 de Agosto de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154

IBAN: PT50001800005536505900154; Email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeirós.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho J.or.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Eça & Outra

Viaje com Eça

Não sei se você, meu caro leitor, ainda é um daqueles felizardos que, além de não trabalhar um mês por ano, vulgarmente conhecido por “estar de férias” ou “ir de férias”, durante o qual continua a ganhar o que a sua empresa ou o Estado lhe pagam e ainda lhe acrescentam uma remuneração idêntica chamada “subsídio de férias”. Na prática recebe dois meses de salário fazendo nada durante um mês para quem lhe paga a dobrar. Esta “bondade” social já o devia ter incomodado, levado a refletir sobre o seu porquê e, no mínimo, já deveria ter desconfiado da aparente passividade da sua existência, da sociedade em que temos vivido dar este facto como adquirido, de os sindicalistas (e os usufrutuários) o considerarem um “direito” e de o mesmo ser extensivo a muitos daqueles que já nada produzem ou asseguram. Temos ainda outra bizarria social no chamado “subsídio de Natal”, um bónus que lhe dão em nome do Menino Jesus ter nascido em Belém há dois mil anos, o que também já o deveria ter levado a desconfiar da sua “justificação”. Mas este não vem agora ao caso. Se ainda recebe ambos e apenas não trabalha por ano durante um mês, então parabéns e considere-se um felizardo. Pagassem-lhe bem o seu trabalho efetivo, descontassem-lhe impostos sensatos, e você seria completamente capaz de atribuir subsídios a si próprio, de aniversário, de carnaval, de inverno, sem precisar da bizantinine daqueles outros. Mas agora pretendo falar de férias, conceito social e económico que se começou a desenvolver no século XIX entre as famílias burguesas e que, no século XX, com o aumento exponencial dos assalariados, o declínio das estações balneares famosas, o desenvolvimento dos transportes e a tentativa de racionalizar o trabalho, se tornou “universal” no mundo ocidental ou ocidentalizado. Claro que em tempos anteriores sempre houve breves períodos de pausa no trabalho e feriados religiosos no mundo rural, com o calendário muito marcado pela sazonalidade das sementeiras e das colheitas. Mas na sociedade industrial e urbana o ritmo de produção e a economia impunham outras regras e outros interesses. E assim nasceram as férias.
Para a maior parte dos cidadãos tal período significa hoje o estar deitado numa praia mais ou menos apinhada de gente, expor a pele aos maléficos raios do sol, tomar banhos regulares numa água do mar que se deseja sem muita poluição, e assim alimentar a “época alta” do chamado Turismo, atividade que tudo nivela e banaliza e cujo grande mérito talvez seja aumentar a possibilidade da mistura pacífica das multidões e o consequente desmotivar das hipotéticas ou previsíveis guerras, o que já não é mau.
Tal como no tempo de Eça, ele há quem faça férias «… com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida desta amiga, sete filhos, seis criados, dez cães, e outros cães conhecidos destes cães…» (Cartas de Inglaterra), só que agora os criados são menos ou já lá estão no resort, no bungalow, enfim, no destino turístico. Os viajantes singulares ou em grupos «… trotam, assobiam, dão obviamente a volta ao Mundo… Mas estes sujeitos trotam pelo gosto corporal de trotar… e no seu trote continuo através dos continentes vão assobiando, porque não vão pensando. Na realidade são vagabundos» (Notas Contemporâneas). Quer explicações para tal fenómeno? «Todos os filósofos e todos os donos de hotéis são unânimes em dizer que se viaja para ver o que há de interessante no mundo. Ora, no mundo, só há de interessante, verdadeiramente, o Homem e a Vida» (Correspondência, carta ao Conde de Arnoso, 1885). Porque, as mais das vezes e para o comum dos mortais, «viajar é… deixar um sítio onde se estava comendo num hotel triste… para ir, através da poeira, confusão, e bagagens, comer a outro hotel mais triste… e as igrejas, as lojas, os homens, sendo por toda a parte iguais, não vale a pena partir para ir apenas e em definitivo, sentir a melancolia infinita que inspiram as multidões estranhas». (Correspondência, carta à Condessa de Ficalho, 1885).
Alguns, poucos, aproveitam as férias para verem o que nunca viram, aprender o que ainda não foi possível, entenderem melhor o seu mundo e o dos outros. Gastam, sem se endividarem, o tal subsídio para se tornarem melhores pessoas e melhores cidadãos. Mas são poucos.
Por isso, caro leitor ainda com férias e respetivo subsídio, aqui lhe deixo a sugestão já tardeira (mas este ano terá Verão até dezembro) de fazer férias nos roteiros queirosianos, desde a Póvoa até Coimbra, Leiria, Lisboa, Cascais, Sintra, com uma incursão ao Vale do Douro, a Gaia, a Évora e a Serpa, ou ainda a Cuba e States, Inglaterra, Paris e outros locais por onde Eça andou, sobre os quais escreveu ou deles se utilizou como cenário para a sua ficção, o que, como sabe, o pode levar à China à procura da família do mandarim para se redimir das campainhadas pouco honestas que tem vindo a tocar na vida.
Este seu amigo e confrade deseja-lhe umas queirosianas férias.
J. A. Gonçalves Guimarães

Livros, Revistas e Jornadas

“Eça Agora”

Nos 125 anos da publicação de Os Maias e nos 40 da edição do Expresso, este semanário põe à disposição dos seus leitores uma interessante coleção de 7 volumes de bolso contendo uma nova edição deste romance no qual, como já em 2001 J. Rentes de Carvalho escreveu no pós-fácio da sua edição neerlandesa «atente-se apenas nos personagens e ver-se-á que o romance de 1888 espelha grosso modo os vícios e as virtudes da sociedade portuguesa contemporânea. É como se, com a sua arte, o escritor tivesse sido capaz de tornar visível a presença daqueles elementos que, misteriosos e imutáveis no tempo, parecem formar a essência de um povo» (Leia a totalidade deste texto no blogue Tempo Contado de 20 de julho passado).
Para além do romance de Eça, aquele semanário desafiou seis escritores contemporâneos a “completarem” a obra, ou seja a darem-lhe mais tempo e mais vida para além do texto eciano, em três livros intitulados Os Novos Mais, tendo para tal José Rentes de Carvalho escrito O Rio Somos Nós, onde põe Carlos da Maia e João da Ega a passarem os seus últimos dias de vida numa Quinta do Douro nos finais dos anos trinta do século passado. O texto, para além de tudo o mais que se lhe possa enaltecer, tem também aquele encanto literário de a mais delirante ficção ter foros de inatacável verosimilhança.
A coleção finaliza com o livro de um outro autor também nosso confrade, Carlos Reis, com um seu notável estudo intitulado Introdução à leitura de Os Maias.
Entretanto o livro Portugal, a Flor e a Foice, de José Rentes de Carvalho, uma das mais lúcidas visões sobre o golpe militar de 25 de Abril de 1974 e os equívocos da revolução consequente, que geraram as ilusões e os poderes ainda hoje em presença no nosso país quarenta anos passados sobre aqueles acontecimentos, vai ter uma segunda edição na Holanda no próximo ano, o que não acontecerá tão cedo em Portugal, onde os devotos cultores dos mitos revolucionários continuam a preferir as suas profissões de fé à análise histórica e social.

30 anos do Parque Biológico

No passado dia 15 de Julho foi lançado no Parque Biológico de Gaia o livro comemorativo dos 30 anos da instituição, coordenado pelo seu criador, diretor e nosso sócio Nuno Gomes Oliveira. Apresenta textos e ilustrações de vários autores, não apenas sobre a história da instituição, mas também as espécies vegetais e animais presentes e aquelas que, numa visão global, os diversos serviços do Parque põem à disposição dos visitantes e dos estudiosos, desde a Pré-história até à atualidade, passando pela História Natural no nosso país e as suas relações internacionais.


Castelo de Crestuma

Ainda no Parque Biológico de Gaia está também patente ao público a exposição itinerante “Castelo de Crestuma. A Arqueologia em busca da História”, para a qual foi editado por aquela entidade, em parceria com a Confraria Queirosiana, um catálogo ilustrado e elaborado por António Manuel S. P. Silva e J. A. Gonçalves Guimarães, os arqueólogos coordenadores do projeto, o qual tem vindo a ser implementado pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ.
A abertura desta exposição e o lançamento do seu catálogo decorreram no passado dia 28 de junho durante as I.as Jornadas Arqueológicas do Castelo de Crestuma, que tiveram como conferencistas Álvaro Brito Moreira; António Carvalho Lima; António Manuel S. P. Silva; Carlos Fabião; J. A. Gonçalves Guimarães; José Carlos Sanchez Pardo; Laura Sousa; Luís Carlos Amaral e Luís O. Fontes, que ali apresentaram os mais recentes resultados sobre a História e as intervenções arqueológicas do período suévico-visigótico em Portugal e em Espanha, algumas completamente inéditas, como foi o caso da também recente descoberta de uma basílica paleocristã no Castelo de Gaia. As jornadas terminaram com uma visita ao Castelo de Crestuma no dia 29.

Boletim dos Amigos de Gaia

Está em distribuição aos sócios o Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, entidade com protocolo de colaboração com os ASCR-CQ. O n.º 76, referente a junho de 2013, tem colaboração de vários dos nossos sócios e confrades, nomeadamente do seu diretor, Francisco Barbosa da Costa, e J. A. Gonçalves Guimarães, Abel Barros, Fátima Teixeira e Eva Baptista. Refira-se que os trabalhos apresentados por estas duas últimas foram feitos no âmbito do projeto dos investigadores tarefeiros do Solar Condes de Resende.

Outras

7 Maravilhas de Gaia

O Solar Condes de Resende foi nomeado pelo júri deste concurso, promovido pelo jornal O Gaiense, como uma das “Maravilhas de Gaia”, agora postas a concurso junto do público para eleger as sete finais. Como salienta o texto distribuído, é nesta Casa que a Confraria Queirosiana tem a sua sede e a partir daí desenvolve a sua atividade cultural por todo o Portugal e todo o mundo lusófono.

Cursos

Entre os dias 10 e 31 de julho decorre na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o curso de Verão “Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito”, coordenado pelos professores Luís Manuel de Araújo, nosso confrade, e José Varandas, organizado pelo respetivo Centro de História e com sessões no Anfiteatro III.
Prossegue também na cidade do Porto o curso “Porto Arte e História” com direção científica do nosso confrade José Manuel Tedim, no qual participa também o confrade Francisco Ribeiro da Silva, entre outros professores. O curso abriu no dia 27 de junho na Casa do Infante e prosseguirá todas as quartas-feiras até Dezembro próximo.

Exposições



Desde 4 de julho e até 30 de agosto, a nossa confrade Beatriz Pacheco Pereira expõe um conjunto de esculturas em bronze denominado “Barrocos” na Casa Barbot em Vila Nova de Gaia.



Concerto

No passado dia 21 de julho decorreu na Fundação Eça de Queiroz em Baião o habitual Concerto de Verão com a Orquestra do Norte, de que é maestro titular José Ferreira Lobo, onde foram executadas obras de Mozart, Bottesini e Elgar sob a direção de Artur Pinho Maria, formado pelo Conservatório de Música de Gaia, tendo como solistas o violinista Rómulo Assis e o contrabaixista Bruno Carneiro.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 59 – Quinta-feira, 25 de Julho de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154

IBAN: PT50001800005536505900154; Email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeirós.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: blogue Tempo Contado.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Eça & Outra

Eça e as autárquicas

«Para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro» (Eça de Queirós, Bilhetes de Paris). Vamos ter eleições autárquicas a 29 de Setembro e,«para não dizerem que só falei de flores» como escreveu certo poeta, aqui me vou a elas. Com Eça, como sempre: «O patriotismo só existe pela afeição cheia de raízes que prende o povo às localidades. Ele só ama a pátria por aqueles trabalhos, aqueles descansos suaves, aqueles afetos delicados que tem nos seus vinte palmos de terra, entre a humanidade das veigas e a sombra das árvores. O patriotismo é gerado de afeições, de hábitos, de recordações – estas coisas só se encontram na intimidade serena da vida local» (Distrito de Évora). E isto é tão verdade para Nova Iorque como para qualquer aldeia serrana.
Pois é. Mas em muitos casos tal não tem sido assim e a vida local mais parece uma versão requentada da vida nacional. O buraco da sua rua, que os operários da junta ou da câmara facilmente poderiam resolver, é então equiparado ao “buraco” do orçamento nacional. Deduza você porquê. Mas deixemo-nos de lamúrias: os autarcas bons, maus e assim-assim que existem pelo país fora, tal como os governantes, foram eleitos pelo povo e os eleitores têm sempre de pensar que estão a votar em pessoas concretas para exercerem o poder democrático durante quatro ou cinco anos num determinado quadro social, económico, cultural e, por fim político, e não para serem substituídos a capricho, a não o serem por condenação judicial. Por isso, meus amigos, tendo a convicção de que sabem para que servem os três boletins de voto que terão à vossa disposição nas próximas eleições – há muita gente que pensa que se trata de um original e dois duplicados, e não estou a falar de analfabetos! -, reflitam nestas questões e respondam a vós próprios a estas perguntas: sabem quem são os candidatos à vossa assembleia municipal, à vossa câmara, à vossa junta de freguesia? Conhecem-nos, sabem a sua profissão, sabem o seu trajeto de vida, a sua verdadeira biografia? Sabem se eles conhecem a vossa cidade, a vossa vila, a vossa aldeia que dizem querer transformar num paraíso terreal? Sabem, por provas dadas, se eles conhecem as pessoas e as potencialidades locais e se serão capazes de as gerir ou se, pelo contrário, não passam de uns “cabeças de turco” que vão entregar a gestão dessas vossas questões quotidianas a empresas, a assessores, a mercenários do poder local que vocês não conhecem e que, provavelmente, nem querem conhecer?
Hoje corre muito a desastrosa ideia de que há profissões muito vocacionadas para a gestão local. Até há cursos ditos superiores para tal. Nada mais errado, pois o facto de haver esses “canudos”, nada garante que os seus possuidores tenham um bom desempenho na coisa pública. Dispenso-me de lhes lembrar maus exemplos. O curriculum pessoal, o bom nome na praça, o conhecimento da realidade, os objetivos sensatos dos candidatos, eis o que os deve preocupar no ato de escolher pelo voto. Se votarem em bandeirinhas é isso que terão: não mais que bandeirinhas.
E já agora, no que diz respeito à Cultura, palavra hoje usada para carimbar atividades que com ela nada têm a ver, os tais “especialistas” do direito autárquico até já a vão banindo da organização autárquica. Como haveriam de falar do que não entendem, ou do que poderia lá estar para aperrear as suas insuficiências, as suas equivalências, os seus créditos que, as mais das vezes, não correspondem a quase nada ou mesmo a coisa nenhuma? Aliás, desde o 25 de Abril que muitas autarquias entregaram a Cultura a pessoas cujas credenciais para o efeito eram o eles dizerem que têm muito jeitinho para a dita e que confundem criação com banalidades, História com lendas, Artes com oportunismos bacocos, Música com barulheira, Ciência com ilusionismos, elaboração de pensamento com instantâneos fotográficos, e outros equívocos, mais ou menos vistosos e mediáticos, mas que não passam de chicletes que alguns mastigam enquanto estão doces, mas que depois deitam fora, não de vez, como o bom senso mandaria, mas para serem rapidamente substituídos pelo chiclete seguinte, num despesismo tolo que alimenta muita da programação dos “centros culturais” e quejandos e os seus amadores iluminados ou profissionais inertes, que não deixam nada que valha a pena em termos de presente e de futuro. A não ser bacoquice e endividamento estéril. E tudo isto em desfavor de muitos profissionais de Cultura com prestígio e obra disponível para apreciação existentes nos quadros das autarquias e que têm de ir longe procurar quem lhes reconheça o mérito.
Portanto, caros amigos, participem nas eleições e elejam os vossos candidatos conhecendo-os primeiro. É o mínimo que se pode pedir a um eleitor. E, já agora, vejam quais as ideias que eles apresentam sobre Cultura local, pois é por aí que a Humanidade tem sobrevivido e feito a diferença com o resto dos primatas que, como é sabido desde os estudos de Desmond Morris, também sabem pintar, adoram espetáculos e ajuntamentos e batem as palmas e as plantas dos pés no chão quando estão contentes. O ser humano precisa e merece algo mais.
Alguns confrades queirosianos são candidatos autárquicos, porque são cidadãos empenhados e com provas dadas e conhecidas na praça. Concorrem por vários partidos ou movimentos de cidadãos, numa saudável diversificação democrática. Por dever estatutário a Confraria não apoia nenhum deles, deixando isso ao alto critério dos seus assocados. E ao dever de se informarem e esclarecerem os outros. O autor destas linhas não é candidato e todos lhe merecem igual consideração Mas anda seriamente a interrogar-se, como aliás sempre fez, sobre quais os seus melhores candidatos para a sua terra, parte inalienável do seu país, da sua Europa e do seu Mundo. E de todos vós.
Voltando a Eça de Queirós, «Os sentimentos que prendem à vida local são fortes, desinteressados, imaculados e nobres; os sentimentos que prendam à capital central são frouxos, agressivos, interessados e ásperos. Aniquilar aqueles sentimentos, para desenvolver estes, é uma política deplorável». (Distrito de Évora). Também aqui concordo com Eça.

J. A. Gonçalves Guimarães

Universidade de Coimbra

Postal de Edições Âncora, Lisboa, anos 60 do século XX













A universidade que Eça de Queirós frequentou acaba de ser declarada Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, juntando à “alta” a rua da Sofia e os seus colégios e o fado coimbrão, e com tudo isto um longo painel de Homens e Mulheres da Cultura Portuguesa universalizante onde poderemos encontrar Antero de Quental, Adriano de Paiva, Maria Helena da Rocha Pereira, Jorge de Alarcão, e tantos, tantos outros, como alunos, professores e investigadores desde, pelo menos, o século  XVI, e ainda os que passaram à sua porta, ou frequentaram os seus colégios com outros nomes, como Luís de Camões, ou os que, em tempos mais recentes, lhe cantaram a alma, como Manuel Alegre, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e tantos, tantos outros. Sobre Eça em Coimbra recomendamos os livros do nosso confrade Carlos Santarém Andrade ou a biografia e fotobiografia de A. Campos Matos.
Coimbra é, e será sempre, “uma lição de amor” à Cultura Portuguesa num grande abraço ao Mundo.


J. Rentes de Carvalho

J. Rentes de Carvalho – O Primeiro Olhar 
 Óleo de Adélio Martins
O decano dos escritores portugueses continua a publicar com sucesso, agora obras inéditas escritas nos últimos tempos e em breve surpreenderá os seus leitores com uma obra de recreação literária que tivemos a honra de ler em primeira mão na recente visita que lhe fizemos a Estevais de Mogadouro. Mas a seu tempo dela falaremos.
Entretanto o seu incondicional admirador e nosso consócio Adélio Martins acaba de concluir uma terceira pintura sobre o escritor, em que o tema são as escadas do Monte dos Judeus em Vila Nova de Gaia, local da sua infância que a Confraria Queirosiana tudo fará para que o mesmo seja valorizado e dignificado como local de origem do escritor, que daqui lançou novas pontes imorredoiras entre Portugal, a Europa e o Brasil.

Livros e jornais

No passado dia 5 de Junho a nossa consócia Maria Virgínia Guerra Monteiro, filha do poeta Oliveira Guerra, no Estúdio de Agostinho Santos, em Vila Nova de Gaia, lançou o livro de poesia Voz Submersa o qual foi apresentado pela Professora Isabel Ponce de Leão.
A 13 de Junho o nosso confrade Mário Dorminsky lançou no Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto o seu novo livro Portugal à Espera – Crónicas do Porto, com apresentação do Dr. Manuel de Novaes Cabral, presidente da instituição. A sessão foi repetida na Casa Barbot em Vila Nova de Gaia no dia 22.
A 15 de Junho, os nossos confrades Ana Margarida Dinis Vieira e Orlando Cardoso lançaram na Livraria Arquivo em Leiria um novo livro intitulado Os Olhares de Eça – Leiria Revisitada, um novo roteiro que reorganizou os anteriormente escritos por ambos os autores. O evento esteve integrado na 5.º edição dos Olhares Queirosianos que inclui um curso livre sobre Eça de Queirós.



No mesmo dia, no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, realizou-se a sessão comemorativa do 4.º aniversário do jornal As Artes entre as Letras com a publicação do seu número 100, de que é diretora a nossa confrade Nassalete Miranda, o qual apresenta colaboração dos confrades Guilherme de Oliveira Martins, Beatriz Pacheco Pereira, J. A. Gonçalves Guimarães, Francisco Ribeiro da Silva e A. Campos Matos, alguns dos quais presentes na ocasião que encheu aquele magnifico salão com colaboradores e leitores deste jornal que publica todos os meses a página Eça & Outras da Confraria Queirosiana.
Na ocasião Nassalete Miranda lançou o seu livro Entre 100 Sentidos, onde reuniu os seus editoriais publicados entre 2009 e 2013, acompanhados de excelentes reproduções de obras dos seus artistas preferidos. O livro tem um prefácio de D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa e anterior Bispo do Porto.



Vinhos

No 2.º Festival da Vinha do Douro Superior, que decorreu em Vila Nova de Foz Côa em 25 de Maio passado, o Quinta da Ervamoira Porto Vintage 2009, produzido pela Casa Ramos Pinto, de que é administrador o nosso confrade João Nicolau de Almeida, foi premiado com medalha de ouro atribuído por um júri composto por mais de 20 críticos de vinhos, escanções, jornalistas e outros que escolheram os três “Melhores Vinhos” de um total de 160 a concurso.
Este mesmo produtor, vai lançar em breve no mercado um vinho familiar que fará jus ao que já em 1867 Eça de Queirós, bisavô dos seus filhos, escreveu, de que no Douro havia vinhos «bem feitos e bem preparados» (Páginas de Jornalismo).

7 Maravilhas de Gaia

O jornal O Gaiense está a organizar um concurso que, numa gala a realizar em Setembro, elegerá as 7 Maravilhas locais no que diz respeito ao património cultural, arquitectónico, humano e natural.
Para integrarem o júri foram escolhidas diversas personalidades entre as quais os membros da Confraria Queirosiana Manuel Filipe Sousa, director dos Auditórios de Gaia e presidente do júri, Nuno Oliveira, director do Parque Biológico de Gaia e J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor da Confraria Queirosiana.

Palestras, conferências e cursos

No dia 6 de Junho o nosso confrade Fernando Andrade Lemos, do Centro Eça de Queirós de Telheiras, proferiu na Associação dos Arqueólogos Portugueses em Lisboa uma conferência sobre D. João Príncipe de Candia, depois de no dia anterior ter conduzido uma visita guiada ao túmulo Palmela, cunhado do Visconde de Beire, bisavô dos filhos de Eça de Queirós, no cemitério dos Prazeres também naquela cidade.
A partir de Outubro próximo vai decorrer no Solar Condes de Resende, duas tardes de sábado por mês entre as 15 e as 17 o curso sobre História Empresarial e Institucional, organizado pela Academia Eça de Queirós e coordenado por J. A. Gonçalves Guimarães e José Manuel Tedim no qual serão professores Ana Cristina Correia de Sousa; Francisco Ribeiro da Silva; Joel Cleto; Laura Peixoto; Nuno Resende; Silvestre Lacerda e Susana Moncóvio, além dos coordenadores.
Entretanto a Câmara Municipal do Porto está também a organizar um curso livre sobre História do Porto que conta com a direcção científica de José Manuel Tedim, presidente da direcção dos ASCR-CQ, e a colaboração de mais alguns confrades queirosianos, o qual terá início em Julho e se prolonga até Dezembro.
Por sua vez a Academia Eça de Queirós tem também organizado um curso itinerante sobre Eça de Queirós, sua vida, sua obra e sua época, composto por quatro sessões de quarenta e cinco minutos cada seguidas de intervalo, (manhã e tarde ou tarde e noite), ministrado pelos seus investigadores com recurso a power point e ajustável aos mais diversos tipos de público.

FAMP

A Federação dos Amigos dos Museus de Portugal, de que os Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana são associados, e que por sua vez é membro da Federação Mundial de Amigos dos Museus, na sua Assembleia Geral de Maio passado elegeu por unanimidade como presidente da direcção Isabel Silveira Godinho, ex-diretora do Palácio Nacional da Ajuda, onde realizou notável obra de direcção e valorização.
Esta prestimosa associação vai realizar um encontro informal em Alcobaça nos próximos dias 7 e 8 de Setembro.

José Bonifácio

Nos 250 anos do Nascimento de José Bonifácio de Andrade e Silva, primeiro director das florestas de Portugal, primeiro ecologista português e patriarca da independência do Brasil, conforme se pode ler no livro do nosso consócio Dr. Nuno Gomes Oliveira já divulgado nesta página, com o patrocínio das Águas e Parque Biológico de Gaia foi apresentado nas suas instalações de Vila Nova de Gaia no passado sábado dia 15 um documentário sobre aquela figura maior da História de Portugal e do Brasil realizado por Francisco Manso para a RTP onde passou nos seus diversos canais no dia 17 de Junho em horário nobre.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 58 – Terça-feira, 25 de Junho de 2013
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN: PT50001800005536505900154; Email:queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; academiaecadequeirós.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Fernando Andrade Lemos

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Eça & Outras



Genealogias informáticas

Graças ao Google, ou a empresas parecidas, o cidadão comum tem acesso a uma quantidade imensa de informação em parte paga com o atual desemprego e desgraça social. Como quantidade não é qualidade, tal granelagem presta-se a incríveis confusões, até porque tal excesso informativo na Internet não convida à reflexão, à triagem, à escolha, à seleção. E há quem pense que “alguém” decide bem por cada um de nós, erro tremendo que pagamos caro, enquanto o Bil Gaitas & Partners lucram triliões por ano, dos quais distribuem umas migalhas pelos pobrezinhos e compram a opinião pública com outras migalhas para aquilo que chamam cultura mas que não passa de entretenimento. Permitam-me que desta vez recorra a aspetos pessoais para ilustrar esta crónica: se digitarem no Google J. A. Gonçalves Guimarães, terão a indicação de cerca de 5.730.000 consultas com esta entrada (2013.05.24). Mas tal tem pouco a ver comigo. É certo que eu estou lá, as minhas fotografias (e outras que promovi, mas que não são minhas), os meus livros, as minhas palestras, o Solar Condes de Resende, a Confraria Queirosiana, grande parte da minha vida, mas também muitos outros Gonçalves Guimarães que não são meus parentes, a não ser por remota hipótese de recomposição social dos sobrenomes. Sou Gonçalves Guimarães porque a família de minha mãe se chama Gonçalves Rua, de Lamego, e a de meu pai Peixoto Guimarães, de Guimarães e, desde o século XVIII, do Porto. E eu nasci em Vila Nova de Gaia, bem assim como meus irmãos e nossos descendentes. Na realidade devia chamar-me J. A. Rua Guimarães, mas tal não aconteceu por uma historieta hilariante que contarei noutra ocasião.
Acontece que, sobretudo no Brasil, há muitos outros Gonçalves Guimarães, alguns dos quais até talvez sejam meus primos: meu tio Alfredo Peixoto Guimarães foi para o Rio de Janeiro e depois para S. Paulo. E aí teve descendência. Mas nesta coisa do Google há o Vitória de Guimarães com jogadores chamados Gonçalves e outras recomposições absurdas dos dois nome e, obviamente, muitos outros cidadãos filhos de uma senhora Gonçalves e de um senhor Guimarães. Coincidências. Assim, gostaria de dizer a quem interesse que não sou coronel da Guarda Nacional, nunca fui prefeito de nenhuma cidade do Brasil e o professor Gonçalves Guimarães da Universidade de Coimbra de finais do século XIX, que eu saiba, não é meu parente e a única coisa que nos une, além dos apelidos, é o facto de ele ter sido professor de História Natural e eu de Património Natural, mas noutra universidade e em tempos mais recentes. Tenho um irmão José e duas irmãs, Amália e Laura, todos Gonçalves Guimarães e portugueses, a despeito de vários homónimos brasileiros.
Tenho obviamente a maior simpatia pela Alexandra, Ana, Ana Maria, Bárbara Sofia, Bianca Taina, Beatriz, Camila, Cíntia, Dayse, Edna, Fávia, Inocência, Janaína, Laura, Luana, Maria Valtiana, Mirce, Patricia, Raquel, Rosalina, Ruth, Maria, Stela, Wilma, todas elas, e muitas mais, também Gonçalves Guimarães, mas não sei quem são; do mesmo modo não conheço Adir, Alex, Alvaro, Anderson, António, Brian, Camões, Carlos, Cosme, Delbão, Fabiano, Fábio, Felipe, Fernando, Frederico, Godofredo, José, Manuel, Marcelo, Melo, Nilton, Otoni, Pedrenrique, Pedro, Rafael, Rodrigo, Sebastião, Tiago, Vanderson, Vinícius, Willer, Yasmin, também todos Gonçalves Guimarães. Com Fábio Luiz posso partilhar o gosto por cavalos; Jorge estuda S. Gonçalo de Lagos e eu o de Amarante, sendo os meus trabalhos citados no Brasil a propósito do tema. Mas nunca lá fui, não tenho lá propriedades nem problemas com a Justiça, mas já recebi um email de um tribunal para ir a uma acareação que, obviamente, não era para mim. Milagres da informática. Assim, graças a estas “genealogias informáticas”, eu e a minha família passamos a fazer parte deste universo de Gonçalves Guimarães, portugueses, açorianos e brasileiros, em todo o caso muito menor do que os Silva, os Sousa ou os Costas. Isso dá-me um certo conforto palopiano, parecido com o daquele homem prático que recusou ao genealogista que lhe fizesse a árvore de onde tinha descido dizendo: “se você encontra um santo como meu antepassado fico contente. Mas se me encontra um pulha ou uma p… fico furioso. Deixe pois minha árvore assim perdida e anónima na humana floresta da vida. Sabemos que existiu e que deu rebentos, frutos, barcos, abrigo e proteção, mas pode também ter dado cacetes, forcas, ataúdes…. Deixe pois minha árvore em paz e os seus galhos. Eu valho pelo que sou e não pelos que me precederam ou pelos que me hão-de seguir. Gostaria que todos fossem santos, mas sobre os que passaram já nada posso fazer; sobre os que hão-de ser, oxalá o meu esforço valha a pena”.
Sobre a nossa relação com os outros escreveu o grande Eça de Queirós: «Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente, como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação» (Eça de Queirós, Correspondência).
Não há pois Google, Facebook e quejandos que nos valham, se não falarmos uns com os outros, parentes ou não.

J. A. Gonçalves Guimarães

Inéditos d´ Eça

Depois de A. Campos Matos nos ter confidenciado que tem mais uma carta inédita de Eça de Queirós para publicar (têm a certeza de que Eça não tem continuado a copiar os seus inéditos que foram para o fundo do mar? Não haverá por aí falsários geniais? Será que Eça não tem agora um blog a partir do céu?), no próximo dia 4 de Junho será publicada pela Editorial Caminho a opereta cómica inacabada “A Morte do Diabo”, de Eça de Queirós com Jaime Batalha Reis e Augusto Machado, composta em 1896, recentemente descoberta por Irene Fialho entre o espólio daquele compositor na Biblioteca Nacional em Lisboa. A presente publicação tem ainda a colaboração do nosso confrade Mário Vieira de Carvalho e de José Brandão.
Como já lembramos neste blog, o diabolismo de Eça de Queirós corre a par com o de vários autores da sua época, nomeadamente o de Oskar Panizza em “O Concílio do Amor” de 1894, editado em Portugal em 1974 pela Editorial Estampa, e com o de Guerra Junqueiro em várias das suas composições poéticas onde o Diabo se mostra perplexo com a inabilidade do Criador da espécie humana.
Depois de Eça no Teatro e no Cinema vamos agora tê-lo na Ópera.

Academias

Fundada em 1917 para «difundir o gosto das boas letras e dos estudos de história e de geografia do Piauí», a Academia Piauiense de Letras logo em 1918 lançou a sua Revista de que acaba de ser publicado o n.º 68 referente ao ano de 2010.
Nas suas 250 páginas apresenta discursos de vários académicos e conferências, entre elas «Joaquim Nabuco e o Pioneirismo da “Inclusão Social”» aí proferida pelo nosso confrade Dagoberto Carvalho J.or que ocupa a cadeira n.º 25 desta quase centenária instituição. Apresenta ainda recensões e vária colaboração, terminando com o quadro das quarenta cadeiras, seus patronos e ocupantes ao longo destes anos e ainda os agraciados com a comenda de mérito cultural Lucídio Freitas (1894-1921), advogado e poeta teresinense em cuja casa a Academia tem a sua sede.
Presentemente é seu presidente Reginaldo Miranda da Silva, advogado e escritor que nesta mesma revista publicou um artigo sobre “Vultos da História do Piauí – Ouvidor Moraes Durão”.
Entretanto a Academia Eça de Queirós, criada pela Confraria Queirosiana para suporte académico dos cursos que ministra no Solar Condes de Resende e em outros espaços, já tem o seu blogue com o respectivo Regulamento, passando em breve a divulgar o curriculum essencial dos seus membros, a sua bibliografia, e textos produzidos no seu contexto (ver colofon desta página)

Conferências e cursos

No passado dia 14 de Maio, no 1.º Congresso Internacional sobre o Cavalo e o Touro na Pré-História e na História que decorreu na Golegã e na Chamusca, Fernando Coimbra e Giorgos Iliadis falaram sobre “A possible horse hunting scene in the rock art from Philippi (Greece)” e o primeiro sobre “O cavalo como animal psicopompo na Europa do I milénio a. C.”; Luís Manuel de Araújo sobre “O cavalo no Egito faraónico: uma avalizadora semiótica do poder” e “KA NAKHT, “Touro Poderoso”: um expressivo título da realeza egípcia”; J. A. Gonçalves Guimarães (com Susana Guimarães) sobre “Aprestos e representações equestres da Coleção Marciano Azuaga (Solar Condes de Resende)”.
No dia 18 de Maio o nosso consócio arqueólogo António Manuel Silva proferiu na Casa – Museu Regional de Oliveira de Azeméis uma palestra sobre “Proto-História e Romanização no Entre Douro e Vouga”, onde abordou os trabalhos no Castro de Salreu realizados em 2011, integrada num colóquio sobre o Dia Internacional dos Museus.
No próximo dia 24 de Maio o mesário-mor da Confraria Queirosiana J. A. Gonçalves Guimarães fará na Junta de Freguesia de Crestuma uma palestra sobre “Navegações no Rio Douro” para o curso de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e no dia 30 de Maio na Universidade Lusófona do Porto sobre “Marquês de Soveral homem do Douro e do Mundo” no II Encontro Científico sobre Cidades, Espaços e Identidades.
Nos próximos dias 28 e 29 de Junho decorrerá no Parque Biológico de Gaia e no Parque do Castelo de Crestuma a I Jornada Arqueológica do Castelo de Crestuma, onde serão oradores Álvaro Brito Moreira, André Nascimento, António C. Lima, António Manuel Silva, Carlos Fabião, Filipe Pinto, J. A. Gonçalves Guimarães, Laura Peixoto, Lino Tavares Dias, Luís Carlos Amaral, Luís O. Fontes, Paulo Lima, Pedro Pereira, Sanchez Pardo e Teresa Pires de Carvalho, com comunicações inéditas sobre a Arqueologia da Alta Idade Média em Vila Nova de Gaia, em Portugal e na Galiza.
A participação obriga a inscrição no Parque Biológico ou na Confraria Queirosiana.
Entre 15 e 19 de Julho decorrerá na fundação Eça de Queiroz em Baião o habitual Curso Internacional de Verão, este ano subordinado ao tema “Eça de Queiroz no contexto da História dos media”.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 57 – Sábado, 25 de Maio de 2013
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