quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eça & Outras


Bom nome na praça

Como qualquer cidadão acho que posso escolher duas formas extremas de vida social: uma delas é refugiar-me numa gruta qualquer, num fojo, numa furna, num monte da raia, e viver por ali a falar com as árvores, as pedras, as nuvens e os gafanhotos, comendo bolotas, roubando nas redondezas a fruta que ninguém colhe, acertando com o cacete numa lebre, conseguindo um isqueiro de turistas à procura de emoções fortes, acamaradando de vez em quando com os pastores que ainda por ali guardam rebanhos sonhando um dia virem a ser reis de povos e não apenas de cabras.
Ninguém se importará muito com isso, os amigos acabarão por me apagar do facebook, o SNS das listas de utentes, as Finanças remeter-me-ão para os insolventes, a Servilusa insistirá com a PJ para procurar o meu adiado cadáver e, se tiver a circunstância de encontrar algum jornalista desesperado à procura de uma “matéria”, poderei conseguir uns cobertores novos e limpos, a troco de dar uma entrevista televisiva, ou participar, tosco e fedorento, num daqueles talk shows para velhinhos gagás internados em lares, ou, oh lá lá! num programa mais erudito, com senhores muito finos engravatados ou demoiselles com um sorriso deslumbrante qual teclado de cravo mozartiano sem teclas pretas. Nessa solidão poderei cometer, em imaginação, crimes nefandos: assassinar um profeta, matar mais 100.000 iraquianos do que os que foram mortos na segunda guerra do Golfo, fornicar com rainhas ou princesas à escolha, assaltar o BIC, desviar um dos novos submarinos da base do Alfeite, conseguir um contrato para fazer campos de golfe no Gerês ao lado do casarão do Senhor Comendador Ronaldo, eu sei lá que mais. Só sei – porque a História o ensina – que a solidão e a falta de convívio humano se prestam às mais torpes, mas também às mais angélicas, fantasias da mente humana. E uma louca imaginação pode bombardear o Pentágono, arrombar a barragem de Assuão, meter políticos em Guantánamo, permitir o Alberto João duplicar a divida, eu sei lá que mais, chega, chega, senão fico agoniado ao imaginar sequer tanta maldade, como o Diabo da peça “O Concílio do Amor” de Oskar Panizza. Mas por este delírio, desde que resolvido nos limites da imaginação, ainda que verbalizado, ninguém pedirá contas, dirão que são coisas de louco, e, no máximo, condená-lo-ão, não pelas hipotéticas ações imaginadas, mas, por acharem que pode ter prazer em imaginá-las. Será condenado por “pecar em pensamento”, o que, segundo creio, por cá ainda não está previsto no Código Penal. Mas, afinal, não é isto que fazem os literatos? Inventam histórias e depois matam as personagens a seu bel-prazer. Continuemos.
Outra forma de vida mais vulgar é a de viver em sociedade organizada, com multidões de gentes controladas por instituições, desde as internacionais, ONU, OMS, Vaticano, Troika, empresas petrolíferas, Macintosh, EDP – passando pelas nacionais – governos, partidos, ligas, meias e colants do futebol, bancos, PPP – até às locais – governos, partidos, ligas, meias e colants do futebol, bancos, PPP, liga anti-tourada, hipermercados, repartição das finanças, etc, etc.
Neste caso o cidadão, em vez de se dar a delírios e fantasias, tem de estar ao corrente das ideologias, e propostas dominantes, esquiar pelo meio delas como um atleta de ski no slalon gigante, para contornar os obstáculos e escolher três vias: a do jogo limpo, a do deixa andar – alguém me dirá o que devo fazer – ou a do “chico esperto”, o vale tudo para passar à frente dos outros ou de qualquer coisa. O problema será o de ter e manter “bom nome na praça”. E isso só se consegue de três maneiras: ou arranjando uma seita de adeptos e encobridores que, faça o iluminado o que fizer de mal que eles rasgarão as vestes e arrepelarão os cabelos em defesa da sua inocência; ou tendo muito dinheiro para pagar a uma agência de rating, ou sei lá mais de quê, que se encarregará de promover a imagem do dito para além de todas as ficções; ou simplesmente trabalhando, e fazendo pela vida com mais ou menos sucesso, embora correndo o risco de ser apelidado de idiota pelos seus concidadãos.
No primeiro caso estou a lembrar-me dos pedófilos encobertos pelas instituições, no segundo de gente muito conhecida nos media vá-se lá saber porquê, ou que até será melhor nem sabermos, e no terceiro de você e eu, duas pessoas que eles acham que não contam. Mas não é verdade. Eles que esperem quando o nosso “deixa andar” nos enfastiar de vez e passe a desandar a nosso favor, a favor daqueles que se esforçam pela vida.
Eça de Queirós escreveu há muito tempo que «…entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o País é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da educação» (Uma Campanha Alegre, 1890). Talvez por isso haja tão pouca gente com “bom-nome na praça”, educados que temos sido através de mentiras oficiais e particulares, públicas e privadas.
Por isso meu caro leitor, pense nessa questão do “bom-nome na praça” e procure saber o que é isso na realidade, o que é que isso quer dizer. Talvez valha a pena. Depois decida-se: ou vai viver solitário para os montes e desliga de tudo o resto, ou aguenta e vai a lendo o Eça. Está lá tudo.

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros e textos

Fernando Peixoto

No passado dia 9 de Julho no Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, com o seu auditório repleto de gente ligada aos setores vinícola e académico, além de muitos amigos e familiares, foi lançada a tese de doutoramento de Fernando Peixoto, nosso falecido confrade, intitulada “Do corporativismo ao modelo interprofissional. O Instituto do Vinho do Porto e a evolução do setor do Vinho do Porto (1933-1995)”, na ocasião apresentada pelo seu co-orientador Gaspar Martins Pereira, que na mesma sessão apresentou também uma outra tese de doutoramento de Carla Sequeira intitulada “O Alto Douro entre o livre-cambismo e o proteccionismo”, defendida na mesma faculdade.



Contra a Obesidade




A Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas (FPCG), na qual está filiada a Confraria Queirosiana, acaba de lançar o simples, útil, agradável, benemérito e mais não sei quanto de bons adjetivos, o livro “Gastronomia Portuguesa contra a Obesidade”, com direção da presidente Madalena Carrito e uma equipa cientifica composta por Ana Rito, Carlos Ramos, Maria Ana Carvalho, Ana Lúcia Marcelino e Luís Lavrador. A obra teve o apoio da Universidade Atlântica e da Direção Geral de Saúde.


Notícias

Concerto na Fundação

Hoje 25 de Julho há concerto na Fundação Eça de Queirós na Quinta de Vila Nova, Santa Cruz do Douro, Baião, atuando a Orquestra do Norte sob a direção de Fernando Marinho e tendo como solista o oboé Russell Tyler.
A Fundação teve como co-fundadores, além de empresas privadas, os municípios de Amarante, Baião, Matosinhos, Póvoa de Varzim, Sintra e Vila Nova de Gaia, sendo esta iniciativa patrocinada pela Câmara de Baião e pelo Secretário de Estado da Cultura.

Confraria Eça-Dagobertiana

No passado dia 21 de Julho a Confraria Eça-Dagobertiana de Oeiras de Piauí (Brasil) realizou o seu XI Encontro Lítero-gastronómico onde foram apresentas as obras “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós, pela Prof.ª Cassi Neiva e “A Boa Mesa de Eça de Queiroz” de Dagoberto Carvalho J.or, por Ana Maria Maranhão Helaias.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 47 – Quarta-feira, 25 de Julho de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email:queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638);
redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Eça & Outras

A cada um seu Eça?!

O arquiteto Campos Matos (ACM) é, sem favor algum, um dos maiores especialistas mundiais sobre a vida e obra de Eça de Queirós e o seu maior divulgador desde os anos setenta do século passado. A Fundação Eça de Queiroz (FEQ) é uma respeitabilíssima instituição que guarda a melhor parte do que resta do espólio do escritor na Quinta de Vila Nova, Santa Cruz do Douro, Baião, propriedade que foi de sua mulher D. Emília de Castro, filha do 4º e irmã dos 5.º e 6.º Condes de Resende. ACM é, ou foi, membro do conselho cultural da FEQ.
Recentemente, ACM e o conselho de administração da FEQ envolveram-se em controvérsia por causa de alguns documentos e peças do espólio desta instituição e da oportunidade e condições da sua divulgação nacional e internacional.
Tenho uma profunda e grata admiração por ACM pelo que lhe devemos em termos de Cultura Portuguesa e, além do mais, é meu confrade na Confraria Queirosiana. Tenho também uma respeitosa atitude perante a FEQ pelo que tem conseguido manter da memória do escritor e com a qual a Confraria tem um protocolo de colaboração por nós proposto e assinado. Não tencionava pois meter-me neste desaguisado entre, digamos assim para abreviar, dois amigos e assim alcançar uma confortável posição acaciana, distribuindo elogios a um e a outra e repimpando-me depois no sono dos néscios. Suponho que este ataque de comodismo será consequência da idade, embora seja daqueles que não confundem senetude com sabedoria. Estava eu neste arremedo de paraíso mental quando, não só fui mimoseado com os escritos de ambos os lados e respetivas razões, como comecei a receber interrogativos telefonemas, emails e bate-bocas sobre o que é que eu pensava sobre a “polémica”.
Para me manter isento e equidistante procurei fazer uma resenha das razões ementadas pela FEQ, e das apresentadas por ACM. Fiquei assim a saber que ACM «queirozianista e curador da exposição dedicada a Eça de Queiroz a realizar no Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo» (Brasil), abordou em Abril passado o conselho de administração da FEQ para:
- publicar um diário de D. Emília da Castro, que ali lhe deram a conhecer em 1994, ao qual faltam algumas páginas e outras estão rasuradas, crê-se que pela mão de sua filha Maria, aspeto comum noutros escritos do próprio Eça feito por outros filhos e editores póstumos.
- providenciar a exposição permanente de 4 ou 5 peças do faqueiro de prata de Eça numa vitrina na FEQ e obter autorização para uma fotografia dessas peças figurar naquela exposição.
Sobre o diário ACM entende que ele é o «último documento de valia dos arquivos da FEQ» e seria um risco enorme [d]a sua publicação por um não especialista».
Sobre o segundo entende que «estes objetos-relíquias são representativos de um tema estrutural da narrativa queiroziana, a comida».
O conselho de administração recusou ambas as pretensões alegando que:
- o diário de uma senhora que faleceu em 1934 «… contém testemunhos íntimos da vida privada, que não devem ser do conhecimento público».
- não se trata de um faqueiro mas «de cerca de quarenta talheres díspares com o monograma de Eça, alguns de prata outros não» e vai daí a FEQ «não autoriza que os talheres do escritor saiam daqui… tratará da sua exposição e da aquisição da vitrina para o efeito».
Mais ficamos a saber que já em 2011 ACM tinha solicitado à FEQ a cedência da escrivaninha de Eça de Queirós para aquela exposição internacional, ao que a instituição respondeu que autorizava apenas a realização de uma réplica e a exposição de fotografias de «vários objetos do espólio da Fundação».
Ficamos ainda a saber que a FEQ sobre ACM tem a opinião de que «ele tem projetado muito e muito bem o escritor Eça de Queiroz através de variadíssimas e premiadas obras cuja realização jamais teria sido possível sem a total, permanente e absoluta disponibilidade da FEQ ao longo de muitos anos», ou seja, que a FEQ julga que, sem o seu apoio, o queirozianista ACM praticamente nem existiria.
Viemos também a saber que os «15.000 visitantes, por semana, durante, pelo menos, três meses» que visitarão a exposição internacional sobre Eça de Queirós em S. Paulo verão objetos que pertenceram ao escritor provenientes de várias instituições e de colecionadores particulares portugueses e estrangeiros, mas da FEQ só verão a réplica da escrivaninha e fotografias. Se quiserem ver os verdadeiros lá terão de se apear na estação ferroviária de Caldas de Aregos e jacintar até à Quinta de Vila Nova.
Caros Amigos: a vida é assim e estes são os factos, parcialmente aqui resumidos, como se fossem os estatutos de uma associação recreativa num suplemento da III.ª série do D. R., a partir dos textos que tiveram a gentileza de me enviar e que, entenda-se e que fique claro, de modo algum, me pediram para comentar ou tomar partido. Por isso aqui estou a redigir esta nota com a mesma serenidade com que o civilizado Pilatos, em assunto que o transcendia, pediu a bacia, a toalha e o sabonete, e lavou as mãos.
Mas, tendo consultado Eça no Olimpo através da mesa pé-de-galo, (não, meu caro ACM, você não tem o exclusivo de falar com ele, nem isso é coutada só sua, como diria o relator da FEQ…) ele disse-me: «estou estupefacto!» e, justificando-se, «é que já não é a primeira vez que não me deixam ir ao Brasil! A primeira foi quando me negaram o consulado da Baía…». Da conversa interrompida que tive com o Altíssimo, ele ainda me confidenciou que, por uma questão de pudor e respeito, nunca quis saber o que sua mulher caligrafava no tal diário, mas que, já agora, quando ACM lhe transmitiu a perspetiva da sua publicação com os seus elegantíssimos comentários, que Diabo, isso sim, que ficou curioso, passados estes anos todos. Sobre se se devem ou não revelar os escritos íntimos dos que já partiram riu-se e, pondo o monóculo, lembrou que ele próprio revelou epístolas íntimas de Fradique Mendes e que você, sim você ACM, publicou (quase) toda a sua correspondência, incluindo a que ele trocou com sua mulher e outras senhoras, é certo que com escrúpulo e sem cortes ou rasuras, e que lhe está muito agradecido por isso. Lembrou-me também o que tinha escrito na “correspondência de Fradique Mendes”, que esse tipo de escritos pessoais «reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e o ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação», e que o mesmo se aplica a diários, porque estes não são nem mais nem menos íntimos do que uma carta.
Sobre a curiosidade por estas coisas lembrou-me que na mesma obra distinguiu o ato de escutar às portas do de descobrir américas, a diferença entre um bisbilhoteiro e um descobridor. Ora você ACM é o grande navegador do oceano queirosianista e não um bisbilhoteiro qualquer, ainda que endoutorado.
Por fim, já com muita interferência na “linha”, ainda lhe apanhei que, por muito menos escreveu um dia a Jaime Batalha Reis que, se ele persistisse numas absurdas acusações que lhe tinha feito, seriam elas «motivo bastante… para considerar que a nossa intimidade de tão longos anos deve sofrer alteração».
Depois a “ligação” caiu e o escritor ficou ocupado e eu fiquei sozinho, mas não já em orfandade opinativa. E com alguns a insistirem: «e então?! O que é que dizes sobre a “polémica!?
Ora, como já não há duelos à pistola, não vejo pois outro desfecho aceitável senão a FEQ e ACM entenderem-se daqui para o futuro para bem da Cultura Portuguesa e da universal divulgação da vida e obra de Eça. A Confraria Queirosiana oferecerá o vinho para o almoço reconciliativo.
Pela minha parte apenas direi que ACM acaba de prestar à FEQ mais um inestimável serviço: deu-lhe de bandeja e sem custos uma polemicazinha catita. E mesmo que a Quinta de Vila Nova não veja, para já, chegarem hordas de brasileiros a extasiarem-se diante das verdadeiras relíquias do escritor, sempre haverá um ou outro autocarro de turistas que, de máquina fotográfica em riste, dirão uns para os outros: olha a secretária de Eça que não foi a S. Paulo; olha o faqueiro, que não é faqueiro mas apenas um grupo de talheres, que não foi ao Brasil. E os mais curiosos e ledores ainda passarão pela loja a perguntar: têm cá o último livro de Campos Matos sobre Eça de Queirós? E lá partirão contentes com ele debaixo do braço à procura do seu autógrafo. Em defesa da promoção da universalidade do escritor, que é suposto a FEQ também promover em conjunto com as restantes instituições queirosianas, desejo o maior sucesso para ACM e para a Exposição em S. Paulo. Eça e todos nós ficar-lhe-emos, mais uma vez, muito gratos.

J. A. Gonçalves Guimarães
Amigo e confrade de ACM
Amigo protocolado da FEQ
Livros e textos

Sexo queirosiano

Em edição de Autor, A. Campos Matos acaba de publicar “Sexo e sensualidade em Eça de Queiroz”, com excelentes ilustrações a cores de Rui Campos Matos que valorizam sobremaneira este excelente ensaio do mais categorizado comentador da vida e obra de Eça de Queirós que refere, entre outros comentários, tratar-se de «uma incursão pormenorizada, numa área das mais originais e ricas da narrativa queiroziana, a da sexualidade, que inclui uma boa parte do seu mundo onírico fantástico… [Eça] compreendeu, muitos antes de Freud, a importância do sexo e dos sonhos na vida do homem». Finalmente sem tabus, mas também sem banalidades desnecessárias, o Eça erótico total.

À venda na Loja da Confraria.

Leiria queirosiana

O ano tem sido muito queirosiano em Leiria. Assim, logo a 23 de Fevereiro o Clube Rotário local organizou num hotel da cidade a recriação da refeição com que a S. Joaneira obsequiou o padre Amaro no dia da sua chegada. Na ocasião falaram o confrade Orlando Cardoso, sobre o Roteiro Queirosiano de Leiria e Dulcineia Silva sobre “O Crime do Padre Amaro”.
No dia 2 de Junho os confrades Ana Margarida Dinis Vieira e Orlando Cardoso animaram uma conversa sobre Eça na Feira do Livro local.
O Notícias de Colmeias de 3 de Junho, dedicou a capa e o interior à publicação de um texto da confrade Ana Teresa Peixinho intitulado “Reencontro com Leiria de Eça de Queirós…”, tendo o seu diretor, o confrade Joaquim Santos, publicado um livro de poesia e prosa autobiográficas intitulado “Imagens de Letras”, com prefácio do confrade António Eça de Queiroz.
No passado dia 15 na Biblioteca do Arquivo Distrital, pelas 18 horas, Ana Margarida Dinis Vieira, através da editora Nova Vega, apresentou ao público a sua tese de mestrado intitulada “O olhar na construção de O Crime do Padre Amaro”, curiosamente publicada após a sua tese de doutoramento intitulada “As vertentes do olhar na Ficção Queirosiana” anteriormente lançada pela mesma editora.
Algumas destas e outras atividades queirosianas foram apoiadas pela Câmara Municipal e o Encontro de Olhares Queirosianos foi promovido pela respetiva Junta de Freguesia. No entanto, os participantes nestas atividades têm lamentado o estado de abandono em que se encontra a casa onde viveu Eça de Queirós, que merecia transformar-se num polo de referência do respetivo Roteiro. Claro que a casa tem dono e, antes de mais alguém, compete ao respetivo proprietário promover a sua promoção: sendo o Património uma riqueza coletiva o setor privado tem nele tanta responsabilidade como o setor público.
Mas não há dúvidas de que Leiria está cada vez mais queirosiana.

Os olhos do padre

Ana Margarida Dinis Vieira tem explorado até à exaustão do tema o mecanismo do olhar na obra queirosiana, partindo dessa “ferramenta” física e psicológica usada nas relações humanas e na maneira como ela é descrita na prosa de Eça de Queirós e o seu importantíssimo papel na construção da sua ficção.
“O Crime do Padre Amaro”, história em que os jogos de sedução e de comunicação muito devem aos olhos e ao olhar, encontram nesta obra a sua escalpelização anatómica e literária que ajudam à releitura do romance ou mesmo à revisão das suas recriações cinematográficas, onde o ato de “ver” e (não) ser visto se tornou fundamental para entender, até que ponto, aquela obra foi, ou não, entendida pelos adaptadores, além de outras questões que nos fazem bater as pestanas.
À venda na Loja da Confraria.

Palavras Cruzadas

A Quetzal acaba de editar o livro “Palavras Cruzadas com Literatura” de Paulo Freixinho, autor deste curioso passatempo há mais de vinte anos e que o publica em alguns dos principais jornais portugueses e na imprensa estrangeira. Este livro apresenta palavras cruzadas a partir de textos de Almeida Garrett, Luís de Camões, Eça de Queirós e José Rentes de Carvalho, entre outros escritores portugueses, ao todo doze, e setenta e dois problemas e respetivas soluções. No que diz respeito a Eça e a Rentes é um bom teste aos seus conhecimentos sobre a vida e obra destes “mestre e discípulo”.

Notícias

Humor queirosiano

No passado dia 30 de Maio decorreu no Grémio Literário em Lisboa uma conferência sobre “Considerações sobre o Humor. Vergílio Ferreira e o Humor Queirosiano” por Onésimo Teotónio Almeida, professor na Brown University (EUA), onde se tem dedicado às relações americanas e portuguesas, em especial através da componente açoriana.

História da Misericórdia

Nos próximos dias 28 e 29 de Junho decorre no Auditório da Fundação da Juventude no Porto o II Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, subordinado ao tema Culto, Cultura, Caridade, o qual tem como presidente da sua comissão científica o confrade Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva. Neste congresso participarão ainda, entre muitos outros oradores, os confrades José Manuel Tedim e J. A. Gonçalves Guimarães.

Academia de História

No próximo dia 3 de Julho na Academia Portuguesa de História o nosso confrade Fernando Andrade Lemos fará uma comunicação sobre os Inválidos do Comércio.

Curso de Verão

Nos próximos dias 23 a 27 de Julho decorrerá na Fundação Eça de Queirós em Baião, subordinado ao tema “Gentes e paisagens na Literatura Portuguesa do século XIX”, com a coordenação científica de Irene Fialho.
Serão conferencistas Ana Isabel Queiroz, Maria Cristina Lopes Pais Simon e Daniel Alves.

Atividades da Confraria

Colóquio em Crestuma

No próximo dia 30 Junho pelas 15,30 h, decorrerá no Centro Náutico de Crestuma o 2.º Colóquio “Encontros do Castelo”, referente aos resultados da intervenção arqueológica que aí decorre desde 2010 sob o patrocínio das Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM e realizadas pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana e com a colaboração do Solar Condes de Resende. Na presente edição serão oradores Nuno Oliveira, diretor do Parque Biológico de Gaia; J. A. Gonçalves Guimarães, António Manuel Silva e Paulo Lima do projeto CASTR’UÍMA; M. Almeida e N. Barroca da Dryas Arqueologia e F. Almeida da Universidade de Aveiro, após o que será feita uma visita ao sítio arqueológico do Castelo de Crestuma.
As escavações prosseguem a partir dos próximo dia 23 de Julho até ao fim de Agosto.

Salon d’Automne

Até ao dia 30 de Junho estão abertas as inscrições para a participação dos artistas profissionais e amadores no Salon d’Automne queirosiano 2012, que terá lugar em Novembro próximo promovido pelos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, o qual desde 2006 vem reunindo obras inéditas ou em retrospetiva de pintura, escultura, cerâmica, fotografia e outras modalidades estéticas praticadas pelos sócios e confrades.
Entretanto prossegue no Solar Condes de Resende o curso de Pintura ministrado pela Professora Pintora Paula Alves.

Brindar com Porto

Amélia Varejão, a senhora que vestiu o Teatro; Raul Nery, um expoente da guitarra portuguesa.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 46 – Segunda-feira, 25 de Junho de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email:queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com;
coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira;
inserção: Amélia Cabral: colaboração: Joaquim Santos, J. Rentes de Carvalho, A. Campos Matos, FEQ, Nova Vega, José Pereira Gonçalves.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Eça & Outras

As fitas da Queima

Nestes dias em que é suposto os estudantes universitários estarem a estudar, redundância escusada pois o que fará um estudante senão estudar, talvez possamos refletir sobre essa festarola anual que dá pelo nome de Queima das Fitas e que não diz respeito apenas aos matriculados no ensino superior, mas a toda a sociedade por vários e óbvios motivos: ela é oriunda de instituições pagas pelo Estado (ensino público) ou por ele comparticipado (ensino privado); ocupa a via pública de algumas cidades pelo menos meio dia e não deixa o cidadão dormir algumas noites quando este mora perto dos “queimódromos”; é suposto ser uma época de júbilo pelo facto de milhares de cidadãos obterem o seu certificado pré-profissional; é um ponto de convergência de alguns interesses significativos das universidades e politécnicos, de empresas, das famílias e do turismo.
Não é pois um acontecimento qualquer e quem isto escreve nem sequer o faz com o distanciamento necessário: já fui, e sempre serei, estudante universitário, mesmo depois de já ter sido professor; já tive vinte e poucos anos e sei como isso é bom; também já cometi alguns excessos de júbilo ao longo da vida. De modo que não estou a escrever qualquer diatribe contra os estudantes, os jovens, a queima ou a universidade, mas apenas a refletir, a tentar compreender e depois opinar a quem interesse, se possível com proveito. É certo que eu sou de uma geração que se interrogou sobre a Queima e o que ela representava. Quando acabei a licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto no início dos anos oitenta do século passado houve duas manifestações paralelas: a “tradicional” Queima das Fitas e a contracorrente Teima das Pitas, denominação inspirada no facto de serem as colegas de Línguas as acérrimas defensoras da primeira sem tirar nem pôr. Ou seja, tínhamos consciência de que algo estava mal, que mesmo a “tradição” bebida em Coimbra e no In Illo Tempore do Trindade Coelho tinha de ser questionada, até porque o mundo não para e porque lhe estavam associadas praticas que com ela nada tinham a ver: a nível interno os privilégios e compadrios nas comissões de estudantes, associações e federações que os levavam a gastarem dinheiro público à tripa-forra com a conivência das instituições e, por outro lado, os inefáveis patrocínios das empresas de bebidas que assim distribuíam acidentes mais ou menos graves e comas alcoólicos a jovens que até aí só bebiam gasosas e mazagrãs. E, em último caso, porque achávamos que um estudante universitário devia chegar ao fim do curso com algum espírito crítico sobre as coisas que o rodeiam, sem obviamente deixar de gostar da camaradagem com os seus pares, de uma boa festança, de um fado gemido à Lua ou mesmo do trajo identificador da sua condição, o qual, tendo começado por ser branco no batismo e na comunhão solene, era agora negro para ambos os sexos, porque a sabedoria é hermafrodita.
Ao mesmo tempo interrogávamo-nos porque é que havia cursos de primeira e de segunda para a mesma área do saber: não seria melhor pôr aquilo por escalões em que se começasse por aprender o b a bá, perdão, o BÊ A BA (estamos a falar de universidades e politécnicos!) e depois, os que tivessem interesse, capacidade, dinheiro ou bolsas (estas por mérito, obviamente) lá chegariam aos mestrados e doutoramentos? Já então nos arrepiava a fatiação das licenciaturas em super-especializações logo a partir do primeiro ano, sem que o estudante conhecesse minimamente o universo da área do saber que queria aprender para exercer uma profissão. Espantava-nos que os colegas de outras faculdades quase nada soubessem sobre a evolução histórica e o enquadramento dos seus cursos no mundo, mas isso logo percebemos que era exigir aos professores erudição e capacidade pedagógica que muitos deles não tinham e também aquilo a que se chama mundividência das coisas. Sabíamos que havia excelentes entendidos na teoria do parafuso, mas que não sabiam quando ele tinha sido inventado e mesmo qual seria a sua utilidade prática no mercado do trabalho que nos esperava. E essa era outra questão que então muito nos interessava, mas que nenhum professor abordava nas aulas: obtido o “canudo” como é que íamos exercer a profissão? Quais as regras de inserção profissional? Quem definia como a exerceríamos? Estas perguntas não eram obviamente iguais em todos os cursos, mas eram transversais a todos os finalistas. Aquelas profissões que tinham “ordens” tinham a questão meia facilitada, os outros não.
Tudo isto gerava revolta e indignação nos estudantes, até porque muitos supunham que, com o “canudo” na mão, a sociedade tinha de continuar a sustentá-los, ou seja, dar-lhes emprego. Mas a preocupação ou a indignação dos estudantes nunca preocupou muito os poderes, até porque normalmente não anda articulada com os verdadeiros problemas sociais. É uma coisa só deles.
Já no seu tempo Eça de Queirós escreveu: «Os estudantes, geralmente, têm a revolta muito fácil, mas muito curta. E desde que os barulhos são feitos unicamente por estudantes, a ordem renasce de repente, quando uma madrugada eles se sentem esfalfados de tanto berro e de tanto encontrão, e recolhem-se a casa para mudar de roupa e de entusiasmo» (Cartas de Paris, Bilhetes de Paris), como se viu com a geração de Maio de 68 e a de Coimbra de 69: eles estão hoje no poder e o mundo está pior do que era porque a curteza de vistas pequeno burguesa não soube dar consistência ao sonho de um mundo realmente melhor. Eles eram realmente e só «os meninos com a China na bota e o papá na algibeira» como cantou o tonitruante Ary dos Santos, então metido com outros engarrafadores de sonhos a haver.
Passada a recente “Queima”, recuperados das farras próprias de gente com vinte e poucos anos, e depois de esquecidos alguns dos equívocos culturais e sociais que estamparam nos carros do cortejo porque nenhum, ou muito poucos, dos seus professores lhes disseram para que é que efetivamente serve o parafuso que tão bem descreveram nas suas cábulas, só desejo que os finalistas acordem cedo, que lavem bem a cara, que se olhem no espelho e respondam a si próprios com verdade a estas questões: “ouve lá ó doutor, o que é que aprendeste? O que é que sabes fazer? Para que é que serves? Quem é que te vai dar trabalho?”.
Se souberam responder nem que seja só a três destas questões podem realmente queimar as fitas e então um grande éférreá para vocês, meus caros jovens colegas, e bem vindos à luta pela vida. Os outros podem continuar em frente do espelho à espera da fada madrinha da infância de onde ainda não saíram e da qual não haverá licenciatura, mestrado, doutoramento ou pós-doutoramento que os tire. E provavelmente cantarão o “quero ficar sempre estudante” de um sonho que ficará gasto no tempo.

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros e textos

Guia do Cabedelo

No passado dia 7 de Maio na Reserva Natural Local do Estuário do Douro, mais conhecida por Cabedelo, situado na freguesia gaiense de Canidelo, foi lançado o seu Guia, coordenado pelo nosso confrade, diretor desta reserva e do Parque Biológico de Gaia, Nuno Gomes Oliveira, que na ocasião se referiu à importância do ato e do livro que coroam um esforço persistente de 30 anos na defesa e proteção desta área de conservação da Natureza.
Prefaciado por Luís Filipe Menezes o livro apresenta vários estudos escritos em linguagem acessível e muito ilustrada, da Geologia à Biologia passando pela Arqueologia e pela História. Nele colaboraram, entre outros confrades, Nuno Gomes Oliveira - «Estuário do Douro ano após ano» e «30 anos de conservação da Natureza no Estuário do Douro», e J. A. Gonçalves Guimarães e António Manuel Silva - «Arqueologia, Etnologia e História do Cabedelo».
O coordenador desta edição e deste acontecimento ambiental concedeu ao jornal O Publico uma vigorosa entrevista no dia 13 de Maio passado onde comentou com desassombro os projetos que estiveram previstos para dar cabo daquela zona e que, felizmente, não foram implementados.

 
Porto Romântico

No passado dia 9 de Maio, no campus da Foz da Universidade Católica do Porto foram lançados os dois volumes das Atas do I Congresso O Porto Romântico, que ali decorreu no ano passado, coordenadas por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa.
Num total de mais de mil páginas os investigadores presentes publicaram um notável painel sobre as manifestações sociais, politicas, económicas, artísticas e culturais do período romântico e alguns de entre eles, vindos de algumas escolas e áreas do saber onde não é feita exegese teórica sobre o conhecimento histórico, apresentaram mesmo manifestações pós-românticas, ou tidas como tal, até às primeiras décadas do século XX!
De entre os muitos autores presentes encontramos os artigos dos confrades queirosianos José Augusto Maia Marques - «Da Vida e da Morte: Associações Mutualistas no Porto Romântico»; Nuno Resende (com Ana Cristina Correia de Sousa) - «“Os Brilhantes do Brasileiro”, uma visita à família dos ourives Mourão», no I volume; e J. A. Gonçalves Guimarães e Susana Guimarães - «Aspetos românticas na vida do 1.º Visconde de Beire», onde se analisam as dimensões teóricas e cronológicas do Romantismo e aspetos biográficos do bisavô dos filhos de Eça de Queirós, no II volume.

Discípulo de Eça

J. Rentes de Carvalho,
por Adélio Martins, 2012



Do blogue Kyrieeleison-jcm transcrevemos esta passagem de um texto assinado por JCM sobre a republicação recente de O Rebate de José Rentes de Carvalho: «O Portugal de O Rebate vem na continuidade do Portugal de A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz. Onde, todavia, Eça mitifica e prodigaliza de virtudes essa cultura particular e castiça, Rentes de Carvalho desconstrói e manifesta a sua natureza distópica e totalitária. Esse Portugal ruralizado não é apenas um país tecnologicamente atrasado, mas um universo mesquinho, cruel e doentio. O Rebate é, em última análise, o diagnóstico, com a crua exposição dos sintomas, de uma doença que corrói o país. Fará ainda sentido, passados 40 anos da publicação original e com as transformações sociais e políticas que ocorreram, ler Portugal através desta obra? Se se abandonar a descrição totalitária e nos concentrarmos na natureza da cultura, descobrimos que, para lá do verniz que os mas media e a integração na União Europeia trouxeram, dificilmente se deixa de ser aquilo que se é. Os campos despovoaram-se, as cidades encheram-se, bem como as escolas e as universidades. Isso significa, porém, que o campo invadiu a cidade, tomou conta das escolas e transformou a universidade naquilo que se vê nas Queimas das Fitas, nos espetáculos de música pimba que tanto alegram os nossos estudantes e nas monumentais bebedeiras a que se entregam. A aldeia desapareceu para invadir tudo e de tudo tomar conta. A dinâmica da perversidade que Rentes de Carvalho retratou disseminou-se e age difusamente até naqueles sítios onde a imparcialidade e a universalidade deveriam ser a pedra-de-toque».
Entretanto Adélio Martins, pintor amador de Leça do Balio, Matosinhos, admirador de José Rentes de Carvalho, leitor de todos os seus livros publicados e do seu blogue tempo contado pintou recentemente o retrato do escritor que acima se reproduz. Tendo-lhe oferecido, o autor de O Rebate aceitou-o e mandou integrá-lo no seu espólio da Confraria Queirosiana existente no Solar Condes de Resende, onde passou a ficar exposto ao público.

Notícias

Diz-me d’eças

Nos dias 25 e 26 de Maio no Teatro Rivoli do Porto os atores António Machado e Philippe Leroux apresentaram «um ensaio partilhado com o público, que vai ficando crescentemente surpreendido com a atualidade de textos tão antigos… de Eça, Aquilino, Camões, Pessoa e muitos outros».
Será que alguém foi ver o “ensaio” e o quererá comentar neste blogue?

Atividades

Mitos do tango

No próximo dia 9 de Junho, sábado decorrerá no Solar Condes de Resende uma ação de formação intitulada “Mitos do Tango” dividida em duas partes: às 17 horas uma tertúlia sobre o tema, com entrada livre; às 22 horas “Milonga”, por inscrição prévia. A formação será ministrada pelos professores Inês Tabajara, Patrícia Santos, Carlos Cabral, Pedro Pimenta e implica inscrição prévia. A organização é dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana.

Arqueologia

Escavações em Crestuma

Pelo terceiro ano consecutivo o Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ) vai realizar escavações no Castelo de Crestuma, Vila Nova de Gaia, com o patrocínio da empresa Águas e Parque Biológico de Gaia EEM, para o que está a organizar uma equipa profissional de arqueólogos aceitando ainda inscrições de estudantes de Arqueologia.
Os resultados desta intervenção têm sido apresentados em diversos colóquios e congressos e deverão ser publicados nas respetivas atas.

Brindar com Porto

Dietrich Fischer-Dieskau, que elevou ao supremo a voz masculina; Miguel Portas, pela sua generosidade nas causas em que acreditava.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 45 – Sexta-feira, 25 de Maio de 2012
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terça-feira, 24 de abril de 2012

Eça & Outras


A Invenção da Alma

Livros há que deviam desencadear revolução mal saíssem do escaparate do livreiro para a estupefação do leitor. Não a revolução violenta e botabaixista a que a História nos habituou, mas a interior, a que resultasse da varredela que cada um fizesse na sua alma, esse frigorífico, pessoal ou coletivo, branco como convém, sem as segurezas do cofre inviolável e sempre à mão para guardarmos à temperatura conveniente a memória em filetes e as convicções em saquinhos, prontos a usar em qualquer repasto social que tenhamos de confecionar, em grande ou pequena escala, cada um por si ou, soma disso tudo, como povo.
Como arqueólogo, mais habituado às materialidades dos objetos e ao mobiliário da história, para mim a alma concebo-a como um indispensável eletrodoméstico pessoal ou coletivo – existem armazéns frigoríficos – evidentemente com vários modelos e versatilidades, mas, no fundo, no fundo, muito idêntica de pessoa para pessoa, de povo para povo. As diferenças estarão no que lá se arruma, no que lá se esquece, no que lá se pensa que se tem e, quando se vai buscar para servir, ou já não está capaz, até porque passou o prazo de validade, ou já se guardou deteriorado. E depois, a quantidade de “alimentos” inúteis ou que aí fomos guardando, que nos dão “refeições” artificiais, estragadas ou ilusórias, é verdadeiramente assombrosa. Mas reflexão muito melhor sobre estes assuntos acaba de publicar Jaime Milheiro, psiquiatra e psicanalista, um livro intitulado “A Invenção da Alma, um olhar psicanalítico”, com prefácio de Eurico Figueiredo pela Editora Fim de Século, o qual reúne uma coletânea de conferências, entrevistas e outros escritos que têm como fio condutor a quase totalidade das atitudes humanas perante o que cada um faz e pensa de si próprio, as orfandades que tem e que não consegue superar, os jogos de habilidades sociais e coletivas, os grandes e pequenos mitos da quotidianidade. E se a curiosidade vos acompanhou até aqui, saibam que para o autor o meu frigorifico nem sequer existe, como muito bem demonstra no capítulo “A invenção da alma”, onde, entre muitos outros considerandos pertinentíssimos, pergunta pela sua rota histórica, ou seja, quem a inventou, a partir de quê e para quê e se um “desalmado” será muito pior pessoa do que as pias almas do passado, do presente e do futuro que conhecemos. Mas, mas então, tantos séculos de lutas e de progresso da humanidade prescindem assim, com uma penada deste pensador que remete para as inutilidades do sótão humano essa (a expressão é do autor) entidade voadora? Aí explica que somos dados à “misteriosidade” (outro conceito seu) desde que nascemos e que já foi nessa escola que fomos concebidos e gerados, pois de outro modo ainda saltaríamos descontraídos de galho em galho, conforme magistralmente descreveu São Darwin. Pois, mas essa “misteriosidade” tem-nos dado problemas porque passamos a querer muito mais do que a ração de bolota quotidiana disponível. E daí foi um passo para as pequenas e grandes ansiedades e a invenção da religião, da justiça e da ordem social, que distribui a cada um a ração que entende caber-lhe, o que gera enormes zangas pessoais e coletivas que só a mentira e os mentirosos aquietam temporariamente. E, em vez de cada um procurar saber ao certo qual a figura que lhe cabe neste jogo de xadrez, desenvolvemos elaboradas teorias da conspiração que deram origem a novas profissões como os comentadores e os politicólogos, pois ninguém lhes quererá chamar “aldrabões encartados” e, no fundo, como conclui Jaime Milheiro «é preciso confiar para haver cidadania», ainda que sejam demasiado ruidosos os «jogos de inveja e (in)gratidão» que existem e sempre existiram levando o autor a interrogar-se «Sorte e azar»: onde estarão os deuses?».
Por fim, quase no fim, mas ainda a cinquenta páginas do fim do livro, o autor arrima-se a musicas e silêncios na procura da sua insofismável beleza que a sua condição profissional de psicanalista tão bem conhece e que se revelam em luminosidades humanas quando os seres que analisou se despem da alma, essa vestimenta que nos oculta de nós e dos outros e que já herdamos à nascença sem ser feita à nossa medida, remendada, tresandando a sebos de problemas por resolver ao longo das eras, e que raramente nos assenta bem, ainda que retocada pelos alfaiates e modistas de serviço.
Eça de Queirós, que é artista da palavra e não tem obrigações de cientificidades, descreveu-nos como «… figurinhas de biscuit, criaturinhas dessoradas, cheias de humores linfáticos, dum miúdo de figuras de missanga, duma amarelidão de hospital. Nem andam, nem riem, nem se movem, nem pensam: resvalam. Têm um sorriso desfalecido, os rins quebrados, os braços moles – um ar gelatinoso: é uma raça caquética, minada, espremida, lassa, cor de pele de galinha» (A Tragédia da Rua das Flores). Neste seu livro, Jaime Milheiro explica-nos agora que muito de tal se deve à alma, uma «… das mais inspiradas invenções dos seres humanos» a qual, se a eliminássemos da nossa mente e da nossa vida «desenvolver-se-ia o sentido da responsabilidade, aumentar-se-ia o sentimento de justiça, elevar-se-ia a humana condição. Sem almas em risco, sentir-nos-íamos mais pessoas e melhores pessoas» (p.33).
Mas, provavelmente, ainda que muitos de nós leiam o seu livro e até abanem aqui e ali a cabeça em assentimento, tendo o olho nas lombadas das obras sobre anarquismo e niilismo, continuaremos todos inscritos nas nossas confrarias das almas fritando-nos a nós próprios, ou deixando-nos tostar, no lume nem sempre brando das conveniências.

J. A. Gonçalves Guimarães

Livros e textos

1ª edição 1971
O Rebate

Editado pela primeira vez em 1971, O Rebate é um romance do nosso confrade José Rentes de Carvalho passado numa aldeia transmontana confrontada com as liberdades sexuais da mulher francesa de um seu emigrante que regressa à terra natal para mostrar o seu sucesso na vida, mas que se tem de confrontar com a falsa pacatez e moralidades circundantes de um mundo reprimido pelas conveniências das autoridades religiosas e policiais, a que nem o jovem pároco escapa. Um verdadeiro retrato do Portugal salazarento sem perspetivas, como se tem visto, dos “amanhãs que cantam” contado em linguagem cinematográfica de uma incrível frescura e permanência a que o escritor nos tem habituado.
Passados quarenta anos, esta nova edição está nos escaparates desde 13 de Abril e será apresentada na Feira do Livro de Lisboa no próximo dia 28 de Abril às 19 horas e depois noutros locais.
Entretanto veja o seu blogue “Tempo Contado”.

Enciclopédia Einaudi

Ele há pessoas assim: J. M. Leal da Silva, engenheiro químico e mestre em Antropologia «tendo experimentado a dificuldade de abordar na especialidade alguns dos 43 volumes»… da Enciclopédia Einaudi, procurou «… de uma forma simples e rápida elaborar, como apontamentos pessoais, índices auxiliares que permitissem localizar os respetivos temas» e que agora põe à disposição gratuita de todos os interessados enviando-os por email para todas as Bibliotecas Municipais ou para quem os quiser receber. Por sua expressa autorização vamos colocá-los no confrariaqueirosiana.blogspot.com, partilhando assim a generosidade do autor destes índices.

Exposição

Amadis de Gaula

A partir do próximo dia 11 de Maio e até ao fim de Junho estará patente no Solar Condes de Resende uma exposição sobre Amadis de Gaula Cavaleiro Medieval, cujo romance terá sido escrito no século XIV por Vasco de Lobeira. Editado a primeira vez em Espanha em 1508 tem várias edições e adaptações recentes.
Comissariada por José Valle de Figueiredo, esta exposição apresenta uma exaustiva pesquisa temática editorial e estética sobre este apaixonante tema da Cultura Portuguesa que inspirou compositores como Lully, Haendel, Bach, Messenet e Ivo Cruz.



Noticias
175 anos do Real Gabinete

O Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro, Brasil, comemora em 2012 os seus 175 anos de existência, pois foi fundado em 1837. O atual edifício sede, um insuperável templo da Portugalidade no mundo, foi inaugurado em 1887, tendo no ato estado presente o escritor Ramalho Ortigão.
Possui a maior e mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal, totalmente informatizada e, além de livros e manuscritos raros e valiosos, possui ainda notáveis coleções de pinturas, escultura, ourivesaria e numismática portuguesa. Realiza cursos de Literatura, História, Antropologia, Artes e Linguística destinados principalmente a estudantes universitários.
É seu atual presidente o poveiro Dr. António Gomes da Costa.


Confrarias

Delegação da Confraria Queirosiana
na Confraria da Fogaça



No passado dia 1 de Abril a Confraria Queirosiana esteve presente no Ciclo do Borrego organizado pela Confraria da Moenga na cidade onde Eça de Queirós dirigiu o jornal Districto de Évora em 1867.
No dia 15 de Abril fomos parabenizar a Confraria da Fogaça ao Castelo da Feira no seu 10º aniversário.
No dia 28 de Abril estaremos no 2.º capítulo da Confraria dos Sabores de Sintra, de que a Confraria Queirosiana é madrinha.
Nestas realizações gastronómicas os corpos gerentes da Confraria Queirosiana estabelecem diversos contatos para a realização de atividades culturais conjuntas.


Arqueologia

Os arqueólogos do projeto CASTR’UIMA do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-CQ têm estado presentes em diversos eventos científicos onde têm apresentado os resultados da análise do espólio das escavações arqueológicas do Castelo de Crestuma. Assim, no passado dia 14 de Abril, António Manuel Silva e Laura Peixoto participaram no 1.º Encontro de Cerâmica Medieval do Norte e Centro de Portugal (séc. IX-XII) que decorreu no Museu Monográfico de Conimbriga. Nos próximos dias 3 a 5 de Maio estarão presentes no 1.º Congresso Internacional sobre Arqueologia de Transição que decorrerá na Universidade de Évora.

Núcleos bibliográficos

A biblioteca dos Amigos do Solar Condes de Resende-Confraria Queirosiana, tem, neste momento, os seguintes núcleos bibliográficos organizados pelos doadores ou a partir das indicações dos seus antigos proprietários:
- Núcleo Manuel Inácio Luís e incorporações posteriores por seu filho Acácio Edgar Alves Luís: Anarquismo e questões sociais.
- Núcleo Teófilo Braga coligido por sua discípula professora Drª. Júlia Cunha: Bibliografia sobre Teófilo Braga, manuscritos e fotografias; documentos e bibliografia da discípula.
- Núcleo Rocha Artes Gráficas: Livros, periódicos, opúsculos e outros impressos desde os anos 60 do século XX desta empresa fundada em 1895.
- Núcleo Dr. Raul Ferreira da Silva: livros e outros que pertenceram a este médico otorrinolaringologista organizados pelas áreas de sua especial predileção: Medicina e História da Medicina; História de Portugal; História do Mundo; História do Desporto; História da Arte; História da cidade do Porto; Geografia e Viagens; Revistas.
Estes núcleos bibliográficos estão à disposição dos interessados durante o horário de abertura do Solar Condes de Resende.

Brindar com Porto

Beber um Porto sim, com: Jorge Miranda, pela defesa do uso da língua portuguesa em Portugal e no Mundo; Isabel Moreira, a deputada independente; Günther Grass, porque não existem bombas atómicas “boas” e outras “más”; Ai Weiwei, o artista vigiado.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 44 – Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
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J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

domingo, 25 de março de 2012

Eça & Outras


A doença da saúde

Qualquer dicionário dirá que doença é «falta de saúde; enfermidade; moléstia; sofrimento; mal» e, de forma figurada, qualquer «coisa incómoda; defeito; vício e mania». De forma mais científica definir-se-á doença como a incapacidade momentânea ou crónica, física ou psíquica, que o individuo experimenta na relação consigo próprio, com o meio ou com os outros.
Já agora saúde será a «ausência de doença, o estado do que é são». Ser saudável deveria pois ser uma situação comum. Estar doente, um incómodo temporário. Ser doente, uma desgraça irremediável. Há também os traumatismos da vida quotidiana, acidentais mas inevitáveis, mais ou menos graves. Ferida não é doença; gravidez não é doença; cansaço por falta de descanso não é doença, etc. Mas tudo isto foi desvirtuado pela indústria da doença: hoje ser-se saudável é uma exceção, uma raridade; vai-se ao médico para ver se se está doente, pois o próprio cidadão não sabe se está e se souber acha que um simples resfriado pode esconder uma terrível doença incurável e, portanto, convém prevenir, ir à clinica de família, do seguro, da empresa, à “caixa”. Tomar vacinas, vitaminas, xaropes, pastilhas, injeções preventivas, curativas e adiativas de nova interrogação. Convém fazer análises químicas e bacteriológicas, ao sangue, à urina, às fezes, às lágrimas se for o caso, e radiografias, ultrassons, radiações magnéticas e desmagnetizadas, fisioterapias, radioterapias e outras coisas mais. E tudo isto comparticipado pelo Estado, mesmo quando os medicamentos se empilham em casa sem qualquer proveito para o utente, mas sempre muito para a indústria farmacêutica e os seus inúmeros intermediários: delegados, publicitários, advogados, farmacêuticos, políticos que prometem pilulas grátis para todos, agentes de viagens, polícias que apreendem drogas ilegais que fazem concorrência às legais, enfim um mundo verdadeiramente impressionante de interesses para os extraterrestres que nos observam.
A indústria da doença é um cancro incontrolável e incurável no mundo ocidental e consome todos os anos recursos cada vez mais vastos e mais caros originando em toda a humanidade uma epidemia catastrófica: a falência. E quando tal acontecer a discussão sobre as orientações do Serviço Nacional de Doença serão completamente inúteis, porque estaremos todos, os que tiverem sobrevivido, a tomar chá de cidreira e, os mais deprimidos, o cornelho do centeio.
Eça de Queirós morreu relativamente novo e doente. Se fosse hoje, com os indiscutíveis progressos pontuais das Ciências Médicas, talvez tivesse durado mais tempo e escrito mais livros para nossa satisfação intelectual e social. Revendo o que escreveu sobre a medicina do seu tempo, dirão os malévolos que foi muito bem feito, que pagou bem cara a sua impertinência ao concluir que «… só havia três ciências de curar. Uma, a dos monges, por meio de peregrinações, milagres e contatos de relíquias, e era esta falsa, porque o ilustre físico árabe Razei provara que Deus não se intromete com a saúde das criaturas. A outra, a do Povo, feita toda de feitiços, esconjuros e sortilégios, era ilusória porque vem do Diabo, e o Espirito do Mal não pode promover o bem humano. E a terceira, a verdadeira, a eficaz, essa ainda não chegara a estes reinos de Portugal, e estava toda em França, terra de grandes escolas» (Lendas de Santos). Pois é, meu Eça, mas as coisas mudaram muito e agora já cá temos a escola francesa, a inglesa (mãe do Serviço Nacional de Doença) e a americana (medique-se a si próprio e vai ver como as suas ações da indústria farmacêutica sobem na Bolsa!). Já podemos todos ter um cartão de doente e até ser filiados nas associações dos diabéticos, dos estrábicos, dos hepatoproblemáticos, dos que roem as unhas, dos que têm má digestão, e todas as outras cujos filiados têm uma doença de estimação verdadeira, fictícia ou conveniente. Curas milagrosas, peregrinações e relíquias são agora muito mais do que no seu tempo, em que só havia a água de Lourdes e a do Jordão para os problemas mais difíceis.
Não obstante a existência de um universal sistema de saúde geral, ritualizado, mas pouco humano, talvez por isso se continue a recorrer, além dos milagres, das bruxas e curandeiros, a todos os que falam com os deuses egípcios, brasileiros ou africanos que, por mais benéficos que sejam, não conseguem derrotar o deus ocidental parido no incontrolável cosmos e que se chama Orçamento. Estamos pois muito mais ecuménicos, mas muito menos económicos.
Eça escreveu n’Os Maias: «O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…». Pois é, meu Eça, mas hoje querem convencer-nos que, dando-nos cabo do corpo, ficaremos reduzidos a almas… consumidoras, tristes, dependentes, incapazes de comermos um bom bife e um bom copo de vinho sem ter de ir depois a correr ao hospital ou à farmácia.
E aí, meu Eça, “ela” lá está sobre a porta, no reclamo luminoso, a serpente que expulsou nossos humanos e sadios progenitores do Paraíso. A mesma serpente que nos envenena hoje a existência enrolada na taça do remédio.
E dali ninguém a tira. Desejo-vos pois a todos muita saudinha, e oxalá vocês a queiram.
J. A. Gonçalves Guimarães

CURSOS & CONFERÊNCIAS

Curso sobre Eça
No passado dia 24 de Março terminou no Solar Condes de Resende a segunda edição do Curso livre sobre “Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época” com a sessão de encerramento proferida por J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Eça de Queirós, a China e os Chineses”. Neste curso, organizado pela Academia Eça de Queirós, foram também palestrantes Fernando Coimbra, Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Nuno Resende, Anabela Freitas, José Maia Marques, Jaime Milheiro e Ana Margarida Dinis Vieira.
Em outubro próximo o novo curso terá como tema “O esplendor da Arqueologia” e, como habitualmente, será ministrado por professores desta Academia.

Outras conferências
29 de Março, 18 horas – Biblioteca Municipal da Régua, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “O Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo”;
13 de Abril, 18,30 horas – Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, Vila Nova de Gaia sobre “Da Geomorfologia à História do espaço onde se implantou a Avenida da Republica”;
20 de Abril, 21 horas – Escola Secundária D. Inês de Castro, Canidelo, Vila Nova de Gaia, sobre “Contributo para o estudo da iconografia ficcional de Inês de Castro”.

Livros e textos



Revista queirosiana
O Centro Cultural de Telheiras, Lisboa, acaba de distribuir mais um número da sua revista referente a Dezembro de 2011 com estudos sobre Eça de Queirós e a sua época apresentados no XVI Colóquio dos Olivais, nomeadamente “Eça de Queirós e o Desporto”, por César Veloso, “A rainha D. Amélia e a questão social” por Elisabete Rocha e ainda muitos outros sobre a região de Lisboa, do Lumiar, Olivais e Telheiras e outros de índole nacional como o trabalho de Rodrigues Vaz sobre “Afonso Ribeiro, precursor do Neo-realismo…” nascido na Vila da Rua em Moimenta da Beira e que durante uma parte da sua vida viveu em Gulpilhares e foi professor primário em Vilar do Paraíso, Vila Nova de Gaia.
A direção da revista é do nosso confrade Fernando Andrade Lemos e de José António Silva.

Dança
No Solar Condes de Resende, nos dias 28 e 29 de Abril, sábado e domingo, decorrerá um workshop de Tango Argentino organizado pela Confraria Queirosiana e ministrado pelos professores Inês Tabajara e Carlos Cabral.

Exposições

Rostos & Pessoas
No edifício do Centro Académico do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (antigo BC 9) está exposta até 30 de Abril a mostra de esculturas “Rostos & Pessoas” de Helder de Carvalho, que apresenta retratos esculpidos de grandes figuras da Cultura portuguesa do passado e do presente.

Humanidades
No próximo dia 3 de Abril, às 21.30 horas na Galeria da Casa do Médico, ao jardim da Arca de Água, no Porto, abre ao público a exposição dos mais recentes bronzes e ferros de Beatriz Pacheco Pereira.

Doutoramento
Doutor Nuno Resende
No passado dia 21 de Março apresentou provas de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o historiador Nuno Resende, membro do Gabinete de História, Arqueologia e Património, da Confraria Queirosiana e dos seus corpo gerentes.
A sua tese intitula-se “Fervor & Devoção: património, culto e espiritualidade nas ermidas do Montemuro, séculos XVI-XVIII”, e foi aprovada pelo júri com louvor e distinção.


Noticias
Solar Condes de Resende
No passado dia 19 de Março, Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, procedeu à apresentação pública da nova alameda com o nome do nosso sócio Francisco Barbosa da Costa, construída em frente do Solar Condes de Resende, que assim se apresenta valorizado no seu novo enquadramento.
As obras foram feitas por administração direta da Câmara Municipal com a colaboração da Junta de Freguesia de Canelas e o novo espaço promete ser local para grandes eventos culturais.


Brasil

Do lado de lá do Atlântico chegaram pelo telefone em saudação à nossa Confraria as vozes queirosianas de Dagoberto Carvalho Júnior, sua esposa e demais confrades reunidos com os nossos embaixadores itinerantes, Carolina e Alberto Calheiros Lobo, em gastronómico e literário convívio e brindando com Duas Quintas, produto do nosso confrade João Nicolau de Almeida casado com a confrade Graça Eça de Queirós Cabral Nicolau de Almeida, bisneta do escritor. Este mundo é realmente pequeno e estas são as pontes da cultura e do afeto do Quinto Império.
Entretanto no próximo dia 31 de Março será lançada no Cine-Teatro de Oeiras (Piauí) o primeiro número da Revista da Confraria Eça Dagobertiana, comemorativa do seu 2.º aniversário.
Eleições
No passado dia 22 de Março foram eleitos os novos Corpos Gerente dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana sendo a lista dos candidatos proposta pela anterior direção. Apresenta continuidade em relação à do mandato anterior, mas também renovação de quadros quer com experiência profissional, quer com juventude. A Mesa da Assembleia Geral tem como presidente César Oliveira, a Direção José Manuel Tedim e o Conselho Fiscal Manuel Filipe de Sousa.

Necrologia
Falecimento
No passado dia 21 de Março faleceu o médico psicanalista Pedro Luzes, autor de “Sob o Manto Diáfano do Realismo, Psicanálise de Eça de Queiroz”, Lisboa, Fim do Século, 2001, 405 pp., tendo ainda colaborado no “Dicionário de Eça de Queiroz” dirigido pelo nosso confrade A. Campos Matos. A Revista Portuguesa de Psicanálise, a sair em breve, dicar-lhe-á o seu próximo número.


Brindar com Porto

Ergo o meu cálice a:
Kofi Annan, por mediar a carnificina da Síria; Dinarte Machado pela direção da equipa que restaurou os órgãos de Mafra.
Não, não quero brindar, nem com água, com: Mohamed Merah, o assassino de Toulouse.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 43 – Domingo, 25 de Março de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
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eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira;
inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho Júnior; A. Campos Matos; Fernando Andrade Lemos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Eça & Outras

CANÇÕES E CANÇONETAS


Quem alguma vez refletiu sobre o ato de cantar em Portugal logo deparou com inúmeras perplexidades: nós não cantamos espontaneamente, muito menos por prazer e, de um modo geral, confundimos o cantar com o berrar ou mesmo com o vociferar, ainda que ritmado, o esganiçar, o grunhir. Basta ouvir como berramos o hino nacional e está tudo dito. Ainda que em jejum, cantamos sempre com a barriga como depois da almoçarada. Tirando umas cançõezinhas mais ou menos conhecidas e harmoniosas cantadas em terras onde houve mosteiros e professores de música que deixaram tradição; tirando as cidades e vilas onde houve orfeão ou teatro lírico, o resto é uma desgraça de pieguice, primarismo vocal e musical, macaquice de imitação, horrorosos karaokes, um pavor de ouvir-se. Depois temos o fado: «Atenas produziu a escultura, Roma fez o Direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou? – O Fado» (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras). Por isso acho bem e justo que o fado seja património português de reconhecimento internacional, isso de património mundial é uma enorme contradição, pois não estou a ver os australianos ou os suecos a trautearem o “Ai Mouraria”. Mas, a despeito da classificação, continuamos a comprar tudo quanto é cantiga e música estrangeira sobretudo inglesa e norteamericana. Claro que existem aquelas músicas mais ou menos universais a dois níveis: as de elaborada escola – Mozart, Verdi, outros mais recentes – e as cançonetas para as rádios, televisões, cinema e festanças públicas, algumas das quais ficarão na memória. Poucas. A maioria são como os chicletes, suportam-se enquanto estão “doces”.
Em termos cançonetísticos, entre nós o panorama é mauzote, mas temos muitas exceções que são, as mais das vezes, nada mais que exceções. Não deixam exemplo nem fazem escola. Mas sendo de qualidade reconhecida, raramente passam nas nossas rádios e televisões ou nos nossos festivais, que preferem divulgar a banalidade estrangeira promovida pelas grandes empresas de espetáculos ou aquela macaquice de imitação insuportável nas televisões e que paga direitos de autor para a estranja. Lembram-se da Lei da Rádio?
Tenho poucos preconceitos nacionalistas, mas banal por banal, preferia que aquele imposto que eu pago no recibo da luz para ouvir rádio ou o canal televisivo, extorquido sem direito a reclamações, ficasse por cá e até fosse pago a alguns maus cantores para deixarem de cantar ou, se ainda fossem a tempo, para aprenderem.
Também não tenho preconceitos musicais, pois só conheço dois tipos de música: a que gosto e a que não gosto. Schubert e Schumann só ouço como fundo sonoro laboral; Pinho Vargas não consigo ouvir distraído, mas as razões serão outras. Um concerto ao ar livre não é a mesma coisa que colocar o CD na maquineta lá de casa.
Às vezes uma melodia é uma coisa bem simples: «Aquela música é como o amor: juntam-se as imagens e as comparações, tenta explicar-se – mas não se pode dizer o que ela é. Foge pela sua natureza abstrata à expressão escrita. Nunca a filosófica instrumentação de Meyerbeer, nem o idealismo de Beethoven, nem a luminosa serenidade de Mozart, nem a música vermelha e diamantina de Verdi, nem o romantismo apaixonado de Donizetti – nunca nada me deu a impressão profunda daqueles cantos árabes nas ruas do Cairo. São tão belos que entristecem, tão sensuais que são quase lacrimosos, tão doces que desesperam: é a música dos nervos; são os nervos que cantam…» (Eça de Queirós, O Egito).
Cantemos pois com arreganho os nossos estados de alma, um fado, um hino, um rap. Mas com qualidade, com esmero e com conteúdo adequados ao tempo, à arte, à sabedoria das coisas: «Os tristes, os deserdados, os pobres, os oprimidos, quando tudo lhes falta, o pão, o lume, o vestido, têm sempre, no fundo da alma, uma cantiga pequena que os consola, que os aquece, que os alegra. É a última coisa que fica no pobre. E então a cantiga vale mais do que todos os poemas» (Eça de Queirós, Distrito de Évora).
Por isso cantemos, que «quem canta seus males espanta» (popular).

J. A. Gonçalves Guimarães


VII FÓRUM INTERNACIONAL DE SINOLOGIA

Decorre nos próximos dias 1, 2 e 3 de Março no Auditório do Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto, S. Mamede de Infesta, a presente edição deste fórum, organizado pelo Instituto Português de Sinologia.
A sessão inaugural decorrerá no dia 1 pelas 10 horas, sendo oradores o Prof. Roger Greatrex da Universidade de Lund (Suécia) e o Prof. Wang Keping, da Academia Chinesa das Ciências Sociais, a que se seguem oradores das universidades de Hong Kong, Montreal, Ghent, Jean Moulin Lyon 3, Cambridge, Ludwig Maximilian de Munique, Tubinga, Oxford, Leiden, Estocolmo, Nápoles, Nanquim, Técnica de Lisboa, Toronto, Harvard, Paris 7, Pompeu Fabra de Barcelona, Florença, Macau, Nova de Lisboa, Taiwan, Aveiro, Livre de Berlim, Coimbra, Paris III, Academia das Ciências da Rússia, Instituto de Contabilidade e Administração do Porto e Academia Eça de Queirós, esta última representada por Gonçalves Guimarães que no dia 3 presidirá à sessão sobre o tema “O Mar, rotas migratórias para outras terras” e que no último painel dessa sessão falará sobre “A representação dos Chineses na obra de Eça de Queirós”.
Pela primeira vez na realização deste fórum internacional não consta o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros na comissão de honra para a qual, como habitualmente, foi convidado.
A participação nas sessões é grátis, obrigando a inscrição prévia.

CONFERÊNCIAS

No próximo mês de Março serão proferidas conferências pelos seguintes confrades queirosianos: 1 de Março, Reitoria da Universidade do Porto “A proteção mágica dos defuntos para o Além” por Luís Manuel de Araújo, egiptólogo.
29 de Março – Biblioteca Municipal da Régua, “Marquês de Soveral Homem do Douro e do Mundo” por J. A. Gonçalves Guimarães, historiador.

Espetáculos

Decorreu no passado dia 3 de Fevereiro uma nova apresentação de Os Maias de Eça de Queirós, em adaptação dramatúrgica de Miguel Real e Filomena Oliveira no Auditório Acácio Barreiros do Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra. Esta versão estreou em 2010, tendo já sido vista por mais de 15.000 espetadores estando em cena todas as quartas-feiras até Maio próximo. No dia 4 de Fevereiro decorreu um jantar queirosiano na Estalagem de Colares, seguido de conversa com o escritor Miguel Real, tudo numa realização da Éter, produção cultural.

Exposições


No próximo dia 11 de Fevereiro, pelas 16 horas, no Museu Municipal da Póvoa de Varzim, abre ao público a exposição “Interiores (por debaixo do vestido)” organizada por aquele Museu, e que assim apresenta ao público de hoje uma interessante coleção de roupa íntima do tempo de Eça de Queirós.








Está também em exposição no Solar Condes de Resende até ao final de Fevereiro a mostra “A Guerra Peninsular – da Literatura à Banda Desenhada” comissariada por José Valle de Figueiredo e organizada pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
Desde o século XIX que aquele período da História de Portugal serviu de tema a romancistas portugueses e estrangeiros e, já no século XX, a vários autores de BD.
A mostra está ainda enriquecida com armas e objetos da época da Coleção Marciano Azuaga e com vária bibliografia sobre o contributo de Vila Nova de Gaia e do Entre-Douro-e-Vouga na luta contra os franceses.


Cursos

Termina no próximo mês de Março a segunda edição do curso “Eça de Queirós, sua vida sua obra, sua época”, que decorreu no Solar Condes de Resende organizado pela Academia Eça de Queirós e que teve como oradores J. A. Gonçalves Guimarães, Fernando Coimbra, Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Nuno Resende, Anabela Freitas, José Maia Marques, Jaime Milheiro e Ana Margarida Dinis Vieira.
Nas duas últimas sessões de Março, nos dias 10 e 24, falarão Anabela Freitas Mimoso sobre “Uma gramática da Educação”, e J. A. Gonçalves Guimarães, sobre “Eça de Queirós, a China e os Chineses”.
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso de Pintura e Expressão Plástica, ministrado pela professora Paula Alves, que visitou recentemente a ARCO de Madrid onde se inteirou das mais recentes tendências estéticas europeias e mundiais. O curso decorre às quintas-feiras entre as 18 e as 20 horas.
A partir do mês de Abril irá iniciar-se um Clube de Bridge e voltará o workshop de Tango Argentino pelos professores Inês Tabajara e Carlos Cabral nos dias 14 e 15 desse mês.

Livros

No próximo dia 3 de Março pelas 15 horas, no Restaurante Mandoline, em Telheiro, Barreira, Leiria, decorrerá o lançamento do livro “Imagens de Palavras” do nosso confrade Joaquim Santos, diretor do jornal Notícias de Colmeias com ilustrações do Mestre Mário Silva e prefácio de António Eça de Queirós, com dois momentos de música clássica de André Ferreira



À procura de dados sobre Luís de Magalhães, antigo proprietário no Douro da Quinta do Bom Retiro que a Casa Ramos Pinto adquiriu em 1919, estava então ele preso por ter aderido à Monarquia do Norte, encontrei este precioso livro de José Valle de Figueiredo, coordenador dos Cadernos do Mosteiro do Centro de Estudos de História Cultural Luís de Magalhães, da Maia, publicado em 2001, com outros títulos de interesse na mesma coleção.






Distinção

João Nicolau de Almeida, o enólogo da Ramos Pinto e nosso confrade, volta a ser distinguido, desta vez pela revista Wine como a personalidade do ano nos vinhos portugueses, na sua edição de Janeiro de 2012.

Brindar com um Porto:

À memória de Igrejas Caeiro, o Senhor da Rádio; à libertação de Khader Adnane, com um chá de hortelã.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 42 – Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
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J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.