domingo, 25 de março de 2012

Eça & Outras


A doença da saúde

Qualquer dicionário dirá que doença é «falta de saúde; enfermidade; moléstia; sofrimento; mal» e, de forma figurada, qualquer «coisa incómoda; defeito; vício e mania». De forma mais científica definir-se-á doença como a incapacidade momentânea ou crónica, física ou psíquica, que o individuo experimenta na relação consigo próprio, com o meio ou com os outros.
Já agora saúde será a «ausência de doença, o estado do que é são». Ser saudável deveria pois ser uma situação comum. Estar doente, um incómodo temporário. Ser doente, uma desgraça irremediável. Há também os traumatismos da vida quotidiana, acidentais mas inevitáveis, mais ou menos graves. Ferida não é doença; gravidez não é doença; cansaço por falta de descanso não é doença, etc. Mas tudo isto foi desvirtuado pela indústria da doença: hoje ser-se saudável é uma exceção, uma raridade; vai-se ao médico para ver se se está doente, pois o próprio cidadão não sabe se está e se souber acha que um simples resfriado pode esconder uma terrível doença incurável e, portanto, convém prevenir, ir à clinica de família, do seguro, da empresa, à “caixa”. Tomar vacinas, vitaminas, xaropes, pastilhas, injeções preventivas, curativas e adiativas de nova interrogação. Convém fazer análises químicas e bacteriológicas, ao sangue, à urina, às fezes, às lágrimas se for o caso, e radiografias, ultrassons, radiações magnéticas e desmagnetizadas, fisioterapias, radioterapias e outras coisas mais. E tudo isto comparticipado pelo Estado, mesmo quando os medicamentos se empilham em casa sem qualquer proveito para o utente, mas sempre muito para a indústria farmacêutica e os seus inúmeros intermediários: delegados, publicitários, advogados, farmacêuticos, políticos que prometem pilulas grátis para todos, agentes de viagens, polícias que apreendem drogas ilegais que fazem concorrência às legais, enfim um mundo verdadeiramente impressionante de interesses para os extraterrestres que nos observam.
A indústria da doença é um cancro incontrolável e incurável no mundo ocidental e consome todos os anos recursos cada vez mais vastos e mais caros originando em toda a humanidade uma epidemia catastrófica: a falência. E quando tal acontecer a discussão sobre as orientações do Serviço Nacional de Doença serão completamente inúteis, porque estaremos todos, os que tiverem sobrevivido, a tomar chá de cidreira e, os mais deprimidos, o cornelho do centeio.
Eça de Queirós morreu relativamente novo e doente. Se fosse hoje, com os indiscutíveis progressos pontuais das Ciências Médicas, talvez tivesse durado mais tempo e escrito mais livros para nossa satisfação intelectual e social. Revendo o que escreveu sobre a medicina do seu tempo, dirão os malévolos que foi muito bem feito, que pagou bem cara a sua impertinência ao concluir que «… só havia três ciências de curar. Uma, a dos monges, por meio de peregrinações, milagres e contatos de relíquias, e era esta falsa, porque o ilustre físico árabe Razei provara que Deus não se intromete com a saúde das criaturas. A outra, a do Povo, feita toda de feitiços, esconjuros e sortilégios, era ilusória porque vem do Diabo, e o Espirito do Mal não pode promover o bem humano. E a terceira, a verdadeira, a eficaz, essa ainda não chegara a estes reinos de Portugal, e estava toda em França, terra de grandes escolas» (Lendas de Santos). Pois é, meu Eça, mas as coisas mudaram muito e agora já cá temos a escola francesa, a inglesa (mãe do Serviço Nacional de Doença) e a americana (medique-se a si próprio e vai ver como as suas ações da indústria farmacêutica sobem na Bolsa!). Já podemos todos ter um cartão de doente e até ser filiados nas associações dos diabéticos, dos estrábicos, dos hepatoproblemáticos, dos que roem as unhas, dos que têm má digestão, e todas as outras cujos filiados têm uma doença de estimação verdadeira, fictícia ou conveniente. Curas milagrosas, peregrinações e relíquias são agora muito mais do que no seu tempo, em que só havia a água de Lourdes e a do Jordão para os problemas mais difíceis.
Não obstante a existência de um universal sistema de saúde geral, ritualizado, mas pouco humano, talvez por isso se continue a recorrer, além dos milagres, das bruxas e curandeiros, a todos os que falam com os deuses egípcios, brasileiros ou africanos que, por mais benéficos que sejam, não conseguem derrotar o deus ocidental parido no incontrolável cosmos e que se chama Orçamento. Estamos pois muito mais ecuménicos, mas muito menos económicos.
Eça escreveu n’Os Maias: «O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…». Pois é, meu Eça, mas hoje querem convencer-nos que, dando-nos cabo do corpo, ficaremos reduzidos a almas… consumidoras, tristes, dependentes, incapazes de comermos um bom bife e um bom copo de vinho sem ter de ir depois a correr ao hospital ou à farmácia.
E aí, meu Eça, “ela” lá está sobre a porta, no reclamo luminoso, a serpente que expulsou nossos humanos e sadios progenitores do Paraíso. A mesma serpente que nos envenena hoje a existência enrolada na taça do remédio.
E dali ninguém a tira. Desejo-vos pois a todos muita saudinha, e oxalá vocês a queiram.
J. A. Gonçalves Guimarães

CURSOS & CONFERÊNCIAS

Curso sobre Eça
No passado dia 24 de Março terminou no Solar Condes de Resende a segunda edição do Curso livre sobre “Eça de Queirós, sua vida, sua obra, sua época” com a sessão de encerramento proferida por J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Eça de Queirós, a China e os Chineses”. Neste curso, organizado pela Academia Eça de Queirós, foram também palestrantes Fernando Coimbra, Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Nuno Resende, Anabela Freitas, José Maia Marques, Jaime Milheiro e Ana Margarida Dinis Vieira.
Em outubro próximo o novo curso terá como tema “O esplendor da Arqueologia” e, como habitualmente, será ministrado por professores desta Academia.

Outras conferências
29 de Março, 18 horas – Biblioteca Municipal da Régua, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “O Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo”;
13 de Abril, 18,30 horas – Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, Vila Nova de Gaia sobre “Da Geomorfologia à História do espaço onde se implantou a Avenida da Republica”;
20 de Abril, 21 horas – Escola Secundária D. Inês de Castro, Canidelo, Vila Nova de Gaia, sobre “Contributo para o estudo da iconografia ficcional de Inês de Castro”.

Livros e textos



Revista queirosiana
O Centro Cultural de Telheiras, Lisboa, acaba de distribuir mais um número da sua revista referente a Dezembro de 2011 com estudos sobre Eça de Queirós e a sua época apresentados no XVI Colóquio dos Olivais, nomeadamente “Eça de Queirós e o Desporto”, por César Veloso, “A rainha D. Amélia e a questão social” por Elisabete Rocha e ainda muitos outros sobre a região de Lisboa, do Lumiar, Olivais e Telheiras e outros de índole nacional como o trabalho de Rodrigues Vaz sobre “Afonso Ribeiro, precursor do Neo-realismo…” nascido na Vila da Rua em Moimenta da Beira e que durante uma parte da sua vida viveu em Gulpilhares e foi professor primário em Vilar do Paraíso, Vila Nova de Gaia.
A direção da revista é do nosso confrade Fernando Andrade Lemos e de José António Silva.

Dança
No Solar Condes de Resende, nos dias 28 e 29 de Abril, sábado e domingo, decorrerá um workshop de Tango Argentino organizado pela Confraria Queirosiana e ministrado pelos professores Inês Tabajara e Carlos Cabral.

Exposições

Rostos & Pessoas
No edifício do Centro Académico do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (antigo BC 9) está exposta até 30 de Abril a mostra de esculturas “Rostos & Pessoas” de Helder de Carvalho, que apresenta retratos esculpidos de grandes figuras da Cultura portuguesa do passado e do presente.

Humanidades
No próximo dia 3 de Abril, às 21.30 horas na Galeria da Casa do Médico, ao jardim da Arca de Água, no Porto, abre ao público a exposição dos mais recentes bronzes e ferros de Beatriz Pacheco Pereira.

Doutoramento
Doutor Nuno Resende
No passado dia 21 de Março apresentou provas de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o historiador Nuno Resende, membro do Gabinete de História, Arqueologia e Património, da Confraria Queirosiana e dos seus corpo gerentes.
A sua tese intitula-se “Fervor & Devoção: património, culto e espiritualidade nas ermidas do Montemuro, séculos XVI-XVIII”, e foi aprovada pelo júri com louvor e distinção.


Noticias
Solar Condes de Resende
No passado dia 19 de Março, Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, procedeu à apresentação pública da nova alameda com o nome do nosso sócio Francisco Barbosa da Costa, construída em frente do Solar Condes de Resende, que assim se apresenta valorizado no seu novo enquadramento.
As obras foram feitas por administração direta da Câmara Municipal com a colaboração da Junta de Freguesia de Canelas e o novo espaço promete ser local para grandes eventos culturais.


Brasil

Do lado de lá do Atlântico chegaram pelo telefone em saudação à nossa Confraria as vozes queirosianas de Dagoberto Carvalho Júnior, sua esposa e demais confrades reunidos com os nossos embaixadores itinerantes, Carolina e Alberto Calheiros Lobo, em gastronómico e literário convívio e brindando com Duas Quintas, produto do nosso confrade João Nicolau de Almeida casado com a confrade Graça Eça de Queirós Cabral Nicolau de Almeida, bisneta do escritor. Este mundo é realmente pequeno e estas são as pontes da cultura e do afeto do Quinto Império.
Entretanto no próximo dia 31 de Março será lançada no Cine-Teatro de Oeiras (Piauí) o primeiro número da Revista da Confraria Eça Dagobertiana, comemorativa do seu 2.º aniversário.
Eleições
No passado dia 22 de Março foram eleitos os novos Corpos Gerente dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana sendo a lista dos candidatos proposta pela anterior direção. Apresenta continuidade em relação à do mandato anterior, mas também renovação de quadros quer com experiência profissional, quer com juventude. A Mesa da Assembleia Geral tem como presidente César Oliveira, a Direção José Manuel Tedim e o Conselho Fiscal Manuel Filipe de Sousa.

Necrologia
Falecimento
No passado dia 21 de Março faleceu o médico psicanalista Pedro Luzes, autor de “Sob o Manto Diáfano do Realismo, Psicanálise de Eça de Queiroz”, Lisboa, Fim do Século, 2001, 405 pp., tendo ainda colaborado no “Dicionário de Eça de Queiroz” dirigido pelo nosso confrade A. Campos Matos. A Revista Portuguesa de Psicanálise, a sair em breve, dicar-lhe-á o seu próximo número.


Brindar com Porto

Ergo o meu cálice a:
Kofi Annan, por mediar a carnificina da Síria; Dinarte Machado pela direção da equipa que restaurou os órgãos de Mafra.
Não, não quero brindar, nem com água, com: Mohamed Merah, o assassino de Toulouse.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 43 – Domingo, 25 de Março de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira;
inserção: Amélia Cabral; colaboração: Dagoberto Carvalho Júnior; A. Campos Matos; Fernando Andrade Lemos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Eça & Outras

CANÇÕES E CANÇONETAS


Quem alguma vez refletiu sobre o ato de cantar em Portugal logo deparou com inúmeras perplexidades: nós não cantamos espontaneamente, muito menos por prazer e, de um modo geral, confundimos o cantar com o berrar ou mesmo com o vociferar, ainda que ritmado, o esganiçar, o grunhir. Basta ouvir como berramos o hino nacional e está tudo dito. Ainda que em jejum, cantamos sempre com a barriga como depois da almoçarada. Tirando umas cançõezinhas mais ou menos conhecidas e harmoniosas cantadas em terras onde houve mosteiros e professores de música que deixaram tradição; tirando as cidades e vilas onde houve orfeão ou teatro lírico, o resto é uma desgraça de pieguice, primarismo vocal e musical, macaquice de imitação, horrorosos karaokes, um pavor de ouvir-se. Depois temos o fado: «Atenas produziu a escultura, Roma fez o Direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou? – O Fado» (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras). Por isso acho bem e justo que o fado seja património português de reconhecimento internacional, isso de património mundial é uma enorme contradição, pois não estou a ver os australianos ou os suecos a trautearem o “Ai Mouraria”. Mas, a despeito da classificação, continuamos a comprar tudo quanto é cantiga e música estrangeira sobretudo inglesa e norteamericana. Claro que existem aquelas músicas mais ou menos universais a dois níveis: as de elaborada escola – Mozart, Verdi, outros mais recentes – e as cançonetas para as rádios, televisões, cinema e festanças públicas, algumas das quais ficarão na memória. Poucas. A maioria são como os chicletes, suportam-se enquanto estão “doces”.
Em termos cançonetísticos, entre nós o panorama é mauzote, mas temos muitas exceções que são, as mais das vezes, nada mais que exceções. Não deixam exemplo nem fazem escola. Mas sendo de qualidade reconhecida, raramente passam nas nossas rádios e televisões ou nos nossos festivais, que preferem divulgar a banalidade estrangeira promovida pelas grandes empresas de espetáculos ou aquela macaquice de imitação insuportável nas televisões e que paga direitos de autor para a estranja. Lembram-se da Lei da Rádio?
Tenho poucos preconceitos nacionalistas, mas banal por banal, preferia que aquele imposto que eu pago no recibo da luz para ouvir rádio ou o canal televisivo, extorquido sem direito a reclamações, ficasse por cá e até fosse pago a alguns maus cantores para deixarem de cantar ou, se ainda fossem a tempo, para aprenderem.
Também não tenho preconceitos musicais, pois só conheço dois tipos de música: a que gosto e a que não gosto. Schubert e Schumann só ouço como fundo sonoro laboral; Pinho Vargas não consigo ouvir distraído, mas as razões serão outras. Um concerto ao ar livre não é a mesma coisa que colocar o CD na maquineta lá de casa.
Às vezes uma melodia é uma coisa bem simples: «Aquela música é como o amor: juntam-se as imagens e as comparações, tenta explicar-se – mas não se pode dizer o que ela é. Foge pela sua natureza abstrata à expressão escrita. Nunca a filosófica instrumentação de Meyerbeer, nem o idealismo de Beethoven, nem a luminosa serenidade de Mozart, nem a música vermelha e diamantina de Verdi, nem o romantismo apaixonado de Donizetti – nunca nada me deu a impressão profunda daqueles cantos árabes nas ruas do Cairo. São tão belos que entristecem, tão sensuais que são quase lacrimosos, tão doces que desesperam: é a música dos nervos; são os nervos que cantam…» (Eça de Queirós, O Egito).
Cantemos pois com arreganho os nossos estados de alma, um fado, um hino, um rap. Mas com qualidade, com esmero e com conteúdo adequados ao tempo, à arte, à sabedoria das coisas: «Os tristes, os deserdados, os pobres, os oprimidos, quando tudo lhes falta, o pão, o lume, o vestido, têm sempre, no fundo da alma, uma cantiga pequena que os consola, que os aquece, que os alegra. É a última coisa que fica no pobre. E então a cantiga vale mais do que todos os poemas» (Eça de Queirós, Distrito de Évora).
Por isso cantemos, que «quem canta seus males espanta» (popular).

J. A. Gonçalves Guimarães


VII FÓRUM INTERNACIONAL DE SINOLOGIA

Decorre nos próximos dias 1, 2 e 3 de Março no Auditório do Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto, S. Mamede de Infesta, a presente edição deste fórum, organizado pelo Instituto Português de Sinologia.
A sessão inaugural decorrerá no dia 1 pelas 10 horas, sendo oradores o Prof. Roger Greatrex da Universidade de Lund (Suécia) e o Prof. Wang Keping, da Academia Chinesa das Ciências Sociais, a que se seguem oradores das universidades de Hong Kong, Montreal, Ghent, Jean Moulin Lyon 3, Cambridge, Ludwig Maximilian de Munique, Tubinga, Oxford, Leiden, Estocolmo, Nápoles, Nanquim, Técnica de Lisboa, Toronto, Harvard, Paris 7, Pompeu Fabra de Barcelona, Florença, Macau, Nova de Lisboa, Taiwan, Aveiro, Livre de Berlim, Coimbra, Paris III, Academia das Ciências da Rússia, Instituto de Contabilidade e Administração do Porto e Academia Eça de Queirós, esta última representada por Gonçalves Guimarães que no dia 3 presidirá à sessão sobre o tema “O Mar, rotas migratórias para outras terras” e que no último painel dessa sessão falará sobre “A representação dos Chineses na obra de Eça de Queirós”.
Pela primeira vez na realização deste fórum internacional não consta o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros na comissão de honra para a qual, como habitualmente, foi convidado.
A participação nas sessões é grátis, obrigando a inscrição prévia.

CONFERÊNCIAS

No próximo mês de Março serão proferidas conferências pelos seguintes confrades queirosianos: 1 de Março, Reitoria da Universidade do Porto “A proteção mágica dos defuntos para o Além” por Luís Manuel de Araújo, egiptólogo.
29 de Março – Biblioteca Municipal da Régua, “Marquês de Soveral Homem do Douro e do Mundo” por J. A. Gonçalves Guimarães, historiador.

Espetáculos

Decorreu no passado dia 3 de Fevereiro uma nova apresentação de Os Maias de Eça de Queirós, em adaptação dramatúrgica de Miguel Real e Filomena Oliveira no Auditório Acácio Barreiros do Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra. Esta versão estreou em 2010, tendo já sido vista por mais de 15.000 espetadores estando em cena todas as quartas-feiras até Maio próximo. No dia 4 de Fevereiro decorreu um jantar queirosiano na Estalagem de Colares, seguido de conversa com o escritor Miguel Real, tudo numa realização da Éter, produção cultural.

Exposições


No próximo dia 11 de Fevereiro, pelas 16 horas, no Museu Municipal da Póvoa de Varzim, abre ao público a exposição “Interiores (por debaixo do vestido)” organizada por aquele Museu, e que assim apresenta ao público de hoje uma interessante coleção de roupa íntima do tempo de Eça de Queirós.








Está também em exposição no Solar Condes de Resende até ao final de Fevereiro a mostra “A Guerra Peninsular – da Literatura à Banda Desenhada” comissariada por José Valle de Figueiredo e organizada pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
Desde o século XIX que aquele período da História de Portugal serviu de tema a romancistas portugueses e estrangeiros e, já no século XX, a vários autores de BD.
A mostra está ainda enriquecida com armas e objetos da época da Coleção Marciano Azuaga e com vária bibliografia sobre o contributo de Vila Nova de Gaia e do Entre-Douro-e-Vouga na luta contra os franceses.


Cursos

Termina no próximo mês de Março a segunda edição do curso “Eça de Queirós, sua vida sua obra, sua época”, que decorreu no Solar Condes de Resende organizado pela Academia Eça de Queirós e que teve como oradores J. A. Gonçalves Guimarães, Fernando Coimbra, Luís Manuel de Araújo, José Manuel Tedim, Nuno Resende, Anabela Freitas, José Maia Marques, Jaime Milheiro e Ana Margarida Dinis Vieira.
Nas duas últimas sessões de Março, nos dias 10 e 24, falarão Anabela Freitas Mimoso sobre “Uma gramática da Educação”, e J. A. Gonçalves Guimarães, sobre “Eça de Queirós, a China e os Chineses”.
Prossegue no Solar Condes de Resende o curso de Pintura e Expressão Plástica, ministrado pela professora Paula Alves, que visitou recentemente a ARCO de Madrid onde se inteirou das mais recentes tendências estéticas europeias e mundiais. O curso decorre às quintas-feiras entre as 18 e as 20 horas.
A partir do mês de Abril irá iniciar-se um Clube de Bridge e voltará o workshop de Tango Argentino pelos professores Inês Tabajara e Carlos Cabral nos dias 14 e 15 desse mês.

Livros

No próximo dia 3 de Março pelas 15 horas, no Restaurante Mandoline, em Telheiro, Barreira, Leiria, decorrerá o lançamento do livro “Imagens de Palavras” do nosso confrade Joaquim Santos, diretor do jornal Notícias de Colmeias com ilustrações do Mestre Mário Silva e prefácio de António Eça de Queirós, com dois momentos de música clássica de André Ferreira



À procura de dados sobre Luís de Magalhães, antigo proprietário no Douro da Quinta do Bom Retiro que a Casa Ramos Pinto adquiriu em 1919, estava então ele preso por ter aderido à Monarquia do Norte, encontrei este precioso livro de José Valle de Figueiredo, coordenador dos Cadernos do Mosteiro do Centro de Estudos de História Cultural Luís de Magalhães, da Maia, publicado em 2001, com outros títulos de interesse na mesma coleção.






Distinção

João Nicolau de Almeida, o enólogo da Ramos Pinto e nosso confrade, volta a ser distinguido, desta vez pela revista Wine como a personalidade do ano nos vinhos portugueses, na sua edição de Janeiro de 2012.

Brindar com um Porto:

À memória de Igrejas Caeiro, o Senhor da Rádio; à libertação de Khader Adnane, com um chá de hortelã.


Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 42 – Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página:
J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redacção: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Eça & Outras

Sociedades secretas há muitas

Em 1872 escrevia Eça de Queirós em As Farpas: «Em Portugal, agora, o clero descobre incompatibilidade entre a qualidade de católico e a qualidade de mação. Pelo menos uma questão recente pôs em relevo esta divergência.
Ora como sabem, hoje as associações maçónicas, (que perderam há muito a sua feição carbonária, jacobina, etc.) são em Portugal associações públicas com os seguintes fins: Eleições; Socorros mútuos; Beneficência; Auxílio e protecção recíproca aos irmãos no país e no estrangeiro.
De sorte que, segundo a opinião recente do clero, um católico: Não pode tratar de eleições; Nem socorrer, proteger e auxiliar os seus amigos». (As Farpas, 9 de Janeiro de 1872).
Entretanto daí para cá a questão evoluiu muito e não foram os clérigos que agora levantaram a questão das sociedades secretas e da sua influência junto dos poderes que nos governam. Foram outras sociedades igualmente secretas, ou seja, uma zanga entre secretários de sociedades secretas que era para ter ficado secreta mas não ficou.
Hoje vivemos num mundo muito mais secreto do que no século XIX. Eu próprio vivo num prédio com mais quinze sociedades sobre as quais pouco ou nada sei, com a exceção daquela a que pertenço: eles entram, eles saem, eles reúnem à porta fechada, têm estranhos rituais (a avaliar por alguns ruídos noturnos e diurnos), em determinadas épocas do ano apresentam-se com estranhas indumentarias e já vi aventais! Ah, os aventais! E com símbolos budistas e aztecas. Não afixam atas com as deliberações que tomam nos seus templos, perdão, apartamentos. E sei lá qual é a sua verdadeira inflência na junta de freguesia local ou na associação de socorros mútuos mais próxima. Muitos faltam ao seu dever cívico da reunião pública do condomínio; desviam os seus fundos ao não pagarem a mensalidade; quando falam ninguém os percebe, tal é o seu vício de se expressarem em código ou por sinais. Se isto é assim no prédio onde vivo, imaginem as sociedades secretas que não haverá por esse país fora: clubes de pesca subaquática; associações de peregrinos ao Sameiro; de colecionadores de bilhetes de comboio; os que falam barranquenho; o clube de fãs do Alberto; a associação de descendentes de D. Fuas Roupinho; os do pé chato; os que fazem versos à moda do Minho; os que não querem que se saiba como se chamam entre eles e para disfarçar chamam a todos os outros oh pá!; os de uma religião cujo Messias aparecerá em Marte; os que ganham muito e dizem que estão na miséria; eu sei lá quem mais, mas suspeito que nesta lista (que não tem qualquer fito denunciador ou persecutório) ainda poderia incluir muitos outras sociedades secretas, com exceção das SAD, das associações de comissários e artistas de instalações, da Igreja dos Santos Dizimeiros e de mais algumas outras prestimosas agremiações cuja transparência de propósitos, de interesse público e de práticas fiscais estão ao alcance da curiosidade de qualquer cidadão, mesmo das inocentes criancinhas a quem o tio mação ofereceu o Magellans produzido por uma das muitas sociedades secretas da eletrónica que nos seus tenebrosos propósitos obrigam os cidadãos de todo o mundo a serem computadependentes os quais, além de os enriquecerem, lhes tecem louvores e hossanas, que é para isso que servem os devotos, os fieis, os crentes da Santa, Omnipresente e Bemremunerada Informática.
Quanto a rituais temos falado: para além dos imemoriais e iniciáticos que algumas destas sociedades praticam, como passeios, almoços, jantares e até danças (sem serem para a prática função de pedir chuva), dão-se a outros costumes que têm baralhado os antropólogos e os sociólogos portugueses.
Alguém de vós já assistiu ao cerimonial dos conselhos de administração da EDP, da SONAE, do Banco Europeu, do FMI? Já! Seus felizardos! Isso é tão secreto que eu próprio nem sabia que tinha amigos tão importantes! Temos de falar um dia destes. Eu juro que guardo segredo!
Quanto aos trajos, é certo que recentemente Miguel de Sousa Tavares criticou num programa televisivo os colares e os aventais maçónicos, achando-os infantis, mas logo me ocorreu telefonar a tudo quanto era redação de jornal de adeptos futebólicos a perguntar-lhes se não tinham à mão uma fotografia do dito comentador e literato com um grande cachecol fazendo conjunto com um daqueles chapéus com as mesmas cores ostentando dois arremetentes chifres ditos vikingues, que os adeptos da loja “Até os comemos vivos” costumam usar com cerimónia, circunspeção e garbo. Na realidade não sei se tal foto existe, mas não é difícil imaginar sua excelência em tais preparos. E então? Adjetivos, vá lá, se fazem favor.
Pois é assim, meus caros, sociedades secretas há muitas. O problema não é o seu secretismo, mas o que vamos descobrindo do que os seus membros são capazes. E esse é que é o meu e o vosso problema. O nosso problema. Eu cá por mim juro que não conheço nenhum habitante de Mação.

J. A. Gonçalves Guimarães

NECROLOGIA

Dr. Raul Ferreira da Silva

No passado dia 7 de Janeiro faleceu o Dr. Raul Ferreira da Silva, médico otorrinolaringologista e confrade queirosiano que foi a enterrar no dia 9 de Janeiro no cemitério do Prado de Repouso no Porto. O ilustre finado fez questão de ser sepultado com o trajo da Confraria, tendo o seu féretro sido acompanhado por vários confrades trajados, mas sem insígnias. Antes da descida do ataúde à terra usaram da palavra o mesário-mor e um seu antigo camarada de tropa da companhia onde foi médico militar na Guiné.
O Dr. Raul Ferreira da Silva deixou à Confraria uma boa parte da sua biblioteca que ficará como um núcleo bibliográfico organizado pelos temas do seu agrado, como memória viva da sua dedicação.


CURSOS & CONFERÊNCIAS

5.as de Cultura no Solar

O Solar Condes de Resende, com a colaboração da Confraria Queirosiana, vai retomar as 5.as de Cultura. Assim recomeça em Fevereiro o curso de Pintura, dirigido pela Prof.ª Paula Alves, um Clube de Bridge, um jantar tertúlia, as Danças de Salão e outras atividades de cultura e lazer com diversos profissionais. Em breve terá igualmente início um curso prático sobre Fotografia Digital.

ANTIGO EGITO

No passado dia 19 de Janeiro, pelas 21,30 horas, teve início no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto um ciclo de conferências aberto pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, da Universidade de Lisboa, que falou sobre “3000 anos de História do Egito faraónico” a que se seguiu uma visita guiada à Coleção Egípcia ali exposta. Seguem-se, como conferencistas, Telo Canhão, sobre “Aspetos da vida quotidiana” a 2 de Fevereiro; de novo Luís Manuel de Araújo sobre “A proteção mágica dos defuntos para o Além” a 1 de Março, encerrando o ciclo Rogério de Sousa sobre “Os sarcófagos” no dia 8 de Março.

LIVROS E TEXTOS

O Padre Amaro em parede pública

O turismo de Leiria e os amantes da literatura de Eça de Queirós têm agora um novo ponto de atração na cidade de Leiria. Um ou vários artistas, têm surgido com pinturas temáticas em paredes públicas desta região e já há alguns meses que não exerciam a actividade. Nas muitas visitas queirosianas que se podem realizar (Farmácia Paiva, Torre da Sé, Administração do Concelho, Praça Rodrigues Lobo), pode acrescentar-se mais um ponto de grande atração que retrata "O Crime do Padre Amaro", escrito por Eça enquanto esteve em Leiria.
Na estrada que sobe para o Castelo, uma parede foi revestida com um belo desenho de autor/es incógnito/s, retratando o amor de Amaro com a linda Amélia. O amor proibido que Eça retratou está a ser alvo da visita de muitos curiosos que aproveitam a ocasião para vivenciar a cidade que serviu para que o administrador e escritor fizesse um dos romances mais marcantes da literatura portuguesa.

Joaquim Santos

 
História Episcopal do Piauí

Foi recentemente publicada a 2.ª edição da História Episcopal do Piauí, de Dagoberto Carvalho Jr., Recife, Editorial Tormes, 2011, 233 pp, ilustrada. Publicada pela primeira vez em 1980, esta nova edição apresenta-se revista e atualizada, com grande poder de síntese sobre a administração episcopal de Pernambuco de 1696 a 1728, do Maranhão de 1728 a 1902, de Piauí desde 1905 e ainda das Prelazias de Bom Jesus de Gurguéia e de São Raimundo Nonato e das novas dioceses de Oeiras, Parnaíba, Picos, Campo Maior e Floriano.
O autor analisa a ação catequética e de administração eclesiástica de jesuítas, franciscanos, carmelitas e mercedários, apresentando a biografia de cada prelado ou administrador apostólico e seus diretos colaboradores, quase sempre acompanhada pela heráldica e ainda por outras ilustrações que muito enriquecem a obra, a qual interessa igualmente à história eclesiástica de Portugal, pois muitos dos prelados são daqui naturais, ou fizeram carreira nos dois lados do Atlântico. E tudo isto muito bem enquadrado pelo estudo da História Eclesiástica do Brasil desde os seus primeiros tempos coloniais até à atualidade nesta região do «Meio Norte brasileiro».

Revista! Bô

Em Julho de 2011 iniciou a sua publicação a Revista!Bô «assumidamente transmontana», trimestral, o n.º 2 saído em Outubro/Dezembro, com Adriano Moreira na capa.
O primeiro número, para além de temas regionais e locais, apresentou um estudo biográfico sobre o Almirante Manoel Maria Sarmento Rodrigues, a estação arqueológica da Fonte do Milho na Régua, Clemente Menéres e o habitual Miguel Torga; o segundo número, apresenta artigos sobre os cogumelos silvestres, que todos os anos matam gente em Portugal, José António Junqueiro Júnior, pai do poeta Guerra Junqueiro, Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, no Aquém Douro, e um texto sobre o potencial gastronómico e económico da castanha pelo grã-mestre da Confraria Ibérica da Castanha, e ainda Camilo Castelo Branco e João de Araújo Correia, além de outros assuntos locais! Bô.

A César o que é de César

Impõe-se-nos fazer uma retificação!
No sítio da Internet da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, desde há muito tempo e confirmado hoje (2012.01.23, 17.30 horas), que na rubrica “Edições apoiadas pela CNCCR” consta o nosso livro “Republicanos, monárquicos e outros. As vereações gaienses durante a 1.ª República (1910-1926)” editado pela Confraria Queirosiana em 2010.
Ora em nome da verdade informamos que o dito livro não teve qualquer apoio da referida Comissão, tendo a sua impressão sido inteiramente custeada pela entidade editora e alguns exemplares sido adquiridos pela Biblioteca Pública Municipal de Gaia; pelas Juntas de Freguesia de Avintes e Canidelo, pela Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia e por vários sócios e confrades queirosianos. E não por mais alguma ou qualquer outra entidade. E não pela CNCCR que não adquiriu ou custeou qualquer exemplar.

GASTRONOMIA

Dom Duarte Pio, confrades da Queirosiana
e do Pastel de Tentúgal



Jantar dos Reis

No passado dia 7 de Janeiro decorreu na colunata do Bom Jesus de Monte em Braga um Jantar dos Reis para divulgação e defesa da excelência dos produtos tradicionais portugueses e da necessidade do incremento da sua comercialização e internacionalização. A convite da Comissão Organizadora, estiveram presentes várias associações de desenvolvimento do Norte de Portugal e muitas confrarias, entre as quais a Queirosiana, que apresentaram os seus produtos aos numerosos participantes tendo sido Confraria anfitriã a do Vinho Verde.
A nossa delegação foi composta pelo mesário-mor J. A. Gonçalves Guimarães, Ilda Castro, Fátima Teixeira, Maria Carolina e António Alberto Calheiros Lobo, que desenvolveram contatos com várias entidades presentes, nomeadamente o Real Gabinete de Leitura e a Sociedade Eça de Queirós do Rio de Janeiro.
Presidiram ao evento D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e primaz das Hispânias e D. Duarte de Bragança, chefe da Casa Real Portuguesa.

150 anos do Tavares

Foi em 1861 que um velho botequim lisboeta, que já existia em 1784 na rua da Misericórdia, 35, passou a denominar-se “Café-Restaurant Tavares”, o qual ainda hoje existe.
Imortalizado n’Os Maias em 1888, era frequentado por Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Luís de Soveral e outros Vencidos da Vida. Eça de Queirós destaca-lhe o “bife excelente”, a “perdiz fria” e o “doce de ananás”.
É o primeiro restaurante lisboeta a ser referido no guia Portugal Een gids voor vrienden, de J. Rentes de Carvalho, editado pela Uitgeverij De Arbeiderspers, Amsterdam e que conta com sucessivas edições desde 1989.
Conserva o ambiente queirosiano, modernizado no que é aceitável, este que se considera «o restaurante mais antigo de Portugal».

Brindar com Porto a:

Luís Raposo, o diretor do Museu Nacional de Arqueologia que levou ao mundo a arqueologia em Portugal;

Não, não quero brindar com:

Francesco Schettino, o capitão que abandonou o navio que naufragava.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 41 – Quarta, 25 de Janeiro de 2012
Cte. n.º 506285685 ; NIB: 001800005536505900154
IBAN:PT50001800005536505900154;Email :queirosiana@gmail.com; confrariaqueirosiana.blospot.com;
eca-e-outras.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638);
redacção: Fátima Teixeira; Colaboração: Joaquim Santos; inserção: Amélia Cabral.


domingo, 25 de dezembro de 2011

Eça & Outras


Os perigos da História

Desde que me licenciei em História, mestrei em Arqueologia, lecionei Património, procurei exercer as profissões daí decorrentes com a sabedoria possível, a exigência adequada, a honestidade imprescindível – como em qualquer outra profissão para a qual são exigidos requisitos académicos de base - Sempre me preocupei com a função social e cultural do seu exercício, em acrescentar alguma mais valia àqueles que recorrem aos produtos que vendo para que sintam que o salário que me pagam é bem empregue e que eu corresponda com algum bom nome na praça. Suponho que o normal em qualquer profissão.
Curiosamente nunca dei contas que alguns dos meus mestres, salvo raras exceções, tivessem em grande conta a sua profissão: bastavam-se como professores, como funcionários públicos, grau isto, vencimento aquilo. Posso mesmo afirmar que na faculdade que frequentei nunca me ensinaram a exercer a profissão que escolhi e, pelo que vou sabendo, o mesmo continua nos dias de hoje. Logo que pude, nas disciplinas que lecionei noutra universidade procurei corrigir essa anomalia da formação e, aí, o meu espanto foi ao contrário. Tinha alunos que não queriam saber disso para nada. Queriam apenas ter o “canudo” para ocuparem um lugar já prometido ou que tinham em vista. Qualquer coisa como “administrativos” ou “relações públicas”, mas com vencimento de “técnicos superiores”. A função pública e as empresas privadas estão cheias deles e não sou eu que vou mudar o mundo.
Mas pior do que isso foi descobrir, incrédulo, espantado, que na História havia, muito mais do que seria de esperar, tabus, mitos, ideias feitas, crenças, seitas, lendas, obras escritas em pedra ou bronze, que não se podiam contrariar pela análise, pela crítica, pela conclusão, pela simples verificação dos dados. E não pensem que estou a referir-me à História Antiga ou a acontecimentos da névoa dos tempos. Lembro-me de numa aula os meus alunos me interpelarem, como se eu tivesse dito uma heresia, ao afirmar «… quando os americanos perderam a guerra do Vietname…». É que eles, nascidos depois de 75, só conheciam este acontecimento da História recente pelos filmes do Rambo. Num colóquio recente, quando afirmei, analisando as fragilidades históricas da democracia, que Hitler chegou ao poder através do voto popular e que o seu partido foi ajudado pelos que tinham receio que o Partido Comunista, se ganhasse as eleições, nacionalizasse a sua banca e as suas fábricas, perpassou pela assistência um arrepio de incredulidade, uns “não pode ser”. Com a História local ou regional ainda é pior: veja-se o que aconteceu com a corajosa revisão biográfica de D. Afonso Henriques feita por A. de Almeida Fernandes, que o pôs a nascer em Viseu. Quando um dia disse a um colega de profissão que convinha voltar a rever a autenticidade do foral do Porto de D. Teresa, aspeto que já alguns diplomatistas do século XVIII abordaram, até porque D. Hugo era um conhecido falsário da escola de D. Gelmires de Compostela, ele reagiu, não como um cientista da memória, mas como crente em verdades incontestáveis com o mau humor de adepto de clube de futebol em dia de derrota. Fiquei pasmado.
É pois difícil exercer a profissão de historiador ou arqueólogo. A sociedade prefere os contadores de estórias que vão perpetuando os mitos universais, nacionais, regionais, locais. Não há prémio Nobel em História, embora o haja, por exemplo, em Economia, essa espécie de exercício divinatório sobre o quotidiano das pessoas e das sociedades, com muitas probabilidades e matemáticas, cujas contas raramente batem certo e só se ajustam quando já não são precisas. E, no entanto, a Academia sueca premeia anualmente este charadismo atualmente quotidiano nos media tentado substituir o tarot, os videntes e os horóscopos com muito menos esperança. Tenho mesmo verificado que os historiadores e arqueólogos começam a ter a cabeça a prémio: no recente romance policial de José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, que não é segredo nem será o último, alguns historiadores e arqueólogos são assassinados ou quase. Já estamos longe d’ A Relíquia de Eça de Queirós, em que este autor, nos mesmos locais e em volta do mesmo tema daquele recente romance, à falta de arqueólogos portugueses ao tempo, lá colocou o alemão Topsius, aliás «intoleravelmente vaidoso da sua pátria», hoje pecha inaceitável para quem estuda a pátria dos outros.
Outro aspeto que sempre me incomodou foi o pensar-se comummente que, conhecendo o passado, os historiadores são adeptos do imobilismo social, ou da defesa de paraísos perdidos que nunca existiram. Tal não é verdade, pois se há lição que a História nos ensina é a de que «todo o mundo é composto de mudança». Poderia ainda aduzir, pegando nas palavras de Eça, que «A história é a consciência escrita da Humanidade» (Uma Campanha Alegre), ou que «As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais» (Prosas Barbaras). Mas provavelmente os mitómanos não quererão saber disso para nada. Recentemente ouvi um jovem professor de História dizer que ensinava aos seus alunos que os besantes das quinas do escudo nacional representavam as cinco chagas de Cristo. Doeu-me por Herculano. Alguns destes historiadores têm futuro assegurado. Não fico contente.

J. A. Gonçalves Guimarães

COLÓQUIOS E EXPOSIÇÕES

Rentes de Carvalho no Porto

J. Rentes de Carvalho no Porto
No passado dia 11 de Dezembro, na Biblioteca Almeida Garrett no Porto, decorreu um colóquio-entrevista com o escritor José Rentes de Carvalho com um anfiteatro cheio, num dia de inverno com chuva e frio. Presentes vários confrades queirosianos, uma delegação da Câmara de Mogadouro, professores e alunos de literatura, o escultor Helder de Carvalho que recentemente o retratou em busto, muitos dos seus leitores fiéis e entusiastas. O escritor revelou-se, como sempre, um notável performer da comunicação, subindo e descendo o palco até à assistência, apresentando-lhes em contraponto permanente os seus três eus: o cidadão português, o cidadão holandês e o escritor do mundo e da singularidade humana. Estava o diálogo no auge quando um corte generalizado na corrente eléctrica na cidade do Porto o encerrou, não abruptamente, pois mesmo com as luzes de emergência Rentes de Carvalho continuou a distribuir autógrafos e a conversar com os seus admiradores. A Biblioteca não tem gerador eléctrico para estas emergências.

Rostos por Helder de Carvalho
J. Rentes de Carvalho por Helder de Carvalho

Na Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, está patente ao público até 31 de Dezembro uma exposição de retratos modelados pelo escultor Helder de Carvalho intitulada “Rostos e Pessoas – Outros Olhares”. Entre os retratados figuram muitas das figuras cimeiras da Cultura Portuguesa do passado e do presente, modeladas, desenhadas a preto e a cores, reinventadas nos seus traços fisionómicos inconfundíveis e, entre elas, o escritor José Rentes de Carvalho que o artista contatou pessoalmente aquando das 1.as Jornadas Culturais do Mogadouro em Junho passado, tendo-lhe nessa altura oferecido alguns esboços que lhe serviram de procura para o busto agora exposto.


LIVROS E TEXTOS

Monografia de Pereiros

No passado dia 4 de Dezembro foi lançada a Monografia de Pereiros, S. João da Pesqueira, editada pela Associação dos Amigos de Pereiros com a colaboração da Confraria Queirosiana. Coordenada pelo confrade A. Silva Fernandes, apresenta estudos sobre a Toponímia local de Gonçalves Guimarães e sobre a História da paróquia por Nuno Resende e, entre muitos outros aspetos, uma galeria dos pereirenses ilustres ainda vivos.
Após o lançamento na sede daquela associação, a obra foi igualmente apresentada na Biblioteca Municipal de S. João da Pesqueira, com a presença de José Tulha, presidente da câmara, e demais vereação.

Doutoramento sobre Eça

No passado dia 14 de Dezembro foi lançada na Livraria Almedina Estádio, em Coimbra, a obra que tem por base a tese de doutoramento de Joana Duarte Bernardes intitulada “Eça de Queirós: riso, memória, morte”, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade da cidade do Mondego.
A apresentação da obra esteve a cargo do Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Eça no Notícias de Colmeias

O número 144 de 4 de Dezembro passado do Noticias de Colmeias (Leiria), de que é diretor o nosso confrade Dr. Joaquim Santos e dedicado a Dezembro, o mês do Natal, apresenta duas verdadeiras prendas queirosianas: de A. Campos Matos, o texto “Acerca da Leiria de Eça de Queiroz”, e de Orlando Fernandes “José Maria de Eça de Queiroz. A sua escrita é hoje tão viva”. No primeiro caso o conhecido autor da mais recente biografia do escritor salienta a importância da preservação do espaço queirosiano da cidade para o Turismo Cultural; no segundo, uma breve síntese biográfica com pontes para a atualidade.
Entre muita outra colaboração neste número natalício, o anúncio da nova edição do “Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria”, da Textiverso, promovida pelo nosso confrade Ricardo Charters d’Azevedo, a qual foi lançada no passado dia 10 de Dezembro naquela cidade, apresentada pelo padre Luciano Cristino.

Valsa queirosiana

Publicado a primeira vez em 2006, Cem anos sem uma valsa. Romance Queirosiana, de Manuel Córrego, editado pela Campo das Letras, é a recriação de um cinematográfico exercício sobre Eça de Queirós como criador de personagens, no qual o escritor, as figuras reais da sua vida e as da sua ficção se entrecruzam e dialogam, como que desejando estar presentes agora que dele se diz «Eça de Queirós é uma compensação à decadência de Portugal», agora que em vez da valsa austríaca ou inglesa temos a marcha fúnebre alemã, por enquanto só económica.
Não é este o primeiro trabalho de temática queirosiana do autor, que já em 1999 tinha publicado “Trilogia Queirosiana”, uma obra para teatro.
Eça de Queirós continua pois a inspirar os mais recentes exercícios literários e ficcionais.

TEATRO E CINEMA

Eça inspira novo filme

Como é sabido Eça de Queirós criou Fradique Mendes, o qual por sua vez inspirou o romance Nação Crioula de José Eduardo Agualusa. O realizador José Barahona pegou no manuscrito inventado de Fradique e partiu desta ficção para o seu filme O Manuscrito Perdido, rodado em S. Salvador da Bahia e em outras localidades brasileiras, seguindo a ficcional rota de Fradique em volta dos encontros e desencontros entre brancos, índios e africanos. O filme ganhou o prémio TV Brasil, devendo ser exibido ao público brevemente.

Selton Mello e Eça

Numa recente entrevista no jornal Destak (9 de Dezembro), o ator brasileiro da série “A Mulher Invisível” da TV Globo Portugal declarou «… faço questão de dizer que João da Ega, da mini-série Os Maias, foi um dos pontos altos da minha carreira. A narrativa fabulosa de Eça de Queiroz proporcionou-me momentos sublimes».
O Brasil continua a ter uma enorme admiração pelo escritor nascido na Póvoa de Varzim.

Os Maias no Cadaval

Nos próximos dias 3 e 4 de Fevereiro do ano que se segue, vai subir ao palco do Auditório Acácio Barreiros do Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, uma versão teatral de Os Maias, adaptando o romance às mais recentes técnicas cenográficas.

Brindar com Porto

Sim, bebo um Porto à memória de: Serra Formigal, o Signore Ópera que Portugal teve; Luís Francisco Rebello, a memória do Teatro em Portugal; Cesária Évora, a Senhora Sodade.
Não, não quero brindar com: Jacques Chirac, porque a França deve ser o país da Liberdade, Legalidade, Fraternidade; George W. Bush, responsável, com mais alguns, pela morte no Iraque, desde 2003, de mais de 100.000 iraquianos e 4.500 americanos.

Eça & Outras, IIIª. Série, n.º 40 – Domingo, 25 de Dezembro de 2011
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inserção: Amélia Cabral.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Eça & Outras

FREGUESES OU CIDADÃOS?

Desde tempos remotos que as pequenas comunidades tribais com a mesma consanguinidade, a mesma fala e o mesmo deus se agrupam para melhor se administrarem e defenderem do que é extranho. Para tal definiam um território que lhes assegurasse os recursos de sobrevivência, escolhiam um chefe capaz e cultuavam um elemento simbólico central, menhir, templo, igreja, pelourinho ou edifício, conforme as épocas e as crenças.
As pequenas comunidades, indefesas contra os inimigos sérios – o clima, as pragas, as fomes, os invasores, a inanição social – procuraram agregar-se em comunidades maiores, cruzando-se com os vizinhos através de pactos familiares, desde que tivessem a mesma fala e o mesmo deus. Assim se constituíram as formas organizadas do poder, desde as aldeias e comunidades regionais, até às nacionalidades e imperialidades. Nestas últimas impunha-se pela força a fala, o deus e a administração, desde o poder central ao seu ínfimo representante. O território português, mal assimilado na imperialidade romana, continuou castrejo e aldeão na maior parte do território até aos dias de hoje, mais pela geografia passiva do que pelo planeamento dos recursos, despejado para o litoral e mais motivado para a fuga marítima do que para pôr a terra a render a sério. Por isso não admira que tenhamos chegado ao século XXI com uma malha administrativa, de um modo geral, decalcada das paroquias medievais em torno da sua ecclesia, sendo os moradores os filhos da igreja, os filigreses, logo fregueses, os da mesma freguesia. Acontece que os tempos foram mudando e hoje, em muitos casos, a realidade geográfica e económica já não tem na comunidade religiosa de base o seu epicentro. Logo a mesma já não pode servir como referência. A própria Igreja Católica, tantas vezes tida como entidade imóvel, desde sempre resolveu o problema das suas paroquias que não podiam sustentar-se unindo-as à paróquia vizinha passando um só pároco a administrar duas ou três.
Ao longo dos tempos houve poucas tentativas para racionalizar a administração local. Foram quase sempre alterações políticas que deram origem às grandes reformas, aproveitando momentos de reorganização social. É na crise dinástica dos finais do século XIV que se cria o Termo do Porto (o “Grande Porto”); é na guerra civil de 1832-1834 que se proclamam as reformas de Mouzinho da Silveira, que se prolongam pelo século XIX fora, logo desvirtuadas pelos influentes locais.
Após o 25 de Abril, com o regresso de muitos emigrantes de França e de retornados das ex-colónias reformados o país foi percorrido por uma estranha mania que pretendia transformar todas as freguesias em “mairies” à imagem gaulesa, com poderes sobre o território e os seus recursos como se fossem colonatos, e tudo isto justificado pela “democracia de proximidade”, quando na realidade os militantes destas estranhas propostas eram cada vez menos e, em muitos casos, recém chegados ao território que passaram a definir segundo a sua ideia e em desfavor do município a que pertenciam como um todo. Depois veio o seu alçamento em importância reivindicativa: bouças, matas, pedreiras e pinhais, com uma aldeia central ou várias dispersas, passaram oficialmente a “vilas”; dormitórios das velhas urbes passaram elas próprias a “cidades”; há “vilas” dentro de “vilas” e “vilas” dentro de “cidades” e tudo isto coexistindo com as juntas das freguesias medievais, que nuns casos administram cinquenta cidadãos numa velha aldeia despovoada e noutros casos territórios do tamanho de pequenos países com milhares de habitantes encavalitados em bairros sociais. Ressuscitaram-se incongruentes concelhos medievais que já não têm pastores nem cabras! Veja-se a heráldica entretanto criada, que está lá tudo!
Os valores como território, recursos, economia e planeamento foram sendo postos de lado em função dos pequenos jogos de poder local. De modo que a promulgação de uma nova reforma administrativa que atualize o mapa humano económico e social do país não vai ser fácil de implementar face à sua “balcanização”. Mas não se invoque a tradição para defender o imobilismo, ou pior, as incapacidades de reorganização que o tempo parece ter sancionado. Se há lição que a História nos pode dar é a de que as mudanças são inevitáveis e é melhor que sejam sensatas e consensuais para proveito dos que nelas vão ter de viver. E sobretudo não esqueçamos que «… o que a cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância… na cidade, nesta criação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o Céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou imprudente como um histrião…» (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras). Cidadãos são pois os que praticam o valor da cidadania, seja na aldeia, na vila ou na cidade, sem nunca perderem de vista o que caracteriza a sua comunidade da fala e da cultura alargada ao conceito grande de nação como conjunto de regiões naturais administradas por municípios sustentáveis, e não apenas os pequenos interesses instalados que não conseguem ver mais além do que as pequenas colinas que delimitam a sua freguesia.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário mor
GRANDE CAPÍTULO

No passado dia 19 de Novembro a Confraria Queirosiana realizou o seu 9.º Grande Capítulo anual no Solar Condes de Resende, em Vila Nova de Gaia.
A mesa que presídio aos trabalhos foi composta pelos confrades César de Oliveira, presidente da mesa da assembleia-geral; Mário Dorminsky vereador da Cultura em representação do Dr. Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Gaia; José Manuel Tedim, presidente da direção; Gonçalves Guimarães, mesário-mor e Olga Cavaleiro em representação da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, os quais saudaram os presentes. Além de numeroso grupo de confrades queirosianos estiveram presentes representantes da Casa Adriano Ramos Pinto, Associação de Amizade Portugal-Egito, Associação dos Amigos de Pereiros, Centro Cultural Eça de Queirós, Confrarias da Doçaria Conventual de Tentúgal, do Bodo (Pombal), dos Sabores de Sintra, da Chanfana (Vila Nova de Poiares) e do Leitão da Bairrada, e Junta de Freguesia e Rancho Folclórico de Canelas (Gaia) e vários órgãos da comunicação social, entre os quais o jornal As Artes entre as Letras.
A sessão foi abrilhantada pelo trio de saxofones da Fundação Conservatório Regional de Gaia.
Foram insigniados como novos confrades Mónica Ferreira Rodrigues, professora e pedagoga, Marcus Vinicius Cocentino Fernandes, médico radiologista, Fernando Rui Morais Soares, economista e gestor, Fernando Afonso Andrade Lemos, professor e diretor do Centro Cultural Eça de Queirós, José Maria da Fonseca Carvalho juiz desembargador, Francisco Ribeiro da Silva, historiador e ex-vice-reitor da Universidade do Porto e Guilherme de Oliveira Martins, jurista, diretor do Centro Nacional de Cultura e presidente do Tribunal de Contas, tendo estes dois últimos usado da palavra em nome dos novos insigniados e salientado a perenidade da obra queirosiana nos dias que correm.
Em seguida foi assinado um protocolo de doação à Confraria por parte do Dr. Marcus Fernandes de um Núcleo Documental sobre Teófilo Braga e o Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo apresentou o n.º 8 da presente série da Revista de Portugal de que é diretor, dedicado aos 150 anos de Trindade Coelho. Na ocasião ofereceu à Biblioteca do Solar o catálogo da sua autoria da Colecção Egípcia da Universidade do Porto.
Após o discurso da Dr.ª Olga Cavaleiro representante da Federação, encerrou a sessão o Prof. Doutor José Manuel Tedim, que fez um breve balanço das atividades dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana no ano que em breve findará.
Seguidamente os confrades dirigiram-se à estátua de Eça de Queirós no Jardim das Camélias onde colocaram uma coroa de louros.
Após breves momentos de convívio nas salas onde estão expostos as obras do Salon d’Automne do presente ano, decorreu no pavilhão do Solar o jantar queirosiano animado por um grupo de bailarinos que puseram os Confrade e convidados a dançar enquanto nas mesas se iam dando sugestões para as próximas realizações culturais da Confraria.

REVISTA DE PORTUGAL

Conforme acima se escreveu, acaba de ser lançado o n.º 8 da nova série da Revista de Portugal, desta vez com as Atas das 1.as Jornadas Culturais de Mogadouro realizadas pela Confraria Queirosiana nos passados dias 18 e 19 de Junho, dedicadas aos 150 anos do nascimento de Trindade Coelho, com artigos sobre este jurista e escritor da autoria de Anabela Mimoso, José Silva Évora, António Manuel Silva e José António Afonso; sobre temas relacionados com a geração de 70 por João Bartolomeu Rodrigues, Maria de Fátima Teixeira e Dagoberto Carvalho J.or; sobre Santos Júnior por Carlos d’Abreu; o protocolo celebrado entre a Confraria Queirosiana e o escritor José Rentes de Carvalho; sobre a coleção egípcia da Universidade do Porto por Luís Manuel de Araújo; sobre cerâmica oitocentista por J. A. Gonçalves Guimarães; uma recensão sobre a obra “Valdozende” de Rosa Maria Lopes; a bibliografia de muitos confrades produzida em 2010 e, a encerrar, uma resenha das atividades da associação durante o ano passado. Este número teve o patrocínio da Vox Organização Industrial Gráfica, S. A., sediada em Canelas, Vila Nova de Gaia.

CONGRESSOS E COLÓQUIOS

CENTRO CULTURAL EÇA DE QUEIRÓS

Entre 16 e 19 de Novembro passado e, organizado pelo Centro Cultural Eça de Queirós, realizou-se o XVII Colóquio dos Olivais na Escola Secundária Eça de Queirós em Lisboa, subordinado ao tema “Vida e morte das cidades/1300 anos da Invasão da Península pelos árabes” para o qual o nosso confrade Fernando Andrade Lemos, diretor daquele Centro preparou uma comunicação sobre a “ Crónica moçárabe de 754”. Entre muitas outras comunicações, César Veloso apresentou “Alguns comentários sobre a lingerie das burguesinhas queirosianas”. Além de concertos de música e representações teatrais foi ainda lançado o n.º 3 dos Cadernos Culturais de Telheiras.

GASTRONOMIAS & ENOFILIAS

FEIRA DE S. MARTINHO

Nos dias 11, 12 e 13 decorreu no Solar Condes de Resende a Feira de S. Martinho de produtos do Douro, organizada pela Confraria Queirosiana e a Associação dos Amigos de Pereiros, S. João da Pesqueira, com a colaboração da Gaianima, EEM e da Junta de Freguesia de Canelas.
No primeiro dia o serão foi abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Canelas e no segundo atuou o Coral da Justiça do Porto, com o seu coro, orquestra e grupo de danças e cantares tradicionais que encantaram os presentes.

VELEIRO CARREGA VINHO DO PORTO

Entrou recentemente no Douro a escuna holandesa Tres Hombres inteiramente movida à vela e que procura incentivar a utilização deste tipo de barcos não poluentes nos transportes marítimos de pessoas e mercadorias. Como noutros tempos atracou ao Cais da Estiva, do lado da cidade do Porto, tendo aí recebido carga de vinhos destinada ao Funchal da Casa Ramos Pinto sediada do lado da cidade de Gaia.
Tratando-se de uma cena atual ela evoca a antiga azáfama de ambas as margens do Douro quando recebiam as mercadorias de longes terras e embarcavam os produtos do Douro, a partir dos seus armazéns, em navios à vela das frotas mercantis do Atlântico e do Mediterrâneo.


Epitáfio de Jano











Aqui repousa em terra nunca arada
Jano cavalo lusitano
Filho de Vitória a de sangue árabe
E de Trovador em Alter nascido.
No estábulo de Leirez viu a madrugada
Em Janeiro de mil novecentos e noventa
No seu sangue talvez corresse
O dos cavalos que Xeique Rua
Tratou lá longe em Marrocos
Aliviando o seu cativeiro.
Com teu belo porte galopaste
Canelas fora até Vilar d’Andorinho
De Serzedo à Serra de Negrelos
Como se foras estátua andante.
De ti se recordarão teus donos
E todos aqueles que aprenderam
A cavalgar teu dorso inquieto.
Já não existe o campo onde corrias
Onde esperaste em vão pelas éguas
Que te perpetuassem a descendência
Os cavalos estão a desaparecer
Sem que a humanidade lhes agradeça
O terem-nos levado a todo o lado
Onde os navios não navegavam.
Morreste quando caíam as castanhas
Abanadas pelo vento sul
Com a chegada das primeiras chuvas.
A palha do teu estábulo já fenece
Enquanto a tua memória persistirá
Naqueles com quem foste generoso
Repousas entre o castanheiro e a figueira
Que te davam os frutos que comias
Mesmo sabendo certo o penso diário
Se em vez das rações da industria
Te tivéssemos dado só agricultura
Teus dias por certo se teriam dilatado.
Morreste ferrado para a última cavalgada
Que te leva à fonte da memória
Onde correrá sempre a água da saudade.

Fradique Rua Mendes
(bisneto de Fradique Mendes)
29 de Outubro de 2011

Brindar com Porto

Apetece-me beber um Porto com:

Assunção Esteves, a discrição esclarecida; George Wright por se ter tornado José Luís Jorge dos Santos; Mahmoud Abbas, pela entrada da Palestina na UNESCO; Norman Finkelstein, o Uriel Costa estadunidense que tem vindo a denunciar a venda da desgraça como mercadoria política.

Não, não quero brindar com:

Duarte Lima, porque quem vem do “nada” normalmente trás consigo pouca coisa que se aproveite; Presidente Obama, por permitir o corte da quota dos EUA à UNESCO.

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